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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social – PPGCOM UFMG

Bárbara Lopes Caldeira

ENTRE ASSASSINATOS EM SÉRIE E UMA SÉRIE DE ASSASSINATOS:

O tecer da intriga nas construções narrativas de mulheres mortas e seus agressores nas páginas de dois impressos mineiros

Orientador:

Prof. Elton Antunes

Linha de pesquisa:

Textualidades Mediáticas

Belo Horizonte

Janeiro de 2017

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Bárbara Lopes Caldeira

ENTRE ASSASSINATOS EM SÉRIE E UMA SÉRIE DE ASSASSINATOS:

O tecer da intriga nas construções narrativas de mulheres mortas e seus agressores nas páginas de dois impressos mineiros

Dissertação apresentada ao programa de Pós- Graduação em Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial para obtenção do título de Mestra em Comunicação Social

Orientador: Elton Antunes

Belo Horizonte

Janeiro de 2017

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Para minhas avós, Nancy e Tetê.

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AGRADECIMENTOS

Das várias coisas que aprendi durante o mestrado, penso que duas resumem todas as outras e guardarei comigo para a vida. O primeiro ensinamento: pesquisa é processo. É preciso disposição e sensibilidade para rever nossas próprias convicções a todo o momento, mas coerência para estar em sintonia com nossos valores. O segundo:

nada é possível sem conexão com o outro, sem a disponibilidade e generosidade de outras pessoas. E, por isso, quero agradecer a esses agentes que foram decisivos para que eu conseguisse desenvolver minhas reflexões.

Agradeço à Capes pelo auxílio financeiro, sem o qual eu não conseguiria realizar essa pesquisa com tanta dedicação. Ao PPGCOM como um gigante que congrega pessoas de quem gosto e que me impulsionaram a seguir adiante. Aos professores e professoras Paula Guimarães Simões, Vera França, Luciana Oliveira, Carlos D´Andrea e Carlos Mendonça pelas aulas e diálogos. Às professoras Joana Ziller e Ângela Marques pelo carinho e inúmeras contribuições ao longo do meu processo. À Elaine e Tatiane pelo suporte. À Sônia Pessoa e ao Bruno Leal por confiarem em mim como estagiária docente e me ensinarem tanto. Agradeço ao Bruno, ainda, pelo acolhimento no projeto de pesquisa “Narrativas de um problema cotidiano”, bem como ao Carlos Alberto de Carvalho e ao Paulo Bernardo Vaz. Aos grupos de pesquisa Gris e Tramas, que me receberam tão bem. Às companheiras do “Mulheres”, Ana, Alice, Pati, Belle e Ju (a quem agradeço também por dividir comigo um lar, angústias e expectativas). Às

“Divas do Tramas” Gisa, Verônica e Vanessa, minha irmã acadêmica que tantas vezes

me ajudou. Aos “Órfãos do Dispositivo” Manu, Felipe, Maiana, Nogo e Bruno Fonseca,

a quem devo menção especial por dedicar seu tempo (e paciência) para me auxiliar com

os infográficos. Às amigas Carla Mendonça, Larissa Arantes, Tamires, Maíra e Bruna

Finelli e a tantas outras figuras bonitas pela torcida. Ao PH e à Julieta Kabalin por me

emprestarem suas habilidades em espanhol. Ao Tiago Paschoalin pelo apoio e por me

ajudar infinitas vezes na formatação deste arquivo diante da minha aparente dificuldade

em resistir a dar “enter” sempre que quero. À Pry e à Vivi, por serem minhas irmãs por

escolha. À Pâmela pelo afeto, companheirismo e por me segurar pela mão todos os dias,

sendo essencial na minha vida. Aos meus pais, irmãos e aos meus sobrinhos, Eros e

Max, que fizeram o favor de nascerem no meio dessa aventura chamada mestrado para

tudo ficar mais leve. Também, às mulheres vítimas de violência que nos concederam

entrevistas e nos confiaram suas dores e experiências.

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Em um parágrafo à parte, contrariando a costumeira discrição dele, agradeço ao meu orientador, Elton Antunes, por tantas coisas que nem sei como enumerar. Obrigada por me apontar caminhos, por me fazer tantas perguntas, por compartilhar reflexões comigo e por respeitar tanto meu processo. Enfim, obrigada por acreditar em mim.

Registro, também, meus agradecimentos à Yumi Garcia, por se dispor tão prontamente a ler este trabalho e contribuir, assim como as já mencionadas Ângela, Joana e Sônia.

E caso eu tenha esquecido alguém, não foi por mal. Dê cá um abraço. Sigamos.

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RESUMO

O objetivo de nossa pesquisa é observar como são construídas narrativamente, no jornalismo impresso, mulheres vitimadas e seus assassinos em casos de assassinatos em série e crimes de proximidade, no esforço de perceber como e quais elementos de constituição da notícia são acionados e postos em relações a partir da tessitura da intriga, da articulação narrativa. Para tanto, tomamos como corpus empírico desta pesquisa matérias sobre o caso do Maníaco de Contagem coletadas em fevereiro de 2010 nos periódicos diários Super Notícia e Estado de Minas, e matérias coletadas nos anos de 2013 e 2014 que narram crimes de proximidade cometidos contra mulheres nos mesmos jornais. Observando os entrecruzamentos e afastamentos das narratividades dos assassinatos em série e da série de assassinatos, pretendemos mobilizar discussões sobre a tessitura da intriga, casos comoventes, violência de gênero, confiabilidade e confiança interpessoal, entre outras.

Palavras-chave: narrativa; jornalismo; violência contra a mulher; violência de gênero;

femicídio; assassinato em série.

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ABSTRACT

The objective of this research is to observe how the written press constructs narratively the murdered women and their killers in serial killer cases as well as proximity crimes aiming to perceive how and what elements of news constitution are established and used through the weaving of intrigue on the narrative articulation. To do so, we used as an empirical corpus the case of the “Contagem Maniac” collected in February 2010 in the newspapers Super Notícias and Estado de Minas, and news collected on the same papers during the years of 2013 and 2014 that narrate proximity crimes committed against women. By observing the intercrossing and removals in the narratives of serial killers and a series of kills, we intend to raise discussions on the weaving of intrigue, touching cases, gender violence, trustworthiness, interpersonal trust, among other topics.

Keywords: narrative; journalism; violence against women; gender violence; femicide;

serial killing

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RESUMEN

El objetivo de nuestra investigación es observar cómo son construidas narrativamente, en el periodismo gráfico, mujeres victimadas y sus asesinos en casos de asesinatos en serie y crímenes de proximidad, en el esfuerzo de percibir cómo y cuáles elementos de la constitución de la noticia son accionados y puestos en relación a partir de la construcción de la trama, de la articulación narrativa. Para ello, tomamos como corpus empírico de esta investigación notas periodísticas sobre el caso del Maníaco de Contagem recolectadas en febrero de 2010 en los diarios Súper Notícia y Estado de Minas, y notas recolectadas en los años 2013 y 2014 en los mismos periódicos, que narran crímenes de proximidad cometidos contra mujeres. Observando los entrecruzamientos y distanciamientos entre las narraciones de los asesinatos en serie y de la serie de asesinatos, pretendemos movilizar discusiones sobre la construcción de la trama, los casos conmovedores, la violencia de género, la confiabilidad y confianza interpersonal, entre otras.

Palabras clave: narrativa; periodismo; violencia contra la mujer; violencia de género;

femicidio; asesinatos en serie.

