CECRIA
Centro de Referência, Estudos e Ações sobre Crianças e Adolescentes
A EXPLORAÇÃO SEXUAL COMERCIAL DE MENINOS,
MENINAS E ADOLESCENTES NA
AMÉRICA LATINA E CARIBE
(RELATÓRIO FINAL – BRASIL)
2ª EDIÇÃO
C
ONSULTORA: M
ARIAL
ÚCIAP
INTOL
EALBrasília 1999
A Exploração Sexual Comercial de Meninos, Meninas e Adolescentes na América Latina e Caribe - (Relatório Final – Brasil)
2ª Edição – Julho/1999 Realização
CECRIA - Centro de Referência, Estudos e Ações sobre Crianças e Adolescentes Elaboração do Relatório Final
Maria Lúcia Pinto Leal
Pesquisadoras
Maria Lúcia Pinto Leal - Consultora Maria de Fátima Pinto Leal
Márcia Roberta Matos Karina Figueiredo
Auxiliares de Pesquisa
Shirley Brasil Borthy Bochi Taiama Mamede Barbosa Solecki Miriam Caetana de Souza Ferreira
Organização da Publicação
Maria Lúcia Pinto Leal Maria de Fátima Pinto Leal
Diagramação Gráfica
Isabel Cristina Valadares Lins
Revisão Final
Maria de Fátima Pinto Leal Ozanira Ferreira da Costa
Capa
Telma Bezerra Vanderlei Schelbauer
Exploração Sexual Comercial de Meninos, Meninas e Adolescentes na América Latina e Caribe (Relatório Final - Brasil)
LEAL, Maria Lúcia Pinto. A Exploração Sexual Comercial de Meninos, Meninas e Adolescentes na América Latina e Caribe (Relatório Final – Brasil). Brasília: CECRIA, IIN, Ministério da Justiça, UNICEF, CESE, 1999.
Agradecimentos Especiais
Agradecemos a todas as Organizações e
Especialistas que contribuíram com esta
pesquisa, disponibilizando informações valiosas
através de entrevistas, consultas, publicações,
dados de denúncia e sugestões
Agradecemos ainda à Equipe Técnica e
Administrativa do CECRIA que colaborou
de forma eficiente na coleta e refinamento
dos dados
ÍNDICE
INTRODUÇÃO I PARTE
1. A SITUAÇÃO DE MENINOS, MENINAS E ADOLESCENTES NO CONTEXTO DA VIOLÊNCIA SEXUAL EM SUAS DIVERSAS MODALIDADES NO BRASIL
1.1. Aspectos conceituais da exploração sexual comercial
de meninas, meninos e adolescentes... 1.2. Definição teórica das modalidades de exploração sexual e suas formas
de expressão na realidade Brasileira...
1.2.1. EXPLORAÇÃO SEXUAL COMERCIAL... 1.2.2. PROSTITUIÇÃO INFANTIL... 1.2.3. PORNOGRAFIA INFANTIL... 1.2.4. TURISMO SEXUAL... 1.2.5. TRÁFICO (PROSTITUIÇÃO)... 1.3. ESTUDOS DAS DIMENSÕES PARA COMPREENSÃO E EXPLICAÇÃO DO
FENÔMENO DA EXPLORAÇÃO SEXUAL DE MENINOS; MENINAS E ADOLESCENTES.. 1.4. FORMAS DE EXPRESSÃO DAS MODALIDADES DA EXPLORAÇÃO SEXUAL
COMERCIAL DE MENINOS, MENINAS E ADOLESCENTES NA REALIDADE BRASILEIRA..
II PARTE
2. RESPOSTAS INSTITUCIONAIS: AÇÕES IMPLEMENTADAS PELO ESTADO, ORGANIZAÇÕES NÃO GOVERNAMENTAIS E AGÊNCIAS INTERNACIONAIS
2.1. CONCEITO E DEFINIÇÃO DE RESPOSTAS INSTITUCIONAIS... 2.2. OS DISCURSOS DAS INSTITUIÇÕES ENVOLVIDAS... 2.2.1. MINISTÉRIO DA JUSTIÇA... 2.2.2. MINISTÉRIO DA PREVIDÊNCIA E AÇÃO SOCIAL / SECRETÁRIA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL... 2.2.3. VARA DE EXECUÇÕES CRIMINAIS... 2.2.4. VARA DA INFÂNCIA E JUVENTUDE... 2.2.5. AGÊNCIAS INTERNACIONAIS... 2.2.6. INTERPOL... 2.2.7. ORGANIZAÇÕES NÃO GOVERNAMENTAIS... 2.2.8. MÍDIA... 2.3. ANÁLISE DAS ESTRATÉGIAS IMPLEMENTADAS PELO ESTADO
PARA O ENFRENTAMENTO DA EXPLORAÇÃO SEXUAL COMERCIAL... 2.3.1. AÇÕES ESTRATÉGICAS DO PODER EXECUTIVO... 2.3.2. AÇÕES ESTRATÉGICAS DO LEGISLATIVO: CPIS E PROJETOS DE LEI... 2.4. ANÁLISE DAS ESTRATÉGIAS IMPLEMENTADAS PELAS ORGANIZAÇÕES
SEXUAL COMERCIAL... 2.4.1. MAPEAMENTO DAS REDES REGIONAIS DE ENFRENTAMENTO DA EXPLORAÇÃO
SEXUAL COMERCIAL DE MENINOS, MENINAS E ADOLESCENTES NO BRASIL – AÇÕES DESENVOLVIDAS ...
2.4.2. PROJETOS E PROGRAMAS PARA O ENFRENTAMENTO DA EXPLORAÇÃO SEXUAL COMERCIAL DE MENINOS, MENINAS E ADOLESCENTES
2.5. AÇÕES DE SENSIBILIZAÇÃO E MOBILIZAÇÃO PARA O ENFRENTAMENTO DA VIOLÊNCIA E EXPLORAÇÃO SEXUAL COMERCIAL... 2.6. A OPINIÃO PÚBLICA SOBRE O TEMA... 2.7. A OPINIÃO DAS ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS...
3. DIFICULDADES ENCONTRADAS PARA O ENFRENTAMENTO DO FENÔMENO. DA EXPLORAÇÃO SEXUAL DE MENINOS, MENINAS E ADOLESCENTES NO BRASIL..
4. RECOMENDAÇÕES... 5. BIBLIOGRAFIA... 6. ANEXOS
I. Mapa Político do Brasil... II Mapa de Projetos e Programas para o Enfrentamento da Exploração Sexual Comercial de Meninos, Meninas e Adolescentes no Brasil
III. Mapa das Campanhas contra a Exploração e o Abuso Sexual de Crianças e Adolescentes no Brasil.
IV Violência e Exploração Sexual contra Meninos, Meninas e Adolescentes na América Latina e Caribe Declaração Final (Uruguai)
V. Declaração de Plano de Ação sobre a Exploração de Crianças e Jovens - (Canadá).
VI Declaração sobre o combate ao Abuso Sexual, Pornografia Infanto-Juvenil e Pedofilia na Internet – (França)
VII Projetos em tramitação na Comissão de Constituição e Justiça – CCJR
INTRODUÇÃO
O CECRIA - Centro de Referência, Estudos e Ações sobre Crianças e Adolescentes firmou uma parceria com o Instituto Interamericano del Niño, organismo especializado da OEA (Organização dos Estados Americanos) para a realização de uma pesquisa no Brasil sobre a situação da exploração sexual comercial de meninos, meninas e de adolescentes e as respostas institucionais para o enfrentamento desta problemática, a partir de 1996.
Desenvolver esta pesquisa, em parceria com o IIN, possibilitou a integração/intercâmbio de informações sobre a temática na América Latina e Caribe, resultando numa agenda de ações, estratégias e conteúdos para o enfretamento do fenômeno.
A sistematização dos dados deu visibilidade da situação no Brasil, mostrou a fragilidade das respostas institucionais para o enfrentamento do fenômeno e a necessidade de uma avaliação do impacto das políticas públicas, com vistas ao redimensionamento da ação governamental e não governamental.
Tendo em vista a extensão territorial do Brasil, esta pesquisa não representa um mapeamento de todos os Estados, Municípios e Distrito Federal, mas, uma amostra das cidades e regiões, onde governo e sociedade civil estão mobilizados, permitindo a visibilidade do fenômeno e o seu nível de enfrentamento.
Esta pesquisa foi desenvolvida no período de agosto a dezembro de 1998, e enquanto procedimentos metodológicos, realizou vasta pesquisa bibliográfica, coleta e análise de informações do seu Banco de Dados, análise de dados fornecidos pelas redes informais regionalizadas (sul, sudeste, centro-oeste, norte e nordeste), pesquisa documental em relatórios das oficinas, encontros e seminários realizados no Brasil sobre a temática e entrevistas com representantes de órgãos públicos.
