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LEONARDO HENRIQUE LOPES SOCZEK

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Academic year: 2021

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LEONARDO HENRIQUE LOPES SOCZEK

PRÁTICAS CRIMINALIZADAS EM CASAS COMERCIAIS (COMARCA DE MALLET/PR: 1950-1978)

IRATI 2018

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LEONARDO HENRIQUE LOPES SOCZEK

PRÁTICAS CRIMINALIZADAS EM CASAS COMERCIAIS (COMARCA DE MALLET/PR: 1950-1978)

Dissertação apresentada como requisito parcial à obtenção do grau de Mestre em História, Curso de Pós-Graduação em História, Área de Concentração “História e Regiões”, da Universidade Estadual do Centro Oeste - UNICENTRO-PR.

Orientador: Prof. Dr. Hélio Sochodolak.

IRATI 2018

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SOCZEK, Leonardo Henrique Lopes.

S681p Práticas criminalizadas em casas comerciais (Comarca de Mallet/PR: 1950-1978) / Leonardo Henrique Lopes Soczek. – Irati, PR : [s.n], 2018.

193f.

Orientador: Prof. Dr. Hélio Sochodolak

Dissertação (Mestrado) - Programa de Pós-Graduação em História. Área de Concentração: História e Regiões. Universidade Estadual do Centro-Oeste, PR. 1. Crimes. 2. Violência. 3. Comércio. I. Sochodolak, Hélio. III. UNICENTRO. IV. Título.

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AGRADECIMENTOS

Ao meu orientador, Professor Dr. Hélio Sochodolak, que com competência e sensibilidade me guiou pelos caminhos da pesquisa. Além de orientador, um querido amigo que compartilhou diferentes conversas sobre temas diversos, sempre com humor. Sua orientação proporcionou um ambiente acadêmico acolhedor durante o desenvolvimento deste trabalho.

Às professoras, Dra. Roseli Terezinha Boschilia e Dra. Rosemeri Moreira, que muito contribuíram ao fazerem parte da banca de qualificação e de defesa deste trabalho. Com grande aptidão, realizaram uma leitura crítica, apontando, principalmente, sugestões e outras informações relevantes ao trabalho.

Aos professores da graduação e do programa de pós-graduação em História da Universidade Estadual do Centro-Oeste/UNICENTRO, aos quais devo toda a minha formação desde a graduação até a conclusão deste trabalho. Agradeço especialmente aos docentes Vania Vaz e Valter Martins pelo aprendizado e pelas valiosas informações compartilhadas durante o percurso do mestrado.

Aos demais funcionários do PPGH, especialmente a Cibele, pelo atencioso auxílio e prestação de serviços relacionados à secretaria do PPGH.

Ao Centro de Documentação e Memória, campus de Irati-PR (CEDOC/I), em especial a Márcia Doré e aos estagiários pelo eficiente atendimento, principalmente no percurso inicial de pesquisa e leitura das fontes.

Aos meus colegas e amigos, especialmente aos colaboradores do NUHVI (Núcleo de Pesquisa em História da Violência), grupo em que se desenvolvem discussões pertinentes e profundas acerca das diferentes concepções sociais e culturais da violência. Sinto-me honrado em participar desse grupo que tende a ser valorizado e cresce cada vez mais. Agradeço, ainda, ao Lucas e ao Filipe, que além de ótimos pesquisadores, tornaram-se grandes amigos nessa caminhada. Agradeço, também, aos outros colegas e amigos (em ordem alfabética): Anderson, Bruno, Camila, Jaqueline, Júlio, Edison, Elói, Fernando, Leandro, Silvéria e demais colegas que compartilharam comigo eventos e com os quais estabeleci importantes laços de amizades. Aos meus familiares; primeiramente, à minha mãe, Elaine, e à minha avó, Eva, pela educação e pelo apoio incondicional durante essa e outras etapas da minha vida. Agradeço, também, ao meu avô, Dirceu, ao meu tio, minhas tias e primo(as), que me apoiaram de diferentes modos, seja afetivamente e/ou financeiramente durante essa etapa de minha vida acadêmica.

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Um agradecimento mais do que especial à minha melhor amiga, companheira e namorada, Karina Gomes Messias. A compreensão pelo tempo dedicado as atividades da pesquisa e do mestrado, além de todo incentivo ocorrido pelas conversas diárias e pela participação em vários momentos de minha vida (até os mais difíceis), colaboraram em todo esse percurso, sem o qual, dificilmente o teria concluído.

Aos meus amigos e amigas, principalmente, (em ordem alfabética) André, Brayan, Eduardo, Luiz Ramon, Mauricio e Taylor, que, embora não participem especificamente desse meio acadêmico, sempre acreditaram em mim, antes e durante a pesquisa.

À CAPES pela bolsa concedia, que possibilitou a minha dedicação integral à pesquisa e ao mestrado após o primeiro ano do curso.

Por fim, aos que não mencionei, mas que me ajudaram que de alguma forma com a minha educação, formação e, principalmente, no desenvolvimento deste trabalho, que não compete apenas a mim. Um grande e forte abraço a todos(as).

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RESUMO

Esta dissertação tem por objetivo analisar as práticas criminalizadas em casas comerciais registradas nos processos criminais da Comarca de Mallet/PR, constituída pelos municípios de Mallet e Paulo Frontin e seus respectivos distritos, entre 1950 e 1978. Contendo documentos inquéritos e processos criminais desde 1913, o acervo disponibilizado pelo CEDOC/I demonstra a predominância de casos envolvendo casas comerciais a partir da década de 1950, e uma queda significativa após o final da década de 1970. Por meio deste recorte temporal foi possível analisar o maior número de casos e interpretar os significados dessas práticas criminalizadas atribuídas pelo Poder Judiciário local e nas narrativas elaboradas por parte dos acusados, vítimas e testemunhas dos casos. Para tanto, nos fundamentamos em noções acerca dos conceitos certeaunianos de lugar, espaços praticados, estratégias e táticas e nos conceitos foucaultianos de poder, discurso, verdade, e os processos de subjetivação e objetivação. Tais noções conceituais possibilitam uma abordagem interpretativa dos dados quantitativos e qualitativos das fontes. Situada na região sudeste do Estado do Paraná, Mallet foi marcada pela imigração eslava e se desenvolveu em uma grande área rural e num restrito centro urbano. Em meio ao predominante desenvolvimento agrícola, a formação de casas comerciais caracterizadas como armazéns, bares, botequins e afins, representaram os principais espaços privados comerciais e de sociabilidade no início e meados do século XX. As práticas do espaço eram diversas, de forma que algumas foram criminalizadas e processadas pelo Poder Judiciário local que absolveu a maioria dos sujeitos acusados. Os casos também demonstraram a existência de outras práticas que constituíram outros espaços, como os de masculinidades, de virilidades, de defesa da honra e da embriaguez que, juntamente com as diferentes práticas de violência, compunham a maioria das práticas nas casas comerciais dos anos 1950 até o final da década de 1970.

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ABSTRACT

This dissertation aims to analyze the practices criminalized in commercial houses registered in the criminal cases of the Comarca de Mallet / PR, constituted by the municipalities of Mallet and Paulo Frontin and their respective districts, between 1950 and 1978. Containing documents investigations and criminal cases since 1913, the collection provided by CEDOC / I demonstrates the predominance of cases involving commercial houses from the 1950s, and a significant drop after the end of the 1970s. Through this time cut, it was possible to analyze the largest number of cases and interpret the meanings of these criminalized practices attributed by the local judiciary and in the narratives elaborated by the accused, victims and witnesses of the cases. In order to do so, we base ourselves on notions about the Certeunian concepts of place, practiced spaces, strategies and tactics, and on the Foucaultian concepts of power, discourse, truth, and the processes of subjectivation and objectification. These conceptual notions make possible an interpretative approach to the quantitative and qualitative data of the sources. Located in the southeastern region of the State of Paraná, Mallet was marked by Slavic immigration and developed in a large rural area and a restricted urban center. In the midst of the prevailing agricultural development, the formation of commercial houses characterized as warehouses, bars, taverns and the like, represented the main private commercial and sociability spaces in the beginning and middle of the XX century. The practices of the space were diverse, so that some were criminalized and prosecuted by the local judiciary that acquitted the majority of the accused. The cases also demonstrated the existence of other practices that constituted other spaces, such as masculinities, virilities, honor defense and drunkenness that, together with the different practices of violence, made up the majority of practices in the commercial houses of the 1950s until the late 1970s.

