UNIVERSIDADE SÃO JUDAS TADEU
MATEUS AUGUSTO AMARAL
A LIBERDADE RELIGIOSA E OS DIREITOS FUNDAMENTAIS
SÃO PAULO 2022
UNIVERSIDADE SÃO JUDAS TADEU
MATEUS AUGUSTO AMARAL
A LIBERDADE RELIGIOSA E OS DIREITOS FUNDAMENTAIS
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Universidade São Judas Tadeu como requisito do título de Bacharel em Direito
Orientadora: Carolina Dalla Pacce
SÃO PAULO 2022
FOLHA DE APROVAÇÃO
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Universidade São Judas Tadeu como requisito do título de Bacharel em Direito
Orientadora: Carolina Dalla Pacce
Aprovado em:
BANCA EXAMINADORA
_______________/ /____
Prof.
Universidade São Judas Tadeu - USJT _______________/ /____
Prof.
Universidade São Judas Tadeu - USJT _______________/ /____
Prof.
Universidade São Judas Tadeu – USJT
RESUMO
O presente estudo tem como intuito compreender sobre a liberdade religiosa e os direitos fundamentais, abordando o conceito de religião e sua origem na sociedade.
Sendo necessário também a análise da teoria geral dos direitos fundamentais, como base da presente pesquisa, a fim de esclarecer sobre a construção dos direitos fundamentais. A partir disso, focaremos na liberdade religiosa enquanto direito fundamental e todo o respaldo e tutela que possui. Contudo, é de extrema importância que haja compreensão sobre a liberdade de crença e a liberdade de culto à luz da Constituição Federal, bem como, da doutrina. Ademais, abordaremos sobre a liberdade religiosa e seus os princípios correlatos, quais sejam: o princípio da igualdade e o princípio da dignidade da pessoa humana. Adentraremos nos estudos sobre a proteção à liberdade religiosa, especificamente no ordenamento jurídico brasileiro, trazendo a legislação penal e as sanções trazidas por lei, junto de mecanismos que visam coibir a intolerância religiosa. Por fim, a presente pesquisa tem como base a análise quantitativa e a metodologia da revisão bibliográfica.
Palavras-chaves: Intolerância religiosa; liberdade religiosa; direito; direito constitucional.
ABSTRACT
This study aims to understand religious freedom and fundamental rights, addressing the concept of religion and its origin in society. It is also necessary to analyze the general theory of fundamental rights, as the basis of this research, in order to clarify the construction of fundamental rights. From this, we will focus on religious freedom as a fundamental right and all the support and protection it has. However, it is extremely important that there is an understanding of freedom of belief and freedom of worship in the light of the Federal Constitution, as well as the doctrine. In addition, we will discuss religious freedom and its related principles, namely: the principle of equality and the principle of human dignity. We will delve into studies on the protection of religious freedom, specifically in the Brazilian legal system, bringing the criminal legislation and the sanctions brought by law, together with mechanisms that aim to curb religious intolerance. Finally, this research is based on the quantitative analysis and methodology of the bibliographic review.
Key-words: religious intolerance; religious freedom; right; constitutional right.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 1
1. CONCEITO DE RELIGIÃO ... 2
2. TEORIA GERAL DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS ... 3
3. A LIBERDADE RELIGIOSA ENQUANTO DIREITO FUNDAMENTAL ... 5
3.1 LIBERDADE DE CRENÇA ... 5
3.2 LIBERDADE DE CULTO ... 6
3.3 LIBERDADE DE ORGANIZAÇÃO RELIGIOSA ... 6
4. PRINCÍPIOS CORRELATOS À LIBERDADE RELIGIOSA ... 7
4.1 PRINCÍPIO DA IGUALDADE ... 7
4.2 PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA ... 8
5. PROTEÇÃO À LIBERDADE RELIGIOSA NO ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO E A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA ... 10
CONCLUSÃO ... 14
BIBLIOGRAFIA ... 15
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INTRODUÇÃO
A presente pesquisa tem como objetivo o estudo da liberdade religiosa e os direitos fundamentais. Para que se possa compreender de forma aprofundada o tema, deve se explorar previamente, o conceito de religião, bem como, a sua origem no mundo. E através disso, entender que não há um conceito exato sobre a temática, pois se houvesse uma definição concreta sobre o tema, ficaríamos restritos a somente uma linha de pensamento – diferente daquilo que é realmente a palavra religião – complexa, ampla e profunda.
