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Vista do As redes sociais e a (des)construção do sujeito | Acta Científica

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as redes sociais e a

(des)construção do sujeito

Marcos eduardo Gomes de Lima1

resumo: Este artigo pretende propor uma discussão sociológica sobre a existência das redes sociais, procurando verificar o seu papel na dinâmica do capitalismo atual e os efeitos sociais da disseminação do seu uso. Inicialmente, a título de contextualização, faz-se um resgate das linhas gerais do capitalismo, desde a sua consolidação no século XVIII até a presente fase neoliberal. Em seguida, são investigadas as características das redes sociais, com ênfase nas seguintes questões, entre outras: o imperativo da visibilidade e da quantidade, a possibilidade de desconexão a qual-quer momento, vida convertida em encenação, desespero pelo novo e fragmentação do sujeito. Palavras-chave: Cibercultura; Redes sociais; Neoliberalismo; Sujeito

sociaL netWorKs and tHe (des)construction oF tHe suBject

abstract: This article proposes a sociological discussion about the existence of the social ne-tworks, seeking the verification of their role in the capitalisms present dynamics, and the social effects of the dissemination of its use. At first, to build our background, the general lines since its consolidation in the 18th century until its current phase were rescued. Next, the characte-ristics of the social networks were investigated, emphasizing the following points: the impe-rative of the visibility and quantity, the pssibility of unconnecting at any moment, the conver-sion of life to staging, the desperation for new things and the fragmantation of the individuals. Keywords: Cyberculture; Social networks; Neoliberalism; Subject

Toda relação é uma operação de desconstrução e construção constantes. Em todas as instituições sociais operam a desconstrução e a reconstrução. Podemos citar como exemplos a escola, a igreja e a família, entre outras. Ao se imergir nessas relações, um pouco da pessoa se desfaz para permitir que um pouco do outro ocupe esse espaço. Esse processo pode ser chamado de educação, experiência de vida, enfim, aprendizado.

Revisitando Aristóteles, pode-se inferir que a sociabilidade é intrínseca ao ser humano. “Sua ideia mestra é que a sociedade é natureza e não convenção; portanto, algo inerente ao

pró-prio homem e não simplesmente algo estatuído. […] o homem é por natureza um ‘animal políti-co’, um ser vivo social” (MARÍAS, 2004, p. 91). Ninguém vive só. Logo, não se pretendem nesta breve reflexão duas coisas: primeiro, negar a realidade e a essencialidade dos relacionamentos; e, segundo, negar a utilidade das redes sociais cibernéticas para os mais variados fins, inclusive aproximar e reaproximar pessoas. O que se objetiva é propor uma discussão sociológica sobre a existência das redes sociais. Seria um fato neutro ou é um elemento revelador da dinâmica do

1 Mestre em sociologia pela PUC-SP. É professor de antropologia e história no Centro Universitário Adventista

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capitalismo atual? Quais os efeitos sociais da disseminação do uso dessas ferramentas de comuni-cação? Esta reflexão parte da premissa de que a realidade das redes sociais no ciberespaço é ape-nas parte, importante, do atual estágio de desenvolvimento do capitalismo e tem interferido pro-fundamente na maneira pela qual o ser humano se relaciona. Não se pretende esgotar o assunto e nem discutir aspectos especificamente econômicos e mercadológicos, mas sim problematizar as redes sociais cibernéticas e a possível banalização dos relacionamentos humanos. É com esse contexto em evidência que se propõe discutir o efeito das redes sociais virtuais, ou cibernéticas.

observações preliminares sobre o capitalismo

De 1750, quando da emergência da maquinofatura e consequente explosão da pro-dução industrial, até os dias de hoje, a relação do ser humano com o meio foram alterados como nunca dantes nos outros seis mil anos da humanidade.

