CURSO DE DIREITO
MATHEUS DE AZEVEDO MENDES
LUVASNO CONTRATO ESPECIAL DE TRABALHO DO ATLETA PROFISSIONAL:
UM ESTUDO DO CASO NEYMAR X BARCELONA À LUZ DO ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO
FORTALEZA 2018
MATHEUS DE AZEVEDO MENDES
LUVAS NO CONTRATO ESPECIAL DE TRABALHO DO ATLETA PROFISSIONAL: UM ESTUDO DO CASO NEYMAR X BARCELONA À LUZ DO ORDENAMENTO
JURÍDICO BRASILEIRO
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Direito da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará, como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Direito.
Orientador: Prof. Dr. Regnoberto Marques de Melo Júnior
FORTALEZA 2018
M492l Mendes, Matheus de Azevedo.
Luvas no contrato especial de trabalho do atleta profissional : um estudo do caso Neymar x Barcelona à luz do ordenamento jurídico brasileiro / Matheus de Azevedo Mendes. – 2018.
60 f.
Trabalho de Conclusão de Curso (graduação) – Universidade Federal do Ceará, Faculdade de Direito, Curso de Direito, Fortaleza, 2018.
Orientação: Prof. Dr. Regnoberto Marques de Melo Júnior.
1. Contrato especial de trabalho do atleta profissional. 2. Luvas. 3. Natureza jurídica. I. Título.
CDD 340
MATHEUS DE AZEVEDO MENDES
LUVAS NO CONTRATO ESPECIAL DE TRABALHO DO ATLETA PROFISSIONAL: UM ESTUDO DO CASO NEYMAR X BARCELONA À LUZ DO ORDENAMENTO
JURÍDICO BRASILEIRO
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Direito da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará, como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Direito.
Orientador: Prof. Dr. Regnoberto Marques de Melo Júnior
Aprovado em: ___/___/_____.
BANCA EXAMINADORA
_______________________________
Prof.º Dr. Regnoberto Marques de Melo Júnior (Orientador) Universidade Federal do Ceará (UFC)
_______________________________
Mestre Vanessa de Lima Marques Santiago
_______________________________
Mestrando Victor Alves Magalhães
A todos que acreditam na educação e no esporte como ferramentas de proteção e inclusão.
Ao Prof. Dr. Regnoberto Marques de Lima Júnior, por sua disponibilidade e orientação.
Ao Prof. Dr. Felipe Lima Gomes, pela revisão e sugestões.
Aos participantes da Banca examinadora Vanessa de Lima Marques Santiago, por aceitar o convite e contribuir valorosamente para o trabalho, e Victor Alves Magalhães, pela ajuda inesquecível que proporcionou a apresentação do trabalho.
À Irla, pelo incentivo, compreensão, paciência e cuidado, fundamentais para me motivar, especialmente na reta final da defesa do trabalho.
À minha mãe, Jucineide, pelo estímulo e confiança em mim durante toda minha vida acadêmica, e ao meu pai, Mendes, por sua preocupação e interesse ao discutir e esclarecer assuntos inerentes ao trabalho.
Aos meus amigos os quais considero como irmãos, por toda a confiança e pelas orações.
Aos amigos de faculdade, por dividirem as angústias e conquistas, em especial ao Francisco Furtado, com quem compartilhei importantes momentos na graduação, especialmente no Núcleo de Prática de Jurídica.
Aos colegas do Rodrigues de Albuquerque Advogados, pelo conhecimento proporcionado, e em específico ao Fernando Demétrio, pela ajuda com o tema abordado.
Ao Glauber Dantas, pela sugestão sutil, porém de essencial importância para a existência deste trabalho, ao me ajudar com a escolha do direito desportivo como pano de fundo para o estudo.
O contrato especial de trabalho do atleta desportivo é regido pela Lei nº 9.615/1998 e comumente estipula um valor a título de luvas, a serem pagas ao atleta em razão da contratação. Embora esse instituto não encontre previsão na lei específica, o termo constava do Decreto nº 24.150/1934, conhecido como Lei de Luvas, que regulava contratos de locação envolvendo imóveis comerciais ou industriais, bem como era expressamente referido na revogada Lei nº 6.354/1976, também chamada Lei do Passe, que regulava a relação de trabalho do atleta profissional de futebol. A jurisprudência da Justiça do Trabalho do Brasil possui o entendimento que o valor estipulado a título de luvas integra o salário, por terem as luvas natureza salarial. A análise da natureza jurídica do instituto é requisito para a apresentação de uma solução para o caso envolvendo o atleta Neymar da Silva Santos Júnior e o Futbol Club Barcelona, em que disputam o valor estipulado a título de luvas quando da renovação do contrato entre ambos em julho de 2016, estimado em 26 milhões de euros. Ao se estabelecer a natureza jurídica cível das luvas e a assinatura do contrato de trabalho como contraprestação devida pelo atleta para fazer jus ao seu recebimento, conclui-se que no caso estudado caberia ao atleta o recebimento do pagamento integral do valor estipulado à referida verba.
Palavras-chave: Luvas. Natureza jurídica. Contrato especial de trabalho do atleta profissional.
Lei Pelé. Neymar. Barcelona.
The sport contract of professional athlete is mainly ruled – in Brazil - by the Law nº 9.615/1998 and usually sets a value as hiring bonus, to be paid to the athlete because of the hiring. Despite the fact that the institute does not be regulated by the specific law, the term originates from the Law nº 6.354/1976, known as Lei de Luvas, which used to regulate leases contracts involving commercial or industrial real estate, and was expressly referred in the Lei do Passe, which use to regulate the employment relation of the professional football athlete.
The jurisprudence of the Employment Justice from Brazil understands that the value of the hiring bonus composes the salary, because of its salary nature. The analysis of the legal nature of the institute is a requirement to the presentation of a solution to the case involving the athlete Neymar da Silva Santos Júnior and the Futbol Club Barcelona, which dispute the value stipulated of hiring bonus at the contract renewal between them in July 2016, estimated in 26 millions of euros. Establishing the civil legal nature of the hiring bonus and the subscribing of the sport contract by the athlete as his owed obligation to receive the hiring bonus payment, the conclusion in the studied case is the athlete would receive the integral value stipulated to the referred verb.
Keywords: Hiring bonus. Sport Contract of Professional Athlete. Law nº 9.615/1998. Neymar.
Barcelona.
1 INTRODUÇÃO ... 8
2 O CONTRATO ESPECIAL DE TRABALHO DO ATLETA PROFISSIONAL ... 10
2.1 LEGISLAÇÃO APLICÁVEL ... 11
2.1.1 Especificidades do contrato na lei específica ... 12
2.1.1.1 Idade mínima para formação do vínculo empregatício ... 12
2.1.1.2 Forma da contratação ... 15
2.1.1.3 Vínculo desportivo ... 16
2.1.1.4 Prazo de duração ... 17
2.1.1.5 Cláusulas compensatória e indenizatória ... 18
2.1.1.6 Jornada de trabalho ... 21
3 REMUNERAÇÃO DO ATLETA PROFISSIONAL ... 24
3.1 O DIREITO AO USO DA IMAGEM DO ATLETA PROFISSIONAL ... 24
3.2 OS BICHOS ... 26
3.3 AS LUVAS ... 30
3.3.1 Natureza jurídica das luvas ... 31
3.3.2 Tratamento legal e jurisprudencial dispensado às luvas ... 35
3.3.2.1 Pela Lei Pelé ... 35
3.3.2.2 Pela Consolidação das Leis do Trabalho ... 36
3.3.2.3 Pela Justiça do Trabalho ... 38
4 A DISPUTA PELAS LUVAS ENTRE NEYMAR E BARCELONA À LUZ DO ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO ... 41
4.1 A CARREIRA DE NEYMAR NO BRASIL ... 41
4.2 A TRANSFERÊNCIA PARA O BARCELONA ... 46
4.3 A TRANSFERÊNCIA PARA O PARIS SAINT-GERMAIN E A DISPUTA PELAS LUVAS ENTRE NEYMAR E BARCELONA ... 47
5 CONCLUSÃO ... 53
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 54
1 INTRODUÇÃO
A modalidade desportiva mais praticada no Brasil é o futebol, com 7 milhões de praticantes regulares e outros 23 milhões ocasionais.1 Com grande número de fãs e agremiações ou entidades que provocam verdadeiro fascínio em seus adeptos, trazê-lo como pano de fundo para uma abordagem jurídica daquela que se mostra como a principal relação dentro da modalidade, qual seja, entre atleta e entidade desportiva, atrai o interesse dos aficionados por ambas as artes, se assim considerados o direito e o futebol. Nesse diapasão, existe um importante instituto a partir do qual podem se levantar interessantes discussões em distintos ramos do direito, como o direito do trabalho e o direito civil. Referido instituto é o bônus de contratação, ou “hiring bonus”, ou ainda “luvas”, termo este que será utilizado em todo o trabalho, tendo em vista que sua incidência é praticamente inerente à contratação dos atletas no futebol.