Com objetivo de compreender a liberdade religiosa enquanto direito fundamental, fez-se necessário trazer, também, conceitos constitucionais dos direitos fundamentais, através da doutrina e do próprio texto constitucional. Essa compreensão é necessária para aprofundarmos na temática.
Não se pode falar também em direito fundamental pleno, se não abordarmos os princípios constitucionais que o norteiam. Sobre os princípios correlatos a liberdade religiosa, os principais são: o princípio da igualdade e o princípio da dignidade da pessoa humana. Esses princípios têm o dever de servir de alicerce para uma liberdade que seja ampla e não discriminatória.
Amparado para além dos princípios constitucionais brasileiros, a liberdade religiosa está presente também na Declaração Universal de direitos Humanos e em diversas Convenções e Tratados internacionais. Portanto, é correto assumir que é um assunto de relevância para o âmbito do direito, pois a liberdade religiosa está assegurada e tutelada em diversas legislações, brasileiras e internacionais.
A liberdade religiosa enquanto direito fundamental encontra respaldo constitucional em seu art. 5º, incisos VI, VII, VIII da CF/88, abordando tanto a proteção religiosa, quanto a liberdade de crença e convicções políticas. Abrangendo também:
a liberdade de organização religiosa, a liberdade de culto e a livre manifestação do pensamento.
A fim de garantir seu exercício pleno e sadio, ao Estado é dado o dever de aplicar sanções quando houver casos de intolerância religiosa. Estando amparados no Código Penal em leis dispersas, bem como na Lei Estadual nº 17.346/21.
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1. CONCEITO DE RELIGIÃO
Previamente, faz-se necessário o entendimento do conceito da religião.
Podendo ser entendida como uma construção cultural de determinada sociedade, assim como explica o autor e antropólogo Clifford Geertz: “a religião pode ser entendida como uma construção cultural das sociedades, pois fundamenta as exigências mais específicas da ação humana nos contextos mais gerais da existência humana”. (GEERTZ, 2008, p. 27). ”
A religião é um dos termos mais discutidos e analisados em qualquer sociedade. Portanto, não há um conceito definito e exato. É importante realmente não haver uma definição concreta do sentido da religião, pois, estamos diante de um cenário profundo, dinâmico e veemente por parte da sociedade. Assim como o professor Thiago Massao Cortizo Teraoka (2010) explica:
O conceito de religião deve ser o mais aberto possível, a fim de evitar restrições desnecessárias no conceito. Da mesma maneira, excluir aprioristicamente esta ou aquela manifestação religiosa da proteção constitucional será certamente discriminatória, resultado de preconceito não desejado em um Estado de Direito Democrático. (TERAOKA, 2010, p. 47)
Mesmo não havendo um conceito concreto de religião, de toda sorte, há autores que de alguma forma tentam chegar em alguma definição, tal como SILVA e KARNAL (2002):
O termo religião foi e continua sendo objeto de divergência e análises. O conceito de religião mais aceito para fins de análise e estudo é: “religião é um sistema comum de crenças e práticas relativas a seres sobre-humanos dentro de universos históricos e culturais específicos” (SILVA; KARNAL. 2002 – p.
13-14).
Desta forma, conforme supramencionando, estamos em um sistema diverso, que pode mudar segundo as crenças e dogmas relativos aos seres humanos baseados em universos históricos, bem como culturais.
O antropólogo Geertz diz ainda que “podemos defini-la como um sistema de símbolos que atua para estabelecer disposições e motivações para a humanidade, através de formulação de conceitos que versam sobre uma ordem de existência geral.
(GEERTZ, 2008, p.27).”
Nesse sentido, a religião pode ser entendida, tecnicamente, como um conjunto de sistemas culturais, além “embarcar” visões diversas de mundo, que estabelecem símbolos que relacionam a humanidade com a espiritualidade e com seus próprios valores morais.
