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Degredo e colonização portuguesa:

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1. O hábito precoce do degredo ultramarino

‘ Professor Doutor, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Degredo e colonização portuguesa:

Um círculo vicioso do colonialismo português em África

A expansão marítima portuguesa, desde a arremetida inicial em Ceuta até à consolidação, na segunda metadedo séc.XIX, dochamado

“III Império”- o império português africano, tomadocomoum “novo Brasil em África” desde que o Brasil se perdeu de vez, em 1825 - esteve sempre,e desde ocomeço, tão estreitamente ligada ao fenómeno penal do degredo que podemos mesmo dizer, sem qualquer exagero, que essa sanção de afastamento para longínquas terras de delinquentes expulsos da metrópole e o labor mesmo de edificar um “novo reino” ultramarino foram consubstanciais, porquanto andaram tão de par em par e confundidos no mesmo afã que o descobridor, o nauta, o admi­

nistrador, o comerciantee o explorador africanos formaram umaespé­

cie de par indissolúvel, até se poderia dizer mórbido, com o delin­ quente degredado para aquelas regiões por crimes graves, irmanando na tarefa de descobrir, conquistar e vassalizar terras africanas a que, sobretudo desde o período pombalino, seprocurou dar uma configura­ ção geo-estratégica realmente imperial grandiosa com o sonho, que

"Ich sehe nur, wie sich die Menschen plagen."

Goethe. "Prolog im Himinel", Faust, Verso 280.

João Medina *

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culminaria, maisde um século volvido, no catastrófico “mapa cor de rosa” ou seja,oprojecto deveras faraónicode unirAngolaà “contra- costa”, i.e., Moçambique.

O degredo africano - eo seupar penal, adeportaçãopolítica(de que aqui não trataremos)-caminham, portanto, paralelos ao longodosdiver­ sos séculosque durou a aventuramarítima da qual derivariam, pela força das coisas, onosso progressivo apego a um desiderato de refazero impé­

rio brasílico na África que, até ali, nos servira sobretudo de meroapoio na viagem ao oriente, derrota iniciada coma saga de Vasco da Gamae pre­

cedida portodo um lento, pacientee pertinaz empenho em lograr a che­ gada às paragens asiáticas onde, de facto, tentaríamos a faina relativa­ mentepouco duradoira de edificar o nosso primeiro império, dito “da pimenta”. As primeiras naus dessa longa e secular aventura levavam degredados consigo, de modoque odelinquentecastigadocom o afasta­ mento dametrópole porter aliprevaricado gravemente seguia na mesma empresa que levavaosdemais compatriotas em porfiada rota atlântica ou índica. Não espanta que, ao debruçar-se sobreeste tema, um licenciado em direito,durante o “Estado novo” - Vasco de AlmeidaHomem de Melo -, não tivesse qualquer pejo em afirmar, na sua tese de licenciatura, que a história do degredo se viu infimamente ligada à dos nossos descobrimen­

tos econquistas, havendo nesses portugueses que conquistavam regiões desconhecidas sempre “lugar reservado para os degredados”. Estes tinham, assim, uma evidente missãocolonialistaou ultramarinaquenunca ninguém enjeitou ou quis esconder, quer falando de direito penal ou de história daexpansão portuguesa emplenoperíodode enaltecimento naci­

onalista da acção dos Portugueses como colonizadores africanos”, acres­ centando,porventura com um certoorgulhoimplícito: “Pode,pois,dizer- se afoitamente que Portugal foi o paísque primeiro praticou o degredo.” 2

1 Veja-seo estudo de Charles Nowell. TheRose ColoredMap, PortugaFs Attempet to build an African Empire, Lisboa, 1982. Recorde-se ainda,para o períodoque ante­

cede aperda do Brasil, o indispensável estudode Charles Boxer sobre a formaçãodo nosso império marítimo, The Portugeuse Seaborn Empire, 1415-1825, Londres, 1977;trad. portug.: O Império colonial português. 1415-1825, Lisboa, 1981;bemcomo o estudo de Gervase Clarence-Smith, The Third Porluguese Empire, 1825-1975, Manchester, 1985.

2VascoMartinho de Almeida Homem deMelo. O Degredo.Dissertação deDireito Penal paraacto de LicenciaturaemCiências jurídicas pelo Aluno do Curso comple­ mentar da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, Lisboa, separata do Boletim doInstitutode Criminologia, Lisboa, 1940, pp.4-5.

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DEGREDO E COLONIZAÇÃO PORTUGUESA - UM CÍRCULO VICIOSO

3 Sobre o degredo em Castro Marim, veja-se a recente obra de Timothy Coates, Degredados e Órfãs: colonização dirigida pela Coroa no Império pormguès. 1550- -1755, Lisboa, Comissão para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses,

1998.

Compreende-se, assim, que a nossa legislação penal tenha sidonão só muito precoce em relação às penas do instituto do degredo como bastante abundante na sua constante adaptação dessas leis aos novos condicionalismos dessaprogressivaviagem de descoberta e conquista.

Bastará lembrar que ela remontaa D.Duarte, tendo sidobastante acres­

centada com o seu neto D. Afonso V, com razão apodado de “o afri­

cano”, pois com ele começava realmente a expansão e conquistasiste­

máticas ultramarinas. Ao estender para Arzila e Tânger as conquistas préviasno Norte de África, este monarca fazia publicar novasleis sobre a utilizaçãodos degredados nas absorventes fainas de domínio e pro­ gressivo caminhar marítimo ao longo da costa africana, datando de 1474 umdiploma queenvia os degredadosparaessas regiões em causa.

Quanto a D. João II, mandou-os para São Tomé e São Martinho, des­ cobertas em 1484, do mesmo modo que D. Manuel I os utilizaria lar­

gamente, como em 1502, determinando que os degredados que, pela sua idade, não pudessem ser utilizados nas expedições africanas ficas­ sem em Arronches, Mértola e Castro Marim, situação que durariaaté

1698, o que se explicava pelas arremetidas mouras nessas regiões.3 Em breve o degredo se estendia também para a costa oriental de África, embora ele ficasse sobretudo vinculado a Angola, à costa oci­ dental do continente negro. A documentação sobre degredo no séc.

