2020 | Antimicrobianos
Antimicrobianos, fluoroquinolonas e resistência bacteriana:
revisão de literatura
Introdução
Os antimicrobianos são usualmente empregados para prevenir e controlar as infecções bacterianas de cães e gatos. Porém, corriqueiramente ocorrem, na rotina clínica, situações nas quais há múltiplas resistências aos antibió- ticos disponíveis.
Assim sendo, a cada dia que passa, novas substâncias destinadas à esta finalidade terapêutica são pesquisadas e descobertas, mas há um consenso quando se preco- niza o emprego adequado da antibioticoterapia, para fins de minimizar o risco de resistência aos antimicrobianos ora usuais. Nesse sentido, é sempre aconselhável utilizar o fármaco de uma maneira apropriada para, assim, evi- tar reações indesejáveis e, particularmente, a seleção de bactérias multirresistentes.
O termo antibiótico (do grego anti = contra e bio = vida) foi introduzido por Selman Abraham Waksman, para definir substâncias químicas produzidas por microorganismos que tem a capacidade de, em pequenas doses, inibir o crescimento ou eliminar microorganismos causadores de doenças. Posteriormente, houve necessidade de ampliar este conceito, pois se tornou possível obtê-los por sua síntese laboratorial de maneira parcial ou total. Quanto a isso, conceitualmente, tem-se por definição:
• Antibióticos: tratam-se de substâncias químicas (medi- camentos) produzidas por microorganismos, ou os seus equivalentes sintéticos, com capacidade de, em peque- nas doses, inibir o crescimento (bacteriostático) ou eliminar (bactericida) agentes bacterianos;
• Antibióticos biossintéticos: são aqueles obtidos a partir da cultura de microorganismos, na qual se acrescentam substâncias químicas capazes de alterar a estrutura mole- cular do antibiótico que está sendo produzido. Ex: penicili- na V (fenoximetilpenicilina);
• Antibióticos semi-sintéticos: são produzidos em labo- ratório acrescendo-se radicais químicos ao núcleo ativo de um antibiótico isolado de um meio de cultura, no qual cresce um microorganismo. Ex: amoxicilina, ampicilina;
• Sintobióticos: são antibióticos obtidos exclusivamente por síntese laboratorial, porém, a partir do estudo dos pre- cursores obtidos de microorganismos. Ex: cloranfenicol.
Estes medicamentos são desenvolvidos de forma a se- rem os mais tóxicos possíveis contra o agente infectante, ou seja, são concebidos para terem uma toxicidade sele- tiva aos mesmos.
Em qualquer situação, previamente à prescrição de um antimicrobiano, deve-se proceder o diagnóstico clínico, determinar o(s) agente(s) etiológico(s) envolvido(s), além da natureza e gravidade da doença. Ainda, a seleção do antibiótico e o sucesso terapêutico dependem de uma série de fatores relacionados ao próprio fármaco e à pos- sibilidade de utilização do mesmo, os quais devem ser avaliados para que se possa optar por determinado(s) princípio(s) ativo(s). Dentre essas variáveis, incluem-se:
conhecimento da sensibilidade do agente etiológico ao antibiótico, período de carência, forma de constituição e armazenagem, posologia preconizada (dose, frequência), via de administração (grau de absorção do medicamento e eventuais riscos de acordo com a via utilizada), possí- veis reações adversas advindas do emprego do antimi- crobiano (p.ex. alterações locais, relacionadas à via de administração empregada, reações de hipersensibilidade Daniel Miranda - Veterinário Técnico de Campo da BU Pet da Ceva Saúde Animal
Msc., Dr. Claudio Nazaretian Rossi - Gerente Técnico da BU Pet da Ceva Saúde Animal
2
cutânea e/ou anafilaxia), e possibilidade de realização do tratamento (relacionado ao animal e/ou a quem ad- ministra o fármaco).
Ainda, enfatiza-se ser primordial somente utilizar anti- bioticoterapia quando se verificar ser inviável o empre- go de outra forma de tratamento, particularmente nas infecções bacterianas tegumentares (p.ex. foliculites, piodermites, otites), nas quais, sempre que possível, deve-se optar pela utilização de antimicrobiano por via tópica, e somente quando imprescindível, recorrer também à administração sistêmica.
Saliente-se que o uso incorreto (quanto à posologia), excessivo e/ou de forma indiscriminada de antibióticos são os principais fatores que favorecem a emergên- cia de microrganismos resistentes, tanto para animais quanto para humanos. Nesse sentido, é primordial que os médicos veterinários atuem na prática clínica com cautela e considerem a real necessidade da insti- tuição do antimicrobiano na sua rotina, e cuja escolha do fármaco deve estar baseada nas evidências cientí- ficas disponíveis quanto a isso.
