O VALOR DA EMPRESA INSOLVENTE
Reina Carolina Ferreira Vilaça
Orientada por Doutor José Manuel Teixeira Pereira
Dissertação apresentada ao Instituto Politécnico do Cávado e do Ave para obtenção do Grau de Mestre em Contabilidade e Finanças
Barcelos, Março, 2016.
I
O VALOR DA EMPRESA INSOLVENTE
Reina Carolina Ferreira Vilaça
Orientada por Doutor José Manuel Teixeira Pereira
Dissertação apresentada ao Instituto Politécnico do Cávado e do Ave para obtenção do Grau de Mestre em Contabilidade e Finanças
Barcelos, Março, 2016.
II
“O sucesso nasce do querer, da determinação e persistência em se chegar a um objetivo. Mesmo não atingindo o alvo, quem busca e vence obstáculos, no mínimo fará coisas admiráveis.”
- José de Alencar
III RESUMO
O ambiente de instabilidade que Portugal tem enfrentado tornou mais comum a ocorrência de insolvências de empresas seja qual for a sua dimensão e sector de atividade.
A Insolvência é o termo atribuído quando a empresa se encontra impossibilitada de cumprir as suas obrigações já vencidas, tais como pagamento de salários aos seus colaboradores, pagamentos ao Estado e Outros Entes Públicos, fornecedores, entre outros.
Com a insolvência pretende-se satisfazer os direitos de todos os credores de forma igualitária, não sendo previsível que os mesmos vejam os seus créditos satisfeitos.
O principal objetivo da insolvência é a apreensão do património da insolvente, a liquidação dos mesmos e o rateio do produto obtido pelos credores reclamantes no processo de insolvência.
Este trabalho tem como principal objetivo avaliar a fiabilidade da informação prestada pela contabilidade da empresa e a realidade apreendida pela insolvência.
A concretização deste objetivo terá como alvo de estudo cem empresas decretadas insolventes. Para esse desiderato confrontaremos vários elementos contabilísticos e fiscais com os mapas elaborados pelos Administradores de Insolvência.
Palavras – chave: Insolvência. Massa Insolvente. Credor. Contabilidade.
IV ABSTRACT
The economic instability in Portugal in recent years made the occurrence of insolvencies in many companies ever more frequent independently of their size or sector.
The term “insolvency” refers to a company that is unable to fulfill its obligations such as salaries, taxes, suppliers and others.
The aim of the insolvency process is to satisfy the debts of the company by liquidating all of its assets which are normally apprehended by the Insolvency Administrator. The majority of the company creditors are not usually fully reimbursed of their credits once the apportionment is complete.
This thesis main objective is to evaluate the quality and reliability of the information provided by the companies accounting department compared to the assets apprehended in the insolvency process.
In order to achieve this goal one hundred companies, which have been declared insolvent, have been studied and their fiscal and accounting documents examined so as to compare them with the information provided by the Insolvency Administrator.
Keywords: Insolvency. Insolvent estate. Creditor. Accounting.
V AGRADECIMENTOS
A elaboração deste trabalho de investigação é fruto do empenho pessoal mas também de uma série de pessoas que direta ou indiretamente, me acompanharam e incentivaram a ultrapassar todas as adversidades que ao longo deste trabalho foram surgindo.
Por esta razão, desejo expressar os meus sinceros agradecimentos:
Ao orientador, Professor Doutor José Manuel Teixeira Pereira, pela disponibilidade manifestada em orientar este trabalho. O meu obrigado por estar sempre presente e de poder contar com o seu entusiamo, com a sua palavra de reconhecimento e de incentivo nos momentos menos fáceis. O seu apoio, dedicação, disponibilidade e confiança depositada contribuíram para que este trabalho tenha chegado a bom termo.
Aos meus pais, que são a minha raiz e o meu exemplo de integridade, amor e carinho.
Aos meus irmãos, cunhados e sobrinhos, pela alegria, amizade, apoio incondicional e incentivo.
Ao Rui, amigo, conselheiro e cúmplice dos bons e maus momentos.
Ao Dr. Amadeu José Maia Monteiro de Magalhães e Dr. Domingos Lopes de Miranda manifesto apreço pela possibilidade de realização do presente trabalho e por todos os meios colocados à disposição. Agradeço igualmente os conhecimentos transmitidos e disponibilidade demonstrada, que foram úteis para esta dissertação.
Ao Bruno Rodrigues pelas suas contribuições críticas que ajudaram a enriquecer todo o processo de construção do conhecimento.
À CVCR - Creating Value & Corporate Restructuring, Lda. e seus colaboradores, por me terem proporcionado as condições necessárias para a elaboração da presente dissertação, bem como pela amizade e apoio ao longo deste percurso.
À Dra. Liliana Cunha, agradeço os ensinamentos e a discussão de ideias que em muito me ajudaram a percorrer este caminho.
Por fim, o meu profundo e sentido agradecimento a todas as pessoas que contribuíram para a concretização desta dissertação, estimulando-me intelectual e emocionalmente.
A todos, enfim, reitero o meu apreço e a minha eterna gratidão.
VI LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
AFT - Ativo Fixo Tangível Art.º - Artigo
BEF - Benefícios Económicos Futuros
CAE - Classificação Portuguesa das Atividades Económicas CC - Código Civil
CIRE - Código da Insolvência e da Recuperação de Empresas
CMVMC - Custo das Mercadorias Vendidas e das Matérias Consumidas CNC - Comissão de Normalização Contabilística
CPC - Código de Processo Civil
CRP - Constituição da República Portugal CSC - Código das Sociedades Comerciais DGPJ - Direcção-Geral da Política de Justiça EC - Estrutura Conceptual
IES – Informação Empresarial Simplificada INE - Instituto Nacional de Estatística INST. - Instância
NC-ME - Norma Contabilística para Microentidades NCRF - Norma Contabilística e de Relato Financeiro
NCRF- PE - Norma Contabilística e de Relato Financeiro para Pequenas Entidades n.d.- Não disponível
p.e. - Por exemplo
PME - Pequena e Média Empresa
RAI - Relatório do Administrador de Insolvência
VII SEC. - Secção
SNC - Sistema de Normalização Contabilística ss - Seguintes
VIII ÍNDICE
RESUMO………. ... III AGRADECIMENTOS……….. ... V LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS………. ... VI ÍNDICE DE ILUSTRAÇÕES……….. ... XI ÍNDICE DE QUADROS………. ... XII ÍNDICE DE TABELAS………... XIII
INTRODUÇÃO……….…… ... 13
CAPÍTULO II – A INSOLVÊNCIA……….. ... 16
2.1. A Insolvência Empresarial em Portugal ... 16
2.2. O Processo de Insolvência ... 21
2.2.1. Fases do processo de insolvência ... 24
2.2.1.1. Pedido de declaração de insolvência ... 24
2.2.1.2. Apreciação limiar e medidas cautelares ... 27
2.2.1.3. Audiência de discussão e julgamento ... 29
2.2.1.4. Sentença de declaração de insolvência e impugnação ... 30
2.2.1.5. Apreensão de bens ... 35
2.2.1.6. Assembleia de credores de apreciação do relatório ... 36
2.2.1.7. Reclamação para verificação de créditos, impugnação e sentença de verificação de créditos; Verificação ulterior ... 37