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LISTA DE ABREVIATURAS

CEDOC/I - Centro de Documentação e Memória da Universidade Estadual do Centro-Oeste,

campus de Irati-Pr.

CPB - Código Penal Brasileiro – Decreto Lei nº 2.848 de 07 de dezembro de 1940. IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

MPPR – Ministério Público do Estado do Paraná.

LCP - Lei das Contravenções Penais – Decreto Lei nº 3.688 de 03 de outubro de 1941. TJPR – Tribunal de Justiça do Estado do Paraná.

LISTA DE TABELAS

Tabela 1 – Relação de casas comerciais por número de processos, localização e

temporalidade (Comarca de Mallet/PR: 1950-1979) ... 189

LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1 – Processos criminais separados por local do crime e tempo (Comarca de Mallet/PR: 1950-1978) ... 13

Gráfico 2 – Tipologias de crimes ocorridos em casas comerciais (Comarca de Mallet/PR: 1950-1978) ... 75

Gráfico 3 – Caracterização das vítimas (Casas Comerciais: 1950-1978) ... 101

Gráfico 4 – Caracterização das testemunhas (Casas Comerciais: 1950-1978) ... 102

Gráfico 5 – Caracterização dos acusados (Casas Comerciais: 1950-1978) ... 103

Gráfico 6 - Crimes registrados em casas comerciais por década (Comarca de Mallet/PR: 1950-1978) ... 167

Gráfico 7 - Tipologia de crimes em casas comerciais por localidade (Mallet/PR:1950-1978) ...168

Gráfico 8 – Processos criminais separados por local e tempo (Comarca de Mallet/PR: 1913-1978) ... 184

Gráfico 9 - Processos criminais separados por tipologia e tempo (Comarca de Mallet/PR: 1913-1999) ... 185

Gráfico 10 – Tipologias de crimes (Casas Comerciais: 1950-1959) ... 186

Gráfico 11 – Tipologias de crimes (Casas Comerciais: 1960-1969) ... 186

Gráfico 12 – Tipologias de crimes (Casas Comerciais: 1970-1978) ... 197

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 10

1 EM BUSCA DO “LUGAR ESTRATÉGICO”: A HISTÓRIA OFICIAL, OS SUJEITOS E AS CASAS COMERCIAIS MALLETENSES ... 32

1.1 Trabalho, civilidade, imigração e religiosidade: os discursos oficiais e a construção do malletense ... 38

1.2 A regulamentação das casas comerciais ... 46

1.2.1 A taxação de impostos e a denominação de casas comerciais ... 49

1.2.2 A regulamentação sobre o funcionamento ... 53

2 A CRIMINALIZAÇÃO DAS PRÁTICAS E A PRODUÇÃO DE SUJEITOS ... 61

2.1 As abordagens policiais e as denúncias ... 64

2.2 As práticas criminalizadas ... 72

2.2.1 Os crimes contra a vida e a pessoa ... 76

2.2.2 Os crimes contra a honra e a liberdade individual: a calúnia, as ameaças, as difamações e o constrangimento ilegal ... 83

2.2.3 Outras práticas criminalizadas: o desacato, as medidas de segurança, os furtos e as demais contravenções... 87

2.3 A produção de sujeitos ... 92

2.3.1 Vítimas, testemunhas e sujeitos criminalizados ... 98

3 AS FORMAS DE VIOLÊNCIA, OS ESPAÇOS DE MASCULINIDADES E A PARTICIPAÇÃO DE MULHERES ... 108

3.1 As expressões viris e as formas de violência ... 114

3.2 “Em defesa da honra”: masculinidades e a participação de mulheres ... 125

4 A EMBRIAGUEZ ... 138

4.1 As práticas de embriaguez enquanto atenuantes ... 144

4.2 Os ébrios habituais e as práticas de embriaguez agravantes ... 151

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 164

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FONTES PRIMÁRIAS ... 180

FONTES SECUNDÁRIAS ... 181

PERIÓDICOS CONSULTADOS ... 183

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INTRODUÇÃO

Na noite de 21 de janeiro de 1950, os policiais militares Valdomiro1 e Darcy2 trabalhavam na segurança de um baile na localidade de Paulo Frontin, pertencente ao município de Mallet. Aproximadamente às 22h00, um menino correu em direção aos policiais pedindo ajuda. Conforme eles, o menino dizia que “estava ocorrendo uma confusão no bar de sua mãe, estavam brigando e quebrando as coisas”. A fim de atenderem ao pedido do menino, pediram-lhe que ele fosse até a casa de Valdemar3 e pedisse para que os ajudassem. Após a solicitação, os policiais militares se dirigiram até o bar da mãe do menino, uma casa comercial denominada de “Bar da Viúva”4. Chegando ao local, avistaram Estanislau5 “com uma tranca na mão”, ameaçando usá-la para agredir João6.

Momentos antes, Estanislau e João conversavam e “tomavam uns tragos” no “Bar da Viúva”, que, conforme seus depoimentos, desconheciam o nome da proprietária. Em determinando momento, Estanislau pediu que João “batesse o copo na mesa”, mas João recusou dizendo que “não faria aquilo pois havia comprado a pinga7”, motivo pelo qual não queria desperdiçá-la. Estanislau, irritado, iniciou uma discussão sobre uma dívida passada de João que, segundo ele, era de doze cruzeiros. João recusou pagar, pois alegava que não lhe devia nada. Estanislau então disse que se não o pagasse “iria brigar, pois brigava com qualquer um e de qualquer raça”. As ofensas irritaram João e após mais alguns insultos, ambos se atracaram em uma luta corporal, na qual Estanislau, armado de uma tranca de madeira, ameaçava João, enquanto Antonio8 tentava separá-los.

Quando os militares Valdomiro e Darcy avistaram a cena, deram “voz de prisão” aos contendores, inclusive, Antonio. Porém, durante a abordagem, ao revistarem Antonio, este disse

1 30 anos de idade, brasileiro, casado, militar, natural de Florianópolis-SC, residente em Paulo Frontin. Optamos

pela utilização dos primeiros nomes ou identidades fictícias aos sujeitos a fim de que não possam ser identificados devido à proximidade temporal dos acontecimentos.

2 23 anos de idade, brasileiro, casado, militar, natural de Curitiba-PR, residente em Paulo Frontin. 3 38 anos de idade, brasileiro, casado, militar, natural de Curitiba-PR, residente em Paulo Frontin.

4 CEDOC/I: BR.PRUNICENTRO. PB003.1/343.21. Mantivemos a codificação utilizada pelo Centro de

Documentação e Memória da Unicentro, campus de Irati/PR (CEDOC/I).

5 35 anos de idade, brasileiro, casado, lavrador, natural e residente em Paulo Frontin. 6 29 anos de idade, brasileiro, solteiro, lavrador, natural e residente em Paulo Frontin.

7 Consideramos pinga uma denominação para cachaça (aguardente de cana) servida e bebida em pequenas

quantidades. Ver: MAGNO, Dicionário brasileiro da Língua portuguesa / coordenação Raul Maia Jr., Nelson Pastor. – São Paulo: Difusão Cultural do Livro, 1997, p. 697. Conforme João Azevedo Fernandes, por meio das leituras da obra Prelúdio da Cachaça de Câmara Cascudo, tal bebida teve um papel importante no período colonial brasileiro, sendo denominado como o “perturbador alambique”, pois foi trazida pelos europeus e era desconhecida pelos indígenas, que produziam apenas as cervejas, garapas, na base de grutas e raízes. FERNANDES, João Azevedo. Selvagens Bebedeiras: Álcool e Contatos Culturais no Brasil Colonial (Séculos XVI-XVII). São Paulo: Alameda, 2011. v. 1, p. 41.

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que não “colocassem as mãos nele pois não tinham o direito”. Após essas palavras, outra luta corporal ocorreu no interior do bar, dessa vez, entre os contendores, Antonio e os dois militares. Além da bagunça e de mesas e tacos quebrados, Estanislau conseguiu fugir dos militares, gritando “que não amanheceria nenhum policial vivo no outro dia”, mas, ao sair do estabelecimento, foi surpreendido pelo soldado Valdemar que, estando a caminho para ajudar seus “companheiros de farda”, abordou e prendeu Estanislau.