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LISTA DE ILUSTRAÇÕES

FIGURA 1 – PANORAMA SOBRE A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER NO BRASIL ... 28 FIGURA 2 – PANORAMA BRASILEIRO DE VIOLÊNCIA CONTRA GRUPOS

MINORITÁRIOS ... 29 FIGURA 3 – COMPARAÇÃO DO CENÁRIO BRASILEIRO DE FEMICÍDIOS E DE OUTROS PAÍSES ... 52 FIGURA 4 – PERCENTUAL DE DIAS EM QUE O ASSUNTO “MANÍACO DE

CONTAGEM” FOI NOTICIADO EM CADA JORNAL EM FEVEREIRO DE 2010 ... 74 FIGURA 5 – RELAÇÃO ENTRE DIAS EM QUE O MANÍACO DE CONTAGEM É

ABORDADO EM FEVEREIRO DE 2010 E CAPAS SOBRE O ASSUNTO ... 75 FIGURA 6 – RELAÇÃO ENTRE O TOTAL DE EDIÇÕES E OUTRAS FORMAS DE

DESTAQUE DO ASSUNTO ... 75 FIGURA 7 – PÁGINA DA MATÉRIA “MORTA PORQUE NÃO QUIS TRANSAR”

... 80 FIGURA 8 – FRAGMENTO DA PÁGINA DA MATÉRIA “AÇÃO DE MANÍACO

DESAFIA A POLÍCIA” ... 98 FIGURA 9 - ILUSTRAÇÃO COM PASSO A PASSO DE COMO AGIA O

MANÍACO DE CONTAGEM ... 103 FIGURA 10 - FOTOGRAFIA DE PROTESTO PEDINDO MEDIDAS MAIS

IMEDIATAS CONTRA A VIOLÊNCIA QUE AFETA MULHERES APÓS PRISÃO DO “MANÍACO DE CONTAGEM” ... 107 FIGURA 11 – QUADRO COMPARATIVO DE PERGUNTAS DESENTRANHADAS

... 113

LISTA DE QUADRO

QUADRO 1 – EXEMPLO DE QUADRO DESENVOLVIDO PARA

SISTEMATIZAÇÃO DAS MATÉRIAS ... 78

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SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO ... 11

2. NARRATIVAS JORNALÍSTICAS E ASSASSINATOS DE MULHERES ... 16

2.1 O jornalismo como narrativa: tessituras e construções ... 16

2.2 A violência de gênero e as regulações sobre ser mulher: femicídios ... 25

2.3 Invisibilidades nas visibilidades: dispositivo da sexualidade e dispositivo jornalístico ... 34

3. ASSASSINATO DE MULHERES: MORRER, SER MORTA ... 41

3.1 Crimes de proximidade: a violência que vem de dentro ... 41

3.1.1 Recorrências nas narratividades de crimes de proximidade ... 48

3.2 Assassinatos em série: a violência que vem de fora ... 54

3.2.1 Tendências na abordagem: o caso comovente ... 61

4. GESTO DE QUERER SABER JORNALÍSTICO E O ASSASSINATO DE MULHERES ... 70

4.1 Desentranhando a pauta, caminhando na contramão... 76

4.1.1 Perguntas a partir da série de assassinatos ... 108

4.1.2 Perguntas a partir dos assassinatos em série ... 110

4.1.3 Convergências e tensionamentos ... 112

5. A TESSITURA DA CENA, OS MUNDOS QUE EMERGEM ... 115

5.1 Mulheres assassinadas: aproximações e afastamentos ... 115

5.2 Um assassino, vários assassinos: relevos e supressões... 116

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 119

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 123

APÊNDICES ... 128

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1. INTRODUÇÃO

Contagem, Região Metropolitana de Belo Horizonte, fevereiro de 2010. Durante praticamente um mês, o jornalismo mineiro noticiou, à exaustão, minúcias dos assassinatos em série que estavam ocorrendo na área desde o ano anterior e a existência de um serial killer, ainda à solta, que estuprava e matava mulheres com características físicas semelhantes nas imediações do bairro Industrial. O assassino em série, cuja identidade ainda era um mistério a ser desvendado pelas autoridades policiais, ganhou o codinome de “Maníaco de Contagem” nas páginas dos jornais. Seja para facilitar as suítes sistemáticas que se desenrolavam na mídia, seja para tentar dar forma a algo — e a alguém — que fogem de uma compreensão imediata, nascia uma personagem, em um “caso comovente” (PEDEMONTE, 2010).

As fotos das vítimas, de quando eram vivas, estampavam os jornais impressos e eram recorrentes na pauta jornalística de Minas Gerais como um todo. Ana Carolina Menezes Assunção, comerciante, de 27 anos, foi encontrada morta e seminua em seu veículo, estrangulada com um cadarço de tênis. Na cena do crime, algo chamou atenção — e foi imediatamente destacado pela imprensa. O filho de Ana, um bebê de cerca de um ano, estava presente no momento da morte e foi encontrado com vida junto ao corpo da mãe, sem sinais de agressão. O cadáver da empresária Maria Helena Lopes Aguiar, de 48 anos, foi localizado no bairro Califórnia, em Belo Horizonte. As marcas de enforcamento davam conta de que Maria foi assassinada com o cinto de segurança de seu carro mas, antes, foi violentada sexualmente. A contadora Edna Cordeiro de Oliveira Freitas, 35, foi achada morta em uma estrada de terra que liga o bairro Jardim Canadá, em Nova Lima, à BR-040, também estuprada e estrangulada — inicialmente noticiou-se que a arma era o colar que usava, mas as investigações mostraram que tratava-se de um cabide. Natália Cristina de Almeida Paiva, universitária de 27 anos que estava desaparecida e havia sido enterrada como indigente, foi incluída na lista de vítimas do Maníaco de Contagem apenas quatro meses depois da localização da ossada. Adina Feitor Porto, comerciante, de 34 anos, foi localizada em avançado estado de decomposição, mas em situação semelhante às das demais mulheres mortas.

Em fevereiro de 2010, meses e anos antes, meses e anos depois, outras mulheres eram

— e ainda são — estupradas e assassinadas em outro contexto, o dos chamados crimes de

proximidade. Sem muito alarde, mas constantes, elas aparecem na rotina jornalística na

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contramão do caso comovente: em vez de romperem com a rotina de produção do fazer jornalístico, essas vítimas já são por ela previstas. Muitas são, inclusive, tomadas como residuais de “crimes passionais” ressaltando uma carga de emoção que parece dizer: “o homem que cometeu o ato de violência estava fora de si”. A noção da passionalidade, inclusive, é, de antemão, extremamente problemática. De acordo com a autora Isabelle Delpla (2015), “insistir na paixão é descartar as dimensões sociais, institucionais e econômicas da violência” (p.303), deixando, assim, de problematizá-la. Em um paralelo, tomando tanto os modos de ocorrência desses crimes em um mundo de referência quanto as suas narratividades, percebemos que tais mortes, perpetradas por agressores múltiplos, não são assassinatos em série, mas sim uma série de assassinatos.

Mulheres são mortas em uma situação, mulheres são mortas na outra. Sofreram outros tipos de violência para além de suas mortes, especialmente sexual, em ambos os lados. Foram agredidas por homens e assassinadas, muitas vezes, com armas semelhantes (estrangulamento, armas “brancas”). Mas como são as construções narrativas que o jornalismo engendra a partir desses dois tipos de mortes? Como vítimas e agressores são narrados jornalisticamente, nos contextos do assassinato em série e da série de assassinatos? Ainda, que repertórios esses relatos acionam, do âmbito factual e ficcional, e que são postos em jogo? Essas narrativas dão a ver, e como dão a ver, aspectos da violência de gênero?

Tais questões se colocam como pertinentes especialmente se considerarmos que as narrativas midiáticas, além de serem “materializações das falas sociais” (LEAL, 2006), também alimentam essas mesmas falas. É o retorno do vivido ao narrado, se tomarmos emprestados os termos de Ricoeur (1913-2005). E se o jornalismo é uma instância que engendra e deflagra disputas de sentidos, se tem papel fundamental na construção de narrativas ante um mundo de referência, olhando para a processualidade dessas construções é possível encontrar, acreditamos, vestígios de valores, saberes encarnados e conexões articuladas socialmente. E são os jornais impressos, mais especificamente os periódicos diários Estado de Minas e Super Notícia, que se colocam como lugares de observação dessas questões nesta pesquisa.

