Projeção Direito e Sociedade, volume 8, número 1, ano 2017, p. 159
O PROTAGONISMO DO ATOR SOCIAL NA SOCIEDADE PÓS-MODERNA: UMA MITIGAÇÃO DO ESTADO MODERNO?
JOSÉ SÉRGIO DE JESUS
1. INTRODUÇÃO
A sociedade atual, impactada pelas transformações decorrentes da pós-modernidade, vive um momento de incertezas e de efervescência na sua compreensão de mundo e nas próprias relações sociais, que foram desconstruídas pelas novas emergências surgidas com os movimentos pós-industriais.
As certezas e garantias da modernidade, quer sejam de ordem social, política e econômica, calcadas essencialmente nas sociedades de classes, são substituídas por incertezas e por uma pluralidade de vozes, culturais, enfim, de opções alternativas de escolha política, social e até mesmo por alternativas de produção econômica.
Essa sociedade torna-se complexa, em razão da reprodução do cotidiano e das gerações. Enquanto em sociedades mais simples as formas de reprodução não são diferentes entre as gerações passadas, há uma complexificação em tempos presentes.
A complexidade se dá exatamente, com anteriormente ressaltado, pela influência que a sociedade local recebe da sociedade global, sendo que o que ocorre em determinado lugar pode ser informado instantaneamente a todo planeta. Portanto, a relação tempo-espaço é completamente alterada, pois os espaços se unem ao mesmo tempo, ao invés de um determinado tempo para a união de espaços.
Os próprios ensinamentos, ou seja, a educação é impactada pelo cinema, pela televisão, internet e outros meios culturais e de comunicação, sendo que a reprodução do cotidiano é feita nesta geografia universal, com uma infinidade de conexões, expressando as múltiplas formas de sobrevivência humana.
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Passa, portanto, a ser uma sociedade fragmentada e plural, em que o local é impactado pelo global, em que espaço e tempo sofrem uma mudança extraordinária em razão das novas formas de comunicação, alterando a lógica do mundo moderno. É o processo globalizante que abala a estrutura estabelecida, inclusive a dos Estados Nacionais.
Na modernidade, fortaleceu-se a ideia do Estado-nação, como instituição de poder, com a aparato de hierarquia e soberano, com um território definido e laços de camaradagem entre aqueles que o povoam, formando uma sociedade nacional.
Todavia, com o movimento de globalização, conforme aponta Ianni (2011), ao lado do território, do Estado-nação ou do nacionalismo, apresenta-se o globo terrestre, a sociedade mundial ou o globalismo. Esse Estado-nação é posto em causa, vez que os processos e estruturas que configuram o globalismo, que são complexos e problemáticos, se desenvolvem obrigando a todos perceberem que o Estado-nação está abalado, em declínio, fora do lugar ou desafiado e se ressituar.
Esse é o cenário que motiva a análise acadêmica do tema, sendo fundamental a reflexão e o embasamento teórico necessário para buscar uma possibilidade de resposta para as indagações: Qual o papel do Estado Nacional na sociedade pós-moderna? O ator social volta a ser protagonista da ação social?
Diante da “transnacionalização” das sociedades ou mesmo uma possível sociedade global, com o rompimento dos territórios e das fronteiras, da fragilização das definições categóricas de nacionalismo ou soberania, coloca-se atualmente uma provável mitigação do Estado-nação nesta sociedade pós-industrial.
Este ensaio objetiva exatamente analisar o protagonismo dos atores sociais na sociedade pós-moderna e o novo papel do Estado, compreendendo a estrutura Estado moderno e o processo econômico e social que contribuiu para esta nova configuração estatal.
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Para tanto, é necessário compreender como a sociedade se desenvolveu e se organizou desde os tempos primitivos até o advento do Estado Nacional, bem como as transformações oriundas da pós-modernidade e do processo globalizante que culminaram na mitigação do papel central do Estado, dando foco ao ator social.
O trabalho está estruturado em cinco seções, sendo que a primeira compreende esta parte introdutória do ensaio; a segunda apresenta e discute a formação da sociedade o e surgimento dos Estados Nacionais; a terceira reflete acerca da construção da pós-modernidade; e a quarta debate como o Estado se apresenta no mundo pós-moderno e faz a interpretação de como, a partir da fragilização estatal, o indivíduo, como ator social, volta a ter um papel importante na sociedade atual.
Na última seção, é realizada a análise conclusiva, buscando a interpretação dos temas discutidos, apontando as considerações finais sobre a questão de pesquisa apresentada no ensaio.
