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Negócio jurídico processual: análise e circunstâncias de aplicabilidade

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RODRIGO MORIZZO

NEGÓCIO JURÍDICO PROCESSUAL: ANÁLISE E CIRCUNSTÂNCIAS DE APLICABILIDADE

Ijuí (RS) 2019

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RODRIGO MORIZZO

NEGÓCIO JURÍDICO PROCESSUAL: ANÁLISE E CIRCUNSTÂNCIAS DE APLICABILIDADE

Trabalho de Conclusão do Curso de Graduação em Direito objetivando a aprovação no componente curricular Trabalho de Curso - TC.

UNIJUÍ - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.

DCJS- Departamento de Ciências Jurídicas e Sociais.

Orientador: MSc. Joaquim Henrique Gatto

Ijuí (RS) 2019

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Agradeço а Deus pois sem ele eu não teria forças para essa longa jornada, agradeço а meus professores е aos meus colegas que me ajudaram na conclusão da monografia.

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AGRADECIMENTOS

A escolha pelo curso de Direito certamente não foi simples ou rápida para mim, mas, exatamente por ter sido refletida com tempo, tornou-se certeira.

Sigo, hoje, confiante e satisfeito com a escolha que fiz e que me levou a trabalhar com entusiasmo e afinco no mundo da advocacia.

Inicialmente, meu eterno agradecimento a minha mãe, Marinei e ao meu irmão, Leomir, sem os quais eu nada seria.

Agradeço, também, aos profissionais, estagiários e ex-estagiários, companheiros de Ministério Público e de muitas madrugadas, amigos que levarei para a vida.

Por fim, presto meu grande agradecimento ao meu paciente orientador, Joaquim Henrique Gatto, sem o qual essa monografia não seria possível.

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“O sucesso nasce do querer, da determinação e persistência em se chegar a um objetivo. Mesmo não atingindo o alvo, quem busca e vence obstáculos, no mínimo fará coisas admiráveis.” José de Alencar

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RESUMO

Embora um instituto aparentemente novo, o negócio jurídico processual advém do antigo código processualista e recebe uma redação nova e mais ampliada para que o instituto cumpra devidamente sua finalidade. A possibilidade de as próprias partes regrarem o seu rito (procedimento), em alguns aspectos, é uma inovação um tanto quanto complexa e, por essa razão, serão abordadas todas as circunstâncias e condições para que o acordo entabulado não transgrida as normas processuais fundamentais e nem vá de encontro ao ordenamento jurídico pátrio. De mencionar, ainda, que os estudos dirigidos acerca de novos institutos (já que inova pela existência, agora, de uma regra geral) não é assunto uníssono na doutrina, bem como na jurisprudência, pelo que o entendimento do escopo e dos regramentos básicos, norteará as futuras mobilizações do processo, através desses acordos procedimentais.

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ABSTRACT

Although a seemingly new institute, the procedural legal business comes from the old procedural code, and receives a new and expanded wording so that the institute duly fulfills its purpose. In addition, the possibility for the parties themselves to regulate their rite (procedure) in some respects is a rather complex innovation and, for that reason, will be addressed all the circumstances and conditions so that the agreement does not infringe procedural rules and do not go against the legal system of the country. It is also worth mentioning that studies directed at new institutes (since they innovate by the existence, now, of a general rule) is a unison in doctrine, as well as jurisprudence, so understanding the scope and basic rules will guide the through the procedural agreements

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 9

1 NEGÓCIOS JURÍDICOS PROCESSUAIS ... 11

1.1 Negócios jurídicos processuais e o espírito do NCPC ... 12

1.2 Contextualização histórica e demais explanações de cunho teórico... 14

1.3 Cabimento, requisitos e momento dos negócios jurídicos processuais ... 16

2 CONTEÚDO DOS NEGÓCIOS JURÍDICOS PROCESSUAIS ... 23

2.1 Objeto dos negócios jurídicos processuais ... 23

2.1.1 Ônus processuais ... 25

2.1.2 Poderes processuais ... 26

2.1.3 Faculdades processuais ... 27

2.1.4 Deveres processuais ... 28

2.2 Negócios jurídicos típicos e atípicos ... 29

2.3 Limites para negociação ... 31

2.4 Controle Judicial da Validade ... 33

2.5 Situações possíveis de negociação ... 34

CONCLUSÃO ... 37

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INTRODUÇÃO

O presente trabalho tem por objetivo explanar todas as circunstâncias atinentes ao negócio jurídico processual, desde a sua concepção, até a sua plena eficácia dentro das demandas nas quais as partes se sujeitarão ao acordo. Assim, em que pese haver, como será abordado, liberdade de negociação, as estipulações estarão sujeitas ao cabimento dentro ordenamento jurídico pátrio, para não relativizar a segurança jurídica.

Nesse sentido, é preciso ter em mente que, embora não sejam sinônimos, estudando os negócios jurídicos processuais, estamos tratando, também, de atos processuais, sendo que o primeiro é uma espécie, e o segundo, o gênero, haja vista que o plano negocial se limita aos atos procedimentais.

Ainda, a autonomia da vontade é outro panorama que será elucidado, em virtude de que a negociação só subsiste a partir do consentimento de ambas as partes para, unidas, traçarem os efeitos pretendidos com a negociação, e o que será tratado como objeto do acordo.

Outrossim, o presente estudo abarcará todas as formas e modalidades de negociação, sem olvidar dos requisitos essências da sua existência, assim como as limitações que circundam toda essa instrumentalização com efeitos entre as partes, para certa demanda litigiosa.

Por derradeiro, de afirmar, que a composição das partes com relação a quesitos processuais, abre espaço para que debatam acerca da matéria de direito

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material, fomentando, inclusive, a resolução totalmente consensual da contenda jurídica.

Os juristas, como veremos, devem se atentar a essas novas modalidades de composição, e utilizá-las de maneira coesa, em face de que essa composição pode gerar efeitos benéficos aos litigantes, e assim, haver uma melhor prestação jurisdicional com os acertos nas questões processuais que se adequarão de melhor maneira à lide.

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1 NEGÓCIOS JURÍDICOS PROCESSUAIS

O novo Código de Processo Civil elenca diversos institutos que estão à disposição das partes para melhorar a eficiência da prestação jurisdicional, dentre todos, menciona-se o negócio jurídico processual. Pela compreensão natural do termo, trata-se de um acordo entre duas partes – os litigantes do processo – acerca de alguma questão estritamente processual (mesmo com consequências de direito material), embora não se restrinja apenas a isso, como será abordado a seguir.

De acordo com Daniel Amorim (2016, p. 578), há duas espécies de negócios jurídicos processuais, os unilaterais e os bilaterais. Os unilaterais decorrem da vontade de uma única parte, como por exemplo, a renúncia de um prazo processual. Assim, percebe-se que o ato resulta em um encurtamento do tempo normal do procedimento, sendo essa uma, dentre todas as mais variadas consequências que essas estipulações podem produzir.

Os negócios jurídicos processuais também podem ser bilaterais (Ibidem, p. 579), mas esses necessitam, imprescindivelmente, de uma soma de vontades para que possam surtir efeitos (sem prejuízo de saneamento do Juízo para validação, se necessário). Nesse viés, temos como exemplificação todos os casos que se enquadram a partir do artigo 190 da legislação processual vigente, que os prevê, bem como os autoriza.

