UNIJUI - UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
DHE – Departamento de Humanidades e Educação Curso de Psicologia - Bacharel
TIELI COSTA SULZBACHER
ALCOOLISMO
SANTA ROSA 2016
TIELI COSTA SULZBACHER
ALCOOLISMO
Trabalho de conclusão de curso apresentado como requisito parcial ao curso de Psicologia da Universidade Regional do Estado do Rio Grande do Sul, UNIJUI, para obter o título de psicóloga. Departamento de Humanidades e Educação – DHE.
Orientadora: Silvia Cristina Segatti Colombo
SANTA ROSA 2016
TIELI COSTA SULZBACHER
A banca examinadora abaixo assina e aprova o Trabalho de Conclusão de Curso intitulado como ALCOOLISMO, elaborado por TIELI COSTA SULZBACHER.
BANCA EXAMINADORA
Prof: Silvia Cristina Segatti Colombo
DEDICATÓRIA
Dedico este trabalho em especial ao meu pai Neri Sulzbacher e a minha mãe Marli T. Costa, por terem acreditado nesse sonho, que só foi possível a realização através de vocês. Dedico ainda ao meu namorado Henrique pela compreensão, e aos meus familiares pelo incentivo. Esta conquista é nossa. Gratidão!
AGRADECIMENTOS
Em primeiro momento quero agradecer a Deus, que me guiou neste percurso para realização deste trabalho. Agradeço também à minha família, meus pais que sempre me apoiaram na escolha de minha profissão. Agradeço a vocês pela pessoa que me tornei, pelos conselhos dados, e por serem estes pais amorosos e presentes em minha vida. Agradeço também ao meu namorado pelo companheirismo, e por acreditar neste sonho, me incentivando para seguir em frente.
Obrigada as minhas amigas, que me acompanharam sempre nesta trajetória de estudo e trabalho, me apoiando, buscando acolher minhas angústias e meus medos, obrigada por esta amizade que surgiu dentro desta universidade e permanecera lá fora. Também um agradecimento em especial para Psicóloga Gigliela Giacomine que fez parte da minha formação, onde agradeço pelos seus ensinamentos.
Obrigada à professora Silvia Cristina Segatti Colombo, minha orientadora, por a sua dedicação para com o meu trabalho, obrigada pela paciência e pela confiança em mim. Este trabalho só foi possível ser realizado através de seu apoio.
Agradeço a todos os professores, que fizeram parte deste percurso, que contribuíram para que esse “saber” fosse possível, agradeço em especial as professoras Elisiane Felzke Schonardie e Irís Campos que me acompanharam em um período muito especial desta formação.
RESUMO
O presente trabalho consiste no desenvolvimento do tema sobre o alcoolismo em sua conotação de doença. O álcool, referido, as suas três dimensões: física/orgânica, psíquica e social. Traz-se um olhar da Psicologia referente ao tema de “alcoolismo”. A questão surge por uma vivência de Estágio de Processos Sociais, onde me deparei com sujeitos dependentes desta substância, e assim nota-se que o álcool não prejudica somente o sujeito que faz o uso, mas o contexto geral em que o sujeito se insere desde família ao trabalho. Objetivo deste presente trabalho é apresentar os efeitos do consumo excessivo do álcool nas suas três dimensões.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 7
1. CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA DO CONSUMO DO ÁLCOOL ... 9
1.1. . Registro Histórico ... 9
1.2. . Consumo do álcool: Conotação de Doença ... 12
2. ALCOOLISMO NAS DIMENSÕES: FISÍCA, PSÍQUICA E SOCIAL ... 20
2.1. . O Alcoolismo em sua dimensão de doença física/orgânica ... 20
2.2. . Alcoolismo na sua dimensão psíquica ... 25
2.3. . Alcoolismo dimensão psíquica pelo viés da Psicanálise ... 26
2.4. . Alcoolismo na dimensão social ... 30
CONCLUSÃO ... 34
INTRODUÇÃO
O presente trabalho consiste numa pesquisa bibliográfica, cujo assunto abordara o uso de álcool, referindo as suas três dimensões: física, psíquica e social. Através das leituras percebe-se, o alcoolismo como um problema que atinge todas as classes sociais, em diferentes idades, raças e gêneros. O uso do álcool, na sociedade atual possui conotações diferenciadas em relação a outras drogas, seu caráter lícito, de baixo custo e fácil acesso lhe confere uma aceitação social.
No decorrer do curso de Psicologia, surgiram questões referentes á busca do sujeito pelo álcool para aliviar o sofrimento e também questões sobre a repetição pela busca dessa substância. É essencial o reconhecimento do social, como da família, que o abuso do álcool se refere a uma doença que causa efeitos devastadores na vida deste sujeito. Este trabalho busca através de estudos da medicina e da psicanálise conhecer mais sobre esta temática.
A compreensão desta doença não é por via de rótulos “bebe porque é vagabundo”, e sim bebe porque é doente e busca preencher este vazio existencial com o álcool. Existem muitos problemas anteriores que levaram o sujeito a beber para aliviar seu sofrimento. Por isso, é importante entender que o álcool, para alguns pode ser uma forma de “distração”, não causando dependência, mas, para outros desencadeia problemas graves.
O uso desta substância atravessa a história da humanidade, sendo que é culturalmente aceita e sempre presente no meio social, como em festividades, cerimônias religiosas e demais eventos. No entanto, com o tempo, foram sendo observadas através do comportamento do usuário do álcool mudanças que prejudicariam tanto seus aspectos físicos, psíquicos e cognitivos, como de inter- relação social, daí a conotação de doença.
Para desenvolver o tema proposto, no primeiro capítulo aborda-se o álcool na contextualização histórica, trazendo o registro do consumo de bebida alcoólica desde a antiguidade até a contemporaneidade mostrando a aceitação do uso desta substância sem um olhar de dependência. O mesmo também aborda o viés de conotação de doença, apresentando as diretrizes do álcool e as consequências desse abuso (causando dependência física e psicológica).
No segundo capítulo, será abordado o álcool nas suas três dimensões. A primeira será o alcoolismo em sua dimensão física/orgânica, na qual se apresentam farmacologicamente os danos pelo abuso desta substância, que causa diversas patologias e riscos para o sujeito. A segunda dimensão, psicológica com algumas estruturas e patologias, traz o viés da psicanálise para entender o abuso e a repetição do mesmo. Na dimensão social, apresentam-se, questões sobre o beber
excessivamente que vem afetar a relação deste sujeito, na sociedade, causando problema na família, no trabalho e nas suas relações com o outro.
1. CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA DO CONSUMO DO ÁLCOOL
1.1. Registro Histórico
Quando se olha para o passado da humanidade, encontramos muito da história, dos costumes e dos hábitos que a constituíram. É possível ver que o álcool se faz presente como uma dessas tradições, desde a antiguidade. A história aponta
o gosto do homem pela bebida alcóolica. O uso desta substância atravessa o percurso da humanidade, sendo culturalmente aceito e estando sempre presente no meio social, como em festividades, cerimônias religiosas e demais eventos sociais.
Neste percurso histórico percebe-se que o álcool acompanhou a civilização, ou seja, existiu em todas as culturas humanas, e o consumo se deu de diversas formas. Nota-se que o uso desta substância, vem sendo, até hoje, um meio de alterar o estado de consciência do sujeito.
Freud (1930), em O Mal Estar da Civilização, aponta que o sujeito cessa seu sofrimento através do uso de substâncias tóxicas, que o tornam, este insensível a sua dor. Todo sofrimento nada mais é do que sensação: “só existe na medida em que o sentimos, e só o sentimos como consequência de certos modos pelos quais nosso organismo está regulado" (FREUD, 1927-1931, p. 85).
No decorrer desta contextualização, foram apresentados alguns recortes sobre o consumo da bebida alcóolica desde a antiguidade até o momento em que esta passa a ter a conotação de doença, conforme Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas relacionados á Saúde (CID 10).1
Nota-se, no percurso histórico, que o abuso de álcool já era vivenciado desde os primórdios da humanidade. Nessas sociedades, existia o consumo excessivo, sem um olhar de dependência e doença.