A necessidade de operários obedientes, robotizados, constantes e dependentes, a ne-cessidade de empresas protegidas, mercado protegido, matéria-prima protegida e mão de obra docilizada proporcionaram a criação de um Estado forte e indutor, capaz de difundir a ideologia do trabalho por toda a sociedade. Talvez seja pertinente enfatizar que um dos conceitos de maior complexidade para a sociologia é o de ideologia. De Desttut de Tracy2

até os dias de hoje, o termo foi alvo de interpretações as mais diversas, ampliando ou mesmo alterando o seu sentido. Reconhece-se que “é um conceito essencialmente contestado, isto é, um conceito acerca de cuja exata definição (e, portanto, aplicação) existe viva controvérsia” (MCLELLAN, 1987, p. 13). Basicamente, no marxismo, que apresenta o maior debate sobre a categoria de ideologia, a trajetória do conceito iniciou-se de maneira negativa, pois, para

Marx o sentido pejorativo de ‘ideologia’ envolvia dois elementos principais: primeiro, a ideologia estava ligada ao idealismo, o qual, numa perspectiva filosófica, contrastava desfavoravelmente com o materialismo: qualquer visão correta do mundo tinha de ser, em certo sentido, uma visão materialista. Em segundo lugar, a ideologia estava ligada com a distribuição desigual de recursos e poder na sociedade: se o sistema social e econômico era suspeito, então a ideologia fazia parte dele. (MCLELLAN, 1987, p. 27).

Em A ideologia alemã, encontra-se uma das passagens mais utilizadas sobre o

enten-dimento de Marx sobre a ideologia:

Se, em toda ideologia, os homens e suas relações aparecem de cabeça para baixo como numa câmera escura, este fenômeno resulta do seu processo histórico de vida, da mesma forma como a inversão dos objetos na retina resulta de seu processo de vida imediatamente físico. (MARX; ENGELS, 2007, p. 94).

2 Intelectual francês contemporâneo de Napoleão Bonaparte que definiu em seu livro Eléments d’Idéologie o termo

ideologia como a “ciência das ideias”. Seu objetivo era analisar cientificamente as ideologias. O significado da expressão foi desvirtuado para um sentido negativo por Napoleão, que considerava Desttut de Tracy e seus com-panheiros “ideólogos”, ignorantes da realidade.

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Tal relato descreve um processo de inversão da realidade, que caracterizaria a ação ideoló-gica, isto é, inverter a consciência do ser humano sobre a si próprio e sobre suas relações sociais. Por outro lado, importa discutir que o próprio marxismo, em sua dinâmica, expe-rimentou visões diferentes do conceito antes absolutamente negativo, por ser uma forma de dominação de classe, até ser reconhecido como algo que pode ser positivo, como o fez Lênin3, que chegou a “atribuir uma posição ideológica a todas as classes – incluindo

o proletariado. A ideologia perdeu assim a sua conotação negativa: as ideias não eram defeituosas por serem ideológicas, mas somente pelos interesses de classe que servissem” (MCLELLAN, 1987, p. 48). De Lênin em diante, o conceito foi estudado e ampliado

conforme o intelectual. De maneira geral, o marxismo aceitava em suas discussões o pensamento de que as ideologias existem em todas as classes. A partir de Lênin, ideologia seria “como qualquer concepção da realidade social ou política, vinculada aos interesses de certas classes sociais” (LÖWY, 2006, p. 12). E, mais ainda, “a ideologia pode (e de fato o faz) servir a ambos os lados [nos embates do conflito de classes] com seus meios e métodos de mobilização dos indivíduos que, ainda que não percebam com clareza o que ocorre, inevitavelmente participam da luta em andamento” (MÉSZÁROS, 2004, p. 327).

Assim, pode-se entender que uma determinada sociedade se comporta, em grande parte, orientada ideologicamente. As necessidades de reorganização do pós-guerra, o acirramento da luta de classes na política interna dos países capitalistas, bem como as disputas bipolares no pla-no exterpla-no, geraram um “estado de bem-estar” social4 que, por algumas décadas, garantiu o

mí-nimo a cada cidadão da Europa e EUA, o que garantiu a sustentação ideológica do capitalismo.

neoliberalismo

Hoje, uma vez satisfeitas às condições necessárias ao enraizamento do capital, a ideologia do momento seria a do Estado Mínimo, ou seja, a presença do Estado deve ser a mínima possí-vel na economia. Assim, a ideologia neoliberal e sua correlata privatização têm operado a trans-formação da sociedade de produtores em sociedade de consumidores (ver BAUMAN, 2008).

