[1]
CapftuloI
Sobre os raios que se propagam diretamente
Como acontece em todas æ ciências nas quais a geometria é aplicada à matéria, æ de-monstrações relativas
à
Óptica sâo
fundamentadas sobre veidades tiradasda
expe-riência-
tais como a de que os raios de luz se propag¿rm em linha reta; que os ângulosde reflexão
e
de incidência sÍio iguais; e que nas refraçõeso
raio se desvia de acordocom
a regra dos senos (agoratão
conhecida) e que não é menos certa do que as pre-cedentes.A
maior parte daqueles gue escreveram sobre as diferentes partes da Óptica conten-taram-secom
pressupor essas verdades. Mas alguns mais curiosos quiseram pesquisar sua origem e as suas causas, considerando-æ elas próprias como efeitos admi¡áveis da natureza. Assim propuseram coisas engenhosas, mæ não detal tipo
que os maisinteli-gentes
não
desejem explicaçõesainda mais
satisfatórias. Queropropor
aqui
o
quemeditei
sobre esse assunto,para
contribuir
tanto
quanto
possoao
esclarecimento dessaparte da
CiênciaNatural, que
com razlo
é considerada uma das mais difíceis. Reconheço que devomuito
àqueles que primeiramente começaram adissþar
a estra-nha obscuridade em que[2]
estavam envoltas essas coisas e a dar esperança de que elas pudessem ser explicadaspor
razõesinteligíveis. Mæ
também me espanto,por outro
lado, pois
esses mesmos quiseram freqüentemente fazer certos raciocínios pouco evi-dentes pæsarem pormuito
seguros e demonstrativos. Não se encontra pessoa nenhuma que tenha ainda explicado deforma
provável esses fenômenos primeiros e mais notá-veis daluz,
a saber:por
que ela somente se propaga seguindo linhas retas e como os raios visuais,provindo
de umainfinidade
de lugares, cn zam-se sem em nada atrapa-lharem-se uns aos outros.Tentarei
portanto
nesseliwo,
por princípios
aceitos naFilosofia
atual, dar razões mais claras e verossímeis-
primeiramente, dessas propriedades daluz
que se ptopaga diretamente;em
segundolugar,
daquela queé
refletida pelo encontro com
outros corpos. Depois explicarei os sintomas dos raios que se diz sofrerem refração passandopor
corpos diáfanos de diferentes espécies-
onde tambémtratarei
dos efeitos da re-fração no ar, levando em conta as diferentes densidades da atmosfera.Depois examinarei as causas da estranha refração de certo cristal que é
trazido
da Islândia.E,
emúltimo
lugar,tratarei
das diferentes formas de corpos transparentes erefletores pelas quais os raios são reunidos em
um ponto, ou
desviados de diferentes maneiras.Af
se verácom que
facilidade se encontram, segundo nossa nova teoria, não apenas as elipses, hipérboles e outras linhas curvas queo
Sr. DesCartes***
sutil-mente inventou para essefìm,
mæ também aquelæ que devem dar forma à superfície deum
vidro, quando a outra superfície é dada-
seja ela esférica, plana ou de qualquer forma.*
*
*
Mantivemos a grafia que Huygens dá aos nomes de pessoas em slra ob¡a. Desca¡tes real-mente se grafava des Cartes, ou, em latim, Cartesius (e não Descartius).LZ
C:ltristiaanHuygensNão
se pode duvidar que aluz
consistano
movimento de certa matéria. Se consi-derarmos a sua[3]
produção, encontraremos que na Terra são principalmenteo
fogoe
a
chamaque a
gerame
elescontêm
semdúvida
corpos quetêm um
movimentomuito
rápidô,já
qu"
dissolveme
fundem muitos outros
corpos, dos mais sólidosa Se considerarmos seus efeitos, veremosque,
quandoa luz
é concentrada, como portem
avirtude de
queimar
seParaso certamente é
um
sinalde
verda'se concebe a causa de
todo
ões daMecânica
-
e isso deve serfeito,
a menos que se lenuncie atoda
esperançade jamaiscompreender
coi
minha opiniäos.Sãgundo
essa
certo que a sensação da visão é excitada pelaimpreiøo
dealg
matéria que age sobre os nervos no fundo denossos olhos e essa é ainda uma
outra razlo
pua se crer que a luz consiste em ummo'
vimento da matéria que se encontra entre nós e os corpos luminosos.