Esse relato foi elaborado a partir da leitura de um processo criminal da Comarca de Mallet, do ano de 1950, correspondente à acusação de um crime de lesão corporal9. Por meio dela, tivemos contato com uma história que, possivelmente, não seria escrita nos livros ou, muito menos, relatada pelos documentos históricos oficiais de Mallet. Apesar disso, elas foram registradas e, ao serem lidas, possibilitaram o conhecimento de um “passado renegado”, ou até mesmo ignorado, sobre determinados sujeitos, similar à abordagem de Foucault em A Vida dos

Homens Infames. Foucault, em 1977, escolheu as fontes criminais que tratavam de pessoas

comuns, “destinadas a não deixar rastro”, mas que teriam adquirido notoriedade apenas nesses documentos, caracterizados por buscarem reprimir as atitudes dessas pessoas. A luz que teria trazido esses personagens à tona seria o encontro com o poder, pois “sem esse choque, é indubitável que nenhuma palavra teria ficado para lembrar o seu fugidio trajeto”.10

Além dos sujeitos descritos e da história narrada, esse processo criminal registrou as declarações de outras pessoas, como os frequentadores do bar e a proprietária que, embora os denunciados afirmaram não saber seu nome, se chamava Etelvina11, que havia há menos de dois anos herdado o estabelecimento comercial de seu antigo marido. Ademais, as informações declaradas possibilitaram a identificação de outros elementos históricos da localidade, como a realização de um baile no ambiente do bar e a forma como os fregueses se comportavam no local. Apesar de não conhecerem o nome da proprietária do bar, eles o frequentaram, consumiram suas mercadorias e serviços e, além disso, utilizaram o local para conversar e “acertar dívidas passadas”, algo que poderia ser feito não necessariamente nesse local, mas em suas residências, nas ruas ou em outros locais.

9 CEDOC/I: BR.PRUNICENTRO. PB003.1/343.21.

10 "La vie des hommes infâmes", in Les Cahiers du Chemin, n.° 29, 15 janvier 1977, pp. 12-29. Disponível em:

FOUCAULT, Michel. O que é um autor? 3 ed. Lisboa: Passagens, 1992, p. 97; e FOUCAULT, Michel. A vida dos homens infames. Estratégia, poder-saber. Ditos e escritos – vol IV. Rio de Janeiro: Forense, 2003. p. 203-222.

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Assim como esse caso, houve outros registros de ocorrências criminosas em locais semelhantes ao bar de Etelvina, denominados de casas comerciais nos inquéritos policiais e processos criminais pertencentes à Comarca de Mallet.

Localizada na região sudeste do Estado do Paraná12, a Comarca comporta como sede o município de Mallet13, que teve sua história marcada pela imigração eslava e se desenvolveu em uma grande área rural e num restrito centro urbano. Segundo o histórico da formação administrativa dessa localidade, apresentado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Mallet foi elevada à categoria de município em 1912, desmembrado de São Mateus com a Lei estadual nº1189. No quadro territorial composto em 1950, o município é constituído pela sede, Mallet, e três distritos: Dorizon, Rio Claro do Sul e Paulo Frontin. Este último tornou-se município em 1951, com a lei estadual nº790, desmembrando-tornou-se de Mallet, porém, continuou parte integrante de sua Comarca.14 Portanto, ao definirmos nosso recorte espacial pela Comarca de Mallet-PR, abrangemos os casos ocorridos na cidade de Mallet, seus distritos, e o município de Paulo Frontin, como no caso apresentado acima.

Conforme a realização de uma pesquisa quantitativa no acervo do Centro de Documentação e Memória da Universidade Estadual do Centro-Oeste, campus de Irati-PR (CEDOC/I), o qual aloca 89815 documentos judiciais (inquéritos policiais e processos

12 Situada a aproximadamente 315 quilômetros da capital Curitiba, a comarca faz fronteira com outros municípios

como Rio Azul, São Mateus do Sul e União da Vitória, além de localizar-se próxima a Rebouças, Irati, Inácio Martins, Cruz Machado e São João do Triunfo.

13 No que tange à sede da comarca, Mallet, o caderno estatístico do município, datado de outubro de 2017, declara

que atualmente a população estimada de Mallet é de 13.738 habitantes e sua densidade demográfica é de 18,96 hab/km². Além disso, dentre as atividades econômicas da população, há um total de 6.594 de profissionais, sendo que a agricultura representa a maior parte, cerca de 3.232; seguido pelas pessoas que trabalham na indústria 853, e do comércio 592. No que tange ao comércio, em 2015, o número de estabelecimentos e empregos demonstra que, dentre 322 estabelecimentos comerciais, o maior número é de 122 e se referem ao comércio local, precisamente, 116 ao comércio varejista e 06 ao atacadista. Fonte: Caderno Estatístico Município de Mallet. Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (2017). Disponível em: http://www.ipardes.gov.br/cadernos/MontaCadPdf1.php?Municipio=84570. Acesso em 10 de outubro de 2017.

14 IBGE. MALLET PARANÁ Monografia - 247 Ano: 1962. Disponível em:

https://cidades.ibge.gov.br/painel/historico.php?codmun=411390.

15 A título de comparação, conforme o relatório estatístico dos crimes e contravenções do ano de 2016 no Paraná,

houveram 234.205 registros de crimes contra a pessoa e 346.286 contra o patrimônio no Paraná, destes, 7.384 ocorreram na subdivisão policial de União da Vitória, o qual Mallet faz parte, sendo que 3,933 eram contra a pessoa e 3,451 contra o patrimônio. A subdivisão policial de União da Vitória faz parte das regiões do Estado do Paraná com menores índices de criminalidade, chegando a aproximadamente 1,6% dos crimes contra a pessoa e 0,9% dos crimes contra o patrimônio ocorridos em todo o estado. Se pensamos em uma temporalidade passada a temporalidade desta pesquisa (1940), de um total de 1.550 crimes, mais da metade dos casos são de crimes contra a vida e cerca de 465 crimes contra a propriedade. Nessa estatística, os índices da Comarca de Mallet correspondem apenas 18 crimes, cerca de 1,1% do total e cerca de 2% dos registros ocorridos em Curitiba. Em vista que os dados indicam que a comarca de Mallet possuía (e possui) um dos menores índices de criminalidade do Estado, não pretendemos explorar a relatividade de seus crimes em relação à outras localidades quantitativamente, mas, ao contrário, estabelecer uma microanálise histórica em relação aos seus domínios territoriais e a relação desses registros com outros aspectos de sua sociedade. Fonte: Estatística criminal da segurança pública do estado do

Paraná (2016). Disponível em:

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criminais) da Comarca de Mallet, desde o ano de 1913 a 1999, constatamos que o número de documentos relacionados a crimes registrados ocorridos em casas comerciais foi predominante em relação a outros locais nas décadas de 1950, 1960 e 1970, como pode ser observado no gráfico a seguir:

Gráfico 1 – Processos criminais separados por local do crime e tempo (Comarca de Mallet: 1950-1979)

Fonte: Elaborado pelo autor conforme pesquisa no CEDOC/I.

Apesar dessa temporalidade não representar todos os casos ocorridos em casas comerciais durante todo o período abrangido pelo acervo (1913-1999), os 62 registros superam no quesito espacial casos que aconteceram em residências, bailes, festas, instituições e outros locais a partir da década de 1950 até o final da década de 197016. A partir da década de 1980 há

Relatório – 1940-1941. Arquivo Público do Estado do Paraná. Disponível em: http://www.arquivopublico.pr.gov.br/arquivos/File/RelatoriosGoverno/Ano1940-1941MFN827.pdf.

16 O último registro de “crime” em uma casa comercial na década de 1970 ocorreu em 1978 o que delimitou o

recorte temporal. 20 28 14 18 26 13 17 24 11 15 13 10 9 6 3 4 0 1 17 15 12 18 18 12 19 17 11 11 7 3 0 5 10 15 20 25 30 1950-1959 1960-1969 1970-1979

Locais/crimes (Comarca de Mallet/PR: 1950-1979)

Casas Comerciais.

Propriedade privada: fábricas, moinhos, engenhos, fazendas e outros estabelecimentos. Residências.

Bailes e Festas em clubes e igrejas. Estação Ferroviária e ferrovia.

Instalações e eventos temporários: corridas de cavalos, jogos de futebol e parques de diversões. Instituições públicas: prefeitura, delegacia, escola, etc.

Vias públicas. Estradas e rodovias.

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uma queda significativa dos registros relativos as casas comerciais, promovendo a predominância quantitativa em outros locais.17

Essa constatação quantitativa caracterizou o marco inicial para a realização desta pesquisa, que consiste na análise das práticas criminalizadas ocorridas em casas comerciais perceptíveis nos inquéritos e processos criminais da década de 1950 até o final da década de 1970.