2.2.1.8. Liquidação e pagamento ... 40
2.2.1.9. Incidentes de qualificação de insolvência ... 43
2.2.1.10. Plano de insolvência ... 45
2.2.1.11. Encerramento do processo ... 46
IX
CAPÍTULO III – SISTEMA DE NORMALIZAÇÃO CONTABILÍSTICA ... 48
3.1. NCRF 7 - Ativos fixos tangíveis ... 48
3.1.1. Objetivos ... 48
3.1.2. Definição ... 49
3.1.3. Reconhecimento ... 49
3.1.4. Mensuração no Reconhecimento ... 50
3.1.5. Mensuração após o reconhecimento de AFT ... 51
3.1.5.1. Modelo do Custo ... 52
3.1.5.2. Modelo de Revalorização ... 52
3.1.6. Depreciação ... 53
3.1.7. Imparidade... 56
3.1.7.1. Reconhecimento e mensuração de uma perda por imparidade ... 57
3.1.7.2. Reversão de uma perda por imparidade ... 58
3.1.8. Desreconhecimento ... 59
3.2. NCRF 18 – Inventários ... 59
3.2.1. Objetivos ... 59
3.2.2. Definições ... 60
3.2.3. Mensuração de Inventários ... 62
3.2.3.1 Custos dos Inventários ... 62
3.2.4. Fórmulas de Custeio ... 64
3.2.5. Divulgação ... 65
CAPÍTULO IV- ESTUDO DE CASO: ANÁLISE DE RESULTADOS ... 66
4.1. Fontes de Informação ... 66
4.2. Resultados Obtidos ... 66
X
4.2.1. Análise das rúbricas de disponibilidade e terceiros ... 73
4.2.1.1. Disponibilidades ... 73
4.2.1.2. Relação de Créditos Reconhecidos e Não Reconhecidos ... 76
4.2.2. Alienação de Bens ... 77
4.2.2.1. Inventários ... 80
4.2.2.2. Investimentos – Ativos Fixos Tangíveis e Ativos Intangíveis ... 81
CONCLUSÃO……… ... 85
BIBLIOGRAFIA………. ... 88
ANEXOS………. ... 94
XI ÍNDICE DE ILUSTRAÇÕES
Ilustração 1 - Ordem de pagamentos no processo de insolvência ... 41
Ilustração 2 - Fases do Processo de Insolvência ... 47
Ilustração 4 - Quantia escriturada do ativo revalorizado ... 52
Ilustração 3 - Modelo de Custo ... 52
XII ÍNDICE DE QUADROS
Gráfico 1- Empresas e pessoal ao serviço por forma jurídica, 2010-2013. ... 17 Gráfico 2- Empresas e pessoal ao serviço em Portugal por dimensão, 2010-2013. ... 18 Gráfico 3- Processos de falência, insolvência e recuperação de empresas nos tribunais judiciais de 1ª Instância, 2007-2014. ... 19 Gráfico 4- Insolvências decretadas nos tribunais judiciais de 1ª Instância, 2007-2014. ... 20 Gráfico 5- Tipo de pessoa envolvida nas insolvências decretadas nos tribunais judiciais de 1ª Instância, 2007-2013. ... 20 Gráfico 6 - Processos com insolvência decretada, em função do CAE da pessoa colectiva de direito privado envolvida, 2013. ... 21 Gráfico 7- Distribuição das empresas insolventes por distrito ... 68 Gráfico 8- Distribuição das empresas insolventes por CAE ... 69 Gráfico 9- Comparação rúbricas de disponibilidades: valores dos balancetes e apreendidos na insolvência ... 75 Gráfico 10- Análise das rúbricas de terceiros de acordo com os balancetes das empresas insolventes ... 77 Gráfico 11- Distribuição das rúbricas de inventários de acordo com a IES ... 80 Gráfico 12- Distribuição das rúbricas de investimentos de acordo com os balancetes das empresas insolventes ... 83 Gráfico 13- Alienação dos investimentos: distribuição por rúbricas ... 83
XIII ÍNDICE DE TABELAS
Tabela 1- Comparação da rúbrica de disponibilidades: valores dos balancetes e apreendidos com a insolvência ... 74
XIV ÍNDICE DE ANEXOS
Anexos I – Modelo de Acta de Abertura de Propostas ... 95 Anexos II - Regulamento Geral de Venda - Condições Gerais de Participação no leilão ... 97
13 INTRODUÇÃO
Ao longo dos anos, Portugal tem sofrido constantes desafios de crescimento e sustentabilidade, tendo originado uma diminuição na capacidade de criar empresas que possam sobreviver de modo a gerar trabalho para a população economicamente ativa.
O número de situações de insolvência de empresas tem aumentado consideravelmente dado que as empresas não têm capacidade de sanar os seus compromissos, nomeadamente os pagamentos.
No entanto, “nem todas as situações de incumprimento no âmbito das relações comerciais são passiveis de originar uma situação de insolvência.” (Costeira, 2013, p.15).
Em Portugal, o Código da Insolvência e da Recuperação de Empresas (CIRE), aprovado pelo Decreto-Lei nº 53/2004, de 18 de Março, tem sofrido constantes alterações até aos dias de hoje, tornando-se um pilar fundamental na regulamentação legal do problema das empresas que se encontram insolventes ou em situação económica difícil.
O referido Decreto-Lei menciona que se encontra em situação económica difícil, todos aqueles que atravessam “dificuldade séria de cumprir pontualmente as obrigações por falta de liquidez ou por não conseguir obter crédito, ou numa situação eminente mas que ainda seja susceptível de recuperação”.
Ou seja, “o conceito de insolvência refere-se àquelas situações em que o património líquido do devedor é negativo ou insuficiente, o que o impossibilita de cumprir as obrigações a que está vinculado.” (Costeira, 2013, p.11).
No que concerne à temática da contabilidade e cumprimento das obrigações declarativas e fiscais, anualmente, as empresas estão obrigadas a prestar contas através das demonstrações financeiras.
De acordo com a Estrutura Conceptual1 do SNC no seu § 12 “o objetivo das demonstrações financeiras é o de proporcionar informação acerca da posição financeira, do desempenho e das alterações na posição financeira de uma entidade que seja útil a um vasto leque de utentes na tomada de decisões económicas.”
Ou seja, “as demonstrações financeiras2 são frequentemente descritas como mostrando uma imagem verdadeira e apropriada de, ou como apresentando apropriadamente,
1Publicada pelo Aviso n.º15 652/2009, D.R. nº 173, Série II, de 2009-09-07.
2 Refere o art.º 11º do DL nº 158/2009, de 13 de Julho, que “as entidades sujeitas ao SNC são obrigadas a apresentar as seguintes demonstrações financeiras: balanço, demonstração dos resultados por naturezas, demonstração das alterações no capital próprio; demonstração dos fluxos de caixa pelo método directo; anexo”.
14 a posição financeira, o desempenho e as alterações na posição financeira de uma entidade”
(SNC, p. 53, § 46).
Ora neste contexto, procura-se metodizar com este estudo, as questões que parecem mais preeminentes, reunindo e analisando a informação contabilística da empresa insolvente, com a informação recolhida pelos Administradores de Insolvência aquando a declaração de insolvência. A informação recolhida pelo Administrador de Insolvência refere-se ao Auto de Apreensão, previsto no art.º 149 e ss do CIRE., a Relação de Créditos Reconhecidos e Não Reconhecidos (art.º 129 CIRE.) e Relatório do Administrador de Insolvência (art.º 155 do CIRE.).
Indagados os estudos já realizados no âmbito da insolvência, apuramos que poucos versam sobre esta temática.
Assim, tenciona-se, como o próprio título da dissertação sugere, interligar dois tipos de informação: da Contabilidade e do Administrador de Insolvência, de modo a analisar diversas situações práticas, nomeadamente se a informação converge ou colide, procurando resolver/
justificar os problemas e lacunas caso tais divergências existam.