As narrativas jornalísticas que tratam da violência merecem, em suas diversas

manifestações, a atenção dos pesquisadores da área da Comunicação, visto que o assunto

constantemente suscita reflexões éticas, ponderações quanto às dinâmicas de negociações de

sentidos e quanto à potência e impacto das construções narrativas. Para além, nos fazem

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refletir sobre a visada acontecimental em torno desses fenômenos e possíveis ações que a partir deles se desdobram, pois, espera-se, os jornais “influenciam a opinião da sociedade e motivam e fiscalizam a implantação de políticas de Estado” (RAMOS & PAIVA, 2008, p. 31- 32).

Percebemos que parece haver um binarismo inicial a ser problematizado no qual a imprensa é situada: se o jornalismo se debruça sobre a temática da violência, cobrindo intensamente crimes, especialmente assassinatos, é acusado de “sensacionalista”, termo vago que carece de aprofundamentos e cautela, como observa Márcia Franz Amaral (2005), para quem o conceito de sensacionalismo, de tão utilizado, “tornou-se uma categoria flácida, sem fronteiras e sem vigor” (AMARAL, 2005, p. 2). Por outro lado, se a mídia deixar de abordar tais ocorrências, recusando-se a conferir-lhes repercussão, pode, muito possivelmente, ser interpretada como omissa. Parece interessante, dessa forma, pensar não no embate entre narrar ou não narrar crimes violentos, mas sim na processualidade dessas construções narrativas, nas articulações a partir das quais elas são engendradas.

O homicídio de mulheres, seja situado na esfera dos assassinatos em série ou crimes de proximidade, é um fenômeno que necessita de estudos em diversas áreas do conhecimento, mas, muito marcadamente, na Comunicação, pois por esse caminho é possível identificar como essas vítimas e agressores têm sido construídos narrativamente com repercussão potencializada, percebendo nas narrativas nuances e disputas de sentidos que dizem de relações de poder e saberes encarnados. Se essas narrativas são formas de experienciar o mundo e estabelecer relações entre um conjunto de elementos heterogêneos, se são marcadamente construídas e necessariamente dizem de um jogo de recortes e hierarquizações, ver como o assassinato de mulheres é narrado no jornalismo é encontrar rastros sobre valores e conexões que habitam as relações sociais e cotidianas.

O objeto para o qual a pesquisa pretende olhar se constitui por duas frentes que se

diferem em aspectos empíricos, mas que possuem pontos de convergência e tensionamento

para os quais voltamos nossa atenção. Em ambos os casos, nos interessam as construções

narrativas acerca desses fenômenos considerando principalmente a perspectiva teórica oriunda

dos estudos de Paul Ricoeur. De um lado, estão as narrativas acerca do crime de assassinato

em série, especificamente o caso do Maníaco de Contagem, serial killer que estuprou e matou

ao menos quatro mulheres no bairro Industrial, na Região Metropolitana de Belo Horizonte,

no ano de 2009. O assunto foi recorrente na imprensa em praticamente todos os dias do mês

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de fevereiro de 2010, janela temporal que compreende a primeira notícia sobre as ocorrências no âmbito midiático e a captura e prisão de Marcos Antunes Trigueiro, cuja responsabilidade pelas mortes foi confirmada por meio de comparação de seu DNA com o material biológico encontrado na cena dos crimes.

O outro eixo que compõe o objeto de pesquisa são as narrativas acerca dos crimes de proximidade, especificamente assassinatos cometidos contra mulheres, no qual parceiros ou ex-parceiros sexuais ou afetivos das vítimas, figuras íntimas ou não íntimas que gozam de confiança social são os responsáveis pela violência, considerada cotidiana e, muitas vezes, negligenciada pela mídia. É importante, aqui, entender o femicídio não como um fato isolado na vida das mulheres vitimadas, e sim como um “ponto final de um continuum de terror, que inclui abusos verbais e físicos e uma extensa gama de manifestações de violência e privações a que as mulheres são submetidas ao longo de suas vidas” (RUSSEL e CAPUTTI apud PASINATO, 2011, p. 224). Integram esse escopo matérias que fazem parte do banco de dados da pesquisa sobre violência de gênero coordenada pelos professores Elton Antunes e Bruno Leal, abordada mais adiante.

Nosso problema de pesquisa, então, gira em torno de duas questões norteadoras: 1) como se engendram, no jornalismo impresso, as construções narrativas de mulheres vitimadas e seus assassinos em casos de assassinatos em série e crimes de proximidade? 2) Como essas construções acionam repertórios e referências, da ordem factual e ficcional e dão a ver, se dão a ver, em alguma medida, aspectos da violência de gênero? Sendo assim, o objetivo geral de nossa pesquisa é observar como são construídas, no jornalismo impresso, mulheres vitimadas e seus assassinos em casos de assassinatos em série e crimes de proximidade, percebendo como e quais elementos de constituição da notícia são acionados e postos em relações a partir da tessitura da intriga, dessa articulação narrativa. Como objetivos específicos, buscamos analisar de que maneira essas construções narrativas acionam repertórios 1 e referências,

1 Reconhecemos que os atravessamentos do discurso jurídico e criminológico merecem reflexões por parte dos

pesquisadores da Comunicação, uma vez que apontam para uma forma de construção de inteligibilidade do

jornalismo para lidar com crimes que noticia. Porém, não empreenderemos esse movimento nesse momento, ao

entendermos que o jornalismo acaba por articular e engendrar uma fala própria ao se valer dessas dicções, mas

também de outras oriundas de instituições que fazem parte da rede que se relaciona com a violência contra a

mulher (há um argumento da saúde, outro relacionado às políticas públicas, entre tantos outros). Optamos, assim,

por tensionar a esfera factual a partir de narrativas jornalísticas outras. Destacamos que embora seja de nosso

conhecimento que boletins de ocorrência e outros documentos oficiais sejam recursos expressivos recorrentes

para que o jornalismo construa seus relatos, nas narrativas observadas eles não aparecem como recursos

imagéticos, mesmo que saibamos que compõem o fazer jornalístico que permeia a violência e suas

narratividades.

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evocando relações da ordem factual e ficcional; discutir aspectos dessa fabulação e como essas narrativas engendram um universo de possíveis, pensando no conjunto de narrativas que se superpõem e se atravessam a partir das estudadas; e perceber se essas construções narrativas dão a ver, em alguma medida, aspectos da violência de gênero.

Como recurso para nos fazer acessar alguns aspectos da complexidade da violência contra a mulher no contexto de proximidade referida no jornalismo, optamos por trazer, ao longo do trabalho, pontos de destaque das entrevistas feitas com mulheres vítimas de violência no projeto de pesquisa “Narrativas de um problema cotidiano: a violência de gênero e o testemunho jornalístico” 2 . Consideramos que tais conexões são interessantes para esta pesquisa específica por três movimentos. Primeiramente, porque as falas das entrevistadas 3 abrem e ampliam o universo de referência para onde o jornalismo aponta ou de onde ele emerge nos seus relatos de violência, nos mostrando com mais propriedade o que muitas vezes aparece na literatura sobre o fenômeno e nos estudos de cobertura de mídia. Segundo, porque elas nos apontam um conjunto de elementos interpretativos nem sempre capturados de maneira devida em nossas reflexões ou nos relatos jornalísticos, uma vez que essas mulheres falam de dentro da cena a partir de suas próprias experiências. Ainda, os relatos dessas vítimas apresentam "mundos" em cujo horror e violência o jornalismo, muitas vezes asséptico nas narratividades de crimes cotidianos contra mulheres, sequer esbarra. Mantivemos, também, uma súmula das entrevistas aqui referidas (ver APÊNDICE A) para que o relato seja melhor compreendido, bem como para oferecer insumos sobre aspectos identitários dessas mulheres (étnico-raciais, socioeconômicos, entre outros).

