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MARLUCE RIBEIRO DE MENDONÇA

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Academic year: 2021

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INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

MARLUCE RIBEIRO DE MENDONÇA

DESENVOLVIMENTO, PARTICIPAÇÃO E ALTERNATIVAS ECONÔMICAS: Em discussão manejo de peixes ornamentais como meio de vida na RDS

Amanã (AM)

Belém/PA 2010

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Livros Grátis

http://www.livrosgratis.com.br

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MARLUCE RIBEIRO DE MENDONÇA

DESENVOLVIMENTO, PARTICIPAÇÃO E ALTERNATIVAS ECONÔMICAS: Em discussão manejo de peixes ornamentais como meio de vida na RDS

Amanã (AM)

Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Ciências Sociais (Sociologia). Orientadora: Profa Dra Maria José da Silva Aquino

Belém/PA 2010

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Dados Internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP) (Biblioteca de Pós-Graduação do IFCH/UFPA, Belém-PA)

Mendonça, Marluce Ribeiro de

Desenvolvimento, participação e alternativas econômicas: em discussão manejo de peixes ornamentais como meio de vida na RDS Amanã (AM) / Marluce Ribeiro de Mendonça; orientadora, Maria José da Silva Aquino. - 2010

Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal do Pará, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, Belém, 2010.

1. Desenvolvimento sustentável - Amazonas (AM). 2. Recursos naturais - Conservação - Amazonas (AM). 3. Peixe ornamental - Criação - Amanã, Lago (AM). 4. Desenvolvimento econômico - Aspectos ambientais - Amazonas (AM). 5. Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã (AM). I. Título.

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Amanã (AM)

MARLUCE RIBEIRO DE MENDONÇA

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre Ciências Sociais (Sociologia). Orientadora: Profa Dra Maria José da Silva Aquino

Data da defesa: 18 / 06 / 2010

Banca Examinadora:

_________________________________________

Profa Dra Maria José da Silva Aquino (Orientadora) Instituição: PPGCS / IFCH / UFPA

_________________________________________

Profa Dra Neide Esterci (Examinadora Externa) Instituição: PPGSA / IFCS / UFRJ

_________________________________________

Profa Dra Cristina Maneschy (Examinadora Interna) Instituição: PPGCS / IFCH / UFPA

_________________________________________

Prof. Dr. Heribert Schmitz (Examinador Suplente) Instituição: PPGCS / IFCH / UFPA

Belém/PA 2010

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Gostaria de agradecer imensamente a todas as pessoas que contribuíram direta ou indiretamente para a conclusão deste trabalho.

Ao CNPq pela concessão da bolsa de estudos.

Ao Projeto de Peixes Ornamentais pela oportunidade e apoio financeiro nas atividades de campo. Aos membros do IDSM, especialmente, Ana Rita Alves, Helder

Queiroz, Isabel Sousa e Edila Moura pelas valiosas informações e esclarecimentos sobre o IDSM e as ações desenvolvidas nas Reservas Mamirauá e Amanã. A professora Maria José Aquino pela orientação dedicada e paciente, pelo poder de tranqüilizar nos momentos de angústia e pelo estímulo em todas as nossas sessões

de orientação.

A Isabel Sousa pela orientação durante o período de permanência no IDSM e por aceitar co-orientar este trabalho contribuindo com o olhar valioso de quem conhece

como poucos, as pessoas, a organização e os conflitos da realidade em estudo. Aos professores do PPGCS, especialmente Luiz Cardoso e Heribert Schmitz pelas sugestões e disponibilidade em ouvir e contribuir para refletir sobre as questões da

pesquisa.

Aos amigos do mestrado, em especial Dávila e Geldes, pela amizade, apoio, disponibilidade para discussões – muitas vezes por telefone – que muito

contribuíram para esclarecer dúvidas do trabalho.