O álcool já era utilizado, antes de começar a escrever sobre sua
dependência na sociedade. Foi produzido e utilizado para comemorar vários
1 A Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (também conhecida
como Classificação Internacional de Doenças – CID 10) é publicada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e visa padronizar a codificação de doenças e outros problemas relacionados à saúde. O (CID 10) fornece códigos relativos à classificação de doenças e de uma grande variedade de sinais, sintomas, aspectos anormais, queixas, circunstâncias sociais e causas externas para ferimentos ou doenças. A cada estado de saúde é atribuída uma categoria única à qual corresponde um código (CID 10). Disponível em: http: www.medicinanet.com.br/cid10.htm.
acontecimentos festivos, em remédios e até para adoração e despedidas dos falecidos. As bebidas alcoólicas serviam também para esquecer tristezas e livrar de tensões (PHIPPS et. al. 1990, apud SOARES, 2010).
Mas, o registro sobre o uso do álcool aparece em diversos povos da antiguidade, desde sua produção até o consumo. Há diversas referências ao consumo do vinho no Antigo Testamento, se for tomada a passagem de “Gênesis 9.21”, aparece a embriaguez de Noé. Segundo a passagem bíblica, Noé plantou vinha, e fez o vinho, consumindo até se embebedar. O relato traz que Noé gritou e tirou a roupa, por conta desta embriaguez. Seu filho, Cam, encontra-o embriagado, e sente vergonha da atitude do pai. Partindo desta passagem, tem-se o conhecimento do primeiro relato de um caso de embriaguez.
Ajax C. da Silveira, (1980):
Refere que nas páginas das Sagradas Escrituras, encontramos o triste relato do que ocorreu com o patriarca Noé, quando pela primeira e única vez se embriagou. Foi um quadro humilhante e funesto, mas que a todo o momento está se repetindo ainda hoje, na casa de muitos alcoólatras (p. 24).
O relato acima permite pensar que a embriaguez, já naquela época, estava presente no meio social, causando mudanças no comportamento que prejudicariam, mais tarde, os aspectos físicos e emocionais, bem como a inter-relação com os demais.
Hugh Johnson, (1989) faz referência ao uso do álcool na lenda de Upnapishtim que também constrói uma arca, larga três pássaros sobre a água, e mata um animal em oferenda.
No entanto, Upnapishtim não fez o vinho, ele aparece em outra parte do escrito, onde, Gilgamesch entra no reino do sol e lá encontra um vinhedo encantado, caso consumisse desse vinhedo se tornaria imortal.
Outras lendas referenciadas pelo autor é Código de Hammurabi, e os Códigos Hititas, que são os primeiros livros sobre as leis. Ambos se referem ao vinho. O Egito não foi o primeiro povo a produzir o vinho, mas possível identificar que o vinho esteve presente nas tumbas dos faraós, pelas pinturas, retratando as etapas da produção ao consumo.
Já o poeta Homero fala de vinho em suas poesias, nas narrativas da guerra de Tróia e cita a ilha Lemnos, no mar Egeu, como fornecedora de vinho para essas tropas. Homero também descreveu os vinhos Gregos ao narrar Odisseu, que, junto com ele, sempre tinha vinho tinto para beber, que era diluído na água por ser forte, e, assim, utilizado para o consumo.
A Revista do Centro de Informação de Saúde e Álcool (CISA) indica que os Gregos, provavelmente, foram um dos exportadores de vinho. Havia, naquela época, os simpósios, que eram reuniões nas quais pessoas deitavam em divãs e bebiam vinho.
Desta forma, conversavam em um ambiente alegre de convívio. Nota-se que, para poder falar livremente, e deitar em um “divã”, era necessário o uso do álcool, que se pode associar uma substância que possibilita a fala destes sujeitos, sem privações, e sem medo de expor o que se pensa. Desta forma, percebe-se que a bebida alcóolica, teve várias passagens na mitologia, de modo, que, cada uma teve suas significações para o povo da época.
Vê se, assim, que o álcool teve sua origem no período Neolítico e que a Grécia e a Roma sempre foram solos ricos para plantação de uva e produção de vinho. E esses povos também conheceram as bebidas fermentadas, mas, a bebida preferida para o consumo ainda era o vinho.
Portanto, no Egito Antigo acreditava-se que a bebida fermentada curava os germes, já na Idade Média, a cerveja e o vinho tinham regulamentação. Na Idade Moderna, beber livremente só poderia ser em cabarés, que tinham um horário de funcionamento estabelecido.
Porém, é somente a partir do século XVIII que o consumo da bebida alcoólica passa a ser vista pelo social como uma doença ou uma desordem. Na antiguidade, a embriaguez só era considerava como problema, se tivesse uma perturbação social.
Somente no século XIX vários países desenvolveram medidas de intervenção e de repressão de estratégia contra as drogas. Um dos países que iniciou este combate foram os Estados Unidos.
Até década de 1970, os Estados Unidos e a Europa adotam políticas semelhantes no enfrentamento dos problemas decorrentes do uso de álcool e outras drogas. A chamada “guerra ás drogas” era o principal objetivo dos governos e especialistas (p.72).
Os Estados Unidos deram continuidade a este combate com prevenções e campanhas. Já Europa mudou sua estratégia terapêutica diante de uma epidemia de AIDS na década de 70.
Segundo Andrighetto (2010), a cachaça desempenhou um papel econômico importante no Brasil durante o período colonial. Além de servir como moeda de troca de produtos, era consumida por todas as classes sociais da colônia e, principalmente, pelos escravos. Aguardente era utilizada pelos escravos, no sentido de amortecer seu potencial de rebeldia.
É fundamental compreender, neste percurso histórico, o quanto o consumo do álcool está enraizado em nossa cultura. Além, disso é importante constatar, que, até algumas décadas atrás, o uso e o abuso dessa substância, não eram tomados como uma ameaça para o sujeito ou até mesmo para a sociedade.
1.2. Consumo do Álcool: Conotação de doença
Para compreender o alcoolismo em sua conotação de doença, é importante apresentar algumas diretrizes de leis que foram estabelecidas, no Brasil. Embora, houvesse recomendações para o desenvolvimento de Políticas Públicas para o alcoolismo, não havia uma diretriz voltada diretamente para o uso e suas consequências. Nem sempre tive um serviço especializado que resolvesse o problema social, isso só se constituiu a partir das legislações, que serão percorridas abaixo.
De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), as leis e as Políticas Públicas já existem há muito tempo. As primeiras regulamentações, de acordo com, Oliveira e Santos (2013), em Políticas Públicas sobre Álcool e outras Drogas, já abordavam, no ano de 1851, sobre o uso e a venda de medicamentos. A primeira proibição surgiu em 1890, para aqueles que vendessem ou ministrassem substâncias venenosas sem prescrições.
E o Brasil passa a criar leis mais específicas sobre drogas em 1924 pelo decreto- nº 4.294, que traz a prisão daqueles que vendessem ópio. Em 1976, a lei nº 6.368 fala sobre as estratégias preventivas para os sujeitos dependentes.
Em 1980, o Conselho Nacional de Entorpecentes (COFEN) foi responsável pelas políticas de enfrentamento às drogas. Em 1998, essas políticas foram substituídas pelo Conselho Nacional Antidrogas (CONAD), que é um órgão normativo da secretaria nacional antidrogas, o SENAD.
Um dos primeiros grandes processos desenvolvidos pelo CONAD foi o decreto nº 4.345/2002, que retrata a droga como uma ameaça á humanidade. Através deste decreto, buscam-se políticas de uma vida sem drogas ilícitas e o uso indevido de drogas lícitas.
Já em 2002 surge a lei nº 10.409, que diz que o tratamento do dependente vai ser feito por uma equipe multiprofissional. Essa foi a primeira menção, na Legislação Brasileira, sobre a redução de danos, sendo que o Ministério da Saúde foi incumbido de regulamentá-la.
Em 2005, o CONAD aprovou a Política Nacional sobre Drogas. Nela, fala-se do uso e do abuso de drogas como um problema de Saúde Pública, trazendo a necessidade de tratamento para os sujeitos em busca que, sua recuperação e de sua reinserção social.