2. A FORMAÇÃO DA SOCIEDADE E O SURGIMENTO DOS ESTADOS NACIONAIS
Para compreender a formação dos Estados Nacionais é imprescindível analisar como o ser humano se organizou socialmente desde os tempos primitivos, culminando no surgimento da sociedade.
O homem na era primitiva, ao descobrir a arma, passou a usá-la como forma de dominação. Primeiramente, como ferramenta de sobrevivência e para saciar a sua fome, mas, depois como meio de subjugação e domínio da própria espécie, conforme fica evidenciado em Clarke (1971).
Diante das ameaças, o homem buscou estratégias de reação tornando-se um caçador. Passa, então, a entender o lugar onde vive, transformando-o e modificando-o e, sobretudo, compreendendo a importância da ancestralidade na construção humana. O coletivo humano é exatamente a composição de indivíduos, que começam a construir o controle da reprodução e que se altera ao longo da história.
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O surgimento da sociedade humana ocorre nesta busca de alternativas coletivas para saciar a forme, liderar, dominar e subjugar outras espécies e mesmo outros seres da mesma espécie.
Williams (2007), inicia a sua conceituação de sociedade no significado mais primário que é baseado no companheirismo ou camaradagem. A partir deste ponto, o conceito é ampliado para uma associação deliberada de pessoas com algum propósito e que, de forma diferente, avança para a multidão de homens livres que, em assembleia e consentimento de muitos, visam a um fim comum.
Esse conceito torna-se mais abstrato, vez que a sociedade passa a necessitar de leis abstratas e impessoais que determinam as instituições sociais, surgindo o Estado como instituição de poder. Portanto, a sociedade é uma associação de homens livres, sendo aquilo a que todos os seres humanos pertencem de forma geral e impessoal, enquanto o Estado é o aparato de poder, hirarquizado e com soberania. O maior objetivo da sociedade é o bem comum, que é a garantia da vida digna para humanidade (WILLIAMS, 2007).
Assim, povoa-se um território, culturalmente forma-se uma nação, com costumes presentes, que geram normas abstratas para se chegar ao Estado. Entretanto, é importante ressaltar que a camaradagem ainda se encontra presente na sociedade, pois é uma prática intensa e fundante da sociedade.
Essa configuração de Estado, com território, sentimento nacional e soberania é a base dos Estados-nações que surgem exatamente da necessidade de estabelecer a primazia das relações coletivas acima das relações pessoais.
O primeiro movimento neste sentido ocorreu na Inglaterra, em 1215, por meio de João Sem Terra, no sentido de abstrair o poder, calcado em leis, fundamentado em uma Constituição. Todavia, o primeiro Estado Nacional moderno foi Portugal que surge no século XVI, pois, conforme destaca Elias (1993), a nação lusitana torna-se forte politicamente, dedicando-se à atividade
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comercial-marítima, com práticas mercantilistas, percebendo que o ocidente não era definido mais pela religião romana ou cultura latina, mas também pela liberdade política.
Conforme aponta Weber (2015, p. 57) o Estado é “uma relação de dominação do homem sobre o homem, fundada no instrumento da violência legítima”. Assim, para o autor, o Estado somente existirá quando os homens dominados se submetem à autoridade dos dominadores, o que ocorrerá por meio da legitimidade que se dá em razão: a) pelo poder tradicional – autoridade do “passado eterno”; b) poder carismático – autoridade do dom pessoal e extraordinário de um indivíduo; ou c) pelo poder legal – autoridade da validez de um estatuto legal e de uma competência positiva, por meio de regras racionalmente estabelecidas.
Dessa forma, Weber (2015) compreende o Estado como um aparato administrativo e político que possui o monopólio da violência legítima, em determinando espaço territorial, sustentado pela crença das pessoas em sua legitimidade.
Para gestão do Estado são construídos socialmente mecanismo de governança e de participação popular no processo decisório, para fortalecer este ente estatal, cada vez mais na defesa do interesse comum do que dos interesses individuais, que estavam centrados na monarquia e na aristocracia.
Bobbio (1992) faz uma análise histórica e da teoria social, apontando a dicotomia entre o governo dos homens e o governo das leis. O autor apresenta, inicialmente, os tipos ideais de forma de governo (monarquia, aristocracia e democracia), mas aponta que é mais importante a compreensão sobre o modo de governar. Essas formas de governo são vinculadas ao bem comum e, quando isto se corrompe, tornam-se governos maus, como a tirania, oligarquia ou oclocracia.