Nessa esteira, o presente estudo procura dar resposta para a seguinte questão:
Sendo o Balanço uma demonstração financeira que deve apresentar uma imagem verdadeira e apropriada da posição financeira será que, aquando da declaração de insolvência, este demonstra o real valor da empresa?
De modo a dar resposta à questão alvo deste estudo, a presente dissertação é então dividida em três grandes partes:
Uma primeira parte, onde iremos estudar e descrever sucintamente a estrutura e todo o processo subjacente à temática da insolvência, desde o pedido da declaração de insolvência até ao plano de insolvência.
Uma segunda parte, onde serão abordadas as NCRF 7 – Ativos Fixos Tangíveis e NCRF 18 – Inventários, de modo a enquadrar com a temática da alienação dos Ativos Fixos Tangíveis e Inventários no estudo de caso.
O terceiro capítulo, com base numa amostra de empresas decretadas insolventes, serão analisados vários documentos contabilísticos e fiscais bem como, documentos elaborados pelos Administradores de Insolvência.
Sendo assim, a metodologia a adotar neste trabalho consiste em:
Revisão da literatura relativa ao tema da Insolvência;
15
A nível contabilístico, serão alvo de estudo a NCRF - 7 Ativos Fixos Tangíveis e NCRF 18 - Inventários
Estudo empírico a cem empresas decretadas insolventes tendo por base os elementos contabilísticos e fiscais, serão analisadas as rubricas de disponibilidades, terceiros, inventários e ativos fixos. A análise anterior será confrontada com os mapas elaborados pelos Administradores de Insolvência, nomeadamente, autos de apreensão, Relação de Créditos Reconhecidos e Não Reconhecidos e relatório do Administrador de Insolvência.
Conclusões sobre o estudo desenvolvido.
Pode-se então considerar que a metodologia adotada é essencialmente qualitativa na primeira e segunda parte e quantitativa na terceira parte.
Salientamos que, apesar de o CIRE apresentar um capítulo destinado a insolvências de pessoas singulares, o presente estudo terá como alvo, exclusivamente pessoas coletivas, ou seja, as designadas empresas.
16 CAPÍTULO II – A INSOLVÊNCIA
No presente capítulo começamos por realizar um enquadramento do fenómeno da situação de insolvência em Portugal através de dados estatísticos, revelando a sua evolução ao longo dos anos pela análise de diversos indicadores.
De seguida, apresentam-se variados conceitos de insolvência, abordando-se também as fases do processo de insolvência, desde o seu pedido até ao encerramento do processo.
2.1. A Insolvência Empresarial em Portugal
Com a vasta crise económica, as empresas portuguesas têm-se confrontado com dificuldades financeiras, originando por vezes situações de insolvência.
As empresas não têm capacidade de cumprir as suas obrigações, não conseguem suportar a totalidade dos seus gastos, as instituições bancárias não concedem créditos e o consumo por parte da população tem assumido uma tendência decrescente. Estas e outras razões têm originado grandes dificuldades ao tecido empresarial português podendo criar problemas estruturais e financeiros e consequentemente causar situações de insolvência.
Como afirma Pequeno (2013, p.21) “Portugal é, como todos os outros países do mundo, um país único, com uma cultura própria, que evolui de forma mais lenta ou mais rápida, perante uma constante sucessão de eventos. É, no fundo, um “ecossistema” regrado, constituído por sistemas abertos em permanente interação com a sua envolvente externa, as empresas.”
Segundo dados do INE, em 2013 o tecido empresarial português era constituído por 1.055.813 empresas não financeiras, menos 113.151 que em 2010. Destas, 66,77% eram empresas individuais3 e 33,23% eram sociedades.
Da análise ao gráfico 1, verifica-se que as sociedades asseguram mais postos de trabalho, no entanto, no período de 2010 a 2013 o nível de contratação tem apresentado uma tendência decrescente.
3 Tipo de entidade empresarial que abrange as formas jurídicas de empresário em nome individual e trabalhador independente (INE, 2010).
17 802.490
927.013 769.156
890.064 709.171
816.349 704.997
810.103
366.474
3.033.721 367.541
2.960.527 353.611
2.695.317 350.816
2.625.463
- 1.000.000 2.000.000 3.000.000 4.000.000 Nº empresas
Pessoal ao Serviço Nº empresas Pessoal ao Serviço Nº empresas Pessoal ao Serviço Nº empresas Pessoal ao Serviço
2010201120122013
Sociedades Empresas individuais
Fonte: Adaptado de Instituto Nacional de Estatística (INE)
No que se refere à dimensão das entidades, apurou-se que o tecido empresarial português é maioritariamente constituído por micro, pequenas e médias empresas (PME)4 não financeiras, conforme ilustra o gráfico 2. Em 2013, das 1.055.813 empresas, 99,9% eram PME e 1% eram empresas grandes. No período de 2010 a 2013 verifica-se que o nível de empregabilidade diminuiu em ambos tipos de empresas, no entanto, observa-se que nas PME o número de pessoal ao serviço foi superior quando comparado com as grandes empresas.
4 De acordo com o nº 2 do Decreto-Lei n.º 372/2007, de 6 de Novembro, “A categoria das micro, pequenas e médias empresas (PME) é constituída por empresas que empregam menos de 250 pessoas e cujo volume de negócios anual não excede 50 milhões de euros ou cujo balanço total anual não excede 43 milhões de euros. Na categoria das PME, uma pequena empresa é definida como uma empresa que emprega menos de 50 pessoas e cujo volume de negócios anual ou balanço total anual não excede 10 milhões de euros. Na categoria das PME, uma micro empresa é definida como uma empresa que emprega menos de 10 pessoas e cujo volume de negócios anual ou balanço total anual não excede 2 milhões de euros”.
Gráfico - Empresas e pessoal ao serviço em Portugal por forma jurídica, 2010-2013 Gráfico 1- Empresas e pessoal ao serviço por forma jurídica, 2010-2013.
18 Gráfico 2- Empresas e pessoal ao serviço em Portugal por dimensão, 2010-2013.
Fonte: Adaptado de Instituto Nacional de Estatística (2010-2013)
No que respeita a insolvências em Portugal, a observação do gráfico 3 permite comparar os anos de 2007 a 20145, verificando-se um aumento acentuado no número de processos de falência, insolvência e recuperação de empresas nos tribunais judiciais de 1º Instância6, com particular destaque para o ano de 2012 face aos períodos homólogos anteriores. Em 2013, é confirmada a inversão de tendência verificada até 2012, o número de processos entrados diminuiu face ao registado nos períodos anteriores e por sua vez, o número de processos findos e pendentes aumentou ligeiramente.
5 As restrições do Ministério da Justiça condicionaram a obtenção de dados estatísticos relativos ao terceiro e quarto trimestre de 2014.
6 Regra geral, os tribunais de primeira instância são os tribunais de comarca, os quais se equiparam aos tribunais com competência específica e tribunais especializados para o julgamento de matérias determinadas. (nº 3 do art.º 210º da CRP)
1.167.811
3.071.709 1.135.537
2.978.383 1.061.767
2.742.643 1.054.792
2.674.477
1.153
889.025 1.160
872.208 1.015
769.023 1.021
761.089
- 1.000.000 2.000.000 3.000.000 4.000.000 Nº empresas
Pessoal ao Serviço Nº empresas Pessoal ao Serviço Nº empresas Pessoal ao Serviço Nº empresas Pessoal ao Serviço
2010201120122013
Grandes PME
19
3.911 5.019 7.467 9.219 14.704 20.782 20.085 9.811
3.965 5.045 7.338 8.890 13.805 19.997 20.080 10.253
8.890 8.684 9.223 9.681 11.934 16.272 17.377 7.895
0 5.000 10.000 15.000 20.000 25.000
2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 (1º e 2ºT) Entrados Findos Pendentes (no final do periodo)
Gráfico 3- Processos de falência, insolvência e recuperação de empresas nos tribunais judiciais de 1ª Instância, 2007-2014.