A partir dessa contextualização, o presente trabalho cuida das seguintes investigações: definir a natureza jurídica do instituto do bônus de contratação do atleta profissional de futebol e apresentar solução para uma de suas repercussões polêmicas, trazendo a título ilustrativo o caso envolvendo o jogador Neymar e seu ex-clube, Barcelona, em que ambos pleiteiam o valor estipulado a título de luvas, uma vez que o contrato que ensejou tal bônus foi rescindido após cumprido apenas um quinto de seu prazo total.2 A partir disso, tem sido travada uma disputa judicial, onde o atleta pleiteia o recebimento do valor das luvas, enquanto a entidade desportiva busca exatamente o contrário, para além do pagamento de indenização por danos por parte do atleta. Saliente-se que o caráter ilustrativo do caso estudado no presente trabalho se deve ao fato de que é a Justiça Espanhola que conhecerá do caso para julgá-lo, servindo ele apenas como referência para se chegar a uma correta aplicação da lei tomando por base o ordenamento jurídico brasileiro. Com isso, busca-se apresentar uma análise do instituto das luvas e do caso em si, evitando-se fazer um novo julgamento de um caso que já tenha sido conhecido pela Justiça do Trabalho do Brasil, pois não se pretende estabelecer como objeto de estudo uma decisão judicial, embora sejam feitas críticas à jurisprudência do Tribunal Superior do Trabalho do Brasil.
1 DA COSTA, Lamartine (Org.). ATLAS DO ESPORTE NO BRASIL. Cenário de tendências gerais dos esportes e atividades físicas no Brasil. Tabela 1. Rio de Janeiro: CONFEF, 2006.
2 GLOBOESPORTE.COM. Barça e Neymar terão audiência para acordo sobre bônus de renovação. Disponível em: <https://globoesporte.globo.com/futebol/futebol-internacional/noticia/jornal-barca-e- neymar-terao-audiencia-para-acordo-sobre-bonus-de-renovacao.ghtml>. Acesso em: 29 set. 2017.
A metodologia a ser utilizada compreende pesquisa bibliográfica, legislativa, jurisprudencial e um estudo de caso.
A justificativa do presente trabalho encontra respaldo no impacto socioeconômico que o futebol tem em todo o planeta, com o aumento indiscriminado de cifras envolvendo os negócios contratuais realizados entre entidades desportivas e atletas, em um contexto onde se viu, recentemente, a quebra do recorde de maior valor pago até então para a concretização da transferência de um atleta de uma equipe para outra, notadamente o brasileiro Neymar da Silva Santos Júnior.3
3 REDAÇÃO GOAL. As 100 contratações mais caras da história do futebol. Disponível em:
<http://www.goal.com/br/notícias/as-100-contratacoes-mais-caras-da-historia-do- futebol/1e9d2qk9ka1zxznlj5ciejfzg>. Acesso em: 14 maio 2018.
2 O CONTRATO ESPECIAL DE TRABALHO DO ATLETA PROFISSIONAL
A relação jurídica em que mais se apresenta o instituto a ser estudado, as luvas, é o contrato de trabalho entabulado entre a entidade desportiva empregadora e o atleta profissional empregado. Com previsão específica na Lei nº 9.615, de 24 de março de 1998, também conhecida como Lei Pelé, a relação em comento será objeto de análise do presente capítulo, em virtude das especificidades do contrato na referida legislação.
Contudo, antes dessa análise, há que se ter em conta que a normatização da relação profissional do atleta de futebol trouxe consigo um importante esclarecimento, feito pelo legislador a partir da edição da Lei nº 6.354 de 02 de setembro de 1976, acerca da natureza jurídica do contrato de trabalho do referido profissional.
Conforme análise feita por Acosta (2007, p.75) acerca da referida lei, conhecida por Lei do Passe, a edição desta pôs fim à discussão acerca da natureza jurídica do contrato de trabalho do atleta profissional. O legislador teria normatizado o entendimento jurisprudencial consolidado nos tribunais, pelo qual toda entidade desportiva que contratasse profissionalmente um jogador de futebol seria considerada empregadora, assim como aqueles que fossem remunerados por praticar a modalidade seriam considerados empregados. Com isso, a relação entre clube e atleta estaria inserida na definição dos artigos 2º e 3º do Decreto- lei nº 5.452/1943, conhecido como Consolidação das Leis do Trabalho, sendo, portanto, relação de emprego com previsão legal, amparada pelo sistema de proteção ao trabalho.
Conclui o autor que aos jogadores foi conferido um status que há mais de três décadas já pertencia à maioria dos trabalhadores brasileiros, período esse em que se referir ao atleta como empregado pareceria, para muitos, uma metonímia jurídica, a utilização de um termo fora de contexto no Direito. A nova categoria passava a se submeter às normas gerais trabalhistas e previdenciárias. Entretanto, embora a Lei do Passe dispusesse que ao atleta profissional aplicavam-se as normas gerais da legislação do trabalho e da previdência social, exceto naquilo em que incompatibilizassem com a lei específica, eram justamente as ressalvas dessa que limitavam a inserção do atleta na ordem trabalhista. As especificidades da Lei do Passe eram apenas duas: a figura do passe, vínculo pecuniário mantido entre atleta e entidade desportiva por conta da persistência do vínculo desportivo entre ambos, ainda que cessada a vinculação de emprego, pois o atleta somente poderia se transferir caso fosse pago o valor estipulado pela entidade à qual vinculada, o que era muito criticado à época e foi objeto de reforma pela Lei Pelé, por tolher a liberdade de contratação do atleta profissional; e a Justiça
Desportiva, antes existente somente para que os tribunais desportivos julgassem atletas acusados de cometer atitudes contrárias à disciplina da prática desportiva, agora com a incumbência de analisar também questões concernentes ao próprio contrato de trabalho do atleta. Com isso, pelo art. 29 da Lei do Passe, os atletas somente poderiam ajuizar reclamações na Justiça Trabalhista caso esgotadas as instâncias da Justiça Desportiva.
Somente a partir da edição da Lei Pelé consagrar-se-ia a inclusão do atleta profissional na ordem trabalhista. Com essa lei, a relação entre entidade e atleta passou a se amparar exclusivamente pelo contrato de trabalho, com as suas especificidades em relação aos demais trabalhadores. Além disso, convém destacar o art. 50 da Lei Pelé.4 Referido dispositivo regulamentou o mandamento insculpido ao §1º do art. 217 da Constituição Federal.5 Assim, limitou-se o alcance da Justiça Desportiva ao seu objeto original, qual seja, tão somente questões de natureza disciplinar e de competições desportivas.
