O presente capítulo visa a discutir o tempo e o espaço como elementos importantes para a construção do fantástico na narrativa de Del Ponte, objeto de nossa investigação.
O tempo em Gli Invisibili e il segreto di Misty Bay é um fator bastante significativo para o próprio desenvolvimento da narrativa. É ele que decide o ritmo da história. No romance de Del Ponte, o tempo parece ter uma característica elástica, ou seja, parece poder se arrastar permitindo que os personagens façam uma regressão a acontecimentos relevantes para a compreensão da história no passado e, ao mesmo tempo, permite ao leitor fazer hipóteses sobre o desenlace das tramas, retardando o final surpreendente do texto de Del Ponte.
A questão temporal não é recente no universo narrativo. O interesse por esse elemento vem desde o mundo moderno, como nos aponta Mendilow48. É pertinente considerar que aqui o mundo moderno é entendido como o período de mudanças radicais como aquele que se refere às revoluções na ciência com a Teoria Evolucionista de Darwin, que modificou o conceito de criação de espécie humana, conforme foi pontuado no capítulo dois, desta Dissertação.
O tempo em consonância com o espaço compõe elementos-chave para uma leitura fantástica de Del Ponte. Para começarmos a análise, é necessário destacar os vários tempos existentes dentro da narrativa focalizada. O primeiro deles é o tempo cronológico, em que o homem não tem controle. Trata-se de um tempo que é sentido de forma independente das experiências do homem. O segundo é o tempo psicológico ou tempo vivido. É um tempo subjetivo e qualitativo em oposição ao cronológico, correspondendo à experiência da sucessão dos estados internos do indivíduo. Esse tipo de tempo adquiriu grande
extensão na Literatura Ocidental, na descrição dos estados internos das personagens, no qual todas as experiências são vistas. Esse elemento refere-se ainda à sua consciência como parte do vago passado das experiências das personagens. Não se trata de um tempo que avança segundo as medidas objetivas do relógio, mas, sim, de maneira subjetiva, pois não existe uma linha única e contínua desse tempo, e sim, um misturar de passado, presente e futuro. Os estados internos das personagens parecem não respeitar a ordem de sucessão do tempo cronológico e realmente não o fazem, pois todos os fatos apresentam-se sobrepostos a um passado, a um presente e a um futuro que se fundem, conforme pode ser observado no seguinte trecho da narrativa em estudo:
[...] i bambini sono prigionieri dentro la casa, in attesa di un destino troppo orribile [...]49
Quella missione non è come le altre: questa volta il pericolo è reale. Se qualcuno dei suoi (Gli Invisibili – grifo nosso) verrà catturato, gli toccherà una sorte ancora peggiore che a quei bambini, e la responsabilità sarebbe sua.50
(Douglas – grifo nosso) Si rimise le cuffie e alzò lo sguardo sullo schermo, al di sopra delle poltrone centrali. Si era distratto... Chissà cosa stava succedendo agli Invisibili? Gli bastò un’occhiata per capire che qualcosa non andava. Fino a poco stava seguendo l’appassionante inizio di un giallo con una banda di ragazzi per protagonisti, e adesso eccolo davanti a un episodio dei Simpsons 51.
Percebe-se, desse modo, que o tempo da narrativa pode inverter a ordem dos acontecimentos ou perturbar a distinção entre eles, dilatando-os indefinidamente ou contraindo-o em um momento único.
Além disso, existem obras que apresentam uma economia de expressão, nas quais é relatado apenas o essencial, ou seja, observa-se uma luta contra o tempo e contra os obstáculos que retardam a realização dos fatos. Mas, existem
49DEL PONTE, Giovanni. Gli Invisibili e il segreto di Misty Bay. Roma: Sperling & Kupfer,
2000, p. 3.
