Uma leitura de Gli Invisibili e il segreto di Misty Bay
Igor Castilho Porsette
Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro como parte dos requesitos necessários à obtenção do Título de Mestre em Letras Neolatinas (Estudos Literários Neolatinos – Literatura Italiana)
Orientadora: Professora Doutora Sonia Cristina Reis
S Porsette, Igor Castilho
Del Ponte e o fantástico na narrativa italiana. Uma leitura de Gli invisibili e il segreto di Misty Bay / Igor Castilho Porsette. - Rio de Janeiro, 2008.
88 f.
Orientadora: Sonia Cristina Reis
Dissertação (Mestrado em Letras Neolatinas, opção Estudos Literários Italianos) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Letras, 2008. 1. Giovanni Del Ponte. 2. Gli invisibili e il segreto di Misty Bay. 3. Narrativa Italiana. 4. Fantástico. 5. Tempo e Espaço. I. Reis, Sonia Cristina. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Letras, Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas. III. Del Ponte e o fantástico na narrativa italiana. Uma leitura de
Gli invisibili e il segreto di Misty Bay.
Agradecimentos
RESUMO
DEL PONTE E O FANTÁSTICO NA NARRATIVA ITALIANA: UMA LEITURA DE GLI INVISIBILI E IL SEGRETO DI MISTY BAY
Igor Castilho Porsette
Orientadora: Professora Doutora Sonia Cristina Reis
Resumo da dissertação de mestrado apresentada ao programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de mestre em Letras Neolatinas, opção Letras Italianas.
RESUMO
O presente estudo traz os resultados relativos à Pesquisa de Dissertação de Mestrado sobre o fantástico na Literatura Italiana, tendo como corpus de análise, a obra contemporânea Gli Invisibili e il segreto di Misty Bay (2000), de Giovanni Del Ponte (1965-). O estudo da história de adolescentes e suas aventuras em pleno século XXI apresenta um elemento que causa o estranhamento, pois não há, nesse texto, elementos cibernéticos, ao contrário, ocorre um apelo à leitura, mesmo que de forma bizarra. Dessa forma, apresentaremos esse e outros artifícios literários, utilizados pelo escritor, que permitem uma leitura do universo fantástico, nessa obra. A reflexão teórica sobre a literatura fantástica fundamentada em (Todorov, 2004 e Genette, 1976), considerando a relação do tempo e do espaço como elementos basilares para a legitimação do fantástico, através de elementos simbólicos que compõem o universo sobrenatural nessa narrativa do escritor italiano.
SUMARY
DEL PONTE E O FANTÁSTICO NA NARRATIVA ITALIANA: UMA LEITURA DE GLI INVISIBILI E IL SEGRETO DI MISTY BAY
Igor Castilho Porsette
Orientadora: Professora Doutora Sonia Cristina Reis
Thesis’ Sumary presented to Letras Neolatinas Post-Graduation Program of Federal University of Rio de Janeiro, as part of requirements needed to acquire a Master in Letras Neolatinas grade, Italian Literatures choice.
SUMARY
The current study brings the results related to my thesis’ master research about the Fantastic in Italian literature, having as corpus analysis the contemporary works of Giovanni Del Ponte (1965-), more specifically “Gli Invisibili” and “Il segreto di Misty Bay” (2000). The study of the story of teenagers and their adventures in the XXI century introduce an element that arouses curiosity and awe, because there aren’t, in this text, cybernetic elements, quite the contrary, there is an incentive to reading, even in the most bizarre way. In such a way, we will present this and other literary mechanisms, used by the author, which allow a reading of the literary universe, in this work. A theoretical reflexion about fantastic literature based in (Todorov, 2004 and Genete, 1976), considering the relation of time and space with elements fundamental to the legitimation of the fantastic, through the symbolic elements which compose the supernatural universe in this narrative of the Italian writer.
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO... 07
2. O PERCURSO DA NARRATIVA FANTÁSTICA NO CONTEXTO LITERÁRIO ... 10
2.1 2.2 GIOVANNI DEL PONTE: UMA ESCRITA DO FANTÁSTICO ... UNIVERSO NARRATIVO DE GLI INVISBILI E IL SEGRETO DI MISTY BAY ... 19 26 3. ALGUMAS QUESTÕES SOBRE O ELEMENTO FANTÁSTICO NA LITERATURA OCIDENTAL ... 39
4. GLI INVISIBILI E IL SEGRETO DI MISTY BAY: O FANTÁSTICO COMO ARTIFÍCIO ... 58
5. CONCLUSÃO ... 75
6. REFERÊNCIAS ... 77
1. INTRODUÇÃO
O estudo que será apresentado na Dissertação de Mestrado, intitulada Del Ponte e o fantástico na narrativa italiana: Uma leitura de Gli Invisibili e il segreto di Misty Bay, traz a proposta de realizar uma investigação sobre uma das obras do escritor italiano Giovanni Del Ponte.
O autor é ainda pouco pesquisado no âmbito acadêmico literário italiano; no entanto, uma de suas obras foi tema de uma monografia de final de curso, na Universidade de Bari, em que foi discutido o valor pedagógico dos textos do escritor torinês.
Este estudo pretende contribuir para o entendimento do fato de o autor ter seus romances muito lidos por jovens, italianos e estrangeiros. Esse interesse do público por Del Ponte fez que quase todos os seus romances merecessem, recentemente, tradução para o inglês, tendo sido editado por seis vezes nos Estados Unidos. Gli Invisibili e il segreto di Misty Bay, publicado em 2000.
Com efeito, o fato de a produção de Del Ponte ser recente traz algumas dificuldades para quem precisa, por questões de pesquisa acadêmica, proceder a uma investigação a partir de estudos literários já realizados sobre o autor e sua obra. No caso do nosso escritor, excluída a monografia citada no segundo parágrafo, não se registram leituras teóricas sobre sua obra. A indagação sobre o tema do fantástico foi suscitada pelo próprio exame de Gli Invisibili e il segreto di Misty Bay. A temática de adolescentes e suas aventuras em pleno século XXI trouxe um elemento estranho, pois não há nesse texto elementos cibernéticos mas, ao contrário, um apelo à leitura, mesmo que de forma bizarra.
Com isso, procuramos aproximar, no capítulo dois, alguns dados historiográficos sobre a questão do fantástico no mundo ocidental até sua chegada em terras italianas, como uma tentativa de entendimento hipotético do interesse de Giovanni Del Ponte por esse gênero literário.
A partir desse estudo, abordaremos, ainda, as incursões literárias do escritor torinês, bem como uma explanação dos diversos elementos da narrativa dentro do corpus de análise deste trabalho. Essa discussão será fundamentada pelos estudos de Genette (1966) e Ives Reuter (2004).
O terceiro capítulo, por se tratar de uma investigação acadêmica, caracteriza-se como o mais teórico deste estudo sobre o fantástico. Com efeito, serão discutidos os conceitos e as noções relativas ao fantástico na literatura. A fundamentação teórica que sustentará esse capítulo se apóia nos estudos de Todorov (2004) e Cesarini (1996).
O quarto capítulo tem por objetivo um estudo analítico do corpus de análise, em que serão indicados e discutidos, à luz dos capítulos anteriores, os elementos fantásticos presentes na obra, como uma possibilidade de chave de leitura da obra do escritor italiano.
2. O PERCURSO DA NARRATIVA FANTÁSTICA NO CONTEXTO
LITERÁRIO
No presente capítulo serão feitas algumas considerações relevantes sobre o percurso histórico do tema do fantástico na literatura ocidental. O estudo dessa trajetória é importante para a compreensão dos elementos que compõem o fantástico na obra Gli Invisibili e il segreto di Misty Bay, de Giovanni Del Ponte, e, por conseguinte, um pouco desse gênero na Literatura Italiana contemporânea.
A literatura fantástica pode ter seu início marcado desde a contação de histórias nas civilizações antigas. No Egito antigo, assim como nos impérios Grego e Romano, por exemplo, os deuses já “comandavam” as ações dos mortais através de castigos ou ajudas, conforme pode ser verificado nos textos de Homero.
