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Academic year: 2021

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RELATOR : MIN. CELSO DE MELLO

AUTOR(A/S)(ES) :MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL

PROC.(A/S)(ES) :PROCURADOR-GERALDA REPÚBLICA

INVEST.(A/S) :VALDIVINO JOSÉ DE OLIVEIRA

ADV.(A/S) :SEM REPRESENTAÇÃO NOS AUTOS

INVEST.(A/S) :MARIADE LOURDES ABADIA

ADV.(A/S) :SEM REPRESENTAÇÃO NOS AUTOS

INVEST.(A/S) :APARECIDA RAMOSDE CARVALHO

ADV.(A/S) :SEM REPRESENTAÇÃO NOS AUTOS

INVEST.(A/S) :JOSÉ LUIZ VIEIRA NAVES

ADV.(A/S) :SEM REPRESENTAÇÃO NOS AUTOS

EMENTA : SUPLENTE DE DEPUTADO

FEDERAL. CONDIÇÃO POLÍTICO-

-JURÍDICA QUE NÃO LHE CONFERE AS GARANTIAS E AS PRERROGATIVAS

INERENTES AO TITULAR

DO MANDATO PARLAMENTAR. RECONHECIMENTO DA FALTA DE

COMPETÊNCIA ORIGINÁRIA DO

SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL PARA O PROCEDIMENTO PENAL INSTAURADO CONTRA SUPLENTE DE MEMBRO DO CONGRESSO NACIONAL.

– A Constituição da República não atribui ao suplente de Deputado Federal ou de Senador a prerrogativa de foro, “ratione muneris”, perante o Supremo Tribunal Federal, nas infrações penais comuns, pelo fato de o suplente – enquanto ostentar essa específica condição – não pertencer a qualquer

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DECISÃO : Reconheço não mais subsistir, no caso, a competência penal originária do Supremo Tribunal Federal para prosseguir na apreciação deste procedimento, eis que – consoante se verifica em consulta aos registros que a Câmara dos Deputados mantém em sua página oficial na “Internet” – o investigado Valdivino José de Oliveira já não mais ostenta – porque, agora, mero suplente – a condição de Deputado Federal.

Assinalo, a título de mero registro, que Valdivino José de Oliveira, como suplente, veio a exercer o mandato parlamentar, em substituição ao respectivo titular, na legislatura de 2011/2015, nos períodos de 09/02/2011 a 25/10/2011, de 31/10/2011 a 18/11/2011, de 28/11/2011 a 29/03/2012, de 31/10/2012 a 26/11/2012, de 03/12/2012 a 04/02/2013, de 06/02/2013 a 26/11/2013, de 03/12/2013 a 26/12/2013 e de 24/04/2014 a 01/09/2014.

Presente o contexto ora exposto, impõe-se reconhecer que cessou, efetivamente, de pleno direito, a competência originária desta Suprema Corte para apreciar a causa penal em referência.

Impende assinalar, neste ponto, que esse entendimento – que reconhece não mais subsistir a competência penal originária do Supremo Tribunal ante a cessação de determinadas titularidades funcionais e/ou eletivas – traduz diretriz jurisprudencial prevalecente nesta Corte a propósito de situações como a destes autos:

“Não mais subsiste a competência penal originária do

Supremo Tribunal Federal (…), se (...) sobrevém a cessação da

investidura do indiciado, denunciado ou réu no cargo, função ou

mandato cuja titularidade justificava a outorga da prerrogativa de foro ‘ratione muneris’, prevista no texto constitucional (CF, art. 102, I, ‘b’ e ‘c’).

A prerrogativa de foro perde a sua razão de ser, deixando

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persecução penal não mais detém o ofício público cujo exercício representava o único fator de legitimação constitucional da competência penal originária do Supremo Tribunal, mesmo que a prática delituosa tenha ocorrido durante o período de atividade funcional.”

(Inq 862/DF, Rel. Min. CELSO DE MELLO)

Cabe referir, bem por isso, que a jurisprudência desta Corte (RTJ 121/423, v.g.), firmada em situações como a que ora se examina neste procedimento penal – e reiterada quando já em vigor a presente Constituição da República (RTJ 137/570, Rel. Min. CELSO DE MELLO – RTJ 148/349-350, Rel. Min. CELSO DE MELLO) –, orienta-se no sentido de que, “não se encontrando, atualmente, em mandato legislativo federal, não

tem o Supremo Tribunal Federal competência para julgar o denunciado”

(RTJ 107/15, Rel. Min. ALFREDO BUZAID – grifei).