50 Ibid., p. 4. 51 Ibid., p. 13.
narrativas em que “o tempo narrativo pode ser também retardado ou cíclico, ou imóvel”. Trata-se, segundo o escritor Italo Calvino, de uma duração que se faz presente sobre o tempo, permitindo a sua contração ou a sua dilatação, respectivamente52. Nesse texto calviniano, através de uma metáfora que compara a narrativa fantástica e o cavalo, é ilustrada a relação entre o tempo e a narrativa. Assim como o trote do cavalo depende do percurso a ser executado, a narrativa também imprime uma velocidade maior ou menor conforme os acontecimentos da obra. Isso pode ser exemplificado no seguinte trecho:
Un lampo rosso. Qualcosa colpisce Susan in pieno viso mandandola a sbattere contro una parete. Un altro lampo, un altro colpo e un altro ancora. In bocca il sapore del sangue. Gli abiti prendono fuoco nei punti in cui è stata colpita. Cerca freneticamente di soffocare le fiamme e si ferisce una gamba con il suo stesso coltello. Lo scaglia via con rabbia, afferra un cuscino da una sedia e con quello colpisce le fiamme spegnendole 53.
O tempo, assim como os outros elementos da narrativa, tais como o personagem e o espaço, é inseparável do mundo imaginário. Ele pode ser percebido através de algumas expressões temporais como, antes, mais tarde, neste momento, entre outras, ou apresentado através dos acontecimentos e suas relações. Desse modo, mesmo que não se trate de uma narrativa, na qual predomine uma estrutura de ação, o tempo fará sempre parte da narrativa. Ou seja, mesmo que não seja uma narrativa prevalentemente psicológica, em que são tratadas as experiências íntimas, bem como as transformações de estados de alma das personagens, a estrutura do tempo será de grande importância dentro da obra.
O embasamento teórico para o estudo do tempo na narrativa de Del Ponte, fundamenta-se em algumas questões do texto do crítico francês Gérard Genette, Figure III, Discorso del Racconto. Segundo Genette54 o estudo crítico da
52 CALVINO, Italo. Contos fantásticos do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 48-50. 53 DEL PONTE, Giovanni. Gli Invisibili e il segreto di Misty Bay. Roma: Sperling & Kupfer, 2000, p. 9 54 GENETTE, Gérard. Figure III. Discroso del racconto. Torino: Piccolo Biblioteca Einaud, 1976, p. 74.
narrativa deve concentrar-se sobre o plano do discurso narrativo, ou seja, sobre as relações entre a narrativa, a diegese e a narração55, levando em consideração três categorias essenciais, tais como o tempo, o modo e a voz. A primeira categoria diz respeito às relações temporais entre a narrativa e a diegese; a segunda, à forma e aos níveis da representação narrativa; e, finalmente, a terceira, às situações da instância narrativa produtora do discurso.
Tendo presente o que foi discutido no decorrer do capítulo 3, em relação à hesitação promovida pelo texto fantástico, entendemos que as relações temporais, nessa narrativa de Del Ponte, corroboram para promover a hesitação, conforme poderemos observar, na citação que será apresentada ao final deste parágrafo. Nas páginas iniciais dessa narrativa, as descrições das ações de Douglas, em particular, em uma viagem em um avião da Europa para Califórnia, estado onde mora seu tio, ocorre uma série de momentos que promovem a hesitação. Nesse trecho, o nosso personagem é despertado por uma aeromoça a oferecer-lhe um lanche; surpreso, afirma não estar dormindo, mas assistindo a um filme de suspense com meninos heróis, solicita o título desse filme que passava na tevê. Ela, entretanto, diz que durante todo o tempo o único filme transmitido era o de “Os Simpsons”.
Douglas ammutolì. Era sicuro di aver visto quel film... Eppure se la donna diceva che avevano sempre solo trasmesso i Simpsons, l’unica spiegazione era che avesse dormito veramente. O che fosse trattato di uno dei suoi improvvisi voti di memoria. In quei momenti gli capitava di estraniarsi completamente da quanto succedeva intorno. Ogni tanto era spaventato, ma non aveva mai osato raccontarlo a nessuno 56.
É a partir desse personagem que, logo no início da narrativa, se instaura a hesitação. Não temos a exatidão da duração dessas ações que envolvem Douglas e, também, mais tarde, aquelas relacionadas aos novos amigos, encontrados em Misty Bay. Ainda em relação ao estudo do elemento temporal, é necessário lembrar que existem três aspectos a serem levados em consideração no tempo de uma narrativa: a ordem, a duração e a freqüência, e observar como esses se dão na narrativa em estudo.