Utilizamos uma abordagem quantitativa por tratar de documentos não apenas em uma perspectiva singular, mas sim, como partes constituintes de uma grande cadeia documental. O objetivo, a princípio, foi também de perceber algumas permanências, oscilações e variações temporais nesse conjunto documental. Como mencionado por José D’ Assunção Barros, a história quantitativa é uma construção, da mesma maneira que o são os fatos da história narrativa – “Há sempre um problema, uma visão de mundo, por vezes um interesse que recorta e reconstrói o fato, seja ele um fato da história política, ou um fato quantitativo”. Uma série documental pode “chamar atenção para determinado aspecto, ou mesmo produzir determinadas expectativas”. Buscamos uma análise dialógica dos inquéritos e processos criminais, enfocando mais propriamente nas características seriais da fonte, ou seja, a formalização e os padrões utilizados pelo poder judiciário na produção dos documentos, como a tipologia dos crimes, mas também, alguns aspectos perceptíveis nas narrativas dos sujeitos. 18

Porém, essa problemática quantitativa foi apenas inicial e conforme o andamento da pesquisa foram necessárias outras abordagens. A princípio, buscávamos identificar os aspectos que implicaram a caracterização desses dados estatísticos, como uma possível “sociabilidade violenta” que ocorria nas casas comerciais e que, portanto, provocou o aumento e a predominância dos registros na temporalidade mencionada. Entretanto, conforme o andamento da pesquisa, outras questões foram levantadas de forma que passamos a questionar a produção de significados nesses registros pelo Poder Judiciário local ao invés de explicá-los. Mais importante do que isso, foi elaborar uma perspectiva interpretativa sobre a história das casas

17 O gráfico completo (1913-1999) está disponível nos anexos. Apesar desses índices, ao consultarmos os anuários

policiais da década de 1950, constatamos que dentre os 5.398 crimes contabilizados no Estado do Paraná, apenas foram incluídos 48 na comarca de Mallet, correspondendo a 0,88% do total. Ao comparamos com o número de processos criminais referentes à década de 1950 disponíveis no CEDOC/I (148), os dados contabilizados nos anuários correspondem há apenas aproximadamente 32%. Essa diferença estatística possivelmente se deve à concepção de “crime” adotado pelo poder judiciário, o qual discorremos no decorrer desta dissertação. Estado do Paraná. Anuário da chefatura de polícia. 1950, 1951, 1952, 1953 e 1955. Disponíveis em: http://www.arquivopublico.pr.gov.br/.

18 BARROS, José D' Assunção. A história serial e a história quantitativa no movimento dos Annales. História

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comerciais pertencentes à Comarca de Mallet e seus significados para os sujeitos que as frequentavam nessa temporalidade.

Inicialmente, nossa questão direcionadora ocorreu por meio da problematização do que se entende pela história de Mallet e sobre seus sujeitos. As histórias oficiais das localidades pertencentes à Comarca de Mallet enfatizam aspectos de colonização, imigração, e, principalmente, o progresso econômico advindo da instalação da ferrovia. Além disso, a construção da sociedade de Mallet foi descrita como fortemente influenciada pelos imigrantes, principalmente austríacos, poloneses e ucranianos, nos aspectos culturais, na arquitetura, na religião, nas relações de trabalho e na civilidade.

Descrita como uma região de riquezas naturais e de propensão ao comércio, essas localidades tiveram inicialmente sua história descrita por um discurso regionalista que abrangeu diversas localidades do Estado do Paraná. Algumas obras desse movimento intelectual, denominado genericamente de Paranismo19, produziram a invenção de uma história do Paraná repleta de diversas peculiaridades e apontamentos que diferenciavam seus habitantes do restante do país, principalmente, por meio da afirmação de diferenças. O paranaense foi caracterizado, muitas vezes, como diferente das pessoas pertencentes às outras regiões, devido, em grande parte, à influência imigrante, responsável pelo considerado “grande avanço econômico” que diferenciava o Estado do Paraná dos outros Estados brasileiros.

Nesses discursos intelectuais, e nessas histórias oficiais, as casas comerciais foram representadas apenas por suas funções comerciais, principalmente, como responsáveis pelo abastecimento de mercadorias das localidades e da exportação e importação de produtos vindos pela estrada de ferro. Porém, além dessa versão, algumas pesquisas demonstram que junto à importância econômica, esses locais eram pontos de sociabilidade em localidades próximas.

Apesar da inexistência de estudos sobre as casas comerciais malletenses, podemos conceber algumas interpretações em cidades próximas e com semelhanças históricas. Em Irati/PR, por exemplo, desde seu crescimento populacional formado por imigrantes europeus e a utilização do transporte férreo, a idealização e construção das casas comerciais, denominadas de “bodegas”, durante o início do século XX, além de uma forte comunicação comercial com cidades vizinhas, como Mallet, foi apresentada pela pesquisadora Neli Maria Teleginski por

19 Dentre as principais obras, destaca-se: WACHOWICZ, Ruy C. História do Paraná. Curitiba: Editora Vicentina,

1977; MARTINS, R. (1995). História do Paraná. Curitiba: Travessa dos Editores, Coleção Farol do Saber, 4ª ed. [1ª ed. 1899]; MARTINS, W. (1989). Um Brasil diferente. Ensaio sobre fenômenos de aculturação no Paraná. São Paulo: T. A. Queiroz, 2ª ed. [1ª ed. 1955]

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seus espaços de sociabilidades, que remontavam a diversas práticas cotidianas daquela população.20

Porém, além de espaços de sociabilidades, esses estabelecimentos comerciais foram palcos de crimes e práticas criminalizadas, as quais foram processadas e registradas pelo Poder Judiciário local. Além da possibilidade de compreender os significados sobre os crimes, ao analisarmos quantitativamente e qualitativamente os inquéritos e processos criminais, compreendemos que em meio aos diferentes tipos de crimes (homicídio, lesões corporais, difamação, calúnia, furto, etc.) e diferentes peças processuais (declarações, manifestações, sentenças, etc.) algumas nuances de aspectos culturais e sociais são perceptíveis e que, relacionados ou não ao crime processado, demonstraram diversas características que remontam a outras perspectivas sobre a história das localidades pertencentes à Comarca de Mallet.

Essa problematização serviu também para nos auxiliar na busca por outras fontes históricas. Como fontes secundárias, foram analisadas as atas de reuniões dos vereadores da Câmara do município de Mallet, desde o ano de 1912; os periódicos estaduais e locais correspondentes às localidades do município, seus distritos e Paulo Frontin; os códigos legislativos que normatizaram e regeram a comarca; os códigos penais em âmbito Estadual e Nacional; além de dados disponíveis em diferentes plataformas e acervos de intuições públicas, como a Prefeitura e a Câmara do município de Mallet, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR), o Ministério Público do Paraná (MPPR), dentre outros órgãos.

Como mencionado, pretendíamos inicialmente compreender o porquê do aumento e declínio de registros de crimes em casas comerciais e quais eram os aspectos culturais e sociais que poderiam ter influenciado tal índice. Porém, as hipóteses conceituais sobre uma possível “sociabilidade violenta”21 como causadora de tais índices, ao serem relacionadas às noções conceituais de violência e de crime, implicaram em novas questões e, a partir delas, novas

20 TELEGINSKI, Neli Maria. Bodegas e bodegueiros de Irati-PR na primeira metade do século XX / Neli Maria

Teleginski. – Curitiba, 2012. 250 f.