XVII é também extensa, já que se tornara hábito imprescindível da nossa colonização africana enviar degredados para essas regiões sob nosso domínio. Muitas vezes eram os degredados empregados também como forças militares para as guerras ali travadas, especialmente por ocasião da ocupação da índia. As “naus da índia” eram, deste modo, verdadeiros enxames de portugueses patibulares que tinham sofrido penade degredo e, assim,eram apinhadosparaexportaçãoultramarina em rusgas que se faziam em Lisboa, como aquelas que se realizaram ao abrigo dos decretos de 1643, de 1701 e de 1750, o que parece confir­

marde modo rotundo que a prática de degredar criminosospara África se tornara numa espécie de “segunda natureza” da nossa expansão marítimae colonial africana. Só os estrangeiros acontas com ajustiça lusa eram, em princípio, exceptuados da pena de degredo, disposição

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2. O círculo vicioso degredo/colonização

Com a perda do Brasil e o empenhamento luso em substituir esta opulenta colónia sul-americana por um real edificação de um III Império emÁfrica, o degredo continuaria a ser um instrumento penal e colonial de primeira importância para se edificar essa derradeira qui­

mera ultramarina portuguesa. Mas também não tardariam a ouvir-se contra tão perversa prática os colonizadores mais lúcidos protestarem contraessa maneira demasiado cómoda e, afinal, perniciosa, de resol­ ver o problema decolocareuropeus naquelasparagens expedindo gran­ des criminosos portugueses para colonizarem terras que os homens livres do reino não tinham qualquer empenho em ocupar, valorizar e resgatar. Um desses exemplos mais famosos de governo de Angola empenhado em contrariar o veso de colonizar a colónia com degreda­ dos da mais baixa extracção criminal foi o caso de D. Francisco Inocêncio deSousaCoutinho5, que D. José enviara para aquelacolónia que, todavia, seria revogada em 1652, o que explica que um francês tivesse deixado, como condenado ao degredo, um dos documentos mais interessantes acerca da nossaInquisição na índia: referimo-nos à Relation de rinquisitonde Goa do médico francês Gabriel Dellon4, que em 1687 publicou um relato dos seus cinco anos de forçado das galés no império português, oque lhe permitiu conhecerpor dentro os maquinismos doSantoOfíciona Ásia portuguesa.

4 Gabriel Dellon (16497-1709?), cirurgião a bordo de um barco da Compagnie Royale des Indes, foi preso em 1673, em Damão, onde se lixara, e condenado a servir nas galés, passando pelo Brasil e por Lisboa, conseguindo, todavia, ver a sua sentença anulada graças a uma intervenção da coroa francesa. Em 1687 publicou na Holanda a sua Relation de /’ Inquisiton de Goa, bem como, 2 anos antes, uma Relation d'un Voyage fait aux Indes Orientales (Paris, 1685). A sua obra influenciou Voltaire no tocante à Inquisição portuguesa, ao escrever o seu Candide (1759). Esta obra de Dellon foi traduzida para português em 1866.

5 D. Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho (nascido em data incerta e falecido quando nosso embaixador em Madrid, após 1772), nomeado governador de Angola por D. José I em 1764, era oficial de infantaria e, depois, de cavalaria, foi o Pombal de Angola, já que pretendeu fazer essa colónia das reformas que o marquês implementava em Portugal, nomeadamente com tentativas de atracção de colonos que não viessem das prisões e com o lançamento de fábricas de cabedal e de sabão, mais uma fundição de ferro, ao mesmo tempo que criticava a “monocultura” do esclavagismo, de fornecimento

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DEGREDO E COLONIZAÇÃO PORTUGUESA - UM CÍRCULO VICIOSO

de mão-de-obra escrava para o Brasil. Como o resume Charles Boxer, Sousa Coutinho

“tentou fazer de Angola e Benguela alguma coisa mais do que meros depósitos der escravos para ao Brasil”(O Império colonial português, p. 1939. Mal saiu do governo de Angola, esta voltou a cair na sua modorra secular. D. Francisco foi nomeado então embaixador português em Madrid, onde havia de falecer. Referindo-o no primeiro dos seus dois volumes intitulados Estudos sobre as Províncias ultramarinas (Lisboa, 1883), João de Andrade Corvo, ainda que se enganando nos eu nome próprio (Francisco Jerónimo), reconhece nele, como Lopes de Lima, um “excelente governador (que) foi o primeiro que empreendeu civilizar aquela semi-bárbara possessão”, inclusive tentando abolir a escravatura (p. 149). D. Francisco tentou ainda a primeira ligação territorial entre Angola e Moçambique. Sobre este colonialista luso, veja-se Gastão de Sousa Dias, D.

Francisco Inocência de Sousa Coutinho, Lisboa. Cadernos Coloniais, 1936.

6 Veja-se João Chagas, Diário de um Condenado político. 1892-1893 (2"ed„ Porto, 1913) e Trabalhos forçados ( Lisboa. 1900; 2a ed.: 1927). É notável a descrição que Chagas faz da fortaleza de S. Miguel, em Luanda, no vol. III do derradeiro título (ed.

de 1927, pp. 153-162).

ocidental de África, o qual, empenhado deveras em ali fazer uma réplicadopombalismo industrialeactivo, depressasedeu conta, nasua administração, de 1764e 1772, de que o degredo era uma forma vici­ osa de colonizar aquela parcelado ultramar luso, protestando, desde

1766, contrao sistema de encher aquela porçãocolonial comospiores criminosos expulsos da metrópole e dela remetidos para a infamante

“costa deÁfrica”, como era então conhecidaa relegaçãoparaterrastão malsãs de doenças e maus climas, o que fazia de Angola uma terra de prostitutas ede criminosos dapior espécie. Depar com esta tentativa de reforma, SousaCoutinho procurou que Angoladeixasse de serfornece­

dora de mão-de-obra escrava para o Brasil, outra vertente de enorme importância para a economia daquela colónia. Não conseguiu, porém, o intrépido reformador que essas medidas vingassem, tendo a colónia voltado aos seus velhos hábitos perniciosos, nomeadamentequanto ao papel dos degredados como forma habitual de colonização do território.

De facto, só no final do século seguintese conseguiria que houvesse um ensaiode fixação decolonos não degredados cm Angola, embora as tentativas então feitasse saldassem por notórios fiascos, tanto do ponto de vista social como económico, ficando Angola,como sempre, o des­ tino de grandesdelinquentes ou de revoltadospolíticos castigados com a “costa de África”, como João Chagas, que dessa experiência deixou um dosdepoimentos mais interessantes do seu tempo, tanto mais que os degredados, pela natureza da sua extraeção social, em geral não serem homens de letras...6 O círculo vicioso do degredo como essen-

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ciai alavanca colonizadora haveria de manter-se desde os começos da expansão marítima até aosmeados doséc.XX, ou seja, de Diogo Cão ao decreto ditatorial abolindo o degredo em 1932 (de quemaisadiante nos ocuparemos).Assim comofomos aprimeira nação a praticar a cap­

tura de escravos em África - como ousadamente o censurou no séc.XVI o dominicanoe antigo capitão de galés, Fernandode Oliveira, na sua corajosa Arte cia Guerra do Mar (Coimbra, 1555)7, também fomos dos primeiros a colonizar a África com criminosos e uma das últimas a faze-lo, comumanotável coerência no erro de perspectivae no vício de colonizarmosterras africanas com delinquentes condenados pelos piores crimes. Perdido o Brasil e apegados de novo à ideia de o reconstruirmos na costa africana, relutantes em praticarmos uma polí­ tica efectiva de colonização livre - em 1913, Afonso Costa insistia na vantagem de emigrarmos para o Brasil, já que, dizia, o colono natural de África era...o negro!8-,depressa nosdaríamosconta,perto do final da centúria, de que esse sonho não tivera ainda efectivação real. Em 1887, assevera Bendcr, só existiriam duas mulheres brancas em LourençoMarques.9