Assim, o primeiro aspecto, neste estudo, compreende as relações entre a ordem temporal de sucessão dos acontecimentos na diegese e a ordem de disposição, desses mesmos acontecimentos, na narrativa. O segundo aspecto aponta as relações entre a duração variável de tais acontecimentos e a sua falsa duração na narrativa. Finalmente, o terceiro aspecto apresenta as relações entre as capacidades de repetição da diegese e da narrativa.
O primeiro nível da temporalidade da narrativa a ser analisado neste trabalho será a ordem. Genette57 demonstra em seu estudo o fato de que a obra narrativa é uma seqüência duplamente temporal, uma vez que existe o tempo do fato que é narrado e o tempo da narrativa. Na obra de Del Ponte, essa ordem não se mostra estável, uma vez que os personagens passeiam pelo tempo de forma que várias realidades se sobrepõem tão perfeitamente, que conseguem, às vezes, dificultar o leitor, na localização dos acontecimentos.
Nel sogno Douglas vede le strade di Misty Bay, com’erano sessant’anni prima. È notte e sta piovendo. Lampi continui rischiarano il cielo e le vie sono cosparse di pozzanghere scure.
È strano perché nei sogni non ci fa caso, eppure adesso gli sembra di sentire il freddo dell’acqua sulla pelle e l’odore dell’oceano portato dal vento 58.
57 GENETTE, Gérard. Figure III. Discroso del racconto. Torino: Piccolo Biblioteca Einaud, 1976, p. 81-
83.
Como podemos observar alguns elementos sinestésicos como o ‘sentir frio’ e o ‘sentir o cheiro do mar’, contribuem para a imprecisão espaço-temporal.
Compreendemos que a sucessão de eventos, na narrativa em estudo, pode ser entendida, conforme nos explicita Genette, ao assinalar que a narrativa dispõe os eventos em uma ordem diferente da ordem cronológica própria da diegese. A diegese, como sucessão de eventos, apresenta um antes, um agora e um depois e, por isso, é inconcebível fora do fluxo do tempo. O seu tempo da diegese comporta um tempo objetivo, um tempo delimitado e caracterizado por indicadores cronológicos, ligados ao calendário. Assim, esse tempo pode ser muito extenso ou relativamente curto, sendo facilmente medido. Ao contrário do tempo objetivo da diegese, o tempo da narrativa nem sempre é de fácil medição em virtude, muitas vezes, da falta de alguns indicadores temporais.
O tempo, nessa narrativa de Del Ponte, apresenta três aspectos que merecem destaque. O primeiro se refere ao tempo das ações cronológicas das personagens que segue a diegese. O segundo trata do congelamento dos Gli Invisibili originais, que são re-evocados, cenograficamente, para o desfecho da história através de Damon, que quando criança se negou a cumprir o voto de lealdade à infância dos jovens heróis. O terceiro refere-se ao tempo cronológico daqueles dois meninos, Crystal e Douglas que, em consonância com Peter, formam a nova geração dos invisíveis, sendo os dois primeiros descendentes diretos dos antigos invisíveis.
Crystal e Angus Scrimm vegliavano il corpo di Douglas e aspettavano. [...]
La porta si spalancò e sulla soglia si delineò la sagoma di una ragazzina.
“Chi... chi sei?” domandò Crystal andandole incontro. “Uscite, siete liberi”, disse la misteriosa figura.
Quando ne udì la voce e ne scorse il viso, Crystal ebbe un’intuizione. “Nonna?...” disse incredula. “Nonna, sei tu?”
La ragazzina sembrò esitare poi si avvicinò a sua volta. Ora Crystal la vedeva bene: era proprio lei che aveva conosciuto attraverso i sogni di Douglas, Susan Cooper. Sua nonna morta, non solo era lì di fronte a lei, ma aveva più o meno la sua età!
Gli occhi colmi di lacrime, Crystal fece per toccarla.
“Non abbiamo tempo”, sentenziò l’altra ritraendosi. “i miei amici hanno bisogno di me.” Poi parve aguzzare lo sguardo. “Chi è quel vecchio laggiù nell’ombra?”