Uma versão preliminar foi enviada às organizações não governamentais – ONGs, organizações governamentais – OGs e Agências Internacionais para análise e sugestões de conteúdo. Em função da complexidade do fenômeno e das ações, é possível que alguns dados tenham sofrido alterações e necessitam de complementação.
Na primeira parte, o relatório analisa a situação de meninas, meninos e de adolescentes vítimas de violência sexual em suas diversas modalidades, enfatizando aspectos conceituais da exploração sexual comercial de crianças e de adolescentes, as dimensões que explicam o fenômeno, bem como a definição teórica das modalidades de exploração sexual e suas formas de expressão na realidade brasileira.
Na segunda, apresenta as respostas institucionais, mediante as ações de promoção, atendimento e responsabilização das organizações não governamentais, governamentais e das agências internacionais, apontando as dificuldades encontradas para o enfrentamento do fenômeno, as recomendações, a bibliografia e os anexos.
A pesquisa representa, portanto, um esforço para organizar o conhecimento sobre a temática no Brasil, cujos os resultados demonstraram que há muito para se conhecer, atualizar, trocar e realizar.
1. A SITUAÇÃO DE MENINOS, MENINAS E ADOLESCENTES NO CONTEXTO DA VIOLÊNCIA SEXUAL EM SUAS DIVERSAS MODALIDADES NO BRASIL
1.1. ASPECTOS CONCEITUAIS DA EXPLORAÇÃO SEXUAL COMERCIAL DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES
A análise1 da violência contra crianças e adolescentes, no Brasil, deve ter como referência
as questões histórico-estrutural e cultural para compreensão do fenômeno. Deve, ainda, considerar a dimensão territorial, a densidade demográfica e a diversidade cultural, econômica e social, em função de o fenômeno apresentar-se de diferentes formas em cada região.
O Brasil é uma República Federativa com 05 macro-regiões (norte, nordeste, sudeste, sul e centro-oeste), contendo 26 Estados e 01 Distrito Federal; tem aproximadamente 5.507 Municípios. O levantamento de 1995, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística/IBGE, revela uma população de 157,0 milhões: Norte 11,2; Nordeste 44,7; Sudeste 66,9; sul 23,5; e Centro-Oeste 10,5. A projeção preliminar do IBGE para o ano 2000 é de uma população de 165,7 milhões, sendo que a percentagem de crianças e adolescentes de até 19 anos de idade representa 40% ou seja 64,0 milhões de habitantes. 2
De acordo com os Anais do Seminário sobre a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes nas Américas, em 1996, a realidade brasileira é que “a idade das crianças e
adolescentes submetidos a exploração sexual, oscila entre 10 a 19 anos e tanto podem ser do sexo feminino quanto do masculino, de todas as classes sociais e etnias. A grande incidência ocorre entre adolescente mulheres, provenientes das classes populares de baixa renda que vivem na periferia dos centros urbanos, nos garimpos e outros locais similares”.
Do total da população brasileira, 59,4% é de jovens na faixa etária 10-24 anos, constituindo-se na maior densidade demográfica. Na faixa etária de 7-14 anos temos 27,4% de meninas e na faixa etária de 15-17 anos temos 9,9%, conforme dados do IBGE, em 1996.
Essa população jovem tem sofrido o impacto das transformações sociais, econômicas, políticas e culturais no contexto da sociedade contemporânea. As crianças e adolescentes, principalmente aquelas em situação de pobreza, são inseridas no mercado de trabalho precocemente, conforme podemos observar no quadro3 abaixo:
MENINAS MENINOS TOTAL SEXO Faixa Etária Nº % Nº % Nº % 10 – 14 934.996 24,7 2.027.652 27,9 2.962.648 26,6 15 – 19 2.950.075 75,3 5.227.892 72,1 8.177.967 73,4 TOTAL 3.885.071 100,0 7.255.544 100,0 11.140.615 100,0
1Esta pesquisa assume como referência o disposto no Estatuto da Criança e do Adolescente em seu Art. 2º, o qual considera- criança, a pessoa até 12 anos de idade incompletos, e adolescentes aquela entre 12 e 18 anos de idade. Por ser um termo bastante recorrente, também utiliza-se meninas, meninos e adolescentes.
2 Texto extraído do Relatório da Consulta Nacional BICE/CECRIA/1998.
Estudos e pesquisas4 têm demonstrado que o trabalho doméstico e a exploração sexual
comercial absorvem principalmente a mão-de-obra feminina. Também têm revelado que essas relações de trabalho expõem as meninas a situações de exploração, riscos e danos pessoais (moral, físico, psicológico, sexual).
De acordo com dados do IBGE (1996), de 822 mil crianças e adolescentes trabalhadores domésticos 12,7 % são da faixa etária de 15-17 anos e 7,9% de 10-17 anos.
Com relação a exploração sexual comercial de crianças e adolescentes existem 1 milhão de crianças inseridas no comércio sexual e na pornografia, no mundo inteiro. (OMT-Cairo/95) Os indicadores sociais levantados pelo referido Instituto, em 1996, revela que 41.5% das pessoas estão na categoria de sem rendimentos mensais; 15.3% têm rendimentos de até 01 salário mínimo mensal e 12.9% têm rendimentos de 01 a 02 salários mínimos mensais. Estes dados são da média nacional, embora sejam bastante acentuadas as diferenças entre as 05 macro-regiões do país. O salário mínimo atual é de aproximadamente US$7500.
Por se tratar de diferenças estruturais, a pobreza e a indigência estão vinculadas às relações sociais concentradoras de renda e às relações culturais desiguais de gênero e de raça.
Nesta perspectiva, faz-se necessário, para melhor compreensão da violência sexual de meninos, meninas e de adolescentes no Brasil, demonstrar o campo teórico multifacetado da violência sexual, tendo como objeto de análise a exploração sexual comercial de crianças e de adolescentes.
Por sua extrema complexidade, o tema da violência sexual, em suas diferentes formas de manifestações e danos provocados em crianças e adolescentes tem despertado as Ciências Sociais, a Psicologia e o Direito para questões que levem a compreensão do fenômeno nas suas diferentes facetas.
A violência é um fenômeno antigo, produto de relações sociais construídas de forma desigual e geralmente materializada contra aquela pessoa que se encontra em alguma desvantagem física, emocional e social. Historicamente, a violência tem sido denunciada no ambiente doméstico/familiar contra mulheres, crianças e adolescentes de ambos os sexos, sendo que as pesquisas5 têm confirmado que a incidência é maior entre meninas e mulheres, daí a questão de gênero ser compreendida como um conceito estratégico na análise do fenômeno. Também tem sido denunciada em outros lugares socialmente construídos: na rua, no ambiente institucional e nas redes de prostituição (tanto nas mais economicamente poderosas, quanto naquelas mais domésticas).
Dada a complexidade que envolve o tema da violência sexual ela deve ser compreendida nos seus aspectos sociais, culturais, políticos, econômicos e jurídicos. A violência sexual pode ocorrer no ambiente intrafamiliar, quando há relação de parentesco entre vítima e agressor e extrafamiliar, quando não há uma relação de convivência familiar entre agressor e vítima. A exploração sexual comercial ocorre em redes de prostituição, pornografia, redes de tráfico e turismo sexual. A violência intrafamiliar e extrafamiliar não são, em si,
4 VAZ, Marlene. A menina e a casa – a identidade coletiva da menina empregada doméstica. 1998.
5 Vide Pesquisa sobre Vítimas de Homicídios (1996) In Banco de Dados do Movimento de Direitos Humanos – Brasil (1998) e "Uma Vida Sem Violência é um Direito Nosso" – Nações Unidas/SNDH/1998.
determinantes do ingresso da criança e do adolescente nas redes de exploração sexual comercial, mas se constituem em fatores de vulnerabilização.
A situação de pobreza, a violência doméstica intrafamiliar e extrafamiliar têm sido condição fundamental para que milhares de crianças e de adolescentes se transformem em grupos vulneráveis à exploração sexual comercial e outros tipos de violência. Neste sentido, a pobreza não somente indica exclusão social, mas possibilita a inclusão de crianças e de adolescentes na prostituição. Aponta a necessidade de uma política redistributiva de renda e de promoção de políticas sociais de proteção. É inegável que a pobreza vem não só criando espaços apropriados à exploração sexual comercial e à exploração do trabalho infantil, mas propiciando a violência em suas múltiplas facetas.