O facto não era, aliás, excepcional na emigração europeia de então, já que só em 1890 Cecil Rhodes chegava à Rodésia com o primeiro punhado de colonizadoresbrancose que, nos planaltos do Quénia, em

1895, apopulação inglesa colonizadora ali nãoiaalémdastrês dezenas de almas. Angola,em contrapartida, parecia mais adiantada, tomando em conta mesmo uma época anterior, pois em meados do séc.XIX haviaquase dois mil brancos nesta colóniaocidental portuguesa, ainda que nem todos sepudessem chamar propriamente colonosporque, uma vez mais, a sua maioria se recrutavaentre osdegredados... Este facto era, aliás,importantenaimagem quedeÁfrica-e de Angola, em espe­ cial-sefaziaentre nós: a malfadada “costa de África” era terra mal­ dita, para aventureiros e degredados, para resgate de criminosos e

7 Sobre este primeira crítica à prática da escravatura, veja-se o estudo de Hugh Thomas, The Slave Trade. The Story of the Atlantic Slave Trade. 1440-1870. Nova Iorque, 1997. E na obra por nós dirigida A Rota dos Escravos, Lisboa, 1996, a nossa parte referente à denúncia da escravatura por Femando Oliveira (“África cativa”, pp. 17- 79), pp.41 ss.

8 Veja-se Afonso Costa. Estudos de Economia nacional. I: O problema da emigra­

ção. Lisboa, Imprensa Nacional, 1911; p. 172.

9 Gcrald Bendcr, Angola under the Portuguese, Los Angeles, 1979.

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pouco mais, não passando, assim, de uma colónia penal num habitat hostil e repelente, com péssimo clima e sezões fatais...10

A presença tão maciça dedegredados levantava, além do mais, gra­

ves questões políticas e de ordem pública: em 1763, por exemplo, houve uma conspiração decondenados para mataremo governador e os principais oficiais da capital angolana. A perda do Brasil inspirou alguns políticos liberais e mudarem de orientação política. Sá da Bandeira, por exemplo, além de empenhado em acabar coma escrava­ tura - com os decretos de 1836 e 1837 -, esforçou-se por colonizar Angola (e Moçambique) com colonos brancos livres, fixando-os em Catumbela, entre Lobitoe Benguela, mas a tentativa não obteve qual­ quer sucesso. Em 1846, só havia na colónia 1830 brancos.11 Com a abolição da escravaturalevada a cabo pelo antigo paladino das campa­

nhas militares da Liberdade, muitos dos degredados que se tinham fixado no interior angolano vieram para Luanda, tornando a vida aqui ainda mais difícil. A maioria dos viajantes estrangeiros ou portugueses que visitavam a sua capital achavam-na decadente e perigosa, facto complicado ainda pela prática de as funções militares serem confiadas também a criminosos para ali mandados como degredados. Em Benguela, em 1846, só havia 38 europeus e uma branca. Brito Capelo queixar-se-ia docomportamento das tropas formadas com degredados, em 1887. A tentativa de instalar em Angola um colono sem passado criminal revelar-se-iavotada ao fracasso, facto que se torna mais grave se compararmos os degredados franceses e ingleses utilizados pelos nossos concorrentes tanto no scramble for África oitocentista como na

10 Recorde-se, a propósito, que o degredo francês foi, em certos aspectos, mais inclemente e cruel que o nosso, sendo os degredados marcados com um ferro em brasa nas costas e arrastando, desde os tempos de Napoleão, uma grilheta com uma bola de ferro pesando 6 kgs. Nos meados do séc. XVIII suprimiu-se o sistema das gale's e foram criados depósitos para degredados em trabalhos forçados, em vários portos de França (Rochefort, Toulon, Lorient, etc.), desde 1830, a deportação passou a ser feita para a Argélia. Foi o futuro Napoleão III que criou a famosa colónia penitenciária da Guiana francesa (América do Sul), onde, em finais do séc. XIX, estaria preso o capitão Dreyfus. O degredo da Guiana só foi extinto em 1938, pelo governo de Edouard Daladier, por iniciativa de Gaston Monnerville, deputado pela Guiana e Secretário de Estado para as Colónias. Em 1968, o célebre livro Papillon , de Charrière. deu a conhe­

cer ao mundo o atroz degredo da Guiana, cujos derradeiros condenados tinham voltado de vez em 1953...

11 José Lopes Lima, Ensaio sobre a Estatística das Possessões portuguesas no Ultramar, Lisboa. 1846, vol. III.

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Debaixo destes inconfundíveis sarcasmosqueirosianos, escondia-se, é evidente, uma argutacrítica à maneira espúriadecolonizaras nossas colónias com gente de alta gravidade penal. A posição anti-colonial de Eça, semelhante à de Antero nas suas críticas ao colonialismo como umadas razões donossa decadência,derivava de um especialconheci­

mento que o romancista tinhado caso deAngola, sobretudoatravés do seu irmão Alberto, que ali se fixara comofuncionário, lá tendo falecido em 1887.

Poresta altura, tentara o regimemonárquico-constitucional alterar a nossa forma de colonização africana, pelo menos desde 1876, procu­

randoque osdegredados fossem concentrados em depósitos, com vista a pôrfim a uma vida de liberdadedessescriminosos que lhes permitia fazerem reinaro terror em Luanda, compelindo-os a partir de então a trabalhos públicos como nos fortes de S. Filipe de Benguela e S. Miguel de Luanda; assim como se tentaria criar um centro penal agrícola na colónia, baptizado de “Esperança”, embora estaexperiên­

cia, patrocinadapelogovernador de Angola,FerreiradoAmaral,redun­ dasse em fiasco completo, tendo esta colónia que serencerrada em 1886. Alguns anos volvidos, em 1894, procurou-se utilizar osdegreda­ dos como colonos agrícolas, dando-lhes ainda funções militares na ocupação do interior deAngola, mas os relatórios oficiais expedidos

12 Sobre este ponto veja-seonossoestudo A Geraçãode70, uma Geração revolu­ cionária e europeísia.Cascais, Câmara Municipalde Cascais, 1999, pp.33 ss.

