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Vista do Editorial 15 anos T&E

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Academic year: 2023

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EDITORIAL

Caros(as) leitores(as),

A Trabalho & Educação veio ao mundo em julho de 1996, exatamente um ano após o Núcleo de Estudos sobre Trabalho e Educação – NETE, da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, responsável pela sua criação, ter sido formado por professores e alunos de graduação e pós-graduação desta faculdade, motivados a fomentar estudos e pesquisas interdisciplinares em torno desse eixo temático.

Apresentado pela Prof.ª Antônia Vitória Soares Aranha, o número zero deste periódico, financiado pela Capes por meio do Programa de Integração da Pós-Graduação e Graduação – PROIN, e fruto de um rico trabalho coletivo organizado, informou as esperanças alimentadas pelo NETE de poder contribuir cientificamente e para a prática social e educacional no tratamento de questões, ainda hoje atuais:

[...] a formação do sujeito, as novas demandas de formação profissional, projetos políticos de formação da capacidade de trabalho, a relação entre trabalho e educação básica, a educação do trabalhador nas relações sociais de produção, a problemática do trabalho infantil, os efeitos da globalização e do neoliberalismo sobre a organização do processo de trabalho escolar, novas tecnologias e processos pedagógicos etc.1 (p.8).

Quinze anos após, podemos dizer que tais esperanças e propósitos se traduziram por contribuições efetivas para o fortalecimento dos elos da universidade com o mundo do trabalho, especialmente com a escola pública e os setores da sociedade civil identificados com os interesses dos trabalhadores e que as questões que animaram a criação do NETE e de Trabalho & Educação ainda constam de sua agenda, à qual vieram se somar novos desafios para a produção de conhecimentos e a intervenção social e educacional.

Tive a honra de ter sido convidada a escrever este Editorial, uma formidável oportunidade, à qual agradeço profundamente, para manifestar formalmente meu sentimento de orgulho e satisfação de ver, após quinze anos e muitos esforços de tantos que não fraquejaram na busca da realização desses ideais, o reconhecimento público do trabalho já realizado e ao qual se soma a elevação da classificação de Trabalho & Educação pelo sistema de avaliação Qualis Periódicos da Capes.

Tal distinção nos permite renovar nossas antigas esperanças e alimentar com vigor a disposição que os atuais desafios nos cobram. No Editorial do número zero, que tive também a satisfação de escrever, chamei a atenção para a evidência da temática sobre Trabalho e Educação, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo, nos discursos da época. A fase da crise da acumulação capitalista daquele momento, tal como a de hoje que assola a União Europeia com ameaças para o restante dos países, impunha o estreito e maculado olhar das regras do mercado às interpretações das relações entre trabalho e

1 ARANHA, Antônia Vitória Soares. Apresentação. Trabalho & Educação, Belo Horizonte, n.0, p.7- 10, jul./dez. 1996.

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educação e às orientações das agências transnacionais aos governos nas suas políticas e diretrizes para a educação brasileira. Embora a conjuntura atual do país evidencie conquistas sociais e educacionais importantes, é preciso considerar que o tecido social e educacional brasileiro está impregnado de conceitos do liberalismo social, que insistem em manter sua hegemonia nas relações de trabalho, na concepção de produtividade e qualidade, na cultura tecnológica, na definição dos perfis profissionais desejáveis, na gestão educacional, na regulação do trabalho docente e discente, na reprodução das desigualdades e seletividades educacionais, nas escolhas curriculares. Tal como quinze anos atrás, permanece, assim, o desafio lançado ao final do editorial do número zero: “transformar nosso conhecimento em força material em favor de uma sociabilidade em que trabalho e educação venham, de fato, constituir a práxis emancipatória (p.15).”2

Com esse sentido, Paula Elizabeth Nogueira Sales e Maria Auxiliadora Monteiro Oliveira, em A unidade teoria-prática em uma perspectiva marxista, nos oferecem resultados de pesquisa bibliográfica que fizeram sobre princípios, fundamentos e conceitos, e que permitem analisar criticamente a separação entre teoria e prática como expressão da visão dicotômica de homem decorrente da divisão social do trabalho. Elas oferecem aos leitores do presente número de Trabalho & Educação os elementos constitutivos da atividade de práxis, que requer a unidade entre contemplação e ação.

Justificam a retomada da bibliografia consultada como forma de contribuir para a fundamentação da reflexão dialética e intervenção crítica no campo atual de Trabalho e Educação e da educação profissional.