Logo, Política Nacional sobre Drogas tem como diretrizes procurar atingir a construção de uma sociedade protegida, juntamente com o tratamento para drogatização. Prioriza, assim, as ações de prevenção e redução de danos.
No entanto, a mais recente Legislação Brasileira sobre drogas que apresenta alguns avanços é a lei nº 11343/2006, que revoga a lei nº 10.409/2002 e a lei nº 6.368/1976, (que trata sobre o tráfico ilícito de drogas com a penalidade aumentada). Também são abordadas mais extensivamente as leis anteriores e as atividades de prevenção ao uso. São prescritas, ainda, medidas para prevenção do uso indevido, atenção e reinserção social de usuários e dependentes de drogas. E estabelecendo normas para repressão à produção não autorizada e ao tráfico ilícito de drogas, que é definido como crime.
A partir de maio de 2007, o Brasil passou a ter uma Política Nacional sobre Álcool, objetivando a redução dos danos sociais, a saúde e a vida. Foi visto,
anteriormente, neste percurso histórico, que o álcool, até então, estava incluído nas políticas públicas de drogas ilícitas. Por ser uma substância lícita, esta foi desvinculada das demais drogas. A partir desta política nacional, as diretrizes, buscam o tratamento, a reinserção social, a realização de campanhas, de prevenção e informações e á redução da demanda, de álcool.
Depois, surgiram as leis complementares, que foram criadas para o trânsito em razão do alto índice de mortalidade. Em 2008, foi alterado o Código de Trânsito Brasileiro pela lei nº 11.705 conhecida como a “lei seca”, que traz penalidade para aqueles que dirigem sobre a influência do álcool, tornando-se, em 2012, uma lei mais rigorosa.
A partir de 2009, acontece o lançamento, pelo Governo Federal, do Plano Emergencial de ampliação do acesso ao tratamento e á prevenção do alcoolismo, que inclui serviços nas redes de atendimentos do Sistema Único de Saúde (SUS). Em 17 março de 2015, entra em vigor a lei nº 13.106/2015, tornando crime a, oferta de bebida alcoólica para menores.
Assim, é possível observar, que a elaboração da Política Nacional sobre Álcool, teve uma grande trajetória e mudanças, pois, inicialmente, as diretrizes do álcool eram vinculadas ás diretrizes das drogas ilícitas. Foi a partir de 2007 que houve um avanço na Organização Mundial de Saúde, pois ela passou, através de medidas educativas, a mostrar os efeitos do uso e abuso do álcool, e, assim, prestar serviços á sociedade para recuperação dos sujeitos pensando na sua reinserção social sem o uso dessa substância.
O álcool sendo uma substância lícita e de fácil acesso ao consumo, o qual no uso excessivo pode vir a causar uma dependência, física ou psicológica. O que se percebe, aqui, é que esta droga não está só afetando o sujeito que a consome, mas, a sociedade em geral.
Conforme, o Código de Classificação de Doença (CID 10), o álcool, com sua conotação de doença, causa diversos efeitos físicos e psíquicos, ao sujeito que o consome. Abaixo, segue relação da Organização Mundial de Saúde que visa padronizar a codificação de doenças e outros problemas relacionados à saúde.
Segundo medicina net F10- Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de álcool:
CID 10 - F10: Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de álcool.
CID 10 - F10.0: Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de álcool - intoxicação aguda.
CID 10 - F10.1: Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de álcool - uso nocivo para a saúde.
CID 10 - F10.2: Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de álcool - síndrome de dependência.
CID 10 - F10.3: Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de álcool - síndrome (estado) de abstinência.
CID 10 - F10.4: Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de álcool - síndrome de abstinência com delirium.
CID 10 - F10.5: Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de álcool - transtorno psicótico.
CID 10 - F10.6 : Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de álcool - síndrome amnésica.
CID 10 - F10.7: Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de álcool - transtorno psicótico residual ou de instalação tardia.
CID 10 - F10.8: Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de álcool - outros transtornos mentais ou comportamentais.
CID 10 - F10.9: Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de álcool - transtorno mental ou comportamental não especificado.
É possível ver que o álcool causa diversas reações ao sujeito que o consome. Estas classificações médicas são importantes para o diagnóstico, e, posteriormente, para o auxílio de um tratamento, que pode ser acompanhado nos CAPS AD, ou em internações inicialmente para desintoxicação, (em Hospitais). Em seguida, pode-se realizar um encaminhamento para tratamento em Comunidades Terapêuticas.
Segundo Griffith et al, (1999):
O conceito doença é às vezes sentido como uma revelação por um paciente que antes vagava caoticamente, tentando entender seu beber problemático, aparentemente de total irracionalidade, com tentativas autoderrotistas de “controla-la”. A adoção do conceito de doença pode marcar o início de uma mudança dramática (p. 228).
Sendo assim, os efeitos produzidos pelo uso do álcool vão depender da continuidade e do uso. Inicialmente, há uma euforia, juntamente com relaxamento, desinibição, dificuldade de executar tarefas, diminuição de reflexo, dificuldade de manutenção de equilíbrio e de coordenação motora e sonolência.
É possível ver que a intoxicação aguda gerada pelo álcool provoca graves transtornos dos sentidos, reduzindo os estímulos externo e originando, alterações da
coordenação, fala incoerente, diplopia “visão dupla”, em estado de sedação. Outro problema grave associado aos usuários crônicos é que grande parte tem problemas digestivos, cerebrais e, cardíacos e, lesões hepáticas que levam á cirrose, gerando uma demência pelo abuso do álcool, entre outros problemas clínicos como arritmia, fraqueza, desnutrição e impotência sexual.
A abstinência do álcool ocorre quando o sujeito não consome essa substância, apresentando tremores e, evoluindo para quadros cerebrais graves, acompanhados, de confusão mental, ilusões e alucinações como (delirium tremens). Não sendo tratado, evolui até a morte.
É de fundamental importância, neste estudo, diferenciar o uso, de abuso e de dependência do álcool na vida do sujeito que o consome. O uso é entendido quando o consumo é moderado, ou seja, quando o sujeito bebe esporádica e recreativamente sem ter a necessidade de manter o uso diariamente. Já o abuso do álcool é entendido quando o consumo é mais intenso, acarretando problemas físicos e psicológicos, e até mesmo causando algum tipo de acidente. A dependência, por fim, é o impulso que leva o sujeito a usá-la de forma contínua, buscando obter prazer.
Portanto, alguns sujeitos utilizam o álcool para controlar ansiedades, tensões, medos, sensações físicas, entre outras justificativas. O dependente se caracteriza, por não conseguir controlar a vontade de consumir, agindo de forma impulsiva e repetitiva.
Assim, a dependência pode ser entendida por dois vieses: a física e a psicológica. A física aparece com a presença de sintomas, ou sinais físicos que se dão a partir do uso, ou quando o mesmo se interrompe. A dependência psicológica é um estado de mal-estar que gera sintomas de ansiedade, dificuldade de concentração e demais sintomas, variáveis de pessoa para pessoa. Isso ocorre porque o consumo do álcool tem diversos padrões relacionados, de forma que nem todo uso da substância pode ser considerada patológico ou problemático, (mas mesmo o uso ocasional não está isento de riscos). Quem faz uso do álcool não significa que seja um alcoólatra. No ditado popular, é aquele que bebe socialmente e identifica seus limites sem alterar seu estado físico e psíquico. Abuso é o uso nocivo de uma substância, podendo desencadear uma dependência que é representado. Aqual é um impulso que leva o sujeito a beber de forma contínua e periódica,
buscando o prazer, e até mesmo alívio de problemas cotidianos, sensações físicas, tensões, ansiedade, entre outras justificativas. Essa dependência se dá pela sua repetição da busca do prazer, (que não se encontra), fazendo se repetir o uso diariamente e, excessivamente. Muitos que consomem o álcool frequentemente têm dificuldade de assumir que o uso dele pode vir a se tornar um hábito nocivo e perigoso.