Aos amigos especiais que estão sempre comigo, mesmo quando estamos distantes, Reinaldo, Veridiana, Raul, companheiros de horas felizes e outras nem tanto, que

estão sempre dispostos a ajudar.

Ao Maurício pelo esforço, incondicional, em auxiliar, tranqüilizar ou simplesmente oferecer colo.

A minha família que sempre me apoiou e sem a qual não há razão em lutar. Aqueles não mencionados, que certamente foram muitos.

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A construção de uma racionalidade ambiental é um processo de produção teórica e de transformações sociais. A racionalidade ambiental é uma categoria que aborda as relações entre instituições, organizações, práticas e movimentos sociais, que atravessam o campo conflitivo do ambiental e afetam as formas de percepção, acesso e usufruto dos recursos naturais, assim como a qualidade de vida e os estilos de desenvolvimento das populações. Esse conjunto de processos sociais – em que se entrelaçam as relações entre as formações teóricas e ideológicas, a produção de saberes e conhecimentos, a organização produtiva e as práticas sociais induzidas pelos valores do ambientalismo – orienta as ações para construir uma nova racionalidade social e para transitar a uma economia global sustentável. (Enrique Leff, 2006, p. 240-241)

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A Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã (RDSA) é uma categoria de Unidade de Conservação que tem como proposta conciliar a conservação da biodiversidade com o desenvolvimento sustentável das populações locais tradicionalmente usuárias dos recursos naturais da área. Para atender aos princípios desta categoria, o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM) – co-gestor da RDSA – vem implementando o manejo de recursos naturais como atividade econômica de forma a complementar as atividades tradicionalmente realizadas pelas famílias locais. Uma das novas propostas é o manejo sustentável de peixes ornamentais, que está sendo desenvolvido em uma área onde a população não tem tradição na captura e comercialização deste recurso. Pessoas que até então comercializavam seus produtos oriundos da agricultura, do extrativismo ou da pesca artesanal no mercado local, são postas diante do desafio de comercializar no mercado regional um produto com demanda internacional. A pesquisa compreende o processo de elaboração e desenvolvimento da proposta de manejo de peixes ornamentais, implantado como atividade econômica complementar dentro da RDSA, como resultado de práticas ambientalistas associadas à idéia de sustentabilidade, marcando, assim, uma oposição à concepção de desenvolvimento contrária à conservação dos recursos naturais na Amazonia brasileira. Busca-se perceber de que forma essas “intervenções” estão sendo sentidas e interpretadas pelos atores alvo dessas ações e quais arranjos estão sendo produzidos nessa dinâmica, em termos de aprendizado e participação política. Para a análise, entre agosto e outubro de 2009 foram entrevistados os membros do Grupo de Manejadores de Peixes Ornamentais do Amanã (GMPOA) e lideranças comunitárias do setor Amanã, na RDSA. Parte das informações que subsidiaram o trabalho foram coletadas em entrevistas realizadas com famílias de 11 comunidades da mesma área, entre 2005 e 2006. Atualmente o GMPOA é constituído por moradores de 08 comunidades localizadas no setor Amanã da RDSA. A socioeconomia das famílias envolvidas no manejo de peixes ornamentais demonstra não haver grande diferenciação entre as demais famílias das comunidades quanto a importância das atividades produtivas. A agricultura apresenta-se como principal atividade econômica na composição da renda familiar mensal, aliada a outras fontes de renda como salários e benefícios sociais. As informações sobre a percepção e opinião dos atores envolvidos, somadas aos levantamentos já existentes sobre a história e socioeconomia dessas comunidades constituem importantes elementos para se compreender as expectativas dos membros do GMPOA e das lideranças locais. Tais informações podem ser de grande importância no processo de avaliação das ações que estão sendo implementadas na RDSA.

Palavras-chave: Desenvolvimento Sustentável. Manejo. Participação. Reserva de Desenvolvimento Sustentável. Recursos Naturais.