Além
disso, quando se considera a extrema velocidade com que aluz
se espall-ra portodos os
ladose
que, quando vem de diferentes lugares, mesmototalmente
opostos' [os raios luminosos] se atravessam uns aos outros sem se atrapalharem, compreende-seque, quando
vemosum objeto
luminoso,
issonão
poderiaocorrer pelo
transportede uma matéria
que venhado
objeto
até nós, como uma flechaou
bala atravessa oar;
pois
certamente isso repugna bastantea
essas duas propriedades daluz
eprinci'
palmente
à
ultima.
Ela
se espalhaportanto
de umaoutra
manefua eo
que nos pode conduzir a compreendê-la é nosso conhecimento da propagação do som no ar.Sabemos
que,
por
meio
do
ar,
queé um
corpo invisível
e
impalpáVel'o
som sepropaga
em toda
avolta do
lugar ondefoi
produzido,por um
movimento que passaiucessivamente de
uma
[4]
partedo
ar aoutra.
A
propagação desse movimento se faz com igual velocidade para todos os lados e devem se formar como superfícies esfé¡icas que crescem sempre e que chegam aatingir
nossas orelhas. Ora, não há dúvida de que aluz
também não venhado
corpo luminoso até nós por algum movimento impresso àmatéria que está entre os dois
-
poisjá
vimoS que isso não pode ocorrer pelo transpor-te deum
corpo que pæse deum
atéo
outro.
Se a luz gasta tempo para essa passagem-
o
que vamos examinar agora-
seguir-se-á que esse movimento impresso à matérihé
sucessivoe
que,
conseqüentemente,ele
se espalha, assimcomo
o
som,por
super-flcies
epor
ondas esféricas.Eu
as chamo"ondas" por
semelhança àquelas que vemos formarem-se na água quandoaí
sejoga
uma pedra e que representam uma propagaçâ'o4 A
associaça:o entre calor e movimento das putículasjí
era então aceita por quase todos, principalmente por influência da obra de Bacon. A fonte de Huygens para essas idéias foi provavel-mente os Principia Philoxtphiae de Descãtes (nota 3),III,
$21.s
Obs"r""-re aqui a defesa do reducionismo mecanicista.
Tlatdo
Sobre aLuz
13sucessiva circular
-
embora proveniente de uma outra causa e somente em uma super-fície plana6Para
ver
se
a
propagaçãoda luz
sefaz
no
tempo,
consideremos primeiramentese há experiências que possam nos convencer do contrá¡io. Aquelas que se podem fazer
tânea, fundamentava-se,
com
razão, sobre uma experiênciamuito
melhor,tirada
dos eclipses da Lua.No
entanto, como mostra¡ei, ela nâ'o é de forma alguma convincente.Eu
propô-la+i
deum
modo
um pouco diferentedo
queo
dele, para fazer compre-ender melhor toda sua conseqüência.seja
,4
a posiçõodo
sol
e8D
uma parte daórbita ou caminho[5]
anual da Terra.ABc
é umalinha
reta que suponho cruzaro
caminho da Lua (repreæntado pelo cír-culo CD) noponto
C.t.
I
14
Christiaan Huygensnão chegará à Terra senâ'o uma
outra
hora depois. Suponhamos que nessas duas horas ela [aTerra]
tenha chegado a.E. Estandoportanto
a Terra em -É', ver'se-á a Luaeclipsa-da em C, de onde ela
partiu
uma hora antes, e ver-se-á ao mesmo tempo o Sol em.4.Pois,
estando[o
Sol]
imóvel
-
como
suponho,com
Copérnico-
e
como
aluz
sepropaga
por linhæ
retas, ele deve sempre parecer onde está7. Mas sempre se obser' vou, dizem, que a Lua eclipsada aparece no lugar daeclíptica
oposto ao Sol; e noen-tanto
ela aqui
apareceria atrás desse lugar,sob
um
ângulo GEC, que completa comAEC
dois ângulos retos. Issoé
portanto contrário
à
[6]
experiência,pois
o
ânguloGãC
seriamuito
sensível, cerca de 33 graus. Pois, de acordo oom nosso cálculo, que estáno
Tratado
sobreæ
causasdos
fenómenosde Satumo,
a
distânciaBA
enlre aTerra e
o
Sol é cerca de dozemil
diâmet¡os terrestres, eportanto
quatrocentas vezesmaior
do
que
a
distânciada Lua
(AQ,
queé
de
30
diâmetros.Portanto,
o
ânguloECB
seút aproximadamente quatrocentas vezesmaior
do
queBAE,
queé
de
cinco minutos-
ou
seja,o
caminho percorrido pela Terra em sua órbita durante duas horas-
e assimo
ângulo BCE é de quase 33 graus, assim comoo
ângulo CEG,queoultra-passa por cinco minutos.