Antimicrobianos
Os antimicrobianos são substâncias naturais (antibió- ticos) ou sintéticas (quimioterápicos) que agem sobre microrganismos, sendo os antibióticos os medica- mentos mais utilizados e mais prescritos dessa classe.
Podem ser classificados de várias maneiras, conside- rando seu espectro de ação, o tipo de atividade anti- microbiana, o grupo químico ao qual pertence, e o seu mecanismo de ação. Especificamente quanto à for- ma de atuação, são classificados como bactericidas, promovendo a eliminação da bactéria, ou bacterios- táticos, inibindo o crescimento microbiano. Dentre os principais tipos de antibióticos atualmente disponíveis, as fluoroquinolonas são substâncias químicas antibac- terianas, com grande aplicação tanto em medicina hu- mana como na medicina veterinária.
Fluoroquinolonas
A primeira quinolona introduzida foi o ácido naldíxico, seguindo-se a flumequina e o ácido axonílico, cujas substâncias foram denominadas de quinolonas de primeira geração. Devido a grande eficiência contra a maioria das Enterobacteriaceae, este grupo tornou-se de escolha no combate de infecções urinárias de difícil tratamento, por outro lado, nenhuma destas quino- lonas de primeira geração possui qualquer atividade contra Pseudomonas aeruginosa, anaeróbios e bacté- rias gram-positivas.
Posteriormente, na década de 1980, após várias pes- quisas realizadas a partir destas primeiras quinolonas, originaram-se as denominadas quinolonas de segunda geração, a partir de então denominadas fluoroquinolo- nas, sendo as principais representantes a enrofloxaci- na (exclusivamente de uso veterinário), norfloxacina, e ciprofloxacina, dentre outras. Com a descoberta des- sas substâncias, ampliou-se o espectro de atividades das quinolonas, pois, além de agirem nas Enterobac- teriaceae, também atuam contra a P. aeruginosa.
Já a marbofloxacina (exclusivamente de uso veteriná- rio), levando em consideração sua estrutura química, é incluída pela maioria dos autores como uma fluoro- quinolona de terceira geração, embora com alguma variação entre eles quando se considera sua ativida- de antimicrobiana. Compõem esse grupo a prado- floxacina, moxifloxacina, esparfoxacina, entre outras, ademais de atuarem nos microorganismos sensíveis às quinolonas de segunda geração, são eficientes no combate ao Streptococcus pneumoniae. Existem ainda as fluoroquinolonas de quarta geração, como a trovafloxacina e moxifloxacina, as quais possuem ativi- dade também potente contra anaeróbios. Entretanto, pelos seus efeitos colaterais graves descritos em hu- manos, como necrose hepática e alteração do SNC, estes quimioterápicos são restritos ao uso hospitalar.
Quimicamente, as fluorquinolonas são derivados da molécula básica, 4-quinolona mais um átomo de flúor, cujo núcleo quinolona confere a estas moléculas ativi- dade antibacteriana contra bactérias gram negativas, e o átomo de flúor estende tal atividade para bac- térias gram positivas. Esta combinação levou a um maior espectro de ação, aumentando a capacidade de penetrarem na parede bacteriana. Sua atividade antimicrobiana se relaciona com a inibição das topoi- somerases bacterianas do tipo II, também conhecidas como DNA-girases, que são enzimas que catalisam a direção e a extensão do espiralamento das cadeias de DNA. Assim, embora as quinolonas possuam dife- rentes características de ligação com a enzima, todos estes antibióticos inibem a DNA-girase, impedindo o enrolamento da hélice de DNA numa forma super es- piralada, e portanto, a síntese de DNA e RNA.
No que se refere à farmacocinética das fluoroquinolo- nas, após a administração por via oral (principal via de administração), estes antimicrobianos são rapidamen- te absorvidos por animais monogástricos, como cães e gatos, sendo que o pico máximo de concentração sérica varia conforme a espécie animal. Uma das prin- cipais vantagens do uso das fluoroquinolonas é sua alta capacidade de distribuição tecidual, além da baixa
ligação com as proteínas plasmáticas. As quinolonas sofrem metabolização hepática, através da oxidação microssomal e de conjugação com o ácido glicurôni- co, e são eliminadas principalmente através dos rins por filtração glomerular e secreção tubular ativa, por- tanto, alterações nestes órgãos prolongam a meia vida das quinolonas, e por conseguinte, devem ser criterio- samente usados e com acompanhamento constante em pacientes com doença renal e/ou hepática.