Segundo Melo Filho (2000, p. 169), a inserção da norma constitucional considerou, sobretudo, o congestionamento do Poder Judiciário, que impediria a tramitação rápida e célere das demandas desportivas e consequente prejuízo ao andamento das competições, cujas disputas seguem calendários inadiáveis que não podem se condicionar à morosidade da prestação jurisdicional estatal. Além disso, destaca também o despreparo da Justiça Estatal para lidar com demandas jurídico-desportivas, as quais exigem do julgador o conhecimento e a vivência de normas, práticas e técnicas desportivas com as quais, normalmente, não tem familiaridade.
2.1 LEGISLAÇÃO APLICÁVEL
A Lei Pelé possui aplicação direta sobre a relação entre atleta e entidade desportiva, tendo as normas previstas na Consolidação das Leis do Trabalho aplicação apenas subsidiária.
4 “Art. 50. A organização, o funcionamento e as atribuições da Justiça Desportiva, limitadas ao processo e julgamento das infrações disciplinares e às competições desportivas, serão definidos nos Códigos de Justiça Desportiva, facultando-se às ligas constituir seus próprios órgãos judicantes desportivos, com atuação restrita às suas competições.”
5 Art. 217. É dever do Estado fomentar práticas desportivas formais e não-formais, como direito de cada um, observados:
(...)
§ 1º O Poder Judiciário só admitirá ações relativas à disciplina e às competições desportivas após esgotarem-se as instâncias da justiça desportiva, regulada em lei.”
É a própria legislação desportiva que prevê expressamente essa forma de aplicação das normas sobre o atleta profissional.6
Com isso, para além das situações específicas previstas nos incisos do art. 28-A da Lei Pelé, há sobreposição também em relação a normas como a do art. 403 da Consolidação das Leis do Trabalho, que versa sobre a idade em que se admite a contratação com o empregado, encontrando previsão específica na Lei Pelé, mormente no caput e §4º do seu artigo 29.
2.1.1 Especificidades do contrato na lei específica
Dentre todas as especificidades que o contrato especial de trabalho do atleta profissional possui por ocasião da aplicação específica da Lei Pelé, serão analisadas aquelas as quais detêm maior relevância para o objeto estudado, quais sejam, a idade mínima para formação do vínculo empregatício, a forma da contratação, a existência do vínculo desportivo, o prazo de duração, a existência das cláusulas compensatória e indenizatória e a duração da jornada de trabalho.
2.1.1.1 Idade mínima para formação do vínculo empregatício
Enquanto a lei trabalhista genérica veda o trabalho ao menor de dezesseis anos, salvo na condição de aprendiz (a partir dos catorze), a lei específica confere à entidade desportiva formadora do atleta a partir de dezesseis anos o direito de assinar com ele seu primeiro contrato especial de trabalho desportivo, com prazo limite de cinco anos, ocasião na qual se configura o vínculo empregatício.7 Através da comprovação desse vínculo, segundo Sá Filho (2009, p. 63), o atleta poderá fazer jus ao direito de perceber a remuneração devida pelo trabalho desempenhado.
Por sua vez, o atleta em formação com mais de catorze e menos de vinte anos poderá receber um auxílio financeiro do seu clube formador, não se configurando com isso o
6 “Art. 28. (...) § 4º Aplicam-se ao atleta profissional as normas gerais da legislação trabalhista e da Seguridade Social, ressalvadas as peculiaridades constantes desta Lei, especialmente as seguintes: (...).”
7 “Art. 29. A entidade de prática desportiva formadora do atleta terá o direito de assinar com ele, a partir de 16 (dezesseis) anos de idade, o primeiro contrato especial de trabalho desportivo, cujo prazo não poderá ser superior a 5 (cinco) anos.”
vínculo empregatício entre ambos.8 No entanto, essa hipótese, chamada de contrato de formação desportiva pela própria legislação, configura-se como vínculo de trabalho.9
Sá Filho (2009, p.64) afirma que esse contrato seria equivalente ao contrato de aprendizagem constante do caput do art. 428 da Consolidação das Leis do Trabalho.10
Ainda sobre o tema, é interessante ressaltar que a Lei Pelé confere direitos aos clubes formadores, assim considerados aqueles que formalizaram a relação com o jovem atleta em formação, dentre os quais é possível destacar o de recepção de um percentual, limitado a cinco por cento, do valor envolvendo cada uma das futuras transferências nacionais do respectivo atleta.11 Na via oposta, a entidade desportiva tem o dever de garantir seguro de vida e de acidentes pessoais para cobrir as atividades do atleta contratado.12
O direito dos clubes formadores encontra guarida no solidarity mechanism da Fédération Internationale de Football Association – FIFA. 13 O mecanismo de solidariedade, constante do artigo 21 do Regulations on the Status and Transfer of Players da entidade internacional máxima de administração do futebol, prevê que:
8 “Art. 29 (...) § 4o O atleta não profissional em formação, maior de quatorze e menor de vinte anos de idade, poderá receber auxílio financeiro da entidade de prática desportiva formadora, sob a forma de bolsa de aprendizagem livremente pactuada mediante contrato formal, sem que seja gerado vínculo empregatício entre as partes.”
9 “A Ciência do Direito enxerga clara distinção entre relação de trabalho e relação de emprego. A primeira expressão tem caráter genérico: refere-se a todas as relações jurídicas caracterizadas por terem sua prestação essencial centrada em uma obrigação de fazer consubstanciada em labor humano. Refere-se, pois, a toda modalidade de contratação de trabalho humano modernamente admissível. A expressão relação de trabalho englobaria, desse modo, a relação de emprego, a relação de trabalho autônomo, a relação de trabalho eventual, de trabalho avulso e outras modalidades de pactuação de prestação de labor (como trabalho de estágio, etc.). Traduz, portanto, o gênero a que se acomodam todas as formas de pactuação de prestação de trabalho existentes no mundo jurídico atual.”
Delgado (2017, p.309).
10 “Art. 428. Contrato de aprendizagem é o contrato de trabalho especial, ajustado por escrito e por prazo determinado, em que o empregador se compromete a assegurar ao maior de 14 (quatorze) e menor de 24 (vinte e quatro) anos inscrito em programa de aprendizagem formação técnico-profissional metódica, compatível com o seu desenvolvimento físico, moral e psicológico, e o aprendiz, a executar com zelo e diligência as tarefas necessárias a essa formação.”
11 “Art. 29-A. Sempre que ocorrer transferência nacional, definitiva ou temporária, de atleta profissional, até 5% (cinco por cento) do valor pago pela nova entidade de prática desportiva serão obrigatoriamente distribuídos entre as entidades de práticas desportivas que contribuíram para a formação do atleta, na proporção de: (...)”
12 “Art. 29. A entidade de prática desportiva formadora do atleta terá o direito de assinar com ele, a partir de 16 (dezesseis) anos de idade, o primeiro contrato especial de trabalho desportivo, cujo prazo não poderá ser superior a 5 (cinco) anos.
(...)
§ 6º O contrato de formação desportiva a que se refere o § 4o deste artigo deverá incluir obrigatoriamente:
(...)
III - direitos e deveres das partes contratantes, inclusive garantia de seguro de vida e de acidentes pessoais para cobrir as atividades do atleta contratado; e (Redação dada pela Lei nº 12.395, de 2011)”.
13 FIFA. Regulations on the Status and Transfer of Players. 2018. Disponível em:
<https://www.fifa.com/mm/document/affederation/administration/regulations_on_the_status_and_transfer_of_pl ayers_en_33410.pdf>. Acesso em: 11 maio 2018.