A desigualdade estrutural da sociedade brasileira é constituída não só pela dominação de classes, como de gênero e de raça. É também marcada pelo autoritarismo nas relações adulto/criança. A criança e o adolescente não têm sido considerados sujeitos, mas objeto da dominação dos adultos, tanto através da exploração de seu corpo no trabalho, quanto de seu sexo e da sua submissão. As relações dominantes de gênero e de raça, por sua vez, se evidenciam pelo fato de que a grande maioria das vítimas de exploração sexual é do sexo feminino, negras e mulatas.
A exploração sexual comercial é uma violência sexual sistemática que se apropria comercialmente do corpo, como mercadoria para auferir lucro. Mesmo inscrito como “autônomo" sem intermediários, o uso (abuso) do corpo, em troca de dinheiro, configura uma mercantilização do sexo e reforça os processos simbólicos, imaginários e culturais machistas, patriarcais, discriminatórios e autoritários. Essa "imagem de marca", parafraseando o moderno marketing, não é só característica das zonas de garimpo, mas de modernas redes que oferecem nos anúncios "corpinho de adolescente", "cara de criança", "loirinha", "moreninha". (FALEIROS, 1998)
Com a CPI da prostituição Infanto-Juvenil no Brasil, em 1993, houve um avanço na concepção desta temática, na qual a prostituição infantil passa a ser compreendida como Exploração Sexual Infanto-Juvenil, em consonância com as diretrizes do Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA (Lei Federal nº 8.089/96), que diz em seu artigo 5º:
Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade ou opressão, punindo na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais.
Nesta perspectiva, as organizações não governamentais, o governo e as agências internacionais optaram pelo termo "exploração e violência sexual contra crianças e adolescentes", e não "prostituição infanto-juvenil", por considerar a prostituição um modo de vida que abrange determinado segmento social. Só o adulto pode optar por este modo de vida. Uma criança, com menos de 12 anos de idade, e um adolescente com menos de 18 anos, não optam por se prostituírem, mas são induzidos pela prática delituosa do adulto. De acordo com os documentos da Campanha Nacional6 faz-se necessário considerar que:
6 Texto síntese do documento da Campanha Nacional Pelo Fim da Exploração, Violência e Turismo Sexual Contra Crianças e Adolescentes – Secretaria Executiva (Casa Renascer) – Natal – RN - 1997.
- a palavra PROSTITUIÇÃO oculta a natureza do comportamento sexualmente abusado, desviando o enfoque e dando uma idéia de consentimento informado, isto coloca as crianças e os adolescentes em situação de infratores em lugar de vítimas;
- o caráter substantivo da exploração sexual está dado pelo caráter de "dominação”, na relação social e invisível que se estabelece entre explorado e explorador. A relação de poder muitas vezes se baseia na violência individual mas, em geral, responde a uma construção social que sustenta essa desigualdade, fazendo socialmente aceitável a condição de gênero e de estratificação sócio-econômica. São estes sistemas de estratificação social que fazem com que a desigualdade seja aceita naturalmente; a exploração sexual não se dá exclusivamente nos setores mais pobres – ela perpassa todas as classes sociais. O que é diferente por extratos é o controle social e a visibilidade dessas formas cotidianas de exploração.
De acordo com este marco, o conceito de exploração sexual inclui o abuso sexual, as diversas formas de prostituição, o tráfico e venda de pessoas, todo tipo de intermediação e lucro com base na oferta/demanda de serviços sexuais das pessoas, turismo sexual e pornografia infantil.
A exploração sexual pode ser explicada a partir de quatro eixos fundamentais: classe social, gênero, etnia e relação adultocêntrica. (SAFFIOTI - 1995)
O Congresso de Estocolmo, em 1996, marca um novo momento da historia no combate a Exploração Sexual Comercial de Crianças, no mundo, e teve como preocupação central construir um referencial que, estrategicamente, colocasse o fenômeno numa dimensão dialética, o qual deverá ser analisado do ponto de vista histórico, cultural, econômico, social e jurídico.
A Agenda de Ação de Estocolmo (1996) define que a exploração sexual comercial infantil é todo tipo de atividade em que as redes, usuários e pessoas usam o corpo de um menino, menina ou de adolescente para tirar vantagem ou proveito de caráter sexual com base numa relação de exploração comercial e poder e declara que a exploração sexual comercial de crianças e adolescentes é um crime contra a humanidade.
1.2. DEFINIÇÃO TEÓRICA DAS MODALIDADES DE EXPLORAÇÃO SEXUAL E SUAS FORMAS DE EXPRESSÃO NA REALIDADE BRASILEIRA
A exploração sexual comercial de crianças e de adolescentes, é compreendida neste estudo através de quatro modalidades: Prostituição Infantil, Pornografia, Turismo Sexual e Tráfico. 1.2.1. EXPLORAÇÃO SEXUAL COMERCIAL7
A exploração sexual se define como uma violência contra crianças e adolescentes, que se contextualiza em função da cultura (do uso do corpo), do padrão ético e legal, do trabalho e do mercado. Operacionalmente, a exploração sexual se traduz em múltiplas e variadas situações que permitem visualizar as relações nelas imbricadas e as dimensões que as
7 Leal, Maria de Fátima P. e César, Maria Auxiliadora. (orgs.) Indicadores de Violência Intrafamiliar e Exploração Sexual Comercial de Crianças e Adolescentes. (Relatório Final da Oficina). CESE – MJ/SNDH/DCA – FCC –CECRIA. BRASÍLIA, 1998.
contextualizam. A exploração sexual de crianças e adolescentes é uma relação de poder e de sexualidade, mercantilizada, que visa a obtenção de proveitos por adultos, que causa danos bio-psico-sociais aos explorados que são pessoas em processo de desenvolvimento. Implica o envolvimento de crianças e adolescentes em práticas sexuais, através do comércio de seus corpos, por meios coercitivos ou persuasivos, o que configura uma transgressão legal e a violação de direitos e liberdades individuais da população infanto-juvenil.
Deve-se também considerar o fascínio que esta atividade exerce sobre alguns ou algumas adolescentes. A atividade sexual comercial, além de se apresentar como alternativa de sobrevivência, implica relações psicossociais e culturais destas crianças e adolescentes no meio familiar e social em que estão inseridas.
Diante da complexidade do fenômeno os pesquisadores e profissionais devem fazer um esforço para dar à análise e à intervenção, direções mais claras, incluindo os vários aspectos da problemática, pois a questão da exploração sexual de crianças e adolescentes não se coloca apenas como um problema econômico, mas como uma questão cultural e política da sociedade, ou seja, sua visão e exercício da sexualidade. Nesta relação estão implicados os valores e desejos de indivíduos, socialmente construídos, numa sociedade machista e consumista de imagens do corpo da mulher como objeto sexual.
1.2.2. PROSTITUIÇÃO INFANTIL
A prostituição é uma forma de exploração sexual comercial, ainda que seja uma opção voluntária da pessoa que está nesta situação. A prostituição feminina, no mundo adulto, abre um campo para o debate sobre a sua natureza, onde intervêm diversas disciplinas (Filosofia, Ética, Psicologia, Sociologia e aspectos jurídicos). As crianças e adolescentes por estarem submetidos às condições de vulnerabilidade e risco social são consideradas prostituídas(os) e não prostitutas(os). A prostituição consiste numa relação de sexo e mercantilização e num processo de transgressão. CEDECA/BA 1995.
Também considerada uma forma de escravidão moderna e socialmente aceita, e há quem sustente que esta profissão padece das mesmas condições de subordinação e dependência que qualquer outro trabalho e por isso que deve ser garantido em suas formas. (Associação
Nacional de Prostitutas do Brasil – GABRIELA LEITE)
De acordo com o BICE8, 1996, quando se trata de crianças e adolescentes, de pessoas em processo de crescimento e desenvolvimentos, a prostituição não pode ser entendida como qualquer outro trabalho, porque implica em deteriorização física e psicológica da pessoa, afeta sua individualidade, sua satisfação sexual e sua integridade moral.
A prostituição pode ser concebida como uma construção social reveladora de práticas, idéias, comportamentos e atitudes que desconhecem os mais elementares direitos humanos e perpetua a dominação do homem sobre a mulher e dos mais poderosos sobre os mais despossuídos. Esta forma de troca de favores sexuais converte a pessoa prostituída em produto de consumo, organizado em função dos princípios econômicos de oferta e da demanda.