Essas negociações processuais jurídicas também podem ser plurilaterais, como no caso da estipulação de um calendário processual, previsto no art. 191 do CPC. O diferencial dessas negociações é que a sua existência com os efeitos esperados só terão validade e vigência acaso o Juízo intervenha homologando o pacto (Ibidem, p. 579).

De modo geral, o negócio jurídico processual é uma modalidade de intervenção que faz com que o procedimento processual seja alterado. Em outras palavras, é todo ato produzido por um ou mais sujeitos do processo que resulta em consequências diretas na continuidade dos movimentos pré-estipulados, que se

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denomina rito. Destarte, essa definição ainda será mais profundamente trabalhada e estudada no decorrer do presente estudo.

1.1 Negócios jurídicos processuais e o espírito do NCPC

É sabido que as previsões legais que possibilitam as partes negociarem no campo processual já vêm do antigo Código de Processo Civil, de maneira esparsa. Entretanto, somente com o novo Código de Processo Civil tem-se um artigo que aborda, de maneira ampla, a plenitude do instituto, que, agora, é regulamentado e deve ser interpretado de forma sistemática dentro do ordenamento jurídico processual.

Assim, temos o instituto do negócio jurídico processual, previsto no art. 190 do Código de Processo Civil, que estabelece o quanto segue:

Art. 190. Versando o processo sobre direitos que admitam autocomposição, é lícito às partes plenamente capazes estipular mudanças no procedimento para ajustá-lo às especificidades da causa e convencionar sobre os seus ônus, poderes, faculdades e deveres processuais, antes ou durante o processo. (BRASIL, 2019).

Portanto, compreende-se do artigo supracitado, que, quando se trata de direitos disponíveis (ou seja, que não é defeso por lei a parte dispor do mesmo) é possível que os sujeitos litigantes do processo entabulem acordo que muda aspectos processuais do procedimento, podendo, sobretudo, estipular questões relativas às provas.

O parágrafo único deste dispositivo elucida que os atos conciliados estão sujeitos à validação do Juízo, limitando o seu saneamento a tão somente atos nulos ou que preveem estipulações abusivas, caso alguma das partes seja hipossuficiente (lato sensu) e possa de alguma forma ser suscetível, haja vista a vulnerabilidade, senão vejamos:

Art. 190. Parágrafo único. De ofício ou a requerimento, o juiz controlará a validade das convenções previstas neste artigo, recusando-lhes aplicação somente nos casos de nulidade ou de

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inserção abusiva em contrato de adesão ou em que alguma parte se encontre em manifesta situação de vulnerabilidade. (BRASIL, 2019).

Nesse viés, aduz Pedro Henrique Nogueira (2017, p. 123, apud PERIM, 2018, p. 3):

[...] serve aos diversos subdomínios do conhecimento jurídico, daí porque se lhe tem atribuído o status de um conceito jurídico fundamental. O negócio jurídico se apresenta como uma espécie de fato jurídico, legitimando-se, assim, o seu tratamento como um conceito jurídico fundamental (lógico-jurídico).

Ademais, tendo em vista que o fato jurídico produz efeitos, os estudos dos limites de alteração ainda estão por serem consolidados pela jurisprudência, e, nesse ponto, é possível que, até mesmo para além da seara probatória, as partes estipulem tantas alterações que o rito ordinário do procedimento seja afetado.

Nessa ótica, Humberto Theodoro Jr., assevera:

A alteração convencional de alguns procedimentos que a lei autoriza para ajustá-los às especificidades da causa exige o preenchimento dos seguintes requisitos: (i) a causa deve versar sobre direitos que admitam autocomposição; (ii) as partes devem ser plenamente capazes; e (iii) a convenção deve limitar se aos ônus, poderes, faculdades e deveres processuais das partes”. (THEODORO JR., 2017, p.485, apud SOUZA, 2018, p. 8).

Destarte, por todo o universo de complexidades e nuances apontadas, acredita-se que com a negociação das formas de utilização ou até mesmo a estipulação dos meios probatórios a serem utilizados para instrução do procedimento, o negócio jurídico enquanto instrumento à disposição das partes é plausível e demasiadamente oportuno que nossos legisladores tenham dado a devida atenção para esse instituto, que, sendo salutarmente utilizado, será de grande contribuição para o deslinde consensual das demandas que tramitam no judiciário.

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1.2 Contextualização histórica e demais explanações de cunho teórico

Para melhor análise do contexto histórico que envolve as negociações jurídicas, iniciam-se as ponderações a partir do direito romano que, como leciona Pedro Henrique Nogueira (2011, p. 110), naquela época não existia o instituto do negócio jurídico em sua acepção ampla. Portanto, por ora, não há o que se falar em ramificação desse conceito, visto que o campo processualista da negociação inexistia.

Outrossim, de mencionar que o negócio jurídico processual, foco deste estudo, é uma ramificação do negócio jurídico (lato sensu). Sendo assim, a explanação da evolução do negócio jurídico enquanto gênero é o caminho mais vantajoso para se chegar ao entendimento e amadurecimento do conceito de negócio jurídico estritamente processual.

Ademais, mesmo com a existência da terminologia “negotium”, utilizada em Roma, não há evidências que corroborem no sentido de que essa palavra detinha um conceito fixo, ou, ao menos correlacionado tecnicamente ao direito propriamente dito (Ibidem, p. 110).

Nesse sentido, Nogueira (2011, p. 110), esclarece que:

Coube, assim, aos pandectistas, já no final do século XIX e, ainda, no início do século XX, sistematizar a noção de negócio jurídico (Rechtsgeschäft), que havia surgido em sua forma primária no século XVIII. A gênese histórica do conceito de negócio jurídico mostra o seu acentuado traço liberal-individualista, mesmo porque relacionado diretamente à ideia de “autonomia privada”, como espectro de livre ação dos indivíduos – fórmula consagradora da prevalência do resguardo dos interesses individuais de feições liberais em face do Estado.

Dessa forma, o que havia era a relação entre dois indivíduos visando à negociação na seara civil, com efeitos entre eles, sem a influência do Estado enquanto sujeito atuando diretamente. Assim, nota-se que as teorias de direito privado, com a intervenção mínima do Estado, já se estabeleciam na prática mesmo antes de a ciência do direito tê-la como um campo a ser explorado.

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Ademais, o que se pretendia com a exploração e criação desse instituto, sobretudo, com a sua finalidade, era promover a autonomia privada dos sujeitos que entabulavam o negócio jurídico, tudo, à luz das normas de direito constitucional, norteando toda a negociação.

Por isso, o negócio jurídico contém e se configura num preceito, ou disposição, da autonomia privada, dirigido aos interesses próprios de quem o estabelece, destinados a realizar imediatamente os efeitos ordenativos correspondentes, na vida de relação. (Nogueira, 2011, p. 115).

Salienta-se que o real escopo do negócio jurídico (lato sensu) é a incidência, a partir dele, dos efeitos jurídicos, que podem – simploriamente – ser discriminados como a criação, alteração ou extinção de um direito, ou dever, seja em qualquer seara existente.