Quanto às possíveis interações medicamentosas, a absorção oral pode ser reduzida pela administração concomitante de antiácidos à base de hidróxido de alumínio (sucralfato) ou de magnésio, bloqueadores dos receptores H2 (ranitidina), resinas trocadoras de íons que contenham alumínio, e por outras drogas que decrescem o peristaltismo ou retardam o tempo de esvaziamento gástrico. Também deve ser evitada a associação de qualquer quinolona com cloranfenicol, rifampicina, tetraciclinas, sulfas+trimetropim, comple- xos vitamínicos ou soluções que contenham ferro, zinco, cálcio e cobre, uma vez que estes compostos reduzem a sua absorção; ainda, as fluoroquinolonas podem exacerbar os efeitos nefrotóxicos da ciclospo- rina usada de forma sistêmica.
Sobre a utilização das fluoroquinolonas, existe grande controvérsia relacionada à administração em pacientes pediátricos devido aos seus possíveis efeitos adversos sobre as cartilagens dos ossos longos. Quanto a isso, embora os mecanismos fisiopatológicos da artropa- tia não estejam bem determinados, acredita-se que a quelação dos íons de magnésio seria induzida pelas quinolonas, o que resultaria em uma mudança da fun-
ção dos receptores de integrina da superfície dos con- drócitos. Além deste, outros mecanismos como injúria oxidativa das quinolonas aos condrócitos, inibição da síntese de DNA, e dano mitocondrial, também são possibilidades para tal consequência. Assim, de acor- do com estudos toxicológicos, as quinolonas são em geral contraindicadas em cães na fase de crescimento rápido (de 2 a 8 meses, até os 18 meses em raças gigantes) devido a relatos de lesões na cartilagem ar- ticular nesta faixa etária; já os gatos são relativamente mais resistentes a esse tipo de dano, nos quais não se indica a administração apenas no período de maior desenvolvimento do animal, qual seja, em felinos com idade inferior a 2 meses.
Também não é recomendada a utilização da quinolona em animais hipersensíveis ao respectivo princípio ativo, os quais podem apresentar distúrbios gastroentéricos (p.ex. vômito, diarreia), manifestações cutâneas (p.ex.
urticária, prurido), dentre outras alterações incomuns.
Dentre as fluoroquinolonas, dois dos principais princí- pios ativos deste grupo amplamente empregados na rotina clínica de cães e gatos são a enrofloxacina e a marbofloxacina.
Enrofloxacina
A enrofloxacina age pela inibição da DNA-girase bac- teriana, inibindo a síntese de DNA e de RNA. Trata-se de fármaco bactericida de amplo espectro de ação, sendo, na maioria das espécies, metabolizada em ci- profloxacina, que se trata de um metabólito desmetil ativo da enrofloxacina e deve contribuir de maneira
4
ativa aos efeitos antibacterianos. No pico de concen- tração, a ciprofloxacina deve contabilizar aproximada- mente 10% a 20% da concentração total em gatos e cães, respectivamente.
Bactérias suscetíveis ao princípio ativo incluem Sta- phylococcus spp., Escherichia coli, Proteus spp., Kle- bsiella spp. e Pasteurella spp.; já Pseudomonas ae- ruginosa é moderadamente sensível, mas geralmente exige concentrações maiores do ativo para ação sa- tisfatória; e ainda, apresenta pouca atividade contra Streptococcus spp. e outras bactérias anaeróbias. Em cães e gatos, o princípio ativo é empregado para atuar contra bactérias suscetíveis particularmente em infec- ções de pele e anexos, trato urinário, gastrointestinal, respiratório, dentre outras.
Quanto aos principais efeitos colaterais relacionados à administração do fármaco, afora aqueles anteriormente mencionados e comuns às quinolonas em geral, há pos- sibilidade de ocorrência de cegueira decorrente da dege- neração retiniana em felinos tratados com enrofloxacina.
Porém, tal predisposição é individual e parece ser dose- -dependente, uma vez que gatos que receberam doses de cerca de 20 mg/kg desenvolveram a alteração, mas não aqueles tratados com doses de até 5 mg/kg.
ENROPET
®Produto bactericida à base de enrofloxacina, sob a forma de comprimido, que deve ser administrado por via oral, misturado ou não à alimentos. Possui em sua formulação um palatabilizante com intuito de tornar o tratamento mais prático e fácil, e cuja administração ocorra da maneira mais natural possível, sem compro- meter a rotina do animal, e não havendo necessidade de jejum prévio e/ou qualquer alteração na sua dieta.
A dosagem terapêutica para cães e gatos é de 5 mg por kg de peso corporal, equivalente a 1 (um) com- primido de Enropet® de 50 mg para cada 10 kg de peso corporal, ou 1 (um) comprimido de Enropet® de 150 mg para cada 30 kg de peso corporal, uma (sid) ou duas vez(es) (bid) ao dia, durante 10 (dez) dias ou mais, como em casos de infecções crônicas ou per- sistentes, sempre a critério do médico veterinário.