Mas deve-se
notar
que nesseraciocínio
colocou-se uma velocidade daluz
que lhe exigeuma hora para
lazero trajeto
daqui àLua.
Se supusermos que para isso não énecessário senâ-o
um minuto
de tempo,
entãoo
ânguloCEG
não será senâ'ode
33 minutos, e se não fossem necessários senão dez segundos de tempo, esse ângulo nãose-ria
senão de seis minutos. Portanto, não éfácil
perceber pelas observações de eclipses queo
movimento
daluz
seja instantâneo, nem se podeconcluilo
de coisa nenhuma, conseqüentemente.É
verdade
que
isso
leva a
supor uma
estranha velocidade,que
seriacem mil
vezesmaior do
que ado
som. Poiso
som, segundoo
que observei, percorre cerca de 180 toesasno
tempo deum
segundoou
de um batimento arterial. Mas essa suposição nâ'o deve parecerter
nada de impossível, pois nã'o setrata
do transporte de um corpocom
tal
velocidade, masde
um movimento
sucessivo que Passade uns
aos outros. Meditando sobre essas coisas, não senti dificuldade em supor que a emanação da luz sefazia
no
tempo,
vendoque
assimtodos os
fenômenos podiam ser explicados, e que seguindo aopinião
contráriatudo
era incompreensível. Pois sempre me pareceu-
e amuitos outros,
como amim
-
que mesmoo
Sr. Des Cartes, que teveo propósito
detrata¡
inteligivelmente[7]
todos os assuntos da Física, e que certamente obteve maior sucesso nissodo
que qualquer pessoa antes dele, nada disse sobre a luz e suas proprie-dadesque não
estejacheio
de
dificuldades,
ou que
não
seja até incompreensível.7Não
,"
conhecia, na época, a aberração da luz. Este efeito produz uma alteraçäo da posiçdo aparente de uma fonte luminosa quando ela ouo
obsewador estão em movimento (o efeito éuma funçâo da velocidade relativa). Embora o Sol fosse considerado por Huygens como estando em repouso, ele não é visto em sua posiçalo "¡eal". pois há um movimento da Terra em relaçío
ao Sol. Este efeito se
soïu
ao efeito calculado por Huygens.. Sob¡e a história da descobertades-se efeito, ve¡: STEWART,
A.
B. The discovery of stella¡ aberration. Scientific american 210(3):100-8, r969.
Tmtado Sobre a
Luz
15Mas
aquilo
que emprego apenas como uma hipótese recebeu há pouco tempo uma aparência de verdade estabelecida, pela engenhosa demonstração do Sr. Romer que vou descrever aqui, esperando que elepróprio
forneçatudo
o
que deve servir paraconfi¡-mála.
Ela se baseia, como a precedente, em observações celestes, e prova nâ'o apenas que aluz
gasta tempo para sua passagem, mæ também mostra quanto tempo ela em-prega, e que a velocidade é pelo menos seis vezes maiordo
que a que acabei de dizer. Pa¡a isso ele se serve dos eclipses sofridos pelos pequenos planetas que giram emtor-no
de Júpiter,
e que freqüentemente entram em sua sombra. Eis seuraciocfnio.
