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Tomada de decisão: um processo complexo

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Academic year: 2021

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Tomada de decisão:

um processo complexo

Daniela Di Giorgio Schneider

Maria Alice M. P. Parente Professora do Departamento de Psicologia da UFRS

tomada de decisão (TD) é um processo fundamental no dia– a– dia de um indivíduo. O ser humano está constantemente realizando decisões, desde escolhas corriqueiras até questões de suma importância. Algumas decisões são tão automáticas que não evidenciam a complexidade de seu processo cognitivo, como exemplo, a escolha de uma roupa para vestir ou um local onde almoçar. Outras, entretanto, são mais difíceis, visto que envolvem diferentes raciocínios cognitivos e podem afetar o rumo de uma ou várias vidas, como a escolha de uma profissão.

Os estudos em TD pela Psicologia Cognitiva, se comparados aos de outras funções cognitivas, apesar de recentes, vêm apresentando notável desenvolvimento nas últimas décadas. Sua pesquisa tem contribuído para um estreitamento das barreiras de comunicação existentes entre as disciplinas tradicionais, construindo uma ponte entre pesquisas em Psicologia, Economia e Administração. Dentro da Psicologia, o uso de teorias de tomada de decisão pode ser principalmente observado na Psicologia Organizacional, na Neuropsicologia e na Psicologia Clínica, especificamente para a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), fornecendo suporte empírico e permitindo o desenvolvimento de intervenções terapêuticas cada vez mais eficazes (Beck &

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Alford, 2000; Wainer e cols., no prelo, Caminha, 2003). No presente artigo definiremos a TD para a Psicologia Cognitiva, ressaltando os principais modelos, ou seja, as abordagens teóricas atuais e, por fim, descreveremos alguns estudos que demonstram prejuízos na TD em usuários de álcool e outras drogas.

Tomada de Decisão

Para a Psicologia Cognitiva (Eysenck, 1994; Jiminez e Rodriguez, 1996; Medin & Ross, 1992; Sternberg, 2000; Tversky & Kahnemann, 1981), a tomada de decisão é uma função complexa que envolve a escolha entre duas ou mais opções. Ela requer a análise das características de cada uma dessas opções e a estimativa de conseqüências futuras acarretadas pela escolha.

A pesquisa em tomada de decisão, apesar de não ter um marco histórico claramente definido, pode ser considerada originária das Ciências Econômicas, da Matemática e da Estatística. Os estudos em TD na Economia iniciaram em 1713, desenvolvidos por um professor suíço chamado Nicolas Bernoulli, mas, apenas em 1954, Edwards (1954) introduziu a TD como tópico de pesquisa para psicólogos, através da incorporação de teorias econômicas e psicológicas de decisões sem risco, decisões de risco e jogos, abrindo caminho para pesquisas futuras. Paralelamente, Simon (1956) propôs uma abordagem do processamento de informação e TD baseada na racionalidade limitada. A pesquisa em TD na Psicologia Cognitiva, no entanto, somente adquiriu seu “status próprio” vinte anos mais tarde, quando Daniel Kahnemann e Amos Tversky (1979) publicaram seus achados em julgamento e tomada de decisão (Kahnemann & Smith, 2002; Mellers, Schwartz & Cooke, 1998). Os trabalhos desenvolvidos por esses autores, apesar de terem se tornado um importante referencial dentro do campo da Psicologia, no que tange aos estudos de TD, também contribuíram para o desenvolvimento de outras disciplinas, como é o caso da Economia. Este fato pode ser ilustrado com o Prêmio Nobel de Economia de 2002, o qual foi outorgado a Daniel Kahnemann e Vernon Smith, que utilizaram teorias de TD para analisar as tendências de investimento na Economia (Kahneman & Smith, 2002).

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Dois principais modelos procuram explicar os processos cognitivos envolvidos na TD: os normativos e os descritivos. As teorias normativas preocupam-se com a melhor estratégia a ser utilizada em uma situação de escolha, ou seja, explicam como as decisões devem ser tomadas de forma a otimizar a escolha. Os modelos normativos, portanto, voltam-se para situações ideais. Já os modelos descritivos seguem uma abordagem mais empírica, buscando demonstrar como as decisões são de fato tomadas, sendo estas ideais ou não.