Em testes clínicos de campo realizados com o produ- to, não foram observados problemas de locomoção nem lesões nas articulações em nenhum dos animais tratados, independentemente da espécie ou raça, no entanto, seu uso deve ser evitado em animais em fase de crescimento, conforme anteriormente referido.
Enropet® é produto aprovado pelo Ministério da Agri-
Figura 1 - Pet Journal da Ceva - Micobacteriose em felino: relato de caso tratado com Marbopet®.
cultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) desde 1999, apresenta estudos de eficácia e segurança em cães e gatos, além de vasta evidência clínica tendo em vista o longo tempo disponível no mercado nacional.
Marbofloxacina
A marbofloxacina age por meio da inibição da enzima bacteriana DNA-girase, impedindo a síntese de DNA e RNA. É um bactericida com amplo espectro de ação, sendo bactérias em geral sensíveis à marbofloxacina, Staphylococcus spp., Escherichia coli, Proteus, Kle- bsiella e Pasteurella spp.; a bactéria Pseudomonas aeruginosa é moderadamente sensível, portanto, ge- ralmente requer maiores concentrações do ativo para ação satisfatória; apresenta pouca atividade contra Streptococcus spp. e bactérias anaeróbicas.
Trata-se de princípio ativo utilizado no tratamento de infecções bacterianas suscetíveis em diversas espé- cies, incluindo cães e gatos, tais como processos in- fecciosos cutâneos (pele e anexos), de tecidos moles, ósseo, trato urinário, gastrointestinal, respiratório, en- tre outros. Além de ação contra bactérias, há relatos de adequada resposta em infecções causadas por outros microorganismos intracelulares, como aqueles causadores de doenças como micobacterioses (vide o Pet Journal da Ceva, ilustrado na Figura 1), micoplas- moses, e leishmaniose. Existem trabalhos que avalia- ram a eficácia in vitro e in vivo da marbofloxacina con-
tra formas promastigotas de Leishmania infantum, os quais sugerem que este fármaco pode vir a se tornar uma alternativa promissora no tratamento da leishma- niose visceral canina, por ser relativamente barato, de baixa toxicidade e administrado por via oral.
2018 | Micobacteriose em felino
01
Micobacteriose em felino:
relato de caso tratado com Marbopet®
Introdução
As micobacterioses são enfermidades causadas por bactérias pertencentes ao gênero Mycobacterium e com características estruturais intermediárias entre fungo-bactéria. As doenças micobacterianas são incomuns em gatos, e podem acometer, também, os cães e o próprio homem.
Em felinos, as infecções normalmente se iniciam na região inguinal, ou ainda axilar, de flanco, e dorsal, podendo se expandir para o tecido subcutâneo adjacente, em direção à região abdominal, e até alcançar o períneo. Podem ser eliciadas por causas traumáticas, particularmente por brigas entre gatos ou desses com cães (por arranhadura e/
ou mordedura), mas também por perfurações com lanças de portões ou grades, objetos metálicos ou acidentes automobilísticos, ou, no pós-cirúrgico, por contaminação, a partir da área incisada.
As principais manifestações clínicas incluem lesões semelhantes a abscessos, com aspecto de placa ou goma, ou ainda pápulo-nódulo-tumoral, únicas ou múltiplas, podendo ocasionar espessamento do panículo, alopecia local, formação de fístulas e presença de exsudato sero-sanguino-purulento. Além das alterações cutâneas, pode causar pneumonia granulomatosa, ou raramente, até doença sistêmica (apatia, hiporexia, febre, dentre outros sintomas).
O diagnóstico específico da enfermidade está normalmente baseado nos aspectos clínicos que a caracterizam associado à colheita de exsudato e/ou de tecido cutâneo de área acometida (por citologia aspirativa e/ou biópsia) para avaliação citológica e/ou histopatológica com o uso de coloração especial (para bacilos álcool-ácido resistentes - BAAR - microscopia óptica, aumento de 1000x/imersão), ou para realização de cultivo microbiológico em meios específicos para micobactérias.
Msc. Luciano Marra Alves - Médico Veterinário do Hospital Veterinário da Universidade Federal de Goiás, campus Goiânia Msc., Dr. Claudio Nazaretian Rossi - Gerente Técnico da BU Pet da Ceva Saúde Animal
Deve-se levar em consideração quanto aos principais efeitos colaterais relacionados à administração do fár- maco, conforme referidos e comuns às quinolonas em geral, particularmente quanto à necessidade de em- prego com cautela em animais jovens, principalmen- te de cães, devido ao risco de lesão em cartilagens.