Seja,4
o
Sol,BCDE
aórbita
anual da Terra,F
Júpiter, Gtr/a órbita
do maispróximo
de seus satélites(pois
este é mais adequado a esta pesquisado
que qualquer dos outros três, por causa da velocidade de sua revolução). Seja G esse satélite entrando na sombra de Júpiter, eI/
o mesmo saindo da sombra.16
Chrßtiaan HuYgensSuponhamos que, estando a Terra em ,8, algum
tempo
antes daúltima
quadratura, viu-seo
citado
satélitesair da
sombra. Sea
Terra permanecesse nesse mesmo lugar, dever-se-ia ver novamente uma emersão semelhante apôs42 horas[8]
e meia, pois esse éo tempo no qual
ele faz a volta à sua órbita e retorna à oposição ao Sol. E se a Terra permanecesse sempre emB
durante
30
revoluções desse satélite,-por exemplo, ela overia
ainda sairda
sombra após30
vezes 42 horas e meia. Mas, durante esse tempo, a Terra transportou-s e para C, afastando-se mais de Júpiter'Se
a
luz
ìmprega
tempo para
sua pÍNsagem,a
iluminação
do
pequeno planeta será percebida mais tarde em Cdo
queo
teria
sido em,B, e deve-se adiciona¡ o temPode
30
vezes42
horas e meia àquele gasto pelaluz
para atravessaro
espaçoMC,
dlde-rença entre os espaços CH eBH.
Da mesmaforma,
quando a Terra chegar aE
depoisde
b,
próxima
àbutra
quadratura, aproximando-se deJúpiter,
as imersões do satéliteG
na sombra devem ser observadas antes em -ú'do que elas teriam aparecido se a Tena tivesse permanecido emD.
Ora,
por
uma grande quantidade de obsewações, feitas durante dez anosconsecu-tivos,
descobriu-seque
essas diferenças sâ'omuito
consideráveis,de
dezminutos
eaté mais, e concluiu-se que, para atravessar
todo
o
diâmetro daórbita
anualKtr,
quc éo
dobro
da distância dãqui-ao Sol, a luz necessita de cerca de22
mtnutos detempo¡.
O movimento
deJúpiter
em suaórbita,
enquantoaTeta
passa deB
paraÇ
ou deD
pa;aE,
estâincluÍdo
nos
cálculos. Mostra-se também que nâ'o se podeatribuir
o retardamento dessas iluminações nem a antecipações dos eclipses, nem à inegularidadedo movimento desse pequeno planeta, nem à sua
excentricidade-Se considerarmos
a
vasta extensãodo
diâmetroKL,
que, segundo meus cálculos, é de uns24
ÍxI
diâmetros da Terra, conheceremos a extrema velocidade daluz.
Supo-nhamosque
KI
fose
apenas22
ml.
dessesdiâmetros.
Sendo[9]
percorridos em 22minutos,
isso corresponde amil
diâmetros emum minuto,
e
16 213 diâmetros emum
segundoou
batimento arterial,
que são mais demil
e cem vezes c€mmil
toesas;pois
o
diâmetro
da
Terra contém
2.865
léguæ das quais25
constituem um
grau' e cada légua é de 2.282 toesas, segundo a medida exata queo
Sr. Picard realizou por ordemdo
Reiem
1669. Maso
som, como disse antes, não Percorre senâ'o lS0toesasno
mèsmotempo
deum
segundo. Portanto, a velocidadedaluz
é mais de seiscentasmil
vezesmaior do
que ado
som-
o
que,no
entanto, é completamente dife¡ente de ser instantânea, pois existeaí
a mesma diferença que há entre uma coisafìnita
e umainfinita.
Como dessa maneirafoi
confirmadoo
movimento sucessivo daluz,
segue'se, comojá
disse, queele
se propagapor
ondas esféricas, assim comoo
movimento do som.Embora ambos se pareçam nisso, diferem em muitas outras coisæ, a saber: na pri-meira produção
do
movimento que oS causa; na matéria em que o movimento se pro-paga; e naforma
como ele se comunica. Sabe-se que a produçâ'odo
som éfeita
peloEO
t"-po
encontÉdo porRô'mer é excessivamente elevado. Medidas pouco posteriores, cita-das por Newton, levaram a um tempo de 7 ou Sminutosparaquealuzperconaadistânciamédia
Tmtødo Sobre ø
Luz
17súbito
abalo deum
corpointeiro, ou
de uma parte considerável, que agitatodo
o
ar contíguo. Maso
movimento da luz deve nascer como de cadaponto
do objeto lumino_ so, parapermitir
perceber todas as partes diferentes desseobjeto,
como se verá melhor em seguida. Creio que a melhor explicação para esse movimento é a suposição de que os corpos luminososlíquidos,
