GRANDE SERTÃO: VEREDAS,
LABIRINTOS
RESUMO
O artigo comemora os 50 anos da morte de Guimarães Rosa e analisa sua obra maior: Grande-sertão: veredas.
Olga de Sá
Doutora em Comunicação e Semiótica, Mestre em Teoria literária, licenciada em Letras Clássicas, pós-graduada em Psicologia, Clínica, bacharel em Biblioteconomia, especialização em Orientação Educacional, especialização em ciências da Religião, educadora, escritora, poeta.
LITERA
TURA
Há 50 anos (1967) morria Guimarães Rosa. Mas sua figura continua ímpar, na Literatura Brasileira e sua obra imortal.
Que escritor não gostaria de ter sua genialidade para celebrar-lhe a memória? Na falta de tal talento, não podemos deixar passar em branco uma data tão significativa. O “sertão” que está em Grande sertão: veredas não é a transcrição pura e simples da realidade física, como o fazem geógrafos e antropólogos. O “grande sertão” é o subconsciente, o antro do ser.
Guimarães Rosa também usou a realidade espacial, física, concreta do sertão. Usou-a, poética, epicamente. Manipulou-a como um ingrediente simbólico. O sertão foi palco de um pacto com o demo. Forma derivada de “desertão” – um deserto grande- habitat dos demônios, sítio ermo e solitário para a natureza humana. O pacto entre o demo e Riobaldo dá-se na solidão das Veredas Mortas. O sertão e satã têm as mesmas ressonâncias fonéticas e espirituais.
O aspecto da realidade física se reflete no caráter duplo de Diadorim que, em sua condição ambígua (é mulher e jagunço), une os dois lados, funcionando como ponte de ligação entre lícito e ilícito. Diadorim é o iniciador de Riobaldo no curso da existência. É o presente, a dádiva (dóron), através (dia) da qual o mundo se “abre” para um novo ser. Mas é um presente que encerra, em seu bojo, dois componentes irredutíveis à unidade, porque um deles permanece irrevelado, e, portanto, desconhecido, embora pressentido pela
personagem – narradora, que sente, atrás do aparente, alguma coisa a se desvelar. Além da amizade pelo companheiro, Riobaldo nutre por Diadorim um amor pelo qual não teve coragem de ultrapassar as barreiras do sancionado. Por isso, se torna um “rio baldo”, inútil e ineficaz, pois continua vazio e desequilibrado mesmo depois de ter realizado a “travessia”, a longa pesquisa experimentada na vida e, depois, na palavra. Se o demônio está misturado em tudo, encontra-se também nos sentimentos controvertidos de Riobaldo, levando a amizade a abismos perigosos, impossibilitando o estabelecimento de limites definidos entre Deus e o diabo, o Bem e o Mal, o Sancionado e o Proibido. Transitando de um lado para o outro, a linguagem cria e mantém o movimento responsável pela fluidez dos signos, alimentando a ambiguidade. A grande novidade da obra rosiana vem de uma alteração profunda no modo de enfrentar a palavra.
Para Rosa, assim como para os mestres da prosa moderna, tais como Joyce, Borges, Cortázar, Clarice Lispector, a palavra é um feixe de significações. A escritura de Guimarães Rosa, voltada para as forças virtuais da linguagem, procede abolindo as fronteiras entre narrativa e poesias, revitalizando recursos já indicados e estudos pelos mais diversos críticos: células rítmicas, associações raras, ousadias mórficas, cortes e deslocamentos de sintaxe, vocabulário insólito, arcaico ou neológico, personagens que podem ser aproximadas de tipos medievais.
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TURA
Sentimos o Autor fugir das frases feitas, dos lugares comuns. O romancista mostra-nos o processo criador de uma língua. Processo esse que Guimarães Rosa deve ter observado, ao vivo, em suas andanças, pois é comum ao homem do interior, inventar “na hora”, os vocábulos que possam preencher sua necessidade de comunicação.
A narrativa escapa aos padrões realistas. O livro não é dividido em capítulos, a personagem narradora vai relembrando, num fluxo contínuo, aparentemente desordenado, de memória, os acontecimentos, à revelia da ordem cronológica.
O enredo de Grande sertão: veredas não é linear. Não há, portanto, uma lógica externa, mas uma lógica interna, própria da experiência com a linguagem.
