O comportamento verbal da dor
Rodrigo Nardi (Mestrando)
Psicólogo
Resumo
Este artigo considera teoricamente, segundo a perspectiva behaviorista radical, os operantes verbais descritos por Skinner (1978) como tacto, tacto impuro e mando, definindo-os e relacionando-os aos comportamentos verbais de dor, a partir da literatura behaviorista radical referente à compreensão teórica do fenômeno dolo- roso. O artigo explora também algumas implicações, para a prática clínica, relativas a cada operante abordado como a discriminação das variáveis que controlam um dado operante verbal e intervenções clínicas.
Palavras-chave: dor, comportamento verbal, B. F. Skinner.
Abstract
This article regards in theory, and accordance with a radical behaviorist view, the verbal operants described by Skinner (1978) as tact, impure tact and mand, defining it and linking it to the painful verbal behavior starting from the radical behaviorist literature, related to the theorical understanding of painful phenomenon. The article also explores some implications to clinical practice related to the regarded verbal operants, like discrimination of variables in control of verbal operant and clinical interventions.
Key words: pain, verbal behavior, B. F. Skinner.
As contribuições para a compreensão e discussão dos processos de condicionamento e mecanismos da dor como fenômeno operante foram realizadas em sua especificidade por poucos behavioristas radicais; no entanto, muitos autores, inclusive o próprio Skinner (1974), abordaram brevemente o tema em suas obras, para ilustrar um ou outro aspecto da teoria comportamental.
Entre os primeiros behavioristas radicais que abor- daram a dor especificamente em suas obras, está Fordyce que, em 1968, publicou o artigo Some implications of learning in problems of chronic pain no Journal of chronic disorders (Horn & Munafò, 1997) cujo inte- resse principal era identificar de que forma o com- portamento de dor era modelado (shaped) na relação do indivíduo com o ambiente, isto é, o papel do reforçamento operante.
Para Fordyce (1976), um comportamento de dor poderia surgir de forma respondente, isto é, ser eliciado por alguma estimulação nociceptiva e então a resposta sofreria conseqüências sociais ou ambientais (como a ingestão de analgésicos que trariam alívio) que poderiam tornar sua ocorrência mais provável, ficando assim, submetido ao controle operante.
Em suas obras Fordyce (1976) não abordou exaustivamente a compreensão do fenômeno, mas apenas concentrou-se nas implicações clínicas que al-
guns aspectos do behaviorismo de Skinner teria no tratamento da dor crônica.
Outro autor que abordou especificamente o tema foi Rachlin (1985) na revista The behavioral and brain sciences, em um artigo que discutia as contribuições das diferentes teorias da dor; no entanto, diferente- mente de Fordyce (1976), Rachlin (1985) abordou aspectos teóricos e filosóficos mais exaustivamente.
Nesse artigo Rachlin (1985) questiona se uma te- oria puramente behaviorista da dor faria sentido, isto é, uma teoria que não considerasse eventos internos;
e postula que a dor só existe enquanto comporta- mento observável. No mesmo artigo segue-se um fórum de comentários que evidenciam a discussão sobre que tratamento o behaviorismo radical dava aos eventos privados, compreensão do qual não é unanimidade até os dias de hoje.
Quanto aos autores que de uma forma menos específica contribuíram para a compreensão da dor operante, pode-se citar Matos, em um artigo sobre as diferenças do behaviorismo radical e metodológico afirmando que “dor e alegria são fal- sos substantivos; na verdade eles só existem como verbos, eu doreio e eu alegreio sim! Dor e alegria não são coisas do ambiente, são partes, são exem- plos de meu comportar-me” (1998, p.30).
Desta maneira Matos (1998) fornece um raciocí-
nio bastante claro sobre a compreensão da dor operante, ou “dorear”.
Tourinho (1999, p.225) aborda o tema em uma de suas várias publicações sobre a temática dos even- tos internos da seguinte forma
Primeiro, usando o exemplo da dor, a palavra “dor” não corresponde a uma condição específica dentro do organis- mo, nem mesmo quando a qualificamos como “dor de den- tes”, “dor de cabeça”, etc... “dor” é uma resposta verbal adquirida contingentemente a um set de estímulos dentre os quais se inclui um padrão de respostas públicas do próprio sujeito.