Para nos trazer à memória o que significaram, e ainda representam, os direcionamentos da perspectiva liberal social para a educação, André Ricardo Barbosa Duarte, Vera Lúcia Alves Ferreira de Brito e Alexandre Willian Barbosa Duarte nos oferecem Reformas macroeconômicas e educacionais no Brasil: uma breve análise. Eles descrevem como o capital mundializado e transnacional e sua lógica de produção e reprodução social vêm impondo transformações ao mundo do trabalho, acordos políticos globais, a regulação supranacional da educação, reestruturações na gestão das políticas públicas educacionais e o gerencialismo na organização e no controle do trabalho na escola pública. Ressaltam que tais processos têm levado ao aumento da intensificação e precarização do trabalho dos docentes das redes públicas de educação, afetando significativamente suas capacidades de controle e autonomia, remuneração e carreira profissional. Denunciam, ainda, o aprofundamento da lógica mercantil na educação pública brasileira com a reconfiguração do papel do Estado na oferta educacional e o aumento do apelo à terceirização na prestação de serviços educacionais.

Carmen Cavaco, com O lugar dos idosos nas políticas públicas de educação e formação em Portugal, mostra criticamente como o discurso e orientações políticas da Comissão Europeia, pautados na Teoria do Capital Humano e balizadores da perspectiva da Aprendizagem ao Longo da Vida e da agenda dos Estados-Membros nas duas últimas décadas, vêm, de forma

2 MACHADO, Lucília Regina de Souza. Editorial. Trabalho & Educação, Belo Horizonte, n.0, p.11- 15, jul./dez. 1996.

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discriminatória, marginalizando a população mais velha dos benefícios da educação. Ela denuncia nessas formulações o foco circunscrito aos jovens e adultos ativos, o viés da racionalidade econômica, a instrumentalização da educação e da formação, a responsabilização individual, a ideia de projeto com sentido de urgência e direcionado a resultados, a prerrogativa aos processos educativos formais e institucionais. Com isso, não haveria lugar para os idosos nessas orientações, que nelas não se reconhecem e com elas não se identificam. Não haveria, também, lugar para tipos de educação e formação que não se guiam pela lógica economicista e mercantil. Entretanto, considera a autora, a aprendizagem é um processo natural e contínuo, que se guia por diferentes interesses e motivações, presente em situações não formais, dilatado pelo aumento da esperança de vida e envelhecimento da população.

Reiteração da exclusão escolar também é o tema do artigo As causas da evasão de alunos de um programa de Educação de Jovens e Adultos, de Paulo César Geglio, Ana Cristina Rosa e Vandeir Gouveia Dias. Resultados de pesquisa realizada em município da Paraíba motivada por evasão, entre 2008 e 2010, de 50% de alunos do ProJovem Urbano, programa que oferece, por meio de currículo integrado, oportunidades de conclusão do ensino fundamental, qualificação profissional, participação cidadã via ação comunitária, auxílio financeiro mensal e inclusão digital. Professores e evadidos convergem na visão positiva sobre o programa, mas apresentam matizes diferentes quanto aos fatores da evasão. Dentre as conclusões dos autores, destacam-se a importância da incorporação de educadores do próprio convívio social dos educandos, potencialmente mais sensíveis às dificuldades destes e aptos a criar condições para amenizá-las; mais atenção à formação docente e aos interesses e perfil social dos jovens; mais inovações nas articulações da educação com o mundo do trabalho.

A atenção aos docentes também é tema do artigo de Lucas Veras de Andrade, Mal-estar e atividade docente: um estudo com professoras de educação infantil. Nesse texto, o autor focaliza a questão dos mal-estares profissionais, retoma conceitos, chama a atenção para situações-limite como a Síndrome de burnout e para os fatores e implicações decorrentes de tais problemas, especialmente com relação à atividade docente. Discursos de professoras de educação infantil lhe serviram de contrapontos empíricos, não generalizáveis, para situações que são mencionadas pela literatura. O autor constatou, porém, que nem todas elas foram constatadas nos casos que observou e nas narrativas que ouviu.

O mal-estar nas atividades profissionais também foi uma das questões abordadas por Davidson Passos Mendes no texto Um enfoque sociológico sobre a gestão do risco de violência em hospitais públicos psiquiátricos: as dimensões do indivíduo. O autor analisa dilemas complexos vividos por enfermeiros, gerência e, sobretudo, técnicos em enfermagem em um hospital público de emergência psiquiátrica: a) garantir qualidade de vida e de saúde aos pacientes sem que a estrutura e organização correspondam às preconizadas pela Reforma Psiquiátrica; b) fazer gestão coletiva do risco de agressões considerando o perfil diversificado dos pacientes (doentes mentais, drogados, presos sob tutela do Estado); c) enfrentar precárias situações de trabalho, especialmente quando técnicos em enfermagem, na

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incompletude das competências e configurações coletivas para explicitação, intervenção e avaliação. O autor verificou que estratégias de trabalho próprias e graus de autonomia diferenciados dos profissionais envolvidos despertam sentimentos negativos, mas os positivos sobrevêm ao trabalho compartilhado. Ele aponta que a perspectiva de superação de tais problemas passa pela valorização profissional e pela atribuição subjetiva de sentido e significado pelos trabalhadores envolvidos ao trabalho que realizam.