Se um profissional é transferido antes de expirado o seu contrato, qualquer clube que tiver contribuído para sua educação e treinamento deve receber uma proporção da compensação paga ao seu clube anterior (contribuição solidária). As previsões concernentes à contribuição solidária estão estabelecidas no Anexo 5 deste regulamento. (Tradução nossa).14
Conforme o artigo primeiro do acima mencionado Anexo 5, cinco por cento do valor total da negociação envolvendo o atleta deve ser distribuído pelo novo clube aos clubes envolvidos na formação do atleta ao longo dos anos, que vão desde o décimo segundo ao vigésimo terceiro aniversário do profissional, de modo a satisfazer a contribuição solidária do mecanismo de solidariedade da entidade internacional.15
Considerando o caso a ser analisado no presente trabalho, convém destacar outra interessante discussão nascida com a transferência do atleta Neymar Júnior à equipe francesa Paris Saint-Germain. Em sua formação, o atleta teve como clube responsável pelo seu ingresso à carreira desportiva o Santos Futebol Clube, pelo qual atuou desde o início de sua adolescência até a sua ida para o futebol estrangeiro, em 2013, quando foi contratado pelo Barcelona. Com isso, por cada ano em que o atleta estivera formalmente vinculado à equipe brasileira, esta deveria receber um percentual respectivo de cada transferência futura envolvendo o mesmo. Contudo, não é o que acha Wagner Ribeiro, empresário do jogador.16
Para o empresário, como a transferência do atleta para jogar no time francês se deu por meio do pagamento da cláusula indenizatória pelo PSG ao Barcelona, o valor ao qual a equipe espanhola faria jus corresponderia a uma indenização, da qual não caberia o repasse
14 If a professional is transferred before the expiry of his contract, any club that has contributed to his education and training shall receive a proportion of the compensation paid to his former club (solidarity contribution). The provisions concerning solidarity contributions are set out in Annexe 5 of these regulations.
15 If a professional moves during the course of a contract, 5% of any compensation, not including training compensation paid to his former club, shall be deducted from the total amount of this compensation and distributed by the new club as a solidarity contribution to the club(s) involved in his training and education over the years. This solidarity contribution reflects the number of years (calculated pro rata if less than one year) he was registered with the relevant club(s) between the seasons of his 12th and 23rd birthdays, as follows:
– Season of 12th birthday: 5% (i.e. 0.25% of total compensation);
– Season of 13th birthday: 5% (i.e. 0.25% of total compensation);
– Season of 14th birthday: 5% (i.e. 0.25% of total compensation);
– Season of 15th birthday: 5% (i.e. 0.25% of total compensation);
– Season of 16th birthday: 10% (i.e. 0.5% of total compensation);
– Season of 17th birthday: 10% (i.e. 0.5% of total compensation);
– Season of 18th birthday: 10% (i.e. 0.5% of total compensation);
– Season of 19th birthday: 10% (i.e. 0.5% of total compensation);
– Season of 20th birthday: 10% (i.e. 0.5% of total compensation);
– Season of 21st birthday: 10% (i.e. 0.5% of total compensation);
– Season of 22nd birthday: 10% (i.e. 0.5% of total compensation);
– Season of 23rd birthday: 10% (i.e. 0.5% of total compensation).
16 GARCIA, Diego. Empresário de Neymar diz que Santos pode ficar sem sua parte nos R$ 821 milhões da venda ao PSG. 2017. Disponível em: <http://www.espn.com.br/noticia/715476_empresario-de-neymar-diz-que- santos-pode-ficar-sem-sua-parte-nos-r-821-milhoes-da-venda-ao-psg>. Acesso em: 11 maio 2018.
de percentual algum. Contudo, a regulamentação da FIFA não faz qualquer restrição para a incidência da contribuição de solidariedade, fazendo constar expressamente que o percentual é deduzido em favor do clube formador sobre qualquer compensação financeira em função de transferência durante o curso do contrato do profissional, o que houve de fato.
Diante disso, uma parcela de cerca de quatro por cento do valor total recebido pelo Barcelona, ainda que a título de cláusula indenizatória, deveria ser repassada ao Santos Futebol Clube, que receberia uma verba em torno de 33 milhões de reais. À época da discussão acerca da parcela devida por conta do mecanismo de solidariedade, noticiou-se ainda que o clube brasileiro havia finalizado um processo para comprovar que o jogador esteva no clube entre os doze e treze anos, período não formalizado.17 Assim, a intenção da entidade desportiva paulista era fazer jus ao respectivo percentual com a simples prova de que esteve envolvido no treinamento e educação do atleta nos anos anteriores ao da formalização do contrato de formação e compreendidos no mecanismo de solidariedade, o que realmente parece suficiente segundo a norma instituída pela FIFA, vez que a legislação brasileira, como visto, somente autoriza a formalização de um primeiro vínculo da entidade desportiva com o atleta a partir de seus catorze anos.
2.1.1.2 Forma da contratação
Outra especificidade do contrato especial de trabalho desportivo diz respeito à forma da contratação. Na lição de Godinho (2017, p. 1142), o contrato pode ser formado mediante manifestação expressa ou tática da vontade das partes. Ainda segundo o autor, a manifestação expressa é aquela que é exteriorizada por meio de declarações inequívocas e transparentes da intenção empregatícia dos sujeitos do contrato. A manifestação tácita, por sua vez, não se apresenta de modo transparente, sendo concretizada pela prática material de atos, os quais indicam a existência de uma vontade comum que se direciona à formação de vínculo trabalhista entre as partes.
Embora a legislação trabalhista genérica admita o reconhecimento de vínculo empregatício ainda que a contratação se dê de maneira tácita, a legislação específica do atleta profissional exclui essa possibilidade. Sobre o assunto, Sá Filho (2009, p.58) afirma que o princípio da informalidade, o qual prevalece nas relações de emprego em geral por força do
17 LOURENÇO, Leonardo. Santos finaliza processo para aumentar cota como formador de Neymar. 2017.
Disponível em: <https://globoesporte.globo.com/sp/santos-e-regiao/futebol/times/santos/noticia/santos-finaliza- processo-para-aumentar-cota-como-clube-formador-de-neymar.ghtml>. Acesso em: 11 maio 2018.
art. 442 da Consolidação das Leis do Trabalho, não se aplica ao contrato de trabalho desportivo, este sendo pactuado apenas na forma prevista no caput do art. 28 da Lei Pelé. De acordo com Zainaghi (2002, p. 11), quando a lei menciona contrato formal, está se referindo a contrato escrito, portanto, necessariamente expresso. Sá Filho (2009, p.58) esclarece que essa previsão decorre das particularidades que cercam o contrato de trabalho do atleta profissional, o qual, caso fosse estabelecido de maneira tácita ou verbalmente expresso, reduziria a segurança jurídica das partes empregadora e empregada caso necessitassem ingressar no Poder Judiciário
Além do princípio da informalidade, pode ser mencionado também o princípio da primazia da realidade, adotado pela doutrina como aquele em que se prioriza a verdade real em face da verdade formal. Há casos em que se pretende fraudar a lei trabalhista não pela ausência de contratação expressa, mas com a formalização de relação distinta, com o viso de afastar o vínculo de emprego, como por exemplo, a celebração de contrato de prestação de serviços.
Assim, o direito do trabalho reconhece o vínculo de emprego não somente em relações nas quais o contrato de trabalho tem suas cláusulas previamente ajustadas, como também quando é dissimulado. Essa hipótese de tentativa de fraude à relação empregatícia se mostra praticamente inviável na relação em estudo, pois há outra particularidade do contrato especial de trabalho do atleta profissional que enseja, em regra, a necessidade da contratação formal, qual seja, a figura do vínculo desportivo.