Assim, podem-se recordar fatos do quotidiano das civilizações antigas, como a má ou a boa colheita, que eram conseqüência de alguma tempestade ou peste, ou, ainda, ao contrário, eram causadas pela má ou boa vontade dos deuses. Relatos sobre os agrados aos deuses para a boa colheita são citados em muitas gravuras antigas, papiros, dentre outros documentos, evidenciando que, para os homens daquela época, a existência de algum fenômeno já era interpretada de forma fantástica, ou seja, procuravam uma maneira de explicação racional para um acontecimento inusitado.
Nesse percurso, entendemos que o nascimento do fantástico baliza com o do mito. Não há como precisar uma data que não se faz importante, mas antes o entendimento da construção de uma narrativa tradicional de caráter explicativo e/ou simbólico, profundamente relacionado com uma dada cultura e/ou religião.
Desse modo, tem-se que a narração de um mito não é uma explicação com fins científicos, mas obedece a uma forma de narração de uma realidade, que visa a contação de uma história para a satisfação das exigência religiosas ou morais, criando, estimulando e divulgando uma crença; reforçando um costume. Verifica-se a eficácia de um rito, através de suas regras e práticas repetidas pelo homem, e que reforçam a sua conduta. O mito é, assim, importante para a cultura humana; diferencia-se da fábula, pois é aquele tem uma utilidade, ou seja, uma força que é construída e atualizada no passar do tempo. Conforme pode-se observar na definição de mito feita por Marilene Chauí, que esclarece:
Mito envolve narração e veracidade da história baseada na confiança de quem narra por ter experenciado ou conhecer quem experenciou. Quem narra o mito é o poeta-rapsodo. Um escolhido dos deuses, que tem a capacidade de conhecer a origem dos seres e das coisas para que possa transmiti-la. Sua palavra – o mito – é sagrada por advir da revelação divina 1.
A citação acima nos auxilia para o entendimento de certos acontecimentos fantásticos e ou míticos que se encontram em relatos religiosos, como, por exemplo, muitos daqueles presentes no texto bíblico. Sabe-se, nesse caso, no campo teológico, que esses fenômenos não são considerados fantásticos, mas misteriosos, recebendo, inclusive, uma outra denominação os acontencimentos estranhos, como milagres. Podemos observar em uma passagem bíblica esse elemento estranho e mítico, que é lido como misterioso, milagroso e santo para os cristãos:
Três dias depois, houve um casamento em Caná da Galiléia, e estava ali a mãe de Jesus; e foi também convidado Jesus com seus discípulos para o casamento. E, tendo acabado o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: Eles não têm vinho. [...] Ordenou-lhe Jesus: Enchei de água essas talhas. E encheram-nas até em cima. Então lhes disse:
Tirai agora, e levai ao mestre-sala. E eles o fizeram. Quando o mestre-sala provou a água tornada em vinho, não sabendo donde era, se bem que o sabiam os serventes que tinham tirado a água, chamou o mestre-sala ao noivo [...] 2.
E, ainda:
Quando Jesus desceu do monte, grandes multidões o seguiam. E eis que veio um leproso e o adorava, dizendo: Senhor, se quiseres, podes tornar-me limpo. Jesus, pois, estendendo a mão, tocou-o, dizendo: Quero; sê limpo. No mesmo instante ficou purificado da sua lepra 3.
Saindo do literário teológico, observamos que em textos profanos, mais adiante, no século II d.C, com Apuleio, através do texto Metamorfose4, também conhecido com o título “O Asno de Ouro”, temos um exemplo de fantástico. Trata-se de um romance de narrativas fantásticas em que um homem se vê transformado em asno.
Um outro exemplo, pode ser dado com Dante, no texto Divina Comédia5, em que se registram aparições fantasmagóricas, em particular, as descritas no Canto Inferno. Aqui, nos interessa, sobretudo, a crítica sociológica que a partir dessas descrições fantásticas era direcionada à sociedade católica medieval, através de uma explicação das penitências sofridas por alguns nomes conhecidos daquela sociedade, servindo como exemplo para uma moral pretendida.
Anos após a morte de Dante, o encontro com os textos de Platão pelo Ocidente traz um legado que explica uma nova forma de entender o mundo através de um espelhamento, ou seja, de um mundo perfeito e inatingível; trata-se do mundo das idéias.
2 Evangelho Segundo São João Cap.: 2:2-9. In: BÍBLIA. Português. 1986. A Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Edições Paulinas, 1986. p. 1988-9.
3
Evangelho Segundo São Matheus Cap. 8:1-3. Ibid.. p. 1851.
4MANARA, Milo. A metamorfose de Lucius. São Paulo: Pixel, 2006. p. 34 et seq.
A tradição do fantástico, através da transformação do homem em animal e do homem em outros elementos da natureza, ainda se encontra presente nos textos de Boccaccio e Cervantes, que retomaram esses traços, mas fizeram deles adaptações livres em suas obras.
De fato, nesse momento, no Humanismo, os textos fantásticos eclodiram. Isso acontece em consonância com as transformações sociais, pois o homem passa a ser o centro de todas as idéias e isso faz as artes e a literatura, em particular, se aproximarem muito da descrição da realidade, a partir de uma valorização do racional e do científico, numa tentativa de explicação do mundo. Observa-se que, nos séculos XVI e XVII, houve uma reestruturação da literatura em relação aos modelos culturais. As manifestações literárias do fantástico deixam de ser apenas ligadas à transformação concreta do ser, mas exploram o traço psicológico, ou seja, a partir do personagem louco e da loucura, como tema literário, como ocorre na obra Orlando Furioso, por exemplo.
Nesses séculos não se pode, ainda, tratar desse tipo de literatura como fantástica, muito menos os textos produzidos antes, como o de Dante, por exemplo, pois ali temos alguma manifestação do estranho, dentro de uma realidade tipificada, que pode ser interpretado como fantástico, mas não se trata de uma literatura fantástica, que vai ser originada, paradoxalmente, no século das luzes.
É no período que se refere ao enciclopedismo e ao cientificismo que surge a literatura fantástica. Isso acontece através de uma retomada de contos fantásticos orientais do século XIII e XIV, de Antoine Galland, que divulgou para o Ocidente a obra Mil e uma Noites. Essa narrativa, dentro da literatura fantástica, é modelo e exemplo para muitas outras manifestações artísticas e não só literárias; é modelo, também, para o cinema.
O modelo fantástico que essas narrativas ofereceram para o mundo literário ocidental se baseia nos tipos de elementos espaciais, sombrios e duvidosos, já existentes na literatura gótica.
Há, no entanto, uma necessidade de não se confundir a literatura fantástica e a gótica, uma vez que esta última utiliza-se de castelos mal-assombrados, corredores escuros, esqueletos e cadáveres. Essa reflexão será mais aprofundada no próximo capítulo. No presente capítulo, é importante o percurso histórico desse tipo de literatura. Entretanto, é necessário pontuar que a literatura fantástica não necessariamente utiliza-se desses artifícios, já que o que é levado em consideração é o momento da hesitação, da dúvida e não o medo em si, como acontece na literatura gótica, como por exemplo, nas narrativas do Conde drácula6, Frankenstein7e Ghost story.
Ainda durante o romantismo europeu, o romance gótico ganhou destaque, através de uma a renovação literária que acontece, sobretudo, na Inglaterra, denominada roman noir1. Nessa narrativa, o estético era posto em contraponto ao estético clássico, o “belo” possuía valores alterados e, portanto, contra a estética vigente até então. O gótico era classificado, em poucas palavras, pela escritura do exagero, inspirando inclusive outras estéticas, como é o caso de O retrato de Dorian Gray8. Conforme nos explica Fred Butting:
Gótico significa uma escritura do excesso. [...] Joga sombra sobre o êxtase desesperante do idealismo e individualismo românticos e sobre as inquietudes duplas do realismo e decadentismo vitoriano 9.