Guimarães tem plena consciência de sua narrativa em ziguezagues e crítica sua própria maneira de narrar. Sabe que o que está dizendo é dificultoso, muito “entrançado”, contando errado, “pelos altos”. Conta assim porque é seu jeito de contar. Sabe também que falar muito, “caceteia”. Mas é preciso. Contar seguido, só mesmo coisas de “rara” importância. A linha é sinuosa (como veredas), os fatos vão se colocando ao longo de seus meandros e ele até parece pessoa diferente. A matéria bruta – as palavras – são difíceis de serem domadas, só vencidas pela mão mágica de Rosa.
O fato é que Grande sertão veredas com sua narrativa labiríntica, sua arquitetura inteiriça, sua linguagem peculiar, exigia um acercamento lento, uma leitura descansada como descansado é o ritmo das histórias, umas saindo de dentro das outras, sem
se limita a narrar, põe-se a refletir sobre a ação, desviando a atenção para si mesmo. O homem que reflete e o homem que age são um só.
O enfoque em 1ª pessoa é peculiar: um eu que praticamente assume a posição de narrador intimista e confessional, mas um eu que se sente prolongado nos demais e adquire a dimensão de um nós.
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Sua estrutura obedece ao esquema das “narrativas-encaixe”, como nos explica o próprio narrador. Diz que fala “demais dos lados”, que “resvala”.
Os espaços de Grande Sertão são os Campos Gerais, que, geograficamente, se estendem pelo oeste da Bahia e Goiás até o Piauí e Maranhão.
As Gerais são caracterizadas pelas chapadas (planaltos, amplas elevações de terreno, chatas, às vezes, serras mais ou menos tabulares) e os chapadões (grandes, imensas chapadas).
O solo é tão poroso que, mesmo com chuva não se forma lama e nem se vê enxurrada.
A vegetação é a do cerrado: arvorezinhas tortas, baixas, enfezadas. O capim é áspero, de péssima qualidade, que ao reverdecer no tempo das águas, cresce incrustado de areia, de partículas de sílica, como se fosse vidro moído: e o grado que o come, adoece. Verde comum, feio, monótono. Mas, por entre as chapadas, separando-as, há as veredas. São vales de chão argiloso, onde aflora a água absorvida.
A vereda é um oásis. São as veredas de um belo verde claro, aprazível, macio o capim, claro, bom. As veredas são férteis, cheias de animais, de pássaros. Nas veredas, há, ás vezes, grandes matas comuns. Mas o centro, o íntimo vivinho e colorido da vereda é sempre ornado de buritis, buritiranas, sassafrás e pindaíbas à beira d’água.
Quanto ao tempo, a narrativa inicia-se no presente e logo desemboca no tempo da memória. Seguem-se fatos que avançam ou recuam no tempo, até o momento cronológico, quando Diadorim e Riobaldo, ambos meninos se encontram, pela primeira vez, às margens do Rio São Francisco.
Este encontro acontece num espaço que se torna sacralizado: a desembocadura do Rio-de-Janeiro, de águas claras, nas águas turvas e barrentas do São Francisco.
Este rito de passagem traz também a ideia de travessia, que de notação correta, passa a assumir conotações variadas até abranger todo o romance como grande e dominadora
metáfora. Travessia de Riobaldo, isto é, sua passagem pelos imprevistos da existência. Medo e coragem, beleza e violência, atração e repulsa, mistério e desejo, participam do ritual que investe Riobaldo nos segredos e relações da vida. O cosmos se manifesta na sua dupla face, ostentando os aspectos dominados pela presença de opostos. Índice desses duplos, já na 1ª página da narrativa se lê:
Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser - serviu - e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram – era o demo (p. 9).
O bezerro é duplo em sua aparência, pois revela dois componentes distintos e inconciliáveis: é gente e animal, a um tempo, o que significa que não é uma coisa nem outra, para ser uma terceira, de existência contestável: o demo, a face encoberta da realidade. O mundo narrado começa a ser composto pela palavra, mágica e resvaladiça, tradutora da atmosfera difusa e encantadora, em que se consagra o domínio do ambíguo e do poético. Essa imagem do bezerro, misto de cão e gente, é equivalente à utilizada para definir o Hermógenes, misto de cavalo e cobra, caráter indevassável, de coisa fechada, hermética, como indica a raiz de seu nome – “hernós!”