A mola do capital é o consumo, numa ponta do processo, porém, é na produção que se garante o lucro. Assim, se por um lado, garantir o consumo é vital, também é imprescindí-vel garantir uma “mão de obra barata”. Ao Estado capitalista cabe proporcionar a realização nas duas pontas do processo – a da produção e do consumo. No passado, a “mão de obra barata” nos países subdesenvolvidos foi garantida pelo Estado através das ideologias das políticas trabalhistas5, sindicatos tutelados e “pelegos”, corporativismo e amarras legislativas.

3 Pelo fato de Lênin não ter chegado a conhecer A ideologia alemã (pois mesmo esta sendo concluída em 1846, só

foi publicada em 1932, na União Soviética), não se pretende afirmar que ele estava discordando ou replicando as análises do próprio Marx e Engels como apresentada em A ideologia alemã.

4 O termo ficou mundialmente conhecido como welfare state, que significou um conjunto de direitos

assegu-rados pelo Estado ao cidadão, nos países ricos, e compreendia entre outras coisas, férias e descanso semanal remunerado, aposentadoria, seguro de saúde, desemprego. Em algumas nações esse conjunto de direitos foi tão profundo que levou alguns analistas a categorizarem esses países como “socialistas evolutivos”, isto é, chegaram ao socialismo sem revoluções.

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Hoje, o mesmo objetivo é alcançado pelo “desmantelamento dos mecanismos de barganha coletiva e proteção do emprego” (BAUMAN, 2008, p. 16), também através da ideologia.

Dessa forma, uma vez que à classe trabalhadora são vedados, por todos os meios, os “mecanismos coletivos de defesa”, é urgente educá-la no individualismo, na autopromoção, na crença de seu poder próprio como sendo as bases do sucesso. “Querer é poder”, “faça você mesmo”, “educação é investimento” são corolários de uma ideologia neoliberal que prega que cada indivíduo deve ser seu próprio empresário, um empreendedor, responsável por seu próprio sucesso ou fracasso. As “condições materiais objetivas” desse possível su-cesso ou fracasso não aparecem no discurso. É assim que a juventude como um todo, mão de obra em formação, é chamada a viver na “sociedade do espetáculo”, onde visibilidade seria a chave para a felicidade. “Sou visto, logo existo”.

A mão de obra no capitalismo é mercadoria, e os custos da produção da mão de obra, que antes estavam a cargo do Estado, através das escolas e universidades públicas, hoje foram privatizados. O custo agora é seu. “A preocupação de garantir ‘vendabilidade’ da mão de obra em massa é deixada para homens e mulheres como indivíduos” (BAUMAN, 2008, p. 16). O custo da produção dessa mercadoria chamada trabalhador agora é do próprio trabalhador, que é chamado à (des)construção para se adaptar aos novos tempos do capitalismo.

Assim se difunde o “novo espírito do capitalismo” como descreve Luc Boltanski e Eve Chiapello (BAUMAN, 2008). Volatilidade, flutuação, descompromisso, flexibilidade, generali-zação, descartabilidade. O mundo deve ser fluido. As relações sociais devem ser efêmeras, pas-sageiras, pois trabalhador bom é aquele que só se preocupa com o trabalho. Não tem família, nem amigos reais, pois estes exigem tempo e espaço, e isto atrapalha a marcha do capitalismo. Os dias dos funcionários de carreira se foram. A carreira hoje é mudar sempre.