2 Projeto de pesquisa coordenado pelos professores Elton Antunes e Bruno Leal.

3 Tais entrevistas foram realizadas nos meses de maio, junho e julho de 2016 pelas pesquisadoras do grupo, duas

mestrandas e quatro bolsistas de iniciação científica. Ao todo, coletamos doze relatos.

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2. NARRATIVAS JORNALÍSTICAS E ASSASSINATOS DE MULHERES 2.1 O jornalismo como narrativa: tessituras e construções

O primeiro movimento que faremos nesta pesquisa, dotado de perspectiva mais teórica mas que, também, trata de algumas entradas metodológicas e analíticas, consiste na reflexão do que é entendido, aqui, como narrativa jornalística e seu encaixe com os assassinatos de mulheres que pretendemos observar a partir de mídias informativas.

Já de partida, adiantamos que tentamos, inspirados por trabalho pregresso desenvolvido dentro do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais, que culminou na série Narrativas do Cotidiano (2006), trabalhar a narrativa como uma espécie de “modus operandi desdobrado em diferentes funções” (GUIMARÃES, 2006, p.12), entendendo-a na dimensão de articulação metafórica que tem por esforço ordenar os estilhaços de textos cotidianos em sua multiplicidade; como uma certa constituição de objeto que conglomera princípios concernentes à estruturação como gênero textual, conformado, mas não encerrado, em uma materialidade; e como procedimento analítico, uma lente para se olhar para determinada dinâmica de emergência de sentidos.

Dessa forma, bebendo das reflexões de Bruno Souza Leal (2006), o ponto a ser elucidado de antemão é que não pretendemos visar um ou outro aspecto dos levantados sobre a narrativa de forma descolada dos demais, deixando de lado, por consequência, ao menos uma das dimensões — tomar a narrativa como estabelecida a priori em sua materialidade, por exemplo. Essa preocupação, inclusive, nos interessa que lateje a todo momento para que não caiamos na armadilha de olhar para a narrativa apenas a partir de sua estrutura, que “só tem sentido quando em relação a um contexto, entendido tanto como uma realidade cultural, um repertório de textos e gêneros, e a um processo comunicacional específico” (LEAL, 2006, p.26). Além disso, entendemos aqui o texto como algo que emerge, um conjunto de relações superpostas que não é anterior à significação (GRACIA, 1996; RYAN, 2001), assumindo, assim, sua consequente instabilidade e constantes tensionamentos. Como reflete Leal, “as narrativas emergem como resultado da interrelação das forças sociais, as mais diversas;

caracterizam equacionamentos possíveis dessas forças, em pontos peculiares do fluxo

histórico e social” (2006, p. 22), o que faz, portanto, com que sejam irrepetíveis, seja em todo

seu processo de construção, seja em sua instância de reconstrução a partir de um gesto de

quem frui.

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Nosso esforço será o de desenvolver as articulações levando em conta um certo “olhar narrativizante” (LEAL, 2006, p. 21) a partir do momento em que entendemos a narrativa como uma forma de experienciar o mundo que, ao mesmo tempo em que atua no próprio mundo de referência a partir de subsídios nele localizados, oferece recursos para que lidemos com ele no cotidiano, permeado, como aponta César Guimarães (2006), por “seu burburinho incessante, sua prosa mundana (feita certamente de repetição, mas também de insistente — e muitas vezes imperceptível — invenção)” (2006, p. 14). Nas palavras de Leal:

[...] Narrar significa estabelecer um encadeamento e uma direção, investir o sujeito de papéis e criar personagens, indicar uma solução. As narrativas, assim, tecem a experiência vivida e podem aparecer no cotidiano, contadas pelos seres humanos, ajudando-os a viver e agrupando-os, distinguindo-os, marcando seus lugares e possibilitando a criação de comunidades. (LEAL, 2006, p. 20)

Se a narrativa, feita à luz de um mundo de referência, nos oferece elementos para lidar com problemas empíricos que pulsam nesse mesmo mundo, é possível destacar a importância de se compreender esses processos de construção de narrativas, tomadas em sua emergência e circularidade, diante de um fenômeno como o assassinato de mulheres, especialmente envolvendo um cenário empírico preocupante no Brasil, que será abordado em momento posterior. Não pretendemos caminhar, aqui, rumo a uma ponderação essencialmente normativa do fazer jornalístico diante desse mundo de referência, tentando estabelecer parâmetros de como o jornalismo deveria agir em comparação com os modos como ele efetivamente age, mas sim perceber a narrativa jornalística implicada na vida social, em sua complexidade, a partir do momento em que a reconhecemos como parte de um imaginário compartilhado, que alimenta e é alimentado pelas conversações sociais. Tal como aponta Leal ao refletir sobre a articulação entre narrativas e vida cotidiana:

[...] Ao se (re)constituir uma narrativa mediática, por exemplo, vai se observando que ela se compõe de textos diversos que, em si mesmos, são pequenas materializações das falas sociais. Articulados na superfície narrativa, esses textos podem dar a (re)conhecer um discurso socialmente abrangente, que, por sua vez, integra uma forma discursiva maior. Na relação textos/narrativa/discurso podem ser vistas, então, as condições para inserção e circulação dos falares sociais, das ideologias e da realidade da vida cotidiana. (LEAL, 2006, p. 24)

Aqui, se faz necessário, então, esclarecer a matriz teórica que nos oferece condições de

ponderar as narrativas como construções que buscam uma certa reconstituição do real,

encadeando elementos de maneira verossímil e destacadamente interessada, mas que são

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necessariamente fragmentadas e lacunares, atravessadas por outras narrativas, superpostas, dispostas em tensão. A reflexão que aqui buscamos fazer é uma das possíveis inspiradas pelo autor francês Paul Ricoeur (2010) que, mesmo trabalhando em sua trilogia “Tempo e Narrativa” (1994, 1995, 1997) com narrativas historiográficas e ficcionais, nos oferece pistas e modos de leitura para percebermos narrativas em constante operação no âmbito do jornalismo e caminharmos para considerações de suas especificidades. Nossa matriz teórica é compartilhada com os trabalhos de Leal (2006) e Carvalho (2012, 2014) e a assumimos como escolha, mesmo que tal apropriação compartida não seja um consenso. Jocelyne Arquembourg (2011), por exemplo, ao propor uma outra leitura de Ricoeur, acredita que “os eventos não se realizam como intrigas a não ser de maneira retrospectiva, não pelas mídias, mas pelos receptores, através de maneiras até mesmo antagônicas de se referir a eles” ou, completa, nesse ponto em certa sintonia com nosso pensamento, “pelo trabalho do pesquisador que restaura, a posteriori, os fragmentos dispersos do discurso e a concordância na discordância visando um fim articulado em seu próprio presente.” (ARQUEMBOURG, 2011, p. 119, tradução nossa).

A reflexão ricoeuriana mais cara para nossa pesquisa gira em torno do Círculo Hermenêutico e sua dinâmica da Tríplice Mimese. Mais especificamente, nos interessa olhar com mais acuidade para a tessitura da intriga, conceito o que o autor engendra contrapondo concepções de Santo Agostinho e Aristóteles, especialmente porque a conexão de fragmentos na construção narrativa se dá exatamente no entrelugar das falas sociais de um mundo de referência e o retorno da narrativa às falas sociais, o que corrobora a percepção de que narrativas e vida social são intrínsecas. Afinal, “por maior que seja a força de inovação da composição poética no campo de nossa experiência temporal, a composição da intriga está enraizada em uma pré-compreensão do mundo da ação” (RICOEUR, 2010, p. 96).