Da formação histórica do instituto do negócio jurídico (também, processual), se constata que é muito importante e um requisito essencial a livre expressão da vontade dos sujeitos que se submetem à negociação. Nesse sentido, trata-se de uma oportunidade na qual esses sujeitos, com a existência de respaldo jurídico, se sujeitam a uma regulação mútua a fim de obter algum benefício recíproco.

Conforme se extrai das escritas de Nogueira (2011, p.122), a vontade é fator basilar para formação e validade do negócio jurídico, senão vejamos:

Parece-nos que o autorregramento da vontade se define como um complexo de poderes, que podem ser exercidos pelos sujeitos de direito, em níveis de amplitude variada, de acordo com ordenamento jurídico. Do exercício desse poder, concretizado nos atos negociais, resultam, após a incidência da norma jurídica, situações jurídicas (e não apenas relações jurídicas).

O que se pretende esclarecer e tecer como indubitável é que o negócio jurídico não fica adstrito aos campos do direito civil material e se expande até mesmo na seara processual. Dessa forma, compreende-se que a sujeição dos sujeitos voluntariamente – com a possibilidade jurídica, ou a não existência de impedimento legal para tanto – também está presente em diversos institutos de direito processual.

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Outra explanação necessária revela-se a partir do que nos leciona Teixeira de Sousa (1997, p. 193, apud Nogueira, 2011, p. 124):

são os atos processuais, de caráter negocial, que constituem, modificam ou extinguem uma situação jurídica processual. Essa fixação conceitual vale como ideia prévia. Posteriormente, tornaremos a definir o negócio processual apreciando as objeções estabelecidas àquela figura em cotejo com a definição de fato processual aqui assumida.

Nesse sentido, giza-se que não obstante o conceito acima muito bem desenvolvido cite somente as transmutações da situação jurídica processual, os negócios jurídicos processuais não se restringem a somente efeitos processuais. Mesmo tendo por escopo a resolução de fatos relativos ao procedimento, as vinculações estipuladas podem tangenciar o direito material incidentalmente.

No mesmo caminho, há que se diferenciar substancialmente os atos processuais do negócio jurídico processual. O ponto comum de ambos é a voluntariedade, entretanto, no caso dos atos processuais, o que se vislumbra alcançar é a prática do ato em si, ou seja, produzido, perfectibiliza-se o ato. No caso do negócio jurídico processual, o pacto visa à obtenção de efeitos que incidirão sobre o procedimento (Nogueira, 2011, p. 127, apud Liebman, 2005, p. 291).

Destarte, a existência do negócio jurídico processual quando adentra ao ordenamento jurídico brasileiro (desde 1973 e, agora, melhor regulado em 2016) demonstra a clara preocupação do legislador em oferecer suporte legal para que as partes transacionem e consigam, enfim, dar solução ao litígio. Ocorrendo isso, cumpre-se a função da jurisdição e a obrigação do Estado em prover tutela à busca pela justiça através do processo.

1.3 Cabimento, requisitos e momento dos negócios jurídicos processuais

Reconhecida a sua existência e aplicabilidade, chega-se ao momento do estudo do cabimento, dos requisitos e momento do negócio jurídico processual. Aqui, por oportuno, se estabelecerão os requisitos que norteiam a possibilidade de atingir o escopo da negociação, com a observação dos ditames legais.

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Desse modo, como bem pontuado nos dizeres anteriores, o negócio jurídico processual já existia na legislação processual pretérita, mas não tão bem elucidado enquanto instituto, sobretudo, com artigos direcionando a existência de uma norma geral para existência e validade dos acordos.

Portanto, o que se percebia era a existência de negócios jurídicos típicos (que serão abordados com o trilhar do texto, em momento mais coeso) e não uma regra fundamental, um pilar, que ensejaria na criação dos negócios jurídicos atípicos. Em outras palavras, cria-se a norma geral, bem como seus requisitos, e se abre às partes a possibilidade de acordarem de maneira ampla sobre aspectos processuais que darão o norte ao procedimento.

Nesse contexto, aduz Daniel Amorim (2016, p. 581), que:

Diferente do diploma legal revogado, o Novo Código de Processo Civil passou a prever de forma expressa uma verdadeira cláusula geral de negócio jurídico processual, de forma a permitir, além das hipóteses específicas de negócio processual típico, que continuam entre nós, a celebração de acordo entre as partes de forma geral, envolvendo tanto o procedimento como as suas situações processuais.

Nesse viés, com a ciência de que não é necessário que haja um artigo específico que trate do objeto do negócio jurídico (stricto sensu), e sim, uma regra geral que atribui poder às partes para, cumpridos os requisitos, formularem qualquer espécie de acordo processual, resulta-se em uma amplitude do cabimento deste instituto.

Pode-se afirmar que dentro do contexto processual, não havendo pacto que contrarie a Constituição da República Federativa do Brasil, ou as normas infraconstitucionais, não há impedimento para o cabimento deste instituto. Podendo ser desde uma estipulação de renúncia à dilação probatória, até uma negociação acerca de uma renúncia comum ao prazo para interposição recursal.

De outra banda, há críticas quanto o advento deste instituto, precipuamente no que tange à sua aplicabilidade na prática forense, eis que não se inova na

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criação dele, e tão somente é noviço na maior liberdade para fruição desta liberalidade processual, a partir de um artigo central regendo a amplitude do acordo.

Assim, colabora a visão de Daniel Amorim (2016, p. 582):

Quem sabe com a ampliação do objeto do acordo procedimental ele se torne mais frequente, em especial na formatação de contratos que não contenham convenção de arbitragem. As partes não abririam mão do acesso ao Poder Judiciário, mas já estabeleceriam de antemão as regras procedimentais para o futuro e eventual processo judicial. Sinceramente, acredito que a consagração efetiva do art. 190 do Novo CPC depende de mudança de cultura jurídica, tanto contratual como processual, e por isso não nutro grandes expectativas práticas quanto à novidade.

Ademais, por outro aspecto, há que se estudar o momento no qual pode ser produzido o negócio jurídico processual. Tem-se aqui uma genuína liberdade também, que segue no mesmo sentido das composições das lides no aspecto material. Tal como a conciliação e a mediação que podem ocorrer a qualquer tempo antes da prolação da sentença, o negócio jurídico processual pode ser estipulado antes ou durante o processo.

Vale destacar que o artigo 190 do Código de Processo Civil, in fine, preconiza que não é defeso às partes “[...] convencionar sobre os seus ônus, poderes, faculdades e deveres processuais, antes ou durante o processo. (BRASIL, 2019)”. Por isso, resta claro que os acordos podem ocorrer antes mesmo do ajuizamento da demanda.

Nesse contexto, Daniel Amorim (2016, p. 587-588) leciona que:

Nos termos do art. 190, caput, do Novo CPC, o negócio jurídico processual pode ser celebrado antes ou durante o processo. No tocante à celebração em momento anterior ao processo, concordo com a doutrina que defende uma aproximação do negócio jurídico processual ora analisado com a arbitragem, de forma que convenção possa ser elaborada por meio de cláusula contratual ou por meio de instrumento em separado, celebrado concomitantemente ou posteriormente ao contrato principal. Quando celebrado durante o processo, as partes podem fazer o acordo extrajudicialmente, apenas protocolando-o em juízo, como também podem celebrar o negócio jurídico na presença do juiz, em ato oral, como na audiência de

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instrução e julgamento e até mesmo na presença do conciliador ou mediador na audiência prevista pelo art. 334 do Novo CPC, já que tal acordo não depende de homologação judicial para gerar efeitos.