De acordo com o IIN – Instituto Interamericano del Niño a prostituição infantil é um tipo específico de exploração sexual, de caráter sexual comercial, que se relaciona com o grupo familiar, com os "protetores" e os clientes. Geralmente tem antecedentes prévios de abuso sexual não comercial; é um fenômeno multicausal mais não são fatores determinantes. É a idéia de processo, no qual as crianças convivem com diversos espaços sociais: a família e suas características, a rua e o próprio ambiente de exercício da prostituição; é a que onde se vai produzindo as mudanças e as formas de relacionar com os espaços e a percepção deles/delas mesmas. O contexto maior é o que facilita ou dificulta este processo, tais como a legislação, o perfil dos clientes, as oportunidades escolares, etc, assim como a dimensão de gênero e de poder que estão facilitando transformar as meninas em objeto de prazer, de violência e abuso de poder por parte dos homens adultos.
O art.227, parágrafo 4º, da Constituição Federal, afirma que a lei punirá severamente o abuso, a violência e a exploração sexual de criança e adolescente, embora ainda não exista uma lei regulamentando esse dispositivo que possa realmente "punir severamente" a exploração sexual
1.2.3. PORNOGRAFIA INFANTIL9
Definir pornografia infantil é difícil, porque os conceitos de criança e pornografia diferem de país para país e referenciam convicções morais, culturais, sexuais, sociais e religiosas que nem sempre se traduzem nas respectivas legislações.
Atualmente, a pornografia infantil é definida como "todo material áudio-visual utilizando crianças num contexto sexual", ou, segundo a INTERPOL a "representação visual da exploração sexual de uma criança, concentrada na atividade sexual e nas partes genitais dessa criança" Para os especialistas participantes do Encontro sobre Pornografia Infantil na Internet, realizado em maio desse ano, em Lyon/França, significa: "uma exposição sexual de imagens de crianças incluindo fotografias de sexo explícito, negativos, projeções, revistas, filmes, vídeos e discos de computadores".
Segundo o Projeto de Protocolo Facultativo à Convenção dos Direitos da Criança "Por utilização de crianças na pornografia se entende comercialização/tráfico ou difusão, ou a produção ou posse(para fins de comercialização/tráfico, difusão ou outro fim ilícito)de quaisquer materiais que constituam uma representação de uma criança realizando atos sexuais explícitos ou representando como participante neles (ou utilizando) em uma atividade sexual (explícita) ou qualquer representação (ilícita) do corpo ou de parte de uma criança, cujo caráter dominante seja a exibição com fins sexuais (entre outras coisas, incentivar a prostituição infantil e a utilização de crianças na pornografia, inclusive no contexto do turismo sexual que afeta às crianças)".
A produção pornográfica utilizando crianças e adolescentes constitui exploração sexual e são considerados exploradores os produtores (fotógrafos, videomakers), os intermediários (aliciadores e pessoas de apoio), os difusores (anunciantes, comerciantes, publicitários) e os colecionadores ou consumidores do produto final. A maioria desses envolvidos são
9 Texto extraído do artigo: Adolescentes e a Maioridade Penal – Inimputabilidade. Hélia Barbosa, Coordenadora do CEDECA-BA, 1999
pedófilos. Mas, entre os consumidores encontram-se também aqueles que, por já terem acesso a toda a gama de pornografia adulta, buscam material mais estimulante na produção que utiliza crianças e adolescentes.
A pornografia infanto-juvenil causa danos às vítimas por exposição, situação que leva crianças e adolescentes a acreditarem, quando seduzidas, que essa atividade é "normal". As crianças e adolescentes utilizados na produção de material pornográfico passam a associar o ato sexual à violência, à força e à exploração e distorcem seu comportamento diante das questões sexuais, tornando-se adultos incapazes de se relacionarem afetiva e sexualmente. Outro risco muito grande, é que as vítimas de abuso e exploração sexual poderão se transformar em autores dos mesmos atos sofridos.
A criminalização da pornografia é contemplada no art.234 do Código Penal: "fazer, importar, exportar, adquirir ou ter sob sua guarda, para fim de comércio ou distribuição ou de exposição pública, escrito, desenho, pintura, estampa ou qualquer objeto obsceno.".
Os arts. 240 e 24l do Estatuto da Criança e do Adolescente se referem à pornografia: "produzir ou dirigir representação teatral, televisiva ou película cinematográfica utilizando-se de criança ou adolescente em cena de sexo explícito ou pornográfica" e "fotografar ou publicar cena de sexo explícito ou pornográfica" são crimes passíveis de reclusão de um a quatro anos. Ainda assim, trata-se de penas relativamente brandas.
1.2.4. TURISMO SEXUAL
Turismo sexual é a exploração de crianças e adolescentes por visitantes, em geral, procedentes de países desenvolvidos ou mesmo turistas do próprio país, envolvendo a cumplicidade, por ação direta ou omissão de agências de viagem e guias turísticos, hotéis, bares, lanchonetes, restaurantes e barracas de praia, garçons e porteiros, postos de gasolina, caminhoneiros e taxistas, prostíbulos e casas de massagens, além da tradicional cafetinagem (Banco de Dados – CECRIA, 1996)
Não se pode reduzir a exploração sexual ao sexo-turismo que estigmatiza o “outro”, o estrangeiro como único agressor, colocando-nos de fora da questão, quando sabemos que nem todos os turistas estrangeiros são abusadores sexuais, que nem todos os turistas abusadores são estrangeiros. (...) É preciso, ainda, situar o conceito de exploração sexual em diferentes contextos culturais, ou seja, onde e como a sexualidade é concebida e exercida. Por exemplo, o turismo sexual, apesar de sempre perverso é vivenciado diferentemente segundo a cultura do agressor e mesmo a da(o) jovem explorada(o).10
1.2.5. TRÁFICO (PROSTITUIÇÃO)
De acordo com o Código Penal Brasileiro, o tráfico é a promoção da saída ou entrada de crianças/adolescentes do Território Nacional para fins de prostituição. (CP 231, ECA, 83, 84, 85, 251)
10 LEAL, Maria de Fátima P. e CÉSAR, Maria Auxiliadora (Orgs). Indicadores de Violência Intrafamiliar e Exploração Sexual Comercial de Crianças e Adolescentes. Relatório Final da Oficina, CESE/MJ/SNDH/DCA/FCC/CECRIA, Brasília, 1998.
As pesquisas, recentemente realizadas, sobre exploração sexual comercial, abuso sexual e violência doméstica possibilitam listar algumas palavras chaves que ganham importância na compreensão do fenômeno e dos conceitos .
As palavras chaves mais importantes identificadas no conjunto dos conceitos foram: direitos, poder, dominação, danos, gênero, classe social, etnia, violência, patriarcalismo, preconceito, seqüelas, transgressão, controle, valor de troca e de uso, vitima/vitimizado, agredido/agressor, violado/violador, abusada/abusador, cliente/usuário, dentre outros.
Estas palavras podem transformar-se em categorias ontológicas, ou seja, em mediações concretas de análise e intervenção da realidade em diferentes setores ou áreas do conhecimento teórico-científico, por exemplo, adotando algumas destas categorias numa perspectiva clínica, psicossocial, sócio-antropológica, cultural, etc.
No entanto, o objetivo aqui não é traduzir a erudição acadêmica que requer tais conceitos, mas, de acordo com o Congresso de Estocolmo, estabelecer um conceito ético e normativo que possibilite uma mediação concreta da teoria com a realidade histórica, isto é, um conceito teórico/metodológico/operativo, aplicável e reativo ao fenômeno da violência sexual, numa perspectiva dos direitos humanos.
O conceito sobre violência sexual não poderia ser construído com base apenas na noção simples e particularizada do crime, do ato que provocou o dano à criança e ao adolescente. Faz-se necessário compreender e explicar o fenômeno através das complexas relações que são determinadas no conjunto da sociedade.
A concepção adotada é a de que a criança e o adolescente são sujeitos de direitos, desta forma, se considera a lei o instrumento de combate à violação de direitos, através da regulação e coibição à violência praticada pelo violador e pela sociedade.
Entende-se que a lei oferece condições objetivas para que a sociedade possa avaliar a efetividade ou a impunidade da ação legal e governamental, em relação ao enfrentamento, combate e prevenção da violência sexual.
Nestes termos, articular a noção de direitos x violação sexual possibilita a delimitação do público alvo das políticas sociais para a viabilização da prevenção, proteção, defesa e atendimento à criança e ao adolescente, conforme prevê o ECA e a legislação internacional, através da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Portanto, construir o conceito sobre violência sexual requer uma análise articulada das dimensões abaixo relacionadas.
1.3. ESTUDO DAS DIMENSÕES PARA COMPREENSÃO E EXPLICAÇÃO DO FENÔMENO DA EXPLORAÇÃO SEXUAL COMERCIAL DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES
Neste estudo, a violência, e em particular, a exploração sexual comercial, é considerada uma violação de direitos de crianças e adolescentes, e se manifesta de forma complexa, com inúmeras interfaces que, para melhor compreensão, deverá ser analisada em suas diferentes dimensões, de forma articulada.