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Amanã´s Sustainable Development Reserve (RDSA) is a category of conservation unit which proposes to reconcile biodiversity conservation and sustainable development of local population traditionally users of natural resources of the area. To attend the principles of this category, the Mamirauá Institute for Sustainable Development (IDSM) – co-manager of RDSA – has implemented the natural resource management as a complementary economic activity to the traditionally performed by the local families. One of the new proposals is the sustainable management of ornamental fish, which is developed in an area where the population had no tradition of fishing and selling this resource. People who previously marketed agriculture, extraction or fishing products in the local market, are put to the challenge of marketing in the regional market a product with international demand. The research includes the process of elaboration and development of the proposed management of ornamental fish, deployed as complementary economic activity of the RDSA, as a result of practices associated with environmental sustainability, opposing to the concept of development contrary to preservation natural resources in the Brazilian Amazon. This work seeks to understand how these "interventions" are being perceived and interpreted by the targeted actors of the actions and what arrangements are being produced in the dynamic, in terms of learning and political participation. For the analysis, the members of the Group of Amana's Tropical Fish Producers (GMPOA) and community leaders in the Amanã industry in RDSA were interviewed between August and October 2009. Part of the information that supported the study was gathered in interviews with families of 11 communities in the same area between 2005 and 2006. Currently GMPOA consists of the population of 08 communities located in the sector of Amana RDSA. The socioeconomics of the families involved in the management of ornamental fish show no great difference comparing to the other families in the communities among the importance of productive activities. Agriculture presents the main economic activity in the composition of the family income, combined with other sources of income such as wages and social benefits. Information on the perceptions and opinions of the involved actors, added to existing surveys on the history and socioeconomics of these communities are important elements to understand the expectations of the members of GMPOA and local leaders. Such information may be of great importance in the evaluation of the actions that are being implemented in the RDSA.

Keywords: Sustainable Development. Management. Participation. Sustainable Development Reserve. Natural Resources.

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Figura 1: Mapa do Corredor Ecológico formado pelas RDS Mamirauá e Amanã e o Parque Nacional do Jau ... 44 Figura 2: Exemplar de acará-disco (Symphysodon aequifasciatus) ... 51 Figura 3: Mapa da área de estudo do Projeto Peixes Ornamentais ... 53 Figura 4: Número de interessados em participar do manejo de peixes ornamentais no setor Amanã ... 57 Figura 5: Registro do primeiro evento de capacitação e formação do Grupo de

Manejadores de Peixes Ornamentais do Amanã (GMPOA) ... 58 Figura 6: Viveiro sendo alocado na área de manejo, outubro de 2008... ... 61 Figura 7: Viveiro já instalado, outubro de 2009 ... 61 Figura 8: Registro das técnicas utilizadas em reuniões nos primeiros anos da Reserva Amanã... ... 68 Figura 9: Distribuição das comunidades do setor Amanã - RDSA ... 92 Figura 10: Distribuição etária dos moradores de 11 comunidades do setor Amanã – RDSA ... 93 Figura 11: Atividades principais na composição da renda familiar no setor Amanã – Reserva Amanã ... 98 Figura 12: Registro de alguns eventos de capacitação em 2007 e 2008 ... 102 Figura 13: Membros do GMPOA na pesca experimental de peixes ornamentais outubro de 2008 ... 103 Figura 14: Cerco de galhada na captura de acará-disco, outubro de 2008 ... 103 Figura 15: GMPOA com parte dos pesquisadores do Projeto Peixes Ornamentais após a realização da pesca de 2009 ... 104 Figura 16: Distribuição etária dos membros do GMPOA ... 106 Figura 17: Nível de escolaridade dos membros do GMPOA ... 107

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Tabela 1: Associações comunitárias do setor Amanã - RDSA ... 94 Tabela 2: Número de adultos que pescam por comunidade e sexo – Setor Amanã – RDSA ... 96 Tabela 3: Ordem decrescente de interesse no manejo de peixes ornamentais – Setor Amanã – RDSA ... 97