como a chama-
e aparentementeo
Sol e asestrelas-são compostos por partículas que nadam em uma matéria
muito
mais sutil, que as agita com uma grande rapid,ez, e asfaz
choca¡em-se contra as partículæ do éter, que as cer-cam, e que sãomuito
menoresdo
que elas. Nos sólidos luminosos, como o carvão, ou metal incandescente, [deve-se supor] que esse mesmo[10]
movimento é causado pela agitação violenta das partículasdo
metalou
da madeira, das quais as que estÍlo nasu-perfície
também batem na matéria etérea. Alémdiso,
a agitação das partículas que ge-ram aluz
deve sermuito
mais rápida e bruscado
que a que causao
som dos corpos,pois não
vemos queo
tremor
deum
corpo que soa seja capazde
fazer nascer a luz, æsim como o movimento da mão no ar näo é capaz de produzir som.se
agora examinarmos qual pode ser essa matéria em que se p¡opaga o movimentoque vem dos
corpos luminosos,e que
chamo ettheae,
ver-se-á quenÍo
é
a
mesmaque
serve para a propagaçãodo
som. Encontra-sepois que
estaé
o
próprio
ar que sentimos e que respiramos, e quando ele é retirado deum
lugar, aoutra
matéria que serve à [propagaçâ'o] daluz
não deixa de ser encontrada aí. Isso é provadoencenanio
um
corpo sonoro emum
recipiente devidro, do
qual setira
depois o ar pela máquina queo
Sr. Boyle nos forneceu, e com a qual ele fez tantas belas experiências.Fazendo-a, deve-se tomaro
cuidado de colocaro
corpo sonoro sobre algodâ'o, ou sobre penas, de modo que ele não possa comunica¡ seus tremores ao recipiente devidro
que o rn-cerra, nem à máquina(o
que tinha sido negligenciado até aqui). pois então, após haver evacuado todo o ar, nã'ose
ouve nenhum som do metal quando atingidol 0.vê-se aqui não apenas que nosso a¡, que não penetra o vidro, é amatéria através de que se propaga
o
som, mas também que nÍÍo é esse mesmo ar, mas uma outra matéria, na qual se propaga a luz; pois, tendo sido retirado o ar desse recipiente, a luz não deixa de atravessá-lo como antes.90 ét"t,
segundo Aristóteles, seriao
quinto elemento, constituinte dos céus, i¡existente nomundo zublunar. Posteriormente, principalmente pela influência de Descartes, começou-se a ima-ginar que
a
matéria que preenche os espaços celestes estaria também entremeada às pa¡tículasmateriais na Ter¡a e em todas as partes. Yer Princip.ia Philosophiae (nota 3),
II,
gg 16-20 eII,
$ 48. Como Desca¡tes e quase todos os seus coetâneos, Huygens é também ncapaz de imaginarum espaço vazro.
denso para transportar o som do sino" (meus g¡ifos). Cf. JEVONS, W.S. The principles of science. New York, Dover, 1958, p.432. A explicaçÍio de Jevons é falsa e a de Huygens é a correta. For
melhor que seja o vácuo (e o produzido por von Guericke já era suficientemente bom) o som pode
se propagar pelas partes s¡ilidas do aparelho, a menos que seja isolado at¡avés de um material näo eLístico, como o algodão.
18
Christiotn HuYgmsEsse
último
ponto é demonstrado ainda mais claramente pela I I I]
célebre experiên'cia de
Torricelli.
Nela,o
tubo
devidro
de onde sereti¡ou o
mercúrio, permanecendo completamente vazio de ar, transmite aluz
como quando havia a¡. Isso prova que seencontra
dentro
dessetubo
uma matéria diferente do ar, e que essa matéria deve haver penetradoo vidro, ou
o
mercrlrio,ou
ambos, queslo
impenetráveis ao ar. E quando, na mesma experiência, se colocaum
pouco de água acimado
mercúrio, conclui'se de modo semelhante quetal
matéria atravessa o vidro, ou a água, ou ambos.Quanto
às diferentes maneiras pelas quaisdise
que se comunicÍrm sucessivamente os movimentos do som e da luz, pode-se compreender cgmo se passa o do som, quandose considera que o ar é de natureza
tal
que pode sercomprimido
e reduzido a umespa-ço muito
menor
do
que
ocupa ordina¡iamente; e que, à medida que é comprimido, èsforça-sepor
aumentar.