Para tanto, o indivíduo, educado para a volatilidade e efemeridade das relações so-ciais deve abandonar, desconstruir-se como ser humano e se tornar, transmutar, evoluir, por assim dizer, num ser camaleônico. A vida para o consumo faz parte dessa estratégia. Diante de milhares de opções, das inúmeras variáveis envolvidas numa compra, o sujeito é colocado como um ser soberano. Soberania nas escolhas de consumo seria um treino para ser soberano sobre a sua vida, no fracasso ou sucesso. A ideologia se espraia, dessa forma, com “poder quase mágico que permite [à classe dominante] obter o equivalente daquilo que [seria] obtido pela força” (BORDIEU, 2007, p. 14), mas prescindindo desta, ou seja, operar a (des)construção no mundo do trabalho e do consumo através da estratégia do consenso.

as redes sociais

Faz parte desse processo de (des)construção, a imersão nas redes sociais virtuais, pois nelas se constrói o sujeito que pensa ser soberano. Nessas redes, o indivíduo pode se apresentar com quantas máscaras quiser, como numa vitrine, e fazer suas escolhas diante do espetáculo que lhe é oferecido. Procura-se nesse ambiente, mercado de bens simbó-licos imateriais, um poder. Poder este que, por sua vez, também é simbólico. Poder “de constituir o dado pela enunciação, de fazer ver e fazer crer, de confirmar ou de transfor-mar a visão do mundo e, deste modo, a ação sobre o mundo” (BORDIEU, 2007, p. 14).

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As redes sociais cibernéticas são hoje os instrumentos desta ideologia, as fer-ramentas mais populares do imenso big brother em que o mundo se transformou, ao mesmo tempo em que servem

como a ampliação de espaços de diálogos e discussões, o florescimento de nichos e, principalmente, a quebra do autoritário meio de comunicação/informação clássica, baseada na relação de massificação cognitiva um-todos (produtores e receptores de sentido respectivamente). (CASTRO; HUHTALA, 2008).

Não é possível negar que o chamado virtual é capaz de produzir efeitos reais. Tanto positivos como negativos. Pode-se ressaltar como uma construção positiva a ampliação das oportunidades de expressão. Contudo, também produz efeitos reais em aspectos nem tão positivos da realidade humana. A realidade das redes sociais não pode ser vista apenas como uma simples fuga ou negação da realidade, como observam alguns de seus críticos. Os efeitos reais da “convivência” nas redes sociais cibernéticas são muitos e ain-da oferecem extenso campo de pesquisa, porém “quanto mais nos tornamos íntimos e humanizamos nossa relação com o ciberespaço, por meio de simulações que imitam a realidade não-virtual, mais nos tornamos seres cibernéticos, mais nos tornamos extensões do ciberespaço” (CASTRO; HUHTALA, 2008). Não é difícil imaginar que no campo das ações práticas, nossa vida sofrerá uma transformação. O homem e máquina passam a viver uma relação simbiótica, quando não parasitária, afinal, de onde o virtual retira sua força de vida, se não do real mundo dos homens? Castro e Huhtala (2008) advertem que

a inebriante realidade virtual possibilita que mundos sejam criados e destruídos; permite que se goze onipresença, já que posso levar meu ‘Self estendido’ a qualquer parte do ciberespaço instantaneamente, sem mover meu ‘Self objetivo’ de diante do computador, bastando um simples ‘clique xamânico’.

Ao mesmo tempo em que o ciberespaço permite a criação e recriação infinitas, o mundo material é chamado a se estruturar com a mesma capacidade. Bauman nomeia essa realidade de “sociedade de consumidores”. Na sociedade de consumidores tudo tem tempo marcado para virar lixo. “Não se espera dos consumidores que jurem lealdade aos objetos que obtêm com a intenção de consumir” (BAUMAN, 2008, p. 31).

A publicidade e o marketing, de maneira geral são as maiores fábricas de infelici-dade do mundo. Não se pode vender algo que proporcione feliciinfelici-dade, no máximo deve proporcionar momentos de euforia, quando o consumidor soberano acha que fez a me-lhor escolha. Em pouco tempo, ele se tornará a marionete, que descobre que existe algo que ele ainda não tem, e que, por sinal, é melhor do que aquilo que ele tem, e que o que ele tem não vale, está fora de moda. Se o que você tem está fora de moda, então você está fora de moda. Se você está fora de moda, então o seu valor para o mercado diminui dras-ticamente; logo, você é uma mercadoria obsoleta e sua vendabilidade diminuiu também

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drasticamente. Corra, pois ser visto como antigo, obsoleto e ultrapassado é o mesmo que não ser visto. E não ser visto na sociedade do espetáculo é estar morto.