Histórico Estruturais (Capitalismo / Globalização) − Pobreza − Trabalho − Exclusão − Mercado − Classe Social Culturais (Multiculturais) − Gênero − Etnia − Violência − Sexualidade Psicossociais (Comportamento) − Identidade / Representação − Estigma − Vínculo
Legal − Repressão − Responsabilização
− Legislação (mecanismos)
Valores
(Ética) − Sociedade Capitalista (reprodução social) − Imaginário (cultura/mídia)
Política (Políticas Públicas)
– Estado (direito/liberal)
– Sociedade Civil (ONG’s/Redes/Comissões) – Democracia (Direitos Civis, Políticos) – Cidadania (Representação / Participação)
Dimensões
Trata-se de um problema mundial e conforme mencionado, anteriormente, está presente em todas as classes sociais. Por ser ilegal e clandestino é um fenômeno ainda com pouca visibilidade e difícil de ser quantificado. No entanto, informações, depoimentos, denúncias, pesquisas e estudos permitem, por um lado, uma descrição qualitativa e preliminar da dinâmica do problema e, por outro, um aprofundamento de sua compreensão para desencadeamento de ações governamentais e não governamentais com vistas ao enfrentamento do fenômeno, em nível nacional.
O estudo da dimensão histórico estrutural, a partir da análise do capitalismo contemporâneo, impõe compreender o impacto da crise do capitalismo, no contexto da globalização, e seus efeitos nas relações de trabalho, na organização dos blocos econômicos, na geração de novas pobrezas, agudização das desigualdades sociais, exclusão social e de novas formas de trabalho (flexibilização da mão-de-obra).
No processo de globalização, a violação de direitos não se dá apenas na relação de trabalho, isto é, na venda e troca da força de trabalho, mas envolve outras categorias como gênero, etnia, sexualidade e violência.
Neste contexto, quando a exploração sexual comercial de crianças e adolescentes é explicada através das relações de mercado, ela são consideradas como objetos e mercadorias exploradas pelas redes comerciais de sexo (redes hoteleiras, taxistas, etc.). Este é um fenômeno que está diretamente relacionado com a obtenção de lucro.
A inserção de crianças e adolescentes nessas redes, para alguns pesquisadores, ocorre em função da pobreza, isto é, as condições econômicas são determinantes. Por outro lado, existem pesquisas que ampliam essa discussão, indicando a violência doméstica como importante fator de inserção de crianças e adolescentes na prostituição.
Outras correntes associam questões relacionadas com a sexualidade como mediadoras dessa inserção. Por exemplo, a experiência de ONGs tem apontado que determinadas meninas também sentem prazer nessa relação, enquanto prática sexual, identificada no lugar cultural e particular de sua experiência, enquanto ser histórico e social.
De acordo com pesquisas realizadas na América latina e Caribe11, muitas meninas afirmam
que não gostariam de sair da prostituição, mas, sobretudo, terem seus direitos "trabalhista" garantidos.
Outro dado importante é a cultura de consumo ou a cultura de massa, frente a indústria cultural que impõe valores, padrões e estilos de comportamentos massificados, produzindo nos sujeitos, grupos e classes sociais, desejos de inclusão social, a partir do consumo.
Nas trocas de experiências junto as ONGs especialistas12 na área do turismo sexual tem
evidenciado, nas falas das meninas, a necessidade de consumo (roupas de marca, etc.) e acesso a lugares de lazer e diversão aos quais normalmente não têm acesso, em função de seu padrão sócio-econômico, o que demonstra que a categoria de exclusão social se dá, não apenas na relação de mercado, mas também nas relações de gênero, etnia, raça (aspectos culturais) e pobreza.
A dimensão cultural/multicultural13 (gênero/etnia/raça) tem sido debatida amplamente pelos
movimentos feministas, que têm considerado a relação de poder e de gênero como uma forma histórica e temporal da relação de dominação entre os sexos, que situa a mulher num plano inferior ao homem e estabelece o controle de sua sexualidade em função da família, da procriação e da reprodução (ROMANI, 1981).
Para GAULE RUBIN14 a perspectiva é descontruir o conceito de gênero a partir de uma noção
andrógina, sem gênero, mas com sexo, para o refinamento do entendimento da violência em
11 Vide documento IIN – 1999 nos anexos.
12 Oficina de Indicadores de Violência Intrafamiliar e Exploração Sexual Comercial de Crianças e Adolescentes, CECRIA, Brasília, 1998 e Encontro de Especialistas em Programas contra a Violência Sexual de Crianças e Adolescentes, Pirinópolis, 1997.
13 Multiculturalismo designa a formação e os processos simbólicos que estão nas origens das identidades; segundo Charles Taylor a identidade seria formada pelo reconhecimento (HEGEL), ou seja, o reconhecimento entre iguais o que significa nas sociedades modernas dignidade/autenticidade em oposição à honra ( que representava nas sociedade tradicionais a identidade). O pertencimento cultural na sociedade moderna é um pressuposto absoluto pois remete ao conteúdo universalista da democracia liberal. SOUZA, Gesse – Multiculturalismo, racismo e democracia pg 23 a 35 in: Multiculturalismo e Racismo uma Comparação Brasil e USA – Brasília, Palelo 15, 1997. No contexto da sociedade contemporânea o multiculturalismo pode ser compreendido a partir das categorias de gênero, etnia, violência e outros fenômenos socioculturais resultado das mudanças sócio-estruturais.
14 RUBIN, G – The Traffic in Women: notes for a Political Ecomony office Sex in REITER, R. (org) Towards en Anthopology of Women – Nova York: Colombia Universty Press. Versão em português 1993.
todas as suas formas (violência Intrafamiliar, extrafamiliar, as relações homossexuais, violência entre meninos/meninas e a violência adultocêntrica).
No contexto das relações/vínculos, estabelecidos pelos sujeitos prostituídos, existem diferentes formas de a violência se materializar. Umas são permanentes, outras provisórias. Por exemplo, no fenômeno da exploração sexual comercial, em qualquer contexto, a violência é permanente.
No contexto da dimensão psicossocial, que se traduz pelo comportamento mediado pelos vínculos e identidade desse grupo social. As crianças e os adolescentes são fragilizados pelo não prestígio e não legitimação de seu grupo, em função do que a sociedade considera como aceito. A reposta da sociedade a esses grupos se dá pela estigmatização e exclusão. Segundo ERIKSON, o permanente estado de estigmatização de um grupo social o leva a crer que ele é exatamente como está sendo rotulado, gerando um apartheid sócio/urbano, onde se constrói e são constituídas lógicas distintas em territórios diversificados, em que a relação de poder se manifesta numa clara relação de conflito, seja entre policiais, gigolôs, colegas, etc. Nesta perspectiva, trabalhar a questão da violência enquanto fator de conflito é fundamental.
Para compreender a dimensão dos valores/ética cabe remetê-la à análise do processo cultural de mercantilização das relações sociais, em quase todas as sociedades, prevalecendo a lógica do mercado e a valorização do consumo.
Neste contexto, o corpo infanto juvenil é mais um produto colocado no mercado globalizado do sexo, onde o marketing e a publicidade, de um modo geral, se encarregam de fabricar a imagem da mulher jovem e mulata, direcionada ao turismo sexual.
Geralmente a imagem produzida, cristaliza a erotização de forma explicita ou subliminar, através de ícones e símbolos que representam uma ingenuidade ou pureza da infância e juventude, nos programas de televisão, outdoor, internet, etc.
A erotização, segundo GIDDENS15, pode fortalecer nas sociedades machistas desejos que
vão se internalizando de tal maneira, que é preciso descarregar esta energia erótica numa dada prática sexual, o que historicamente era realizada em prostíbulos, hoje existem outros estabelecimentos e formas sofisticadas , envolvendo crianças e adolescentes, como: a pornografia na internet; o turismo sexual (folders, books, etc.); os classificados de jornais e outros meios de comunicação, ligados em redes globalizadas do sexo, os quais se constituem em verdadeiros espaços de busca sexual e erotismo.
Há, portanto, um processo de sofisticação da produção da imagem infanto-juvenil erotizada, através de peças publicitárias, distribuídas no meio turístico e nas redes de diversão, conforme denunciou/demonstrou a ECPAT no Congresso de Estocolmo, em 1996.
Nesta direção, pensar a dimensão dos valores/ética significa descontruir o discurso/imagem do abuso e da exploração sexual/erótica de crianças e adolescentes, veiculados e cristalizados transculturalmente pela massmídia, que favorece a formação de um imaginário
que fortalece a idéia da sexualidade e sensualidade infanto-juvenil para fins de exploração comercial (pornografia e pedofilia).