Isso,juntamente com
sua
penetrabilidade,que
mantém mesmo quando comprimido, pareceprovar
queele
é feito
de
pequenos corpos que nadame
que
sâ'o agitadosmuito
velozmente namatéria
etétea, compostapor
pÍutesmuito
menores. Assim, a causa da propagação das ondas do som é o esforço que esses pequenos corpos que se entrechocam fazem para se expandir, quando estã'o um pouco mais próximos noci¡cuito
dessas ondas do que em outra parte.Mãs
a
extrema velocidade daluz,
e outras propriedades que ela possui, nâ'o pode'riam permitir
uma
tal
propagaçãode movimento, e mostralei aqui de
que maneira conceboque ela
deva serfeita,
Para isso é precisoexplicar
a propriedade dos corpos duros de transmitirem o movimento uns aos outros.Tomando-se um grande número de bolæ de igual tamanho, feitas de alguma matéria
muito
dura,
e
colocando-as emlinha
fl2f
teta, demodo
que se toquem, descobre-se que,batendo com
urnabola
semelhante contra aprimeira
delæ,o
movimento passaquase instantaneamente à
última,
que se separa dafìla,
semque
se percebaque
asoutras se tenham movido. E também aquela que bateu [na primeira] permanece imóvel
como
elas.Aí
sevê
uma
passagemde
um
movimento com uma
velocidademuito
grande,
e
que
setorna
aindamaior
quandoa
matéria Mas note-se que esse progressodo
movimento
nã'o e que assim ele necessita ternpo. Pois se o movimento(
aomovimento)
não passasse sucessivamentepor
todastodas ao mesmo tempo, e
portanto
todas elæ avançariamjuntas
-
o
que não ocorre.É
aúltima
que deixa afila
e adquire a velocidade daquela quefoi
lançada. Além disso,há
experiências mostrando quetodos
esses corpos considerados mais duros, como o aço temperado,o vidro e
a
âgata, são comprimidos,e
dobram-se de alguma forma,nâo sominte
quando estâ'osob
a
forma de
barras, mas também quando estlÍo sob aforma de bolas ou outra qualquer. Isso quer dizer que eles entram dentro de si próprios
no
lugar
onde sÍioatingidos
evoltam
rapidamente à suaforma inicial.
Descobri pois queatingindo com
umabola
devidro ou
de ágataum
pedaço grande e bem espessodo
mesmomatetial,
quetinha a
superfície plana eum
pouco embaçadapelo
alento ou de Outra forma, aí fiCavam marcas redondas, maiores Ou menores, conforme o golpe fosæforte
ou
fraco. Isso mostra que essas matérias cedem em seu encontro, e se resti-tuem, sendo para isso necessário que elas gastem tempo'Ora, para aplicar esse
tipo
de movimento àquilo que produz a luz, nada impede que imaginemos que as[13]
partículasdo
éter sejam de uma matéria tÍio próxima da dure'Tmtøda
þbre
aLuz
19za perfeita e de uma recuperação tâ'o rápida quanto quisermos. Não é necessário para isso examinar aqui a causa dessa dureza, nem a da recuperação, cuja consideração nos levaria
muito
longe de nosso assunto. Direi no entanto que se pode conceber que essaspartículas
de éter,
apesarde
seu pequeno tamanho, são ainda compostas de outras partes,e
sua elasticidade consiste no movimentomuito
rápido de uma matéria sutil, que as atravessa detodos
os lados, e obríga sua estrutura a se dispor de modo que for-neça a essefluido
a passagem mais aberta efácil
possível. Isso está de acordo com a razâ'o queo
Sr. Des Cartes fornece para a elasticidade, exceto que não suponho poros emforma
de canais ocos e redondos, como ele. E não se deve imaginar que haja aína-da de
impossívelou
de
absurdo;pelo contriírio,
é muito
plausívelque a
natureza, para operar tantos efeitos maravilhosos, sirva-se dessa progressãoinfinita
de diferentes tamanhos de corpúsculos e de diferentes graus de velocidade.Mesmo se ignorássemos a verdadeira causa da elasticidade, veríamos que há muitos corpos que possuem essa propriedade; e, assim, nada há de estranho em supô-la tam-bém em pequenos corpos invisíveis como os do éter. Se tentássemos encontrar alguma
outra
maneira pela qualo
movimento da luz se comunicasse sucessivamente, não seria encontrada nenhuma que melhor conviesse do que a elasticidade à propagaçãounifor-me,
que parece ser necessária; pois, seo
movimento se tornasse maislento
à medida que se distribuísseentre
mais matéria, afastando-se dafonte
deluz,
ele nâ'o poderia conservar essa grande velocidade a grandes distâncias. Mas, supondo a elasticidade na matéria etérea, suas partículas terÍÍo a propriedade de restituir-se igualmente depressa, seja quandoforem
empurradas fortementeou
fracamente. Assim,o
progressoãa
luz[14]
continuará sempre com uma velocidade igual.Deve-se também saber que, embora as partículas
do
éter não estejam alinhadas em retas,como em
nossafìla de
bolas, mas
confusamente,de
modo que uma
toque váriasoutas,
isso nÍÍo impede que elas transportem seu movimento e que elaso
pro-paguem sempre para a
frente.