Cumpre relembrar, por necessário, que o Supremo Tribunal Federal reafirmou essa diretriz jurisprudencial em julgamentos plenários (Inq 2.281-AgR/MG, Rel. Min. CELSO DE MELLO, v.g.), valendo mencionar, por ser expressiva dessa orientação, a decisão consubstanciada em acórdão assim ementado:

“PRERROGATIVA DE FORO – EXCEPCIONALIDADE – MATÉRIA DE ÍNDOLE CONSTITUCIONAL

INAPLICABILIDADE A EX-OCUPANTES DE CARGOS

PÚBLICOS E A EX-TITULARES DE MANDATOS ELETIVOS –

CANCELAMENTO DA SÚMULA 394/STF –

NÃO-INCIDÊNCIA DO PRINCÍPIO DA ‘PERPETUATIO

JURISDICTIONIS’ – POSTULADO REPUBLICANO E JUIZ

NATURAL – RECURSO DE AGRAVO IMPROVIDO.

– O postulado republicano – que repele privilégios e não

tolera discriminações – impede que prevaleça a prerrogativa de

foro, perante o Supremo Tribunal Federal, nas infrações penais comuns, mesmo que a prática delituosa tenha ocorrido durante o período de atividade funcional, se sobrevier a cessação da

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investidura do indiciado, denunciado ou réu no cargo, função ou

mandato cuja titularidade (desde que subsistente) qualifica-se como o único fator de legitimação constitucional apto a fazer instaurar a competência penal originária da Suprema Corte (CF, art. 102, I, ‘b’ e ‘c’). Cancelamento da Súmula 394/STF (RTJ 179/912-913).

– Nada pode autorizar o desequilíbrio entre os cidadãos da República. O reconhecimento da prerrogativa de foro, perante o Supremo Tribunal Federal, nos ilícitos penais comuns, em favor de

ex-ocupantes de cargos públicos ou de ex-titulares de mandatos

eletivos transgride valor fundamental à própria configuração da idéia republicana, que se orienta pelo vetor axiológico da igualdade.

– A prerrogativa de foro é outorgada, constitucionalmente, ‘ratione muneris’, a significar, portanto, que é deferida em razão de cargo ou de mandato ainda titularizado por aquele que sofre persecução penal instaurada pelo Estado, sob pena de tal prerrogativa –

descaracterizando-se em sua essência mesma – degradar-se à

condição de inaceitável privilégio de caráter pessoal. Precedentes.”

(Inq 2.333-AgR/PR, Rel. Min. CELSO DE MELLO)

Impende assinalar, ainda, que o suplente, enquanto ostentar essa específica condição (hoje titularizada pelo ora investigado) – que lhe confere mera expectativa de direito –, não só não dispõe da garantia constitucional da imunidade parlamentar, como também não possui a prerrogativa de foro que, prevista na Constituição Federal (art. 53, § 1º), revela-se unicamente aplicável a quem esteja na posse do mandato de Deputado Federal ou de Senador da República.

Cabe registrar , neste ponto, que o suplente , em sua posição de substituto eventual do congressista, não goza – enquanto permanecer nessa condição – das prerrogativas constitucionais deferidas ao titular do mandato legislativo, tanto quanto não se lhe estendem as incompatibilidades que, previstas no texto da Carta Política (CF , art. 54), incidem, apenas , sobre aqueles que estão no desempenho do ofício parlamentar.

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Na realidade, os direitos inerentes à suplência abrangem , unicamente, (a ) o direito de substituição , em caso de impedimento, e (b ) o direito de sucessão , na hipótese de vaga.

Antes de ocorrido o fato gerador da convocação, quer em caráter permanente (resultante do surgimento de vaga), quer em caráter temporário (decorrente da existência de situação configuradora de impedimento), o suplente dispõe de mera expectativa de direito, não lhe assistindo, por isso mesmo, qualquer outra prerrogativa de ordem parlamentar, pois – não custa enfatizar – o suplente, enquanto tal, não se qualifica como membro do Poder Legislativo.