13 Eça de Queiroz. As Farpas, Julho de 1871, Lisboa, Lisboa,TipografiaUniversal de T. QuintinoAntunes, p.59.

Austrália) na mesmacentúria, uma vez que os britânicos colonizavam as suas colónias com delinquentes condenados sobretudo por roubo e não por crimes graves ou homicídio,como o era o caso dos portugue­

ses, a ponto do jovem Eça de Queiroz d’ Aí Farpas, feroz crítico do nosso inútil colonialismo12, escrevernas Farpas, em 1871:

"Igual zelopelas possessões de África,verdadeiras colónias e legítimas colóniasessas(poroposição aos Açores)! Para aí, o país é inesgotável...de celerados! Mas são escolhidoscom inteligência..Um sujeito que tenha a bai­ xeza de roubar5S000 reisnunca poderá aspirar a fazer parte da sociedade de Luanda.Para seser remetido como criminoso da Metrópole é necessário, pelo menos, tersondado, com a navalha de ponta,as entranhas de um amigo que­

rido!

Nobre solicitude!"13

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DEGREDO E COLONIZAÇÃO PORTUGUESA - UM CÍRCULO VICIOSO

14 Veja-se Francisco Xavier Silva Teles, Â Importação penal e a Colonização, Lisboa, S.G.L., 1903.

15 Veja-se, no nosso estudo sobre as Farpas de Eça, o que contamos sobre este crime e a polémica que Vieira de Castro teve com os autores dos endiabrados fascícu­

los mensais, sob o pseudónimo de "Samuel’', Reler Eça de Queiroz. Das Farpas aos Maias, Lisboa, Livros Horizonte, 2000, pp..23-26.

desde o começo dessatentativa até 1900confirmaram que esses tenta­ mes se frustraramtambém. Os degredados, em suma, falhavam como militares, como colonos e como agricultores,já que não era pensável que homicidaseoutros grandes criminosos, afastados davida metropo­ litana se convertessem, porsimples influxo climática,em bonscolonos.

Contudo, o seu afluxo não parava, já que, entre 1883 e 1896, foram degredados paraAngola 4.114 criminosos, o que, aliás, constituía dois terços da população europeia ali.14 Umamédia de 257 degredados por ano era o ritmo desse afluxo de criminosos metamorfoseados à força em colonizadores de uma qualidade altamente duvidosa, sendoque metade deles tinha tido essa viagem paga pelas autoridades pelas razões sumariadas pela verve de Eça, ou seja, por serem homicidas! O degredo africano - e a África foi o destino único dos degredados até 1932 - era tido como equivalente a uma forma de morte lenta, em clima hostil enum habitat que setomavadesde logo como significando uma forma parlicularmente dura de cárcere, ainda que em liberdade, bastando, para expiação dos celerados, escorraçados da metrópole, o estarem em terras tais... A vida desses degredados em Angola estava, aliás, cheia de rixas e turbulências, como se pode comprovar lendo a imprensa angolana no derradeiro quartel do séc. XIX,chegando a haver nela anúncios deameaças feitas poralguns degredados a outros, amea­

ças estampadas pelas gazetas de Luanda! A esperança de vida na coló­

nia era, aliás, muito baixa: menos de 14 anos. Um dos mais célebres degredados em Angola, o escritor e político José Cardoso Vieira de Castro, condenadoa dez anos de degredo na “costa de África” por ter estrangulado a mulher, morreria poucos meses depois de chegado a Angola, em 5-XII-1872.15

Nos começos do séc. XX, entre 1902 e 1914, o número de degreda­ dos que entravam em Angola continuava a superar o dos imigrantes livres, o que eliminava qualquer hipótese de considerar a nossa coloni­

zação angolana como uma acção civilizadora. Também a República falharia na tentativa de criar formasdiferentes de degredo, dando-lhes

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16 J. Ferreira Pinto, Notas e Comentários de um Colono, Lisboa, 1928.

3. Reformado degredo no contexto de um novo paradigmacolonizador

Continuando a darconcretizaçãoaos propósitos da Ditadura militar instaurada desde 1926, e, contudo, ainda acéfala por falta de um Ditador adequado, o “Estado Novo” salazarista, imbuído de uma mís­ tica e uma vontade colonizadoras que seriam assinaladas, desde 1930, pelo ActoColonial, pórtico de todo o Império a (re)erguercomobsti­

nada e, porfim, criminosatenacidade- 13 anos de guerrasinúteis sal­ daram esse titanismo vão de levantar o “novo reino” cantado pelo Bardoda Grei em 1572, ao arrepio de inelutáveis movimentos de auto­

nomia nacional porpartedos povos que dizíamoster o direito de “civi­

lizar”... v-, diploma posteriormente incluído na constituição ditatorial de 1933, logo em seguida ao qual se adicionou a Carta do Império Colonial Português (1933), decidiu-se a acabar com o degredo, tendo em vista precisamente valorizar as possessões africanas comimigrantes metropolitanos realmente empenhados em ali se estabelecerem sem queesse desiderato tivesseuma absurda razãocriminal quefizeradeles criminosos banidos e não colonos livres, interessados em prolongar Portugal no Além-Mar ou, de modo mais modesto e comezinho, em tentar lá longe, nostrópicos, lograr um passadiomenos acanhadoque o da pequena casa lusitana donde emigravam...

Assim, o decreto n° 20.877, desde 13-11-1932, veio por fim ao envio de degredados para Angola, embora o sistema do degredo só tivesse sidorealmente abolidoalguns anos mais tardes por tersubsistido entre parcelas coloniaisafricanas sob nossajurisdição, uma vez queos degre­ dadosvindos de outras partesdo Império, como de Moçambique, Cabo Verde ou SãoTomé, continuavam aserdeportados até à definitiva extin­

ção. Podemos, contudo, dizer que só com este diploma de 1932, se punha fim, de algum modo,ainda que nãodefinitivo- e ficavasempre a perdurar, sublinhe-se, o desterropor motivospolíticos, que o “Estado uma missão agrícola, comoem 1919. Em 1926, Júlio Ferreira Pinto constatava, comdesconsolo, que os portugueses gostavam de conservar tudo o que era mau edestruir tudoo que era bom, substituindo-o por algo que seria ainda pior...16

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DEGREDO E COLONIZAÇÃO PORTUGUESA - UM CÍRCULO VICIOSO

17 Sobre o Tarrafal, o decreto que o criou e a antologia de textos evocativos deste campo de concentração, veja-se o vol. I do "Estado Novo” da nossa História contem­

porânea de Portugal, Lisboa, Amigos do Livro, s.d. (1986). pp.22O-235, bem como, na nossa História de Portugal dos Tempos pré-históricos aos nossos Dias, o vol. XIII,

“Estado Novo - II", Amadora, Ediclube. s.d. (1993), pp.39-556 (“Os presídios do Estado Novo” de Alberto Pcdroso).