Nessa feita, atribui-se em vários aspectos liberalidade às partes para negociarem quando e como lhes for mais conveniente, desde que respeitando os requisitos legais. Conclui-se, por conseguinte, que o legislador pretende – e, de fato, conseguiu – fazer com que as partes tivessem pleno controle e capacidade de negociar os aspectos processuais visando obter para si os efeitos de cada negociação processualista.

Em prosseguimento das abordagens que se perfazem necessárias para entendimento deste instituto, é necessário esclarecer quais são os requisitos formais que possibilitam a negociação surtir os efeitos almejados pelas partes. Sendo evidente que, acaso não respeitadas ou contrariadas essas definições legais, o negócio jurídico processual não deverá ser aceito pelo Juízo, visto que ele detém a incumbência de controlar essa negociação, e, se necessário, interferir extirpando a sua existência.

Portanto, refere Daniel Amorim (2016, p. 588), que:

O negócio jurídico processual não depende de homologação pelo juiz, aplicando-se ao caso o previsto no art. 200, caput, do Novo

CPC, de forma que o acordo procedimental é eficaz

independentemente de qualquer ato homologatório judicial. Cabe ao juiz, entretanto, controlar a validade do negócio jurídico processual, de ofício ou a requerimento da parte, levando em conta a análise dos requisitos formais exigidos de forma geral para a regularidade do negócio jurídico e o previsto no art. 190, parágrafo único, do Novo CPC.

Nesse sentido, há que se entender que existe uma linha tênue entre desnecessidade de homologação e imprescindibilidade de saneamento. No primeiro, exclui-se a interferência judicial para que o pacto possa vigorar e produzir efeitos, a partir da negociação. No segundo, evidencia-se um movimento contínuo do Juízo em sanear todos os atos do processo, inclusive a negociação processual, haja vista que o controle de atendimento ou não dos requisitos definidos em lei quem faz é o magistrado.

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É compreensível, portanto, que haja o indeferimento do negócio jurídico processual feito em descompasso com os requisitos legais que abaixo serão elucidados. Vale ressaltar, ainda, que todos os movimentos processuais, desde a peça inicial, até o trânsito em julgado da decisão terminativa, são e estão sujeitos à análise por todos os Juízos dos quais se tenha contato em primeira, segunda, e, até mesmo, em terceira instância, quando se alcançam os tribunais superiores ou o Supremo Tribunal Federal.

Por essa ideia, também é possível afirmar que em virtude do efeito translativo dos recursos que preconiza a capacidade de o Juízo superior ao de primeiro plano julgar para além da matéria hostilizada e fazer a análise de requisitos e formalidades legais, é cabível a verificação da existência de vícios ou nulidades até mesmo na seara negocial processual. Por isso, imperiosa a constatação de que as disposições obrigatórias para a constituição do negócio jurídico processual são matérias de ordem pública, podendo ser explanadas de ofício, ou a requerimento, em qualquer tempo.

Outro aspecto relevante, no que tange a possíveis nulidades, seria o ingresso de ação rescisória por erro formal na criação do negócio jurídico processual, não percebido por ambas as partes, nem pelo Juízo, resultando em prejuízo a alguma delas. Não se tem notícia da existência de alguma ajuizada nesse sentido, mas é um assunto a ser pensado e observado, principalmente, o futuro comportamento da jurisprudência nesses casos, agora, hipotéticos, mas logo, reais.

Uma das principais atribuições do Juízo no controle de validade do negócio jurídico está pautada através da apuração da disponibilidade do direito negociado. Sendo assim, o acordo poderá ser refutado se versar, no todo, ou em parte, acerca de direito cuja indisponibilidade seja atributo legal.

Por outro lado, também poderá ser anulado o negócio jurídico processual se houver estipulação abusiva proveniente de contrato no qual o oblato não teve a

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oportunidade de manejar as cláusulas e o aderiu sem as ponderações dos ônus e bônus (contratos por adesão em massa).

Na mesma lógica, para higidez da negociação processual, é necessário que alguns requisitos sejam observados, sob pena de outra nulidade ser apontada pelo Juízo. Como no caso da imprescindibilidade de sujeito capaz, sem impedimento para negociação, bem como o teor do estipulado estar de acordo com o ordenamento jurídico e a modalidade pela qual for celebrado o pacto não ser proibida por lei.

A capacidade ainda está sendo assentada pela doutrina e jurisprudência, haja vista que, como muito sabido, não existe só um tipo e a imposição de requisito. Para tanto deveria ter sido discriminada no dispositivo legal da regra geral.

Nos dizeres de Daniel Amorim (2016, p. 589), temos as seguintes correntes doutrinárias, assim como a aposição de seu entendimento:

Há corrente doutrinária que defende tratar-se de capacidade material, de forma que os relativamente ou absolutamente incapazes, mesmo que assistidos ou representados, não podem celebrar negócio jurídico. Outra corrente doutrinária entende que a capacidade exigida é tão somente a processual, de forma que havendo representação processual os incapazes poderão celebrar o negócio jurídico. Não vejo como se interpretar a capacidade exigida pelo art. 190, caput, do Novo CPC, como sendo exclusivamente a processual, porque nesse caso a exigência formal simplesmente cairia no vazio. A parte precisa ter capacidade de estar em juízo, de forma que mesmo aquelas que são incapazes no plano material,

ganham capacidade processual ao estarem devidamente

representadas. Se a capacidade for a processual, todo e qualquer sujeito processual poderá celebrar o negócio jurídico ora analisado, já que todos devem ter capacidade de estar em juízo no caso concreto.

Ademais, o autor ainda faz referência (Ibidem, p. 589) a uma importante diferenciação entre representação e presentação. Enquanto na primeira supre-se um requisito formal para capacidade de estar em juízo ou de responder em nome de alguém por disposição legal (até mesmo judicial), a presentação se refere à representação legal necessária do sujeito que atua para dar vida à empresária (ente despersonificado que precisa se materializar através de seu representante para

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contrair obrigações e dispor de direitos). Frisa-se que esse último detém plena capacidade de celebrar negócio jurídico processual, assim como outro de qualquer natureza.

Destarte, e não menos importante, inobstante a falta de esclarecimento no corpo do texto legal, a forma a ser observada pela qual será constituído o acordo processual é, mais recomendável, que seja escrita, mesmo não havendo óbice explícito para que a negociação seja feita de modo verbal.

Por derradeiro, com a explanação de todo o contexto histórico acrescido das ponderações formais acerca da negociação jurídica processual, têm-se o aporte de várias constatações que são de grande valia para compreensão do conteúdo dos acordos, as quais serão objeto de estudo, análise e profunda reflexão no próximo capítulo.

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2 CONTEÚDO DOS NEGÓCIOS JURÍDICOS PROCESSUAIS

Nos dizeres de Cândido Rangel Dinamarca et Al (2016, p. 249), temos como interior e escopo da realização de negócio jurídico processualista a constatação de que se trata de um “ato de autorregulação dos próprios interesses com que as partes ajustam entre si os modos como o processo e o procedimento se realizarão, afastando-se das regras abstratas da lei e configurando um novo regramento concreto.”