Porém, diferentemente da enrofloxacina, não há relato da ocorrência de cegueira decorrente da degeneração retiniana em gatos tratados com o princípio ativo, sen- do, portanto, seguro à espécie quanto a esse risco.
MARBOPET
®Trata-se de produto bactericida à base de marbo- floxacina, sob a forma de comprimido, que deve ser administrado por via oral, misturado ou não à alimen- tos. Possui em sua formulação um palatabilizante com intuito de tornar o tratamento mais prático e fácil, e cuja administração ocorra da maneira mais natural possível, sem comprometer a rotina do animal, e não havendo necessidade de jejum prévio e/ou qualquer alteração na sua dieta.
A dosagem terapêutica para cães é de 2,75 mg/kg de peso corporal de marbofloxacina, a cada 24 horas (sid), que é equivalente a 1 (um) comprimido de Marbopet® de 27,5 mg para cada 10 kg de peso corporal, ou 1 (um) comprimido de Marbopet® de 82,5 mg para cada 30 kg de peso corporal. A duração do tratamento varia de acordo com o tipo, gravidade e evolução do quadro clínico, com o microrganismo envolvido e individualida- de conforme o paciente, uma (sid) ou duas vez(es) (bid) ao dia, podendo variar de 4 a 42 dias ou mais de trata- mento, sempre a critério do médico veterinário.
Marbopet® é aprovada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) desde 2009, apre- senta estudos de eficácia e segurança para tratamen- to de piodermite e afecções bucais em cães (vide o
Figura 2 - Pet Journal da Ceva - Uso do Marbopet® comprimidos.
Pet Journal da Ceva, ilustrado na Figura 2), além de vasta evidência clínica tendo em vista o longo tempo disponível no mercado nacional.
Resistência bacteriana
Resistência antimicrobiana é descrita como uma con- dição na qual um microrganismo é capaz de sobrevi- ver à exposição a um agente antimicrobiano, podendo se multiplicar mesmo na presença de doses conside- radas terapêuticas ou até em concentrações mais al- tas que aquelas preconizadas e normalmente eficazes de determinado princípio ativo, ou ainda a múltiplas classes de antibióticos (bactérias multirresistentes).
Nesse contexto, há uma grande preocupação nas co- munidades médica e veterinária quanto ao uso indiscri- minado de antibióticos, tanto pelos riscos de seleção e desenvolvimento de microrganismos resistentes, quan- to por se tratar de um problema complexo que envolve várias espécies bacterianas, e cujos mecanismos de resistência podem até ser transferidos destas a outras bactérias, bem como entre animais e humanos.
Como exemplo, para se ter uma ideia, só no que tange a utilização das fluoroquinolonas, a ciprofloxacina foi o antibacteriano mais utilizado no mundo neste início do século XXI. Este fato, sem dúvida, propicia a pos- sibilidade do rápido desenvolvimento de resistência bacteriana às quinolonas em geral, o que ocorreria de- vido à modificação no DNA-girase, ou pela alteração de permeabilidade na parede bacteriana. Tal evidência se baseia no fato de que os mutantes já isolados mos- tram resistência cruzada às diferentes quinolonas, par- ticularmente àquelas de primeira geração. Além disso, os microorganismos resistentes às quinolonas podem apresentar reação cruzada e consequente resistência à antimicrobianos de outros grupos, como naqueles das cefalosporinas, cloranfenicol, e tetraciclinas.
Além disso, faz-se importante ressaltar que antes do século XXI, a resistência bacteriana ocorria predomi- nantemente em ambientes hospitalares, porém, par- ticularmente nesta última década, estudos têm de- monstrado um preocupante aumento no isolamento de linhagens de bactérias resistentes, algumas das quais a uma ampla gama de classes de antimicrobia- nos, e cuja resistência bacteriana está associada a di- versos ambientes, inclusive fora do âmbito hospitalar, e com possibilidade de também acometer indivíduos saudáveis. Por óbvio, as cepas multirresistentes ge- ram insucesso no tratamento de diversas infecções, ensejando não somente o uso inadequado dos fár- macos antimicrobianos, mas também propiciando o desenvolvimento de diversas bactérias resistentes,
2018 | Uso do Marbopet® comprimidos para tratamento de piodermite e afecções bucais em cães:
01
USO DO MARBOPET ® COMPRIMIDOS e afecções bucais em cães:
O desenvolvimento de mecanismos de resistência bacteriana a determinados antibióticos é considerado um dos maiores problemas para a saúde pública mundial, sendo uma crescente preocupação na medicina humana e veterinária. A busca por antibióticos eficazes, seguros e com amplo espectro de ação, é uma necessidade constante, no entanto, deve-se ressaltar a importância
para tratamento de piodermite
da escolha cuidadosa em seu emprego, de modo a minimizar o risco de seleção de bactérias resistentes.