18 Joaquim Francisco Ferreira do Amaral (Lisboa, 1844 - 1923), oficial de marinha, foi nomeado governador de Angola, por Fontes Pereira de Melo, em 1882. ali ficando até 1886, altura em que transitou para o governo da índia. Era governador de Angola durante a conferência de Berlim. Proibiu o envio de degredados para o distrito de Moçâmedes (portaria de I2-V-84). O ministério da Colónias era então ocupado por M.

Pinheiro Chagas.

Novo” encetou em 1936 e fez perdurar até 1954, tendo até de o restau­

rar após o início da guerra colonial, em 1961, ao criar um campo de concentraçãonoTarrafal ’7,na ilha de Santiago, em Cabo Verde, mácula maior no nosso arsenal penal, repressivo ou penitenciário, já que estes alegados “criminosos” o eram tão só por delito de opiniãoou heterodo­

xia políticaaos olhos do Portugal rancorosa e toscamente nacionalista e pseudo-cristão da Ditadura de Salazar (e, depois, de Caetano).

Convém lembrar agora que o instituto penal do degredo africano, que tinha sido mantido durante séculos pela legislação portuguesa e conservado intacto por todos os códigos penais do liberalismo, desde 1852. Este primeiro código penal luso, no artigo 29°, colocava o degredo entre as penas maiores, em quarto lugar, dizendo-o perpétuo ou temporário, e significando que seria sempre cumprido em África.

Logoo código penal e disciplinar da Marinha mercante portuguesa, de 1864, admitia entre as suas penaso degredo temporário e o degredo de 3 a 12 anos(artigos 42° e 46°). A Reforma Penale de Prisões, aprovada pela lei de 1-VII-1867, alterava o regime do degredo, tomando-o uma pena auxiliar ou complementar da prisão maiorcelular, ao mesmo tempo que extinguia odegredo perpétuonoartigo 9o, e alargava a apli­

cação dodegredo temporário substituindo as penas de trabalhos públi­ cosperpétuos (artigo 4o), penas que, talcomoa penacapital, eram abo­ lidas. Em 1869, odecreto de 9-XII desse ano criava as colóniaspenais no ultramar africano, reforma penal de Rebelo da Silva que não teve, porém, implementação. Outros diplomas criariam diferentes colónias penaisafricanas, cujo insucesso já acima se referiu,comoa que foicri­

ada pelo governador geral de Angola Francisco Joaquim Ferreira do Amarall8, por portaria de 15-IX-1886.A novareforma penal de 1884 restituiu aodegredo o seu carácterde pena principal, fixando osartigos

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4. O fim do degredo da metrópole para as colónias

O decreto de 1932 era de responsabilidade do então ministro da Justiça, o integralista José de Almeida Eusébio, antigo seminarista e advogado que iniciara a sua careira política após a implantação da Ditadura em 1926.20 A autoria desse diploma tem sido erradamente atribuída a Manuel Rodrigues Júnior21, antigo seminarista, professor

19 Sobre as reformas do nosso direito criminal em geral, veja-se Paulo Pinto de Albuquerque. A Reforma da Justiça criminal em Portugal e na Europa, Coimbra, Almedina. 2003.

20 José de Almeida Eusébio (Castelo Branco, 1881 - Lisboa, 1.XII-1945) frequen­

tou o seminário de Portalegre, indo para Coimbra prosseguir os seus estudos, na Faculdade de Direito, concluído o curso em 1908; militaria no Integralismo Lusitano, passando a exercer a advocacia. Em 1926 passou a dirigir o jornal Notícias da Covilhã, sendo presidente da comissão administrativa da câmara da sua cidade natal. Foi minis­

tro da justiça no govemo presidido pelo General Domingos de Oliveira, ministério que durou de 21-1-1930 a 5-VII-1932. tendo Salazar, Pais de Sousa, Armindo Monteiro como colegas. A este gabinete sucedeu, desde 5-VII-32, o primeiro ministério presi­

dido por Salazar. Fixando-se como advogado em Lisboa, Almeida Eusébio foi ainda vereador da Câmara Municipal de Lisboa (1933-4) e presidente da comissão concelhia de Lisboa da União Nacional. Prefaciou a História maravilhosa de Nun 'Álvares (1944) de Zuzarte de Mendonça e publicou um estudo histórico intitulado Alguns Apontamentos para a História do Seminário diocesano de Portalegre (Portalegre,

1901). Foi director da Penitenciária de Lisboa a partir de 1932.

21 Manuel Rodrigues Júnior (Bemposta. Abrantcs, 1889 - Lisboa, 1946), professor de Direito em Coimbra desde 1919 e, depois, em Lisboa, fez parte do primeiro gabi­

nete de coimbrões nomeados após a triunfo do golpe de Braga, em 1926 - a “tuna aca­

démica” -, como Ministro da justiça e Cultos, com Salazar e Mendes dos Remédios, mantendo-se ali até 1928. Voltaria a ser ministro em 1932 (no primeiro gabinete chefi­

ado por Salazar. em 7-VII-329, voltando a sê-lo como ministro da Instrução pública (1934) e da Justiça (1934) e mais vezes ainda, além de procurador à Câmara corpora­

tiva e membro do Conselho de Estado.

Io a 4° as penasem 28, 25, 20 e 15 anos.19 O código penal de 1886, que estariaem vigoraté ao “Estado Novo”, admitia o degredo, inclu­

indo-oentre as penasmaiores (artigos 55° e 60°). A lei de 21-IV-1892 aplicou odegredo aos vadios ereincidentes e a lei de 20-VII-1912 pre­

via também a deportação paraos incorrigíveis (artigo 13°9. Um novo Regulamento para o Depósito de Degredados, de 26-XII-1907, regula­ ria o regimedos degredados até à sua extinção em 1932, revogando a anteriorlei,a de5-V11.1879.

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DEGREDO E COLONIZAÇÃO PORTUGUESA - UM CÍRCULO VICIOSO

dedireito e ministroda Justiça e Cultos no primeiro gabinete presidido por Salazar, mas não desse governoque o promulgou, presidido ainda pelo general Domingos de Oliveira, e do qual fazia ainda parte Armindo Monteiro22, empreendedor e enérgico ministro das Colónias, que se manteria nessa pasta até 1935; nesse gabinete, era ministro das Finanças o futuro presidente de conselho inamovível da Ditadura, ou seja, António de Oliveira Salazar, isto a partir de 7-VII-1932: saindo em Fevereiro de 1932, odecreto promulgado porAlmeida Eusébio era já uma importante peça jurídica dareforma colonial esboçada pelo pró­

prio Salazar, desde que, em 1930, ocupara interinamente essa pasta, fazendo então publicar o Acto Colonial, importante pilar da nossa administração ultramarina. Este decreto abolindo o degredo dava razão às vozes que, de vários quadrantes políticos, pediam a sua abolição como forma penal defeituosa e, sobretudo, como muleta perversa da nossa deficiente colonização africana.