Discutir as questões de valores/ética, no conjunto da sociedade capitalista, para entender a emergência da exploração sexual comercial, exige a compreensão de como esta sociedade contemporânea reproduz as relações sociais, contraditórias no campo da relação capital e trabalho e no campo da sua própria subjetividade. Para LEAL e CÉSAR, nas relações capitalistas, o sexo é, ao mesmo tempo, um valor de uso e um valor de troca e passa a ser um bem mercantilizado, um intercâmbio comercial. De forma globalizada, isso só poderia existir, se não houvesse um imaginário que o legitimasse mesmo de forma contraditória. Neste sentido, cabe salientar os estudos sobre o processo da globalização da sociedade capitalista salientam o surgimento da globalização16 de mercados da contravenção ou
sub-culturies: o mercado de drogas, sexo, tráfico de crianças e mulheres, remédios, e de armas, dentre outros, fundamentados na lógica de lucro, poder e exploração do capitalismo contemporâneo, ferindo os princípios soberanos da ética do direitos humanos.
A dimensão legal, constitui-se em uma noção/instrumento fundamental para estabelecer estratégias de repressão e responsabilização dos crimes cometidos contra crianças e adolescentes. Sabe-se que é histórico, no imaginário da sociedade, a importância da responsabilização do agressor ou violador dos direitos das crianças e dos adolescentes, frente ao crime que cometeram. No entanto, as instituições jurídicas têm demonstrado muitas contradições e falhas no seu sistema de repressão e responsabilização, em função do autoritarismo e da burocracia, sendo a mais grave - a impunidade -, a exemplo do massacre das crianças de Cuiu Cuiu no Pará, os massacres de Carandirum e Vigário Geral e os massacres dos trabalhadores sem terra, em Curumbiará/RO. Todos impunes!
Acrescente-se à questão da legislação a cultura da corrupção, impregnada no sistema burocrático da Instituição, pela existência de profissionais ligados às redes de contravenção, favorecendo a impunidade dos crimes, como os já citados anteriormente, a exploração sexual comercial de crianças e de adolescentes, dentre outros.
Se por um lado esta instituição sofre com a existência de micro-poderes, envolvidos com a corrupção, também coexistem setores que lutam pelo estabelecimento da justiça. Tem-se, inclusive, conhecimento da existência de um grupo de legisladores que está estudando mudanças para o Código Penal, a própria promulgação do ECA e de outras normativas nacionais e internacionais que se constituíram como discurso hegemônico (legitimador dos direitos humanos) no combate a exploração sexual comercial e abuso de crianças e adolescentes. (vide legislação Anexo 7)
A sociedade tem se mobilizado no sentido de que o discurso legal não se constitua apenas na repressão, mas em um conjunto de medidas preventivas e de desmobilização da ação do
16 VIERIA; LISZT, Cidadania e Globalização – Rio de Janeiro: Record, 1997; DOWBOR, Ladslau, IANNI; Otavio – Desafios da Globalização – Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 1997; IANNI, Otavio – A Sociedade Global, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999; KURZ, Robert – O Colapso da Modernização: da derrocada do socialismo de caserna à crise da economia mundial, 1993; HOBSBAW, Erik – A Era dos Extremos – São Paulo – Companhia das Letras – 1995.
agressor, nos locais onde se estabelece o conflito (família, comunidade, escola, trabalho, rua) para o enfrentamento do abuso e da exploração comercial de crianças e adolescentes. A violência não pode ser entendida como uma ação localizada, como ato puro do crime.Ela deve ser vista como um processo, ou conjunto de ações encadeadas em redes que se articula de forma permanente e temporária. Por isso, entendê-la a partir da idéia de ciclo/rede possibilita traçar o desmoronamento das redes de exploração sexual comercial e negociar os conflitos, a partir da identificação dos focos e dos diferentes sujeitos e instituições (formais ou não) envolvidos.
Os órgãos de segurança pública, responsáveis pela execução da lei, têm atuado como "protetor", mas sobretudo, têm sido impotentes frente a desconstrução da violência na sociedade. Existem situações onde o cidadão é desrespeitado duplamente, pela instituição policial/judiciária que o atende e pelo próprio agressor.
A dimensão das Políticas Públicas, para o entendimento do fenômeno da exploração sexual comercial de crianças e adolescentes, se situa na capacidade de o governo e a sociedade civil promoverem a prevenção, o atendimento e a defesa de crianças e adolescentes, no âmbito da política de garantia e defesa de direitos.
Este é um grande desafio, tendo em vista que as respostas governamentais são muito frágeis, frente a complexidade do fenômeno. As pesquisas demonstram que a hegemonia das ações de enfrentamento tem como protagonista as ONGs, que se mobilizaram, historicamente, para a inclusão da temática na agenda do governo. Isso aconteceu em função de uma articulação nacional, ampliada por setores da sociedade civil, e pelos parlamentares, visando o fortalecimento de uma gestão pública/privada voltada para o enfrentamento da problemática.
A questão de fundo é que o processo de incorporação das necessidades sociais e culturais das crianças e dos adolescentes, ainda são respondidas pelas instituições através de programas e projetos isolados, não se constituindo em políticas públicas, onde recursos financeiros, capacitação, controle e desempenho são considerados no planejamento das políticas sociais do governo e municípios.
A dimensão das políticas públicas, na discussão teórica da exploração sexual comercial, é de grande importância, porque representa estrategicamente, o enfrentamento do fenômeno pelo Governo, possibilitando a superação das dificuldades encontradas na gestão das políticas públicas para a garantia e defesa dos direitos de crianças e adolescentes.
As categorias participação, parceria, autonomia e descentralização das ações do governo e da sociedade constituem-se em estratégias para a democratização do espaço societário e o combate à violação dos direitos da criança e do adolescente. Entretanto, faz-se necessário um exame profundo destas estratégias, tendo em vista que o fenômeno da exploração sexual comercial está sendo enfrentado enquanto política focal, numa estrutura estatal que não administrou, ainda, as reformas para consolidar o processo de municipalização/ descentralização das políticas, o que compromete, em muito, a implementação da política de defesa e garantia dos direitos da criança e do adolescente.
Nesta direção, em algumas regiões brasileiras, em especial na região Centro-Oeste e Nordeste, as ONGs e setores governamentais têm desenvolvido como estratégia, organizar-se em redes para uma articulação local, no organizar-sentido de inorganizar-serir o fenômeno, com a especificidade que lhe é inerente, no sistema de atendimento das políticas públicas.
Eis aí um grande desafio que estas organizações têm pela frente, haja visto que o sistema capitalista contemporâneo, não possibilita (pelas desigualdades sociais, causada pela elevada concentração de renda e a lógica de mercado) a garantia de políticas sociais com direitos. Geralmente, o que ocorre é um excesso de controle sobre a sociedade, pela máquina estatal, ao invés de um processo claro de distribuição de bem sociais sob a fiscalização permanente dos mecanismos de participação da sociedade.
Nesta perspectiva, a cidadania é um conceito importante na construção da garantia de direitos, enquanto instrumento de ampliação da participação da sociedade e de instrumento de devolução da condição de sujeito, ao legitimar a fala dos violados através do fortalecimento de sua participação na sociedade organizada. Neste sentido, a criança e o adolescente, violados sexualmente, devem ser mobilizados para construir junto com sociedade e o governo, o espaço de sua cidadania.
1.4. FORMAS DE EXPRESSÃO DAS MODALIDADES DA EXPLORAÇÃO SEXUAL COMERCIAL DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES NA REALIDADE BRASILEIRA A exploração sexual comercial é um fenômeno que se apresenta de forma diversificada e particularizada dentro de uma mesma região e também apresenta diferenças entre as regiões, conforme mostra o mapa, abaixo.
Norte - Exploração sexual (garimpos, prostíbulos, portuária, cárcere privado – fazendas e garimpos); prostituição em estradas e nas ruas, leilões de virgens. Nordeste - Turismo sexual - Exploração sexual comercial em prostíbulos - Pornoturismo - Prostituição de meninas e meninos de rua
- Prostituição nas estradas Centro-Oeste
- Exploração sexual comercial em prostíbulos
- Exploração sexual comercial nas fronteiras/ redes de narcotráfico (Bolívia, Brasília, Cuiabá e municípios do Mato Grosso)
- Prostituição de meninas e meninos de rua
- Rede de prostituição (hotéis, etc.) - Prostituição através de anúncios de
jornais
- Turismo sexual, ecológico e náutico - Prostituição nas estradas
Sudeste
- Pornoturismo
- Exploração sexual comercial em prostíbulos/ cárcere privado
- Exploração sexual comercial de meninos e meninas de rua - Prostituição nas estradas
Sul
- Exploração sexual comercial de meninos e meninas de rua/ redes de narcotráfico
- Denúncia de tráfico de crianças - Prostituição nas estradas
A seguir apresentaremos algumas das formas de como este fenômeno se manifesta no Brasil, as atividades econômicas a que estão relacionadas e como são formadas as redes de exploração sexual comercial de crianças e adolescentes.