21 Embora não seja possível responder precisamente essas questões, nossa primeira hipótese foi de estudar os

aspectos de sociabilidades perceptíveis nas fontes de forma que pudéssemos compreender, principalmente, as motivações para a ocorrência dos crimes e chegar a possíveis considerações sobre a predominância quantitativa de crimes nas casas comerciais. A princípio, utilizamos as noções conceituais de sociabilidade formuladas por Georg Simmel e Maurice Agulhon, concebendo a sociabilidade como “interações sociais que criam determinado espaço social especifico, cuja intenção seria de formar um sentimento de pertencimento aos seus integrantes qualidade de ser sociável”. SIMMEL, Georg. Sociabilidade: um estudo de sociologia pura ou formal. In: MORAES FILHO, E. (org.). Sociologia. São Paulo: Ática. 1983, p. 166-168. Ou o equivalente dos sistemas de relações que confrontam os indivíduos uns com os outros ou que os reúnem em grupos mais ou menos naturais, mais ou menos forçados, mais ou menos estáveis, mais ou menos numerosos”. AGULHON, Maurice. Les associations depuis le

début du XIXe siècle. In: Maurice Agulhon e Maryvonne Bodiguel, Les Associations au village, Le Paradou, Actes

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escolhas teóricas/metodológicas foram feitas.22 Dessa forma, os aportes teóricos desta pesquisa foram formulados a partir de algumas noções conceituais imprescindíveis, como as concepções sobre as diferentes formas de violência; de poder e seus processos discursivos de objetivação e subjetivação; de espaços praticados e da interpretação estratégica e tática do nosso objeto.23

Violência parece ser algo que se relaciona explícita ou implicitamente nos processos criminais utilizados na pesquisa. Ela se caracteriza como um fenômeno social presente no cotidiano de todas as sociedades, assumindo variadas formas. Quando nos referimos à violência, no senso comum, relacionamos diretamente a agressões físicas entre pessoas, mas violência é uma categoria com amplos significados. Além da agressão física, diversos tipos de imposição, simbólicas ou não, sobre a vida civil, como a repressão política, familiar ou de gênero, ou a censura da fala e do pensamento de determinados indivíduos e, ainda, o desgaste causado pelas condições de trabalho e condições econômicas, podem ser caracterizados como formas de violência. Nesse viés, ao escrever uma História da Violência, devemos considerar suas diferentes concepções.24

Ao nos debruçarmos sobre os estudos históricos sobre a violência, concebemos que, diferentemente de uma concepção filosófica naturalista, como a de Thomas Hobbes, o qual

22 Analisando quantitativamente e qualitativamente as fontes não foi possível estabelecer noções regulares

consistentes sobre determinadas práticas compartilhadas nas casas comerciais que implicaram nos crimes. Além das limitações do acervo (Não é possível afirmar que tivemos acesso a todos os registros da época, pois possivelmente muitos não foram disponibilizados ao CEDOC/I), as narrativas processuais geralmente ocorriam direcionadas a caracterização do crime em si, não possibilitando identificar todos os aspectos de sociabilidade. Ademais, ao buscamos tal perspectiva, possivelmente ignoraríamos alguns aspectos particulares e/ou significados individuais dos sujeitos sobre as práticas, o que contrariaria nossas considerações sobre as noções de violência e crime enquanto práticas culturais, ocasionando possíveis generalizações.

23 As leituras realizadas foram direcionadas a busca de noções conceituais que fossem adequadas ao objeto de

estudo, como a concepção de violência, de poder, de crime e a concepção de espaços praticados. Esta pesquisa e a elaboração dessas questões teóricas ocorreram sob influência da linha de pesquisa “Espaços de Práticas e Relações de Poder” do Programa de Pós-Graduação (Mestrado) “História e Regiões” e além disso, tornou-se parte integrante do Núcleo de Pesquisa de História da Violência (NUHVI), ambos pertencentes à Universidade Estadual do Centro-Oeste, campus na cidade de Irati/PR. Nessa perspectiva, os significados expostos sobre noções conceituais acerca das sociabilidades contribuem para pensar apenas algumas interações e conflitos sociais. Acreditamos que é necessário, também, uma abordagem cultural da história. Esse percurso teórico nos levou ao trabalho de Michel de Certeau, em A Invenção do Cotidiano. CERTEAU, M. A invenção do cotidiano: Artes de

Fazer. 19 ed. Petrópolis: Vozes, 2012.

24 Para a História, a violência possui diferentes facetas. A respeito da origem da palavra, Robert Muchembled

considera como “surgida no século XIII em francês (...) que deriva do Latim vis, designando a força ou o vigor, caracteriza um ser humano com um caráter colérico e brutal”. Essa força, ou vigor, é mutável em diferentes tempos e diferentes espaços. MUCHEMBLED, Robert. História da violência: do fim da Idade Média aos nossos dias. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012, p. 15. Outra acepção do termo pode ser concebida por Hannah Arendt em sua obra “Da Violência” (1985). A autora disserta que a violência não depende de números ou de opiniões, mas sim das formas em que é implementada na sociedade humana, aumentando e multiplicando sua força. Diferente da concepção de poder para autora, a violência pode ser considerada como “um meio para determinados fins”, sendo que pode ser racionalizada pela sociedade em favor ou não de determinada instância de poder, como o Estado. ARENDT, Hannah. Da Violência. Brasília: Edunb, 1985, p.33.

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enquadrava a violência como característica inata ao ser humano25, a noção de violência abordada pela História segue pressupostos que a apontam como uma característica social. Nesse posicionamento, Robert Muchembled expõe que podemos compreendê-la como uma imposição de forças visando submeter uma pessoa a outra. Essa força, ou vigor, é mutável em diferentes tempos e diferentes espaços, possibilitando a concepção de dois tipos de violência. Uma violência racionalizada, como, por exemplo, a institucionalizada por meio do Estado; e uma violência individual, que vai contra as leis e a moral de cada época.26

Ao analisarmos os documentos judiciais podemos identificar essas duas formas de violência. Por um lado, há uma violência legitimada e monopolizada pelo Poder judiciário, ao tentar estabelecer certa ordem e exercer o seu poder por meio da punição.27 Por outro, ocorrem as práticas de violência que vão contra as leis e se tornam passíveis de serem criminalizadas.

Além disso, essas duas formas de violência comportam diversas relações de poder. Sobre a primeira forma, vale lembrar as ideias de Michel Foucault em A verdade e as formas

jurídicas, segundo o qual, no sistema judiciário, o poder se estabelece em tentativas de

autenticar uma possível “verdade” aos atos criminais processados. Os inquéritos, segundo Foucault, seriam:

[...] uma forma política, uma forma de gestão, de exercício de poder que, por meio da instituição judiciária, veio a ser uma maneira, na cultura ocidental, de autenticar a verdade, de adquirir coisas que vão ser consideradas como verdadeiras e de as transmitir. O inquérito é uma forma de saber-poder.28

Nas práticas de violência criminalizadas, as relações de poder se inserem em todo lugar, até mesmo nas singulares, ainda que minúsculas, relações de forças como “discussões de

25Observava no século XVII a vida em sociedade como uma resposta à natureza violenta do homem. Para ele, em

“O Leviatã”, obra publicada em 1954, o ser humano era uma criatura naturalmente violenta – “O homem é o lobo do homem” – e precisava do controle do Estado na figura de um soberano forte para que a natural violência do individualismo não arruinasse a vida em sociedade.

26 Para o autor, a violência ocorre de acordo com as condições culturais de diferentes temporalidades. Do final da

Idade Média até a atualidade a civilização ocidental conferiu um lugar fundamental para a violência, seja para lhe dar um papel positivo, eminente, e caracterizá-la como legítima, pois torna lícitas “guerras justas mantidas pelos reis cristãos contra fiéis”, ou para chamá-la de ilegítima, pois a “lei divina proíbe matar outros seres humanos”. MUCHEMBLED, Robert. História da violência: do fim da Idade Média aos nossos dias. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012.

27 Um exemplo dessa forma de violência é perceptível na obra Vigiar e Punir de Michel Foucault. Observando a

criminalidade na Europa Moderna, Foucault percebe que de início os sistemas punitivos ocorriam por meio da violência física, porém, ao longo do tempo, a punição se constitui pelo disciplinamento do comportamento e dos corpos sem recorrer à agressão física. Assim, no final da Idade Moderna os suplícios (torturas públicas utilizadas comumente durante a Idade Média) foram substituídos pelas prisões, onde os criminosos eram controlados tanto no corpo quanto no comportamento. FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão; tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis, Vozes, 1987.

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vizinhos, brigas de pais e crianças, desentendimentos de casais, excessos alcoólicos e sexuais, rixas públicas e – tantas – paixões secretas”.29 Dessa forma, tornam-se múltiplas, móveis e perceptíveis em diferentes níveis e formas de violência.

Portanto, acreditamos em uma interdependência das noções conceituais sobre o poder e a violência para a História, de modo que o poder é um “produtor de realidade”, ligado à produção de saberes e sujeitos, como defendeu Foucault, e sua ligação com a violência é diversa, seja física ou simbólica.