Marbopet® comprimidos é um antibiótico oral palatável para cães que contém em sua fórmula a marbofloxacina, que segundo VOULDOUKIS et al. (2006) é um princípio ativo pertencente à terceira geração quanto a estrutura química da molécula.
6
algumas das quais com caráter potencialmente zoo- nótico, o que pode gerar graves consequências tanto aos animais quanto aos humanos.
Diante dessa possibilidade, cães e gatos podem repre- sentar uma fonte potencial para a difusão de resistência antimicrobiana, devido não só ao estreitamento no conví- vio destes com seus tutores, mas também pelo em geral amplo uso de antibióticos na rotina veterinária, o que pode acarretar riscos igualmente àqueles que lidam com tais pets (como médicos veterinários, acadêmicos, enfermeiros, au- xiliares, banhistas, tosadores, tratadores, entre outros), uma vez que a transmissão de bactérias multirresistentes entre animais de estimação e seres humanos já é uma realidade.
Quanto a isso, há estudos que identificaram a presença de resistência bacteriana tanto em tutores quanto em profis- sionais que trabalham com cães e gatos, e cujas cepas isoladas foram identificadas e submetidas à prova de sen- sibilidade às principais classes de antibióticos disponíveis, tendo-se verificado índices de resistência variados aos anti- microbianos testados, o que sugere que o contato frequen- te com animais teria relação com tais resultados.
Como colocado, as taxas de resistência aos antibióticos em animais de companhia se elevaram ao longo dos anos, e esse aumento acompanhou a utilização mais frequente de antimicrobianos no tratamento de infecções nas espé- cies canina e felina, uma vez que comumente os pacien- tes são tratados com antibióticos de amplo espectro, sem a certeza da sua real necessidade, já que exames para a identificação bacteriana, e a sua susceptibilidade antimi- crobiana, muitas vezes não são realizados. Por tal motivo, o uso inadequado dos antimicrobianos no tratamento de infecções bacterianas em cães e gatos é alvo de diver- sas críticas, pois, conforme mencionado, pode colaborar para o desenvolvimento de resistência bacteriana não só em animais, mas também no homem. Tal fato dificulta a seleção empírica dos antibióticos, bem como o monitora- mento do problema, o que é de suma importância para conservação da eficácia de tais fármacos, e cuja respon- sabilidade cabe, no contexto animal, principalmente aos médicos veterinários.
Como exemplo, algumas cepas bacterianas do gênero Sta- phylococcus causadoras de infecções tegumentares, parti- cularmente aquelas da espécie S. pseudintermedius, parte das quais são inclusive sabidamente resistentes a múltiplos antibióticos (sendo consideradas multirresistentes aquelas que apresentarem resistência in vitro aos betalactâmicos e a pelo menos três classes diferentes de antimicrobianos).
Nesses casos, de acordo com as diretrizes mundialmente adotadas pelo Clinical and Laboratory Standards Institute - CLSI, caso a cepa seja resistente à oxacilina, tal informação indica resistência à meticilina, o que denota, independente- mente dos resultados de sensibilidade in vitro (antibiogra- ma), que se trata de bactéria resistente à todos os betalac- tâmicos (carbapenêmicos, penicilínicos, e grande parte dos cefalosporínicos) e suas combinações (p.ex. amoxicilina e ácido clavulânico, ampicilina, entre outros).
Quanto a isso, algumas estratégias podem ser adotadas na tentativa de evitar o desenvolvimento de resistência bacteriana, como: uso racional de antibióticos; utilização de antimicrobianos mediante a realização de antibiogra- ma; prevenção de infecções bacterianas com o uso de vacinas específicas para esse fim; controle e prevenção da disseminação de microorganismos resistentes; e des- coberta e desenvolvimento de novos antibióticos. Além disso, a caracterização dos genes responsáveis pela re- sistência, assim como sua epidemiologia e diversidade, são de grande importância para o entendimento dos fa- tores envolvidos no desenvolvimento da resistência.