2.1.1.3 Vínculo desportivo
Como mencionado anteriormente, o vínculo desportivo requer a prévia existência do vínculo de emprego entre o atleta profissional e a entidade desportiva. É o que se depreende da leitura do §5º do art. 28 da Lei Pelé, que exige o registro do contrato especial de trabalho desportivo na entidade de administração do desporto. A partir disso é que o atleta poderá disputar competições oficiais, as quais são reconhecidas ou organizadas pelas entidades de administração do desporto. Na modalidade do futebol, a Confederação Brasileira de Futebol é responsável pela organização das competições a nível nacional, enquanto que as competições de nível estadual são organizadas pelas federações de cada estado.
A regra da necessidade do vínculo empregatício para constituição de vínculo desportivo é excepcionada pelo caso dos atletas em formação, considerados não-profissionais
exatamente pela ausência do contrato de trabalho escrito. Nessa situação, como exposto anteriormente, o vínculo entre atleta e entidade é de trabalho, não de emprego, expressa por meio do contrato de formação. Destaque-se que a inscrição desses atletas em competições oficiais é requisito para o reconhecimento da entidade como sua formadora. Com isso, os atletas nessa condição, portanto, não-profissionais, podem disputar uma competição profissional, desde que possuam idade inferior a vinte anos completos, conforme a atual disposição do art. 43 da Lei Pelé.
Convém destacar que a obrigatoriedade do vínculo empregatício para a constituição do vínculo desportivo se aplica somente às modalidades desempenhadas coletivamente, conforme o §3º do art. 28-a da Lei Pelé. O caput desse artigo dispõe que é considerado autônomo “o atleta maior de dezesseis anos que não mantém relação empregatícia com a entidade de prática desportiva, auferindo rendimentos por conta e por meio de contrato de natureza civil”. O artigo ainda menciona, em seu parágrafo primeiro, que o vínculo desportivo, nesses casos, resulta de inscrição para participar de competição e não implica em reconhecimento de relação empregatícia.
2.1.1.4 Prazo de duração
O contrato especial de trabalho do atleta desportivo requer um prazo de duração determinado, o qual, conforme o caput do art. 30 da Lei Pelé, deverá ser estipulado entre três meses e cinco anos. O parágrafo único do referido artigo ainda exclui a aplicação dos arts.
445 e 451 da Consolidação das Leis do Trabalho ao contrato em análise. Isso porque o primeiro deles impõe um limite de dois anos para a duração do contrato com prazo determinado. O último, por sua vez, traduz o que a doutrina chama de princípio da continuidade da relação de emprego, pois confere ao contrato por prazo determinado que for prorrogado mais de uma vez duração indeterminada.
Essa hipótese de duração indeterminada é inviável na contratação com o atleta profissional não somente por conta da previsão legal da Lei Pelé, como também pela própria natureza da relação. Como as necessidades das entidades desportivas dependem do desempenho da equipe nas competições disputadas, eventualmente surge a necessidade de reformulação de sua composição, ou elenco. Com isso, atletas os quais não podem ser mantidos por muito tempo, quer pelo alto custo financeiro, quer pela necessidade específica de uma determinada competição, são contratados com prazo determinado de modo a não
impor ao clube a necessidade de pagamento da cláusula compensatória devida ao atleta, quando a entidade não mais quiser contar com ele.
Para o atleta, a garantia de expiração do contrato é vantajosa, principalmente no contexto nacional, em que são poucas as entidades desportivas que possuem condições de despender as quantias previstas a título de cláusula indenizatória nos contratos, que é devida à entidade desportiva à qual o atleta está vinculado quando esse se transfere para outra entidade.
Com isso, em certas situações se torna mais oportuno aguardar a extinção pelo decurso do prazo do contrato vigente, para que o atleta possa contratar livremente com outra entidade.
2.1.1.5 Cláusulas compensatória e indenizatória
Institutos mencionados na seção anterior e de previsão obrigatória18 no contrato especial de trabalho do atleta profissional, as cláusulas indenizatória e compensatória incidirão a depender de qual das partes contratantes dê causa para a extinção do contrato. Essa previsão tem aplicação específica e prioritária em relação aos arts. 479 e 480 da Consolidação das Leis do Trabalho, conforme disposição ainda do art. 28 da Lei Pelé.19
A cláusula indenizatória é devida à entidade desportiva com a qual o atleta mantém vínculo empregatício e seu valor é livremente pactuado pelas partes, tendo como limite máximo duas mil vezes o valor médio do salário contratual para transferências nacionais. Não há limitação para transferências internacionais20. São solidariamente responsáveis pelo seu pagamento o atleta e a nova entidade desportiva para a qual ele se transferiu.21
“18 Art. 28. A atividade do atleta profissional é caracterizada por remuneração pactuada em contrato especial de trabalho desportivo, firmado com entidade de prática desportiva, no qual deverá constar, obrigatoriamente:
I - cláusula indenizatória desportiva, devida exclusivamente à entidade de prática desportiva à qual está vinculado o atleta, nas seguintes hipóteses:
a) transferência do atleta para outra entidade, nacional ou estrangeira, durante a vigência do contrato especial de trabalho desportivo; ou
b) por ocasião do retorno do atleta às atividades profissionais em outra entidade de prática desportiva, no prazo de até 30 (trinta) meses; e
II - cláusula compensatória desportiva, devida pela entidade de prática desportiva ao atleta, nas hipóteses dos incisos III a V do § 5º.”
19 “§ 10. Não se aplicam ao contrato especial de trabalho desportivo os arts. 479 e 480 da Consolidação das Leis do Trabalho - CLT, aprovada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943.”
20 “Art. 28 (...)
§ 1º O valor da cláusula indenizatória desportiva a que se refere o inciso I do caput deste artigo será livremente pactuado pelas partes e expressamente quantificado no instrumento contratual:
I - até o limite máximo de 2.000 (duas mil) vezes o valor médio do salário contratual, para as transferências nacionais; e
II - sem qualquer limitação, para as transferências internacionais.”
21 “Art. 28 (...)
Justamente em razão da existência de um valor estipulado em cláusula indenizatória é que foi possível a concretização da transferência do atleta Neymar Júnior ao Paris Saint-Germain. Caso não houvesse um valor determinado e cujo pagamento viabilizasse a quebra do vínculo do atleta com seu ex-clube, Barcelona, a equipe espanhola não se veria obrigada a aceitar a quantia de € 222.000.000,00 (duzentos e vinte e dois milhões de euros), embora vultuosa. No entanto, feito o depósito do referido valor pela equipe parisiense em favor do clube catalão, o único óbice seria a recusa do atleta em se transferir para a França, o que não se vislumbrou no caso.
Destaque-se que não necessariamente é feito o pagamento integral do valor previsto a título de cláusula indenizatória para que se concretize a transferência de um atleta profissional para outra entidade. A depender do tempo restante para o fim do contrato atual, que sempre terá um prazo determinado, a entidade vinculada ao atleta poderá negociar o valor para liberá-lo, sendo certo que expirado o contrato ele poderá contratar com outra entidade sem qualquer compensação financeira em favor da anterior.
A cláusula compensatória, também de presença obrigatória no contrato especial de trabalho do atleta profissional, é a ele devida pela entidade desportiva quando ocorridas as hipóteses previstas nos incisos III a V do §5º do art. 28 da Lei Pelé.22 Os valores máximo e mínimo atribuídos à cláusula compensatória estão previstos no parágrafo terceiro do artigo em comento.23
A primeira das três hipóteses que obrigam a entidade desportiva ao pagamento da cláusula compensatória ocorre quando há o inadimplemento salarial por parte dela, nos termos da Lei Pelé. Esta ressalva é importante, pois a própria Lei, posteriormente, no caput do art. 31, reitera a obrigação de pagamento da cláusula compensatória bem como determina a rescisão do contrato especial de trabalho desportivo do atleta cujo salário esteja em atraso igual ou
§ 2º São solidariamente responsáveis pelo pagamento da cláusula indenizatória desportiva de que trata o inciso I do caput deste artigo o atleta e a nova entidade de prática desportiva empregadora.”