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A palavra religião é muitas vezes usada como sinônimo de fé ou sistema de crença, mas a religião se difere da crença privada na medida em possuí um caráter público, pois, a maioria das religiões tem comportamentos organizados, incluindo hierarquias clericais, definições que vão desde como constituir a filiação de devotos, até em como instituir reuniões regulares em locais selecionados e prestar serviços para fins de veneração ou adoração de uma divindade, como dispor de escrituras sagradas próprias, por exemplo.
A prática de uma religião pode também incluir sermões, comemoração de atividades para um deus ou deuses, sacrifícios, festivais, festas, iniciações, serviços funerários, serviços matrimoniais, meditação, música, arte, dança, ou outros aspectos religiosos da cultura humana.
Contudo, independente da origem, o termo é adotado para designar qualquer conjunto de crenças e valores que compõem a fé de determinada pessoa ou conjunto de pessoas - cada religião inspira certas normas e motiva certas práticas.
2. TEORIA GERAL DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS
A fim de solidificar um entendimento esclarecedor sobre a temática em construção, faz-se necessário também trazer os conceitos constitucionais dos Direitos Fundamentais.
A Constituição Federal de 1988 estipula, em cinco capítulos (art. 5° ao 17°), os “Direitos e Garantias Fundamentais” assegurados pelo ordenamento jurídico brasileiro. As categorias diferentes de direitos fundamentais foram agrupadas da seguinte forma: No capítulo I, estão os direitos individuais e coletivos; no capítulo II, os direitos sociais; no capítulo III, estão os direitos de nacionalidade; O capítulo IV trata dos direitos políticos e; por fim, o capítulo V trata dos direitos relacionados à participação dos partidos políticos e à sua existência e organização.
A doutrina explica que os direitos fundamentais não se deram em somente um momento histórico, sabe-se que é uma construção histórico-social.
Aprofundando sobre a temática, o autor Paulo Bonavides, uniu os direitos fundamentais em gerações, quais sejam: primeira geração, segunda geração, terceira geração e quarta geração.
Observaremos as explicações da doutrina:
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(...) os direitos de primeira geração são aqueles que consagram meios de defesa de liberdade do indivíduo, a partir da exigência de que não haja ingerência abusiva dos Poderes Públicos em sua esfera privada.(...) já os direitos de segunda geração – normalmente traduzidos enquanto direitos econômicos, sociais, e culturais – acentuam o princípio da igualdade entre os homens (igualdade material), são usualmente denominados “direitos do bem-estar”, uma vez que pretendem ofertar os meios materiais imprescindíveis para efetivação dos direitos individuais (...) os direitos de terceira geração, em síntese, são direitos que não de ocupam da proteção a interesses individuais, ao contrário, são direitos atribuídos genericamente a todas as formações sociais, pois buscam tutelar interesses de titularidade coletiva ou difusa, que dizem respeito ao gênero humano (MASSON, 2018, p.213-214)
Desta forma, essa junção dos direitos fundamentais leva-nos ao caminho do conhecimento da nossa constituição e os direitos que a comportam.