Fonte: Adaptado de DGPJ, 2007-2014
Tendo por base as insolvências decretadas nos tribunais judiciais de 1ª Instância nos períodos homólogos correspondentes a 2007 e 2014 (gráfico 4), verifica-se uma tendência acentuada no seu crescimento, sendo que o valor correspondente a 2013 representa mais de seis vezes que o valor registado em 2007.
A tendência de crescimento encontra-se bem percetível com um aumento de 65,24%
verificado em 2010 face ao período de 2011. Em 2013 e face ao período de 2012, registou-se um aumento desacelerado de 5,46% no número de insolvências decretadas.
No primeiro e segundo trimestre de 2014 e face ao mesmo período de 20137, registou- se uma diminuição de 315 insolvências decretadas.
7 De acordo com o Destaque Estatístico Trimestral da Direção Geral da Politica de Justiça, Boletim nº 17 e 19, referente ao 1º e 2º Trimestre de 2014 respetivamente, o número de processos de insolvência decretadas nos tribunais judiciais de 1ª Instância no 1º e 2º de 2013 foi de 4.169 e 4.298 respetivamente.
20
18,9% 19,5% 26,4% 35,1% 54,6% 60,7% 65,8%
80,1% 79,9% 72,9% 64,0% 44,6% 39,2% 34,1%
1,0% 0,7% 0,7% 0,9% 0,8% 0,2% 0,2%
0,0%
20,0%
40,0%
60,0%
80,0%
100,0%
120,0%
2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013
Outro ou não especificado Pessoa colectiva de direito privado
Pessoa singular 2.824 3.856
5.467 6.795
11.228
16.433 17.330
8.152
- 2.000 4.000 6.000 8.000 10.000 12.000 14.000 16.000 18.000
2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 (1º e 2º T) Gráfico 4- Insolvências decretadas nos tribunais judiciais de 1ª Instância, 2007-2014.
Fonte: Adaptado de DGPJ, 2007-2014
No que concerne ao tipo de pessoa envolvida nas insolvências decretadas nos tribunais de 1ª Instância (gráfico 5), verifica-se um aumento acentuado do peso das pessoas singulares no total dos processos, passando de 18,9% para 65,8%, ou seja, mais do triplo do valor. Em sentido contrário, houve uma tendência decrescente do peso das pessoas coletivas de direito privado, passando de 80,1% para 34,1%, ou seja, uma diminuição de 46,00%.
Gráfico 5- Tipo de pessoa envolvida nas insolvências decretadas nos tribunais judiciais de 1ª Instância, 2007-2013.
Fonte: Adaptado de DGPJ, 2007-2014
21 7,2%
27,7%
19,2%
17,7%
28,3%
Alojamento, restauração e similares
Comério por grosso, retalho e reparação de veículos
Construção
Indústrias transformadoras Outro ou não especificado
Efetivamente se confrontarmos as insolvências decretadas (gráfico 4), com o tipo de pessoa envolvida (gráfico 5) nos tribunais judiciais de 1º Instância, constata-se até ao ano de 2010 uma aceleração de entrada de processos de insolvência de pessoas coletivas de direito privado. Não obstante, dos processos entrados a partir de 2011, tem-se tornado mais comum as insolvências de pessoas singulares, com uma diminuição significativa das pessoas coletivas.
Tendo em conta a secção da Classificação Portuguesa das Atividades Económicas (CAE) das pessoas coletivas de direito privado envolvidas em processos de insolvência, em 2013 o sector do comércio por grosso, retalho e reparação de veículos foi a categoria com mais peso, no que respeita a insolvências decretadas, conforme gráfico 6,
Fonte: Adaptado de DGPJ, 2013
2.2. O Processo de Insolvência
O Código da Insolvência e da Recuperação de Empresas (CIRE8) aprovado pelo Decreto-Lei nº 53/2004, de 18 de Março, tem sofrido constantes alterações até aos dias de hoje, no entanto, tornou-se um pilar fundamental na regulamentação legal do problema das empresas que se encontram insolventes ou em situação económica difícil.
Para Leitão (2012, p. 15), “a insolvência traduz a situação daquele que está impossibilitado de cumprir as suas obrigações, normalmente por ausência da necessária liquidez em momento determinado, ou em certos casos porque o total das suas responsabilidades excede os bens de que pode dispor para satisfazer”. Serra (2004, p.11) afirma que “o processo de insolvência é agora um processo único. Caracteriza-se por uma
8 Aprovado pelo Decreto-Lei nº 53/2004, de 18 de Marco, alterado pelos Decretos-Lei nº 200/2004, de18 de Agosto, 76-A/2006, de 29 de Marco, 282/2007, de 7de Agosto, 116/2008, de 4 de Julho, 185/2009, de 12 de Agosto, Lei nº 16/2012, de 20 de Abril e Lei nº 66-B/2012, de 31 de Dezembro.
Gráfico 6 - Processos com insolvência decretada, em função do CAE da pessoa coletiva de direito privado, 2013.
22 tramitação supletiva baseada na liquidação do património do devedor, existindo a possibilidade de os credores aprovarem um plano de insolvência, com o fim de promover à realização da liquidação em moldes distintos ou de recuperar a empresa.”
A lei define o processo de insolvência como “um processo de execução universal que tem como finalidade a satisfação dos credores pela forma prevista num plano de insolvência, baseado, nomeadamente, na recuperação da empresa compreendida na massa insolvente, ou, quando tal não se afigure possível, na liquidação do devedor insolvente e a repartição do produto obtido pelos credores”. Na ótica de Serra (2004, p.11), o processo de insolvência é “um processo de liquidação e o plano de insolvência é o único mecanismo que pode ter como fim a recuperação da empresa”. Na perspetiva de Epifânio (2009, p.12), o processo de insolvência pode ser qualificado como um “processo universal e concursal destinado a obter a liquidação, respetivamente, de todo o património do devedor insolvente, por todos os seus credores”.
Ainda segundo esta autora, o caráter concursal deve-se principalmente no facto dos credores serem chamados a interferir no processo mesmo que os seus créditos apresentem diferentes naturezas, assim como também está presente o princípio da proporcionalidade das perdas dos credores, quando se verifica insuficiência do património do credor, sendo que as perdas serão repartidas de modo proporcional. A característica da universalidade está bem patente, quando se verifica a possibilidade de todos os bens do devedor, desde que penhoráveis ou impenhoráveis e desde que apresentados voluntariamente pelo devedor, poderem ser alvo de apreensão para futura liquidação. Além das características supramencionadas, Epifânio (2009, p.13) defende que o processo de insolvência poderá ter natureza mista, pois “visa a apreciação e declaração da situação de insolvência, para, depois da declaração de insolvência, surgir com uma feição executiva”, onde ocorre a “apreensão e liquidação do ativo para pagamento dos credores”. Por último, destaca-se o caracter autónomo e multidisciplinar, visto que quanto ao primeiro, o processo de insolvência é legislado por um diploma autónomo – o Código da Insolvência e da Recuperação de Empresas; o segundo uma vez que abrange diversos Direitos: Civil, Comercial, Processual e Penal, etc..