Griffith et al, (1999):
A dependência significa um relacionamento alterado entre pessoa e sua forma de beber. Um indivíduo pode começar a beber por muitas razões, e quando fica dependente muitas dessas razões ainda estão presentes e não são necessariamente eliminadas pelo fato supra- adicionado da dependência. Mas a dependência agora oferece razões para o beber que são verdadeiramente supra adicionadas, e que podem dominar as muitas razões precedentes para o beber e o beber pesado (p. 39).
Então, através das leituras realizadas para este estudo, notou-se que a dependência é uma relação disfuncional entre sujeito e seu modo de consumo. Ela é vista como uma síndrome, que se determina a partir de diversos fatores de risco, aparecendo em cada indivíduo de maneira distinta.
Logo, o conceito síndrome foi utilizado neste estudo, onde o conceito é usado pela medicina para designar um agrupamento de sinais e sintomas, com diferentes graus de severidade. O que percebe, que é importante distinguir o uso de dependência, para auxiliar o sujeito que referencia sua vida em torno do consumo da substância.
Serão especificado, a seguir, os conceitos que são utilizados pela Organização Mundial de Saúde sobre o uso que o sujeito faz da substância de álcool. São eles: Curso de prevenção dos problemas relacionados ao uso de drogas; Capacitação para conselheiros e lideranças comunitárias (SENAD, 2014, p. 101- 102).
O uso experimental refere se ao sujeito que experimenta, e que se perde o interesse em repetir a experiência.
O uso ocasional é utilização apenas quando a substância está disponível ou em ambientes favoráveis sem rupturas social, afetiva ou profissional.
O uso habitual é uso frequente da substância sem perca do controle do consumo, o uso recreativo geralmente se dá em circunstâncias sociais. O uso controlado é quando se faz o consumo regular.
O uso nocivo que são caracterizados danos físicos e psicológicos incluindo incapacidade de julgamento e seu uso é repetidamente.
O uso binge o sujeito que consome grandes quantidades da substância em um curto período de tempo, mesmo que este sujeito consuma o álcool uma vez ao mês em grandes quantidades.
A escalada é quando o sujeito faz o uso de uma droga considerada leve para uma mais pesada, ou seja, faz o uso esporadicamente desta droga e passa a consumir diariamente.
A tolerância é quando organismo se adapta com a droga e passa haver necessidades de uso maiores.
O poliusuário é a pessoa que utiliza várias drogas dentro de um curto ou longo período de tempo.
A overdose que é dose excessiva de alguma droga com implicações físicas e psíquicas, podendo levar á morte.
A Organização Mundial da Saúde também prescreve as classificações de consumo da substância de uma forma geral, como o uso de vida; (que é entendido como aquele sujeito que consome o álcool pelo menos uma vez na vida), o uso no ano; (se faz-se o consumo de álcool uma vez ao ano), o uso recente ou no mês; (o consumo do álcool pelo menos uma vez ao mês), e, por fim, há o uso denominado frequente; (que seria o consumo nos últimos trinta dias).
Além, disso a Organização Mundial de Saúde ainda classifica os sujeitos como “usuários”, aqueles que fazem uso da substância, e “não usuários” que são aqueles que não utilizam drogas lícitas ou ilícitas. O usuário leve; é considerado aquele que utilizou drogas no último mês, mas seu consumo foi menos de uma vez por semana; já o usuário moderado; é o sujeito que utiliza drogas semanalmente, mas não todos os dias, durante o mês; e, por fim, o usuário pesado; é o sujeito que utiliza drogas semanalmente em quantidades crescentes.
O objetivo deste primeiro capítulo foi trazer o percurso histórico do consumo de álcool com sua diversidade, desde a antiguidade até a contemporaneidade, apresentando suas diretrizes, nas quais nota-se que o álcool é universal e está vinculado na vida do sujeito desde muito cedo.
Esta droga é lícita, que vem causando um problema individual e social, o que se nota neste percurso é que o álcool está enraizado, na cultura, onde inicialmente o social apresentou a substância para o sujeito, mas, da mesma forma que apresenta rejeita aquele sujeito que tem a dependência da substância, rotulando os mesmos como “fracos”.
Outro ponto que foi destacado neste capítulo foi referente ao uso e á dependência do álcool, evidenciado que não significa que quem faz o uso desta
substância, seja considerado doente “dependente”. Está substância é apresentada, no Brasil, como uma droga lícita e de uso social que inicialmente não apresenta “perigo”, mas, em decorrência do uso, pode vir a causar sérios problemas nos diversos âmbitos em que o sujeito se insere e convive.
Por isso, pode se ver a importância de compreender este percurso e entender o sujeito que bebe. Ele, bem como sua família e o contexto social, precisam ser compreendidos.
2. O ALCOOLISMO NAS DIMENSÕES: FÍSICA, PSÍQUICA E SOCIAL
2.1. O alcoolismo em sua dimensão de doença física /orgânica:
A dependência do álcool tem sua conotação de doença física, porque o organismo do sujeito sofre modificações radicais no seu funcionamento normal para poder adaptar-se á droga (álcool). Inicialmente, é uma substância desconhecida para o corpo. Mas, com o uso abusivo, passa a ser algo assimilado pelo organismo, que se adapta com aquilo que não consegue evitar. Não conseguindo voltar a funcionar como antigamente, exigirá diariamente a substância. A isto pode-se chamar de “dependência”.
Mas, o consumo do álcool causa danos físicos por meio de muitos efeitos diretos e indiretos no corpo do sujeito. O álcool é uma fonte de calorias; portanto, desloca nutrientes, provocando a desnutrição. Do ponto de vista médico, o álcool é uma doença que tem vários sintomas, sendo considerado uma doença crônica, progressiva e, se não controlada, pode causar a morte. É importante entender os efeitos farmacológicos da substância, no corpo do sujeito que a consome, pois desta forma, consegue-se compreender o problema decorrente do abuso do álcool.
O alcoolismo, portanto, é a intoxicação, aguda ou crônica, provocada pelo consumo abusivo de bebidas alcoólicas. Constitui um problema médico quando modifica ou põe em risco a integridade física ou mental do indivíduo (SILVA 1997, apud COSTA, 2003).
Griffith et al (1999), aborda os efeitos farmacológicos do abuso do álcool no organismo do sujeito, descrevendo que o álcool, na verdade, é etanol, (cuja fórmula química é C2H5), Ele é encontrado nas bebidas alcoólicas, sendo que seu uso
inicialmente, produz um efeito de relaxamento e desinibição. O aumento do uso desta substância causa diversos problemas, que serão retratados nesta dimensão física-orgânica, trazendo a base da farmacologia que facilita o entendimento dos problemas decorrentes do uso do mesmo.
O autor aponta, ainda, que a absorção do álcool, na circulação, dá-se muito rapidamente pelo estômago e pelo intestino delgado, sendo que o tempo necessário para atingir o máximo da concentração no sangue varia de 30 a 90 minutos. A
temperatura baixa e os exercícios físicos também colaboram para a redução da absorção do álcool no corpo, sendo que, após o uso desta substância (álcool), sua absorção é distribuída no corpo todo. A presença de alimentos no estômago torna a absorção mais lenta e o consumo excessivo do álcool pode vir a ocasionar uma secreção gástrica (que é uma ação direta ao estômago), causando uma inflamação no revestimento do mesmo que pode gerar uma gastrite.
E os efeitos farmacológicos no sistema cardiovascular daqueles que consomem álcool são pequenos, desde que o consumo, seja de doses moderadas. No momento em que o sujeito faz uso de doses maiores, produz um aumento no fluxo sanguíneo cerebral, tendo dificuldade da captação de oxigênio reduzida no cérebro. A temperatura do corpo com quantidade de uso de álcool leva á vasodilatação periférica e á sudorese. A sudorese (transpiração), quando aumentada, pode levar á perda de calor e a uma queda na temperatura.
Isso ocorre porque, o álcool tem um efeito diurético no organismo. Além disso, quanto ao seu uso em grandes quantidades, pode vir a diminuir a respiração. No entanto, os efeitos do álcool no Sistema Nervoso Central (SNC), independentemente da dose do consumo, causam algumas alterações, na atenção e na coordenação motora. Alguns destes sintomas se evidenciam, como euforia, excitação, náuseas, vômitos, hipotermia, amnésia, coma e, em casos mais críticos a morte.