A doutrina indica também que a Constituição possui algumas características que definem os direitos fundamentais, nas palavras dos professores Vicente Paulo e Marcelo Alexandrino:
São características dos direitos fundamentais:
a) imprescritibilidade (os direitos fundamentais não desaparecem pelo decurso do tempo
b) inalienabilidade (não há possibilidade de transferência dos direitos fundamentais a outrem);
c) irrenunciabilidade (em regra, os direitos fundamentais não podem ser objetivo de renúncia);
d) inviolabilidade (impossibilidade de sua não observância por disposições infraconstitucionais ou por atos das autoridades públicas);
e) universalidade (devem abranger todos os indivíduos, independentemente de sua nacionalidade, sexo, raça, credo ou convicção político-filosófica);
f) efetividade (a atuação do Poder Público deve ter por escopo garantir a efetivação dos direitos fundamentais);
g) interdependência (as várias previsões constitucionais, apesar de autônomas, possuem diversas intersecções para atingirem suas finalidades; assim, a liberdade de locomoção está intimamente ligada à garantia do habeas corpus, bem como à previsão de prisão somente por flagrante delito ou por ordem da autoridade judicial);
h) complementaridade (os direitos fundamentais não devem ser interpretados isoladamente, mas sim de forma conjunta com a finalidade de alcançar os objetivos previstos pelo legislador constituinte);
i) relativamente ou limitabilidade (os direitos fundamentais não têm natureza absoluta). (PAULO, 2016, p.39)
Desse modo, é correto concluir que os direitos fundamentais foram conquistados com o desenvolvimento histórico-social da sociedade, ao ponto em que, tiveram em seu núcleo, a introdução de certas características que servem como
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alicerce, tanto para os proteger de serem retroagidos, quanto para proteger aqueles que tem titularidade para invoca-los. Os direitos fundamentais não podem ser usurpados por qualquer um que não os aprove, a Constituição Federal de 1988, prevendo que tal consequência poderia ocorrer, buscou transcrever direitos inerentes aos seres humanos. No caso da liberdade religiosa, buscou respaldo princípiológico, principalmente, nos princípios da igualdade e da dignidade da pessoa humana.
3. A LIBERDADE RELIGIOSA ENQUANTO DIREITO FUNDAMENTAL
Assim como mencionamos, os direitos fundamentais possuem caraterísticas fortes e concretas dentro da Constituição Federal, portanto, entende-se que nada pode afrontar aquilo que possui efetividade. Um desses direitos que são protegidos pela Constituição e que estão inseridos na própria Carta Magna é o da liberdade religiosa. Ou seja, este princípio também tem como base a irrenunciabilidade, a imprescritibilidade, a universalidade e outros princípios inerentes e mencionados no presente estudo.
A liberdade religiosa encontra previsão constitucional no art. 5º, caput, de forma genérica, pois expressa o direito à liberdade. Compreende-se por liberdade, não somente a liberdade física, de locomoção, mas também a liberdade de crença, de expressão, de convicção, de pensamento, de reunião etc.
Já os incisos VI, VII e VIII do art.5°, da CF contemplam de forma expressa a proteção da liberdade de crença religiosa e convicção política e filosófica. Essa liberdade inclui as liberdades espirituais. Sua exteriorização é uma forma de manifestação de pensamento, compreendendo três formas de expressão: (a) a liberdade de crença ;(b) a liberdade de culto, (c) e a liberdade de organização religiosa.
Todas estas estão garantidas na Constituição Federal.
3.1 LIBERDADE DE CRENÇA
Segundo o professor José Afonso:
Na liberdade de crença entra a liberdade de aderir a qualquer seita religiosa, a liberdade (ou o direito) de mudar de religião, mas também compreende a liberdade de não aderir a religião alguma, assim como a liberdade de descrença, a liberdade de ser ateu e de exprimir o agnosticismo. (SILVA, 2017, p.251).
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Esse direito, no entanto, não compreende a liberdade de prejudicar o livre exercício de qualquer religião e de qualquer crença, pois a liberdade de alguém vai até onde a liberdade do outro começa.
3.2 LIBERDADE DE CULTO
A liberdade religiosa necessita ser exteriorizada por meios além do pensamento, com o uso e a proteção de locais que possam expressar a fé sem restrições, consonante com o art. 19, inciso I, da CF de 1988. Nesse sentido, a liberdade de culto contempla, não só a proteção dos templos, mas também uso de orações e práticas ritualísticas, que podem compreender o exercício de cerimonias, manifestações, reuniões, fidelidade aos hábitos e tradições, de maneira indicada pela religião escolhida. Para o professor José Afonso da Silva:
o dispositivo transcrito compõe- de duas partes: assegura a liberdade de exercício dos cultos religiosos, sem condicionamentos, e protege os locais de culto e suas liturgias.
(SILVA, 2017, p.252).