Podem ser sujeitos passivos da declaração de insolvência (art.º 2º do CIRE.9), as pessoas singulares ou coletivas, a herança jacente10, as associações sem personalidade jurídica e as comissões especiais, as sociedades civis, as sociedades comerciais e as sociedades civis sob a forma comercial até à data do registo definitivo do contrato pelo qual se constituem, as cooperativas, antes do registo da sua constituição, o estabelecimento individual de responsabilidade limitada e por último quaisquer outros patrimónios autónomos.
O CIRE. (art.º 5º) define que é considerada empresa “toda a organização de capital e de trabalho destinada ao exercício de qualquer atividade económica”. Conforme salienta Serra
9 Doravante, sempre que não se indique o diploma legal a que pertence o artigo presume-se que o mesmo é o CIRE.
10 “Diz-se jacente à herança aberta, mas ainda não aceita nem declarada vaga para o Estado.” (Art.º 2046º do CC).
23 (2004, p.13), “quando a empresa assume uma qualquer forma jurídica (pessoa jurídica ou património autónomo), é ela que está sujeita à declaração de insolvência; caso contrário, o sujeito da declaração de insolvência é o seu titular”.
Perante a declaração de insolvência do devedor e de modo a promover o pagamento dos credores são possíveis três cenários:
Satisfação dos credores através de um plano de insolvência que prevê a recuperação da empresa compreendida na massa insolvente;
Satisfação dos credores através de um plano de insolvência que prevê uma forma de liquidação diferente da anterior;
Liquidação total do património do devedor e repartição do seu produto pelos credores.
Para Oliveira (2012, p.15), o processo de insolvência privilegia a recuperação da empresa ao seu encerramento, e pode ter uma dupla finalidade: a satisfação dos direitos dos credores pela forma prevista num plano de insolvência, optando pela recuperação da empresa compreendida na massa insolvente; ou se tal não for possível, pela liquidação do património de um devedor insolvente e repartição do produto (resultante da venda dos bens da massa insolvente) pelos credores que reclamem os seus créditos (que se faz em função da graduação dos créditos fixada na sentença de verificação e graduação de créditos). Ora, neste pressuposto, o processo de insolvência deverá ser diligenciado num determinado Tribunal11, dependendo de se tratar de uma sociedade comercial ou de pessoa singular (dependendo deste último deter no seu património uma empresa).
Para Oliveira (2012, p.27), as principais características do processo de insolvência são as seguintes:
Urgência: uma vez que todos os prazos correm no período de férias judiciais;
Prazos curtos (Juiz e partes), cominações e de presunções;
Todas as peças apresentadas no processo de insolvência carecem de indicação dos meios de prova;
Princípio do inquisitório – a decisão do Juiz pode ser fundado em factos não alegados pelas partes;
Recursos, apenas para o Tribunal da Relação salvo havendo oposição de julgados;
Publicação de sentenças ou despachos (nomeadamente de convocação de assembleias de credores) – os credores consideram-se citados ou notificados após publicação no portal CITIUS.
11 De acordo com o Governo de Portugal, o território nacional divide-se em 23 comarcas sendo: Açores, Aveiro, Beja, Braga, Bragança, Castelo Branco, Coimbra, Évora, Faro, Guarda, Leiria, Lisboa, Lisboa Norte, Lisboa Oeste, Madeira, Portalegre, Porto, Porto Este, Santarém, Setúbal, Viana do Castelo, Vila Real e Viseu.
24 2.2.1. Fases do processo de insolvência
O processo de insolvência poderá ter distintas fases processuais consoante a posição do devedor insolvente, dos credores ou mesmo de outros interessados, mas também de acordo com o teor da sentença da declaração de insolvência (situações que não se verificam passivos nem liquidações).
De acordo com Leitão (2012, p.18), o processo de insolvência poderá ter duas perspetivas: restrita e ampla. “Em termos restritos, o processo de insolvência consiste numa sequência ordenada de actos que se inicia com a apresentação à insolvência ou o pedido da sua declaração e se conclui com o pagamento aos credores ou com alguma das outras causas de extinção do processo. Em termos amplos, o processo abrange ainda as tramitações estruturalmente autónomas que surgem na dependência do processo de insolvência, em consequência da declaração de insolvência, como os embargos à sentença declaratória de insolvência, as acções apensas ao respetivo processo, a resolução em benefício da massa insolvente, a verificação dos créditos e a restituição e separação de bens”.
2.2.1.1. Pedido de declaração de insolvência
Prevê o nº1 do art.º 3º do CIRE., que é considerado situação de insolvência o devedor que se encontre impossibilitado de cumprir as suas obrigações vencidas. Esta impossibilidade de incumprimento das suas obrigações vencidas deverão corresponder à generalidades dos credores, sendo este o fator primordial para o Tribunal decretar a insolvência.
Para Leitão (2012, p.79) a determinação de incapacidade de incumprimento deverá ser realizada através do critério dos fluxos de caixa e do critério do balanço ou do ativo patrimonial.
Segundo o autor, no critério do fluxo de caixa, “o devedor é insolvente logo que se torna incapaz, por ausência de liquidez suficiente, de pagar as suas dívidas no momento em que estas se vencem”; “o facto de o seu activo ser superior ao passivo é irrelevante, já que a insolvência ocorre logo que se verifica a impossibilidade de pagar as suas dívidas”. Quanto ao segundo critério, alega que “a insolvência resulta do facto de os bens do devedor serem insuficientes para cumprimento integral das suas obrigações”.
No entanto, Geraldes (2011, p.1) salienta que “a situação de insolvência corresponde a uma incapacidade de cumprimento, em que alguém, por carência de meios próprios e por falta de crédito, se encontra impossibilitado de cumprir pontualmente as suas obrigações”. Ainda o mesmo autor reforça a ideia afirmando que “se o devedor, por falta de capacidade creditícia, estiver impossibilitado de cumprir pontualmente a generalidade das suas obrigações, incorre na situação de insolvência, mesmo dispondo de um activo superior ao passivo.”
25 Presume-se o conhecimento da situação de insolvência quando decorridos pelo menos três meses sobre o incumprimento generalizado de obrigações e verificando-se algum dos factos (art.º 20):
Suspensão generalizada do pagamento;
Falta de cumprimento de uma ou mais obrigações que, pelo seu montante ou pelas circunstâncias de incumprimento, revele a impossibilidade de o devedor satisfazer pontualmente a generalidade das suas obrigações;
Fuga do titular da empresa ou dos administradores do devedor ou abandono do local em que a empresa tem sede ou exerce a sua principal atividade, relacionados com a falta de solvabilidade do devedor e sem designação de substituto idóneo;
Dissipação, abandono, liquidação apressada ou ruinosa de bens e constituição fictícia de créditos;
Insuficiência de bens penhoráveis para pagamento do crédito do exequente verificada no processo executivo;
Incumprimento de obrigações previstas em plano de insolvência ou no plano de pagamentos aprovado, se o devedor após 15 dias da interpelação escrita pelo credor, na sequência da mora, não tiver cumprido a obrigação;
Incumprimento generalizado nos últimos seis meses de dívidas tributárias, contribuições e quotizações para a segurança social, créditos laborais, de rendas de qualquer tipo de locação ou de créditos hipotecários relativos a local em que o devedor realize a sua atividade ou tenha a sua sede ou residência.
Sendo pessoas coletivas e patrimónios autónomos:
Quando manifesta superioridade do passivo em relação ao ativo (último balanço aprovado);
Atraso superior a 9 meses, na aprovação12 e depósito de contas13 (se a tanto estiver obrigado).