Qualquer prerrogativa de caráter institucional inerente ao mandato parlamentar somente poderá ser estendida ao suplente mediante expressa previsão constitucional, tal como o fez, por exemplo, a Constituição republicana de 1934, que concedeu “ao suplente imediato do Deputado em exercício” (art. 32, “caput”, “in fine”) a garantia da imunidade processual.

A vigente Constituição, no entanto, nada dispôs a esse respeito, nem sequer atribuiu ao suplente de Deputado Federal ou de Senador da República a prerrogativa de foro , “ratione muneris”, perante o Supremo Tribunal Federal.

A Suprema Corte, nos processos penais condenatórios – e quando se tratar dos integrantes do Poder Legislativo da União –, qualifica-se, quanto a eles, como o seu juiz natural (RTJ 166/785, Rel. Min. CELSO DE MELLO), não se estendendo essa extraordinária jurisdição constitucional a quem, por achar-se na condição de mera suplência, somente dispõe – insista-se – de simples expectativa de direito.

Registre-se que esse entendimento nada mais reflete senão a própria orientação jurisprudencial firmada pelo Supremo Tribunal

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Federal no exame dessa específica questão (Inq 1.244/PR, Rel. Min. CARLOS VELLOSO – Inq 1.537/RR, Rel. Min. MARCO AURÉLIO – Inq 1.659/SP, Rel. Min. CARLOS VELLOSO – Inq 1.684/PR, Rel. Min. CELSO DE MELLO – Inq 2.421-AgR/MS, Rel. Min. MENEZES DIREITO – Inq 2.429- -AgR/MS, Rel. Min. JOAQUIM BARBOSA – Inq 2.453-AgR/MS, Rel. Min. RICARDO LEWANDOWSKI – Inq 2.634/RJ, Rel. Min. CELSO DE MELLO – Inq 2.639/SP, Rel. Min. CELSO DE MELLO – Inq 2.732/DF, Rel. Min. TEORI ZAVASCKI – Inq 2.800/RJ, Rel. Min. CELSO DE MELLO – Inq 3.565/MA, Rel. Min. DIAS TOFFOLI – Inq 3.674/RJ, Rel. Min. LUIZ FUX – Inq 3.919/RJ, Rel. Min. CELSO DE MELLO, v.g.):

“Os suplentes de Deputado ou de Senador não gozam de

imunidades, salvo quando convocados legalmente e para integrar a Câmara para a qual foram eleitos. Nesta situação, desempenhando,

em sua plenitude, a função legislativa, entram a fruir de todos os

direitos, vantagens e prerrogativas dos demais companheiros da Câmara a que forem chamados. Aberta a vaga (...), as imunidades

passam a amparar os suplentes.”

(HC 34.467/SE, Rel. Min. SAMPAIO COSTA, Pleno –

grifei)

Essa mesma compreensão do tema é também perfilhada por autorizado magistério doutrinário (HELY LOPES MEIRELLES, “Direito Municipal Brasileiro”, p. 654/656, item XI.2.1.5, 17ª ed., 2013, Malheiros; JOSÉ CRETELLA JUNIOR, “Comentários à Constituição de 1988”, vol. V/2.679, item n. 267, 1991, Forense Universitária; PINTO FERREIRA, “Comentários à Constituição Brasileira”, vol. 2/625, 1990, Saraiva), como se depreende da expressiva lição de THEMISTOCLES BRANDÃO CAVALCANTI (“A Constituição Federal Comentada”, vol. II/35, 3ª ed., 1956, Konfino):

“A referência feita, finalmente, aos membros do Congresso

não pode ter outro sentido que não aos que participam

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expectativa, dependendo de condição que pode ou não

ocorrer.

Podemos, assim, concluir que, no texto omisso da

Constituição Federal, não se devem compreender os suplentes, que, quando não se achem em exercício, não fazem parte do Congresso.” (grifei)

Essa, também, é a “ratio” subjacente à norma que, inscrita no art. 53, § 1º, da Constituição da República, confere prerrogativa de foro, “ratione muneris”, aos membros do Congresso Nacional, perante o Supremo Tribunal Federal, nas infrações penais comuns.

E é precisamente por tais razões que não se torna lícito estender ao suplente de Deputado Federal ou de Senador da República as prerrogativas parlamentares de índole constitucional, pelo fato de elas – por serem inerentes, apenas, a quem exerce o mandato legislativo – não alcançarem aquele que, por achar-se na condição de mera suplência, somente dispõe de simples expectativa de direito.