3.3 LIBERDADE DE ORGANIZAÇÃO RELIGIOSA
Essa liberdade versa sobre a coletividade, não tendo apenas o indivíduo como foco da garantia fundamental da liberdade religiosa, mas ampliando o âmbito em análise, introduzindo agora os direitos coletivos na liberdade religiosa. Esses direitos coletivos, cuja titularidade é das Igrejas e organizações religiosas, são direitos que dizem respeito a auto-organização, a autodeterminação, direito de prestar ensino e assistência religiosa. Desse modo, a liberdade de culto nada mais é do que o pleno direito do exercício da manifestação da fé por meio de suas celebrações e o que era o direito do pensar (liberdade religiosa), torna-se o direito de professar (liberdade de culto), ou seja, confessar publicamente a crença. A liberdade de organização religiosa possibilita ainda que as entidades religiosas a se organizem, como instituir suas igrejas e entidades, por exemplo.
O professor Aloisio Cristovam dos Santos Jr. (2006) afirma acerca da característica elemento essencial para efetivação para religião:
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Os sistemas de organização constituem elementos essenciais à construção da religião. Se bem que os 24 diferentes sistemas religiosos apresentem níveis de organização mais ou menos formalizados, não há religião desprovida de organização. (JUNIOR, 2007,p.18)
Neste sentido, observa-se que o Estado garante a liberdade da organização religiosa, tendo em vista que o governo não deve interferir nas organizações do âmbito religioso, sendo assim permitindo que estas se auto-organizem.
4. PRINCÍPIOS CORRELATOS À LIBERDADE RELIGIOSA
Os princípios são de extrema composição para a instruir a liberdade religiosa, uma vez que se atribui aos princípios um papel fundamental na interpretação do texto constitucional, e não limitando-se a apenas isso, ainda desempenham uma função de harmonização entre o texto normativo e sua aplicação.
O professor Rodrigo da Cunha Pereira, é extremamente assertivo em aduzir que:
[...] Os princípios exercem uma função de otimização do Direito. Sua força paira sobre toda a organização jurídica, inclusive preenchendo lacunas deixadas por outras normas, independentemente de serem positivados, ou não, isto é, expressos ou não expressos. (PEREIRA, 2013)
4.1 PRINCÍPIO DA IGUALDADE
Entre os princípios elencados pela Constituição Federal, dois tem notório destaque para a liberdade religiosa, que são: o princípio da igualdade e o princípio da dignidade da pessoa humana. O princípio da igualdade compreende também o respeito às diferenças, nesse sentido expõe o professor Rodrigo da Cunha Pereira:
A igualdade e o respeito às diferenças constituem um dos princípios- chaves para as organizações jurídicas e especialmente para o Direito de Família, sem os quais não há dignidade do sujeito de direito.
Consequentemente não há justiça. O discurso da igualdade está intrinsecamente vinculado à cidadania, uma outra categoria da contemporaneidade, que pressupõe também o respeito às diferenças.
Se todos são iguais perante à lei, todos devem ser incluídos no laço social. (PEREIRA, 2013)
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Ou seja, a igualdade, prevista no artigo 5.º da Constituição Federal de 1988, visa à inclusão sem discriminações fundadas em diferenças de raça, etnia, posição social e etc. Tal princípio aproxima os indivíduos, valorizar o cidadão, garante o exercício da cidadania, funda uma sociedade mais justa e igualitária. Nesse sentido, expõe Maria Berenice Dias, no sentido de que:
O sistema jurídico assegura tratamento isonômico e proteção igualitária a todos os cidadãos no âmbito social. A idéia central é garantir a igualdade, o que interessa particularmente ao direito, pois está ligada à idéia de justiça. Os conceitos de igualdade e de justiça evoluíram. Justiça formal identifica-se com igualdade formal, consistindo em conceder aos seres de uma mesma categoria idêntico tratamento. Aspira-se à igualdade material precisamente porque existem desigualdades. Segundo José Afonso da Silva, justiça material ou concreta pode ser entendida como a especificação da igualdade formal no sentido de conceder a cada um segundo a sua necessidade; a cada um segundo os seus méritos; a cada um a mesma coisa. (DIAS, 2009, p.39)
Cumpre salientar que, a tarefa de garantir o tratamento isonômico ao indivíduo deve ser desempenhada pelo Estado através da produção de leis, programas de inclusão e políticas públicas. Um dos exemplos na tratativa do estreitamento das distâncias sociais e culturais, norteado pelo princípio da igualdade, é a laicidade do Estado em não tomar uma única religião como sua, mas garantir a livre escolha e a manifestação do indivíduo na religião que este se dispuser a seguir.