E a convulsão é um transtorno do sistema nervoso central e periférico, sendo que uma abstinência após 7 a 48 horas de ingestão pode vir a causar uma convulsão no dependente. Convulsão é generalizada, tônico-clônicas (grande, mal) estão associadas perda de consciência. Os sujeitos dependentes do álcool que tiveram convulsões pela abstinência da substância podem ter mais convulsões seguidas. Alguns sintomas de abstinência, segundo Griffith et al (1999, p.43), são:
Tremor: Este sintoma ilustra muito que é o grau de experiência pessoal que é essencial para observação clínica e não um simples registro de que o paciente experiencia ou não tremores de abstinência. A tremedeira pode ter sido sentida apenas uma ou duas vezes, pode ser intermitente e leve, ou pode ser experiência das todas as manhas e num grau incapacitante, ou com intensidade e frequência variáveis. Assim como mãos tremulas pode haver tremor facial ou tremor em todo corpo.
Náuseas: Quando se pergunta para o paciente se ele vomita, talvez ele negue. O que acontece, todavia é que quando ele vai escovar os dentes pela manhã sente vontade de vomitar; ou talvez nunca tome café da manhã porque será arriscado.
Sudorese: Isto pode ser dramático; o paciente costuma acordar bem cedo ensopado em suor. Nos primeiros estágios de dependência ele pode apenas relatar pele úmida.
Perturbação de humor: Nos primeiros estágios o paciente pode relatar a experiência em termos de “estar um pouco irritável” ou “nervos fracos”, mas quando dependência está totalmente desenvolvida eles podem descrever vividamente um estado apavorante agitação e depressão.
O efeito eufórico ao consumir do álcool se dá pela liberação inicial de peptídeos opióides, na qual há, ação do álcool sobre os receptores 5-HT (hidroxitriptamina), chamado “efeito compensador”, ou por interações com o GABA (ácido gama amionobutríco), que é o “transmissor inibitório”.
Sabe-se que o álcool também tem o efeito anestésico que pode induzir amnésia. Esse efeito pode ser devido á ação inibitória do álcool sobre o receptor NMDA (N-metil- D- aspartato). Os receptores NMDA são o maior neurotransmissor excitatório do cérebro humano. Logo pode, se pensar que o anestésico do efeito do álcool é vivenciado pelo sujeito para recalcar memórias traumáticas.
Observou-se que a tolerância do álcool é a diminuição da sensibilidade aos efeitos do uso desta substância, e que ela pode ser entendida como uma tentativa de o cérebro compensar o uso desta substância por meio de dois tipos de mecanismos. O primeiro é a diminuição da eficácia do álcool, reduzindo os efeitos em que a substância atua. Já o segundo envolve o condicionamento da aprendizagem.
Segundo Griffith et al (1999) e Costa (2003), a tolerância é descrita em três tipos; aguda, rápida e crônica. O efeito agudo, ocorre entre a duração de uma única exposição ao álcool, de modo que, esse consumo causa uma alegria, agindo indiretamente sobre o sistema límbico (que representa que as expressões da emoção). A dopamina é liberada no uso desta substância (álcool), tendo-se uma sensação de bem-estar. Se o sujeito consumiu o álcool entre oito horas e a três dias após o primeiro uso ter desaparecido, entende-se houver tolerância rápida. Já a tolerância crônica ocorre depois de repetidas doses.
E possível ver, que a intoxicação aguda, do álcool é a ocorrência de uma dose excessiva que coloca em risco a vida daquele que a consome. O que se entende como consumo normal do álcool é aquele sujeito que mantém seu comportamento normal sem elevação do álcool no sangue. Euforia, e por sua vez, é
uma elevação sanguina, na qual o sujeito fica mais falante, aumenta a autoconfiança e diminui o autojulgamento. Já a excitação tem o prejuízo na percepção, como na memória, compreensão, diminuição visual, sonolência, desorientação mental e, estado emocional exagerado. Também há piora na coordenação motora da linguagem, podendo vir a causar coma alcoólico, e deixar o sujeito inconsciente e com seus reflexos diminuídos, possibilitando a morte (que é causada pelo bloqueio respiratório central).
É importante destacar, segundo o autor Griffith et al (1999), alguns transtornos que a dependência do álcool causa no organismo-corpo físico do sujeito, começando pelos gastroenterológicos, que são doenças hepáticas causadas pelo uso do álcool. São três os tipos de doenças hepáticas. O primeiro é o fígado gorduroso o que ocorre para aqueles bebedores pesados em que há uma deposição de gordura no corpo. Ele ocasiona icterícia obstrutiva, insuficiência hepática ou morte e alguns de seus sintomas são mal-estar, cansaço, náusea e fígado hipersensível. O segundo é a hepatite alcoólica que, em graus mais graves, reflete na inflamação do fígado, caracterizando perda do apetite, dor abdominal, perda de peso e febre. Abstinência é o melhor tratamento. Por fim, o terceiro tipo de doença d hepática é a cirrose alcoólica, que pode surgir sem passar pelo estado da hepatite. A cirrose existe em graus, sendo que, se a doença não estiver muito avançada, pode- se estabilizá-la através da abstinência do consumo do álcool. Os sintomas desta doença são abdômen cheio de líquido e, sangramento maciço, sendo que esse ultimo caso, o transplante de fígado, é uma opção.
A Pancreatite aguda, em geral, desenvolve-se em homens que bebem em excesso, cerca de 80g de álcool por dia. Os sujeitos com pancreatite podem ficar febris, hipotensos e ter uma respiração rápida. A pancreatite crônica é o principal sintoma apresentado, causando dor abdominal crônica que esta, associada á esteatorréia (gordura nas fezes).
Também há alguns transtornos dos músculos- esqueléticos, como a gota, que é caracterizada por um edema no dedo das mãos. O nível de elevação de ácido causa inflamação, e é, produzido, assim, o depósito desse ácido nas articulações. A osteoporose está associada a uma massa óssea reduzida, sendo uma fratura dos ossos. Os transtornos metabólicos, como hipoglicemia (diminuição do açúcar no
sangue), dão-se pela indução do álcool, causando uma intoxicação alcoólica que deixa o sujeito descoordenado.
Portanto, segundo o autor Griffith et al (1999), o consumo pesado do álcool pode vir a desenvolver câncer, que é associado a um risco orofaringe, na laringe e no esôfago (garganta). Também arritmias ou perturbação do ritmo cardíaco normal, hipertensão é pressão arterial, o consumo alto de álcool se associa ao desenvolvimento de pressão, alta-baixa.
Já a doença vascular ou derrame (isquêmico ou hemorrágico) pode estar associada ao consumo de álcool, que é um fator de risco para o derrame. Entretanto existe um risco maior em relação a níveis de consumo superiores 30 g por dia, havendo risco de hemorragia intracerebral (AVC).
Assim, o consumo excessivo de álcool também causa disfunção sexual, tendo efeitos tóxicos sobre as gônadas (testículos) após o uso crônico. Nesse caso, há dificuldade na ereção e ejaculação precoce, podendo aumentar, assim, a vulnerabilidade de contrair doenças como, por exemplo, o vírus de imunodeficiência humana (HIV).
Por fim, percebe-se que o consumo excessivo do álcool causa danos físicos que gera diversos efeitos. A síndrome de dependência física se constitui por aqueles sujeitos que consomem o álcool diariamente em doses altas para alterar o estado de consciência. Desta forma, desencadeiam-se alguns sintomas que se refletem diretamente no corpo e que vão desaparecendo após o primeiro gole de (álcool), como tremores generalizados, agitação, náuseas, alterações emocionais, entre outros.
A dependência é explicada fisiologicamente porque o álcool produz na região do núcleo acumbens (núcleo do prosencéfalo basal próximo ao septo, recebe botões terminais de neurônios dopaminérgicos provenientes da área tegmental ventral e acredita-se estar envolvido no reforço e na atenção) um estímulo de reforço para a atitude compulsiva de beber (CARLOSON, 2002, apud COSTA, 2003).