Nesse mesmo período, a literatura fantástica ganha espaço em um outro país europeu; trata-se, nesse caso, da França. O diferencial, entretanto, foi o uso
6STOKER, Bram. Drácula: O vampiro da noite. São Paulo: Martins Claret, 2003, passim. 7SHELLEY, Mary. F rankenstein. São Paulo: Martins Claret, 2003, passim.
1
Entedemos por romain noir os textos literário, produzidos no século XVIII, na França, em que predominam histórias de horror, mortes e fatos grotescos.
de uma outra estratégia, utilizando um tipo de sensibilidade romanesca, deixando a pompa a favor do feérico. Um exemplo desse traço são os contos filosóficos de Voltaire, bem como as peripécias libertinas de escritores como Diderot e, principalmente, as de autoria de Marques de Sade, indo contra o otimismo utópico do iluminismo.
Esses dois países, Inglaterra e França, foram importantes para o desenvolvimento da literatura fantástica, mas foi na Alemanha, com Hoffmann, que esse gênero tornou-se um modelo literário novo e “atualizado”, no sentido que abandona o modelo gótico.
Nas obras de Hooffmann, de fato, o inexplicável se esconde no quotidiano mais banal da realidade burguesa. Os procedimentos da hesitação tornam-se técnicas narrativas. Os temas de ambigüidade, loucura, vida após a morte, se interiorizam e geram projeções fantasmáticas. Seu romance que marca essa fase é O homem de areia10, conforme nos explica Italo Calvino na Introdução de seus Contos fatásticos do século XIX:
[...]o conto fantástico nasceu na Alemanha como o sonho de olhos abertos do idealismo alemão, com a intenção declarada de representar a realidade do mundo interior e subjetivo da mente, da imaginação, conferindo a ela uma dignidade equivalente ou maior do que a do mundo da objetividade e dos sentidos. Portanto, o conto fantástico é também filosófico [...] 11.
Na literatura russa, por exemplo, a influência do novo modelo de contar, principalmente o de Hoffmann, dá bons frutos nos Contos de Petersburgo12 de Gogol que, antes dessas influências, já havia escrito histórias de bruxaria. É na própria Russia, com os formalistas russos, que Todorov escreve um livro de leitura basilar, como ponto de partida para analisar qualquer tipo de texto considerado fantástico: Introdução à literatura fantástica.
10HOFFMANN, E.T.A. O homem de areia (Der sandmann). Apud COSTA, 2006, p.75.
O século mais rico de textos fantásticos é, sem dúvida, os Oitocentos. Nesse século, é comum que as narrativas fantásticas se iniciem através de um caminho metaliterário, em que os personagens apresentam os acontecimentos surreais e impossíveis como forma de prelúdio ao que irá acontecer com eles mesmos no desenrolar da história.
Nos primeiros vinte anos daquele século, Hoffmann publica seus contos, marcadamente metaliterários, como é o caso conto O homem de areia, citado anteriormente. A trama desse conto do escritor alemão foi fonte de estudo para Freud em um de seus ensaios, como naquele intitulado Perturbante13. Nesse conto, Freud identifica o elemento perturbante como sendo o infinito retorno do igual, ou seja, a volta dos mesmos traços, caracteres, destinos, nomes e objetivos por várias gerações. Essa racionalização freudiana serve para esclarecer todos os enigmas, desvelar a identidade, permanecida em dúvida, mas, na verdade, ocasiona uma trama complexa, numa vertigem de assassinos, incestos, desmascaramentos e coincidências perturbadoras. 14
Ainda sob influência de Hoffmann, Edgar Allan Poe publica os seus primeiros textos. Ou melhor, trilha o mesmo caminho, formando o que poderemos identificar como sendo um paradigma clássico da literatura fantástica. Essa afirmação só pode ser feita porque as obras, de ambos os autores, obtiveram sucesso na França, país que contribuiu, ainda que indiretamente, para a formação de um cânone do fantástico oitocentista. Evidentemente, outros autores foram acrescentados a essa pequena listagem, enriquecendo, aprofundando e consolidando tal gênero literário. Entre os autores mais importantes, podemos citar: Charles Nordier, Nokolai Gogol’ e Henry James.
A reformulação do fantástico no século XX é paradoxal. Naturalmente, esse gênero sofre alterações de seus modelos canônicos, modificando-se em outros países como na Itália, por exemplo, onde esse gênero surgiu tardiamente, sob as severas críticas de Croce.
13 FREUD, Singmund. Das Unheimliche. Apud CESARINI, 1996, p.13.
Assim, a sobrevivência do gênero fantástico no decorrer dos Novecentos é problemática, quer no campo literário quer na postulação teórica. Isso porque alguns autores trabalham seguindo o paradigma “clássico”, tendo como exemplos Hoffmann e Poe, enquanto que outros procuram inová-lo, como fez Franz Kafka com Metamorfose. Um outro texto inovador é de autoria de Howard Phillips Lovecraft15, cujos contos publicados, nos anos 1920 e 1930, revolucionaram, pois traziam uma nova concepção do horror sobrenatural na literatura. Em tempos mais recentes, tem-se Júlio Cortázar, com Histórias de Cronópios e de Famas e Final do jogo, que experimenta um novo tipo de narração fantástica e, que alguns críticos classificam como neofantástico.
Segundo Calvino, no século XIX, o conto fantástico teve uma de suas maiores produções e, conseqüentemente, a mais significativa para esse campo literário. Ainda segundo o autor italiano, esse tipo de conto revela muito sobre a interioridade do indivíduo. Esse mesmo traço foi pontuado por Freud, através de seu ensaio o Perturbante, ao discorrer sobre a simbologia coletiva, conforme já citamos anteriormente. Neles, os elementos sobrenaturais poderiam ser considerados como uma manifestação do inconsciente reprimido, daquilo que está esquecido.
A literatura fantástica, na Itália, encontra em textos de Dino Buzzati, como Sette piani, Una goccia, de Massimo Bontempelli, em La donna dei miei sogni e altre avventure moderne, de Alberto Savinio, em Nella F oresta, Giovanni Del Ponte, com sua série de Gli Invisibili, além de Zolso il polveroso, dentre outros nomes importantes, alguns exemplos de manifestações desse gênero.
Naturalmente, na obra desses autores pode ser encontrada uma variedade de elementos inquietantes e sobrenaturais ou, ainda, de recursos ilusórios. Esses endereços literários são importantes para o estudioso que pretende se aproximar da narrativa fantástica italiana.
Tendo presente à variedade de temas da narrativa fantástica italiana, evidenciada na simples indicação dos nomes citados anteriormente, entendemos que essa discussão terá melhor espaço para explicação, mais adiante, no terceiro capítulo, pois a citação de alguns desses textos servirá para esclarecer certos conceitos concernentes ao fantástico.
Um exemplo dessa diversidade da manifestação literária sob o viés do fantástico pode ser comprovado, a partir da leitura da obra do corpus de análise, desta Dissertação, que será apresentada nos próximos itens, do presente capítulo.
2.1. GIOVANNI DEL PONTE: UMA ESCRITA DO FANTÁSTICO
Apesar de Del Ponte ter muitos de seus livros traduzidos e a obra Gli Invisibili e il segreto di Misty Bay, objeto de estudo desta Dissertação de Mestrado, já ter sido motivo, inclusive, de um estudo acadêmico na Università Degli Studi di Bari, entendemos ser necessário, ainda, apresentar o nosso autor. Isso se deve por se tratar de um escritor contemporâneo que pouco freqüenta as antologias da Literatura Italiana. Esse fato, sob nosso olhar, revela a pouca abertura da crítica literária italiana para os temas tratados na obra de Del Ponte.
O escritor italiano Giovanni Del Ponte é o caçula de três irmãos, tendo nascido em 7 de agosto de 1965. Desde cedo, tinha preferência por ficar em casa a ir à escola, para assistir desenhos animados na televisão ou, ainda, para ouvir histórias de terror, que eram contadas por uma babá. Relata também que gostava de ir sempre, com sua avó paterna, ao mercado Nizza Monferrato (Asti), para comprar revistinhas em quadrinhos em um sebo.
relato do próprio autor. Essa falta de atenção às aulas, uma sua característica escolar, indicada por seus professores, era acrescida também por uma timidez que o impedia de criar laços de amizade com seus companheiros de classe. No entanto, foi a partir de uma amizade infantil, com Cristiano, um colega de escola que tinha um projetor de 16 mm, que fez esses dois jovens terem a primeira incursão em curtas-metragens.