Portando, se perfaz necessário irmos para além da seara dos requisitos formais e legais de validade e existência, e adentrar ao campo dos objetos dos negócios jurídicos processuais. Aqui, por isso, serão ventiladas de maneira exauriente as possíveis negociações habituais, ou seja, o seu conteúdo propriamente dito.

Ademais, mesmo que os aspectos formais tenham sido superados, isso não significa necessariamente que o Juízo não precise sanear ou, como veremos, até mesmo homologar, negócios jurídicos processuais entabulados, em razão da função já anteriormente explanada, acerca da movimentação de continuidade de saneamento de todos os atos processuais que perdura até a extinção da demanda, e pode ir, inclusive, para além dela, se houve provocação jurisdicional.

Por fim, imperioso destacar que, assim como qualquer outro instituto genérico, nem todos os casos em que é possível a composição pela negociação jurídica processual serão elucidados em sua plenitude, haja vista que como não existe um rol taxativo para tanto, pode ser que surjam casos para além do convencional.

2.1 Objeto dos negócios jurídicos processuais

Chega-se, enfim, ao cerne do negócio jurídico processualista e a sua repercussão direta na alteração do procedimento. O tão pretendido efeito acordado vigorará e será imperioso, preponderando frente à norma geral que estipula ritos

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ordinários (lato sensu, visto que se refere aos ritos que são pautados no CPC de maneira geral).

Outrossim, no que tange à licitude do objeto debatido, certamente não pairam dúvidas quanto a isso, em virtude de que o artigo que predispõe a regra geral é bem incisivo e claro quando fixa o objeto do acordo, que, pelo próprio nome do instituto se revela oportunamente, negócio jurídico processualista.

No mesmo sentido, na concepção genuína de Pedro Henrique Nogueira (2011, p. 141), tem-se que o “[...] universo de negócios processuais é significativamente amplo. Uma considerável parte dos atos procedimentais praticados pelas partes pode, com grande vantagem, ser enquadrada como autênticos negócios jurídicos processuais”.

No entender de Daniel Amorim (2016, p. 584) “as partes podem estipular mudanças no procedimento para ajustá-lo às especificidades da causa”. Com isso, depreende-se que o objeto a ser explorado e delimitado através do negócio jurídico processualista é justamente a submissão da norma geral em detrimento da vontade (autorregulada) pelas partes.

A sua genialidade enquanto instrumento disponível consiste na amplitude da negociação (possibilidades de estipulação serão abordadas em tópico específico), e, assim, regular e traçar efeitos processuais aos ritos nas quais as ações tramitariam de maneira ordinária.

Por oportuno, de esclarecer que a vontade das partes é, no entender de Daniel Amorim (Ibidem, p. 585), “uma vontade justificada, condicionada a uma adequação procedimental que atenda a eventuais peculiaridades do caso concreto”. Sendo, por isso, uma alteração voluntária que se faz necessária, conforme análise das próprias partes, do procedimento que servirá especificamente ao propósito pretendido pelos negociadores.

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Especificamente sobre o objeto dos negócios processuais Fredie Didier Jr. assenta oito premissas que devem ser observadas: (i) que, na dúvida, deve admitir-se o negócio processual; (ii) que a negociação atípica somente pode se realizar em causas que admitam autocomposição; (iii) que o que se aplica à licitude do objeto do negócio jurídico privado também se aplica ao negócio jurídico processual; (iv) que sempre que regula expressamente um negócio processual, a lei determinará os contornos do seu objeto; (v) que sempre que a matéria for de reserva legal, a negociação processual em torno dela é lícita; (vi) que não se admite negócio processual que tenha por objeto afastar regra processual que sirva à proteção de direito indisponível; trata-se de negócio com objeto ilícito, porque dispõe sobre o afastamento de alguma regra processual cogente; (vii) que é possível inserir negócio processual em contrato de adesão, mas ele não pode ser abusivo; (viii) no negócio processual atípico as partes podem definir outros deveres e sanções para o caso de seu descumprimento, distintos do rol legal de deveres e sanções processuais. (DIDIER, 2016, p. 391-394 apud HATOUM; BELINETTI 2017 p. 255-256).

Desse modo, conclui-se que o objeto do negócio jurídico processual, conforme bem frisado, são as estipulações das quais as partes serão (por livre e espontânea vontade motivada) coniventes e submissas, ou seja, as alterações específicas que repercutirão diretamente no procedimento (rito).

2.1.1 Ônus processuais

No dispositivo legal que regula a norma geral que abarca o negócio jurídico processual, temos a amplitude de negociação acerca dos ônus processuais. Essa incumbência de agir ou não, em hipótese alguma pode ser confundida com uma obrigação imperativa, visto que se trata de uma liberalidade em se desincumbir do ônus ou assumir as suas consequências. Portanto, nunca é impelido à parte fazer ou não fazer algo, apenas lhe é dada a oportunidade de se manifestar sobre algo que, acaso sobrevenha silêncio, o aventado pela parte contrária poderá ser tido como verdade.

Por essa razão, esclarecem Dinamarco e Lopes (apud HATOUM; BELINETTI 2017 p. 258), acerca do ônus processual:

O ônus, ao seu turno, consiste no encargo de assumir conduta comissiva ou omissiva como condição para obter vantagem ou para não suportar desvantagem. Difere do cumprimento das obrigações e

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dos deveres, que se realizam em benefício de outro sujeito, porque a observância dos ônus traz um benefício àquele que os cumpre sempre em seu próprio interesse. É por este motivo que o cumprimento do ônus não pode ser exigido da parte e seu descumprimento não implica em ilícito, na medida em que a ninguém prejudica, a não ser ao próprio sujeito que não o cumpre

Desse modo, resta evidente que a distribuição do ônus é mais comumente vista na seara probatória, em virtude de que, a partir da distribuição dinâmica do ônus da prova, o chavão anteriormente utilizado de que quem alega consequentemente prova, não mais subsiste sem exceção em nosso ordenamento jurídico, razão pela qual as partes podem estipular que, acerca de tal ponto, ou situação, o ônus de prover subsídio probatório para instrução da demanda recairá sob uma, ou as duas partes, como for a estipulação negocial.

Ainda, ressalta que Marques (apud HATOUM; BELINETTI 2017, p. 258):

[...] nos ônus processuais deixa a lei à livre vontade da parte onerada o cumprimento do imperativo jurídico ou a consequência danosa do seu descumprimento, e se constituem como estímulos para as partes, porque faltando a atuação do sujeito processual, que é o conteúdo do ônus, advém-lhe consequência prejudicial, ou pelo menos o risco de sofrê-la.

Por tal circunstância que não se deve falar em obrigação enquanto sinônimo de ônus. Porquanto a primeira é uma medida imperativa que pode sobrevir de um pronunciamento judicial (ordem de fazer ou não fazer), a segunda é uma possibilidade de a parte se manifestar contrariamente sobre algo e se desincumbir dessa situação, sem que haja prejuízo próprio advindo da não resposta.