Dessa forma, como recomendações para o uso adequa- do de antimicrobianos em animais, a Organização Mundial de Saúde (OMS) sugere que qualquer agente antibiótico nunca deve ser usado como substituto das boas práticas de manejo de animais, e administrado de acordo com os princípios que maximizem o efeito terapêutico e minimi- zem o risco de resistência, os quais incluem: tratamentos efetuados somente com supervisão do veterinário ou em animais sob seus cuidados e com registros escritos de uso; tratamentos baseados em diagnósticos laboratoriais, sempre que seja possível, em cultivos bacterianos e testes de susceptibilidade, mantendo registro destes testes nos estabelecimentos; quando os resultados do cultivo e da susceptibilidade bacteriana são conhecidos, é preferível um antibiótico eficaz de espectro reduzido anteriormente à utilização daqueles de últimas gerações.
Tais práticas, adotadas em conjunto, podem minimizar e até impedir o risco da seleção e desenvolvimento de bactérias resistentes.
Considerações finais
As fluoroquinolonas se caracterizam por apresentarem uma boa atividade antimicrobiana, com excelente com- portamento farmacocinético, atingindo boas concentra- ções nos tecidos alvo. Além disso, são poucos os dados de interação com outros fármacos, permitindo, assim, seu uso concomitante com muitos outros medicamentos sem riscos, aumentando, dessa forma, seu índice de eficácia terapêutica. Estes fármacos representam, sem dúvida, uma excelente ferramenta para o manejo clínico na medi- cina veterinária, no entanto, faz-se primordial que sua uti- lização seja racional, e cuja instituição deve estar baseada no conhecimento do(s) agente(s) infeccioso(s) envolvido(s) por meio do isolamento bacteriano, testes de sensibilida- de antimicrobiana, e prescrito em doses corretas e por tempo adequado, de acordo com o quadro clínico do ani- mal. A prescrição criteriosa de antimicrobianos deve ser alcançada pela educação continuada de veterinários, e com esclarecimentos à população sobre a real indicação destes fármacos.
Referências
ABADI, M.I.M.; KHORSHIDI, A.; KHORSHIDI, A.; PIROOZMAND, A.; MOUSAVI, S.G.A.; DASTEHGOLI, K.;
GHAZIKALAYEH, H.M. Molecular characteristics of nasal carriage methicillin-resistant coagulase negative Staphylococci in school students. Jundishapur Journal of Microbiology, v. 8, n. 6, p. e18591, 2015.
ALMEIDA, L.P.; ROSSI, D.A.; CARRIJO, K.F. Resistência bacteriana em trabalhadores de um hospital veterinário.
Pubvet, v. 4, n. 15, p.1-7, 2010.
ARIAS, M.V.B; CARRILHO, C.M.D.M. Resistência antimicrobiana nos animais e no ser humano. Há motivo para preocupação? Semina: Ciências Agrárias, v. 33, n. 2, p. 775-790, 2012.
Clinical and Laboratory Standards Institute (CLSI). Performance Standards for Antimicrobial Susceptibility Testing. Wayne, PA: Clinical and Laboratory Standards Institute, 26.ed., CLSI supplement M100S, 2016.
COUTO, N.; MONCHIQUE, C.; BELAS, A.; MARQUES, C.; GAMA, L.T.; POMBA, C. Trends and molecular mechanisms of antimicrobial resistance in clinical staphylococci isolated from companion animals over a 16 year period. The Journal of Antimicrobial Chemotherapy, v. 71, n. 6, p. 1479-1487, 2016.
GANDOLFI-DESCRITOPHORIS, P.; REGULA, G.; PETRINI, O.; ZINSSTAG, J.; SCHELLING, E. Prevalence and risk factors for carriage of multi-drug resistant Staphylococci in healthy cats and dogs. Journal of Veterinary Science, v. 14, n. 4, 449-456, 2013.
GÓMEZ-SANZ, E.; CEBALLOS, RUIZ-RIPA, E.; ZARAZAGA, M.; TORRES, C. Clonally diverse methicillin and multidrug resistant coagulase negative Staphylococci are ubiquitous and pose transfer ability between pets and their owners. Frontiers in Microbiology, v. 10, n. 485. p. 1-17, 2019.
GUARDABASSI, L.; SCHWARZ, S.; LLOYD, D.H. Pet animals as reservoirs of antimicrobial-resistant bacteria.
The Journal of Antimicrobial Chemotherapy, v. 54, n. 2, p. 321-332, 2004.
HAN, J. I.; YANG, C. H.; PARK, H.M. Prevalence and risk factors of Staphylococcus spp. carriage among dogs and their owners: a cross-sectional study. Veterinary Journal, v. 21, n. 2, p. 15-21, 2016.
www.ceva.com.br
Ceva Saúde Animal Ltda • SAC 0800 770 0355 • [email protected]
www.adaptil.com.br cevabrasil ceva_brasil cevapetbrasil
HILLIER, A.; LLOYD, D.H.; WEESE, J.S.; BLONDEAU, J.M.; BOOTHE, D.; BREITSCHWERDT, E.; GUARDABASSI, L.; PAPICH, M.G.; RANKIN, S.; TURNIDGE, J.D.; SYKES, J.E. Guidelines for the diagnosis and antimicrobial therapy of canine superficial bacterial folliculitis (Antimicrobial Guidelines Working Group of the International Society for Companion Animal Infectious Diseases). Veterinary Research, v. 25, n. 3, p. 163-e43, 2014.