Foi, exatamente, essa participação na produção de curtas-metragens, que fez Del Ponte, ainda criança, na época do Liceu Clássico, tornar-se mais popular. Mais tarde, essa produção infantil não foi abandonada, pois, mesmo na Faculdade de Letras de Turim, não deixou de realizar filmes independentes.
Ainda na graduação, com alguns seus colegas de classe, criou uma revista intitulada Filmania’s Slurp. O objetivo dessa publicação era apresentar resenhas de filmes mais interessantes para o seu grupo, como aqueles que tinham por tema o horror ou, ainda, a temática do fantástico, em geral.
Esses jovens editores marcaram o início da história do cinema japonês na Itália, pois eles foram os primeiros a dedicarem a publicação de um texto monográfico, escrito por Riccardo Esposito, sobre esse gênero fílmico.
Como se pode notar, o escritor italiano começou a escrever muito jovem. Com efeito, as suas primeiras incursões em produções textuais foram roteiros de curta-metragem, como La mummia (1980) e Futuro Remoto (1985), em que homenageia Romano Scarpa e suas histórias do Topolino, além de revistas de crítica de cinema.
Del Ponte, quando era estudante da Faculdade de Letras em Turim (Itália), escreveu contos que apresentavam seres mágicos, histórias de suspense e terror, sendo esses alguns dos temas principais presentes em suas obras.
biodiversidade atual, entre tantos outros fatos que a sociedade contemporânea vivencia.
Através do espaço ficcional, os livros de nosso escritor promovem uma reflexão por parte dos pequenos leitores a respeito das temáticas tratadas em sua obra. O apelo ao mundo infanto-juvenil faz que subitamente nos enamoremos dos meninos descritos em sua obra, como também é natural que uma adolescente se identifique com a corajosa Crystal, uma das protagonistas da obra Gli invisibili e il segreto di Misty Bay, devido a sua personalidade forte e seus poderes telepáticos, traços de seu caráter, que a ajudam a passar por tantas situações de perigo.
Retornando à produção do escritor italiano, lembramos que, em seu primeiro conto Il Natale di Ben (1995), podemos encontrar, a partir da sugestão do próprio escritor, alguns elementos de caráter autobiográfico, tendo em vista que o próprio Del Ponte afirma, nas páginas iniciais do conto, que os protagonistas são um casal que, supostamente, refere-se a ele e sua esposa.
A sua opção pela literatura infanto-juvenil é uma forma de tentar (re)viver as emoções que teve quando criança, segundo afirma o escritor italiano. Essa escolha traz, também, um desafio de valorização e promoção da leitura entre os muito jovens, conforme reconhece Del Ponte. Uma de suas preocupações é que, no campo literário italiano, a literatura infanto-juvenil sempre é levada com menos seriedade pela crítica, como sendo algo menor em relação a outros textos literários.
Diante desse quadro sobre a leitura em seu país, Del Ponte se motivou a escrever textos que atraíssem o público jovem para a leitura, conforme já declarou em entrevista a revistas e jornais de prestígio italiano, e também mundial, como: L’Espresso, Corriere della Sera e La Repubblica. Assim, os temas de seus livros recorrem às questões do universo infantil contemporâneo, seus desejos e medos.
Foi a partir desse seu interesse que Del Ponte criou uma série intitulada Gli Invisibili cujo primeiro volume foi editado em junho de 2000 e que é nosso objeto de pesquisa. O sucesso dessa primeira publicação foi tanto, que se transformou em uma série vencedora de vários prêmios de literatura na Itália como: “Premio Nazionale di narrativa per ragazzi Comunità Montana dell’Alto Crotonese” (2003), Premio “Bancarellino” (2004) e Premio “Giovanni Arpino” (2005).
Del Ponte ganhou notoriedade não somente entre o público italiano, conforme pode ser confirmado pelas três edições dos três primeiros volumes da coleção, como também entre o público americano que concedeu ao autor europeu seis edições de Gli Invisibili e il segreto di Misty Bay, quatro edições de Gli Invisibili e il castello di Doom Rock e Gli Invisibili e la strega di Dark Falls. A crítica nesses dois países lhe foi bastante receptiva, tanto que fez de Giovanni Del Ponte um dos mais vendidos dentro de sua editora e, sem dúvida, um dos expoentes da literatura italiana atual.
Os temas de seus livros, conforme mencionado anteriormente, são voltados para o público infanto-juvenil, mas causam interesse, também, em um público adulto e até especializado em questões educacionais, conforme levantamento bibliográfico feito em nossa pesquisa.
escola, bulismo, as primeiras paixões, os questionamentos sobre a vida, mudanças fisiológicas e os hackers.
Isso permite que os jovens se identifiquem com as histórias e os personagens e, por essa razão, não é raro professores adotarem seus livros nas escolas, uma vez que esses provocam uma reaproximação da leitura naquele público.
Em Gli Invisibili e il segreto di Misty Bay tem-se a história de um jovem de 12 anos, chamado Douglas, que passa as férias de verão, na casa do tio materno Ken, em uma cidadezinha no norte, da Califórnia, chamada Misty Bay. Nessa cidade, encontra novos amigos, Peter e Crystal. A nova amiga havia aprendido com a avó o domínio das faculdades telepáticas.
A aventura se desenvolve a partir de um matiz policial, quando, logo no início da história, morrem, em circunstâncias misteriosas, a avó de Crystal e outros amigos de infância do tio de Douglas.
Essas mortes misteriosas começam a ser esclarecidas, a partir da descoberta de um diário antigo que datava da época em que o tio de Douglas tinha a mesma idade dos garotos. Esse diário possibilita a revelação de novos dados, relativos aos fatos semelhantes acontecidos em 1930, bem como remetem a uma personalidade, Angus Scrimm.
Esse personagem, Angus, era, naquela época, um estimado prefeito da cidadezinha californiana que, para aumentar os próprios poderes mágicos, decidira raptar alguns garotos e sacrificá-los. Somente a intervenção dos tios dos meninos da história, Ken e seus amigos, reunidos, como um grupo de resgate intitulado Gli Invisibili, conseguiriam salvar as crianças seqüestradas.
sobre esse fato, traz alguns elementos fantásticos, que serão retomados nos próximos capítulos desta dissertação.
No segundo volume, Gli Invisibili e la strega di Dark Falls, Douglas, Peter e Crystal têm alguns dias de férias, na Páscoa. A garota convida os amigos a irem a Dark Falls, uma cidadezinha de Massachussets, famosa pela lenda de uma bruxa chamada Maryann, que foi morta séculos antes pelo herói da cidade, Algernon Finch. Nessa batalha, morrem também o próprio herói e seu único filho.
É na chegada a essa outra cidade americana, que Douglas e Peter descobrem o desaparecimento de Crystal. Segue, ainda, a saga de mortes misteriosas. Os jovens protagonistas são os únicos a saberem sobre o retorno da bruxa e sobre os objetivos que ligavam esse regresso ao passado da feiticeira. As estratégias dos personagens para superar os obstáculos, nessa história, são a coragem para resolver o enigma, o simulacro, em que nem tudo é realmente como parece ser.
O terceiro volume da série, intitulado Gli Invisibili e il castello di Doom Rock, o protagonista Douglas teve de aceitar a proposta do pai de terminar a escola média, no colégio de Doom Rock. A tradição desse edifício escolar fazia o prédio receber a denominação de castelo pelos habilitantes locais.
Nessa escola, o jovem protagonista se depara não só com uma férrea disciplina escolar, mas também deve se defender de uma forte violência que aquelas paredes escondiam. Trata-se do bulismo, que ocorria na escola, na ausência do diretor.