Sobre isso deve-se notar uma lei do movimento que vale para essa propagação, e que é verifìcada pela experiência. Quando umabola
como1,
20
Chrßtiasr.Huygensaqui, toca
várias outrasbolæ CCC
se ela é atingidapor
umaoutra
bolaB,
de modo queela
pressione todas as CCC quetoca,
ela lhes transmitetodo
seumovimento
eapós isso permanece
imóvel, como
tambéma bola
B.
Mesmo sem supor que aspar-tículas
etéreas sejamde forma
esférica (pois niÍo vejo necessidade de supô-læ assim) compreende-se que essa propriedade da impulsão não deixa decont¡ibuir
â propagação do movimento.A
igualdade de tamanho parece ser mais necessá¡ia, pois do contrário deveria haver algumareflexão de movimento
paratrás
quando p¿rssasse de umapartícula
menor auma maior, segundo as regras da percussâ'o que publiquei alguns anos atrás.
Ver-se-á mais adiante,
no
entanto,
quenão
precisamos supor essa igualdade para a propagação daluz,
mas apenas para torná-la maisfácil
e maisforte.
Não é tambémcontrário
às
aparênciasque
as partículas
do éter
tenham sido
criadas iguais paraproduzir um efeito tão
considerável quantoo
da luz, pelo menos nessa vasta extensão que está além da regiâ'o dos vapores, que não parece servir senão paratransmitir [15]
aluz
do Sol e dos astros.Mostrei,
portanto,
de que modo se pode conceber que a luz se propague progressi-vamentepor
ondas esféricas, e como é posslvel que essa propagação se faça com uma velocidadetão
grande quanto a que as experiências e as obsewações celestes exigem. Deve-se aindanotar
que, mesmo se as partículas do éter forem supostas como estando emum
mo\tmento contínuo
(pois há muitas razões para isso), a propagaçãosucessi-va das ondas não será impedida por isso, pois não consiste no transporte dessas partes, mas apenas em
um
pequeno deslocamento, que elas nã-o podem impedir-se decomu-nicar
às que as cercam, apesar detodo
movimento que as agite e faça mudarem de lu-gar entre si.Mas
deve-se considerarainda mais particularmente
a
origem
dessasondas
e
aTrúado
Sobre aLuz
2t
produção da luz, que cada pequeno lugar de um corpo luminoso, como o Sol, uma velaou um
carvão ardente, gera ondascujo
centro é esse lugar. Assim, na chama de umavela,
sendo distinguidosos
pontosA,
B
e
C
os cfrculos
concêntricos descritos emtorno
de
cadaum
dessespontos
representamæ
ondasque
deles provêm.E
deve-seconceber
o
mesmo emtorno
de cadaponto
dasuperffcie
e de uma parte interna dessachama.
Como
as percussõesno
centro
dessas ondas nâ'o llessuem uma seqüência regular, também não se deve imaginar que as ondæ sigam umæ às outræ por distâncias iguais: se essas distânciaso
parecem nessa fìgura, é maispara[16]indicaro
progressodeuma
mesma onda em tempos iguais,do
que para representar várias [ondas] provenientes de um mesmocentroll.
Não
deve parecer inconcebível,por outro lado,
que essa prodigiosa quantidade de ondas se atravesse sem confusão e sem se apagarem umæ às outras.É
certo que uma mesmapartícula
de matéria pode servira
diversas ondas, provenientes de diferentes lados,ou
mesmo de lados contrários-
não
apenas se elafor
empunadapor
golpesque se
sigamproximamente uns
aosoutros,
mæ
também
por
aquelesque
atuem sobreela
no
mesmoinstante.