O melhor modo de governar é aquele que obedece ao primado da lei, no estado de direito, em que o poder se subordina ao direito, sendo a legalização de toda ação governamental. Assim, normas abstratas definem as ações típicas,
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de forma geral e impessoal, e os governos a obedecem, sendo o primado da democracia (BOBBIO, 1992).
Esta posição de Bobbio (1992) corrobora a legitimação do poder legal apontado por Weber (2015), vez que a legitimidade do governo é baseada nas leis, abstratas e impessoais, sustentada pelo estado de direito.
Portanto, esse é o Estado-nação moderno, possuindo um território, um povo com sentimento comum (nacionalismo), devidamente legitimado socialmente e com soberania sobre este território, sendo o detentor do monopólio da força.
Esse tipo de Estado se desenvolve no início da Idade Moderna, se fortalece especialmente após Revolução Francesa, passando por crises, mas continua relativamente estável em sua configuração até meados do século XX, quando o processo de globalização e a fragmentação da sociedade moderna abalam fortemente a sua estrutura.
Para compreender a fragilização desse tipo ideal de Estado, é necessário analisar o surgimento da pós-modernidade e do processo globalizante, como se verá a seguir.
3. A CRISE DA MODERNIDADE E O ADVENTO DA PÓS-MODERNIDADE E DA GLOBALIZAÇÃO
Touraine (1984) afirma que a sociedade industrial (ou moderna) é aquela em que o investimento é utilizado, acima de tudo, para transformar a organização do trabalho, atingindo apenas o nível do fabrico e as relações dos trabalhadores entre eles.
A sociedade pós-industrial se realiza quando o investimento produz bens simbólicos, que modificam os valores, as necessidades e as representações, muito mais do que bens materiais ou serviços. Enquanto a sociedade industrial transformou os meios de produção, a sociedade pós-industrial altera os fins da produção, ou seja, a cultura (TOURAINE, 1984).
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O autor nomina como sociedade programada, vez que indica a capacidade de criação de modelos de gestão da produção, da organização, da distribuição e do consumo, sendo uma ação exercida pela sociedade sobre ela mesma, de sistemas de ação social.
Esta capacidade transformadora afetou todos os aspectos da sociedade industrial, como as formas de reprodução econômica, social e cultural, fragmentando o coletivo, com um retorno ao indivíduo, mas, ao mesmo tempo, por mais contraditório que seja, criando uma comunidade global, em que o local passou a ser definido por uma cultural planetária, que rompeu barreiras e fragilizou as estruturas locais.
Por sua vez, Bauman e Bordoni (2016) apontam que a liberalização das fronteiras teve efeitos significativos para a liberdade e as comunicações das pessoas, mas também abriu espaço para uma infinidade de dificuldade econômicas, pois globalizou a economia, sendo que ações locais passam a ter repercussão mundial. Os principais problemas decorrentes deste processo são a inflação, a estagnação e o estado de crise permanente, que criam uma autodefesa psicológica nos indivíduos para conter a ansiedade frente às incertezas do futuro.
Para Ianni (2011), a sociedade nacional é transformada em uma província global, precarizando as noções de território e fronteira, ocorrendo uma mundialização do espaço geográfico. Os desafios desta globalização estão em três aspectos: i) o conceito de espaço, vez que o abalo das fronteiras e territórios se tornam obsoletos; ii) o conceito de “desterritorialização”, pois se multiplicam e agilizam os meios de comunicação, informação e decisão, tornando coisas, ideias e pessoas voláteis e volantes; e iii) o “fim da geografia”, que, em razão das bases técnicas eletrônicas, tudo se descola, flutua, flui e volatiza.
Com o rompimento de várias fronteiras, geográficas e históricas, também as culturais ou civilizatórias, se modificam junto com as econômicas e políticas. Como este movimento globalista abrem-se outras possibilidades e impossibilidades de integração e fragmentação, soberania e hegemonia ou de
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alienação e emancipação. A transnacionalização do capitalismo altera o mapa mundial (IANNI, 2011).
Em outro diapasão, há um divórcio entre poder e política, vez que não há agentes capazes de escolher de que modo proceder para enfrentar essa crise, nem mesmo aplicar a melhor terapia para debelá-la. Essa ausência continuará a paralisar a busca de uma solução viável a não ser que poder e política novamente se unam. Por um lado, há um Estado sem recursos para a supervisão e controle efetivos do mercado, além da sua regulação e gestão, e, por outro lado, o poder, como capacidade de levar as coisas a cabo, e política, como habilidade de decidir que coisa devem ser levadas a cabo, que estão na mão do “soberano”, no interior do Estado, foram expropriados por forças supraestatais e globais (BAUMAN; BORDONI, 2016).