In quello stesso istante Damon, Mark, Greta e Devlin, gli Invisibili originali, irrompevano nella stanza dove si stava svolgendo il rito 59.
Pode-se tratar de uma apresentação, em uma ótica determinista, das origens de algumas situações e ocorrências ou, ainda, da recuperação de fatos necessários a fim de se compreender a dinâmica da ação. Algumas obras literárias indicam, de forma explícita, que a ordem temporal, na narrativa, difere da cronologia da diegese através de datas, do contexto da obra ou da sua estrutura externa. Outras, como ocorre em Gli invisibili, no entanto, não apresentam nenhuma marca de subversão da cronologia da narração, dificultando consideravelmente a distinção temporal na narrativa.
Ainda seguindo as indicações de Genette, observamos que a coincidência perfeita entre o desenvolvimento cronológico da diegese e a sucessão dos acontecimentos diegéticos na narrativa não se encontram possivelmente, não só nesta narrativa específica, mas em nenhuma obra literária. A esses desencontros entre a ordem dos acontecimentos no plano da diegese e a ordem nas quais esses mesmos acontecimentos aparecem na narrativa, Genette as denomina anacronias60.
Desse modo, um fato que se situe no final da ação, na ordem cronológica da diegese, pode ser narrado antecipadamente pelo narrador, do mesmo modo que a recuperação dos fatos antecedentes da narração pode ajudar a compreensão
59
DEL PONTE, Giovanni. Gli Invisibili e il segreto di Misty Bay. Roma: Sperling & Kupfer, 2000, p. 210-11.
60 GENETTE, Gérard. Figure III. Discroso del racconto. Torino: Piccolo Biblioteca Einaud, 1976, p. 83-
dos acontecimentos do presente. Isso pode ser exemplificado através das visões do personagem Douglas, que são sempre reveladas em seus sonhos, a fim de preencher quaisquer lacunas deixadas pela narrativa, como ocorre no primeiro capítulo, em que temos a descrição da tentativa de resgate de três crianças raptadas pelo então prefeito da cidade de Misty Bay, Angus Scrimm. No decorrer do mesmo capítulo, percebemos que o fato tratado era um sonho de Douglas. Este é um recurso utilizado pelo autor para informar ao leitor sobre acontecimentos-chave para o entendimento da história.
La vecchia dimora di Angus Scrimm si erge silenziosa sulla scogliera.
La notte è limpida e tiepida. [...] Chiusi nella loro cella sotterranea, (i tre bambini) all’inizio hanno provato a fuggire, poi hanno urlato. Nessuno li ha sentiti.
Nessuno può venir in aiuto. Nessun adulto 61.
Quando existe uma evocação na narrativa de fatos que já ocorreram na diegese, em alguns casos anteriores ao seu início, dá-se o que Genette chama de analepse. Esse é o caso de obras que começam in media res ou in ultima res, pois o romancista deverá narrar posteriormente os antecedentes diegéticos das situações que estão na abertura da obra. Um exemplo disso é o prólogo de Gli Invisibili e il segreto di Misty Bay, em que o autor nos apresenta uma situação, construindo a atmosfera de mistério e dúvida e que, posteriormente, serão situados ao leitor os fatos narrados no início da história:
Penombra. Odore di muffa e umidità.
Il vecchio posò la scacchiera sul tavolo impolverato. Non era una vera e propria scacchiera. Qualche tempo prima doveva essere stata parte del coperchio di una cassa o di un baule. Il vecchio aveva tracciato le righe incrociate e annerito con frammenti di carbone le caselle che dovevano risultare nere.
Cominciò a disporvi frammenti di pietra nei quali solo i suoi occhi avrebbero potuto riconoscere le pedine del gioco. Però c’erano tutte, e sarebbero andate benissimo per permettergli di giocare.
Fece un profondo respiro. Erano tanti anni che aspettava e finalmente il momento era giunto.
Il vecchio assaporò quel breve lasso di tempo che lo separava dall’inizio della partita. Ancora una volta percorse con lo sguardo l’angusta stanza scavata nella roccia in cui si trovava. Alla fine allungò la mano e afferrò il primo pezzo, il primo personaggio.
E fece la sua mossa 62.