A obra comporta certo sincronismo religioso, pois diz o próprio Riobaldo: sendo todo mundo louco:
[...] é que se carece principalmente de religião: pena se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que é a salvação-da-alma... Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio... Uma só, para mim é pouca, talvez
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não me chegue. Rezo cristão, católico, embrenho a certo; e aceito as preces de compadre meu Quelemém, doutrina dele, de Cardéque. Mas, quando posso, vou no Mindubim, onde um Matias é crente, metodista: a gente se acusa de pecador, lê alto a Bíblia, e ora, cantando hinos belos deles. Tudo me quieta, me suspende. (p. 17)
Riobaldo já velho, tem as mãos vazias; compactuou com o Demo e na hora decisiva, falhou. Perdeu Nhorinhá, Diadorim morreu e perdeu também Octacília, por ter se casado com ela (não há romance que resista à rotina matrimonial, segundo a jagunçagem).
Recordando os tempos heroicos, Riobaldo mergulha no narcisismo, preocupado com ver-se a si mesmo, sem ter com quem dialogar. Dialoga então, com um interlocutor, que pode ser cada um de nós. Personagens, objetos e plantas que povoam as páginas de Grande sertão tornaram-se verdadeiros mitos. O signo do mito não tem existência física, material. Pertence ao espaço da racionalidade, da verdade inquestionável. O mito leva Riobaldo a ir à essência de sua própria existência.
Diadorim é o mito da mulher vestida de guerreiro. É o amigo que Riobaldo ama, numa tremenda confusão de sentimentos: atração e repulsa. Riobaldo ignora que Diadorim é mulher e só toma conhecimento disso no embate final, em que morrem Hermógenes e Diadorim. Aí, Riobaldo descobre que ela poderia ter sido sua companheira, desde o início, às margens do Rio São Francisco, onde a história começa.
O Rio Urucuia, o maior afluente do São Francisco, se identifica com o herói. Suas águas são claras e límpidas. Apesar disso, o Urucuia não é conhecido e, portanto, é o rio da frustração um “rio baldo”. Ele e o herói se confundem, superpondo-se ou correndo paralelos. Diz dele Riobaldo: “Meu rio de amor é o Urucuia”. Os Buritis são a imagem da casa e da mulher, da mãe perdida e da noiva sonhada. O buriti dá o tom do lirismo bucólico, suavidade presente com a presença da água. Riobaldo é um lírico, mais de ideias que de ação.
O rio Urucuia, também dá a nota bucólica e lírica à narrativa. É um rio calmo e claro. O Sertão é a terra primitiva e indomável, arredio ao progresso, vencedor de Zé Bebelo, que queria acabar com a jagunçagem. O Vento é o mensageiro de grandes notícias, companheiro de aventuras, que com
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seu golpe profético anuncia a morte de Diadorim, lutando contra Hermógenes, o “Judas”.
Riobaldo conhecia os ventos, sentia-lhes a chegada, sabia-sentia-lhes os caminhos e as forças. As águas barrentas simbolizam a perda da pureza inicial de Riobaldo e mostram sua contaminação por forças obscuras que o dominam. A água natural e pura simboliza a pureza da personagem – narradora, quando ainda não marcada pelo pecado da existência.
De alguma forma, aproximamo-nos do Mito faústico. Riobaldo, Tatarana, Urutu Branco, instabilidade nominal que indica a complexidade polifônica da genial criação literária. Fausto vende a alma pela glória de conhecer. Riobaldo queria trazer justiça ao território das Gerais. Só foi chefe dos jagunços enquanto pactário, para matar Hermógenes. Não conseguiu fazê-lo, porque pactuário não mata pactuário. Diadorim, o não pactuário, é que haveria de fazê-lo.
Riobaldo contou tudo, é agora quase barranqueiro. Vai para a velhice com ordem e trabalho. E pergunta a seu amável interlocutor, aquele que o ouviu:
O Senhor acha que a vida é tristonha? Mas ninguém não pode me impedir de rezar; pode algum? O existir da alma é a reza... Quando estou rezando, estou fora de sujidade, à parte de toda loucura. Ou o acordar da alma é que é? E, o pobre de mim, minha tristeza me atrasava, me saciava. Eu não tinha competência de querer viver, tão acabadiço, até o cumprimento de respirar me atrasava, me saciava. E, Diadorim, às vezes conheci que a saudade dele não me desse repouso; nem o nele imaginar. Porque eu, em tanto viver de tempo, tinha negado em mim aquele amor, e a amizade desde agora estava amarga falseada; e o amor, e a pessoa dela, mesma, ela tinha me negado. Para que eu ia conseguir viver? (p. 591)
Travessia, diz Riobaldo. O diabo não existe. Existe é homem humano.
REFERÊNCIA:
ROSA, João Guimarães. Grande Sertão:
Veredas. José Olympio. Rio de Janeiro, 1956.