Um ponto criticado da abordagem normativa, defendido principalmente pela chamada Teoria da Utilidade Esperada (TUE), é o postulado que uma pessoa toma sua decisão de forma racional e que tem plenas condições para chegar a uma decisão ideal. Sabe-se, entretanto, que muitas pessoas cometem vieses cognitivos ao decidirem e nem sempre seguem as regras pré-estabelecidas. Por esta razão, as teorias descritivas valorizam situações e características pessoais que podem alterar uma tomada de decisão “ideal”.

A Teoria Prospectiva (TP) é, até hoje, a teoria descritiva mais amplamente aceita. Segundo Tversky e Kahnemann (1979), as decisões dependem parcialmente da forma como o problema é apresentado. A configuração de um dilema pode induzir uma pessoa em sua escolha, e, no caso de escolhas econômicas, pode levá-la a uma atitude mais arriscada ou mais conservadora. Outros fatores que influenciam a TD são as características pessoais, hábitos e personalidade do decisor.

Por exemplo, a teoria prospectiva observou que, de forma geral, um indivíduo prefere um resultado seguro a correr riscos (efeito de certeza). Entretanto, essas preferências são revertidas, quando o problema, ao invés de salientar possíveis ganhos, salienta a possibilidade de perdas (efeito de reflexão). Além disso, quando a pessoa precisa tomar uma decisão em face de um problema com alternativas que contenham características semelhantes, ela tende a desconsiderar os elementos comuns entre as opções, focalizando naqueles que se diferenciam (efeito de isolamento). Dessa forma, é possível pensar que,

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se o indivíduo tiver características impulsivas, ao decidir a respeito de um dilema configurado para sugerir ganhos, tenderá a apresentar um comportamento de busca pelo risco, contrariando o comportamento que é mais comumente observado nesses casos.

O processo de decisão, segundo a Teoria Prospectiva, ocorre ao longo de duas fases: configuração e avaliação. Na primeira, o indivíduo reúne e reformula as opções com o intuito de simplificar as escolhas. A reformulação pressupõe: (1) classificar os resultados como perdas ou ganhos, a partir de um ponto referencial; (2) combinar as probabilidades associadas com resultados iguais; (3) separar os componentes de risco dos que não apresentam esta característica; e, (4) cancelar os componentes comuns das opções. Na fase da avaliação, são realizadas decisões hipotéticas, com o intuito de precisar a avaliação das opções, agora reunidas e enquadradas em determinada situação. O modelo da TP proposto por Tversky e Kahnemann (1981) pode ser exemplificado a seguir (Figura 1).

Fase I – CONFIGURAÇÃO Fase II – AVALIAÇÃO

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Hipótese do Marcador Somático

A preocupação sobre os processos biológicos subjacentes à TD também é recente, sendo referenciada, principalmente, nos trabalhos de Antônio Damásio (Bechara, Damásio, Damásio & Anderson, 1994; Bechara, Tranel, Damásio & Damásio, 1996; Damásio, 1994). Damásio (1996). Sem desconsiderar o uso das estratégias de raciocínio demonstradas por Tversky e Kahnemann (1979), Damásio propõe a integração de fatores cognitivos emocionais e biológicos para explicar o processo decisional. Sua teoria, denominada Hipótese do Marcador Somático, postula que o indivíduo tem uma sensação corporal automática antes de realizar qualquer análise de custo e benefício, ou seja, antes de raciocinar sobre a resolução do problema. Por exemplo, quando ele lembra-se de um mau resultado associado a uma opção, alguma sensação corporal (somática) desagradável ocorre. Neste momento, o “marcador somático” direciona a atenção para o resultado negativo, que atua como um sinal de alarme automático. A partir desse alerta, é possível que o sujeito rejeite imediatamente certa ação, resumindo sua escolha a um número muito menor de alternativas.