Tais desafios também estão presentes na análise de André Roberto Schiehl, Luiz Alberto Pilatti, Maria Helene Giovanetti Canteri e Letícia Lorena de Vasconcelos sobre Qualidade de vida no trabalho e saúde: evolução histórica e perspectivas de inovação. O texto é fruto de revisão bibliográfica em livros e periódicos científicos sobre aspectos históricos e sociais da evolução do conceito de qualidade de vida no trabalho e da constituição deste campo interdisciplinar de estudos, que pressupõe, segundo eles, uma visão abrangente e crítica dos conceitos de trabalho e de saúde. Temas correntes em estudos e pesquisas sobre a temática são identificados por momentos históricos, recortes de questões para investigação são apresentados, bem como novidades na área da qualidade de vida no trabalho.

Mudanças no trabalho passam, segundo Dominique Lhuilier, pela redução d’A invisibilidade do trabalho real e [d]’a opacidade das relações saúde- trabalho. Segundo a autora, interesses econômicos, sociais e psíquicos, fatores diversos, cada vez mais complexos, dificultam identificar e reconhecer as relações saúde-trabalho, visibilizá-las, torná-las conhecidas e, com isso, enfrentá-las. Chegar ao real das atividades tornou-se, assim, um desafio em razão do mascaramento do trabalho pelo emprego, da sua dissolução pelas condições de trabalho, da sua redução à tarefa, das dificuldades do acesso às práticas pelas produções discursivas. Fazer o trabalho ganhar visibilidade tornou-se um alvo a atingir em razão da dominação da gestão, do desconhecimento do trabalho real, da produção de simulacros, da forma como entram em cena os experts em saúde-trabalho dedicados ao cuidado de reparação ou prevenção. Para tanto, a autora preconiza o método clínico de abordagem qualitativa, compreensiva, reflexiva e de ação, integrador da auto-observação e reflexão dos sujeitos do trabalho na elaboração de sua experiência sensível, comprometido com as mudanças necessárias no trabalho.

Tal abordagem encontra no artigo A gênese da perspectiva ergológica:

cenário de construção e conceitos derivados, de Paulo Roberto Vieira Júnior e Eloísa Helena Santos (também fundadora do NETE), elementos de sustentação. Os autores retomam fundamentos e conceitos do método interdisciplinar ergológico, sistematizado por Yves Schwartz e colaboradores, para a análise e transformação do trabalho a partir da compreensão da manifestação da vida, da construção de saberes e da formação dos trabalhadores nos locais de trabalho. Esclarecem a base desse método formada pelo chamado dispositivo dinâmico a três polos (DD3P), que integra, dialeticamente, os saberes constituídos e normas antecedentes que informam as prescrições de trabalho; os saberes investidos pelos trabalhadores nas renormalizações a partir de suas experiências; e os diálogos e negociações entre estes dois campos de saberes com base na ética e nas exigências epistemológicas. Localizam as fontes inspiradoras da ergologia nos estudos

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multidisciplinares sobre saúde e trabalho dos anos 1960 face aos conflitos laborais italianos e franceses, especialmente os de Yvar Oddone; nas discussões sobre ergonomia e saúde de Wisner e na filosofia das normas de Georges Canguilhem.

A perspectiva de integração de conhecimentos também orientou o Projeto Laborar, desenvolvido na UFPA, UFMG e UFPE e apresentado por Gilmar Pereira da Silva e Doriedson do Socorro Rodrigues no relato: Trabalho e Educação: o desafio para a construção de uma política em rede para a formação dos trabalhadores. Trata-se de experiência desenvolvida nas três universidades destinada a aproximar pesquisadores da área de Trabalho e Educação (docentes, bolsistas de iniciação científica, mestrandos e doutorandos), compartilhar pesquisas e formação em rede. Os autores focalizam desafios enfrentados pelo Laborar, como: pensar de maneira articulada a temática, considerando as diversidades econômicas, sociais e culturais regionais e locais; compreender o papel de diferentes sujeitos sociais, em cada contexto regional, com relação à qualificação de trabalhadores; contemplar as especificidades de cada região com relação às necessidades de qualificação para o trabalho, particularmente as instigadas por novas tecnologias.

Enfim, completar quinze anos faz deste número de Trabalho & Educação um exemplar especial, significado ao qual se agrega a contribuição fundamental e grata de cada autor dele participante. É um momento de alegria. Todos que estiveram e estão empenhados, cada um com sua participação singular e diferenciada, na obra da transformação das esperanças que motivaram o surgimento deste periódico em realidade estão de parabéns. Certamente, o percurso já trilhado carrega momentos que não serão esquecidos, mas também nos faz rememorar e alertar para o muito ainda a ser aprendido e realizado, pois chegar aos quinze anos significa apenas alcançar o limiar da juventude.

Lucília Regina de Souza Machado

Referências

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