2.1.2 Poderes processuais

No que concerne aos poderes processuais, há um entendimento amplo, sem deixar apartados os direitos em suas mais variadas formas, assim como os poderes que as partes possuem com relação à demanda e, mais especificamente, os decorrentes do processo.

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Nesse viés, afere Didier jr. (apud HATOUM; BELINETTI 2017, p. 258) que “a expressão “poderes”, mencionada no dispositivo em análise, deve ser compreendida da forma mais ampla possível, abarcando direitos subjetivos e potestativos e poderes propriamente ditos”.

Assim, na maior acepção ampliativa do termo, os poderes são todos os atos nos quais as partes, por força de respaldo legal, podem e tem o direito de proceder como a lei lhe garante. Por isso, a parte tem poderes para entabular negócio jurídico processual, e para além disso, de estabelecer novas situações em que outros poderes podem ser negociados.

2.1.3 Faculdades processuais

A própria semântica da palavra nos traz o conceito dessa prerrogativa inerente às partes, já que faculdade é a possibilidade de fazer ou não fazer algo, assim como proceder ou não, conforme a conveniência e vontade do sujeito. Não se fala em obrigação, e sim, uma possibilidade, em outras palavras, um ato voluntário espontâneo.

Nesse entendimento, Cândido Rangel Dinamarco e Bruno Vasconcelos Carrilho (apud HATOUM; BELINETTI 2017, p. 257), aludem:

[...] que as partes possuem, em princípio, liberdade de agir no processo segundo suas próprias vontades e escolhas. Essa liberdade para o exercício das faculdades processuais encontra limite na esfera de direitos de outra pessoa, razão pela qual existem, no processo, normas impostas especificamente para limitar a sua extensão.

Em um panorama geral, diferentemente do que ocorre com o ônus processual, no qual a opção de se manter inerte frente à incumbência pode gerar prejuízo, na faculdade a falta de agir nada causará de malefício, visto que se não houver o interesse do sujeito, pela voluntariedade que lhe confere a lei, em usar da faculdade, nenhum efeito positivo ou negativo pode lhe ser imputado.

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Nesse sentido, evidencia-se que:

Em regra, o não exercício de uma faculdade não impõe ao sujeito qualquer sanção, ainda que subsistam as consequências jurídicas desta conduta. É o caso, por exemplo, da decadência quanto ao não exercício de um direito potestativo, ou da preclusão, que consiste na perda da faculdade de praticar um ato processual (MEDINA apud HATOUM; BELINETTI 2017, p. 257-258).

Por fim, de concluir que a faculdade nada mais é do que um ato voluntário processual que está à disposição das partes para ser utilizado quando melhor convier, e, como já referido, pode ser objeto de negociação processual, como bem autoriza o art. 190 do Código de Processo Civil.

2.1.4 Deveres processuais

Perpassados todos os outros objetos específicos do negócio jurídico processual, temos aqui os deveres processuais. Nesse caso, não há o que se falar em liberalidade das partes para decidir como bem lhes convier, visto que os deveres já são regulados pela norma processualista, e pode, novamente, ter a regulação aditada pela vontade dos litigantes.

Em virtude dessa possibilidade, de ponderar que:

Os deveres, por outro lado, se apresentam como imperativos do interesse alheio, e isso porque não os cumprir significa prejudicar um terceiro e não a si próprio (como ocorre com os ônus). É o caso da parte que, mentindo em juízo, está descumprindo o dever de lealdade processual, e o caso da testemunha que, não comparecendo para depor, descumpre o dever de comparecer (DINAMARCO; LOPES apud HATOUM; BELINETTI 2017, p. 258-259).

De considerar, ainda, o que preconiza o art. 77 do Código de Processo Civil em vigência:

Art. 77. Além de outros previstos neste Código, são deveres das partes, de seus procuradores e de todos aqueles que de qualquer forma participem do processo: I - expor os fatos em juízo conforme a verdade; II - não formular pretensão ou de apresentar defesa quando

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cientes de que são destituídas de fundamento; III - não produzir provas e não praticar atos inúteis ou desnecessários à declaração ou à defesa do direito; IV - cumprir com exatidão as decisões jurisdicionais, de natureza provisória ou final, e não criar embaraços à sua efetivação; V - declinar, no primeiro momento que lhes couber falar nos autos, o endereço residencial ou profissional onde receberão intimações, atualizando essa informação sempre que ocorrer qualquer modificação temporária ou definitiva; VI - não praticar inovação ilegal no estado de fato de bem ou direito litigioso. (BRASIL, 2019).

Portanto, em que pese seja um rol bem discriminado, a negociação jurídica processualista pode superar o peso dessa regra geral, ressalvado o saneamento que o Juízo pode e deve fazer com relação acordo, e, possibilita às partes estipularem deveres que se adequam especificamente às necessidades da demanda em que litigam.

Pela mesma compreensão, temos as seguintes explanações:

[...] entendem que ônus, faculdades e poderes consistem em temas que preponderantemente atinem à esfera jurídica das partes. Assim, se o litigante entender conveniente dispor sobre um ônus que lhe caiba, ou sobre um poder ou uma faculdade, estará atuando em sua esfera privada. Já quanto aos deveres processuais, há evidente preponderância do caráter público, de modo que eventuais convenções sobre deveres poderão ser reputadas inválidas, por ser-lhe ilícito o objeto. (WAMBIER et al. apud HATOUM; BELINETTI 2017, p. 259).

Como desfecho desses objetos em que se faz cabível a negociação processual, passa-se a explicitação dos casos em que se pode haver o entabulamento do acordo, de tal sorte que a doutrina dominante procedeu na diferenciação entre os negócios jurídicos expressamente previstos em lei, e os que decorrem da interpretação do que autoriza a norma geral do artigo. 190 do Código de Processo Civil.

2.2 Negócios jurídicos típicos e atípicos

Embora haja ampla discussão acerca dos negócios jurídicos processuais a partir da sua regulação geral apresentada pelo novo Código de Processo Civil,

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anteriormente, como o antigo Código, vários artigos já faziam menção a acordos processuais e tinham a sua previsão expressa.

Desse modo, a tipicidade do negócio jurídico está conexa à existência de dispositivo legal prevendo o fato jurídico processual a ser negociado. Se há artigo de lei que já antecipa a possibilidade de negociar, ele é típico, com a sua plena validade respaldada pela lei, sem discussão acerca da possibilidade ou não de cabimento de composição processual.

Nesse sentido, Daniel Amorim (2016, p. 579), salienta que:

Apesar da divergência doutrinária a respeito da admissão de negócios jurídicos processuais, já no CPC/1973 existiam várias passagens que os consagravam de forma expressa, realidade mantida e ampliada no Novo Código de Processo Civil. Sempre que a lei prever um negócio jurídico processual de forma expressa, tem-se um negócio jurídico processual típico. Nestem-ses casos, conforme será analisado com a devida profundidade, é possível que os requisitos de admissibilidade também estejam previstos de forma específica.

Uma das situações que mais se comumente utiliza para negociar acerca do processo, antes mesmo da existência de processo, é a cláusula de eleição de foro (artigo 63 do Código de Processo Civil), que estipula, obrigatoriamente, que as partes, acaso queiram discutir aspectos contratuais, deverão ajuizar a demanda perante o juízo do foro elegido (Daniel Amorim, 2016, p. 579).