Se nos interessa olhar para os modos como o relato jornalístico constrói mulheres

assassinadas e seus agressores em casos de assassinatos em série e crimes de proximidade,

percebendo quais elementos são colocados em relação e de que maneiras, é a ação de

organizar a partir de estilhaços, presente na ideia de tessitura, que se apresenta como caminho

produtivo. Isso se dá uma vez que a Tríplice Mimese de Ricoeur não percebe essa construção

como uma etapa isolada de outras no processo de criação e re-criação narrativas, mas como

um emaranhado móvel que deve ser compreendido sempre em relação. Dessa maneira, cada

um dos elementos que estão articulados na narrativa jornalística nos desperta atenção pois,

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aqui, nosso ânimo reflexivo olha menos para os acontecimentos 4 do mundo de referência que são noticiados e mais para a processualidade da narrativa considerada em relação a esse mundo de referência (mundo prefigurado, mundo da ação). Nas palavras de Carvalho (2014):

Envoltos em jogos de interesse e em disputas de sentido, os acontecimentos noticiados se apresentam como o desafio permanente para os jornalistas, à medida que, a despeito de técnicas de redação mais ou menos estáveis, cada narrativa requer uma cuidadosa escolha de palavras. (CARVALHO, 2014, p.126)

O autor afirma também, ao fazer a reflexão acima e recorrendo a Ricoeur, que narrar

“é articular a armação de uma intriga à temporalidade”, destacando que o esforço jornalístico, ao construir narrativas dessa ordem, demanda situar determinado acontecimento no presente

“a partir de interconexões com o passado, com outros acontecimentos que o antecederam ou que ajudam a compreendê-lo e também fazer projeções sobre o futuro — tais como eventuais desdobramentos possíveis” (2014, p. 126). Essa ideia cíclica, veremos, é o que se apresenta como âncora para o conceito da Tríplice Mimese de Ricoeur.

No Círculo Hermenêutico estão abarcadas Mimese 1, Mimese 2 e Mimese 3, tríade que deve ser entendida como uma rede de processos interligados, na qual entrecruzamentos se dão a todo o momento, jamais obedecendo a uma estrutura estanque. Na Mimese 1, a prefiguração do campo prático, está disposta uma rede de referências presentes no mundo social, inclusive já mediadas em outros processos, e que se mostra como um conjunto simbólico do “real empírico” acordado em certas condições, o que faz com que determinada experiência seja compartilhável a partir de condições mínimas para entendê-la ao experienciá- la narrativamente. Estão, nesse conjunto, como afirma Marcela Farré (2004), “o modelo do mundo ético ou representação do real, como pressuposições de verdade, que o leitor tem como certas” (FARRÉ, 2004, p. 143). Carvalho (2012) chama atenção para a composição da Mimese 1, destacando que o mundo prefigurado se articula a partir de três dimensões:

estruturais, simbólicas e temporais. Nas palavras do autor,

4 Reconhecemos que existem estudos importantes acerca da discussão de acontecimento, especialmente os

desenvolvidos pelo sociólogo e pesquisador francês Louis Quéré (2005, 2012) que partem das reflexões sobre

interações gestadas no seio pragmatista. Ao lidarmos com “acontecimento” neste trabalho, porém, não nos

referimos a essas ponderações, nem buscamos uma discussão sobre uma tipologia acontecimental do fenômeno

estudado. Aqui, nos aproximamos mais de uma visada jornalística em torno do fenômeno, tomando-o mais como

uma construção, um “propor-se como” sem abandonar a dimensão das interações, como nos sinalizam reflexões

com as de Antunes (2008). O conceito de “caso comovente” (PEDEMONTE, 2011), como veremos mais

adiante, é uma abordagem que nos auxilia na compreensão dos relevos dos casos de assassinatos em série em um

sentido de cobertura sistemática e nos serve, nessa pesquisa, para lidarmos com aquilo que é já referido na

instância midiática.

(20)

A primeira diz respeito, imediatamente, às próprias formas narrativas mais caras a uma determinada sociedade, compreendendo um conjunto de regras consideradas pertinentes a um bom modo de narrar, ou a uma tradição narrativa. A segunda dá conta de um conjunto de mitos, crenças, valores, questões éticas e morais, enfim, a uma ampla gama de manifestações típicas da cultura, enquanto a última é articuladora de sentidos ao remeter às diversas possibilidades de que a temporalidade, cronológica ou de outra natureza, é portadora. (CARVALHO, 2012, p. 175)

A partir dessa consideração e aproximando o conceito do fenômeno que observamos, os assassinatos de mulheres cometidos por homens em dois contextos específicos, é possível dizer que, em ambas modalidades, há um repertório social em circulação, no mundo de referência em que essas mortes acontecem, que servem como catalisador e amparo para a narratividade desses acontecimentos no âmbito jornalístico. Podemos dizer que na dimensão estrutural, toda uma gama de narrativas pregressas produzidas oferecem subsídios para as novas, o que nos leva a considerar que estão em jogo, na construção narrativa sobre assassinatos de mulheres, não apenas narrativas jornalísticas, mas também aquelas de outra ordem — literárias, cinematográficas, televisivas, musicais — que fazem parte de um imaginário social compartilhado e que oferecem certas tendências estilísticas para a formação de novas narrativas: uma certa dimensão de tradição. Como ressalta Leal (2006), “todo ‘texto’

é um evento único, constituído no cruzamento das relações anteriores, mais gerais, que o tornam possível, e no diálogo peculiar que estabelece com outros fenômenos” (2006, p. 21), o que nos leva a dizer que um texto também se dá apenas em relação a outros textos.

O aspecto simbólico merece destaque por conta do olhar de nossa pesquisa. Se essa dimensão congrega mitos, crenças, valores, questões éticas e morais e se no Círculo Hermenêutico as três mimeses estão interligadas, podemos inferir que, na narrativa jornalística, há uma série de saberes encarnados articulados, evidenciados em maior ou menor grau, que dizem de certas regras sociais compartilhadas no mundo de referência. A percepção do jornalismo quanto às mortes de mulheres, assim, não é descolada do que circula socialmente. No relato que o jornalismo produz, é possível perceber escolhas narrativas que deflagram esses valores morais e, em nossa pesquisa, assim, notar um certo modo de olhar para os crimes contra mulheres e para as dinâmicas das relações sociais imbricadas naquele acontecimento que não é exclusivo do jornalismo, mas que, em certa medida, é trazido à tona

— e, pensando ciclicamente, alimentado — por ele.

A dimensão temporal, o terceiro elemento de destaque da Mimese 1, desse mundo

prefigurado, é fundamental para compreender os movimentos de contextualização — ou de

(21)

ausência dela — que o relato jornalístico faz. Afinal, se narrar é articular elementos de maneira a propor uma sequencialidade verossímil a partir de um conjunto de referências compartilhadas, se “narrar é uma ação que se dá no tempo” (LEAL, 2006, p. 25), cada novo assassinato de mulheres referido nos jornais diz respeito a um marco temporal, de maior ou menor reverberação — menos empírica, mais midiática. Em outras palavras, há um encadeamento temporal nas narrativas jornalísticas de mortes de mulheres, seja interno, pensando em uma “construção de cena” que a narrativa faz para contar determinado episódio, seja ampliada, em um movimento de olhar para um passado (as memórias circulantes de crimes pregressos, marcos jurídicos, crimes de destaque, outros acontecimentos relacionados em outros retalhos temporais) ou mesmo para dizer de uma projeção de futuro (como a possível conclamação de políticas públicas direcionadas para o problema específico). Nesse sentido, a narrativa jornalística pode ser tomada como propositiva, tanto de um resgate de passado, tanto como de um convite ao futuro. De acordo com Ricoeur, o trajeto que a Mimese 1 opera, no sentido da “representação da ação” é, antes de mais nada, compreender o que é o agir humano em sua semântica, em sua dimensão simbólica e em sua temporalidade. Para o autor, “é nessa pré-compreensão, comum ao poeta e ao seu leitor, que se delineia a construção da intriga” (RICOEUR, 2010, p. 112) e, ainda, “o tempo se torna tempo humano na medida em que está articulado de maneira narrativa” (p. 9).