Issoocorre
por
carnado
movimento quese
propaga sucessivamente.Tal
pode ser provado pelafila
de bolas iguais, de matéria dura, de que sefalou
acima. Se lançarmoscontra
ela,ao
mesmotempo,
dos dois lados opostos, bolas semelhantes1
eD,
verse-â que cada uma retorna com a mesma velocidade quetinha
inicialmente, etoda
afila
permanece em seu lugar, emborao
movimento tenha passado portodo
seu comprimento, de forma dupla. Se esses movimentos contrários seencontram na
bola,B do
meio,ou
em algumaoutra
comoÇ
ela deve se contrair e serecuperar
dos
doislados e
assim servir ao mesmotempo
paratransmitir
esses dois moyimentos.Mas
o
que pode inicialmente parecermuito
estranho e até inacreditável é que ondu-lações produzidaspor
movimentos e corpusculos tão pequenos possam se propagar a distâncias tão imensas, como por exemplo desdeo
Sol ou desde as estrelas até nós. Pois1rÉ
muito importante notal que Huygens não imagina de modo nenhum que a luz seja
cons-tituída por ondas periódicas. Como Hooke antes dele, a imagem formada é a de pulsos (termo usado por Hooke) independentes. A primeira proposta de uma teoria ondulatória das cores seme-lhante à moderna é de Newton, que, ao discutir posslveis interpreta$es das cores do espectro, analisa a possibilidade de um modelo ondulatório periódico, afrmando: "Se de alguma maneira
essas [vibrações do éter] de diferentes grandezas forem separadas uma da outra, a maior [maior conprimento de onda, em nossa linguageml gerará uma sensaçâo de uma cor vermelha, e amenor ou mais cu¡ta de um violeta profundo, e as inte¡medi¿ûias de cores intermediárias; do mesmo modo que os co¡pos, de acordo com seus diferentes tamanhos, formas e movimentos, excitam no ar vibrações de diferentes grandezas, que, de acordo com essas grandezas, produzem vários tons no som". NEWTON,
I.
m.
Isaac Newton answer to some considerations upon his doct¡ine of light and colos. Philosophical Tfansactions 7: 5084-103, 1672, p. 5088.Tiatødo
þbre
øLuz
23 conseguiu acabar, havendomorrido
pouco depois),tentou
provarpor
essas ondas os efeitos da reflexão e da refraçã'o. Mas faltava às suas demonstrações o principalfunda-mento, que
consiste na observação que acabei de fazer; e, no'restante, continha opi-niões bem diferentes das minhas, como talvez se verá algumdia
se seu escrito se con-servour 3.Para chegar às propriedades da luz, notemos primeiramente que cada parte da onda deve se propagar de modo que as extremidades estejam sempre compreendidas entre as mesmas retas traçadas do ponto luminoso. Assim, a parte da onda
U9l
BG , que temo
ponto
luminoso
A
Wt
centro,
se propagæáno
arco
OE,terminado
pelas retasABC,
AGE.
Embora as ondas particulares produzidas pelaspartículæ
compreendidasH
K
pelo espaço CAE se espalhem também fora desse espaço, elas só concotrem no mesmo instante para compor
juntas
uma onda quelimite
o
movimento na circunferência CE, que é sua tangente comum.Daqui se vê
a razla
pelaqual
aluz
nilo se espalha senlio por linhas retas-
a menos que seus raios sejam refletidos ou rompidos-
de modo que elanlo
ilumina um objeto anio
ser quandoo
caminho desde suafonte
até esseobjeto
está aberto segundo tais linhas. Caso,por
exemplo, houveruma
abertura .BG,limitada por
corposBH,
GI,
a13Pa¡a tentar explicar
a reftaçâo, Hooke imaginava que a velocidade das ondas eta tnaior ¡os meios refringentes, e que a frente de onda nâo mudava de direção ao passiu de um meio para o outro. Por uma construçäo geométrica, mostrava que o raio luminoso devia se aproximar da
per-pendicular, ao passa¡ para
o
meio reftingente. Embora o argumento seja errado, não há dúvilas sobre sua influência no pensamento de Huygens. Ver ANDRADE, E.N. da C.Robe¡t
Hooke.Proceedings
of
the
royøl
bciety
2Ol:439-73,1950.Ve¡
também SHAPIRO(nota 8)
eCROMBIE (nota 4).
Á,
24
Christiaan HuYgensonda de