A dimensão físico-orgânica baseada nos estudos de Griffith et al (1999) e Costa (2003), aborda o efeito do álcool no organismo humano, apresentando as doenças desencadeadas e seus sintomas. Assim, mostra o quanto a dependência
desta substância é prejudicial para aquele que a consomem pois pode ocasionar a morte.
2.2. Alcoolismo na sua dimensão psíquica
O alcoolismo possui uma dimensão de doença psíquica por envolver as questões afetivas e emocionais do sujeito que a consome excessivamente. Tem como consequência a ansiedade causada pela falta da substância, assim, como esquecimento, isolamento, distanciamento da família e do trabalho e, em casos mais avançados, confusão mental. É necessário estar atento às multiplicidades de doenças mentais que estão por trás do alcoolismo, sendo que o problema do álcool e dos transtornos mentais é comum. O que pode ser pensado é o uso do álcool como um “remédio” para o sofrimento mental, pois, ajuda o sujeito a sair da “realidade”, sujeito este, que só consegue amenizar seu sofrimento psíquico através do consumo.
Segundo Griffith et al (1999), o álcool, para aquele que consome em grandes quantidades ou que está em a abstinência, faz com que, o sujeito entre em um estado alucinatório. A alucinação temporária pode ocorrer sem que a doença progrida para uma doença mais grave, ou pode vir a desencadear um delirium tremens ou alucinações alcoólicas. A essência desta condição é que o sujeito, no uso excessivo do álcool, tem algumas alucinações passageiras, como, por exemplo; achar que atropelou alguém (mas logo em seguida tem entendimento de que esta alucinação não é real).
Essas ilusões alucinatórias ocorrem em qualquer modalidade sensorial, sendo que o sujeito pode ouvir, ver, ou sentir coisas. As visões podem ser de perseguição, incluindo animais, deixando o sujeito totalmente confiante de que aquilo é real e fazendo-o o mesmo, interagir com estes objetos alucinatórios. O medo é um sentimento presente e vivenciado nestas alucinações.
Logo, o delirium tremens é um estado confuso de curta duração que acontece pelo abuso do álcool. É uma síndrome que causa uma diversidade de sintomas, como delírios, agitações, insônia. O sujeito perde o contato com a realidade e perde sua própria identificação. O delírio pode ocorrer de diversas formas, como um delírio paranoico, no qual o sujeito acredita ser perseguido por
alguém, e, assim, gera uma agitação proveniente desse temor de perseguição, o que lhe causa fragilidade e desequilíbrio, colocando em risco sua própria vida. A insônia é decorrente destas alucinações que o sujeito sofre, pois ele não consegue dormir sem o uso de medicamentos. Este delirium acontece, principalmente, em estado de abstinência alcoólica e também por um percurso longo de uso e abuso dessa substância.
O autor aqui referenciado, fala sobre sentimentos de depressão entre os sujeitos que abusam do álcool, sentimentos estes que se referem a uma tristeza, variando comportamentos. A doença depressiva existe em graus e sintomas se apresentam de várias maneiras, como, perda de energia, fadiga, perturbação de humor em período do dia, incluindo desconcentração de atenção, baixa autoestima, ideias de culpa, sonolência, perda de peso, ideias de autoagressão e até suicídio. A depressão é secundária ao problema de álcool, pois já foi desencadeada antes mesmo do abuso, sendo comum o estado depressivo na abstinência desta substância depois de um consumo excessivo.
Nesta dimensão, percebe-se que o abuso do álcool é um agravante, que desencadeia patologias graves, fazendo com que o sujeito perca totalmente sua identidade, como, por exemplo, seu raciocínio e seu pensamento o que causa um grande sofrimento psíquico. Com o uso excessivo do álcool, ocorre uma demência em que, o sujeito não perde só a memória, mas tem alterações de humor, causando dependência, e fazendo com que ele, não consiga ficar sem o uso da substância.
É por esse motivo que os sujeitos dependentes precisam de ajuda psicológica para passar por este processo de abstinência, no qual encontram um vazio muito grande.
2.3. Alcoolismo na dimensão Psíquica, pelo viés da Psicanálise:
O alcoolismo pode ser trabalhado e compreendido pelo viés da Psicanálise, que busca auxiliar o sujeito em sofrimento psíquico através da psicoterapia como uma ferramenta de trabalho. Todos os sujeitos buscam, de alguma forma, preencher o vazio existencial. Ai alguns fazem a escolha do álcool como uma obtenção de
prazer imediato para preenchimento deste vazio. Este uso traz uma sensação de prazer para quem o consome, podendo ser identificado como uma forma de gozar.
Freud (1920-1922), em Além do princípio de prazer, relata que os sujeitos vivem em uma dimensão de princípio de prazer e desprazer que atua no psíquico. Assim, é possível relacionar estes princípios a uma excitação presente na mente mesmo, que não estejam vinculados. O aparelho mental busca excitação constante, o que pode se pensar que o sujeito que faz o uso da substância busca nela cada vez um princípio além de prazer, neste momento entra a autopreservação do ego que “barra”, sendo substituído pelo princípio de realidade.
Este último princípio não abandona a intenção de, fundamentalmente, obter prazer. Não obstante, há possibilidades de obtê-la, e tolerância temporária do desprazer como uma etapa do longo e indireto caminho para o prazer (FREUD, 1920-1922, p. 20).
Essa busca de prazer constante pode ser relacionada a um dependente alcoólico, que busca, na ingestão desta substância, o prazer que lhe falta a qualquer custo, como se tivesse perdido a satisfação. E a busca causa uma dependência pelo fato de, que o sujeito está sempre buscando esse prazer como se estivesse usando o pela primeira vez.
Segundo Freud (1920-1922):
Contudo, o princípio de prazer persiste por longo tempo como método de funcionamento empregado pelos instintos sexuais, que são difíceis de “educar”, e, partindo desses instintos, ou do próprio ego, com frequência consegue vencer o princípio de realidade, em detrimento do organismo como um todo (p. 20).
Diante disso, pode-se pensar o meio que o sujeito busca para manter o prazer que nunca se alcança, precisando cada vez mais desta substância que causa diversos sintomas para quem consome. Nesse percurso, nota-se um processo de repetição2, em que o sujeito busca este objeto (álcool) para obtenção de prazer. A
repetição do uso dessa substância pode ser pensada por uma via de caráter pulsional3 , que pode ser relacionada a uma vida de pulsão de morte 4 . É neste
3 Pulsão: Termo surgido na França em 1625, derivado do latim “pulsio”, para designar o ato de
percurso que o alcoolista passa a obter o prazer inalcançável do uso/abuso do álcool.
O movimento da pulsão, que parte da regência do princípio do prazer, é sempre o encontro com o prazer, e isto, é possível pela via do objeto. Acredita-se que que a busca é pelo objeto de desejo, entretanto, esta busca não cessa e causa a dependência. Pode-se pensar a dependência como repetição, porque, neste caso, o encontro com o objeto (álcool) gera desprazer e, portanto, sofrimento. Então, é possível falar, aqui, para Além do Princípio do Prazer; (conforme o texto citado com referência): a pulsão seria a pulsão de morte. O que se repete não é o objeto, mas, o encontro faltoso do objeto.
Segundo Vianna (2011), pulsão da morte é uma dissolução do “eu” que tem um caráter de repetição que dá conta do prazer e do sofrimento instantâneo. Assim, o álcool alivia esse sofrimento no momento, pois, passado esse efeito esperado, feita repetição da “ingestão do álcool”, criando uma dependência.
Segundo Freud (1927-1931):
O mais grosseiro, embora também o mais eficaz, desses métodos de influência é o químico: a intoxicação. Não creio que alguém compreenda inteiramente o seu mecanismo; é fato, porém, que existem substâncias estranhas, as quais, quando presentes no sangue ou nos tecidos, provocam em nós, diretamente, sensações prazerosas, alterando, também, tanto as condições que dirigem nossa sensibilidade, que nos tornamos incapazes de receber impulsos desagradáveis (p.86).