22 “Art. 28 (...) § 5º O vínculo desportivo do atleta com a entidade de prática desportiva contratante constitui-se com o registro do contrato especial de trabalho desportivo na entidade de administração do desporto, tendo natureza acessória ao respectivo vínculo empregatício, dissolvendo-se, para todos os efeitos legais:
(...)
III - com a rescisão decorrente do inadimplemento salarial, de responsabilidade da entidade de prática desportiva empregadora, nos termos desta Lei;
IV - com a rescisão indireta, nas demais hipóteses previstas na legislação trabalhista; e V - com a dispensa imotivada do atleta.”
23 “Art. 28 (...)
§ 3º O valor da cláusula compensatória desportiva a que se refere o inciso II do caput deste artigo será livremente pactuado entre as partes e formalizado no contrato especial de trabalho desportivo, observando-se, como limite máximo, 400 (quatrocentas) vezes o valor do salário mensal no momento da rescisão e, como limite mínimo, o valor total de salários mensais a que teria direito o atleta até o término do referido contrato.”
superior a três meses. Além disso, o parágrafo primeiro do art. 31 dispõe que o salário é composto pelo abono de férias, décimo terceiro salário, gratificações, prêmios e demais verbas inclusas no contrato de trabalho, para efeitos do previsto no caput. Conforme Machado (1998 apud ZAINAGHI, 2002, p. 26), essa equiparação é exclusiva para o efeito de poder rescindir-se o contrato de trabalho após o terceiro mês de mora contumaz. O destaque feito é imprescindível à análise do objeto investigado e será um dos pilares do argumento a ser apresentado. Acrescente-se que, seguindo o intento protetivo que o artigo busca concretizar, seu caput e o parágrafo segundo ainda abarcam o atraso do pagamento de contrato de direito de imagem, recolhimento de FGTS e de contribuições previdenciárias, como causa para a rescisão contratual.
A próxima hipótese, com previsão no inciso IV do art. 28 da Lei Pelé, em que também é devida ao atleta a cláusula compensatória, trata da rescisão indireta. Segundo Delgado (2017, p.1382), chama-se rescisão indireta a ruptura por ato culposo do empregador.
Essa modalidade de resolução contratual é facultada ao empregado quando configuradas as hipóteses previstas na legislação trabalhista, em rol disposto pelo art. 483 da Consolidação das Leis do Trabalho.24 Além dessas, convém destacar que a lei trabalhista também trata de rescisão indireta, em caráter que se entende por impositivo, não facultado, quando houver execução de trabalho por menor que lhe imponha prejuízos, conforme disposto no art. 407 da Consolidação das Leis do Trabalho.25
24 “Art. 483 - O empregado poderá considerar rescindido o contrato e pleitear a devida indenização quando:
a) forem exigidos serviços superiores às suas forças, defesos por lei, contrários aos bons costumes, ou alheios ao contrato;
b) for tratado pelo empregador ou por seus superiores hierárquicos com rigor excessivo;
c) correr perigo manifesto de mal considerável;
d) não cumprir o empregador as obrigações do contrato;
e) praticar o empregador ou seus prepostos, contra ele ou pessoas de sua família, ato lesivo da honra e boa fama;
f) o empregador ou seus prepostos ofenderem-no fisicamente, salvo em caso de legítima defesa, própria ou de outrem;
g) o empregador reduzir o seu trabalho, sendo este por peça ou tarefa, de forma a afetar sensivelmente a importância dos salários.
§ 1º - O empregado poderá suspender a prestação dos serviços ou rescindir o contrato, quando tiver de desempenhar obrigações legais, incompatíveis com a continuação do serviço.
§ 2º - No caso de morte do empregador constituído em empresa individual, é facultado ao empregado rescindir o contrato de trabalho.
§ 3º - Nas hipóteses das letras "d" e "g", poderá o empregado pleitear a rescisão de seu contrato de trabalho e o pagamento das respectivas indenizações, permanecendo ou não no serviço até final decisão do processo.”
25 “Art. 407 - Verificado pela autoridade competente que o trabalho executado pelo menor é prejudicial à sua saúde, ao seu desenvolvimento físico ou a sua moralidade, poderá ela obrigá-lo a abandonar o serviço, devendo a respectiva empresa, quando for o caso, proporcionar ao menor todas as facilidades para mudar de funções. (Redação dada pelo Decreto-lei nº 229, de 28.2.1967)
Parágrafo único - Quando a empresa não tomar as medidas possíveis e recomendadas pela autoridade competente para que o menor mude de função, configurar-se-á a rescisão do contrato de trabalho, na forma do art. 483.”
Por fim, temos como última incidência da cláusula compensatória, a hipótese em que ocorre a dispensa imotivada do atleta. Delgado (2017, p. 1312) esclarece que esse tipo de ruptura contratual também é conhecida como dispensa arbitrária ou despedida sem justa causa, servindo a expressão para traduzir a idéia de ausência de motivo legalmente tipificado, o que não se refere à ausência de uma motivação interna à empresa, a qual seria apenas irrelevante para o Direito, sendo desnecessária sua explicitação. Portanto, nos casos em que não mais convenha à entidade desportiva a manutenção do atleta no seu quadro de profissionais, deverá pagar a ele o valor estipulado no contrato a título de compensação.
Contudo, conforme os limites de valor da cláusula, dispostos no §3º do art. 28 da Lei Pelé, especificamente no que tange ao valor mínimo, percebe-se que a cláusula compensatória equivalerá, pelo menos, ao valor total de salários ao qual o atleta teria direito até o fim do contrato. Ou seja, a entidade deverá pagar ao atleta, no mínimo, aquilo que ele receberia caso cumprido integralmente o contrato, deduzidas apenas eventuais premiações e gratificações, o que não parece tão vantajoso.
O que se percebe, na prática, é que em casos semelhantes, nos quais os atletas não têm tanta perspectiva de serem utilizados pela entidade em competições oficiais, as partes buscam uma rescisão amigável, chegando-se a um valor razoável para empregado e empregador, reduzindo este a onerosidade de sua folha de pagamento, e ficando aquele livre para se vincular a outra entidade.26 No entanto, quando essa hipótese não se viabiliza, o que tende a ocorrer é o afastamento do atleta do restante dos companheiros, passando a treinar em separado e deixando de disputar partidas oficiais.27 Essa situação traz prejuízos ao atleta, cuja atuação é imprescindível para a construção de sua carreira e valorização de sua imagem, tendo em vista que, para muitos, as entidades desportivas sirvam como mera vitrine para se destacarem e conseguirem uma transferência para outra que lhes ofereçam melhores condições de trabalho.28
2.1.1.6 Jornada de trabalho
26 GLOBOESPORTE.COM. Atlético-MG entra em acordo amigável para rescindir contrato de Felipe Santana.
2018. Disponível em: <https://globoesporte.globo.com/futebol/times/atletico-mg/noticia/atletico-mg-entra-em- acordo-amigavel-para-rescindir-contrato-de-felipe-santana.ghtml>. Acesso em: 12 maio 2018.
27 GLOBOESPORTE.COM. Goiás afasta Léo Gamalho e mais seis jogadores após derrota para o Oeste. 2017.
Disponível em: <https://globoesporte.globo.com/go/futebol/times/goias/noticia/goias-afasta-leo-gamalho-e-mais- seis-jogadores-apos-derrota-para-o-oeste.ghtml>. Acesso em: 12 maio 2018.