Entre estasnão se deve esquecer a de um antigo deportado político emAngola, Henrique Galvão, para ali afastado depois da “conspiração dos Fifis”, em 1927, deportação que lhe valeu, além de ser nomeado por curto tempo governador da Huíla, converter-se num entusiasta da nossa colonização e um ardoroso propagandista do Impérioportuguês, de que se tornaria em breve figura central, tanto pela escritacomo pela

22 Armindo Monteiro (1896-1955). que foi o primeiro civil a sobraçar a pasta das Colónias desde o golpe de Braga em 1926, não parecia especialmenle destinado a tal domínio, embora fosse ele, juntainente com o seu guru político Salazar, um dos impul­

sionadores do Acto Colonial de 1930, após o que entraria para esse ministério; nunca tendo estado nas colónias e sendo especialista de matérias financeiras, Monteiro nas­

cera em Vila Velha do Ródão e nada o predestinava ao trato de problemas ultramarinos, de modo que a sua vocação colonial foi toda voluntarista e ao serviço da política finan­

ceira do salazarismo inicial. Uma viagem de 6 meses a Angola e Moçambique, em 1932, fizeram dele um verdadeiro perito em matérias africanas, cuja complexidade e especificidade compreendeu com um argúcia notável, própria, aliás, do seu tempera­

mento e inteligência excepcionais; numa das cartas dali expedidas para Salazar.

Monteiro insistia na necessidade de pôr fim ao degredo como método colonizador de Angola. Publicou em 1934 um opúsculo a que foi dado o título de O Pensamento cio Ministro das Colónias. Di: Armindo Monteiro, editado pelo SPN, na colecção

“Reconstrução do Império”, espécie de vademecum do novo pensamento colonial do

“Estado Novo” salazarista. Outro importante breviário do novo colonialismo seria edi­

tado pelo mesmo SPN, dirigido por António Ferro, em 1938, por Henrique Galvão, com o título de O Império. Veja-se o seu acervo epistolar trocado com Salazar:

Armindo Monteiro. 1896-1955, edit. por F. Rosas e J. Leitão de Barros, Lisboa, Estampa, 1996.

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23 Henrique Carlos Malta Galvão (Barreiro, 1895 - São Paulo, Brasil, 1970), mili­

tar, romancista, cronista e dramaturgo, foi um dos mais importantes teorizadores do colonialismo do "Estado Novo"; alferes em 1917, tenente em 1921. participa no 28 de Maio, envolve-se na conspiração extremista dos “Fifis” (12-VI1I-1927), o que lhe vale ser preso e condenado à deportação em Angola, o que faria dele um africanista apaixo­

nado pela colonização do continente negro; passando de condenado a administrador colonial, seria nomeado, em 1929, governador interino da Huíla (2-1V-1929), acção que mais tarde evocaria no seu romance autobiográfico Terras de Feitiço (1934); no perí­

odo da deportação, esteve no Lubango. no meio de grande inaeção, o que lhe daria vagar para escrever as primeiras obras de tema africano, como Em Terras de Pretos (1929). dando ainda à estampa, nesse mesmo ano, cm Vila Nova de Famalicão, como edição de autor, um Relatório de Governo de Huíla, narrando a sua breve governação daquele região, que de facto apenas durara 2 meses, advogando nesta obra a necessi­

dade de uma política colonial que não fosse, como então era, uma política “sem um chefe, sem uma ideia superior, sem indicações definitivas”(/?e/<rícírío..„ p.59); o seu inspirador era, nessa altura, um candidato a chefe da situação ditatorial, o “herói dos Dembos", o militar João de Almeida. Apaixonado de caça, publicou a obra, de parce­

ria com o famoso caçador Teodósio Cabral. Da Vida e da Morte dos Bichos (1934, 5a ed. em 1954). Regressado a Portugal, toma às fileiras do exército, como adjunto do general João de Almeida, cuja biografia entusiástica edita em 1931: História do nosso Tempo. Acção e Obra de João de Almeida (reed. em 1934). Aderindo ao “Estado Novo" salazarista, depressa'se tornou num dos seus mais ambiciosos e activos agentes no sector africano, desde então até ao momento em que, em 1947, tendo apresentado à Assembleia Nacional, em sessão secreta, um demasiado sincero e realista relatório sobre as odiosas condições do trabalho indígena nas nossas colónias, o que lhe trouxe a desgraça política, a prisão e, por fim, o exílio na América do Sul, culminando a sua ruptura com a ditadura de Salazar no assalto ao paquete "Santa Maria”, em 1961, e em livros denunciando os malefícios e malfeitorias do regime que tanto ajudara a edificar.

A sua acção a partir da década de 30 foi toda votada ao “Império”, celebrado em brochuras de sua autoria ou em acções de relevo como a famosa Primeira Exposição Colonial no Porto (1934), sob a batuta de Armindo Monteiro, tendo-lhe cabido ainda, em 1940, na Exposição do Mundo Português, a direcção do sector colonial deste importante certame que marcou o zénite do regime salazarista. Foi também sua a ideia de uma mapa da Europa e sobre o qual se imprimiam as manchas geográficas das nos­

sas várias coloniais africanas e asiáticas, de modo a fazer sobressair a grandeza impe­

rial lusa, sob o “slogan” de “PORTUGAL NÃO É UM PAÍS PEQUENO”. Foi ainda Inspector Superior de Administração Colonial (1936) e director da Emissora Nacional, recebendo o grau de grande oficial da Ordem Militar de Cristo; foi ainda, de 1945 a 1949, deputado "independente” por Angola, tendo sido precisamente durante esta legis­

latura que tomou a decisão corajosa de apresentar à Assembleia Nacional o referido relatório que lhe havia de valer a desgraça política: veja-se o seu texto integral no seu livro O Assalto ao "Santa Maria "(Lisboa, 1974, pp.87-106). Em 1948, dirigiu na acção.23 E é especialmente na escrita que o azougado Galvão faz conhecer um dos dogmas basilares do pensamento estadonovista

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quanto ao degredo, ao publicar um romance que lhe havia de valero prémio de literatura colonial: O Velo de Oiro.24 Opersonagem princi­

pal deste romance começa por ser empregado no Banco do Crédito agrícola, recebendo de um primo estabelecido em terras da Huíla uma carta onde lhe pedia que se associasse a um verdadeiro negócio da China em Angola, aexploração de oiro naregiãoao sul dacolónia, em terras do Cuanhama, a Mulola do Tchimporo. Desejoso de conhecer África, o personagem acede a partir para Angola, viajando de barco para Moçâmedes, onde o primo Vasco o espera, para demandarem depois aquele misterioso “Velo de oiro”. O trecho em que, desenga­

nado, mas crente nas potencialidades coloniais imensas da colónia, o personagem central percebe para queserve afinal Angola é, no ano em que o livro foi editado pela primeiravez, em 1931, um apelo vibrante a uma nova maneira de encarar autilidade e funçãoimperial deÁfrica, que não devia ser olhada como terra do Minotauro, nem terra para degredados, nem terra deaventuras em busca da sortegrande, mas sítio paraedificar um esplêndido império luso:

