E
ditorialSabemos que não é de hoje que os estudos sobre religião se direcionaram no sentido de valorizar as conjunções que conectam “religião” com aspectos e domínios variados da vida social. Como o título de Religião e Sociedade indica, desde os seus momentos fundadores tratou-se de valorizar essas conjunções. No entanto, algumas inclinações neste eixo foram se produzindo ao longo dos anos. Mais recentemente, tem-se percebido que talvez não se trate única e permanentemente de valorizar a conjunção, mas de colocar em relevo uma perspectiva mais claramente relacional na configuração dos focos de atenção. Com efeito, às formas hifenadas e conjugadas dos objetos que têm sido alvo dos estudos de religião, em que esta se associa à família, à globalização, a gênero entre muitas outras instituições, discursos e práticas da vida social, tem-se valorizado agora o que seria o caráter relativo e interdependente desses seus objetos. Verificamos, pois, uma ampliação do escopo analítico do campo de estudos da religião, na medida em que se busca relativizar seus limites e não essencializar os sentidos do religioso. Este se modifica quando atravessa fronteiras nacionais, quando é associado a relações étnicas, a relações de gênero e assim por diante. O abandono (relativo e por vezes hesitante) dos sentidos fixados para a religião se faz paralelo ao enriquecimento das suas abordagens e à invenção de novos prismas analíticos. Este número oferece novos ângulos de leitura através de artigos que ajudam a renovar o olhar sobre o religioso na sociedade brasileira e latino-americana.
10 Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, 33(2): 1-212, 2013
Nos trabalhos de Carly Machado e Glória Miguel, que focalizam religião e mídia, principalmente a mídia evangélica, surge a questão da produção de mediações cultur-ais e políticas. As autoras chamam atenção para a presença de redes que atravessam domínios variados: aqueles transnacionais, mas também circuitos que atravessam bar-reiras culturais, seculares, religiosas e políticas. Ambos os textos se debruçam sobre um aspecto ainda pouco valorizado na constituição do religioso: a mídia na sua dimensão sonora, capaz de criar fronteiras e elaborar mediações específicas. Como enfatiza Gloria Miguel, as redes de emissoras radiofônicas, responsáveis pela elaboração de territórios sonoros e transnacionais, reconfiguram os campos evangélicos e católicos bem como efetivam a produção cultural de fronteiras no âmbito latino-americano, a partir de Miami. Carly Machado chama atenção para a ocupação sonora como estratégia religiosa e estatal para o controle de certos territórios no Rio de Janeiro.
11 Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, 33(1): 1-212, 2013
O texto de Heraldo Maués busca relacionar dois movimentos valorizados entre as práticas católicas, a peregrinação e a romaria. Destaca como imagens, santos e pessoas estão diferencialmente envolvidos nos percursos que efetuam nos caminhos da romaria e da peregrinação. As peregrinações em jogo, tratadas a partir de observações em Bom Jesus do Pirapora e em Belém do Pará, não são as dos romeiros, mas as das imagens de Jesus e de Maria, respectivamente, colocadas em circulação pelos peregrinos humanos, que as carregam, corporificando o sagrado e sacralizando os corpos. Circuitos em que imagens e pessoas se deslocam alterando o sentido atribuído ao corpo, ao sacrifício e à geografia da mobilidade católica.
Já o texto de Kátia Medeiros e Cecília Mariz toma por foco a dimensão institu-cional de um movimento carismático que sempre guardou uma certa reserva quanto à hierarquia eclesial. A interpretação de uma “crise” do movimento (o afastamento de seu fundador da liderança e a nomeação de bispos para orientar sua gestão) em suas repercussões locais, em uma casa masculina da Toca de Assis no Rio de Janeiro, é o objetivo do artigo. A análise dos discursos dos membros sobre “a crise” assinalam o efeito de continuidade produzido por determinadas categorias, como “maturidade”, “humildade” “Providência Divina” e “purificação”, que contribuem para estabelecer o sentido da permanência no grupo e para atribuir coerência às mudanças que, por sua vez, já atingiram profundamente a própria hierarquia católica.
Roberta Campos e Joaquim Nascimento Jr. nos levam a Juazeiro do Norte para encontrar Nossa Senhora como Deus-Mãe e relativizar o senso comum de uma “ordem masculina” sustentada pelo marianismo. Ao seguirem o viés aberto pela antropóloga inglesa Maya Mablin, de enfatizar as relações entre as concepções de amor materno e de ágape cristão, os autores exploram a possibilidade de que o marianismo opere justamente em sentido inverso, como uma ruptura, ou como uma limitação à domi-nação masculina. Através do caso de uma senhora, os autores exploram a dinâmica contestatária que ela imprime à sua prática também por ela identificada como feminista.