O que é estar vivo na sociedade do espetáculo? É estar em estado de visibili-dade. Em constante contato. Assim, nossas relações devem ser pautadas pela quan-tidade e não pela qualidade. Não é sem motivo que a grande característica das redes sociais cibernéticas é a possibilidade sempre presente de desligar, deletar e excluir. Elas nos dão a sensação de soberania, o homem torna-se consumidor e, portanto, detém a posse do poder de fazer escolhas. Acontece que conexões não são relações sólidas, são efêmeras. Bauman (2004, p. 13) cita Ralph Waldo Emerson: “Quando se esquia sobre gelo fino, a salvação está na velocidade. Quando se é traído pela quali-dade, tende-se a buscar a desforra na quantidade.”

Nas redes mediadas pela máquina, não precisamos nos dar a conhecer como somos, mas como queremos que sejamos vistos. Dessa forma, ao escapamos da re-lação “cara a cara”, onde os olhos são como grandes portas da realidade, excluir o outro, como excluímos produtos, mercadorias que não mais nos satisfazem, fica bem mais fácil. Afinal, “estar ‘conectado’ é menos custoso que estar ‘engajado’” (BAU-MAN, 2004, p. 82). Tornamo-nos mais preparados para servir ao ideal do “novo espírito do capitalismo”, mais flexíveis, mais individualistas, menos comprometidos, mais descartáveis, mais consumistas, mais adequados. Quanto menos as relações se “ossificarem”, mais nos acostumamos a ver o outro como objeto. As redes sociais

cibernéticas se tornaram o lócus privilegiado da encenação:

Tal como no século XVIII, onde o Rei-Sol e sua corte faziam dos menores detalhes da vida cotidiana uma representação teatral cuidadosamente preparada, nosso cotidiano foi dominado por simulacros. “O Mundo é um palco. Todos os homens e mulheres são atores e nada mais”; “Totus mundi agit histrionem”, já

dizia Shakespeare no século XVII. Ou seja, diante dos perigos da sociedade do espetáculo e de sua ânsia luciférica, os indivíduos se veem compelidos ao autocontrole intenso de sua intimidade. Mas, diferentemente do séc. XVIII, onde a performance era uma forma de distinção, na sociedade do espetáculo se trata de autoproteção. (CASTRO; HUHTALA, 2008).

Anthony Giddens aponta que hoje se vive o que chamou de “relação” ou “relacio-namento puro”. Essa modalidade de relacio“relacio-namento é caracterizada pela utilidade que as partes sentem em relação às outras. Esse relacionamento existe enquanto houver interes-se, isto é, reconhecimento do ganho por se estar nela. É exatamente o contrário do amor, da amizade, da devoção e solidariedade (ver BAUMAN, 2008, p. 32). Corroborando a visão de Bauman, Smith, analisando o fenômeno do facebook, afirma que

a qualidade da conexão, a qualidade da informação que passa por ela, a qualidade das relações que essa conexão permite – nada disso é importante. Parece nunca lhe ter passado pela cabeça (do inventor do facebook) que muitos programas

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de rede social acabem estimulando explicitamente as pessoas a estabelecerem conexões fracas e superficiais umas com as outras, ou que isso possa não ser necessariamente positivo. (SMITH, 2011, p. 50).

As redes sociais cibernéticas estariam, assim, educando pessoas num modelo de relaciona-mento fraco, destituído de significados mais profundos. “A realização mais importante da proximi-dade virtual parece ser a separação entre comunicação e relacionamento” (BAUMAN, 2004, p. 82). A ideia de se tornar visível, com o intuito de aumentar o capital social, também não se sustentaria diante dos fatos. Bordieu (1985, p. 248) define capital social como “o agregado dos recursos efetivos ou potenciais ligados à posse de uma rede durável de relações mais ou menos institucionalizadas de conhecimento ou reconhecimento mútuo”. Ora, não é esse o tipo de relacionamento oferecido pelas redes sociais ciber-néticas. A prometida visibilidade na rede não aufere ao conectado um relacionamento do tipo forte, ou seja, justamente o tipo de relacionamento capaz de gerar capital so-cial. Embora a discussão sobre o conceito de capital social não esteja encerrado, pode--se aceitar, sem grandes riscos, que “um actor [sic] deve possuir um grande número de laços fortes para que o capital social seja realmente considerado como um recurso valioso. De acordo com esta perspectiva, são os laços fortes e não os laços fracos que constituem o capital social” (LEMIEUX; OUIMET, 2008, p. 81).