“Compreendi que correm no Portugal Metropolitano duas ideias extremas, c erradas ambas, sobre o Portugal de Além-Mar: - uma, a ideia sombria dos pessimistas, que trazem em si a sobrevivência espantada das lendas do Mar Tenebroso e que instalaram em África o Minotauro de Creta. Para eles é ainda a África um trágico degredo onde estoiram de febres os que não morrem em

mesma assembleia uma interpelação ao Governo, solicitando medidas em relação às condições desumanas da exploração da mão-de-obra africana que o seu relatório secreto denunciara, o que o fez entrar em rota de colisão definitiva com a Ditadura.

Fez-se de facto um inquérito presidido por um juiz, mas este acabou demitido e Galvão, mais tarde, preso, depois de ter dado a sua adesão à candidatura oposicionista à “eleição” presidencial de 1951 (almirante Quintão Meireles). Julgado em 1952, con­

denado a 3 anos de prisão, e, de novo, em 1953 e 1958, Galvão acabaria por se exilar (1959), primeiro para a Argentina e, mais tarde, no Brasil, onde se tomou activo opo­

sitor do regime de Salazar, o que se havia de traduzir no assalto e captura do paquete citado, em 1961. Faleceu em S. Paulo a 26-VI-1970. Sobre Galvão veja-se a excelente tese de Mestrado em História contemporânea, apresentada à Faculdade de Letras de Lisboa, em 1995, de autoria de Eugênio Montoito, Henrique Galvão ou a Dissidência de um Cadete do 28 de Maio.

24 Citaremos a 3“ ed. deste livro. O Velo dOiro. com desenhos de Eduardo Malta, editado pela Livraria Popular, em Lisboa, em 1936. Sobre as diversas edições deste importante livro e o prémio que ele recebeu, veja-se o estudo de Alberto Oliveira Pinto,

“O concurso de literatura colonial da Agência Geral das Colónias (1926-1951): coloni­

alismo e propaganda”, revista Clio, 2‘ serie, volume 7,Lisboa, 2002, pp.191-256, maxime pp.210 ss.

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Emsuma, oque o efémerogovernador da Huíla tivera tempo de se certificarin loco era de que Angola não podia ser olhada como terra para aventureiros oupara degredados, mas território para nele seedifi­

car o “novo reino” imperial que a Ditadura saída do golpe militar de 1926 se comprometia a erguer,aqueleque o Acto Colonial urgia edifi­

car. No seuextenso parecerque foi pedido ao Conselho Superior das Colóniasquanto ao diploma queviria a ser o Acto Colonial, os relato­

res lembravam quehavia quepensar a sério na colonização de Angola pela “raça branca”26

25 H. Galvão, O Velo d'Oiro, ed. de 1936, p.266.

26 Veja-se o extenso parecer sobre o Acto Colonial, emitido pelo Conselho Superior das Colónias, datado de 29-V-193O, e estampado no mesmo Diário do Governo que publicou o diploma do Acto Colonial (i.e., o decreto n° 18.570 de 8-V1I-1930, publi­

cado no D.Gov., dessa data, pp. 1307-1312), Diário do Governo, de 8-VII-3O, pp. 1312- 1319;, p. 1315, garantindo, logo a seguir: “Pressente-se, evidentemente, o alvorecer duma nova época para o futuro das colónias.”(loc. cit). Este parecer prévio do Acto Colonial vinha assinado por conhecidas figuras ligadas ao colonialismo luso: Manuel Fratel. Artur de Almeida Ribeiro, Alberto Osório de Castro, Afonso de Mendonça e Vasconcelos, Femando Utra Machado, Teófilo Duarte (futuro ministro salazarista das Coloniais), etc. O Acto Colonial apontava para Portugal a “função histórica de possuir, civilizar e colonizar territórios ultramarinos e exercer a influência moral que lhe é ads­

trita pelo Padroado do Oricnte“(p. 1508), o que seria o texto exacto do artigo 2o do diploma publicado, domínios que. dizia, formavam o Império Colonial Português, cujas partes componentes se uniam em solidariedade moral e política com a “Mãe pátria"(artigo 3’). Recorde-sc ainda que o presidente da sociedade de Geografia era, na altura, o conde de Penha Garcia (1872-1940), José Capelo Franco Frazão, que traba­

lhara sob a orientação de Barros Gomes desde 1898, vindo a presidir à câmara dos deputados em 1901; Penha Garcia teve em 1908 uma pendência com Afonso Costa, donde resultou um duelo célebre. Publicado o Acto Colonial, Salazar abandonaria, pouco depois, a 29-V1I-1930, a gerência interina da pasta das Colónias, passando-a ao apagado general Eduardo Augusto Marques, o qual fizera a sua carreira militar nas colónias, participando na campanha do Cuamato. Depois, de 1931 a 1935, seria essa pasta confiada a Armindo Monteiro.

lances de tragédia. A outra, a ideia optimista dos aventureiros e dos falhados, que imaginam a África uma lotaria portentosa em que todos os números têm a Sorte Grande!

E a África, bocado de Portugal ligado ao seu Passado e ao seu Futuro, sofre do abandono dos medrosos e das lançadas dos aventureiros, incompreendida por muitos que teimam em não saber aceitá-la na sua realidade.” 25

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DEGREDO E COLONIZAÇÃO PORTUGUESA - UM CÍRCULO VICIOSO

5. A abolição do degredo da metrópole paraAngola

Quanto ao diploma de 1932, de responsabilidade do ministro Almeida Eusébio (e porventura com a colaboração deJosé Beleza dos Santos), pondo fim ao degredo, começa este por um relatório explica­

tivo onde são dadasas razões de tal decisão tomada ao arrepio de tan­ tos séculos de tradição penal portuguesa. Defacto, lê-se ali,o envio de condenados para as “províncias de além-mar, esobretudo para Angola, que deveria constituir um elemento de prosperidade, seguro e barato, transformou-se, com o tempo, em peso morto queesta possessão difi­

cilmente podia continuar a suportar”, tanto mais que o “trabalhopenal, por deficiência de aproveitamentose outras razões, rende no ultramar muito pouco”, ao que acresce o facto de a sustentação dosdegredados sair cara ao tesouro, custando 2 ou 3 milhares de contos o seu trans­

porte e sustentação, pelo que se impunha a extinção do degredo, devendo os degredados cumprir doravante as suaspenas em “colónias penitenciárias, num regimede trabalho agrícola ou predominantemente agrícola”, de modo que se libertaria Angola do “pesadelo que repre­

senta o desembarque de sucessivaslevas de degredados, com os eu cor­

tejo de horrores, e mobilizar-se-á em benefício da economia da Metrópole um novo e poderoso elemento de trabalho”.27