De outra banda, com relação aos requisitos que envolvem os negócios jurídicos processuais típicos, entende-se que o dispositivo legal que regula a norma geral das negociações (sobretudo, dos atípicos), se aplica concomitantemente aos que já existe previsão legal para tanto. Trata-se de um instituto complexo, e deve ser ponderado com todas as suas especificidades.

Nessas hipóteses de negócio jurídico processual bilateral surge um interessante questionamento: esses acordos devem respeitar os requisitos legais previstos pelo art. 190 do Novo CPC? Apesar de parcela da doutrina entender que as condições específicas do acordo previstas no art. 190 do Novo CPC não são exigidas nos negócios jurídicos típicos, que seguem suas próprias regras formais, entendo

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que a existência de regras formais específicas não afastam as regras formais gerais previstas no dispositivo ora analisado. (NEVES, 2016, p. 580).

Por essa razão, os negócios jurídicos processuais atípicos não têm previsão legal expressa, mas gozam da possibilidade de enquadramento junto à regra geral, respaldando e validando a sua existência, com a plena higidez decorrente da norma processual.

2.3 Limites para negociação

Todas as regulações que sujeitam as partes a proceder de alguma forma, sob pena de invalidade do negócio jurídico processual, são limitações de seu agir, que servem também como requisitos para plena validade e possibilidade de a negociação surtir efeitos, sem contrariar a legislação processual.

Não se pode confundir a possibilidade de acordar sobre diversos aspectos processuais, mesmo sem previsão expressa (tipicidade) para tanto, com a negociação sem limites e sem haver submissão ao controle de validade do juízo, sendo imperioso que este último, ao constatar vícios na constituição do negócio jurídico processual, declare a irregularidade imediatamente para seja descartado e não cause nulidade processual.

Por esse entendimento, elucida Neves (2016, p. 596) que:

As limitações, entretanto, são ainda mais amplas, sendo atualmente a grande questão a ser respondida pela doutrina e pela jurisprudência. Não há dúvida de que a liberdade das partes foi significativamente aumentada, o que deve ser saudado, até porque permite um processo mais democrático, no qual a vontade das partes deva ser considerada para a fixação do procedimento e observância das posições processuais. Mas é natural que existam limites.

Nesse panorama, as normas fundamentais do processo não admitem estipulação contrária, sobretudo, por ser um acordo que causa efeitos a partir da vontade de particulares que são, e, não se pode esquecer, jurisdicionados pelo Estado. Portanto, incabível o entabulamento de acordo que vá de encontro, ou, até

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mesmo, viole as normas fundamentais do processo, tais como os princípios gerais de regulação.

No que tange às normas fundamentais, Neves (2016, p. 596-597), leciona o quanto segue:

Com algumas variações terminológicas e por vezes até mesmo de alcance, a doutrina vem defendendo que o negócio jurídico processual ora analisado não pode violar as normas fundamentais do processo – ou garantias mínimas, ou garantias constitucionais do processo, ou posições jurídicas inerentes ao modelo processual adotado no Brasil, ou devido processo legal.

Salienta-se, portanto, que é defeso às partes negociarem na esfera processual, acerca de normas fundamentais, precipuamente, para não incorrer em negociações que extrapolem as suas capacidades e cause insegurança jurídica pelo não seguimento ao menos, dos princípios processuais gerais.

De outra sorte, as normas cogentes (imperativas), também constituem limitação para negociação, eis que tendo em vista a sua imposição legal, não é cabível que as partes regulem suprimindo a legislação que o Estado proveu, fazendo prevalecer o interesse de particulares, em detrimento do interesse social maior – o qual o Estado deve, ou deveria, buscar acima de tudo –.

Nessa visão, Neves (2016, p. 600) esclarece que:

Normas cogentes são aquelas impostas pela lei aos sujeitos processuais, sendo irrelevante sua vontade no caso concreto. Como o negócio jurídico processual ora analisado tem como base a vontade das partes, parece lógica a conclusão de que o acordo não pode ter como objeto uma norma cogente. Com o fundamento de que as partes não podem afastar normas cogentes, não se admite acordo que verse sobre a admissão de prova ilícita, para excluir a participação do Ministério Público quando a lei exige sua presença, para fixar prioridade de julgamento quando não previsto em lei, para criar novos recursos ou ampliar suas hipóteses de cabimento, para modificar regra de competência absoluta para criar hipóteses de ação rescisória e de outras medidas tendentes a desconstituir a coisa julgada, para a dispensa da presença de litisconsorte necessário etc.

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Em apanhado final, as limitações impostas às partes decorrem de todos os princípios de regulação da vontade das partes. Portanto, o pacto deve estar de acordo com todas as normas processuais e, até mesmo, a Constituição Federal vigente, assim como todas as demais intervenções convencionadas dos sujeitos no processo.

2.4 Controle da Validade do Juiz e a natureza da decisão que anula o negócio jurídico processual

À vista do que já foi explanado, o juiz não precisa homologar os acordos provindos dos negócios jurídicos processuais, entretanto, deve se atentar ao fato de que o controle através da análise de atendimento aos requisitos de tudo o que ocorre no processo, pode e deve ser compulsado e saneado pelo juízo. Daí que se insurge a necessidade de revisão constante dos acordos processuais perfectibilizados.

Na mesma ideologia, Neves (2016, p. 605) explana que “conforme devidamente analisado, o acordo celebrado pela partes nos termos do art. 190 do Novo CPC não depende de homologação judicial, mas pode ser anulado por decisão judicial”.

Por esse motivo, para além do já esclarecido acerca do movimento constante de saneamento do controle de validade dos negócios jurídicos, o qual deve ser feito pelo juiz de ofício (até porque é proibido arguir nulidade a que deu causa em benefício próprio), a espécie da decisão que constata irregularidade também merece análise acurada.

Nesse contexto, aduz Neves (2016, p. 605) que:

Apesar de bastante improvável, o acordo pode ser anulado em capítulo de sentença, quando não haverá dúvida a respeito do cabimento da apelação. Muito mais frequente, entretanto, será a decretação de nulidade por decisão interlocutória, surgindo nesse caso instigante questão a respeito de sua impugnabilidade.

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Portanto, o mais corriqueiro é que a decisão que anule o negócio jurídico processual seja o pronunciamento através de decisão interlocutória, e, pelo que se depreende do novo entendimento acerca da recorribilidade desse tipo decisório, se perfaz possível a interposição de recurso de agravo de instrumento pela taxatividade mitigada do rol estabelecido no artigo 1.015 do Código de Processo Civil.

Com relação à declaração em sede de sentença, os instrumentos a serem manejados para questionamento do pronunciamento se dá através do recurso de apelação, ou, na manifestação em contrarrazões de apelação, em que é oportunizado às partes, rediscutirem o mérito da decisão do juízo singular, enquadrando-se as que versem sobre negócio jurídico processualista.

2.5 Situações possíveis de negociação

Nesse tópico final da presente pesquisa, o que se vislumbra é aportar o máximo de possibilidades nas quais se é cabível entabular acordo processual. Face a essa grande liberdade de negociação que a regra geral trouxe para nossa legislação processual, não será possível exaurir as situações que comportam essa negociação.