A presença de elementos fantásticos ocorre também nessa obra de Del Ponte. Durante a noite, na escola/castelo, aparecem visitantes inquietantes, como um gato, que consegue atravessar paredes. Além dessa visita, acontecem também visões, uma relativa a uma figura sem cabeça que vigia o protagonista, além, de uma outra, mais importante, a de um garoto fantasma.
Crystal, que sente o pedido de ajuda de Douglas e segue para o colégio Doom Rock, em companhia de Peter.
Nesse reencontro com Douglas, Peter e Crystal descobrem que o colégio tem um segredo a ser revelado e que está perdido no tempo. A única solução encontrada é a utilização dos poderes de Crystal e, também, da extraordinária capacidade de dedução de Peter. A ajuda desses dois amigos de Douglas será acrescida com as colaborações de uma jovem psicóloga da escola, inexperiente, e de um professor, cujo passado é misterioso.
No último livro da série Gli Invisibili e l’enigma di Gaia, o centro de estudos Nova Era dá lugar a um experimento sem precedentes: uma equipe de telepatas tentará unir as próprias mentes para multiplicar seus poderes. A tentativa é um sucesso, mas inesperadamente os telepatas interceptam uma mensagem de ajuda vinda de muito longe, mas ignoram o lugar de onde parte e as suas causas. A questão mais intrigante é o porquê de um comando misterioso querer raptar Pumpkin, a mais jovem participante do experimento.
Nessa história, a responsabilidade dos Invisíveis é a proteção da jovem ameaçada de rapto, além das ações necessárias para salvar o planeta com a ajuda de um misterioso cyberativista, o Capitão Nemo.
Essas informações acerca da produção literária de Del Ponte evidenciam que se trata de um escritor que busca, através de elementos fantásticos, abordar questões sociais problemáticas da contemporaneidade. A questão didático-social é interessante, sem sombra de dúvidas, mas não será tratada nesta dissertação, dado o objetivo de discutir a elaboração das estratégias do fantástico, na narrativa do escritor italiano.
atualidade é atenta, pois no sítio, que divulga as publicações do autor e a agenda de atividades culturais, há também orientações e indicações de leitura para os jovens das mais variadas faixas etárias.
É necessário ainda acrescentar a preocupação que se faz presente, nesse sítio do escritor italiano na internet, que é também direcionada aos profissionais da educação. Nesse tópico, Del Ponte faz uma seleção de títulos divididos por assuntos e idade, a fim de que professores e pedagogos possam escolher, mais adequadamente, as obras de acordo com o tema desejado.
Até o momento essas informações pesquisadas auxiliam na compreensão da fortuna crítica de Del Ponte, que, por um escritor muito jovem, ainda não freqüenta o cânone literário italiano. A sua obra, entretanto, traz muitas inquietações, em particular, sobre o fantástico. Esse é o argumento do terceiro capítulo, que trará a discussão dos conceitos e as noções relativas ao fantástico. Entretanto, antes, no próximo ainda no presente capítulo, faz-se necessário apresentar a obra que foi escolhida para o corpus de análise desta dissertação Gli invisbilie e il segreto di Misty Bay.
2.2. UNIVERSO NARRATIVO DE GLI INVISIBILI E IL SEGRETO DI MISTY BAY
pretende usar os desaparecidos em um rito mágico que lhe proverá poderes infinitos podendo, com isso, dominar todas as forças do planeta. Os seis garotos, auto-intitulados Gli Invisibili impedem que essa cerimônia mágica aconteça, aprisionando o então prefeito em uma caverna, através de uma maldição, conferida por eles, ao mago, através do livro mágico Malartium, que se perdeu no mar.
A segunda parte da narrativa se passa sessenta anos mais tarde. A sucessão de mortes continua, porém não mais com crianças, mas com adultos. Dessa vez, três garotos, também de 12 anos, se encontram na pequena cidade litorânea. As mortes infundadas mobilizam toda a cidade, especialmente aqueles jovens, já que as vítimas são seus familiares. Além disso, eles descobrem que a geração de seus avós, as então crianças da primeira fase, havia fundado um grupo de pequenos heróis, que resolviam casos sobrenaturais. A diferença, entre essas gerações, é que a contemporânea se descobre possuidora de poderes mágicos que a auxiliarão na luta contra o grande mago.
Durante toda a história, esses jovens têm de enfrentar perigosos percalços até chegarem à verdade dos fatos. A maior parte das ações mágicas e das decisões tomadas pelos pequenos heróis desenvolve-se dentro de uma caverna.
É, portanto, um elemento importante e que merece destaque. Primeiramente deve-se levar em consideração que os ritos mágicos, em sua maioria, têm uma ligação com a natureza; é a forma que o homem encontra de se integrar a ela. Esse tema será retomado mais adiante.
Penombra. Odore di muffa e umidità.
(...) è notte e sta piovendo. Lampi continui rischiarano il cielo e le vie sono cosparse di pozzanghere scure. (...) adesso (Douglas – grifo nosso) gli sembra di sentirei l freddo dell’ acqua sulla pelli e l’odore dell’ oceano portato dal vento. Una luce giallognola colora la piaggia.
(...) si trovano nell’ ufficio delllo zio Ken, uma stanza arredata com mobili da ufficio anni Cinquanta (...) Le pareti erano ricopete di quadri (...) 16.
Outro fator que merece ser destacado são os duelos. Esses, na maioria das vezes, dão a ilusão de surpreender sempre os nossos jovens heróis, permitindo que afrontem as dificuldades, ressaltando o valor da coragem que, quase sempre, é a característica principal de um herói.
Essa tensão, que implica um suspense ainda maior dentro da história, é outro elemento fundamental que prende o jovem leitor até o fim da trama, ainda que ele saiba que o final será bem-sucedido.
Essa estratégia narrativa consegue criar uma experiência de aventura pessoal em cada leitor, que dialoga com aquele texto. O embate corporal e a tensão provocam nos personagens um amadurecimento diante dos fatos, das tomadas de decisões ao longo da história; o que poderíamos comparar metaforicamente como um amadurecimento também do leitor, que tendo a mesma idade dos protagonistas, tende a superar dificuldades da fase de criança para a adolescência.
A crítica literária, tanto na Itália quanto nos Estados Unidos, recebeu essas primeiras publicações de Del Ponte de forma bastante atenciosa, evidenciado pelo sucesso na distribuição das edições de seus livros. Entretanto, é necessário lembrar que os estudos de italianística ainda carecem de trabalhos que discutam de forma mais acadêmico-literária os textos do escritor italiano.
È interessante retomar o ambiente da caverna, pois é nesse lugar que a maior parte das ações mágicas e das decisões tomadas pelos pequenos heróis, como já mencionamos anteriormente.
Em Gli Invisibili e il segreto di Misty Bay esse espaço – a caverna - é constante em toda a narrativa e que, no nosso entendimento, pode ser considerado como um personagem.
Cabe, entretanto, salientar que se trata de um espaço que se torna propício para um enfoque da interiorização das personagens, uma reflexão psicológica que leva o indivíduo à maturidade. Os maiores sofrimentos acontecerão dentro desse local, quase completamente escuro, em que apenas um feixe de luz é o fio condutor para a saída, para a “salvação”. A caverna, diferentemente daquela que propõe Platão, esconde o saber, o conhecimento. No coração da caverna, tem-se o livro mágico Malartium que é alvo dos antagonistas e que através do qual se põe em prática o feitiço devastador no mundo.
Nota-se que esse local, que não possui qualquer tipo de ação voluntária, marca um retorno às origens, o fechamento/início de um ciclo que jamais terminará. É nesse ambiente da caverna que se encontra o maior desafio dos pequenos heróis. É, também, onde os maiores percalços acontecerão, sendo o único lugar onde ocorre a sensação de que a ilusão não existe e, ao mesmo tempo, configura-se como o lugar ideal para as manifestações mágicas.
A multiplicidade de personagens, nesse espaço que é a caverna, motivou-me a fazer alguns levantamotivou-mentos sobre esses aspectos, tendo em vista que esse é um traço muito peculiar, nesta obra de Del Ponte, como já mencionado antes.