Falhas no funcionamento do “Marcador Somático” (Barnes & Thagard, 1996) são atribuídas a lesões no córtex pré-frontal ventro-medial, especificamente no hemisfério direito. No livro, O Erro de Descartes, Damásio re-examina o caso de Phineas Gage, vítima de uma explosão de mina em 1848, na qual uma barra de ferro atravessou sua cabeça e cérebro. Estranhamente, Gage recuperou-se, ficando apenas uma severa deficiência na TD prática e social. De acordo com Damásio, o caso de Gage e o de um segundo paciente com lesão no lóbulo frontal oferecem evidência convincente de que as regiões do cérebro humano responsáveis pela TD estão intimamente conectadas aos centros emocionais. O prejuízo no processo decisional destes pacientes é explicado por: uma inabilidade em ativar estados somáticos quando decisões habituais surgem; uma inabilidade para marcar as implicações de uma situação social com um sinal que pode separar opções boas e ruins. Pacientes com essa lesão ficam presos em uma análise de custo beneficio sem fim, de numerosas e conflitantes opções.

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Na ausência de marcadores emocionais, a TD é virtualmente impossível (Barnes & Thagard, 1996).

Sabe-se que a maior parte dos marcadores somáticos usados para a tomada racional de decisão foram, provavelmente, adquiridos durante o processo de educação e socialização, através da associação entre categorias específicas de estímulos e categorias específicas de estados somáticos. Portanto, os marcadores somáticos são adquiridos por meio da experiência, sob o controle de um sistema interno de preferências e de um conjunto externo de circunstâncias, que incluem não só estímulos com os quais o organismo tem de interagir, mas também normas e regras sociais (Damásio, 1996).

Segundo Damásio (1996), apenas o sinal automático pode não ser suficiente em algumas situações de tomada de decisão, visto que muitas vezes é necessário um processo subseqüente de raciocínio e de seleção final. O papel do marcador somático é dar um destaque (positivo ou negativo) a algumas opções de escolha, ajudando no processo de TD. Desta forma, é importante não excluir os pressupostos da teoria prospectiva na TD. Pode-se pensar que a teoria de Damásio complementa a teoria prospectiva, ao propor que um sinal biológico, de cunho emocional, precede o processo cognitivo de seleção, diminuindo significativamente o número de opções entre as quais o indivíduo deve decidir. Essa associação entre emoção e cognição aumenta a precisão e eficiência do processo de decisão.

Avaliação da Tomada de decisão na Neuropsicologia

A grande contribuição de Damásio e seus colaboradores, no que tange ao processo decisional, foi mostrar que alguns pacientes com lesão no córtex-pré-frontal possuíam falhas específicas na TD. No primeiro contato com esses pacientes, estranhou que eles não apresentavam dificuldades nas provas geralmente utilizadas para examinar outras funções do córtex pré-frontal. Essa parte do cérebro é responsável por atividades complexas como a solução de problemas complexos, a avaliação da perspectiva do outro e a execução simultânea de múltiplas tarefas. Por exemplo, para verificar estas funções, tem

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sido utilizado o Teste de Wisconsin Cards, uma prova clássica para o estudo de dificuldades pré-frontais. Nesse teste, o paciente deve associar cartas de quatro diferentes baralhos e adivinhar o critério de seleção (cor, forma ou número de elementos), assim como deve perceber quando esse critério se modificou sem aviso prévio (Figura 2).

Figura 2: Cartas do Wisconsin Card-Sorting.. O paciente ao ver uma carta (no desenho a com duas cruzes), deve escolher uma entre as quatro superiores, que têm em comum cor, número, forma ou nenhuma característica comum.