Dentre os instrumentos utilizados nessa concepção de poder, concebemos que o discurso é o mais perceptível. Foucault, em A Ordem do Discurso, esclarece que, apesar de que o discurso possa parecer “pouca coisa, as interdições que o atingem revelam, logo, sua ligação com o desejo e com o poder.” Essas interdições, segundo o autor, demonstram não apenas aquilo que se manifesta ou se oculta o desejo, mas também aquilo que é objeto de desejo. O discurso, além de traduzir “lutas ou sistemas de dominação”, é desejado. O discurso pode ser relacionado com o desejo e é caracterizado pelas lutas e pelas relações entre grupos para estabelecer o poder. Não é algo dado como pronto, mas sim, controlado e organizado, podendo até ser interditado por outros discursos que atuam como dispositivos de controle. Dessa forma, o discurso também pode ser entendido como “performativo”, ao produzir significados modelados pelas práticas e para os sujeitos.30

Porém, a forma como os exercícios de poder ocorrem por meio desses enunciados discursivos é diversa, podendo ser objetivada e subjetivada. Conforme Foucault, na sociedade há vários lugares “onde certo número de regras de jogo são definidas – regras de jogo a partir das quais vemos nascer certas formas de subjetividades, certos domínios de objeto, certos tipos de saber”. Por meio da análise desses processos é que podemos “fazer uma história exterior da verdade”.31

Nessa perspectiva, a subjetivação e, como consequências, as subjetividades, podem ser concebíveis pela “maneira pela qual o sujeito faz experiência de si mesmo num jogo de verdade, no qual se relaciona consigo mesmo”. Por meio dessa concepção, são vários os fatores externos que possivelmente contribuem de forma direta para essa construção social. Assim como há um processo de objetivação, há um processo de subjetivação aos sujeitos, que podem significar os fatores externos de diferentes maneiras.32

29 Ibid. p. 37-38.

30 FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. 13ª ed. São Paulo: Loyola, 2006, p. 10.

31 FOUCAULT, Michel. A verdade e as formas jurídicas. 3.ed. Rio de Janeiro: Nau Editora, 2002. p. 12.

32 FOUCAULT, Michel. Ditos e Escritos. 1984. Apud. REVEL, Judith. Michel Foucault: conceitos essenciais.

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De forma a complementar a reflexão foucaultiana, ao trabalharmos com espaços genuinamente concebidos por subjetividades masculinas33, nos apoiamos na desnaturalização do gênero34, sendo esse constituído por relações culturais não essencialistas.35 Essa perspectiva compreende que os sujeitos são produzidos por múltiplos aspectos culturais e relacionais e que têm suas identidades forjadas a partir de construções sociais. Compreendemos que o processo de subjetivação dos sujeitos acusados, vítimas e testemunhas, e, acima de tudo, frequentadores das casas comerciais malletenses, ocorriam, em maioria, por meio de práticas masculinas múltiplas e mutantes, mas perceptíveis em algumas regularidades, como, por exemplo, as expressões ditas “viris”, as formas de violência, as práticas em defesa da honra e a embriaguez.36

Por meio da sistematização discursiva, concebemos que esses exercícios de poder produzem uma posição estratégica a determinados elementos sociais e culturais, como as casas comerciais e os sujeitos que as frequentavam, sendo capaz de definir a si própria como uma produtora de significados e de “verdades”. Porém, as formas como os sujeitos concebem essas imposições são diversas, como no caso das práticas criminalizadas.

explicitada também pela noção de enunciado, sob a égide de que o enunciado implica uma posição do sujeito, ou seja, uma inscrição do sujeito no discurso e na história. Reafirmamos com essa consideração que o sujeito não corresponde a uma individualidade no mundo, e suas enunciações produzem justamente essa presença do exterior na subjetividade manifestada pelos discursos materializados nos enunciados. FOUCAULT, Michel. Arqueologia do saber. Tradução de Luiz Felipe Baeta Neves. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995.

33 Essa perspectiva foi aprofundada após o conhecimento dos trabalhos da historiadora Kety Carla de March que,

na busca por problematizar a produção das subjetividades masculinas dos sujeitos paranaenses na década de 1950, concebe que tiveram suas experiências cotidianas modeladas. Conforme a autora, “ser homem, antes da prática cotidiana, era um projeto discursivo”, portanto a construção dos sujeitos era influenciada por processos disciplinadores nos quais os receptores “travavam lutas subjetivas”, se apropriando ou se afastando das produções discursivas interiorizadas na sociedade. Ou seja, além dos significados judiciais acerca dos sujeitos, suas próprias acepções de si mesmo e dos outros era influenciada pelas instancias discursivas de poder, como no caso, o poder judiciário local. MARCH, Kety Carla de. Jogos de luzes e sombras: processos criminais e subjetividades

masculinas no Paraná dos anos 1950 / Kety Carla de March – Curitiba, 2015.

34Concebemos o Gênero como categoria de análise sobre a relação hierárquica existente entre masculino e

feminino, enfatizando historicamente quais as percepções que se constroem e identificam sobre o masculino e o feminino.

35 SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. In:Educação e Realidade. Porto Alegre, v.20,

n.2, p.5-22, jul/dez, 1990; e SCOTT, Joan. História das Mulheres. In BURKE, Peter (org). A Escrita da História:

Novas Perspectivas. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1992.

36Embora as instituições participem efetivamente nesse processo, as práticas culturais nas casas comerciais

também se relacionam à iniciação da masculinidade. Conforme Arnaud Bauberot, sobre os bares que apesar das diferenças possuem também semelhanças às casas comerciais: “os jovens vão ao bar, lugar de grande sociabilidade masculina e, consequentemente, etapa decisiva para o percurso da iniciação viril. O consumo de álcool e os jogos de azar comprovam a saída da infância”. Porém, o bar possui sua ordem interna, uma hierarquia que pode ser vista na ingestão de bebidas alcoólicas e nos códigos de comportamento. Determinadas bebidas são ingeridas por jovens e outras “mais puras” são reservadas para os homens adultos; além disso, esses últimos ensinam aos jovens “a arte do bilhar”. BAUBEROT, Arnaud. Não se nasce viril, torna-se viril. In: CORBIN, Jean-Jacques Courtine, VIGARELLO, Georges. História da Virilidade: tradução de Noéli Correia de Mello Sobrinho e Thiago de Abreu e Lima Florêncio – Petrópolis, RJ: Vozes, 2013. p. 190.

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Buscando privilegiar os significados das práticas para os sujeitos, passamos a pensar na constituição das casas comerciais como espaços estrategicamente construídos para o comércio e regulamentados de forma que o poder público obtivesse controle. Porém, nem todas as formas de consumo desses locais partilhavam de sua concepção, a princípio, “estratégica”. As práticas eram variadas. Dessa forma, as narrativas processuais, além de demonstrarem significados sobre as práticas criminalizadas, possibilitam a concepção de algumas práticas culturais não necessariamente vinculadas a ações penais, além da produção de sujeitos, seja pelos discursos judiciais ou pelas narrativas perceptíveis nas declarações dos acusados, vítimas e testemunhas. Para trabalhar as noções conceituais de espaços praticados, a fim de conceber as diferentes práticas culturais perceptíveis nas narrativas processuais em casas comerciais, inspiramo-nos no trabalho de Michel de Certeau, em A invenção do cotidiano. Nessa obra, Certeau trabalha com a noção de espaços e lugares. O espaço existe “sempre que se tomam em conta vetores de direção, quantidades de velocidade e a variável de tempo”, diferente do lugar, que é “ordem (seja qual for) segundo a qual se distribuem elementos nas relações de coexistência”. O lugar, portanto, é uma configuração instantânea de posições, é um espaço racional que subordina os elementos a uma determinação específica. O que transforma espaços em lugares e lugares em espaços são os relatos que, estabelecendo uma ordem, criam determinados locais em espaços indeterminados. Porém, as tentativas de constituir lugares não são exclusivas, diferentes relações sociais e práticas culturais criam diferentes espaços independentes dos relatos determinantes, podendo ou não, se estabelecerem como “novos relatos”.37

Diferentemente de algumas abordagens oriundas das Ciências Sociais que classificavam como pensáveis diferentes objetos de análise, tais como, os saberes, as regras, os hábitos, as estratégias, as instituições, os dispositivos, etc, a concepção cultural defendida por Certeau reconhece o efêmero, o que se faz no dia a dia, os hábitos ordinários comuns, nunca idênticos,