28 GLOBOESPORTE.COM. Declaração polêmica? Felipe diz que quer se destacar para deixar Fortaleza. 2017.
Disponível em: <http://globoesporte.globo.com/ce/futebol/times/fortaleza/noticia/2017/01/declaracao-polemica- felipe-diz-que-quer-se-destacar-para-deixar-fortaleza.html>. Acesso em: 12 maio 2018.
Embora o termo jornada se refira, tecnicamente, ao período de labor diário, a legislação desportiva segue a previsão constitucional adotando o parâmetro semanal de quarenta e quatro horas, conforme o inciso VI do §4º do art. 28 da Lei Pelé. Assim, nessas horas semanais devem estar distribuídas todas as atividades a serem desempenhadas pelo atleta, tais como a participação em jogos, treinos, estágios, dentre outras, nos termos previstos no inciso I do artigo que trata dos deveres do atleta profissional, o de número 35 da Lei Pelé.29 A particularidade fica por conta do que prevê o art. 32 da Lei.30 Segundo o dispositivo, o atleta pode ser recusar a competir pela entidade de prática desportiva quando seus salários, no todo ou em parte, estiverem em atraso de dois ou mais meses.
A partir disso surge uma discussão sobre estar ou não compreendida na norma do art. 32 a atividade do treinamento, lembrando que ambas fazem partes dos deveres do atleta, conforme expostos acima.
O entendimento de Sá Filho (2009, p. 84) é o de que o atleta pode se recusar tanto a competir quanto a treinar pela entidade desportiva que descumpra o contrato, pois nada o impediria de se recusar a treinar, tendo em vista que o treinamento tem como objetivo a preparação para atuação em competições desportivas, destacando ainda o princípio hermenêutico in eo quod plus est semper inest et minus, segundo o qual: aquele a quem se permite o mais, não se deve negar o menos.
Entretanto, aqui cabe uma ressalva. A atuação desportiva competitiva é feita em função da entidade e para esta é o principal objetivo da contratação do atleta. É esse o entendimento que o art. 32 da Lei Pelé aparenta adotar, tendo como sentido tolher da entidade a principal contraprestação devida em razão da sua obrigação inadimplida. O fato de o treinamento propiciar ao atleta condições de atuação competitiva com máximo rendimento, por si só, não pode ampliar o alcance da norma, tanto que dela sequer consta a recusa ao treino. Principalmente porque não somente o treino é um dever do atleta, como também o é a preservação de suas condições físicas. Assim, o atleta que se vale do art. 32 para se recusar a competir, poderá ser exigido a competir pela entidade quando da regularização da sua situação,
29 “Art. 35. São deveres do atleta profissional, em especial:
I - participar dos jogos, treinos, estágios e outras sessões preparatórias de competições com a aplicação e dedicação correspondentes às suas condições psicofísicas e técnicas;
II - preservar as condições físicas que lhes permitam participar das competições desportivas, submetendo-se aos exames médicos e tratamentos clínicos necessários à prática desportiva;
III - exercitar a atividade desportiva profissional de acordo com as regras da respectiva modalidade desportiva e as normas que regem a disciplina e a ética desportivas.”
30 “Art. 32. É lícito ao atleta profissional recusar competir por entidade de prática desportiva quando seus salários, no todo ou em parte, estiverem atrasados em dois ou mais meses;”
mantidas as suas condições físicas para tanto, que podem ter sido comprometidas caso no período da recusa em competir o atleta também tenha se negado a treinar.
No que tange ao repouso semanal remunerado, embora a Constituição Federal de 1988 o prefira aos domingos, sabe-se que no caso dos atletas esse dia é comumente voltado para a disputa de competições oficiais. Por isso, a Lei Pelé prevê que o repouso seja usufruído preferencialmente no dia subsequente à participação do atleta na partida, prova ou equivalente, quando realizada no final de semana.31
Logo a seguir, será analisado especificamente o instituto objeto de controvérsia no caso estudado, qual seja, as luvas, bem como, eventualmente, outras verbas pagas ao atleta.
31 Art. 28: (...)
§ 4º Aplicam-se ao atleta profissional as normas gerais da legislação trabalhista e da Seguridade Social, ressalvadas as peculiaridades constantes desta Lei, especialmente as seguintes:
(...)
IV - repouso semanal remunerado de 24 (vinte e quatro) horas ininterruptas, preferentemente em dia subsequente à participação do atleta na partida, prova ou equivalente, quando realizada no final de semana;
3 REMUNERAÇÃO DO ATLETA PROFISSIONAL
A remuneração do atleta profissional é tema que propicia interessantes debates acerca da natureza jurídica de cada verba que a compõe e a incidência ou não dos encargos trabalhistas sobre essas. Em razão disso é que este trabalho destina um capítulo exclusivamente voltado para tratar do assunto.
Com efeito, o estudo dos três institutos abordados no presente capítulo leva em consideração características que lhes são comuns, como a incidência quase que exclusiva em contratos de trabalho de atletas, em prol de um reforço analítico no que tange ao último deles, as luvas.
Saliente-se, inicialmente, uma importante definição acerca da natureza jurídica de uma das verbas que compõem a remuneração do atleta, qual seja, a recebida pela cessão do direito ao uso de sua imagem, bem como no que se refere à proporção dessa na composição da remuneração total, conforme aprofundar-se-á a seção seguinte.
Além dessa verba relacionada ao direito de imagem e da importância salarial fixa, a Lei Pelé expressamente menciona outras verbas as quais estão presentes nos contratos de trabalho gerais, tais como abono de férias, décimo terceiro salário, gratificações, premiações, FGTS e contribuições previdenciárias.32
Contudo, verbas comumente presentes na relação entre atleta e entidade desportiva, tais como os bichos e, especialmente, as luvas, não constam de maneira expressa da lei, sendo essa uma das razões que ensejam maior discussão sobre elas.
Feita essa contextualização acerca das verbas componentes da relação jurídica entre atleta e entidade desportiva, passa-se ao cotejo analítico de algumas delas e de seus aspectos específicos, com o fito de culminar no estudo das luvas, objeto de controvérsia do caso discutido pelo presente trabalho.
3.1 O DIREITO AO USO DA IMAGEM DO ATLETA PROFISSIONAL
A figura do contrato de cessão do direito ao uso de imagem do atleta, popularmente chamado de contrato de imagem, tem origem na proteção conferida pela Constituição Federal aos direitos da personalidade, pela qual a regra é a inviolabilidade, sendo excepcional a hipótese de concessão do seu uso. Na lição de Gonçalves (2014, p. 202), ao se
32 Verbas as quais são protegidas da mora contumaz da entidade desportiva empregadora, possibilitando a lei a rescisão do contrato do atleta prejudicado pelo atraso no pagamento dessas por três meses ou mais.
reproduzir a imagem é a própria pessoa quem está sendo emanada, portanto, somente ela poderia autorizar essa reprodução.
O autor completa afirmando que é explicitamente assegurado, pela Constituição, o direito a indenização por dano material ou moral que decorra da violação da intimidade, da vida privada, da honra e da própria imagem das pessoas.
Complementando esse entendimento específico em relação ao tratamento particular conferido ao Direito de Imagem pela Constituição Federal de 1988, Acosta (2007, p.
97) afirma que houve uma ruptura com uma longa tradição, com o reconhecimento, pelos constituintes, da evolução dos meios de comunicação, passando pelo desenvolvimento e rapidez das mais diversas mídias, o que implicaria no aumento de riscos para a imagem das pessoas. A proteção conferida aos direitos da personalidade é considerada moderna pelo autor, pois segue o que já existe nas constituições da Espanha e de Portugal. Em regra, a maioria dos países regulamentam em sua legislação infra-constitucional o uso da imagem, em leis de direito autoral ou integrando o respectivo código civil.