ISHII, J.B.; FREITAS, J.C.; ARIAS, M.V.B. Resistência de bactérias isoladas de cães e gatos no Hospital Veterinário da Universidade Estadual de Londrina (2008-2009). Pesquisa Veterinária Brasileira, v. 31, n. 6, p.533-537, 2011.
LARSEN, R.F.; BOYSEN, L.; JESSEN, L.R.; GUARDABASSI, L.; DAMBORG, P. Diversity of Staphylococcus pseudintermedius in carriage sites and skin lesions of dogs with superficial bacterial folliculitis: potential implications for diagnostic testing and therapy. Veterinary Dermatology, v. 29, n. 4, p. 291-295, 2018.
PINEDA, C.; AGUILERA-TEJERO, E.; MORALES, M.C.; BELINCHON-LORENZO, S.; GOMEZ-NIETO, L.C.;
GARCIA, P.; MARTINEZ-MORENO, J.M.; RODRIGUEZ-ORTIZ, M.E.; LOPEZ, I. Treatment of canine leishmaniasis with marbofloxacin in dogs with renal disease. Plos One, v. 12, n. 10, p. e0185981, 2017.
RODRIGUES, A.C.; BELAS, A.; MARQUES, C.; CRUZ, L.; GAMA, L.T.; POMBA, C. Risk Factors for nasal colonization by methicillin-resistant staphylococci in healthy humans in professional daily contact with companion animals in Portugal. Microbial Drug Resistance, v. 24, n. 4, p. 434-446, 2018.
ROUGIER, S.; VOULDOUKIS, I.; FOURNEL, S.; PÉRÈS, S.; WOEHRLÉ, F. Efficacy of different treatment regimens of marbofloxacin in canine visceral leishmaniosis: A pilot study. Veterinary Parasitology, v. 153, n. 3-4, p. 244-254, 2008.
SÁEZ-LLORENS, X.; CASTREJÓN DE WONG, M.M.; CASTAÑO, E.; DE SUMAN, O.; DE MORÖ, D.; DE ATENCIO, I. Impact of an antibiotic restriction policy on hospital expenditures and bacterial susceptibilities: a lesson from a pediatric institution in a developing country. Pediatric Infectious Diseases, v. 19, n. 3, p. 200-206, 2000.
SENG, R.; KITTI, T.; THUMMEEPAK, R.; KONGTHAI, P.; LEUNGTONGKAM, U.; WANNALERDSAKUN, S.; et al.
Biofilm formation of methicillin-resistant coagulase negative staphylococci (MR-CoNS) isolated from community and hospital environments. PLoS One, v. 12, n. 8, p. e0184172, 2017.
SILVA, J.M.B.; HOLLENBACH, C.B. Artigo de Revisão: Fluoroquinolonas x Resistência Bacteriana na Medicina Veterinária. Arquivos do Instituto Biológico, v. 77, n. 2, p. 363-369, 2010.
VOULDOUKIS, I.; ROUGIER, S.; DUGAS, B.; PINO, P.; MAZIER, D.; WOEHRLÉ, F. Canine visceral leishmaniasis:
Comparison of in vitro leishmanicidal activity of marbofloxacin, meglumine antimoniate and sodium stibogluconate.
Veterinary Parasitology, v. 135, n. 2, p. 137-146, 2006.
WIDERSTRÖM, M.; WISTRÖM, J.; EDEBRO, H.; MARKLUND, E.; BACKMAN, M.; LINDQVIST, P.; MONSEN, T.
Colonization of patients, healthcare workers, and the environment with healthcare-associated Staphylococcus epidermidis genotypes in an intensive care unit: a prospective observational cohort study. BMC Infect, v. 16, n.
743, p. 1-8, 2017.
WIEBE, V.; PHARM, D.; HAMILTON, D. fluoroquinolone induced retinal degeneration in cats. Journal of the American Medical Association, v. 221, p. 1568-1571, 2002.
YAMADA, M.; YOSHIDA, J.; HATOU, S.; YOSHIDA, T.; MINAGAWA, Y. Mutations in the quinolone resistance determining region in Staphylococcus epidermidis recovered from conjunctiva and their association with susceptibility to various fluoroquinolones. British Journal of Ophthalmology, v. 92, n. 6, p. 848-851, 2008.