Por isso, Neves (2016, p. 606) adverte que:

Como já deve ter ficado claro, o art. 190 do Novo CPC é um vasto campo a ser explorado, havendo inúmeras e sérias dúvida a seu respeito. Os doutrinadores precisam criar limites não casuísticos ao negócio jurídico processual, ainda que a indicação de exemplo ajude na compreensão do tema. Diante de tal realidade, é interessante ao intérprete conhecer os Enunciados do Fórum Permanente de Processualistas Civis (FPPC) e da Escola de Formação dos Magistrados (ENFAM) que casuisticamente indicam hipótese que podem e que não podem ser objeto do negócio jurídico ora analisado.

Assim, os pactos processuais que são cabíveis, de acordo com Neves (2016, p. 606-607) são:

Para o FPPC são admissíveis: pacto de impenhorabilidade, acordo de ampliação de prazos das partes de qualquer natureza, acordo de

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rateio de despesas processuais, dispensa consensual de assistente técnico, acordo para retirar o efeito suspensivo de recurso, acordo para não promover execução provisória; pacto de mediação ou conciliação extrajudicial prévia obrigatória, inclusive com a correlata previsão de exclusão da audiência de conciliação ou de mediação prevista no art. 334; pacto de exclusão contratual da audiência de conciliação ou de mediação prevista no art. 334; pacto de disponibilização prévia de documentação (pacto de disclosure), inclusive com estipulação de sanção negocial, sem prejuízo de medidas coercitivas, mandamentais, sub-rogatórias ou indutivas; previsão de meios alternativos de comunicação das partes entre si; acordo para realização de sustentação oral, acordo para ampliação do tempo de sustentação oral, julgamento antecipado do mérito convencional, convenção sobre prova, redução de prazos processuais, para dispensar caução no cumprimento provisório de sentença.

Nessa esfera, os negócios jurídicos verificados através dessa pesquisa, para além dos acima citados, foram: acordo a respeito da suspensão do processo; negociação que delimite ônus probatório às partes; a cláusula que elege o foro no qual a controvérsia deverá ser processada; a desistência mútua da ação; a convenção de submissão à arbitragem.

Ainda, se percebe que a alteração dos prazos pode ser disposta através da negociação jurídica processual, desde que se trate de um prazo dilatório (em que não há iminente prejuízo às partes, nem causará morosidade excessiva da demanda) e não peremptórios (definidos em lei, sem possibilidade de dilação).

Por conseguinte, Fernandes (2017, p. 1-2) ainda elenca como possíveis negociações jurídicas processuais:

Quais serão, então, arrolados, os exemplos de negócios jurídicos processuais que podem ser livremente praticados pelas partes? Negócios que: (i) estabeleçam a cronologia do procedimento (tal como ocorre já no processo arbitral – CPC 191); (ii) estabeleçam a cláusula sem recurso, desde que bilateral, isto é, que somente haverá decisão de mérito no primeiro grau de jurisdição; (iii) c) estipulem renúncia ao direito de interpor recurso; (iv) dispensem determinada prova, por exemplo, pericial; (v) convencionem sobre a distribuição do ônus da prova; (vi) elejam o foro em que deve ser processada e julgada a ação; (vii) estabeleçam cláusula compromissória para submeter a lide à arbitragem; (viii) estipulem a incidência, no processo, da cláusula solve et repete (renúncia à exceção do contrato não cumprido); (ix) renúncia ao direito de recorrer; (x) determinem qual o direito aplicável à hipótese (na

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convenção de arbitragem é possível: escolher-se a lei aplicável, escolher "livremente, as regras de direito a serem aplicadas na arbitragem" [LArb 2º, parágrafo 1º], escolher-se o idioma no qual se desenvolverá o processo, conferir-se ao tribunal arbitral a possibilidade de decidir por equidade etc); (xi) autorizem o juiz estatal a decidir por equidade, mesmo fora dos casos previstos em lei; (xii) pacto de impenhorabilidade; (xiii) acordo e rateio de despesas; (xiv) pacto de mediação ou de conciliação extrajudicial; e (xv) pacto de não aplicação de efeito suspensivo aos recursos.

Destarte, mesmo tendo sido colacionadas várias situações em que se vislumbra a possibilidade de negociar aspectos processuais do litígio, a regra geral que estabeleceu respaldo à criação de negócios processuais atípicos cria uma movimentação constante dessas possibilidades, e tal liberdade fomenta impossibilidade de delimitação e discriminação de todos os acordos. Assim, somente a análise com o transpasse do tempo dos casos práticos concomitantes à jurisprudência traçarão as arestas deste instituto.

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CONCLUSÃO

Em tempos nos quais as funções atinentes à jurisdição (avocadas pelo Estado) estão sobrecarregadas pela cultura de judicialização de demandas, os meios cuja finalidade seja prover uma aproximação das partes e, partindo disso, obter um acordo acerca de aspectos processuais, são instrumentos que vêm no mesmo sentido do espírito conciliador do novo CPC, ou seja, de grande valia.

Ademais, sob outra ótica, toda forma de aproximação das partes para que juntas possam resolver alguma questão acerca do litígio (mesmo que fique adstrita à negociação processual) já é um caminho que se abre para a resolução do direito material em tela, porquanto seja um acordo, todas as formas pacíficas de resolução da contenda jurídica são oportunas.

O negócio jurídico propriamente dito, pelo todo exposto, é um acessório que está à disposição das partes para resolverem questões processuais. Nas ponderações acima explanadas, ficou claro que a modificação pontual e com efeitos somente inter partes, não viola qualquer aspecto constitucional com relação à exclusividade da União em legislar sobre matéria processual, visto se tratar de um acordo, com previsão legal, que vai alterar características processuais das quais o legislador deu liberdade às partes negociarem.

Por oportuno, esse acordo não vigorará em detrimento das normas fundamentais, nem de legislação classificada como cogente, ou seja, não pode contrariar as bases das nossas leis que versam sobre matéria processual, tanto é que, mesmo havendo uma liberdade com a atipicidade das negociações

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processuais, a matéria ainda deverá respeitar o ordenamento jurídico e passará por constante controle através do saneamento feito pelo Juízo.

Os seus requisitos e formalidades, ambos legais, para cumprimento de seu escopo, estão, sobretudo, vinculados à ideologia de que a regulação que as próprias partes estipulam para si, não podem se perfazerem a ponto de causar insegurança jurídica. Assim, todas as movimentações processuais, inobstante a alteração através da negociação, devem – obrigatoriamente -, estar de acordo com o sentido da legislação processual vigente.

Outrossim, é válido lembrar que as estipulações no que concerne à negociações processuais já havia previsão através do antigo Código de Processo Civil, mas somente na modalidade típica (com previsão expressa do que poderia ser negociado), e, com o advento da nova legislação, temos um regramento geral que admite o entabulamento de acordos nos quais não existe previsão taxativa no código processualista.

Destarte, a pesquisa perfectibilizada abarcou todos os fatores que envolvem esse plausível instituto, e, ainda, corroborou de maneira eficaz para compreensão dos limites e sujeições das partes a (auto) regrarem suas intenções processuais para que se adequem às especificidades das causas, fazendo com que, sem prejuízo dos pilares dos ritos procedimentais, haja maior liberdade para que a jurisdição flua como o esperado.

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