Ainda segundo o autor, a Constituição Federal, ao prever indenização por dano, no inciso V do seu art. 5º, reforça a idéia protetiva. Portanto, o uso da imagem da pessoa sem a sua autorização configura lesão ao que ele considera atributo central da personalidade.
Assim, a exposição da imagem do atleta profissional, alcançada pela regra de inviolabilidade, cuja exceção é a cessão da exploração pela entidade desportiva, encontra guarida no contrato de cessão de direito de imagem, cuja natureza cível é expressamente determinada pelo caput do art. 87-A da Lei Pelé, incluído pela Lei nº 12.395 de 2011.33 A partir da edição desse dispositivo, até a inclusão do parágrafo único do artigo em 2015, casos como o da atleta profissional de vôlei Tandara passaram a ser cada vez mais comuns, em que se pactuava um valor a ser pago pela cessão de uso da imagem do atleta em patamar bastante superior à quantia equivalente ao salário. No caso específico mencionado, a Justiça Trabalhista, especificamente a 5ª Turma do Tribunal Superior do Trabalho, entendeu que
O simples fato de a obreira perceber, por força do contrato de licença de uso de imagem, valor igual ou muitas vezes superior ao seu salário, por si só, não enseja a constatação de fraude, pois na dicção do artigo 87 da Lei nº 9.615/98, que disciplina a matéria, exige-SE apenas e tão somente que as bases sejam fixadas e
33 “Art. 87-A. O direito ao uso da imagem do atleta pode ser por ele cedido ou explorado, mediante ajuste contratual de natureza civil e com fixação de direitos, deveres e condições inconfundíveis com o contrato especial de trabalho desportivo.
Parágrafo único. Quando houver, por parte do atleta, a cessão de direitos ao uso de sua imagem para a entidade de prática desportiva detentora do contrato especial de trabalho desportivo, o valor correspondente ao uso da imagem não poderá ultrapassar 40% (quarenta por cento) da remuneração total paga ao atleta, composta pela soma do salário e dos valores pagos pelo direito ao uso da imagem.”
que o sejam, aliás, de forma inconfundível com as eleitas para o contrato especial de trabalho desportivo.
De fato, o valor pactuado pelo contrato de imagem é significativamente superior ao valor do salário. O caso dos autos, todavia, envolve atleta de renome do voleibol brasileiro, detentora de inúmeros títulos e recordes, inclusive mundiais e olímpicos, integrante da elite de atletas da referida modalidade esportiva. A reclamante, como é de conhecimento público, trata-se de atleta com expressiva passagem pela Seleção Brasileira de Voleibol.
A atleta possui, assim, notoriedade suficiente para que seu clube beneficie-se da sua exposição.34 (Grifos no original).
Constata-se que, em razão da não presunção de fraude, seria necessária a comprovação do intento de burlar a legislação trabalhista, não se prestando para tanto a mera confrontação entre valores, a qual, no caso da atleta, demonstrava que esta percebia a título de direitos de imagem um valor noventa e nove vezes maior que a renda salarial. Na espécie, essa desproporcionalidade aparente foi justificada pela valorização que a reputação, portanto, a imagem da atleta, possui.
Posteriormente, com a edição da Lei nº 13.155 de 2015, foi incluído o parágrafo único ao art. 87-A da Lei Pelé, determinando que o valor pago a título de uso de direito de imagem pela entidade desportiva não poderá ser maior que quarenta por cento da remuneração total percebida pelo atleta, somados o salário e valores pagos pelo uso da sua imagem. Essa previsão objetiva exatamente trazer maior segurança jurídica quando da análise do contrato de trabalho e do contrato de direito de imagem pelo judiciário, através da adoção de critérios objetivos para coibir a prática de fraudes à lei trabalhista.
Ao final, o que se pretende com a análise da verba estipulada em razão da cessão de imagem pelo atleta é a demonstração de que se trata de um instituto de origem no Direito Civil, por se tratar de um desdobramento dos direitos da personalidade, cuja proteção encontra fundamento na Constituição Federal, e que tem uma expressa dissociação do salário e verbas de natureza trabalhista feita pela Lei Pelé. O mesmo tratamento não é conferido, por exemplo, às verbas a seguir delineadas, quais sejam, os bichos e as luvas, sequer previstas nesses exatos termos pela lei, o que as deixa em um limbo legislativo que resulta em interpretações doutrinárias e jurisprudenciais de cunho duvidoso e questionável.
3.2 OS BICHOS
34 BRASIL. Tribunal Superior do Trabalho. 5ª Turma. Acórdão em Recurso de Revista nº 11105- 22.2015.5.03.0104, Relator Ministro: Guilherme Augusto Caputo Bastos, Data de Julgamento: 22/11/2017, Data
de Publicação: DEJT 02/02/2018. Disponível em: <
http://aplicacao5.tst.jus.br/consultaunificada2/inteiroTeor.do?action=printInteiroTeor&format=html&highlight=tr ue&numeroFormatado=RR%20-%2011105-
22.2015.5.03.0104&base=acordao&rowid=AAANGhABIAAAGswAAZ&dataPublicacao=02/02/2018&localPu blicacao=DEJT&query>. Acesso em: 18 maio 2018.
Sá Filho (2009, p. 108), citando Barros, informa que em relação aos bichos pagos ao atleta, a terminologia se origina nas primeiras apostas no futebol profissional, no início da modalidade, guardando correlação com o jogo do bicho.
O autor citante ainda conclui que a natureza jurídica da verba seria de gratificação, pois na concepção de Catharino (1994 apud SÁ FILHO, 2009), essa palavra ainda possui o significado latino de prêmio ou recompensa. Aquele que concede a gratificação o faz de modo espontâneo, por sua livre vontade. Assim, a gratificação, em sua essência, não integraria o salário do empregado, por não ser obrigação principal do empregador, o que configuraria o termo gratificação-salário como expressão imprópria.
Continua o argumento afirmando que a gratificação originariamente se trata de um prêmio dado ao trabalhador, destacadas suas características de liberalidade e espontaneidade.
Assim, somente se consideraria salário se existissem fatores que impusessem ao empregador o pagamento da recompensa de modo costumeiro, passando a haver habitualidade no pagamento das gratificações. Seriam essas, portanto, gratificações impróprias, e aquelas, gratificações próprias, dada sua espontaneidade. Essas últimas, exatamente por seu caráter espontâneo, não teriam natureza salarial.
No que tange às gratificações impróprias, Sá Filho, ainda amparado pela lição de Catharino, destaca três elementos que devem ser analisados para que se possa considerá-las como verba de natureza salarial ou não.
O primeiro dos elementos seria a origem, remota ou próxima, da gratificação, na prestação de trabalho. Por suas características particulares, podem não ter nexo causal flagrante e direto com o trabalho desempenhado, mas o autor citado afirma ser evidente que se inexistisse o contrato de trabalho entre empregador e empregado, as gratificações também não existiriam. É exatamente por isso que se presume que a gratificação não é doação pura, mas, ainda assim, não justifica a caracterização dela como contraprestação de trabalho.
O segundo elemento consiste na apuração da habitualidade do pagamento das gratificações. Sobre isso, cabe discordar do entendimento do autor citado. Isso porque a Súmula 207 do STF trata da integração ao salário por parte de verbas consideradas tacitamente convencionadas, a exemplo dos bichos, que sequer precisam estar presentes no contrato de trabalho do atleta, especialmente no Brasil, para que seu pagamento seja prática comum na modalidade futebolística.35 Contudo, isso difere da habitualidade, que seria
35 Súmula 207: As gratificações habituais, inclusive a de Natal, consideram-se tacitamente convencionadas,