A primeira forma de expressão da exploração sexual de crianças e adolescentes é através de prostíbulos fechados, principalmente onde há um mercado regionalizado com atividades econômicas extrativistas em garimpos e que se apresenta sob formas bárbaras, como cárcere privado, venda, tráfico, leilões de virgens, mutilações e desaparecimento. Prostituição nas estradas (postos de gasolina) e portos marítimos.
A segunda assinala a violência sofrida por crianças e adolescentes em situação de rua. Geralmente saem de casa, onde foram vítimas de violência física e/ou sexual ou foram submetidas a situações de extrema miséria ou negligência e passam a sobreviver nas ruas usando o corpo como mercadoria para obter afeto e sustento. Trata-se, principalmente, de adolescentes do sexo feminino, sendo comum também, entre jovens do sexo masculino. Esta é uma situação observada nos grandes centros urbanos e em cidades de porte médio. A terceira inclui o turismo sexual e a pornografia, principalmente nas regiões litorâneas de intenso turismo, como as capitais da Região Nordeste do país. É marcadamente comercial, organizada numa rede de aliciamento que inclui agências de turismo nacionais e estrangeiras, hotéis, comércio de pornografia, taxistas e outros. Trata-se de exploração sexual, principalmente de adolescentes do sexo feminino, pobres, negras ou mulatas. Inclui o tráfico para países estrangeiros.
A quarta é o “turismo portuário e de fronteiras, que acontece em regiões banhadas por rios navegáveis da Região Norte, fronteiras nacionais e internacionais da Região Centro-Oeste e zonas portuárias. Essa prática está voltada para a comercialização do corpo infanto-juvenil e começa a desenvolver-se para atender aos turistas estrangeiros. Mas é a própria população local a principal usuária da prostituição de crianças e adolescentes, nas regiões ribeirinhas. Nos portos, destina-se, principalmente, à tripulação de navios cargueiros.
As pesquisas realizadas no Brasil17, confirmam que exploração sexual de crianças e adolescentes apresenta características diversificadas e particularizada de acordo com a
17 Fontes Secundárias
• Levantamento da situação da exploração sexual infanto-juvenil na Amazônia legal Centro de Defesa do Menor/ Movimento República de Emaús e Estação Direito/Manaus, 1997.
• Prostituição e adolescência – Prostituição juvenil no interior do Pará “Trombetas e os Garimpos do Vale Tapajós”, Centro de Defesa do Menor, Movimento República de Emaús, 1997.
• Abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes na região metropolitana de Goiânia (1992-1996). Fórum Goiano pelo Fim da Exploração, Violência e Turismo Sexual, 1997.
• Exploração infanto-juvenil no Estado do Mato Grosso. PROSOL - Secretaria de Promoção Social do Estado de Mato Grosso. OIT - Organização Internacional do Trabalho/UFMT, 1998.
• Exploração sexual infanto-juvenil em Mato Grosso do Sul. IBISS Instituto Brasileiro de Inovação em Saúde Social, 1997. • Exploração sexual de meninas e adolescentes, visibilidade do problema Unidades Federadas Brasília/DF, CBIA/CECRIA,
1994.
• Exploração sexual infanto-juvenil em Salvador - CEDECA/1995.
• Exploração sexual de meninas/adolescentes, visibilidade do problema Unidades Federadas Minas Gerais, CBIA, 1995. • Criança Infeliz – Exploração sexual de crianças e adolescentes de ambos os sexos em Fortaleza/Pacto de combate ao
abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes/Centro de Referência, Estudos e Ações sobre Crianças e Adolescentes, Centro de Referência, Estudos e Ações sobre Crianças e Adolescentes, 1998.
realidade sóci)o-cultural e econômica de cada região. Se dá através da comercialização do corpo, com base numa relação de poder, e/ou coerção física e psicológica.
Essas pesquisas demonstram que, embora as meninas sejam as maiores vítimas da exploração sexual (DF,PA,BA,MG,MT,RJ) a presença de meninos explorados sexualmente tem aumentado.
A faixa etária das meninas varia de acordo com as cidades pesquisadas, conforme quadro abaixo: FAIXA ETÁRIA/GÊNERO CIDADES/ESTADOS MASCULINO FEMININO Distrito Federal -- 10 – 17 Belém/PA -- 07 – 18
Várzea Grande/MT -- Acima de 12
Cuiabá/MT -- --
Poconé -- 12
Salvador/BA -- 05 – 12
Obs.: As pesquisas demonstram que nas cidades de Poconé, Várzea Grande e Cuiabá /MT foi identificada a presença de meninos em situação de exploração sexual, porém não especifica a faixa etária. A pesquisa de Mato Grosso também não apresenta a faixa etária das meninas.
• Consulta ao Banco de Dados da Rede de Informações sobre Violência, Exploração e Abuso Sexual de Crianças e
Adolescentes – RECRIA (MJ/SEDH/DCA/CECRIA/UNICEF). Dados Pesquisados: Organizações Governamentais (35); Organizações não governamentais (68); Publicações (132); CPI's (06); Projetos/Programas (43).
• Consulta ao IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBAM – Instituto Brasileiro de Administração Municipal, ABRAPIA/RJ – Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência, ANDI – Agência de Notícias dos Direitos à Infância, Frente Parlamentar pelo Fim da Violência contra Crianças e Adolescentes e a Campanha Nacional pelo Fim da Violência, Exploração e Turismo Sexual contra Crianças e Adolescentes;
• 13 Relatórios de Pesquisa na área de exploração sexual comercial e abuso. Sendo uma pesquisa em nível nacional (UNICEF – Fundo das Nações Unidas para a Infância/1996);
• Entrevistas com 17 Agências Internacionais;
• Entrevista com a Vara da Infância e de Execuções Criminais; • Entrevista com a INTERPOL.
Quanto às atividades econômicas, que facilitam a inserção de meninas (os) na exploração sexual comercial, as pesquisas apontam:
CIDADE ATIVIDADE ECONÔMICA18
SALVADOR
Prostíbulos
Casa de massagem Turismo
Postos de gasolina
Comércio – bares/lanchonete/hotéis etc.
FORTALEZA
Rede de prostituição no centro da cidade (Cafezeira, Sapateiro, Garçons) Rede de agenciamento – complexo de produção de prostituição – Beira-mar (turismo sexual) BELO HORIZONTE Prostíbulos / Bordéis Boates Rodoviária Hotéis Narcotráfico Casa de massagens Bares Turismo DISTRITO FEDERAL Bares Boates Prostíbulos Casa de massagens Hotéis Restaurantes Salão de Beleza
Prostituição de anúncio de jornais (sistema de acompanhamento)
MUNICÍPIOS DO ESTADO DO PARÁ (08 municípios) Casas de prostituição Bares Boates Centro de lazer Hotéis Áreas de Garimpo Postos de gasolina MUNICÍPIOS DO ESTADO DO
Mato Grosso e Mato Grosso do Sul
Bares
Anúncio nos Jornais Boates
Tráfico de drogas Lazer (pescaria)
Além dos locais já listados no quadro anterior, a ABRAPIA aponta outros, conforme gráfico abaixo:
(Universo Considerado: todo o Brasil – 114 denúncias19)
Outros: locadora de carros, mineradora, escritório, INTERNET, agência de aluguel de bugres, casa de eventos, quiosque, agência de turismo, restaurante, mercearia, loja de auto-peças, oficina mecânica, posto de gasolina, fazenda, disque-sexo, abrigo evangélico, delegacia, agência matrimonial, clube, academia, agência de modelos, apart-hotel, padaria, fliperama, igreja, hospital, locadora de vídeo, agência de turismo, colégio, cassino, banca de jornal, asilo, abrigo de menores, teatro, fliperama, açougue, consultório médico, cinema, sauna, seminário abandonado, clinica médica, parque de exposições, fábrica de brinquedos, boliche, produtora de cinema, salão de cabeleireiros; agência de publicidade; cais do porto e teatro.