A Mimese 2, a configuração, de acordo com Farré, corresponde ao “domínio da poiesis, dos mecanismos de criação que realizam diferentes instâncias narradoras” (2004, p.143). É nela, na composição da intriga na arte de narrar, que elementos estilhaçados são costurados em prol de uma narrativa verossímil — e nos interessa, aqui, perceber quais estratégias narrativas o jornalismo aciona na construção de personagens específicas envolvidas na trama do assassinato referido na busca por essa verossimilhança. Para Ricoeur, a composição da intriga, presente em Mimese 2, “compõe juntos fatores tão heterogêneos como agentes, objetivos, meios, interações, circunstâncias, resultados inesperados, etc.”

(2010, p. 114, destaque do autor). Além disso, o francês afirma que “o sentido da operação de configuração constitutiva da composição da intriga resulta da sua posição intermediária entre as duas operações” (2010, p. 94). Nas palavras de Carvalho (2012):

Se em mimese I temos o mundo prefigurado, mimese II é o ato de tecer a intriga, entendendo, além disso, que a intriga é a mediadora por excelência entre o mundo que precede a narrativa e o que vem após a colocação em circulação da narrativa.

Dar sentido ao mundo e permitir a emergência de novos sentidos a esse mesmo

mundo é o papel cumprido por mimese II. (CARVALHO, 2012, p. 176)

(22)

Dessa forma, podemos entender que a construção da narrativa jornalística, nessa equação, se localiza fortemente nessa operação de configuração, uma vez que o gesto do jornalismo é caracterizado por uma ação organizadora e de “permissão” da emergência de novos sentidos. Na cobertura de assassinatos de mulheres, tanto nos crimes de assassinatos em série quanto nos de proximidade, o jornalista, ali disposto a personificar o jornalismo no seu jogo de tecer e funcionando nessa engrenagem como um produtor de narrativas jornalísticas, ao receber a pauta, se dirige às fontes, aqui, agentes humanos, na tentativa de ter acesso a estilhaços do vivido, de uma experiência temporal circunscrita e recortada. Cada uma dessas fontes, ao narrarem o que lhes cabe, busca a organização a partir da memória, do vivido, de posicionamentos ideológicos, de recortes subjetivos. Mas a própria narratividade advinda dos relatos das fontes já expõe seu aspecto fragmentado e incompleto a partir do momento em que reconhecemos que se a narrativa não é a ação narrada, mas sim um gesto de reconstruí-la, essa reconstrução é refém da própria desorganização mnemônica humana, não cronológica, frágil e porosa. Se essa testemunha presenciou o crime ou aos agentes nele implicados está interligada afetivamente — familiares ou amigos das vítimas ou dos assassinos, por exemplo —, essas fragilidades se potencializam. Todo o processo de extrair fragmentos também passa por fontes não humanas, como boletins de ocorrência, observação de casos pregressos noticiados ou mesmo de outras mídias noticiosas, que também fornecem subsídios para a construção dos relatos.

Investido de seu papel de produtor de narrativas jornalísticas, o jornalista coleta e

seleciona o que destacar desses relatos, cruzando-os com outros dados — estatísticas de

órgãos oficiais, recuperação de memória de crimes semelhantes já cometidos — e tenta

conferir uma certa verossimilhança a partir do encadeamento de elementos heterogêneos,

tensionados, instáveis. O que podemos dizer do gesto jornalístico nesse processo? Que ele faz,

compulsoriamente, recortes e costuras. Se a notícia impressa carrega em si uma

sequencialidade cronológica, lógica e uma proposição de sentido, é porque o jornalismo

compulsoriamente fez escolhas sobre o que narrar e o que não narrar, sobre o que destacar e o

que manter nas sombras. As próprias entrevistas, que poderiam ser chamadas em uma visada

ingênua de “material bruto” para se lapidar, já são, em si mesmas, recortadas. Afinal, o

processo de entrevistar consiste em fazer perguntas, intervenções, deslocamentos, implicando

necessariamente um direcionamento, uma proposição de sentido, que não será “acatada” de

maneira simplificada, como vimos na ideia de emergência do texto.

(23)

A narrativa, a partir dessa reflexão, é uma malha lacunar. A metáfora de uma malha, aqui, parece apropriada: ao olhá-la de longe, atentando-nos a percebê-la como uma unidade, ela parece inteira, sólida, coesa, tendo estabilidade o suficiente para ser funcional. Ao olharmos com mais acuidade, em um movimento quase microscópico — já tomados pela desconfiança de tamanha estabilidade —, é possível perceber as lacunas, os espaços não preenchidos, a incompletude. Há fios, mas eles precisam ser tecidos, dispostos em arranjos específicos, para que essa malha seja um todo. Se ali, em meio aos fios, imperceptíveis ao olho nu, estão os espaços vazios que destroem a ideia de um conjunto homogêneo, residuais do processo de tecer, é porque a própria tessitura já prevê a lacuna e dela depende. O jornalismo, assim, não é mero observador ou instância que registra, no fenômeno estudado, o desenrolar da violência, mas funciona como sua testemunha e, como mais posteriormente problematizaremos, pode vir a ser cúmplice dessa violência e agente de outras.

Midiatizado e em outras ordens do simbólico, o jornalismo não apenas observa e registra o acontecer da violência, o testemunha, na perspectiva ampla e complexa, o que implica romper com a condição básica de observação e observador não implicados nos acontecimentos violentos. (ANTUNES, 2012, p. 286-287)

A Mimese 3, a reconfiguração, nas palavras de Farré, é “a esfera que faz intervir a atividade receptora com atualização persuasiva e emotiva” (2004, p. 143). Essa instância, como aponta Carvalho, convoca o leitor da narrativa a integrar-se à trama “não de forma passiva, e sim como quem exerce o papel de refiguração, tornando completo o círculo hermenêutico” (2012, p. 177). Nesse momento, o leitor se conecta à narrativa em questão de uma maneira ímpar, usando de suas vivências — experiências empíricas e narrativas, crenças, valores, repertório, um certo horizonte de leitura — para preencher a malha lacunar da narrativa e acolhê-la dentro de condições particulares, o que faz com que, em cada fruição, um texto diferente emerja a partir da articulação dos elementos dispostos narrativamente em certo arranjo. Para Ricoeur, é o leitor quem permite que o narrado retorne ao vivido, devolvendo as narrativas para o mundo prefigurado de referência em Mimese 1, fazendo com que círculo gire. Assim, o leitor opera como coautor a partir de sua apropriação particular da intriga. À intriga, inevitavelmente o leitor acrescenta algo de si. Ao fazer isso, elabora e reelabora visões de si mesmo, do outro e do mundo, afetando e sendo afetado pela narrativa.

Para Carvalho:

(24)

Essa operação de narrar o presente, de dizer factualmente o mundo [...] não se esgota na mera referencialidade a um aqui e agora, mas é tributária de referências ao passado, ao mesmo tempo em que também projeta um futuro, no mínimo pela operação de leitura, processo que, inscrito na mimese III, está sempre no horizonte da produção textual. Nesse sentido, a dimensão relacional inscrita na tríplice mimese cria uma determinada expectativa de leitura, mas não é capaz de encerrar uma única possibilidade de percepção do mundo a partir dos acontecimentos narrados segundo processos de organização textual que contam, dentre outras, com as estratégias de enquadramento, que para não irmos muito longe em sua caracterização, consistem na seleção de aspectos dos acontecimentos que atribuem a eles inteligibilidade.