Para Pereira (2007), estas oito situações elencadas “constituem os chamados “factos- índice” ou “exemplos padrão” de uma situação de insolvência, isto é, trata-se de ocorrências prototípicas de uma situação de insolvência, ou seja, de situações através das quais, normalmente, se manifesta essa situação. A sua relevância, porém, depende da circunstância deles corresponderem, em concreto, ao “conceito base” de insolvência constante no nº 1 do art.º 3º do CIRE: impossibilidade de o devedor cumprir as suas obrigações vencidas.”
A declaração de insolvência pode ser requerida:
12 Segundo o nº 5 do art.º 65º do CSC, o relatório de gestão, as contas do exercício e demais documentos de prestação de contas devem ser apresentados ao órgão competente e por este apreciados, salvo casos particulares previstos na lei, no prazo de três meses a contar da data do encerramento de cada exercício anual (ou seja, até 31 de Março).
13 O CRC, no seu nº 4 do art.º 15º, prevê que o pedido de registo de prestação de contas de sociedades e de estabelecimentos individuais de responsabilidade limitada deve ser efetuado até ao 15º dia do 7.º mês posterior à data do termo do exercício económico.
26
Pelo devedor;
Por qualquer credor;
Por outro legitimado (Ministério Público ou responsável legal pelas dividas do insolvente);
Administrador Judicial Provisório no caso de não aprovação do Plano de Recuperação apresentado no âmbito do Processo Especial de Revitalização e estando a empresa em situação de Insolvência;
Administrador de Insolvência estrangeiro, previsto no art.º 296 CIRE.
Sempre que seja o devedor a requerer o processo de insolvência, deverá ser entregue na Secretaria do Tribunal onde o processo é distribuído para consulta de todos os credores ou de outros interessados que intervenham (ou pretendam intervir), os seguintes documentos, juntamente com a petição inicial (que deverá indicar: se a situação de insolvência é atual ou iminente14; os cinco maiores credores; o cônjuge, se for casado, indicando o regime de bens;
devendo juntar certidão do registo civil): a relação de todos os credores; a relação de todas as ações e execuções pendentes contra si; um documento onde conste a atividade ou atividades a que se tenha dedicado nos últimos três anos, os estabelecimentos de que tenha sido titular e as razões que entenda terem conduzido à situação de insolvência; a relação de bens que detenha em regime de arrendamento, aluguer ou locação financeira, bem como todos os outros bens e direitos de que seja titular (art.º 23º e 24º do CIRE). Esta documentação tem como finalidade “instruir o processo para diversos efeitos: conhecimento do passivo e da sua real dimensão, informação factual sobre as causas da insolvência, designadamente para a qualificação da insolvência como fortuita ou culposa; informação sobre o número de estabelecimentos que a empresa possui; informação sobre os bens móveis e imóveis que a insolvente detém; informação contabilística; informação sobre o número de trabalhadores;
sobre os processos pendentes, etc.” (Oliveira, 2012, p.35).
Sendo o credor ou outro legitimado o requerente da insolvência, deverá juntar com a petição inicial a documentação que casualmente disponha, assim como deverá justificar a origem, natureza e o montante do seu crédito ou a sua responsabilidade pelos créditos sobre a insolvência, respetivamente, bem como divulgar os elementos que possua quanto ao ativo e passivo do devedor. Além disso, deverá oferecer todos os meios de prova de que disponha e indicar testemunhas. Neste caso, o devedor é depois notificado pessoalmente, e na eventualidade de não se opor, têm-se por confessados os factos alegados, daí que deverá ter em sua posse os documentos acima enumerados disponíveis para posterior entrega ao Administrador de Insolvência (Art.º 25º).
14 O CIRE na sua alínea a), nº 2 do art.º 23º designa um critério temporal para caracterizar a insolvência, podendo esta ser atual ou iminente consoante se já se verificou ou é previsível e inevitável a curto prazo.
27 2.2.1.2. Apreciação limiar e medidas cautelares
Após a entrada da petição inicial em juízo há lugar à fase de apreciação liminar, que se destina à averiguação de regularidades da Instância assim como da deteção de vícios sanáveis da petição inicial. No próprio dia da distribuição, ou até ao 3º dia útil subsequente após a sua distribuição, o Juiz poderá indeferir liminarmente o pedido de declaração de insolvência quando se tratar de um caso que não reúna os requisitos do processo de insolvência ou quando ocorram exceções dilatórias insupríveis de tal modo que as mesmas deverão ser de conhecimento oficioso (alínea a), nº1 do art.º 27º). Neste propósito, o Juiz notifica o requerente da insolvência para que no prazo de cinco dias proceda à correção de vícios sanáveis da petição (alínea b), nº 1 do art.º 27º).
Assim, se o requerimento da insolvência advir:
Da pessoa do devedor, a insolvência é declarada imediatamente (art.º 28º).
Se for requerida por terceiro, o Juiz manda citar pessoalmente15 o devedor, para que o mesmo, no prazo de 10 dias possa deduzir defesa sobre a declaração de insolvência, oferecendo todos os meios de prova de que disponha e apresentando testemunhas (Art.º 25º, 29º e 30º). Segundo Oliveira (2012, p.45), “optando o devedor por deduzir oposição, deverá de imediato contactar um advogado para preparar esse articulado, uma vez que o CIRE estabelece um prazo muito curto (10 dias) para a apresentação desta importante peça processual, que vista obter uma sentença de improcedência do pedido de insolvência formulado por terceiro.”
Na eventualidade de o Juiz recear da prática de actos de má gestão e de modo a evitar a degradação ou a dissipação de património do devedor, pode oficiosamente ou a requerimento do requerente da insolvência, ordenar medidas cautelares que consite na nomeação de Administrador Judicial provisório. Estes medidas podem ser exigidas antes da declaração de insolvência, ou até antes e ser citado o devedor ou antes da distribuição da peticao inicial (nº1 do art.º 31º).
Neste contexto e de modo a enquadrar a nomeação de um Administrador Judical Provisório, junta-se parte de um despacho remetido pelo Tribunal do Comércio de Vila Nova de Gaia ao Administrador da Insolvência provisório:
15 O art.º 225.º do CPC, define as modalidades da citação das pessoas singulares, através da citação pessoal que poderá ser feita mediante: Transmissão eletrónica de dados, nos termos definidos na portaria prevista no n.º 1 do art.º 132.º; Entrega ao citando de carta registada com aviso de receção, seu depósito, nos termos do n.º 5 do art.º 229.º, ou certificação da recusa de recebimento, nos termos do n.º3 do mesmo artigo; Contacto pessoal do agente de execução ou do funcionário judicial com o citando. É ainda admitida a citação promovida por mandatário judicial, nos termos dos art.º 237.º e 238.º. Nos casos expressamente previstos na lei, é equiparada à citação pessoal a efetuada em pessoa diversa do citando, encarregada de lhe transmitir o conteúdo do ato, presumindo-se, salvo prova em contrário, que o citando dela teve oportuno conhecimento. Pode ainda efetuar-se a citação na pessoa do mandatário constituído pelo citando, com poderes especiais para a receber, mediante procuração passada há menos de quatro anos.