As primeiras impressões conceituais sobre os personagens de que se tem notícia, como nos confirma Beth Brait17, vêm da literatura grega e da latina, com base nos estudos empreendidos por Aristóteles e que perduraram até meados do século XVIII. Essa tentativa de representação do homem na arte – mímesis –, como aspecto de entretenimento, foi utilizado por Horácio, enfatizando seu
aspecto moral, nos permitindo, portanto, analisar os personagens a partir de um modelo humano.
De certo modo, a concepção de personagem divulgada pelo pensador latino contribui de forma significativa para que se acentue o conceito de imitação propiciado pelo termo mímesis para a reinstauração da finalidade utilitarista da arte (...) 18.
Na Idade Média, período em que os valores religiosos foram colocados como supremos e imprescindíveis, a produção literária foi fortemente dominada por interesses cristãos. O elemento da narrativa que mais recebeu influências foram os personagens, visto que cada vez mais os valores éticos e religiosos se sobrepunham à personalidade desses que, conserva na Idade Média o caráter de força representativa, de modelo humano moralizante, servindo inteiramente aos ideais cristãos.19
A partir da segunda metade do séc. XVIII esse padrão entra em declínio. Do final da Idade Média até o começo do século XX, uma evolução começa a surgir. Evolução essa no sentido de que os personagens não possuem mais uma forma pré-determinada de beleza ou status social de onde traçaríamos seu destino. Agora, eles possuem uma vasta diversidade psicológica, sendo essa a característica posta em destaque, assim como uma variada mobilidade social, o que nos fornece segundo Yves Reuter uma possibilidade de transformar-se do início do romance até seu fim 20. Com essas novas características, os personagens tornam-se mais realistas e deixam de viver, muitas vezes, aquele destino heróico e esperado:
Mais genericamente, o herói deixa seu altar para dar lugar à “personagem principal”, os retratos expandem-se e não
18 BRAIT, Beth. A personagem. São Paulo: Ática, 1990. p. 35 19 Ibid., p.36.
estão mais submissos ao Belo, as tramas podem variar, não sendo mais estabelecidas de antemão 21.
Em Gli Invisibili e il segreto di Misty Bay, pode-se traçar exatamente esse novo perfil dos personagens, conforme algumas considerações dos formalistas, como Todorov (2004) e A. J. Greimas (1999).
Assim, primeiramente, nossa atenção, conforme nos ensina Todorov, recairá sobre as características dos personagens, sua descrição, para depois, seguindo os ensinamentos de Greimas, tentarmos compreender as ações por eles tomadas, ou seja, a história em si.
Basicamente, nos deteremos nos caracteres principais: Douglas, Crystal e Peter, considerados personagens redondos, seguindo a classificação de Cândida Vilares Gancho22, em que encontramos uma variedade maior de características que podem ser marcadas pelos aspectos físicos, psicológicos, sociais, ideológicos e morais.
Geralmente, nas histórias infanto-juvenis, o protagonista é preferivelmente um garoto de mesma idade do público alvo do livro. De fato, Douglas, Crystal e Peter, os protagonistas, são garotos de 12 anos, portanto o campo imaginário e fantasioso é um de seus traços que merece destaque.
Ao iniciarmos a leitura do livro, a informação sobre a idade é importante porque nos indica que entraremos em um mundo onde o imaginário domina, sendo esse dado fundamental para que estabeleçamos, conforme propõe Umberto Eco23, o contrato narrativo, o qual nos permitirá aceitar ou não, dados acontecimentos dentro da história:
[...] o leitor efetivamente faz o texto revelar sua multiplicidade potencial de associações. Tais associações são produto do trabalho da mente do leitor sobre o material bruto do texto, embora não sejam o texto em si [...] Essa interação obviamente não ocorre no texto em si, mas só
21REUTER, Yves. Introdução à análise do romance. São Paulo: Martins Fontes, 2004. p.24. 22GANCHO, Cândida Vilares. Como analisar narrativas. São Paulo, Ática, 2004, p. 21-22.
pode existir através do processo de leitura. [...] Esse processo formula algo que não está formulado no texto e, contudo representa sua “intenção” 24.
Essa reflexão nos auxilia a entender o personagem que aparece em primeiro plano e se destaca da trama, porque tem vida própria e não se deixa guiar, somente, em função da história. Isso permite entender o momento em que um dos personagens, Douglas, decide não querer mais participar das investigações: “Voglio tornare a essere un ragazzo normale e approfittare le vacanze estive come tutti gli altri della mia età. Niente porta!”25
Na passagem do indivíduo comum para o herói, o interesse se distancia da ação, do movimento, da vida do personagem. A trama, ainda que muito rica de fascínio pelos percalços e suspenses, passa a ser o pano de fundo e tem como provocador a motivação aventureira do protagonista. As suas mudanças representam, de regra, um movimento em direção à maturação, e, por conseqüência, em direção a novas formas de experiências e, também, da descoberta de novos horizontes na vida.
A intenção de Del Ponte, naturalmente, é tentar passar para o leitor uma espécie de retrato embaçado dos personagens, utilizando-se, para isso, descrições generalizadas. Em Gli Invisibili não é diferente. Os personagens importantes vêm descritos, porém, de uma forma pouco minuciosa, o que cria uma espécie de mistério e magia em torno deles.
Tradicionalmente, o personagem principal ou herói é quase sempre belo e inteligente; porém, Douglas é um menino baixinho e gordo, ou seja, o oposto do tradicional: “[...] doveva sgranocchiare qualcosa quando leggeva o andava al cinema, e infatti il suo peso era di un bel po’ superiore a quello dei ragazzi della sua età.” 26
Essa é uma marca, como já dito anteriormente, das novas faces dos personagens encontrados no século XX. Além disso, o menino órfão de mãe, que
recebe pouca ou quase nenhuma atenção do pai, ocupado com o trabalho, apresenta os problemas existenciais comuns a qualquer pré-adolescente daquela idade, derivados da falta de carinho, atenção e, não menos importante, das primeiras inserções no campo amoroso.
Douglas se apaixona pela primeira vez por Crystal, sua amiga em Misty Bay. Durante a história, o personagem amadurece, tornando-se mais independente e isso lhe dá coragem para enfrentar o grande Mago. Outra característica que vale à pena ressaltar, é que Douglas é um ‘portal’, ou seja, como é explicado por outro personagem da obra, Crystal, ele é um indivíduo que permite uma ligação entre o tempo cronológico da história e os tempos e espaços mágicos, sejam eles no passado ou no futuro.
Com efeito, é através de Douglas/portal que se dá um efeito narrativo singular, pois esse personagem quando fecha os olhos é como se abrisse, para o leitor, uma porta para dois tempos e espaços. Trata-se, nesse caso, de uma passagem para o desconhecido para o personagem, que encontra diante de si um mistério. Nesse texto de Del Ponte, esse efeito confere uma espécie de acesso para uma provável realidade superior ou inversa à realidade tida como natural. É esse personagem que permite a libertação da primeira geração de Gli Invisibili e, em companhia de seus companheiros, abre a porta para a morte e para o fim da ilusão, provocada por Damon, o feiticeiro que ameaça os jovens Invisibili de Misty Bay, trinta anos depois. Essa manifestação da passagem se dá através dos sonhos espontâneos ou não, sendo por si só uma representação emotiva, simbólica, complexa, atemporal e de várias dimensões. Apesar de bastante interessante, o tema do sonho não será tratado nesta Dissertação.
Crystal é um dos personagens principais da história. É a partir da descrição de sua pele clara, como o cristal, que nasce o seu epíteto. Ela funciona como o elo entre Douglas, Peter e o mago, Angus Scrimm.
Um outro aspecto, também interessante, é o fato de a pedra cristal se formar na rocha e, assim, a sua ligação com a caverna. Trata-se, então, de um elemento que estreita o elo entre homem e natureza. Por se tratar de uma pedra transparente e, portanto, que possibilita ver através, ou seja, a transparência. Assim se configura o personagem Crystal. Com seus poderes telepáticos é a intermediária entre o visível e o invisível, personifica-se como a sabedoria e adivinhação. É ela, na obra em estudo, o personagem que desperta para a consciência as demais, que são iludidas pelo grande mago.