(CARVALHO, 2012, p. 178-179)

Em mais uma aproximação com o fenômeno que analisamos, é possível inferir que, para cada narrativa sobre morte de mulheres que é construída pelo relato jornalístico, várias experiências narrativas são possíveis. Mesmo que se ancore em determinados regimes de verdade e falares sociais compartilhados em Mimese 1 para sua organização em busca da verossimilhança, a narrativa jornalística é complexa e heterogênea, composta de narrativas superpostas, exposições e apagamentos. Mesmo que o leitor ofereça às lacunas narrativas seu repertório em uma tentativa de preenchê-la e seu movimento seja de operar um certo ensaio de estabilização, a narrativa não pode ser estabilizada porque o Círculo Hermenêutico não é estancado.

Mimese 3 mostra-se, então, como um potente terreno para que as resistências aconteçam quando a Mimese 2 parece mais ratificar do que retificar falas hegemônicas sobre o que é ser mulher e sobre a violência de gênero contra a mulher. Na ação de acolher a narrativa em condições peculiares, é possível, por exemplo, que um leitor de jornal que no primeiro momento está em Mimese 3 se desloque para Mimese 1, reconhecendo e questionando certas práticas e convenções do mundo prefigurado, e devolva a narrativa ao mundo, ressignificada, em um novo processo de configuração, em Mimese 2. Ou seja: mesmo quando o jornalismo não subverte o que marcadamente precisa ser subvertido quando se pensa em violência contra a mulher, ele pode fomentar conversações sociais para que essa subversão se dê.

Nesse sentido, é possível dizer de um imaginário compartilhado que perpassa as

narrativas que tratam de assassinatos específicos de mulheres e que transcorre em todo o

relato, sendo dele constitutivo e, também, alimentando-o, mesmo que não encerre a

significação em caminhos únicos de sentido. Se essa verossimilhança construída

narrativamente se ancora em (e serve a) certos regimes de verdade, que pistas nos fornecem

certas escolhas sobre jogos de hierarquização para compreensão de lugares ideológicos e

(25)

saberes encarnados? Nos movimentos seguintes, vamos cotejar certos conceitos e reflexões na tentativa de pensar, de forma mais complexa, na relação entre as narrativas jornalísticas e o assassinato de mulheres.

2.2 A violência de gênero e as regulações sobre ser mulher: femicídios

Se nosso primeiro momento reflexivo dedicou-se a problematizar a noção de narrativa com a qual trabalhamos no âmbito do jornalismo, o segundo consiste em trazer à tona tópicos importantes acerca da violência contra a mulher como fenômeno para pensarmos sobre sua narratividade. Aqui, pretendemos refletir sobre as agressões praticadas contra as mulheres em seu aspecto sistemático, especialmente o feminicídio 5 , que em alguns estudos aparece demarcado como femicídio (CARCEDO, 2000; PASINATO, 2011).

Esse resgate das especificidades se faz importante por pelo menos dois motivos.

Primeiro, porque se estamos dizendo de um imaginário compartilhado que perpassa as narrativas, em um mundo prefigurado, é preciso olhar para os falares sociais não como resultantes de um gesto jornalístico, o que nos empurraria para uma visada midiacêntrica, e sim como espécies de fios que ajudam a tecer a referida malha narrativa a partir de sua tessitura. Ricoeur afirma que “se, com efeito, a ação pode ser narrada, é porque ela já está articulada em signos, regras e normas: está, desde sempre, simbolicamente mediatizada”

(RICOEUR, 2010, p. 100-101, destaques do autor).

Assim, ao voltarmos nosso olhar para alguns aspectos empíricos do fenômeno, podemos acessar, de certa maneira, um conjunto de falas sociais que constituem todo o Círculo Hermenêutico e ponderar como o referente e a narrativa operam em processos de retroalimentação — o que vai se desdobrar, também, no terceiro momento de reflexão, em que buscamos olhar para as visibilidades e invisibilidades que latejam nessas construções narrativas.

O segundo argumento para justificar o olhar para particularidades do próprio fenômeno referido caminha em sintonia com o primeiro, mas se debruça sobre um problema mais “jornalístico”. Se, no mundo empírico, esse conjunto de mortes fazem parte de uma rede

5 A Lei nº 13.104, decretada em 9 de março de 2015 no Brasil, altera o art. 121 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de

dezembro de 1940 - Código Penal, para prever o feminicídio como circunstância qualificadora do crime de

homicídio, e o art. 1º da Lei nº 8.072, de 25 de julho de 1990, para incluir o feminicídio no rol dos crimes

hediondos. Como feminicídio, no marco jurídico, entende-se o homicídio “praticado contra a mulher por razões

da condição de sexo feminino”, sendo considerado para a classificação se o crime envolve violência doméstica e

familiar e “menosprezo ou discriminação à condição de mulher”.

(26)

de agressões contra as mulheres que corresponde a um recorte específico dentro de outras manifestações violentas e há uma memória de crimes pregressos noticiados em maior ou menor intervalo temporal, é a partir dessa lente conceitual de observação que poderemos perceber se o jornalismo trata do fenômeno como episódico ou entrelaçado e sistemático. Essa preocupação na construção dos relatos e na percepção da violência por parte do jornalismo procede, uma vez que, em alguma medida, os jornais podem ser instâncias decisivas para influenciar a opinião da sociedade e cobrar, além de fiscalizar, ações por parte do Estado e a implantação de políticas públicas (RAMOS & PAIVA, 2008).

Para o panorama do fenômeno na realidade nacional, alguns apontamentos estatísticos mostram-se pertinentes. Dados reunidos por Waiselfisz (2015) no Mapa da Violência 2015:

Homicídio de mulheres no Brasil mostram que o país ocupa a 5ª posição do ranking de homicídios femininos no cenário internacional, em estudo feito com 83 nações. No último levantamento feito nos mesmos moldes, publicado em 2012, o país estava na 7ª posição, o que significa uma rápida ascensão no ranking em um curto período. Atualmente, somente El Salvador, Colômbia e Guatemala (países latino-americanos e com condições socioeconômicas que passam por alguns pontos em comum) e a Federação Russa ultrapassam os 4,8 homicídios por 100 mil mulheres apresentados pelo maior país da América do Sul. O número equivale a 48 vezes mais femicídios do que os observados no Reino Unido, por exemplo, já levando em consideração as diferenças quantitativas populacionais.

Outro levantamento, feito pela Fundação Perseu Abramo e pelo Serviço Social do Comércio (VENTURI e GODINHO, 2013), em 2010, constata que cinco mulheres são espancadas a cada dois minutos no Brasil. O dado ajuda no entendimento do cenário da violência contra a mulher no país, mesmo não dizendo especificamente de mortes, e aponta para uma certa predominância dessas agressões no que diz respeito ao contexto em que elas ocorrem, muito marcadamente nas relações íntimas e de confiança interpessoal (RENNÓ, 2011). A pesquisa realizada pelo Data Popular em parceria com o Instituto Patrícia Galvão em 2013, em torno da percepção da sociedade brasileira sobre a violência e o assassinato de mulheres, corrobora essa noção. O estudo mostrou que 7 em cada 10 entrevistados acreditam que a mulher sofre mais violência dentro da própria casa do que em espaços públicos.

Nesse sentido, já temos algumas pistas de falares sociais e de um certo imaginário

repartido que podem vir a atravessar as narrativas jornalísticas em questão. Admite-se

socialmente a prevalência da violência contra a mulher em um contexto íntimo e o próprio

(27)

jornalismo lida com assassinatos de mulheres praticados por homens com quem ela estabelecia alguma relação de confiança (marido, namorado, ex-companheiro, etc.) diariamente. Entretanto, na contramão do mundo de referência e contrariando o argumento quantitativo, são crimes “extraordinários” que adquirem maior reverberação midiática a partir do momento em que o jornalismo já prevê as “mortes corriqueiras” em sua processualidade. É o caso dos assassinatos em série praticados contra mulheres, o que implica variações nas narratividades e outro modo de operar processos de referencialização por parte do jornalismo, o que discutiremos mais adiante.