Os pacientes com lesão frontal, descritos por Damásio, apresentaram uma característica bastante peculiar e específica. Eles foram capazes de fazer reflexões plausíveis, quando deparados com problemas apresentados verbalmente, que exigiam decisões difíceis. Entretanto, quando inseridos na situação do problema, ou seja, em sua vida real, suas decisões eram extremamente arriscadas e levavam ao prejuízo próprio. Assim, no intuito de construir uma prova, possível de ser aplicada numa situação clínica, o grupo americano desenvolveu a chamada Tarefa do Jogo. Este teste neuropsicológico requer a avaliação dos resultados de longo prazo na presença de um conjunto complexo de contingências punitivas e gratificantes. Quatro baralhos são apresentados para o paciente, com as cartas viradas para baixo. O paciente é instruído que a cada carta virada ele vai se deparar com um ganho ou com uma perda. Dois baralhos apresentam cartas vantajosas: ganha-se pouca quantidade de dinheiro em cada carta, mas, em contrapartida, as perdas são pequenas e,

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portanto, o prejuízo é menor. Entretanto, nos outros dois baralhos, os desvantajosos, os valores ganhos são altos, mas as perdas são maiores ainda. O paciente não é informado dessa organização e deve ir descobrindo, à medida que decide as cartas que quer abrir.

Os pacientes frontais estudados por Damásio conseguiram realizar adequadamente a prova de Wisconsin e as demais provas que avaliam funções neuropsicológicas, porém, na Tarefa do Jogo, escolheram muito mais cartas dos baralhos desvantajosos, obtendo grande prejuízo no final da tarefa.

Abuso de Substância e Tomada de Decisão

Prejuízos na habilidade de tomada de decisão (TD) podem, igualmente, ser verificados em pacientes com abuso de substância química, e testes cognitivos têm permitido o estudo de tais disfunções em condições controladas, provendo um avanço importante no entendimento da adição.

Grant, Contoreggi e London (2000) conduziram um estudo no qual foi examinado o desempenho de usuários abusivos de droga na Tarefa do Jogo. Para controlar déficits generalizados, relacionados à escolha e planejamento, foi administrado aos sujeitos o teste Wisconsin Card. Trinta usuários abusivos de múltiplas substâncias foram comparados a um grupo de 24 sujeitos não usuários de drogas. O desempenho dos abusadores de droga na Tarefa do Jogo foi deficiente em relação ao grupo controle, porém, no Wisconsin Card não ocorreram diferenças entre os grupos. Os resultados mostram que os abusadores de droga, assim como os pacientes descritos por Damásio, apresentam funções executivas intactas, salvo quanto às maiores probabilidades de tomar decisões mal adaptativas. Esses pacientes preferem ganhos excelentes a curto prazo e não observam que tais opções resultam em prejuízos importantes a longo prazo.

Este trabalho também indica que a Tarefa do Jogo pode ser um modelo útil em estudos de laboratório de disfunções cognitivas associadas com abuso de droga. Como visto acima, ao testar a habilidade de ponderar recompensas

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imediatas em oposição a conseqüências negativas a longo prazo, a Tarefa do Jogo tem contribuído para avaliar dificuldades decorrentes do abuso de drogas.

Usuários de droga também exibem diferenças na atividade metabólica do córtex pré-frontal ventromedial quando comparados com controles. Diagnósticos psiquiátricos (Transtornos de Personalidade Obsessivo-Compulsiva, Transtorno de Personalidade Anti-Social) que apresentam características comportamentais desinibitórias e um alto grau de co-morbidade com abuso de substância, têm sido associados com anormalidades no metabolismo cerebral do córtex pré-frontal ventromedial. Esses resultados por imagem são consistentes com a vasta literatura envolvendo o córtex orbitofrontal e os circuitos subcorticais relacionados em comportamentos de resposta a novidade, mudanças nas contingências de reforçamento e resposta de inibição (Grant, Contoreggi & London, 2000).

A importância do córtex pré-frontal ventromedial na tomada de decisão é consistente com relatos da ativação em estudos de neuroimagem nos quais o sujeito deve fazer adivinhações sobre tarefas relacionadas a contingências de recompensas ou quando há violações nas expectativas.

Resumindo, os resultados deste estudo indicam que a Tarefa do Jogo pode ser usada para estudar um aspecto relativamente não explorado da adição às drogas: a tendência dos usuários de droga a continuar seu comportamento na presença de conseqüências prejudiciais. Esta tarefa pode ser útil em estudos de neuroimagem clínica explorando os processos cerebrais relacionados à adição de drogas.

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