A pedra cristal é, também, frágil e delicada; talvez, por isso, a escolha de uma menina que é extremamente sensível a ponto de possuir o domínio da telepatia e, por conseguinte, servir de elo para que os garotos entrem na dimensão mágica. Ao mesmo tempo em que percebemos a suavidade do branco da pele da menina, têm-se a oposição com seus cabelos extremamente ruivos e chamativos que, de certa forma, escondem uma personalidade forte, que não se deixa dominar facilmente.
Potrei cercare di ipnotizzarti, entrare in contatto mentale con te (Douglas – grifo nosso) e Peter, e indurti a sognare cosa accadé la notte in cui gli Invisibili sconfissero Scrimm e persero il Malartium. [...] Poco dopo, Douglas stava sdraiato [...] adesso rilassati e guardami negli occhi [...] l’esperimento era iniziato 27.
Podemos observar que Crystal é a única representante do sexo feminino da nova geração de Invisíveis, que guia à transcendência, nesse caso, à ruptura da “circunstância” ilusória, em que vivem os personagens.
A tarefa a ser resolvida pelos garotos é encontrar o livro mágico Malartium, que está escondido na caverna. A sua descoberta permitirá desvendar o mistério das mortes em Misty Bay, impedindo que as forças do mal adquiram poderes incomensuráveis.
Será, exatamente, Crystal, com seu poder da mente, que guiará Douglas e Peter até o livro perdido na caverna. Sua função na história é muito próxima à simbologia do cristal, que transmuta a luz, ilumina. E Crystal faz exatamente isso, converge à luz o elemento escondido da narrativa; liga não somente seus companheiros ao grande antagonista, como também une sua geração à geração anterior dos Invisíveis, uma vez que ela é a única na cidade, que tinha a informação da existência da primeira formação do grupo de jovens heróis.
O outro protagonista, Peter, é o que está colocado no pano de fundo. Isso porque sua marca é a inteligência; trata-se do Nerd1 convencional. A sua contribuição ao grupo é buscar maneiras para resolver os obstáculos nas batalhas.
Timido e riservato, non aveva molti amici in città e trascorreva la maggior parte del tempo con la madre e le amiche [...] portava gli occhiali. [...] Immagino che quest’anno fossi il primo della classe, non è così? Peter Peaky abbassò lo sguardo accennando a un sorriso. Be’, in verità [...] 28.
Esse personagem recebe um tratamento diferenciado, pois dele não há nenhum tipo de descrição, quer física quer psicológica. Percebemos algumas características suas ao longo da história, quando comparado a Douglas. A vantagem de Peter é que, por ser morador de Misty Bay desde o nascimento, conhece todas as partes da cidade, sendo esse conhecimento a chave que auxiliará Douglas e Crystal a reaver o livro mágico Malartium.
1
Palavra de origem inglesa, utilizada para designar pessoas muito inteligentes e de difícil relacionamento social
Outro personagem importante da trama, que se opõe aos três garotos, é Angus Scrimm. É o ex-prefeito da cidade que, trinta anos depois, possui respeito e prestígio de todos; é rico e velho, o que lhe dá status de sabedoria, experiência e, por conseguinte, o de mago da história.
Os magos trazem consigo a representação da sabedoria, principalmente, devido à idade que, geralmente, é avançada. Não raro, esses personagens são de caráter maligno, egoístas e, portanto, aqueles que serão os antagonistas do herói.
No caso de Gli Invisibili e il segreto di Misty Bay a expectativa do grande mago é quebrada. Trata-se de um personagem que se modifica durante a narrativa. Passa do perfil do Mal para o do Bem, depois de permanecer trinta anos preso dentro da caverna, lugar que propicia a reflexão.
O terrível prefeito da cidade de Misty Bay, Angus Scrimm, reflete sobre os atos cometidos e sobre o valor da magia, decidindo, então, mudar de posicionamento diante dos acontecimentos, portanto, se junta aos jovens heróis para vencer Damon Knight que assume, então, o papel de mago cruel da trama.
Na obra em estudo, um outro elemento importante é a representação do jogo de xadrez. A descrição das peças desse jogo, na história, assume conotações novas, pois a peça principal – a rainha – é representada por Douglas, que defende o rei até o final do jogo, representado por Damon Knight. Este último manipula todos por todo o tempo, assim como os peões, Crystal e Peter, até ser desmascarado no final.
mais importante, é debaixo das regras impostas por ele que transparecem as reações mais pessoais às pressões externas.”29
É sob esse prisma que Angus Scrimm irá ajudar os garotos. O Mago é o ponto de partida e de finalização do grande jogo ilusório da história.
Cominciò a disporvi frammenti di pietra nei quali solo i suoi occhi avrebbero potuto riconoscere le pedine del gioco. [..] Il vecchio assaporò quel breve lasso di tempo che lo separava dall’inizio della partita [...] Alla fine allungò la mano e afferrò il primo pezzo, il primo personaggio. E fece la sua mossa 30.
No entanto, o verdadeiro vilão é Damon Knight, personagem bem-sucedido, proprietário de uma mineradora de diamantes na África do Sul, indubitavelmente, a pessoa mais rica da cidade. Era reconhecido não somente pela bela mansão, que trinta anos antes do desaparecimento fora de Angus Scrimm. A descrição física desse personagem é destacada, pois além de possuir uma imagem jovial, passados os anos, em relação à idade de seus contemporâneos, se apresenta sempre aos demais com vitalidade. Ele incorpora os traços do homem bem-sucedido em todos os aspectos. Damon é um personagem ambíguo, no sentido de que sua imagem inicial na história era boa e, com o desenrolar dos acontecimentos, é desvelada a face maligna do personagem: “[...] Quando il mago poté finalmente stringere fra le mani il libro che aveva tanto cercato, il suo viso si deformò in un’espressione di perverso trionfo [...]”31
Aparentemente, esse personagem tem tudo o que qualquer pessoa possa querer: uma família, reconhecimento profissional, uma vida cheia de regalias, mas o que lhe interessava, efetivamente, era a magia contida no livro encontrado na caverna pelos Invisibili. A ambição do personagem pela magia o transforma.
29 CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain, Dicionário de Símbolos: (mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números). Rio de Janeiro: José Olympio, 2000, p. 518.
Ao ser derrotado, a imagem de seu sucesso material, profissional e familiar revela-se ilusório para todos da cidade de Misty Bay. O último duelo dos invisibili com Damon Knight/Angus Scrimm ocorre por intermédio da leitura em voz alta de uma profecia a qual indicava que o mago havia quebrado um juramento, quando ainda Dalmon pertencia à primeira geração de super-heróis, alguns anos antes, tendo-os traído. A descoberta dessa traição fez o ciclo se romper: “Damon Knight, ripeterono insieme, ‘hai rinnegato i tuoi ideali, l’amicizia, il patto degli Invisibili. Per questo sarai maledetto.’ E questo fu tutto.”32
Não menos interessante é o nome do Grupo Gli invisibili, nessa narrativa de Del Ponte, cuja origem é explicada a partir de uma brincadeira dos antepassados dos personagens descritos nessa obra, ou seja, as gerações anteriores dos parentes dos personagens da trama narrada.
Os nomes desses atuais invisíveis ficcionais têm seus pares homônimos congelados no tempo ainda da infância, como que, por algum encantamento, suas almas não tivessem amadurecido e ecoassem pelos cantos daquela cidade.
A infância que abandona o corpo amadurecido e adulto, mas que continua manifesta em um passado, bastando para isso saber escutar, encontra na obra de Del Ponte uma sua explicação realista-imaginária bastante peculiar.
Se bem observarmos, esses meninos não possuem personalidades, de fato; eles são, na verdade, uma representação desses seus ancestrais. Exercem a mesma função de seus parentes, em épocas anteriores. Portanto, o nome invisibili se encaixa perfeitamente, uma vez que não se tem um escalonamento fixo dos atuantes do grupo, já que toda e qualquer decisão dos garotos sempre se remete aos ensinamentos de uma pessoa mais velha, ainda que através de cartas e diários, daqueles que faziam parte da primeira geração de super-heróis.