Um dado interessante precisa ser mencionado. Nessa mesma pesquisa do Instituto Patrícia Galvão, apesar de 65% das pessoas entrevistadas se declararem discordantes da expressão “Mulher apanha porque provoca”, 17% se declararam veementemente em concordância e outros 17% afirmaram não discordar nem concordar. Tal percentual dá pistas sobre discursos circulantes socialmente que vão estar, invariavelmente, em tensão nas narrativas jornalísticas.

Da amostragem questionada, é possível inferir que ao menos 34% não consegue enxergar a violência contra a mulher como o problema social que de fato é, relativizando a própria violência e, ainda, 17% declaradamente culpabilizam a vítima pela agressão sofrida

— o que não quer dizer que os outros 17% não culpabilizem também.

(28)

Figura 1 – Panorama sobre a violência contra a mulher no Brasil

Fonte: Infográfico elaborado pela autora em parceria com Bruno Fonseca a partir dos dados de: Mapa da violência 2015: Homicídio de mulheres no Brasil; *Data Popular e Instituto Patrícia Galvão (2013);

Fundação Perseu Abramo e Serviço Social do Comércio

É relevante, também, inserir a morte de mulheres no Brasil em um quadro ampliado

que congrega e expõe violências diversas contra outros grupos minoritários. Estudos recentes

que contemplam essas minorias dão a ver o quanto a sociedade brasileira é machista, racista e

homofóbica, dotada de preconceitos outros que se desdobram em rede e culminam em — e

alimentam — manifestações sistemáticas de violência. O terceiro Relatório de Violência

Homofóbica, publicado pelo então Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos

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Direitos Humanos em fevereiro de 2016, afirma que ao menos cinco casos de agressões homofóbicas são registrados todos os dias no Brasil, mas os números reais são infinitamente maiores 6 .

Figura 2 – Panorama brasileiro de violência contra grupos minoritários

Fonte: Infográfico elaborado pela autora em parceria com Bruno Fonseca a partir dos dados de:

Relatório de Violència Homofóbica (2016); Mapa da violência 2016: Homicídios por armas de fogo no Brasil; Atlas da violência 2016; Mapa da violência 2015: Homicídios de mulheres no Brasil

O Mapa da Violência 2016: Homicídios por armas de fogo no Brasil (WAISELFISZ, 2016) mostra que morrem 2,6 vezes mais negros do que brancos vitimados por armas de fogo no país 7 . Segundo o Atlas da Violência 2016, assinado pelo Fórum Brasileiro de Segurança

6 Disponível em: http://www.sdh.gov.br/assuntos/lgbt/dados-estatisticos/Relatorio2013.pdf

7 Disponível em: http://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2016/Mapa2016_armas_web.pdf

(30)

Pública (FBSP) e pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), aos 21 anos de idade, quando há pico etário de assassinados no país, pretos e pardos possuem 147% mais chances de serem vítimas de homicídios, em relação a indivíduos brancos, amarelos e indígenas 8 . Mesmo em um recorte interseccional dos femicídios, é possível frisar que a taxa de assassinatos de mulheres negras aumentou 54% em dez anos, passando de 1.864, em 2003, para 2.875, em 2013. No mesmo intervalo temporal, o número de homicídios de mulheres brancas diminuiu 9,8%, caindo de 1.747, em 2003, para 1.576, em 2013.

Para delinearmos um percurso conceitual acerca da violência contra a mulher e os estudos feministas no Brasil, recorremos a Izumino e Santos (2005), que ressaltam que, no final dos anos 80, há uma mudança teórica importante acerca do tema no Brasil, considerando, principalmente, certa mobilidade entre o “lugar de opressor” e de “oprimido” a partir de relações múltiplas e reticulares de poder, o que vai dialogar com o terceiro momento reflexivo que faremos, na tentativa de percepção de como o jornalismo engendra, por vezes, invisibilidades nas visibilidades, uma vez que, “as narrativas apresentam-se como espaço de tensão, em que convivem coerção, resistência, consonâncias e dissonâncias” (LEAL, 2006, p.

26).

Aqui, retomamos brevemente algumas tendências teóricas na observação de crimes praticados contra as mulheres e suas implicações para o olhar narrativizante que não apenas observamos em operação no relato jornalístico, mas que adotamos, como pesquisadores. Tal gesto se dá na tentativa de constituição de uma lente complexificadora da violência contra a mulher não só no mundo empírico, mas na percepção comunicacional, entendendo, como falamos anteriormente, a narrativa também como procedimento analítico. Aqui, na esteira de Izumino e Santos, situaremos dois pontos a serem problematizados nas concepções de Marilena Chauí (1985) e Heleieth Saffioti (1987). Em relação às reflexões de Chauí, gera algum incômodo uma certa visada que implica as mulheres na violência que recebem, considerando que também a praticam, “mas sua cumplicidade não se baseia em uma escolha ou vontade, já que a subjetividade feminina é destituída de autonomia” (CHAUÍ, 1985, p. 3).

Nessa acepção, por mais que a autora faça essa ressalva em relação a uma certa intencionalidade das agressões, há, ao que entendemos, uma dimensão de culpabilização.

Intencionamos, aqui, não observar as mulheres no extremo oprimido como se esse fosse um

8 Disponível em:

http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/nota_tecnica/160322_nt_17_atlas_da_violencia_2016_finaliz

ado.pdf

(31)

lugar estanque e desconsiderar sua capacidade de agência, mas pensamos que, ao levantar a bandeira da cumplicidade, essas assimetrias de poder parecem ser menos problematizadas.

Em outras palavras, admitir a cumplicidade de antemão pode significar operar da mesma forma com que o jornalismo, em alguns momentos, parece operar: investido de um olhar algo inquisidor dirigido mais para a figura da vítima que a do próprio agressor.

Em um caminho oposto, mas também passível de problematizações, Saffioti considera que as relações interpessoais que constituem a violência contra a mulher não devem ser observadas como separadas da estrutura social, e sim a ela articuladas e, de certa forma

“devedoras”. Até então, a consideração do atravessamento de um mundo prefigurado em que circulam o machismo e a misoginia parece fazer sentido. No entanto, ao que nos parece, o argumento de Saffioti (2001) entende mais essa estrutura social como uma conformadora que como um atravessamento. Nas palavras da autora:

[...]se as mulheres desfrutam de parcelas irrisórias de poder face às detidas pelos homens; se as mulheres são portadoras de uma consciência de dominadas; torna-se difícil, se não impossível, pensar estas criaturas como cúmplices de seus agressores.

(SAFFIOTI, 2001, p. 126)

Se nos agrada a recusa à culpabilização da vítima em situação de violência nas concepções de Saffioti, reconhecemos o quinhão problemático de sua reflexão. Ao conferir uma totalidade ao argumento do patriarcado, em uma espécie de reificação, o olhar da autora pode vir a cristalizar certas relações nas quais essas violências se dão. Como salientam Izumino e Santos (2005), Saffioti tende a conceber as mulheres como “sujeito dentro de uma relação desigual de poder com os homens” (2005, p. 4), em opressão constante, desconsiderando os jogos de poder e uma dimensão de agência por parte dessas mulheres. O que buscamos com essa contraposição não é desconsiderarmos as vítimas como vítimas em uma espécie de desqualificação da agressão — o que, admitimos, iria contra toda nossa escolha ideológica latente na pesquisa —, mas tentamos levar em consideração sujeitos em ação, implicados em relacionamentos e sociabilidades tensionados, instáveis.

Dito de outra forma, acreditamos que não é produtivo pensar a mulher como uma

cúmplice na própria violência que sofre por fazer recair sobre esse grupo, já posicionado de

forma desigual nas relações assimétricas de poder, uma suposta responsabilidade dentro de

um sistema que o agride. Considerar mulheres como cúmplices, nesse sentido, seria uma

forma de passar uma régua nas irregularidades de poder e invisibilizá-las. Em contrapartida,

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