Devo registrar que, ao julgar questão idêntica à ora versada na presente sede processual, proferi, nesta Suprema Corte, decisão que está assim ementada:

“SUPLENTE DE DEPUTADO FEDERAL. CONDIÇÃO POLÍTICO-JURÍDICA QUE NÃO LHE CONFERE AS

GARANTIAS E AS PRERROGATIVAS INERENTES AO

TITULAR DO MANDATO PARLAMENTAR. RECONHECIMENTO DA FALTA DE COMPETÊNCIA

ORIGINÁRIA DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL PARA O

PROCEDIMENTO PENAL INSTAURADO CONTRA

SUPLENTE DE MEMBRO DO CONGRESSO NACIONAL.

– O suplente, em sua posição de substituto eventual de membro do Congresso Nacional, não goza – enquanto permanecer nessa condição – das prerrogativas constitucionais deferidas ao

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as incompatibilidades que, previstas na Carta Política, incidem, unicamente, sobre aqueles que estão no desempenho do ofício parlamentar.

– A Constituição da República não atribui ao suplente de Deputado Federal ou de Senador a prerrogativa de foro, 'ratione muneris', perante o Supremo Tribunal Federal, pelo fato de o

suplente – enquanto ostentar essa específica condição – não pertencer a qualquer das Casas que compõem o Congresso Nacional.

– A Suprema Corte, nos processos penais condenatórios – e

quando se tratar dos integrantes do Poder Legislativo da União –,

qualifica-se, quanto a estes, como o seu juiz natural, não se

estendendo essa extraordinária jurisdição constitucional a quem,

por achar-se na condição de mera suplência, somente dispõe de

simples expectativa de direito. Doutrina. Precedentes.” (Inq 1.684/PR, Rel. Min. CELSO DE MELLO)

Vale referir, finalmente, que o entendimento ora exposto foi reiterado pelo Plenário desta Suprema Corte no julgamento do Inq 2.453-AgR/MS, Rel. Min. RICARDO LEWANDOWSKI, em acórdão assim ementado:

“AGRAVO REGIMENTAL. ‘HABEAS CORPUS’. QUEIXA-CRIME. ARTS. 20, 21 E 22 DA LEI 5.250/1967. SUPLENTE DE SENADOR. INTERINIDADE. COMPETÊNCIA DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL PARA O

JULGAMENTO DE AÇÕES PENAIS. INAPLICABILIDADE DOS ARTS. 53, § 1º, E 102, I, ‘b’, DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. RETORNO DO TITULAR AO EXERCÍCIO DO CARGO. BAIXA DOS AUTOS. POSSIBILIDADE. NATUREZA.

FORO ESPECIAL (...). ESTATUTO DOS CONGRESSISTAS

QUE SE APLICA APENAS AOS PARLAMENTARES EM

EXERCÍCIO DOS RESPECTIVOS CARGOS.

... IV – A diplomação do suplente não lhe estende, automaticamente, o regime político-jurídico dos congressistas, por constituir mera formalidade anterior e essencial a possibilitar

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a posse interina ou definitiva no cargo na hipótese de licença do titular ou vacância permanente.

V – Agravo desprovido.” (grifei)

Desse modo, e por não haver, no caso, outras pessoas que detenham prerrogativa de foro, “ratione muneris”, perante esta Suprema Corte, nada justifica a tramitação originária deste procedimento penal junto ao Supremo Tribunal Federal.

Sendo assim, e pelas razões expostas, reconheço cessada, na espécie, quanto a Valdivino José de Oliveira, a competência originária do Supremo Tribunal Federal para apreciar este procedimento penal, determinando, em consequência, a remessa dos presentes autos, por intermédio do E. Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, a uma das Varas Criminais da Justiça do Distrito Federal, a que couber, por distribuição, o conhecimento da matéria.

2. Comunique-se a presente decisão aos eminentes Senhores Procurador-Geral da República e Procurador-Geral de Justiça do Distrito Federal e Territórios.

3. Os presentes autos deverão ser encaminhados, com urgência, ao E. Tribunal de Justiça local, para os fins ora mencionados, independentemente da prévia publicação desta decisão e da expedição das comunicações a que alude o item n. 2 acima referido.

Publique-se.

Brasília, 05 de dezembro de 2014.

Ministro CELSO DE MELLO Relator

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