O autor referenciado menciona a “droga” como libertação, sendo que o consumo produz um efeito de prazer imediato. Assim, o sujeito consegue lidar com as cobranças da “realidade”, e toma-se desejante, pois, passa a viver com um mal- estar no desejo pelo álcool. A queixa do sujeito não é da ordem do sintoma, mas,
como carga energética que se encontra na origem das atividades motora do organismo do funcionamento psíquico inconsciente do homem Sujeito é um termo corrente em Psicologia, filosofia e lógica. É empregado para designar ora um indivíduo, como alguém que é simultaneamente observador dos outros e observado por eles, ora uma instância com a qual é relacionado um predicado ou um atributo (ROUDINESCO e PLON, 1998, p. 628).
4 Pulsão de Morte: No quadro da última teoria freudiana das pulsões, designa uma categoria
fundamental de pulsões que se contrapõem ás pulsões de vida e que tendem para redução completa das tensões, isto é, tendem a reconduzir o ser vivo ao estado anorgânico. Voltadas inicialmente para o interior e tendendo á autodestruição, as pulsões de morte seriam secundariamente dirigidas para o exterior, manifestando-se então sob a forma da pulsão de agressão ou destruição (LAPLANCHE e PONTALIS, 2001, p. 448).
sim, do objeto, já que o álcool vem a se apresentar como o sintoma. Se a droga for pensada como libertação, ela pode ser vista também como pressionamento do sujeito referente ao uso dessa substância uma vez que o sujeito não consegue enxergar outro prazer, a não ser o álcool. Isso lhe causa um sofrimento, mas o prazer adquirido pela substância é rápido e maior.
Melman (2000) aponta o discurso do alcoolista como uma modalidade de comportamento. O alcoolista específico é reconhecível, na falta de anamnese, de queixas do meio que o cerca ou de estigmas e no, seu discurso (p. 15). Então, é aquele sujeito que fica na queixa e, que não apresenta outra demanda a não ser se queixar.
O alcoolismo relaciona-se com algumas fixações ocorridas na fase oral, ou seja, na relação mãe e filho. O sujeito não consegue se assumir perante o mundo, não tem autonomia e fica preso nesta fase, que corresponde à dependência materna.
De acordo com Melman (2000):
[...] este gozo marque a prevalência de uma fixação oral, lembra-nos a determinação do desejo por uma ordem cuja materialidade, a do significante, recorta a região labidinal como uma incisão da qual não é necessário que seja arcaicamente primária ou original para se encontrar condenada a ser, durante a vida, constantemente re-aguçada. Mas a fixação neste lugar se presta também á representação imaginária do gozo por um fluxo, líquido ou verbal, ou seja, fora de descontinuidade e fora do limite (p.16).
Através do discurso do alcoolista, percebe-se um gozo fálico, pois não há barreiras, “bebe até o fim”, tentando, de acordo com Melman a tentativa de corrigir a castração, justamente por uma relação oral que não é marcada por limite algum. O sujeito alcoólatra, dentro de sua família, não tem o reconhecimento da esposa/do pai. Desta forma, visa o gozo infinito no uso do álcool, pois é nele que o alcoólatra se autoriza e reconhece-se como um sujeito.
No entanto, é necessário compreender e acolher o discurso do sujeito alcoolista. Este discurso se modula por uma submissão particular ao lugar exclusivo de endereçamento á mulher enquanto detentora e distribuidora de gozo. Ela ocupa lugar central na economia psíquica de seu marido. Para o alcoolista, a mulher é tudo.
Segundo Melman (2000, p. 16), o discurso do alcoolista se modula por uma submissão particular ao lugar de seu exclusivo endereçamento: á mulher, enquanto detentora e distribuidora de um gozo, cuja totalização seria, para ele, sempre recusada ou dissimulada.
O autor aqui referenciado aponta que o alcoolista não tem pai, mas, no entanto, pode-se dizer que, se ele tem uma mãe, procura um pai, pois procura semelhante ao nível para se ver a si próprio, não por amor ao semelhante mas, para se reconhecer ele mesmo no Outro5. Por fim, nota-se que o uso desta substância é
universal, mas ela é vivenciada e consumida por sujeitos subjetivos, para os quais o uso é singular assim, como a experiência. O álcool entra na vida desse sujeito como uma forma de responder a este sofrimento. O alcoolista, de acordo com que foi descrito por Freud e Melman, não se submete a nenhum interdito, e só se refere ao gozar primordialmente.
Então, todo sujeito inscrito na função fálica é portador de uma perda de gozo primordial ao desejo do outro. Já o alcoolista não passa pelo corpo do outro, mas, sim, pelo seu próprio corpo. O conceito de gozo se relaciona com a submissão á lei. Diante disso, Freud traz que o uso destas substâncias é uma tentativa de suspensão de dor referente á dor de viver.
2.4. Alcoolismo na dimensão social:
Por ser uma doença social oriunda pelo consumo inadequado, o álcool é considerado, hoje, um problema de Saúde Pública, pois atinge toda a sociedade, desde as classes sociais mais elevadas, até as mais baixas. O uso excessivo de bebidas alcoólicas pode acarretar diversos problemas. tanto para o sujeito que faz a ingestão, quanto para a sociedade que o cerca.
Alguns dos problemas ocasionados pelo uso do álcool no espaço social têm consequências, como acidentes de trânsito, dificuldades de exercer a função no
5 Outro: Termo utilizado por Lacan para designar um lugar simbólico- o significante, a lei, a linguagem,
o inconsciente, ou, ainda, Deus- que determina o sujeito, ora de maneira externa a ele, ora de maneira intersubjetiva em sua relação com o desejo. Pode ser simplesmente escrito com maiúscula, opondo-se então a um outro imaginário ou lugar da alteridade especular. Mas pode também receber a grafia grande Outro ou grande A, opondo-se então quer ao pequeno outro, quer ao pequeno a, definido como objeto (pequeno)a (ROUDINESCO e PLON, 1998, p. 558).
trabalho, afastamento e abandono de emprego, consequências essas levando, na maioria das vezes, ao desemprego. Os danos do álcool à família podem apresentar- se de diversas formas, pela saúde física e mental de seus membros, pela violência contra os mesmos e pela questão financeira do lar.
Pode-se pensar em um sintoma social que se origina daquilo que revela algo do sujeito, e que só pode ser relatado por ele mesmo. As pessoas se tornam sujeito a partir do discurso do outro, portanto, é imprescindível que haja este outro para acolhê-lo. Edwards (1999), cita o consumo do álcool como um problema sociocultural, tendo uma aceitação ao consumo e a valores sociais e culturais. A cultura influencia o padrão de consumo de álcool, e, assim, pode vir a ser um problema. Isso porque, o padrão de beber em uma quantidade grande pode virar uma intoxicação, que vem acompanhada de consequências sociais como acidentes, violência, entre outras.
A cultura também pode influenciar as maneiras pelas quais as pessoas se comportam quando intoxicadas. Assim, o comportamento de embriaguez pode ser determinado não apenas pelos efeitos biológicos do álcool como droga, mas também por expectativa sociais e culturais de como as pessoas vão-se comportar quando bebem (MAC ANDREW e EDGERTON, 1970, apud GRIFFITH et al, 1999, p. 24).
E há uma ampla variação nos comportamentos de embriaguez, o que afeta a escolha de ocupação no social. Em locais onde se tem o álcool, o sujeito acaba não circulando para não beber. A cultura familiar também tem influência sobre o sujeito que bebe, pois, além de influências genéticas, há, as influências dos pais.
São encontradas famílias que seguem rituais de celebrações e, rotinas diárias que envolvem o consumo do álcool. Nesses casos, ele causa desarmonia no casamento, uma vez que se inicia uma vasta discussão sobre este beber e sobre a aceitação, por parte do sujeito, de sua doença, o que causa á família um isolamento para proteção.
Se o alcoolista se queixa de não ser reconhecido como pai, como poderia efetivamente consegui-lo, se a privação de reconhecimento social e de um poder de decisão lhe furta seu lugar de guardião responsável das leis da cidade” (Melman, 2000, p.20).