Tal reflexão nos remeteria, novamente, ao aspecto essencial do mundo cibernético, o tempo. O clique fácil, o hipertexto, a infinidade de links, têm educado as pessoas no que Walter Benjamin (apud BAUMAN, 2008, p. 47) chamou de

tempo de possibilidades, tempo aleatório, aberto em qualquer momento ao imprevisível irromper do novo, […] uma concepção da história como processo aberto, não determinado previamente, no qual surpresas, golpes inesperados de boa sorte e oportunidades imprevistas podem aparecer a qualquer instante.

O resultado é que emerge no sujeito um desespero pela novidade, pela surpresa, pela mudança, pelo novo. Um clique em “a” significa excluir “b”. Isto gera a sensação de que sempre se poderia ter clicado em algo mais e ganhado algo diferente, quem sabe melhor. Quanto mais cliques, mais chances. “É exatamente por essas razões que a vida “agorista” tende a ser “apressada”. A oportunidade que cada ponto pode conter vai segui--lo até o túmulo […] a demora é o serial killer das oportunidades” (BAUMAN, 2008, p. 50).

Cada página, foto, link, contato, enfim, cada clique, pode liberar um big bang de oportuni-dades. A frustração, motor do consumo e da volatilidade aparece então, pois cada “objeto dos desejos de ontem e os antigos investimentos da esperança quebram a promessa e deixam de proporcionar a esperada satisfação instantânea e completa, [assim], eles devem ser abandonados – junto com os relacionamentos que proporcionaram um ‘bang’ não tão ‘big’ quanto se esperava” (BAUMAN, 2008, p. 51). Não é sem motivo que Thomas Hylland Eriksen (apud BAUMAN, 2008, p. 55) conclui em suas pesquisas que “uma

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lidade fundamental na sociedade da informação consiste em se proteger dos 99,99% de informações oferecidas que são indesejadas [inúteis]”.

O mundo cibernético foi estrategicamente construído para a navegação. Na busca pela informação desejada, você é obrigado a cruzar com um sem número se informações inúteis ao seu propósito, pois o imperativo do ciberespaço é consumir seu tempo, não levá-lo a algum lugar. Isso não ocorreria apenas nos sites de busca, mas também nos sites de relacionamento.

Os criadores de mundos, de redes sociais, partem sempre da pergunta: como eu

consigo? […] A outra questão de ordem ética […] Por quê? Por que o Facebook? Por que nesse formato? Por que dessa maneira, e não de outra? O que mais chama a atenção no Zuckerberg real, tanto em vídeo como por escrito, é a relativa banalidade do que ele diz quanto às razões da existência do Facebook. Ele usa as palavras ‘conectar’ e ‘conexão’ como um crente usa o nome de Jesus, algo intrinsecamente sagrado. ‘ a ideia é que através do site as pessoas entrem em conexão umas com as outras e compartilhem informações com as pessoas que estão conectadas […]’ A meta é a própria conexão. (SMITH, 2011, p. 50).

Nota-se, com certa clareza, que gastar tempo na rede seria o supremo objetivo da própria rede. Isto seria válido tanto para as redes sociais, bem como para a tradicional pesquisa, agora feita virtualmente, em um computador. Eriksen (apud BAUMAN, 2008, p. 57) afirma que “em vez de conhecimento organizado em fileiras ordenadas, a sociedade da informação oferece cascata de signos descontextualizados conectados uns aos outros de maneira aleatória. […] os fragmentos ameaçam se tornar hegemônicos”.