37 CERTEAU, M. A invenção do cotidiano: Artes de Fazer. 19 ed. Petrópolis: Vozes, 2012, p. 184. Podemos

comparar os conceitos certeaunianos com as reflexões de Gilles Deleuze e Félix Guattari acerca do espaço liso e do espaço estriado. Os filósofos propõem a existência de dois tipos de espaços: um é o espaço nômade, o outro é o espaço sedentário, por vezes esses espaços se entrecruzam e, esse entrecruzamento é mais complexo do que se costuma pensar. O espaço liso tende a se transformar em um espaço estriado, e o espaço estriado tende a se transformar em um espaço liso. Na palavra dos autores: O espaço liso e o espaço estriado – o espaço nômade e o espaço sedentário – o espaço onde se desenvolve a máquina de guerra e o espaço instituído pelo aparelho do Estado – não são da mesma natureza. Por vezes podemos marcar uma oposição simples entre os dois tipos de espaço. Outras vezes devemos indicar uma diferença muito mais complexa, que faz com que termos sucessivos das oposições consideradas não coincidam inteiramente. Outras vezes ainda devemos lembrar que os dois espaços só existem de fato graças entre às misturas entre si: o espaço liso não para de ser traduzido, transvertido num espaço estriado, o espaço estriado é constantemente revertido, devolvido a um espaço liso. DELEUZE, G; GUATTARI, F. Mil Platôs: Capitalismo e esquizofrenia. 1 ed. v.5. São Paulo: Ed.34, 1997, p. 147-148

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nem com lugares e tempos definidos. Dessa forma, concebemos o que se entende pela “invenção do cotidiano”. O cotidiano, para Certeau é:

[...] aquilo que nos é dado cada dia (ou que nos cabe em partilha), nos pressiona dia após dia, nos oprime, pois existe uma opressão no presente. [...] O cotidiano é aquilo que nos prende intimamente, a partir do interior. [...]. É uma história a caminho de nós mesmos, quase em retirada, às vezes velada. [...] Talvez não seja inútil sublinhar a importância do domínio desta história “irracional”, ou desta “não história”, como o diz ainda A. Dupont. O que interessa ao historiador do cotidiano é o Invisível. [...].38

Os conhecimentos hermenêuticos, aproximando-se das noções antropológicas, substituíram os fatos sociais, ou as regularidades alvejadas pela História Social39. Nessa direção, Michel de Certeau nos mostra que o homem ordinário inventa o cotidiano com mil maneiras de “caça não autorizada”, escapando silenciosamente a essa conformação. Essa invenção do cotidiano se dá graças às artes de fazer, astúcias sutis, táticas de resistência que, além de alterarem os objetos e os códigos, estabelecem uma (re) apropriação do espaço e de seu uso por parte de cada indivíduo. Ao praticarem determinadas ações em determinados locais, podemos entender que os sujeitos históricos criam espaços.40 O espaço, portanto, é um lugar praticado, um cruzamento de mobiles: são os transeuntes que transformam em espaço a rua geometricamente definida como lugar pelo urbanismo.

Ou seja, Certeau possibilita crer firmemente na “liberdade” das práticas, de ver diferenças e de perceber as micro resistências que fundam micro liberdades e deslocam fronteiras de dominação; na inversão de perspectiva, que fundamenta a sua invenção do cotidiano, desloca a atenção do consumo supostamente passivo dos produtos recebidos, para a criação anônima, nascida da prática, do desvio no uso desses produtos.41

Para encontrarmos sentidos na arte de fazer das pessoas da cidade de Mallet devemos considerar a legitimidade dos saberes e valores que permeavam as práticas formadoras de

38 CERTEAU, M. A invenção do cotidiano: Artes de Fazer. 19 ed. Petrópolis: Vozes, 2012, p. 31.

39 Todavia, a metodologia da História Social responde a um interesse de pesquisa que tente a limitá-la – assim

como qualquer outra metodologia. A busca por regularidades e estruturas sociais podem prendê-la nos conflitos entre grupos sociais e ‘ignorar’ outras possibilidades históricas. Sua corrente histórica a direciona para esse viés. Portanto, “pensar a vida social estritamente estruturada” torna-se um obstáculo a uma pesquisa histórica de cunho qualitativo.

40 Marc Augé propôs, das noções de lugar e de espaço, uma análise que constitui aqui um preliminar obrigatório.

Não opõe, pelo seu lado, os "lugares" aos "espaços" como os "lugares" aos "não-lugares". AUGÉ, Marc. Não

lugares: introdução a uma antropologia da sobremodernidade. 1ª edição francesa. Lisboa, 90 Graus. [1992] 2005,

p. 68.

41 Michel de Certeau destaca o consumo como imprescindível para entendermos tal abordagem. Consumo

corresponde a uma produção em resposta a uma “produção racionalizada, expansionista além de centralizada”, é uma prática humana “astuciosa”, “dispersa”, “silenciosa e quase invisível, pois não se faz notar com produtos próprios, mas nas maneiras de empregar os produtos impostos por uma ordem economicamente dominante.” CERTEAU, Michel. A invenção do cotidiano. Petrópolis: Vozes, 1994. p. 39.

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espaços em casas comerciais, seja o hábito de consumir, de beber, a reunião de pessoas, os jogos, o comércio local (atrelado aos negócios), ou até a violência física e simbólica. As estratégias e táticas próprias devem ser entendidas não somente por suas existências, mas, também, pelo significado para aqueles que as realizam. Michel de Certeau considera que toda atividade humana pode ser cultura, mas ela não o é necessariamente ou, não é forçosamente reconhecida como tal, pois, “para que haja cultura, não basta ser autor das práticas sociais; é preciso que essas práticas sociais tenham significado para aquele que as realiza.”42

Estes aspectos culturais propostos por Certeau, que fomentam as especificidades nas práticas sociais e seus significados para aqueles as praticam, contribuem ao relacionar as práticas culturais a qualquer relação social. Os espaços praticados, muitas vezes, são palcos de relações conflituosas, com diferentes formas de violência.

Portanto, pensamos nas práticas como produtoras de diferentes espacialidades e lugares. Ao praticarem determinadas ações nas casas comerciais os sujeitos exercem táticas e “criam” espaços que podem, ou não, corresponder à estratégia e ser ou não condicionada ao lugar. Consideramos esses espaços, portanto, como espaços praticados passíveis de serem socializados e, em alguns momentos, criminalizados.

Porém, ao concebermos as noções conceituais sobre crime e sua relação com a violência e com as diferentes práticas exercidas nas casas comerciais, enfrentamos alguns empecilhos durante nossa abordagem inicial do objeto.

Marcos Luiz Bretas destaca que os fundadores das Ciências Sociais no século XIX compreendiam que a concepção de crime adotada socialmente era relacionada aos “sinais mais visíveis da desordem social”, devendo o crime ser objeto de controle ou até de eliminação. Porém, nas abordagens mais recentes da História Social, como as feitas por Thompson, a partir da década de 1970, o crime passou a pertencer ao centro da vida social, destacando uma proximidade entre o cotidiano e o comportamento dito criminoso.43 Ao buscarmos conceber outros comportamentos nos documentos produzidos pelo Poder judiciário enfrentamos alguns impasses sobre a definição de crime.

Ao refletirmos sobre noções conceituais acerca do crime na história, principalmente na História Social, percebemos que algumas abordagens metodológicas tomaram o crime como algo “dado”, sendo que afirmavam os dados estatísticos como um reflexo direto dos crimes para compreender determinadas sociedades, porém, se considerarmos os diferentes significados

42 Ibid, p. 142.

43 BRETAS, Marcos. O crime na historiografia brasileira: uma revisão da pesquisa recente. Boletim Informativo

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sobre o crime, perceptíveis até nos discursos proferidos pelo Poder judiciário, e que foram identificamos nesta pesquisa, foi preferível adotar outra noção conceitual.