Dessa forma, fica evidente que há uma fragilidade tanto de representatividade política como também do próprio Estado-nação. Devido aos múltiplos interesses dos atores sociais, há uma pulverização de demandas que não encontram eco nos agentes políticos, que se dissociam, portanto, da realidade presente (TOURAINE, 1984).
Há uma crise da modernidade, tendo em vista que os partidos políticos não fazem mais sentido como no passado, que representavam classes sociais ou interesses mais amplos, gerando uma crise no regramento que é feito pelos partidos políticos. O partido cede lugar a novas formas de organização e pressão que são os movimentos sociais.
O Estado-nação também está em crise, pois, como ressaltado, há um divórcio entre poder e política, decorrente do processo de globalização que provocou crises econômicas, precarização, crise fiscal e falta de recursos estatais, mas, sobretudo, cria uma nova perspectiva de vida por meio da mudança cultural e de um processo de sedução.
O processo de internacionalização da cultura passa a moldar os hábitos locais, provocando a perda da soberania exatamente a partir do
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momento em que não se decidem mais as questões locais, pois dependem de soluções de vêm de fora.
E como fica o papel do Estado diante desta nova realidade? Essa é a discussão que será realizada no próximo tópico.
4. O ESTADO NA PÓS-MODERNIDADE E A VOLTA AO PAPEL DO ATOR SOCIAL
De acordo com Touraine (1996), neste novo contexto, a relação entre democracia e povo se dá por meio de sistemas de mediações políticas entre Estado e os atores sociais e não como modo de gestão racional da sociedade. Enquanto a sociedade civil organiza a vida individual (organização cultural), a sociedade política faz o regramento. Mas, como anteriormente destacado, o regramento feito por partido político está em crise.
Hirst e Thompson (2001) ressaltam que o Estado moderno é um fenômeno relativamente recente e que a soberania que advém dos acordos entre os Estados de não interferirem nos assuntos internos uns dos outros foram cruciais para o estabelecimento do poder de Estado sobre a sociedade. Porém, esta capacidade de governabilidade está mudando no mundo atual, como também a administração macroeconômica nacional, sendo enfraquecida.
Os autores apresentam três pontos sobre a possibilidade de governabilidade e o papel do Estado na sociedade pós-moderna: a) Os Estados-nação têm um papel significativo a desempenhar na governabilidade econômica, no nível dos processos nacionais como internacionais: b) Os Estados chegam a funcionar menos como entidades “soberanas” e mais como componentes de um “sistema de governo internacional; e c) mesmo com a redução do controle territorial pelos mercados internacionais e pelos novos meios de comunicação, o Estado exerce um papel central que garante uma grande dimensão de controle territorial – a regulação das populações (HIRST; THOMPSON, 1996).
Ianni (2011) afirma que a crescente transnacionalização da economia reorienta o papel do Estado, mas também reduz a capacidade decisória do governo nacional.
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Este processo de globalização cria desafios radicais à política, como prática e teoria. Também causa crise ao princípio da soberania nacional, vez que as injunções externas se tornam importantes, reduzindo a importância das forças sociais internas, no tocante à organização e às diretrizes do poder do Estado. Por outro lado, distancia-se a sociedade civil do Estado, descompassando as tendências, que parte da sociedade civil no que se refere aos problemas sociais, econômicos, culturais e políticos, das diretrizes que o Estado é levado a assumir. A sociedade civil age em razão das forças internas e o Estado é pressionado pelas forças sociais externas, operadas em escala transnacional. Há, portanto, como dito, o descasamento entre as tendências essenciais da sociedade civil e as orientações predominantes no Estado (IANNI, 1996).
Esse cenário transforma a natureza das demandas sociais. Os partidos políticos que representavam classes sociais, passam a representar projetos de vida coletivas, e, muitas vezes, até mesmo movimentos sociais. Os atores sociais davam aos partidos políticos o monopólio no sentido da ação coletiva, mas a ação social torna-se responsável pelo seu próprio destino, podendo até mesmo se transformar em partido político, ou impor suas prioridades a um partido reforçado por ela (TOURAINE, 1996).