O comentário parece destacar outro efeito da imersão no ciberespaço, a fragmen-tação. A fragmentação do pensamento, da compreensão, enfim, do sujeito como um todo. Essa fragmentação, tão alinhada com a essência da pós-modernidade, se tornaria também a lógica dos relacionamentos do sujeito.

Retomando a trilha interpretativa, no espaço cibernético, o objetivo seria cansá-lo, pois cansado seu nível de exigência, capacidade de diferenciação, seu filtro se enfraquece. Se alguém acha que o ciberespaço é neutro, engana-se, e é justamente daí que emana seu poder, “graças ao efeito específico de mobilização, [que] só se exerce se for reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário” (BORDIEU, 2007, p.14). Foi projetado para atuar como emboscada, armadilha. Quanto mais melancólico você se torna pela sua busca sem sucesso, olhos pesados e fixos, mais perto do objetivo você está. Conectado com várias coisas, mas não comprometido, não fazendo parte de nada.

considerações finais

É lugar comum das análises sociológicas o efeito, ou efeitos, do capitalismo sobre a sociedade humana. A sociologia já nasceu como ciência da crise, por ser uma proposta de crítica e interpretação da sociedade moderna. Contudo, novas realidades demandam

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novas reflexões, e, por isso, a emergência das Redes Sociais cibernéticas foi analisada à luz da realidade econômica e dos imperativos do capitalismo.

Em vista do que se apresentou acima, as redes sociais virtuais fazem parte do universo da reprodução ideológica capitalista. Esse processo seria pautado pelo desconstruir do homem enquanto sujeito de si mesmo, e pela construção de um homem adaptado, apropriado ao mundo do trabalho, alienado de si e do outro, seu semelhante. Esse semelhante, portanto, se tornaria um estranho, como estranho se tornaria o próprio sujeito para si mesmo.

O sujeito deveria se relacionar com as novidades sempre com um filtro, não acei-tando tudo ou se maravilhando com as novidades. Não se deixando levar pelos modismos oferecidos pela mídia. Deve calcular seu tempo e seus objetivos quando se aventurar no ciberespaço. Deve, antes de tudo, ser cauteloso. Com o tempo gasto nas redes sociais, a internet pode se tornar o lugar do “pensamento único, um ambiente uniforme em que na verdade não importa quem a pessoa seja, contanto que continue a fazer suas ‘escolhas’ (as quais em última análise), se traduzem em decisões de compras” (SMITH, 2011, p. 51).

Assim, relembrando um pressuposto básico das relações humanas, as diferen-ças exigiriam um processo de aprendizado, onde o altruísmo e não o egoísmo se aprofundaria. A persistência em fazer um relacionamento dar certo, o contato pessoal, o esforço da alteridade, nos tornaria mais humanos, enquanto a facilidade de excluir o outro, nos tornaria menos que homens, algo como um autômato, adequado ao novo momento do capitalismo mundializado.

Por certo, não se pode deixar de lado a relevância intrínseca do mundo ciberné-tico para o contato entre as pessoas, porém não seria demais relembrar que, sendo este mundo virtual um lugar privilegiado para a encenação, o sujeito deveria navegar por ele com cautela. Como não se pode regredir na história, que se avance consciente da realidade que, por enquanto, impera.

referências

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. Vida para o consumo: a transformação das pessoas em mercadoria. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.

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CASTRO, J M.; HUHTALA, F. L. Espetáculos e fantasias na era das simulações: reflexões sobre redes sociais virtuais no caso do Orkut. Revista Habitus: revista eletrônica dos alunos de gradu-ação em Ciências Sociais - IFCS/UFRJ, Rio de Janeiro, v. 6, n. 1, p. 101-112, dez. 2008. Semestral. Disponível em: <www.habitus.ifcs.ufrj.br>. Acesso em: 15 dez 2008.

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MARÍAS, J. História da filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2004. MARX, K.; ENGELS, F. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007. McLELLAN, D. A ideologia. Lisboa: Editorial Estampa, 1997.

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MAZZEO, A. C. Burguesia e capitalismo no Brasil. São Paulo: Ática, 1995.

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