• Nenhum resultado encontrado

O Menino e o Sonho

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "O Menino e o Sonho"

Copied!
4
0
0

Texto

(1)

[E-F@BULATIONS / E-F@BULAÇÕES] 2/ JUN 2008

O Menino e o Sonho

Cidália Fernandes

Era uma vez um menino.

Era uma vez um sonho.

Vivia cada um no seu cantinho.

O menino, sempre triste, olhava à sua volta e não gostava do que via. Em casa, era infeliz porque as pessoas da família não o compreendiam.

Ilustração de Tita Costa

(2)

[E-F@BULATIONS / E-F@BULAÇÕES] 2/ JUN 2008

Diziam-no diferente.

Achavam-no diferente.

Apontavam-no como diferente.

Na escola, os outros meninos acusavam-no de nunca estar presente, de nunca olhar na mesma direcção, de não conseguir matar formigas nem abelhas e de se isolar a olhar uma flor e a cheirá-la.

Na rua, era empurrado com violência e ouvia várias vezes os mesmos risos engraçados e sentia que os outros o olhavam de uma forma que doía.

Não, o menino não gostava do que via.

O sonho vivia também sozinho.

Procurava há já muito tempo um cantinho onde pudesse encontrar alguém que o aceitasse.

Por detrás de nuvem onde se escondia, espreitava apenas à noite para não ser apanhado desprevenido.

De dia, via toda a gente Tão ocupada

Tão atarefada Tão afadigada…

Homens, mulheres, meninos, meninas, gente apressada, a correr para um lado e para o outro; homens a tocarem-se uns nos outros e a pedirem desculpa de seguida, a tropeçarem uns nos outros sem se darem conta de que caíam, a empurrarem-se uns aos outros para abrirem passagens estreitas onde construíam pequenos mundos separados dos demais …

E o sonho não compreendia.

Ouvia tantos ruídos que não percebia como podiam as pessoas ouvir-se umas às outras.

Andavam sempre, sempre e nunca paravam para sentir o sol, e para olhar as nuvens …

Mesmo às vezes, quando alguns se encontravam, falavam a correr, nunca os seus olhos se acariciavam.

E o sonho pensava que tinha pena dos olhos das pessoas, pois eram frios e sós;

muito sós e não conseguiam ver o invisível.

Portanto,

Era uma vez um menino.

Era um vez um sonho.

Foi à tardinha, num dia de Primavera ameno.

O menino estava sentado no jardim, a pensar, que era o que ele mais gostava de fazer; a pensar que era um menino muito só, em casa, na escola e na rua e que não conseguia entender o mundo em que vivia.

Enquanto o menino estava a pensar, o sonho correu, por acaso e nesse momento, uma nesga da nuvem onde se tinha escondido. Deu de caras com ele!

- Eu não acredito no que vejo! Será que este é o meu dia de sorte? Um menino sozinho…

Hesitou.

O sonho não sabia o que fazer. Fora já algumas vezes repudiado e mesmo furiosamente por alguns que não estavam interessados em tê-lo como companhia, não gostaria de sofrer de novo. Por isso, talvez fosse melhor não se aproximar.

E muito triste escondeu-se mais uma vez atrás da nuvem onde vivia. Mas, passados breves segundos, voltou a espreitar. Talvez …

Mas não …

- Oh! Foi-se embora!

(3)

[E-F@BULATIONS / E-F@BULAÇÕES] 2/ JUN 2008

Ficou tão triste o nosso pequenino sonho, mais triste ainda do que no princípio!

E então pela última vez, olhou.

Ah!… Surpresa das surpresas!

- Não foi, não! Levantou-se apenas para cheirar uma flor! E agora está a olhar uma formiga!

Um ímpeto de ansiedade cresceu no peito do pequeno sonho! Talvez fosse aquele!

- Talvez seja este!

- Mas se não era?

- Mas se não é?

(4)

[E-F@BULATIONS / E-F@BULAÇÕES] 2/ JUN 2008

- E se o repudiava como os outros já tinham feito?

- E se me repudia como outros já fizeram?

Não podia esperar mais! Tinha de saber!

- Não posso esperar mais!

Então, devagarinho, voou em direcção ao menino que de novo se sentara no banco do jardim.

- Olá!

- Olá!

- Eu sou um sonho e estou muito sozinho!

- Eu sou um menino e também estou muito sozinho!

- Não queres ficar comigo?

- Quero, eu quero ficar contigo.

- Assim, somos dois, podemos … - …ficar mais fortes!

- Então, está bem!

- Então, está bem!

Não eram necessárias mais palavras. Estava tudo dito!

O sonho não se arrependeu ter-se encontrado com o menino e o menino, por sua vez, também não se arrependeu ter-se entregado ao sonho.

Pouco a pouco, foram crescendo, crescendo, crescendo …

Dominaram o jardim, onde se tinham conhecido, depois a rua, a seguir a escola, a cidade, o país, muitos países…

Os dois construíram um mundo novo. Juntos.

A família era agora o mundo todo!

Era uma vez um menino e era uma vez um sonho…

Referências

Documentos relacionados

No entanto, a cultura predominante na gestão das unidades produtivas sucroalcooleiras, influenciada pelas altas taxas de rentabilidade dos mercados de etanol e de açúcar,

O Museu Digital dos Ex-votos, projeto acadêmico que objetiva apresentar os ex- votos do Brasil, não terá, evidentemente, a mesma dinâmica da sala de milagres, mas em

nhece a pretensão de Aristóteles de que haja uma ligação direta entre o dictum de omni et nullo e a validade dos silogismos perfeitos, mas a julga improcedente. Um dos

Equipamentos de emergência imediatamente acessíveis, com instruções de utilização. Assegurar-se que os lava- olhos e os chuveiros de segurança estejam próximos ao local de

O objetivo deste experimento foi avaliar o efeito de doses de extrato hidroalcoólico de mudas de tomate cultivar Perinha, Lycopersicon esculentum M., sobre

17 CORTE IDH. Caso Castañeda Gutman vs.. restrição ao lançamento de uma candidatura a cargo político pode demandar o enfrentamento de temas de ordem histórica, social e política

O enfermeiro, como integrante da equipe multidisciplinar em saúde, possui respaldo ético legal e técnico cientifico para atuar junto ao paciente portador de feridas, da avaliação

*-XXXX-(sobrenome) *-XXXX-MARTINEZ Sobrenome feito por qualquer sucursal a que se tenha acesso.. Uma reserva cancelada ainda possuirá os dados do cliente, porém, não terá