Nesse sentido, Touraine (1984) esclarece que a unidade social nacional se desenvolve de forma prática, crescendo a sua integração material, mas os atores sociais se diferenciam cada vez mais, vivendo de forma mais autônoma, afastando-se dos interesses e ideologias do Estado. Quando o Estado ultrapassa o seu papel de empresário público e de ator nas relações internacionais, intervindo na vida social, há a reação da sociedade, considerando essa intervenção exagerada e rejeitando-a como reacionária ou autoritária.
Diferentemente da relação entre sociedade e Estado na modernidade, em que este cumpria um papel de integração, dirigindo não apenas a vida econômica, mas também aspectos relevantes da vida social, na pós-modernidade, impactado pelo globalismo, o Estado desempenha um papel econômico mais importante e a vida social é realizada por condutas instáveis, de debates intelectuais, de conflitos sociais. Assim, a vida política identifica-se com
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a administração da economia e a vida social cada vez mais se aproxima das condutas culturais e dos problemas da personalidade (TOURAINE, 1984).
Por sua vez, Bauman e Bordoni (2016) afirmam que a separação entre poder e política é um dos motivos que o Estado se torna incapaz de fazer escolhas corretas. Essa pressão do global sobre o local produz um “estatismo sem Estado”, que se concretiza por meio de uma “governança”. Existe um sistema político que representa o povo, sendo democrático, no âmbito interno (local), mas é diminuído à gestão da rotina, tendo a incapacidade de resolver os problemas impostos pelo poder global, que não possui representação política, não sendo, portanto, democrático.
Essa dicotomia entre o local e o global não se restringe aos aspectos econômicos e de natureza política, mas também está presente na produção intelectual e cultural, em que as Epistemologias do Norte reconhecem apenas os saberes oriundos da ciência moderna como verdadeiros (SANTOS,2007). Todavia, há uma ecologia de saberes, que podem conviver sob uma perspectiva de complementaridade que estão presentes nas sociedades locais.
A crise do Estado, nesta perspectiva, coincide com a abertura das fronteiras, por trocas cada vez mais dinâmicas em âmbito planetário ou supranacional e pela cultura que não é restrita ao plano local, sendo influenciada por informações, sugestões e comentários vindo de toda parte do mundo (BAUMAN; BORDONI, 2016)
Enfim, há o enfraquecimento do Estado, gerando uma crise de representação, vez que os vínculos passam a ser construídos de forma material entre os atores sociais e não mais a égide ideológica do Estado. Os atores sociais são diferenciados e autônomos, ficando longe dos interesses e ideologia estatal. A vida política pauta-se pela economia, enquanto a vida social pelas condutas culturais e problemas de personalidade.
Nessa sociedade programada, como definido por Touraine (1984), o lócus do protesto e da reinvindicação é a “felicidade”, sendo o conjunto da organização da vida social expresso pelas necessidades dos indivíduos e grupos
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sociais. O campo de lutas na sociedade industrial está centrado no trabalhador e na sociedade pós-industrial, centra-se no ator social, entendendo o homem como ser vivo. Antes, a reivindicação principal era expressa nas relações sociais, de propriedade ou de poder, agora também é inserida no campo reivindicatório a concentração no próprio ator, na sua identidade e na sua diferença.
Essa nova centralidade no ator social sustenta-se, ainda, no exercício da cidadania, que é percebida como a participação em uma sociedade com os direitos dela oriundos, especialmente pela abstração das leis. Na modernidade inicia o mundo dos direitos subjetivos, ou seja, a titularidade de direitos pelo indivíduo (LUNARDI; SECCO, 2010).
Institucionalizam-se os direitos humanos por meio de sua universalidade, incorporando-os aos ordenamentos jurídicos pátrios, sendo vistos como direitos fundamentais. Os direitos humanos caracterizam-se pelo aperfeiçoamento das ideias e princípios de proteção da dignidade humana e da vida nas suas múltiplas manifestações; pelo seu reconhecimento em nível internacional; e pela progressiva constitucionalização no âmbito dos Estados Nacionais, garantindo a sua substantivação. Dessa forma, as liberdades públicas são interpretadas como garantias públicas das liberdades privadas (LUNARDI; SECCO, 2010).
A cidadania, assim, ultrapassa o mero conceito jurídico-formal, de nacionalidade, incluindo elementos culturais, processos mais amplos de identificação e participação e mobilização comunitária e política.