28 Fonte: Processo XXXX/13.8TBBRG, Tribunal do Comércio de Vila Nova de Gaia, 3º Juízo, 2014.
O art.º 30º do CIRE prevê duas situações, aquando a citação do devedor:
Oposição “Apesar de a lei poder indicar uma limitação aos fundamentos da oposição por parte do devedor, é manifesto que lhe estará vedado opor-se à insolvência como base noutros fundamentos, designadamente a existência de excepções dilatórias insupriveis, como falta de legitimidade do requerente da insolvência, por não ser responsável legal pelas suas dívidas ou por não ser seu credor” (Leitão in Fernandes &
Labareda, 2012, p.152)16. Assim, na eventualidade de o devedor não apresentar defesa, consideram-se confessados os factos alegados na petição inicial e, consequentemente, o reconhecimento da sua situação de insolvência, sendo da responsabilidade do tribunal apurar se estão preenchidos os requisitos para que seja declarada a insolvência (n.º 1 do art.º 20.º). Na contingência de se averiguarem aquelas condições, a insolvência é declarada no primeiro dia útil seguinte ao termo do prazo para deduzir oposição (n.º 5 do art.º 30.º).
O devedor no prazo de 10 dias, alega a inexistência do facto em que se fundamenta o pedido formulado ou na inexistência da situação de insolvência (nº 5 do art.º 30º), devendo deste modo oferecer todos os meios de prova, assim como fica obrigado a apresentar testemunhas arroladas, não devendo estas serem superiores a dez (nº 1 do art.º 30º, art.º 25º e 789º do CPC.).
16 Fernandes, C. & Labareda, J. (2013). Código da Insolvência e da Recuperação de Empresas Anotado.
2ª Ed. Quid Juris Sociedade Editora, Lisboa. (nº 3, Art.º 30º, p.171) Assunto: Despacho de nomeação provisório
Fica deste modo V. Ex.ª notificado, que por despacho proferido nos autos acima indicados, cuja cópia se junta, foi, nos termos do art.º 31º do CIRE, nomeado Administrador Judicial Provisório depois da análise das razões de facto aí vertidas, entendo que “in casu” se mostra como adequado que sejam encetadas as pertinentes diligências conservatórias, mormente à luz do estatuído no art.º 31º do CIRE.
Assim sendo – e com vista a tal desiderato – nomeio como Exmo. A.I .Provisório o Snr.
Dr. AAA, o qual deverá no imediato encetar as D.N tendentes a impedir o agravamento da situação patrimonial do requerido, assistindo este último na administração, tudo na almejada manutenção da garantia patrimonial dos credores (pode encetar as D.N. que tiver por pertinentes em tal sede, mais procedendo a exaustivo arrolamento de todo o acervo patrimonial da requerida.…
29 Como refere o nº 4 do artº 30º, em ambas as situações “cabe ao devedor provar a sua solvência, baseando-se na escrituração legalmente obrigatória, se for o caso, devidamente organizada e arrumada”.
Para exemplificar, segue parte do despacho emitido pela Comarca do Porto ao Administrador da Insolvência, onde ordena a citação ao devedor, para que o mesmo possa requerer a oposição:
Fonte: Processo XX/14.1TBTST, Comarca do Porto, Santo Tirso - Inst. Central - 1ª Sec. Comércio - J2, 2014.
2.2.1.3. Audiência de discussão e julgamento
Tendo havido oposição do devedor, ou tendo a audiência sido dispensada, é marcada nos cinco dias subsequentes a audiência de discussão e julgamento, sendo notificado o requerente, o devedor e todos os administradores de direito ou de facto, para se fazerem apresentar a juízo (nº1 do art.º 35º).
Neste contexto, surgem três posições exequíveis:
A falta de resposta e comparência do devedor, ou do seu representante, implica a apreciação dos factos alegados na petição inicial (nº 2 do art.º 35º), bem como a desistência do pedido (nº 3 do art.º 35º). Excluem-se as opções anteriores se eventualmente o devedor estiver dispensado de audiência (art.º 12). Após a apreciação do Juiz, a sentença de insolvência é imediatamente ditada para ata.
Comparência do devedor (ou do seu representante legal) e ausência do requerente (ou do seu representante legal): considera-se desistência do pedido, sendo assim, proferida sentença homologatória da desistência do pedido (nº 3 e nº 4 do art.º 35º).
Assim, a sentença homologatória da desistência do pedido é ditada para a ata.
Quer o devedor, quer o requerente (ou seus representantes), apresentam-se pessoalmente: O Juiz seleciona a matéria de facto que considera relevante e que
… Não se encontrando motivos para indeferir liminarmente a petição inicial, cite pessoalmente para, querendo, no prazo de dez dias, deduzir oposição, advertindo que a falta de oposição ao pedido implica a confissão dos factos alegados na petição inicial e a imediata declaração de insolvência (artigo 29.º, e 30.º, 1, do CIRE).
Com a citação advirta ainda do teor do artigo 25.º, 2 do CIRE, de que deve juntar uma lista dos cinco maiores credores, bem como da necessidade de aprontar os documentos mencionados no artigo 24.º, 1, do CIRE, para o caso, na eventualidade da declaração de insolvência, poderem ser entregues imediatamente ao administrador.
30 constitui a base instrutória e profere a sentença de declaração de insolvência ou o referido processo é indeferido, podendo neste último caso haver recurso que pode ser apresentado pelo requerente, conforme prevê o art.º 45º (nº 5 a nº 8 do art.º 35º).
2.2.1.4. Sentença de declaração de insolvência e impugnação
O art.º 36º do CIRE prevê os requisitos que devem constar na sentença de declaração de insolvência. Destaca-se a indicação da data e hora (sendo omisso considera-se ao meio dia); identificação do devedor insolvente, a sua respetiva sede ou residência; deve identificar e fixar a residência dos administradores, de direito e de facto, do devedor, bem como ao próprio devedor, se este for pessoa singular, nomeia o Administrador da Insolvência, com indicação do seu domicílio profissional.
Como expõe Oliveira (2012, p. 55), “só após a sentença declaratória de insolvência é que a generalidade dos credores do insolvente será chamada ao processo para intervir, designadamente para efeitos de reclamação de créditos e obter pagamentos dos mesmos;
pretende-se, desta forma, evitar uma publicidade negativa do devedor sempre que a insolvência é requerida por um terceiro e não seja decretada”.
Ao Administrador de Insolvência deverão ser entregues todos os documentos pedidos na petição inicial, ou que até a data se encontrem em falta. São apreendidos todos os elementos contabilísticos e todos os bens do devedor, independentemente de os mesmos serem alvo de penhora, arrestados ou de alguma forma interditos (alíneas f) e g), nº 1 do art.º 36º, art.º 149º e art.º 150º).
Refere o presente artigo que a administração da massa insolvente será assegurada pelo devedor quando se verifiquem os pressupostos exigidos pelo n.º 2 do art.º 224.º, ou seja, quando o devedor tenha requerido o processo de insolvência ou por sua vez, o devedor já tenho apresentado (ou comprometido) a elaboração de um plano de insolvência que preveja a continuidade da empresa por si próprio (alínea e), nº 1 do art.º 36º).
É ordenada a entrega ao Ministério Público dos elementos que indiciem a prática de infração penal (alínea f), nº 1 do art.º 36º). Na eventualidade de existirem elementos que evidenciem a abertura do incidente de qualificação da insolvência17, declara aberto o incidente de qualificação com caráter pleno ou limitado, sem prejuízo do disposto do art.º 187º.
A realização da assembleia de apreciação do relatório é opcional por parte da decisão do Juiz, no entanto poderá ser obrigatória nas seguintes situações: quando tiver sido feito a exoneração do passivo restante pelo devedor no momento da apresentação à insolvência,
17 Vide ponto 2.2.1.9
31 quando for previsível a apresentação de um plano de insolvência ou quando se determine que a administração da insolvência seja efetuada pelo devedor (nº 2 do art.º 36º).