Tomava-se como modelo destascolónias penais de índole agrícola a Colónia Penal Agrícola António Macieira, de Sintra, modelo que urgia repetire copiar, tanto mais que a pena perdera o seu carácterde intimidação para servir o padrão da reeducação, de modo que o diploma se decidia pela criaçãode um institutodesse teor para passara absorver oscondenados com a pena equivalenteà dosantigos degreda­ dos. Assim,determinava este diplomaquea cadeira nacional de Lisboa e a prisão de Coimbra passassem a denominar-se, respectivamente, como Cadeia Penitenciária de Lisboa e Cadeia Penitenciária de Coimbra, devendo as penasde prisão maiorcelular sercumpridas inte­ gralmente em cada uma destas prisões (artigo Io), autorizando o governo a organizar uma outra colónia penitenciária na povoação de Alcoentre, no concelho de Ajambuja, em que os condenados a prisão maiorcumpririam a pena em regime de trabalho agrícola ou predomi­ nantementeagrícola, devendoo tempo de internamento na colónia cor-

27 Lei de 13-11-1932, Diário do Governo, 13-11-32, p.293.

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28 Diploma de 13-11-32, pp.293-4-

29 Veja-se P. Pinto de Albuquerque, A Reforma da justiça criminal..., pp.968-9, nota 2001.

30 Veja-se o resumo destas "medidas de segurança" no capítulo que lhes dedica Alberto Pedroso no referido vol. XIII da nossa História de Portugal..., pp.57-60.

Recorde-se que este ministro da Justiça de Salazar - foi-o por uma década, de 6-1X-44 a 7-VHI-54, - fizera um estágio jurídico na Alemanha hitleriana.

responder à pena de degredo que faltava cumprir (artigo 2o).28 Em 1936, odecreto 20.887de 13-11-36, ou seja, três anos volvidos sobre o diploma que determinara que cessasse o envio de condenados para o ultramar, ordenava, no âmbito de uma reformaprisional, que a pena de degredo fosse cumprida como prisãomenor maiorcelularnos estabele­

cimentos a esta destinada, reduzindo a sua duração a um terço, com excepção dos presos de difícil correcção. Note-se que, em 1933, a CartaOrgânicado Império colonial proibira, entretanto, aaplicação nas colónias de Angola, Moçambique, Estado da índia eTimor,da penade degredo para outra colónia, ao mesmo tempoque autorizava que os governos de S. Tomé, Cabo Verde e Guiné a fizessem cumprir em Angolaas penas de degredo aplicadas naquelas colónias e em Timor as penas aplicadas em Macau. Um outro diploma, o27.067, de 3-X-1936, criavanoforteRoçadas um depósito legal destinado a receber todos os condenados empenas de degredo sentenciados em Angola, SãoTomé, Cabo Verde eGuiné.29

Alguns anos volvidos, em decreto 38.720, de 8-IV-1952, admitia o degredo nas províncias ultramarinas de Angola, Moçambique, Estado da índia eTimorparaqualquer territórioultramarino português distinto do da condenação por determinação dos governos provinciais, desde que com a devida autorização do ministro do Ultramar, para casos de delinquentes habituais ou porcrimes contraa segurança do Estado: em suma, o degredo e a deportação política irmanavam-se agora, de acordo, aliás, com as leis repressivas particularmenteiníquassaídas do punho de Manuel GonçalvesCavaleirode Ferreira, o autor dosdecre­

tos das "medidas de segurança” de 1949 e 1954.30 Em 1953, a Assembleia Nacional salazarista, debruçando-se sobreeste diploma de 1952 acima referido, determinava, contudo, que não fosse mais orde­ nada nem aplicada a pena de degredo nas províncias ultramarinas, razão pela qualas penasde degredo foram, finalmente,substituídas, no decreto 39.321, de 17-VIII-1953, por penas de prisão maior de igual

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DEGREDO E COLONIZAÇÃO PORTUGUESA - UM CÍRCULO VICIOSO

Este poema visava concretamente, não o degredo e o seu mundo histórico-penal singular, mas a deportação daquelescombatentes políti­

cos pelos quais Neruda tinha, naturalmente, especial simpatia, mas

31 Pablo Neruda. poema "EI puerto color de cielo", La Láinpara inarína, in Las Uvas y el Viento, (1954), Barcelona, 1976, p.253.

duração, menos umterço. Agora, sim, pode dizer-se que o degredo fin­ dava - mais de vinte anosdepois de ter sido abolido!

Resumindo, pode dizer-se que só em 1953, quase uma década depois do fim da II guerra mundial, no início da segunda metade do séc. XX, o instituto mesmodo degredo seria definitivamente banido.

Visto de outro modo, podemos mesmo dizer que, só 21 anos antes do nosso império colonial se desmoronar com a revolução de Abril de

1974, se punha fim efectivo à prática secular de degredar condenados no âmbito do nosso “império” ultramarino, de tal modo as noções de africanidadee pena maior estavam imbricadas, formando um par mór­ bidotanto numa perspectiva penai como pulcra e realisticamente colo- nizadora...Enão se perca de vista que a deportação de condenados por motivos de delito de opinião, ou condenadospolíticos, secontinuava a fazer para África, para o famoso campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, desde 1936 a 1954, tendo sido retomadocom o início da guerra colonial, em 1961. Algo de entranhadamente perverso, e de uma perversidade alémdomais secular, presidia à mente penal daque­ les homens que um poeta chileno, apostado em denunciar as práticas desumanas de deportação política donossoregime ditatorial, descrevia, precisamente em 1954, nestas metáforas tão adequadas:

“Cuando tú desembarcas en Lisboa

(...)

Cuando tú desembarcas noconoces,

no sabes que detrás las ventanas escuchan,

rondan

carceleros de luto, retóricos, correctos,

arreando presos a las islas...”31

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Estoril, Maio de 2004

nada nos impede de escutar, nessas palavras sentidas e magoadas, o rumornegro detoda uma longa, penosa, injusta, cruel eaté bárbara tra­ dição penal lusa que, além de ter aleijado de modo evidente todo o nossocolonialismo, lhe deu ainda um matiz tão espúrio, agreste e em tudo avesso ao que as mais rectas consciências deviam tomar como paradigma criminal ao serviço do resgate dos que prevaricam, ainda que do modomais extremo.

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