Consequentemente, o alcoolista tem necessidade de ser reconhecido como sujeito autônomo, que possa ter autonomia sobre a sua vida. O discurso desses sujeitos, dentro do social, é uma tentativa de serem reconhecidos pela família e pela sociedade, não como sujeitos alcoólatras. Muitas vezes, sua identidade se perde e o que fica são rótulos estabelecidos, gerando sofrimento psíquico e exclusão.
É muito presente, em discursos, que existe a aceitação da doença, e a busca do tratamento para a mesma. Mas a família continua no sintoma e, isso acaba gerando um mal-estar no retorno desses sujeitos para seu lar. Logo percebe-se uma necessidade de compreensão com os mesmos, e de um entendimento em relação a esta doença. Precisa-se restabelecer a confiança e a autonomia desses sujeitos, perante a família e o social.
Um dos Processos Sociais que se faz presente nos sujeitos dependentes do álcool é a desqualificação, que se caracteriza pelo movimento de expulsão gradativa, para fora do mercado de trabalho, de camadas cada vez mais numerosas da população e das experiências vividas na relação de assistência, ocorrida durante as diferentes fases desse processo (SAWAIA, 2001, p. 36).
Assim, o conceito de desqualificação nestes sujeitos se define em duas vias. A primeira ocorre quando, pelo beber excessivo, torna-se difícil levantar para trabalhar. Consequentemente o uso desta substância prejudica a capacidade de trabalhar, gerando prejuízo físico e mental e, posteriormente, torna-se mais importante para este sujeito ingerir o álcool do que trabalhar. Tudo isso auxilia para geração do desemprego, e para uma dificuldade e o sujeito se colocar novamente no espaço de trabalho. Já a segunda via percebida quando o sujeito, por estar dependente da substância, sente-se desqualificado como profissional. Pelo fato de o sujeito estar nesta situação, e gerado um processo de exclusão, em decorrência do uso e abuso do álcool, assim, como ocorre com todos aqueles que são rejeitados pelo social, e que acaba produzindo um sofrimento psíquico naquele sujeito.
A exclusão, vista como sofrimento de diferentes qualidades, recupera o indivíduo perdido nas análises econômicas e políticas, sem perder o coletivo. Dá força ao sujeito, sem tirar a responsabilidade do Estado (SAWAIA, 2001, p.51).
Deslizamento é um processo mental que resulta da conjunção de
análoga á dos sonhos, estão integrados em uma cadeia (ou rede) de significantes, mediante os quais funciona o inconsciente. Esses mecanismos remetem um significante a outro, de uma maneira que pode comparar-se á decifração de uma carta enigmática ou á busca, no dicionário, de um termo, que remete a outro e este a um terceiro, até ser conceitualizado com algum significado (ZIMERMAN, 2008, p. 105).
Mas o social apresenta o álcool, como vimos nos capítulos anteriores, muito cedo. Sempre se fez presente, mas o sujeito é único, de modo que sua subjetividade caracteriza este como um sujeito singular. O sujeito é agregado ao social por meio do outro e é, a partir destas vivências sociais que produz significações. É importante destacar o álcool como sintoma social, pelo motivo de ser patologia social, uma vez que apresenta na vida do sujeito e depois aponta-o como aquele que não tem mais lucratividade para esta sociedade. Acontece, então, um processo de exclusão destes dependentes, ocasionando sofrimento. A solução para isso se dá pelo consumo da substância que causa um bem-estar e faz este se sentir sujeito reconhecido.
Esta dimensão aponta o álcool como causador de alguns processos sociais que o sujeito passa a desenvolver pelo uso dessa substância, como também os problemas acarretados com o abuso da substância na vida familiar, no trabalho e até problemas relacionados ao trânsito que colocam a vida daquele que consome das demais pessoas. Todo esse processo que o sujeito vivencia ocasiona um sofrimento, no qual, ele se sente inferior em relação ao social.
CONCLUSÃO
Através do percorrido histórico, algumas observações serão efetuadas. Primeiramente, este trabalho é uma pesquisa bibliográfica, em que através de leituras de livros e artigos, foi possível ter o entendimento do percurso histórico do álcool. Ele sempre existiu na humanidade e, foi vivenciado de formas diferentes conforme cada cultura e suas crenças.
Este tema surgiu a partir de vivências no Estágio de Processos Sociais. Com esta experiência de estágio, passou-se a indagar sobre a busca desta substância para obtenção de prazer. Neste momento, procurou-se entender o que é alcoolismo? O que é ser um alcoólatra. A grande parte da população faz uso desta substância no meio social, e tem contato com a mesma, mas nem todos desenvolvem este círculo vicioso, em torno do álcool, que pode nomear como dependência. Pensando pelo viés de dependência, foram apresentados as três dimensões em que o sujeito circula, física/orgânica, psíquica e social, trazendo um olhar da Psicanálise.
Observou-se que o sujeito que é dependente desenvolve vários problemas orgânicos (como os apresentados neste trabalho). Isso afeta também a parte psíquica dos sentimentos envolvidos neste beber, pois, no momento em que se tem o entendimento que “estou doente”, tem-se o sentimento de incapacidade. Esse movimento pode vir a desencadear uma vontade de tratamento que pode ser por Caps AD, como Clínico e internações em Comunidades Terapêuticas, em que se busca uma reabilitação constante. Também pode vir a desencadear um processo de compulsão á repetição, fazendo o sujeito desacreditar nesta reabilitação e cada vez buscar o álcool como apoio no enfrentamento da vida, podendo ocasiona a própria morte.
A dimensão social exclui o dependente. No entanto, talvez não há o entendimento sobre essa conotação de doença. Pois o sujeito que é dependente acaba perdendo, muitas vezes, o vínculo com o social, deixando de ir trabalhar e, abandonando a família. É possível pensar que, ao procurar vincular-se com o semelhante, o “alcóolatra” se reconhece e tem neste o seu reconhecimento.
Outro ponto importante é o olhar do profissional da Psicologia sobre estes sujeitos dependentes. O trabalho da Psicologia com eles é desempenhado em um
espaço terapêutico em que há atendimento individual, bem como escuta, e desenvolvimento com os grupos terapêuticos, semanalmente. Assim, faz-se a palavra circular e é através desta que o sujeito significa e, nomeia, buscando encontrar meios psíquicos para poder ficar sem uso da substância.
Em razão disso, o trabalho nesta área é essencial e diferenciado, pois acolhe o sujeito em sua singularidade, e auxilia-o lá a entender-se e a reconstruir-se, resgatando valores e adquirindo novos referenciais acerca de sua história. A Psicologia se preocupa com o sujeito e, com sua identidade. Todo e qualquer fator de influência para diferentes comportamentos humanos é de interesse da Psicologia, temos o saber diferenciado sobre aquele sujeito, sabendo identificar e ajuda-lo a lidar com seus sofrimentos referentes a conflitos psíquicos.
Logo, percebe-se a importância da Psicologia em buscar a distinção entre o uso, o abuso, e a dependência. É necessário fazer uma leitura adequada de cada caso e, importante realizar uma distinção e um reconhecimento da situação verdadeira, na qual aquele sujeito se encontra, para que se possa iniciar um trabalho terapêutico. Precisa-se pensar que nem toda relação com a substância significa uma doença que precisa ser tratada. Mas, o sujeito doente por abuso da substância necessita da interpretação deste sintoma para o acompanhamento terapêutico.
Por isso, gostaria de relatar que o desenvolvimento deste tema foi de suma importância para o meu conhecimento, pois tive a oportunidade de aprofundar o conhecimento pelo viés da Psicanálise e também da medicina. Desta forma, penso em pesquisar mais e chegar a um conhecimento maior deste tema que vem a acrescentar em meu percurso acadêmico e em minha futura profissão.
E a questão que fica em aberto, para mim, é o questionamento da cura do sujeito dependente do álcool? Pelo número que percebo de repetições. Pode-se pensar em um círculo em que se tem a desintoxicação, e a abstinência como desencadeadoras, de um processo sem uso da substância. Não dando conta de o sujeito se manter sem o mesmo, vem a repetição da busca de um prazer, sendo que o sujeito nunca se satisfaz e, por isso, sempre busca esse prazer constantemente. É por este motivo que me indago e, que ainda neste momento não está concluído, porque será um tema para uma próxima pesquisa.