Na eventualidade de o Juiz não efetuar a assembleia de apreciação do relatório, deverá, no momento da sentença, tomar medidas processuais de modo a orientar adequadamente o assunto em causa (nº 5 do art.º 36º). Quando não é designado dia para realização da assembleia de apreciação do relatório, é dado a possibilidade que dentro do prazo estabelecido para a reclamação de créditos, de qualquer interessado, requerer ao Juiz a realização da mesma, ficando este responsável por designar dia e hora, entre 45 e 60 dias, após sentença de declaração de insolvência (nº 3 do art.º 36º).
Por último, estabelece na alínea j), nº 1 do art.º 36º, o prazo de 30 dias para a reclamação de créditos.
No que se refere à notificação da sentença e citação, refere o nº 1 do art.º 37º que deverão ser notificados pessoalmente os administradores do devedor a quem tenha sido fixado residência “nos termos e pelas formas prescritos na lei processual para citação”. A sentença será de igual modo anunciada ao Ministério Público, ao requerente da declaração de insolvência, ao requerente do devedor (na eventualidade de não ser o devedor, conforme prevê o art.º 25º), ao devedor “nos termos previstos para citação, caso não tenha já sido citado pessoalmente para os termos do processo, e por último, à comissão de trabalhadores. (nº 2 do art.º 37º).
São citados pessoalmente, nos termos do nº1 ou por carta registada, os cinco maiores credores conhecidos, consoante tenham ou não residência habitual, sede ou domicilio em Portugal, com exceção do requerente (nº3 do art.º 37). São citados por carta registada, de acordo com o regulamento (CE) nº 1346/2000, do Conselho de 29 de Maio (art.º 40º e 42º), os credores com residência habitual num país da União Europeia. É de igual modo, citado por carta registada os “créditos ao Estado, de institutos públicos sem natureza de empresa públicas ou de instituições da segurança social (nº5 do art.º 37). Os restantes credores e outros interessados serão citados por edital, com prorrogação de cinco dias, afixado na sede ou na residência do devedor, nos seus estabelecimentos e no próprio tribunal e por anúncio publicado no CITIUS (nº7 do art.º 37º).
Na eventualidade de existirem créditos resultantes de contratos de trabalhos ou da sua cessação, a sentença deverá ser comunicada ao Fundo de Garantia Salarial18 assim como o
18 De acordo com o guia prático do Fundo de Garantia Salarial, “o Fundo de Garantia Salarial (FGS) tem como objetivo assegurar o pagamento ao trabalhador de créditos resultantes do contrato de trabalho ou da violação (despedimento ilícito) ou sua cessação, quando as entidades empregadoras não os podem pagar por estarem em situação de insolvência ou por se encontrarem numa situação económica difícil”.
32 trabalhador deverá requerer à Segurança Social19 a sua intervenção de modo a assegurar o recebimento de valores em dívida.
A declaração de insolvência e a nomeação do Administrador de Insolvência está sujeito a registo civil, quando o devedor insolvente seja pessoa singular; na conservatória do registo comercial20, quando os factos relativos ao devedor insolvente estejam sujeitos a esse registo; a qualquer outro registo público a que eventualmente o devedor esteja sujeito. O registo predial incide sobre os bens que integram a massa insolvente. A secretaria deverá averbar no registo informático das execuções, assim como a página informática do tribunal todas as informações sobre a declaração de insolvência e o referido prazo para as reclamações; deverá ainda, comunicar ao Banco de Portugal a declaração de insolvência, para que estes procedam à
“inscrição na central de riscos de crédito”. De acordo com o art.º 38 do CIRE, “todas estas diligências destinadas à publicidade e registo da sentença devem ser realizadas no prazo de cinco dias”.
Se o Juiz concluir que o património do devedor não é suficiente para a satisfação das custas do processo assim como das dívidas previsíveis da massa insolvente21, pode declarar aberto o incidente de qualificação com caráter limitado, ou seja, o processo é encerrado sendo argumentado a inexistência ou insuficiência de massa insolvente22, (nº 9 do art.º 39) não designa data para reclamar créditos nem para a realização da assembleia de credores (nº1 do art.º 39). Para Oliveira (2012, p. 57), “nesta hipótese o processo não visa nem a verificação do passivo, nem a liquidação do ativo do devedor. Esta solução é criticável pois nem sempre as contas do devedor apresentam a real situação financeira da empresa.”
A título de exemplo, segue parte do despacho emitido pelo Tribunal Judicial de Guimarães ao Administrador de Insolvência, onde clarifica a insolvência com carácter limitado:
19 O trabalhador deverá apresentar o Formulário Mod. GS 1 disponível em www.seg-social.pt., assim como cópia de diversos documentos pessoais e relacionados com a insolvência.
20 Conforme a alínea i), nº1 do art.º 9º do CRC estão sujeitos a registo comercial “as sentenças de declaração de insolvência de comerciantes individuais, de sociedades comerciais, de sociedades civis sob forma comercial, de cooperativas, de agrupamentos complementares de empresas, de agrupamentos europeus de interesse económico e de estabelecimentos individuais de responsabilidade limitada, e as de indeferimento do respectivo pedido, nos casos de designação prévia de administrador judicial provisório, bem como o trânsito em julgado das referidas sentenças”;
21 “A massa insolvente destina-se à satisfação dos credores da insolvência, depois de pagas as suas próprias dívidas, e, salvo disposição em contrário, abrange todo o património do devedor à data da declaração de insolvência, bem como os bens e direitos que ele adquira na pendência do processo” (nº1 do art.º 46º).
22 Quando o património do devedor é inferior a 5.000,00 euros (nº 9 do art.º 39º). Não se aplica quando o devedor seja uma pessoa singular, e que tenha requerido anteriormente à declaração de insolvência a exoneração do passivo restante (nº 8 do art.º 39º).
33 Fonte: Processo XXXX/14.3TBGMR, Tribunal Judicial de Guimarães, 1º Juízo Cível, 2014.
No entanto, qualquer interessado pode pedir o prazo de cinco dias para que a sentença seja complementada, sendo que o requerente terá que depositar um montante adjudicado pelo Juiz de modo a garantir o pagamento custas e dívidas da massa (nº 2 e nº 3 do art.º 39º).
Por sua vez, não sendo requerido o complemento de sentença (nº 7 do art.º 39º):
O devedor não fica privado dos poderes de administração e disposição do património;
O processo de insolvência é declarado findo logo que a sentença transite em julgado;
O Administrador de Insolvência limita a sua atividade à elaboração do parecer sobre a qualificação de insolvência23.
Para exemplificar, junta-se parte do despacho emitido pelo Tribunal Judicial de Guimarães ao Administrador da Insolvência, onde manifesta a possibilidade de qualquer interessado requerer o complemento de sentença:
23 “O despacho que declara aberto o incidente de qualificação da insolvência é irrecorrível, sendo de imediato publicado por portal CITIUS” – nº 2 do art.º 188º.
Assunto: Sentença- Declaração de Insolvência e nomeação de Administrador de Insolvência
Fica V. Ex.ª notificado, de que foi nomeado administrador de insolvência nos autos supra identificados, em que é insolvente:
AAA, Unipessoal, Lda, NIF – XXXXXXXXX, Endereço
E que, nos termos do art.º 54º do CIRE, inicia imediatamente funções a partir desta notificação.
Conforme sentença proferida nos autos, verifica-se que o património do devedor não é presumivelmente suficiente para satisfação das custas do processo e das dívidas previsíveis da massa insolvente, não estando essa satisfação por outra forma garantida.
Fica ainda notificado que não havendo neste momento elementos que justifiquem não se declara aberto o incidente de qualificação da insolvência, sem prejuízo do disposto no art.º 188, nº 1 do CIRE …