Entretanto, a utilização da analepse nem sempre corresponde a uma regressão, pois pode ser caracterizado por uma simples repetição de um termo ou, ainda, ser assinalada por alguns elementos de rememoração ou retrospecção, como acontece com o uso de termos como lembrar-se, rever, pensar. Um outro demarcador de uma analepse é a combinação temporal, baseada na oposição, por exemplo, do uso de agora/antes ou aqui/lá. Ou seja, existirá analepse quando qualquer elemento fizer uma referência a algo que já acontecera antes na diegese, conforme podemos observar no exemplo que segue: “Non potrebbe essere una visione che si riferisce a sessant’anni fa? [...] Ricordi quella volta scorsa il sogno si era interrotto quando il libro finiva in un lago soterraneo...”63
Paralelo ao tempo, o espaço é um outro elemento importante em qualquer narrativa, visto que ele estabelece uma ligação direta, segundo nos informa Yves Reuter em Introdução à análise do romance64, com o espaço “real” e suas funções no interior do texto.
Os lugares, dentro das narrativas, têm o objetivo de aproximar o espaço da história com o espaço não-ficcional de forma a ancorá-la e, portanto, refletir na obra o que é palpável.
Para isso, é necessário que nos prendamos às descrições, às informações que nos é dada sobre o local, às precisões e a tudo que remete a um saber
62 DEL PONTE, Giovanni. Gli Invisibili e il segreto di Misty Bay. Roma: Sperling & Kupfer, 2000 p. 1. 63 Ibid, p. 157.
cultural, que pode ser recuperado fora do romance. Esses artifícios produzem, no leitor, um efeito mais realista da obra.
Tem-se ainda a opção de uma descrição menos detalhada, menos marcada e, portanto, menos precisa sobre os espaços. Esse tipo de descrição é também utilizada como uma técnica do autor, que pode nos fornecer dados importantes sobre a atmosfera da história. Em Gli Invisibili e il segreto di Misty Bay há uma alternância desses dois tipos de descrição. Como podemos notar quando o narrador nos descreve o quarto de Douglas, que antes fora de seu tio Ken, na infância:
Al piano di sopra zio Ken fece strada lungo il corridoio, sulle cui pareti si aprovano porte che davano su altrettante camere. [...] si poteva accedere una piccola e vecchia porta di legno di forma arrotondata. [...] sulla parete destra del piano di sopra Douglas aveva notato una grande cupola che sapeva tanto di osservatorio astronomico [...]. Sulla sinistra c’era un armadio, un alto letto a una piazza e mezza con una trapunta coloratissima, sul lato opposto una libreria che occupava l’intera parete e, davanti alla cupola, tre diversi tipi di telescopio 65.
Em contraposição às minúcias temos, também, o vago que nos faz mergulhar numa atmosfera de incertezas e dúvidas: “Robert Kershaw si lasciò sfuggire un mugolio di soddisfazione che risuonò nel silenzio della camera d’albergo. Era un albergo di infima categoria, come quelli in cui si fermava di solito [...]” 66
Ainda seguindo os pensamentos de Reuter, os espaços possuem funções múltiplas e esses se organizam de maneira a produzir um sentido. Na obra em tela, Del Ponte aproxima o personagem principal, Douglas, e conseqüentemente o leitor, de um ambiente que não era o seu habitual. Podemos deduzir que o menino vai da Europa para os Estados Unidos, a uma cidadezinha bem menor do
65 DEL PONTE, Giovanni. Gli Invisibili e il segreto di Misty Bay. Roma: Sperling & Kupfer, 2000, p. 29. 66 Ibid., p.15.
que a sua de origem. Não bastasse isso, notamos ainda uma estreita relação com a natureza, visto que é uma cidade de litoral, em que o mar, a maresia, as águas e as grutas desempenham um papel bastante relevante na história. Trazendo-nos a reflexão sobre o sentido metaforizado do oceano, que é uma representação da incerteza, do ciclo da vida, ou ainda, o mar que retribui aquilo que lhe é dado, pode também indicar até mesmo a purificação se nos basearmos nos relatos bíblicos em que água é a fonte de vida 67. Isso posto, colocamo-nos diante do fato