O grupo de meninos se modifica segundo a época e a necessidade, sendo uma espécie de dobramento ou espelhamento. Além disso, esse nome nos sugere a seguinte questão: invisíveis aos olhos de quem?
Como as respostas seriam várias, acreditamos que o nome tenha sido escolhido em função da imaginação. São invisíveis aos olhos da razão, aos olhos do ceticismo adulto, visto que esses super-heróis travam duelos somente em um mundo imaginário, intocável, ao qual nem todos têm acesso. Somente aqueles que permitem a manifestação da criança dentro de si serão capazes de entender e ver os “invisíveis”.
Compreendemos que, neste momento, trouxemos algumas das questões que nos provocaram, desde o nosso encontro com Gli Invisibili e il segreto di Misty Bay, de Giovanni Del Ponte, relativas à construção desses seus personagens.
3. ALGUMAS QUESTÕES SOBRE O ELEMENTO FANTÁSTICO NA
LITERATURA OCIDENTAL
Algumas das características mais comuns nos textos fantásticos podem ser identificadas a partir de uma típica solução estética, de um dado pano de fundo fiabesco, de certo gosto pelo grotesco e de uma tendência alegórica.
Naturalmente, os textos fantásticos adotaram procedimentos e temas de textos tradicionais e, também, alguns novos, como por exemplo, da poesia lírica romântica ou do romance em suas várias formas: o romance de aventura, a narração romanesca, a autobiografia, o romance de informação, dentre outros.
Utilizou-se até mesmo de códigos de expressão não-literários como a música, que é muito importante, tematicamente, nos contos, a fim de compor a atmosfera de uma cena; e também da arte figurativa como os retratos, estátuas e outras figuras que ajudam a emoldurar uma cena.
Se bem observarmos grande parte das formas narrativas do século XIX se estrutura sobre a formação sentimental e intelectual de um caráter individual, através das suas relações com os personagens, o ambiente social e o passado histórico. Essa estrutura está claramente imposta ao romance, principalmente por ter o centro no homem como entidade individual, responsável pela própria auto-afirmação e representação da burguesia, preceitos propostos pelo iluminismo.
No entanto, quando analisamos a narrativa fantástica, a estrutura típica são as dualidades, a personalidade dupla, dividida, fragmentada e personagens que não conhecem nenhum equilíbrio entre mente e sentidos, entre razão e desrazão. Essa dualidade pode ser bloqueada psicologicamente, por se tratar de aceitar o “si mesmo” visto de fora.
Conforme nos orienta Freud33, o duplo pertence a essa fase de indistinção entre o eu e o outro e o mundo. A mesma indistinção retorna em certas patologias mentais, além de ser explorada no domínio da ficção e da arte em geral, por ser
rica em sugestões e crítica do que somos, do que poderíamos ser e das fantasias de poder ser o outro, dentre outras questões.
Entendemos que o fantástico, em uma significação ampla, trazida do léxico, liga-se à fantasia, ao fora da norma, ao irreal, à imaginação e ao quimérico. A partir disso, pode-se deduzir que o fantástico opera numa inversão do mundo que se conhece como habitual. A literatura é, portanto, o terreno do fantástico, já que cria e/ou recria o mundo tangível e intangível.
Nesse sentido, poder-se-ia afirmar que toda obra de literatura seria, então, fantástica. Percebe-se, entretanto, que o fantástico ocorre em confronto a um real conhecido, em relação a um tempo, a um espaço e a um lugar, a indivíduos singulares aos quais os personagens da ficção fazem referência.
Mas como delimitar esses traços tão tênues entre um real e um fantástico em termos de campo literário?
Assim, em 1970, através da obra Introdução à Literatura fantástica (2004), Todorov definiria o fantástico como um gênero vizinho a dois outros: o estranho e o maravilhoso.
O estudo, apresentado nessa obra, sobre a estrutura do gênero fantástico no campo literário, observa que um de seus elementos característicos é a ambigüidade, sem a qual a obra passa a pertencer a outro gênero: ou à literatura maravilhosa e à literatura estranha.
O fantástico pertence exclusivamente à prosa de ficção e fundamenta-se essencialmente na hesitação do leitor quanto a real natureza dos fabulosos acontecimentos narrados no conto, na novela ou no romance.
Se de um lado, o fantástico indicia o estranho, de outro, o maravilhoso. Se por alguma razão, a hesitação desaparecer, dependendo da maneira como isso se der, a narrativa poderá ter maior incidência de um ou de outro, respectivamente.
No entanto, não apenas o estranho e o maravilhoso puros referendam à narrativa fantástica. Há outros matizes que precisam ser levados em consideração.
Todorov atribui um nome composto a um tipo de narrativa híbrida, uma que começa cheia de hesitação e termina no estranho. Dado o início ambíguo e o arremate racionalista, essa narrativa é considera pelo teórico como sendo do tipo fantástico-estranho. Tem-se ainda o fantástico-maravilhoso, em que os acontecimentos terminam com uma aceitação do sobrenatural. Nos dois casos, o efeito do fantástico se produz somente durante parte do enredo.
Diante disso, podemos perceber que, por um lado, o estranho se aproximaria da realidade, no sentido em que cada fato seria definido e, também, explicado, através de parâmetros naturais e científicos, constituintes da realidade humana de certo tempo e espaço. Por outro lado, o maravilhoso residiria num mundo imaginário e impossível para a realidade humana, realidade sempre balizada no tempo e espaço mítico, em que esse maravilhoso ocorre. Esse novo mundo se encarregaria de gerar e confirmar suas regras e sua lógica de comportamento.
Dessa forma, observamos que o fantástico opera uma incerteza em relação ao mundo ou ao fato descrito, não permitindo que se estabeleçam nem o estranho, nem o maravilhoso, nem tampouco o sobrenatural.
Isso porque o fenômeno fantástico não permite uma explicação dentro da lógica dos mundos possíveis. Essa falta de elucidação é uma das características que instaura o fantástico, ou seja, o mundo da hesitação e do equilíbrio instável, pois onde houver a possibilidade de uma explicação, não será fantástico, mas poderá ser algo ligado ao fenômeno estranho ou ao maravilhoso.
principal. Tendo em vista que esta ocorre sempre em relação a um mundo real e a um outro sobrenatural, sendo essa uma sensação produzida no leitor implícito desse tipo de texto, ou seja, provoca um equilíbrio instável, cuja manutenção permearia toda a obra.
Nesse sentido, caso aconteça um rompimento do equilíbrio a partir da leitura quer em relação ao mundo real, quer em relação ao mundo sobrenatural, o fantástico não poderia ocorrer. Todorov foi criticado exatamente em relação à importância dada ao efeito produzido no leitor implícito.
No entanto, essa preocupação com a sensação do leitor do texto fantástico, já estava presente em um outro estudo anterior ao de Todorov. Trata-se do estudo de Lovecraft, que indicou um critério para definir esse gênero a partir não da hesitação, explicando que
“O teste básico do verdadeiro sobrenatural é simplesmente este – se é ou não suscitada no leitor uma profunda sensação de medo e de contato com esferas e poderes desconhecidos...” 34.
Neste caso, no entanto, como podemos perceber, o sentimento suscitado será o medo e não a hesitação. Essa particularidade diferencia os dois teóricos, um compreende a sensação do texto fantástico a partir da hesitação, outro a partir do medo.
A hesitação provocada no leitor, como reflexo da narrativa, é uma condição para a identificação, portanto, do texto fantástico. Esta ocorre em três níveis, sendo uma em relação ao mundo dos personagens, uma outra em relação à identificação da hesitação tanto por parte do personagem quanto por parte do leitor, e a última diz respeito a uma atitude de rejeição à leitura alegórica ou poética da obra.
Seguindo essas três condições do tipo de hesitação para o gênero fantástico, há o entendimento do que Todorov caracteriza como mundo real e