Esse processo empodera o ator social para poder se mobilizar e reivindicar a defesa de seus interesses ou de seus grupos sociais de forma dissociada dos partidos políticos, como ocorreu de forma bastante expressiva no Brasil nos movimentos ocorridos em 2013.
Portanto, o Estado na sociedade pós-moderna cumpre um papel focado nas questões econômicas e de pressão internacionais, sendo enfraquecido por estas influências, perdendo a força para definir as condutas e formas de vida social, que mobiliza e fortalece a ação do ator social, na defesa
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de direitos e interesses próprios, sem a necessidade de ser representando politicamente por partidos ou conduzidos por uma ideologia do Estado.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste breve ensaio, foi possível compreender como os agrupamentos humanos evoluíram até a formação da sociedade e o surgimento dos Estados Nacionais, bem como a abstração das normas por meio dos estatutos legais que garantiram uma gama de direitos aos indivíduos até a sua prática cidadã.
Todavia, a discussão centrou-se na construção, organização e estrutura do Estado-nação como ente que regula a vida social, possui um território, um grupo de indivíduos de que se unem por laços culturais, formando a nacionalidade, assim como a soberania nos seus limites territoriais, inclusive sendo o detentor do monopólio da força e da violência.
Esse modelo de Estado inicia e se consolida na modernidade, tendo seu ápice na segunda metade do século XIX até meados do século XX. Mas, o movimento da globalização, impactado pelas novas tecnologias da informação e da comunicação, rompe simbolicamente com a fronteiras físicas dos Estados, passando o global a definir o local, alterando todas as demandas internas sociais, políticas, econômicas e culturais das sociedades que são pressionadas pelos interesses transnacionais.
A evolução histórica permitiu a passagem do particularismo da pré-modernidade para o universalismo da pré-modernidade, impulsionado pelo racionalismo e, sobretudo, pela ciência moderna.
Como advento da modernidade, o Estado tem um caráter de poder central, atuando sobre os indivíduos, vez que os conflitos sociais e os problemas possuem uma unidade, praticamente decorrentes da luta de classes.
A pós-modernidade fragmenta, pulveriza e diversifica os conflitos, criando uma multiplicidade e pluralidade de demandas sociais, ocorrendo a ação de sujeitos plurais.
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Assim, o Estado cumpre um papel de gestor da economia e das rotinas de sua estrutura organizacional enquanto os atores sociais voltam a ter um papel mais ativo na ação social, especialmente na reivindicação de demandas que atendam seus diferentes interesses e de seus grupos sociais.
Com isso, há uma separação entre poder e política, vez que os partidos políticos não mais representam demandas sociais decorrentes das lutas de classe, mas novas e emergentes reivindicações, como direitos sociais, defesa do meio ambiente, defesa da diversidade, alteridade entre outras, fortalecendo as ações dos atores sociais, que culminam, muitas vezes, em movimentos sociais.
Pode-se dizer que há uma volta ao particularismo, tendo em vista que o ator social novamente é fortalecido em suas demandas e defesa de seus interesses, mas o Estado, como grande representante das ações coletivas que é mitigado, não pode perder o seu papel de poder central.
Esse é o desafio do presente, ou seja, conciliar os diversos interesses dos atores autônomos, inseridos em uma crise de representatividade dos partidos políticos, ao Estado enfraquecido pela fragmentação criada pela sociedade pós-industrial e a pressão exercida pelos agentes externos, desvinculados de qualquer representação política.
Como construir a democracia local dentro de um sistema plural, com interesses diversos e pressionada pelas forças transacionais? Esse é o dilema do presente. Empoderar o ator social e ao mesmo tempo manter a centralidade do poder no Estado.
Além disso, o direito humano também está nesta pauta de discussão, tendo em vista ser o fundamento da governança internacional, como projeto de orientação cultural, política e de orientação para humanidade.
Este estudo procurou ampliar a discussão acerca do tema, promovendo o diálogo entre os principais autores que o debatem, contribuindo para análise acadêmica da relação entre a sociedade e o Estado, especialmente na pós-modernidade.
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Em sede de conclusão, percebe-se que a dissociação entre o ator social e o Estado é algo real, com a mitigação do papel do Estado, mas é imprescindível compreender essas ações sociais como esforços na construção de novas alternativas para humanidade.
Portanto, é ainda possível a luta social com vistas à reação do local frente à pressão global, preservando as suas demandas, buscando conciliação com a mundialização cultural, econômica, social e política, não apenas se submetendo, mas procurando, como dito, alternativas para preservação das questões internas.
REFERÊNCIAS
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