É fato, no entanto, que a desigualdade, findada principalmente no âmago social e religioso, exista, principalmente com o preconceito com as religiões de matrizes africanas. Entretanto, almeja-se que esta não seja a realidade de uma sociedade saudável, ou que pelo menos, sejam empregados meios capazes de diminuí-la ou extingui-la de maneira sensivelmente aos vulneráveis.
4.2 PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA
Já o princípio da dignidade da pessoa humana, enquanto princípio máximo e fundador do Estado Democrático de Direito é aquele que almeja prever preceitos básicos à existência digna do ser humano, nas palavras de Carlos Souza:
Porque o homem é um ser diferenciado de todos os seres da natureza, porque é o único dotado de liberdade, inteligência e vontade, esta diferença nos faz “dignos” da condição humana. O ser humano não é
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apenas um indivíduo, mas pessoa, substância individual de natureza racional. O que distingue os homens dos demais seres é este aspecto, e nele se fundamenta sua dignidade. São princípios naturais que o homem não pode abolir, sob pena de destruir a si próprio, à sua família, à comunidade, à própria humanidade. (SOUZA, 2012)
A dignidade é, nesse aspecto, essencial ao ser humano, tanto pela sua condição de ser pensante, como para a sua capacidade de autodeterminação, com anseios de criar, sentir e se expressar. O legislador constitucional, inspirado pela Declaração Universal dos Direitos Humanos e vivenciando momentos de mudanças no quadro político nacional, fez questão de trazer à Constituição Federal de 1988 o princípio da dignidade da pessoa humana, para que as transformações históricas e constitucionais fossem consolidadas, tendo na pessoa humana, o centro da proteção e dos direitos há muito conquistados.
Neste sentido, as ponderações de Dias:
Na medida em que a ordem constitucional elevou a dignidade da pessoa humana a fundamento da ordem jurídica, houve uma opção expressa pela pessoa, ligando todos os institutos à realização de sua personalidade. Tal fenômeno provocou a despatrimonialização e a personalização dos institutos jurídicos, de modo a colocar a pessoa humana no centro protetor do direito. O princípio da dignidade da pessoa humana não representa apenas um limite à atuação do Estado, mas constitui também um norte para sua ação positiva (DIAS, 2009, p.48)
Desse modo, é correto afirmar que a ordem jurídica constitucional e, consequentemente, as normas de caráter infraconstitucional, tem seu cerne voltado à pessoa humana, aos seus direitos e necessidades, com a devida limitação na atuação do Estado, no sentido de garantir a promoção do indivíduo, da sociedade e do bem comum.
Por fim, pode-se considerar que o princípio da dignidade da pessoa humana é aquele que abarca a coesão, o entendimento, a possibilidade de um equilíbrio dentro das diversidades, por meio do respeito a pessoa humana e suas particularidades. Este princípio, expande seu alcance a toda sociedade e, pode impedir muitas questões de agressões nas questões de credo e consciência religiosa. Mas para que isto se perpetue na sociedade, além da força Estatal, cada indivíduo deve também juntar seus esforços, respeitando às diferenças e os limites do exercício de seu direito, na busca de um bem comum, pois o direito de crença é um direito de todos e não deve
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ser limitado a alguma crença especifica, mesmo que essa seja majorada no país observado.
5. PROTEÇÃO À LIBERDADE RELIGIOSA NO ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO E A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA
Com a análise proposta pelo artigo - associar a liberdade religiosa aos direitos fundamentais, faz-se necessário que, além de previsão constitucional para o direito de exercer tal liberdade, ainda se tenha métodos de controle propostos pelo Estado, a fim de sanar possível ameaça ou agressão à liberdade religiosa. Nos casos onde ocorrem ameaça ou agressão a tal instituto, dar-se-á o nome de intolerância religiosa, que tem proteção e sanções em caso de prática previstas no ordenamento jurídico brasileiro.