A historiadora Maria João Vaz, em O Crime em Lisboa 1850-1910, ao procurar esclarecer as dinâmicas da criminalidade na cidade de Lisboa, concebe que o crime é uma construção social historicamente determinada. Conforme a autora, “cada época e cada realidade social desenvolvem concepções próprias do que consideram e classificam como crime, de acordo com seus valores, os seus ideais, as suas noções de justiça e de segurança coletiva e individual”. Além disso, o próprio discurso jurídico sobre as definições de crime é uma construção social, pois o poder judiciário e a lei penal foram estabelecidos de modo que refletiram “os princípios, os valores e também os interesses dominantes numa dada organização social, sendo condicionada pela conjuntura política, econômica e cultural”.44

Desse modo, concebemos nossa interpretação teórica sobre o crime próxima da definição de Vaz e do criminologista Nils Christie que, ao problematizar a relação entre o sistema penitenciário com os sistemas de segurança garantidos pelo Estado ou pela iniciativa privada na sociedade ocidental, compreendeu que os crimes são uma construção social, atribuindo a certos atos o caráter de ilícitos, e, consequentemente, a conceituação de criminosos sobre determinados indivíduos praticantes de condutas reprováveis no meio social. 45

Ou seja, nessas perspectivas, as práticas consideradas criminosas são definidas pela coletividade que, podendo ser concebidas não necessariamente por instâncias de poder, mas, também, por grupos sociais diversos ao significarem que determinadas práticas deveriam ser criminalizadas, ou seja, reprovadas e passíveis de punição, não adequadas ao meio social, definindo quem serão os agentes criminosos. Dessa forma, podemos compreender os crimes como socialmente construídos e temporalmente localizados. Porém, além de social, buscamos compreender o crime como um fenômeno possível de uma concepção além do social, podendo ser significado de diferentes maneiras pelos sujeitos.

Além dessas considerações teóricas, como prelúdio para se conceber o uso de processos criminais como fonte histórica, as Ciências Sociais, a Filosofia, e, principalmente, as obras que trabalharam com os documentos judiciais na História Social no Brasil (representada por autores

44 A autora disserta alguns exemplos acerca das especificidades em relação a definição de crime em diferentes

contextos. Na Inglaterra no final do século XIX, era considerado crime “jogar futebol nas ruas, pois, embora livre de qualquer carga de imoralidade, aquele desporto era considerado gerador de conflito e desordem. ” Portanto, o entendimento da definição de crime, principalmente nas sociedades ocidentais, é dinâmico e sofre constantes atualizações e alterações. VAZ, Maria João. O Crime em Lisboa, 1850-1910. Editora Tinta da China, Ltda. Lisboa. 1ª edição. Ano 2014, p. 23-25.

45 Ver capítulo “Eficiência e decência” de CHRISTIE, Nils. A indústria do controle do crime. A caminho dos

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como Boris Fausto, Sidnei Chalhoub, Mariza Corrêa, entre outros) foram fundamentais para a base metodológica desta pesquisa.

O aumento do uso dos processos criminais como fontes para a escrita da história pode ser compreendido no Brasil a partir da década de 1980, com o advento da História Social.46 Embora utilizassem diferentes temáticas47, as obras historiográficas aderiram aos estudos em torno do crime como influentes à concepção de vida social, no que se refere à cultura e ao cotidiano de diversas sociedades. Dentre algumas obras que se tornaram marcos da historiografia criminal brasileira, podemos destacar Crime e Cotidiano, de Boris Fausto;

Trabalho, Lar e Botequim, de Sidney Chalhoub; Morte em Família, de Mariza Corrêa; e Histórias de violência: Inquéritos policiais e processos criminais como fontes para o estudo de relações interétnicas, de Karl Monsma, como referenciais.

Em Crime e cotidiano, obra de 1984, Boris Fausto apresenta uma visão geral da criminalidade em São Paulo no período de 1880 a 1924. O pesquisador elabora um profundo levantamento dos crimes, numa quantificação estatística, cujo objetivo seria apreender regularidades que permitam perceber valores, representações e comportamentos sociais, através da transgressão da norma penal. Segundo Fausto, o estudo da criminalidade expressa, além dos crimes, padrões de comportamento, representações e valores sociais que poderiam ser ocultados ou marginalizados em outros documentos.

Fausto destaca que na cidade de São Paulo, em estado de desenfreado crescimento econômico e populacional, as formas de conflito se destinavam aos locais de sociabilidade e remetiam a tensões políticas provenientes de um contexto nacional e implicações culturais cotidianas. Dentre os principais locais onde se realizavam as práticas consideradas criminosas, as casas comerciais se tornaram espaços de rica importância ao se entender o contexto histórico da cidade. A violência, nesses ambientes, apresenta-se em espaços de sociabilidade e festividade. Relatando sobre os crimes ocorridos em datas comemorativas, Fausto disserta:

O espaço privilegiado (60% dos casos) é o do lugar público onde se serve comida e bebida, sobretudo a venda e botequins dos bairros populares, com suas mesas toscas, mercadorias penduradas sobre os balcões, abrindo-se nos fundos, por um corredor

46Conforme destacam Sochodolak e Martins, a partir da década de 1980 a História Social se difundiu no Brasil

com a aproximação da História e da Antropologia. Além disso, “obras baseadas em documentos judiciais, de autores como Carlo Ginzburg, Michelle Perrot, E. P. Thompson e Natalie Davis, influenciaram a historiografia brasileira. ” SOCHODOLAK, H e MARTINS, V. A narrativa de um "Brasil diferente" e os processos criminais

de Mallet/PR (1913-2006). Revista NUPEM, Campo Mourão, v. 6, n. 10, jan./jun. 2014, p. 196.

47 Dentre as principais temáticas, conforme Marcos Luiz Bretas os estudos de crimes se relacionavam à escravidão,

à formação de um mercado de trabalho livre e a emergência de novos agentes de controle social dedicados à imposição de novos padrões morais, ligados à constituição de uma sociedade burguesa. BRETAS, Marcos. O crime na historiografia brasileira: uma revisão da pesquisa recente. Boletim Informativo e Bibliografia de Ciências Sociais. Rio de Janeiro, n.º 32, 1991.p.50.

(28)

estreito, para o cortiço onde moram o vendeiro e dezenas de pessoas. Locais em que o ruído de gente tocando sanfona ou violão, explodindo em risadas, altercando em torno do baralho rasgado por um parceiro inconformado, mistura-se ao cheiro de linguiça, das sardinhas fritas, do álcool e, às vezes, do sangue. [...]. As vendas e botequins são um dos centros do lazer masculino, aos quais as mulheres comparecem para outros fins ou em função do lazer dos homens.48

As características apontadas pelo autor se referem a locais próprios ao afloramento da violência e das práticas criminalizadas. Sidney Chalhoub, em Trabalho, Lar e Botequim, fortalece esse posicionamento. Comentando sobre as diversas particularidades do cotidiano de trabalhadores do Rio de Janeiro durante a 1ª República, sua obra se caracteriza por diversos aspectos, como a rivalidade entre nacionais e estrangeiros, a formação da classe pobre e os conceitos de “ociosidade” e “vadiagem”, em voga na época. Ao analisar as implicações desses aspectos em diferentes locais, Chalhoub destaca um dos quais era comum a ocorrência de crimes. Segundo o autor:

O crime foi cometido num botequim durante um dos intervalos da jornada de trabalho. Estes intervalos para tomar café e cachaça no botequim, prolongado as vezes pelo jogo a dinheiro, eram bastante comuns principalmente entre carvoeiros, estivadores, carroceiros, ambulantes e outros trabalhadores que não se viam circunscritos a um espaço fechado rigidamente disciplinado. Tal decorre o fato de que muitas das "questões por motivo de serviço" acabavam resultando em conflitos nestes momentos de lazer nos interstícios da jornada de trabalho quando, aparentemente, as questões podiam ser resolvidas sem pôr em risco os meios de sobrevivência dos contendores.49

Ao se conceituar o cotidiano, o autor compreende que o trabalho e suas relações à questão habitacional, às rivalidades étnicas e raciais, ao machismo formam conceitos que expõem o cenário de conflitos, brigas e rixas em botequins. A sobrevivência se torna um conceito-chave e expressa a melhor maneira de entender a forma de pensar dos sujeitos ativos implicantes em determinado delito.

Juntamente com o autor supramencionado e com as influências de debates acadêmicos voltados para a utilização de novas fontes e objetos nas Ciências Humanas na década de 1980, a antropóloga, Mariza Corrêa, em Morte em família, aborda outra concepção a respeito dos documentos judiciais. A autora trabalha com processos criminais de homicídios envolvendo mulheres, entre 1952 e 1972, na cidade de Campinas-SP. Diferentemente de uma abordagem que privilegiasse a história das camadas populares, Corrêa se utilizou dos processos criminais como subsídio para o conhecimento dos procedimentos jurídicos. A autora destaca os discursos

48FAUSTO, Boris. Crime e cotidiano: a criminalidade em São Paulo (1880-1924). 2. ed. São Paulo: Edusp, 2001,

p. 120.

49CHALHOUB, Sidney. Trabalho, lar e botequim: o cotidiano dos trabalhadores no Rio de Janeiro da belle

Referências

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