O próprio Skinner (1974) escreveu sobre a dor, para exemplificar o controle interno de respostas verbais.
Segundo Skinner (1974), a comunidade verbal utiliza respostas colaterais para modelar o comportamento do indivíduo de tatear o evento interno, mas posteriormen- te, o tato ficará sob controle apenas da condição inter- na associada, embora trate-se de um controle partilhado.
Outros autores citaram a dor em seus trabalhos, mas de forma menos relevante para este, que tem o objetivo de compreender o comportamento verbal relacionado ao fenômeno. A seguir estarão expostos os aspectos mais importantes e objetivos a serem dis- cutidos.
A dor ou “dorear” sugere algumas considerações, partindo-se da definição que a International Association for Study of Pain (IASP) fornece sobre o fenômeno: “Experiência sensorial emocional de- sagradável, associada a uma lesão tecidual real ou potencial ou descrita em tais termos” (Merskey e Bogduk, 1994). A descrição em tais termos refere-se evi- dentemente ao “dorear” verbal, que é mais propria- mente o operante a que se referia Fordyce (1976) (observa-se que se trata de uma definição topográfi- ca, o que permite que quaisquer fenômenos que se encaixem neste quadro sejam chamados de dor).
Dada a dificuldade de acesso ao que ocorre den- tro do sujeito, na maioria das ocasiões, o principal sinal de dor, ou mais propriamente, toda dor de ou- trem a que se tem acesso consiste do comportamen- to verbal de dor. Entenda-se como comportamento verbal o comportamento reforçado através da me- diação de outras pessoas, assim qualquer movimen- to capaz de afetar outro organismo pode ser verbal (Skinner, 1978), embora para a presente discussão seja conveniente abordar-se apenas o comportamen- to verbal vocal.
Skinner (1978) na obra Comportamento verbal defi- niu o comportamento verbal relevante a esta discus- são em termos de sua função como tacto e mando.
O tacto é definido como “um operante verbal,
no qual uma resposta de certa forma é evocada (ou pelo menos reforçada) por um objeto particular ou um acontecimento ou propriedade de objeto ou acontecimento” (Skinner, 1978, p. 108).
O dorear verbal que consiste de um tato não sus- cita maiores problemas para a análise comportamental ou para o seu tratamento, pois o sujeito, neste caso estaria tateando um evento inter- no, o tratamento do qual, não é escopo da psicolo- gia, embora não fique descartado um trabalho de suporte.
No entanto, o comportamento verbal que con- siste daquilo que Skinner (1978) chamou de “tacto impuro” ou daquele comportamento que chamou de “mando” merecem algumas considerações, como será visto adiante.
Skinner definiu o mando como “um operante ver- bal no qual a resposta é reforçada por uma conseqü- ência característica e está, portanto, sob o controle funcional de condições relevantes de privação ou es- tímulo aversivo” (1978, p. 56).
Ainda sobre o mando, este é caracterizado por uma relação especial entre a forma da resposta e seu refor- ço, que é característico em uma dada comunidade ver- bal, mas isto não significa que o mando precisa, necessariamente especificar seu reforço, ou nas pala- vras de Skinner “Nenhuma resposta pode ser dada a
um mando a partir apenas de sua forma” (1978, p. 56).
Assim pode-se concordar que o dorear que con- siste de um mando apresenta problemas adicionais aos tratamentos de dor, pois não é responsivo aos tratamentos convencionais, e problemas adicionais à análise do comportamento, pois requerem uma abor- dagem clínica capaz de determinar quais são as con- seqüências que mantém a resposta em questão, e a modificação do ambiente social reforçador (no caso de uma abordagem familiar) e/ou a superposição de mandos mais eficientes.