Ocorre que a tolerância com as diversas formas de crença é necessária para que haja oportunidade de se falar em liberdade religiosa na sociedade, visto que uma de suas vertentes, implica no reconhecimento da liberdade religiosa alheia. É com esse cerne que a Declaração de Princípios sobre a Tolerância da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), no artigo 1º, 1.1, prevê que:
Art.1º,1.1 - A tolerância é o respeito, a aceitação e o apreço da riqueza e da diversidade das culturas de nosso mundo, de nossos modos de expressão e de nossas maneiras de exprimir nossa qualidade de seres humanos. É fomentada pelo conhecimento, a abertura de espírito, a comunicação e a liberdade de pensamento, de consciência e de crença. A tolerância é a harmonia na diferença. Não só é um dever de ordem ética; é igualmente uma necessidade política e jurídica. (1995)
Sendo assim, a tolerância, também enquanto instituto jurídico, impõe o dever de respeitar as convicções e as crenças alheias, vinculando todos os indivíduos neste mesmo dever de tolerar os diferentes. Mas para que isso ocorra, são necessários instrumentos legalmente instituídos que ajudem a combater atos de intolerância. Pois, embora a Constituição tenha previsto o direito à liberdade religiosa, foi necessário que a legislação infraconstitucional tipificasse condutas como forma de coibir atos de intolerância religiosa.
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Na legislação penal, o artigo 208 do Código Penal, define o crime de Ultraje a Culto e Impedimento ou Perturbação de ato a ele relativo, da seguinte forma:
Art. 208 - Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso:
Pena - detenção, de um mês a um ano, ou multa.
Parágrafo único - Se há emprego de violência, a pena é aumentada de um terço, sem prejuízo da correspondente à violência.
Em se tratando deste tema, o Professor Eduardo Santos Cabette entende que:
Tutela-se a liberdade de crença e o livre exercício de culto religioso (art. 5o, VI, CF). As condutas são o escarnecimento (zombaria) por motivo de crença ou função religiosa; o impedimento ou perturbação de cerimônia ou culto religioso e o vilipêndio (menoscabo) público de ato ou objeto de culto religioso. (CABETTE, 2012, p. 188)
Ademais, cumpre destacar o tratamento dado deve pela lei n. 9.459/97 que alterou grande parte da legislação no que tange a práticas discriminatórias. Uma das maiores alterações estabelecidas pela nova redação, foi a inclusão da religião no rol de elementos que podem ser passíveis de penalização segundo a lei n. 7.716/89 – Lei de Racismo. Desde então, todo aquele que pratica, induz ou incita qualquer ato discriminatório com fundo religioso incorrerá nas penas previstas pela lei. Incorrem como tais práticas, atos como impedir o acesso a algum estabelecimento comercial, recusar o atendimento em locais abertos ao público, negar ingresso em estabelecimento de ensino, dentre outros. Outra importante alteração da lei supracitada, foi a inclusão do parágrafo 3º ao crime de Injúria, criando a figura da injúria preconceituosa ou discriminatória que objetiva ofender a honra subjetiva de alguém se utilizando de elementos referentes à religião.
Entretanto, a intolerância pode chegar a níveis muito extremos, como por exemplo, sendo incorrida no crime Genocídio, que a professora Leila Hassem da Ponte classifica como:
[...] um crime internacional contra a humanidade, em que não se busca proteger apenas a vida ou a integridade física ou mental das pessoas atingidas, mas a própria existência de determinado grupo étnico, cultural, religioso ou segmento social. (PONTE, 2013, p.24)
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Assim, todo aquele que tenha o dolo de destruir determinado grupo religioso, em parte ou em seu todo, deverá ser submetido ao artigo 1º da lei n. 2.889/56 – Lei do Genocídio.