O quadro abaixo mostra como estão formadas as redes de exploração sexual de meninas: Residência 29,72% Ponto de concentração de crianças e/ou adolescentes 21,50% Não informado 0,09% * Outros 22,55% Bar 10,66% Boite 8,48% Praia 0,96% Casa de Massagem 6,03%
REDE DE EXPLORAÇÃO SEXUAL DE MENINAS NO BRASIL. 1. REDE DE EXPLORAÇÃO SEXUAL Boates Hotéis Sexo-turismo Garimpo Rede de motéis Casas de massagem Prostíbulos/bordéis
Gerentes/donos de hotéis/ prostíbulos Estações rodoviárias, ferroviárias Narcotráfico 2. EXPLORADOR SEXUAL (AGRESSOR) Motoristas de táxi Gigolôs Cafetinas Policial Caminhoneiro Patrão/patroa Dono de loja Parentes 3. VIOLÊNCIA / DELITOS (VINCULADOS À EXPLORAÇÃO SEXUAL) Tortura Espancamento Tentativa de assassinato Estupro Cárcere privado Seqüestro Mutilação Maus-tratos Morte Confinamento Tráfico/venda de meninas 4. SAÚDE (VINCULADOS A EXPLORAÇÃO SEXUAL) AIDS
Doenças sexualmente transmissíveis Aborto
Suicídio
Dependência Química (Drogas)
5. AÇÃO DA
POLÍCIA/JUSTIÇA (AÇÃO DE REPRESSÃO A EXPLORAÇÃO SEXUAL) Batidas, blitz Prisões Inquéritos policiais Processos judiciais 6. AÇÃO DA SOCIEDADE CIVIL Denúncias Eventos Movimentos
Atuação das ONG’s Ação do Legislativo Ação da(s) Igreja(s)
7. RELATOS DE
MENINA(S)
EXPLORADA(S)
Individual
Meninas de rua Institucionalizadas
Fonte: Contribuição de Lúcia Luís Pinto para a Oficina de Indicadores - Brasília dezembro/ 1997.
19 ABRAPIA. Campanha Nacional de Combate à Exploração Sexual Infanto-Juvenil. Período: fevereiro/97 a janeiro/99.
2. RESPOSTAS INSTITUCIONAIS: AÇÕES IMPLEMENTADAS PELO ESTADO, ORGANIZAÇÕES NÃO GOVERNAMENTAIS E AGÊNCIAS INTERNACIONAIS
2.1. CONCEITO E DEFINIÇÃO DE RESPOSTAS INSTITUCIONAIS
As respostas institucionais para o combate à violência e exploração sexual comercial de crianças e de adolescentes constituem-se em uma experiência recente no Brasil.
Podemos inferir que as respostas institucionais para o enfrentamento do fenômeno fundamentam-se em dois momentos interrelacionados: o primeiro diz respeito à institucionalização do paradigma de direitos, baseado nas normativas nacionais e internacionais; e o segundo diz respeito ao fortalecimento da política de garantia e defesa de direitos da criança/adolescente e da família, baseado em instrumentos jurídicos nacionais como o Estatuto da Criança e do Adolescente - 1989, Lei Orgânica da Assistência Social - 1993, Lei de Diretrizes e Bases - 1996, a Constituição Brasileira de 1988, a Carta de Brasília e Internacionais (Declaração dos Direitos Humanos, a Agenda de Estocolmo, a Declaração de Beijing e outros).
Para a garantia e defesa de direitos da criança e do adolescente cabe ao Estado, a família e a sociedade discutirem e trabalharem contra a violência sexual, não aceitando espaços onde ela seja praticada. Ao Estado, cabe ainda, punir os traficantes e intermediadores da exploração sexual de crianças e adolescentes, articular-se internacionalmente para a desmobilização das redes de exploração; a proteção e atendimento às pessoas vitimizadas. A inserção profissional e social é tarefa da sociedade, do Estado e das organizações não governamentais.20
Estrategicamente, o Estado de Direito constituído em 1988 tem por finalidade fortalecer o processo de representatividade do governo, através da parceria e cooperação da sociedade civil (organizações não governamentais, fóruns, movimentos sociais, associações, fundações etc.), ampliando a participação da sociedade no controle, fiscalização e execução das políticas sociais voltadas para a promoção e defesa de crianças e de adolescentes em situação de risco, com vistas à implantação da política de garantia e defesa de direitos.
A política de promoção e defesa de direitos da criança e do adolescente, além de contemplar uma rede de serviços para atender as necessidades desta população, através de políticas sociais básicas, necessita estruturar um conjunto de ações preventivas, de atendimento e responsabilização. É importante ressaltar que se trata de uma política pública e não uma política de governo, rompendo a dualidade entre o público e o privado. (CECRIA 1996)
A implementação da política de garantia e defesa de direitos, tem como eixos estratégicos a prevenção, atendimento e defesa (responsabilização), num contexto de articulação integral e intregada das ações governamentais e não governamentais (vide quadro a seguir).
20 Metodologia de Trabalho com Crianças e Adolescentes Vitimizados pela Exploração Sexual e Violência Intrafamiliar – CECRIA - 1997
Eixos CONCEITO JURÍDICO ECA Lei 8.069 de 1990 DESCRIÇÃO
Prevenção
Art. 70 – É dever de todos prevenir a ocorrência de ameaça ou violação dos direitos da criança e do adolescente.
Entende-se como prevenção simplesmente garantir direitos a crianças e adolescentes, principalmente o direito a educação com qualidade, através da Qual toda e qualquer criança e adolescente possa se conhecer, conhecer o mundo, perceber-se como cidadão e atuar como tal. A prevenção não deve privilegiar públicos específicos sob o risco de tornar-se estigmatizante e preconceituosa com as camadas populares, com as meninas negras, com homossexuais, com trabalhadores domésticos e outros segmentos discriminados na sociedade. A educação sexual, o desenvolvimento da auto-estima, o atendimento, enfim, dos direitos básicos da população infato-juvenil é sempre válido, não só na prevenção como no tratamento direto daqueles que se encontram em situação de exploração sexual. (HAZEU e
FONSECA apud BULGARELLI, 1997)
O acesso à educação com qualidade e atendimento médico/hospitalar, uma base financeira estável, espaços de lazer e de informação, garantem, sem dúvida, uma diminuição do fluxo de crianças e adolescentes em direção à prostituição (HAZEU e
FONSECA, 1997). Dar visibilidade ao fenômeno através de denúncias/ mobilização/ capacitação/ pesquisa/ publicações/ campanhas e sensibilização da sociedade, família e instituições. Atendimento
Art. 86 – A política de atendimento dos direitos da criança e do adolescente far-se-á através de um conjunto articulado de ações governamentais e não governamentais, da União, dos estados, do Distrito Federal e Municípios.
A criança e o adolescente vítimas de violência ou exploração precisam de atenção especial: ao receber uma denúncia, precisa-se, imediatamente, verificar se a vítima necessita de tratamento médico. Em seguida, o tratamento psicossocial contínuo por entidade especializada deve ser iniciado. Os dados do agressor precisam ser registrados para providenciar a responsabilização e tratamento psicossocial.
A intervenção e atendimento podem ser pensados em forma de sistema. (...) Este tipo de intervenção presume uma ação imediata, “retirando” a vítima da situação de exploração e responsabilizando o agressor. Além deste sistema há de se pensar outras estratégias que visem uma intervenção junto às crianças e adolescentes, sua família e os outros atores no espaço de exploração e violência sexual, como fiscalização, arte-educação, organização, etc.
O sistema é composto por quatro momentos: a denúncia, a recepção da denúncia, a intervenção e o encaminhamento posterior. Logo, precisamos diferenciar dois sujeitos diferentes, alvo da nossa intervenção: a vítima e o agressor. Muitas intervenções privilegiam só um dos sujeitos, o que, geralmente, tem um efeito contraprodutivo: repressão contra os agressores, que recai sobre as vítimas; atendimento às vítimas, sem responsabilizar o agressor, reforçando a cultura da impunidade, por exemplo.
Qualquer intervenção direta tem que considerar tanto a vítima quanto o agressor, o que significa que as intervenções sempre devem ser articulados: ação policial articulada com o Conselho Tutelar, trabalho de educação de rua articulado com a polícia militar e civil etc. (HAZEU e FONSECA, 1997)
Inclusão da criança e do adolescente na rede de serviços pública e privada.
Política de
Garantia e
Defesa de
Direitos
Art. 3º- A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes a pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios,todas as oportunidades e facilidades, afim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral e espiritual e social, em condições de liberdade e dignidade. Defesa (responsabi-lização)
Art. 98 – As medidas de proteção à criança e ao adolescente são aplicáveis sempre que os direitos reconhecidos nessa lei forem ameaçados ou violados. Responsabilizaçã o do violador, em face da lei e em função de suas práticas ilegais e proteção jurídico social da vítima.