É conveniente lembrar que topograficamente, o dorear que consiste de um mando é similar à topo- grafia do tacto. Para exemplificar este fato e para facilitar a compreensão desta possibilidade, pode-se tomar emprestado a fala do personagem Eugênio, de Érico Veríssimo, em Olhai os lírios do campo: “...e que no mundo não existem só cobaias para o diver- timento duma moça rica, mas também criaturas hu- manas que sentem, sofrem, têm direito a um pouco de felicidade...” (1987,p.118)
Na seqüência do trecho citado, o personagem Eu- gênio diz que não “sentia o que acabara de dizer”, para ele a pobreza e a infelicidade alheia “não existi- am” (Veríssimo, 1987, p.118) . O personagem en- contrava-se sob forte estimulação aversiva (variável no controle do mando), na companhia de uma moça
rica que o estava humilhando. A frase tem, topogra- ficamente, o aspecto de um tacto (“existem ...”) mas tratava-se de uma resposta com a função de acabar com a estimulação aversiva.
Como será visto adiante, a clareza que Eugênio tinha, do fato de não estar realmente tateando um evento, é muito rara nos clientes que doreiam ver- balmente emitindo mandos.
A análise destas duas respostas separadamente (tacto e mando) não significa a possibilidade de que elas não possam ocorrer simultaneamente como
“Quando a dona de casa diz O jantar está pronto, não por causa do reforço generalizado característico do tato, mas principalmente para que seus ouvintes vão para a mesa, funcionalmente, a resposta está muito próxima do ‘mando’ Venham jantar” (Skinner, 1978, p. 187).
A este operante verbal Skinner chamou tacto im- puro (1978).
Os mesmos problemas levantados no mando se- riam presentes no tacto impuro, pois, embora neste caso exista um evento sendo tateado, a função si- milar a do mando faria, possivelmente, a queixa per- petuar-se além do momento em que o evento interno tenha desaparecido.
O comportamento verbal é quase sempre fun- ção de mais de uma variável (Skinner 1978), a dis-
tinção só é interessante para determinar a principal variável no controle de um dado operante e direcionar a intervenção.
Sobre a discriminação que o cliente pode reali- zar de seu próprio comportamento verbal e sob os eventos que ocorrem sob sua pele (mando ou tacto) pode-se citar Skinner (1953, pp. 284-285)
Muitas vezes estão operando variáveis que tendem a en- fraquecer o controle de estímulos destas descrições, e a comunidade reforçadora geralmente não tem poderes para evitar a distorção que resulta. O indivíduo que se esquiva de uma tarefa desagradável alegando uma dor de cabeça não pode ser frontalmente acusado, mesmo que a existên- cia do evento privado seja duvidosa (...) O próprio indi- víduo sofre também destas limitações. O ambiente seja público ou privado, parece permanecer indistinto até que o organismo seja forçado a fazer uma distinção.
Apesar da dificuldade, no entanto, esse parece ser o principal e mais difícil objetivo do manejo clínico do cliente com dor crônica.
Muitas considerações adicionais seriam necessá- rias para que fossem explorados, neste trabalho, os eventos internos relacionados ao dorear verbal, mas seriam considerações inferenciais (não que isto tor- ne a análise menos válida), e desnecessárias para o
momento e objetivo do trabalho.
Apesar da classificação do comportamento ver- bal em termos de sua função relativamente sim-
ples, resta sempre a tarefa de investigar, na clínica, de quais dos fenômenos operantes é que se trata um dado dorear.
Referências bibliográficas
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HORN, S.; MUNAFÒ, M. (1997). Pain: theory, research and intervention. Buckingham: Open University Press.
MATOS, M. A. (1998). Behaviorismo radical e behaviorismo metodológico. In: RANGE, B. Psicoterapia comportamental e cognitiva. Campinas: Editorial PSY, pp. 27-34.
MERSKEY H.; BOGDUK N. (1994). IASP pain terminology. [online]. http://www.iasp-pain.org/terms-p.html.
[15 jan. 2002].
RACHLIN, H. (1985). “Pain and behavior”. The behavioral and brain sciences, v.8, pp. 43-83.
SKINNER, B. F. (1953). Ciência e comportamento humano. São Paulo: Martins Fontes.
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TOURINHO, E. Z. (1999). Privacidade, comportamento e o conceito de ambiente interno. In: BANACO. R.
Sobre comportamento e cognição. Santo André: ARBytes, vol 1, pp. 217-229.
VERÍSSIMO, E. (1987). Olhai os lírios do campo. 59.ed. São Paulo: Editora Globo.