Não obstante ao caráter penal, cabe ainda explorar a Lei Estadual n°17.346 de 2021, que trata da Liberdade Religiosa no Estado de São Paulo, promovida pela Assembleia Legislativa de São Paulo, que cria uma proteção mais amplificada à liberdade de religiosa e de crença, dispondo em seu art.34 que o Estado:
Artigo 34 - O Estado de São Paulo:
I - assegurará ampla liberdade de consciência, de crença, de culto e de expressão cultural e religiosa em espaços públicos;
II - realizará campanhas de conscientização sobre o respeito a todas as expressões religiosas, bem como campanhas de promoção, proteção e defesa do direito de liberdade religiosa para todos e em
todos os lugares;
III - garantirá, nos limites legais, o acesso aos parques de conservação ambiental e o uso democrático de espaços públicos para as manifestações, cultos e práticas de crenças religiosas, respeitados os regulamentos e normas de segurança, e também, respeitadas as áreas de proteção permanente (APP), a reserva legal (RL) e as unidades de conservação (UC). (BRASIL, Lei nº 17.346/21, art. 34)
Cabe ainda salientar que, a referida lei além de trazer o conceito de discriminação religiosa, ainda propõe mecanismos de proteção e sanção, se for o caso, daqueles que praticarem a intolerância religiosa. Observaremos:
Artigo 54 - A discriminação entre indivíduos por motivos de religião ou de convicções constitui uma ofensa à dignidade humana e deve ser condenada como uma violação dos direitos humanos e das liberdades civis fundamentais proclamados na Constituição Federal, na Declaração Universal de Direitos Humanos e enunciados detalhadamente nos pactos internacionais de direitos humanos, além de constituir um obstáculo para as relações amistosas e pacíficas entre as nações.
Artigo 55 - A violação à liberdade religiosa sujeita o infrator às sanções de natureza administrativas previstas na presente Lei, sem prejuízo das sanções previstas no Código Penal, além de respectiva responsabilização civil pelos danos provocados. (BRASIL, Lei nº 17.346/21, art. 54 a 55)
A liberdade religiosa, enquanto cláusula pétrea da Republica, não pode sofrer regressões em seus fundamentos, porém, pode progredir em busca de maior amparo coletivo. O estabelecimento da nova lei no Estado de São Paulo é prova de que, tal direito fundamental deve sempre estar sendo discutido, a fim de proteger cada vez
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mais essa liberdade. Ressalta-se ainda que, sem liberdade religiosa, não há de se falar em dignidade humana ou em exercício pleno de cidadania. Toda pessoa possui o direito de não ser obrigada a agir contra a própria consciência ou seus princípios religiosos, deste modo, nota-se profunda preocupação dos legisladores infraconstitucionais em a garantir e promover que tal direito não seja cerceado.
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CONCLUSÃO
Ante todo o exposto, pode-se dizer que o direito à liberdade religiosa, como um direito fundamental é uma conquista derivada de avanços relacionados com a relação Estado-Igreja e Estado-Individuo, onde a escolha pela laicidade do Estado trazida pelo legislador constitucional, foi a porta de entrada para a compreensão da diversidade de crenças e religiões presentes na sociedade brasileira. Porém, não se pode esquecer que direitos fundamentais, assim como os conhecemos, são frutos da evolução dos direitos humanos e, por consequência, fruto também dos princípios da dignidade da pessoa humana, igualdade e liberdade.
É importante frisar que todos têm direito à liberdade de consciência, crença e culto, entretanto, o exercício de qualquer direito possuí limitações. Um direito pode ser exercitado até que não cause prejuízo a outro, não invadindo a esfera de direitos do outro. O direito a liberdade de professar sua fé existe e é garantido a todos, porém, o mesmo princípio que o rege é o mesmo que impõe limites. A dignidade da pessoa humana limita o exercício de uma crença, até o ponto em que ela não ofenda, não desrespeite, não agrida e nem prejudique a crença do outro, ferindo sua dignidade humana, isso porque as religiões podem ser diferentes, mas o respeito deve ser igual entre todas, como versa o princípio da igualdade.
Portanto a harmonia precisa ser buscada e o preconceito reprimido, para que o radicalismo egoísta não se sobreponha aos direitos constitucionalmente garantidos.
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BIBLIOGRAFIA
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BRASIL, Constituição Federal de 1988. Brasília, DF.
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