Tabela 4: Comunidades envolvidas no manejo de peixes ornamentais e número de participantes por comunidade, outubro de 2009 ... 101

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AAGEMAM – Associação de Auxiliares e Guias de Ecoturismo do Mamirauá AAV – Agente Ambiental Voluntário

CDRDSM – Conselho Deliberativo da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá

CEBs – Comunidades Eclesiais de Base

CEUC – Centro Estadual de Unidades de Conservação CI – Conservation International

CNPQ – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico

CNPT – Centro Nacional de Desenvolvimento Sustentado das Populações Tradicionais

CONAMA – Conselho Nacional de Meio Ambiente DAE – Diretoria de Alternativas Econômicas

DEFRA – Department for Environment Food and Rural Affairs DFID – Department for International Development

DMDS – Diretoria de Manejo de Recursos Naturais e Desenvolvimento Social DRP – Diagnóstico Rural Participativo

EEM – Estação Ecológica Mamirauá FNS – Fundação Nacional de Saúde

GMPOA – Grupo de Manejadores de Peixes Ornamentais do Amanã GPD – Grupo de Preservação e Desenvolvimento

IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis IBDF – Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal

IDH – Índice de Desenvolvimento Humano

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IPAAM – Instituto de Proteção Ambiental do Estado do Amazonas MCT – Ministério da Ciência e Tecnologia

MEB – Movimento de Educação de Base MPEG – Museu Paraense Emílio Goeldi ONG – Organização Não-Governamental ONU – Organização das Nações Unidas PGC – Programa de Gestão Comunitária

PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento RDS – Reserva de Desenvolvimento Sustentável

RDSA – Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã RDSM – Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá SCM – Sociedade Civil Mamirauá

SDS – Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável SNUC – Sistema Nacional de Unidades de Conservação

UFPA – Universidade Federal do Pará

UNCED – Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento

UNEP – United Nations Enviroment Program UC – Unidade de Conservação

UEA – Universidade Estadual do Amazonas ZSL – Zoological Society of London

WCS – Wildlife Conservation Society WWF – World Wide Fund for Nature

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Agradecimentos ... 3

Resumo ... 5

Abstract ... 6

Lista de Ilustrações ... 7

Lista de Tabelas ... 9

Lista de Abreviaturas e Siglas ... 10

Introdução ... 14

Capítulo 1. Desenvolvimento, ambiente e participação na Amazônia brasileira: concepções e críticas ... 19

1.1 Notas sobre os termos do debate ... 20

1.2 Políticas de desenvolvimento na Amazônia e a proposta de desenvolvimento sustentável ... 24

1.3 O modelo de preservação que influenciou a criação de Unidades de Conservação no Brasil ... 32

1.4 Sistema Nacional de Unidades de Conservação no Brasil: notas sobre a instituição de uma lei ... 35

Capítulo 2. Mamirauá e Amanã: percursos em nome do “Desenvolvimento Sustentável” na Amazônia brasileira ... 39

2.1 A criação das RDS Mamirauá e Amanã ... 40

2.2 SCM e IDSM: dinâmicas institucionais e implementação das Reservas ... 44

2.3 “Alternativas econômicas”: entre complementar a renda das famílias e a substituição de atividades econômicas ... 47

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Capítulo 3. IDSM e comunidades locais: a questão da participação ... 65

3.1 Os primeiros contatos... 65

3.2 A escolha do modelo de gestão e a relação entre os atores ... 77

3.3 A percepção dos moradores locais quanto à criação da Reserva ... 83

Capítulo 4. Manejo de Peixes Ornamentais: práticas e percepções em Amanã... ... 89

4.1 As comunidades locais: caracterização socioeconômica ... 89

4.1.1. O setor Amanã ... 91

4.2 Grupo de Manejadores de Peixes Ornamentais do Amanã: processo de formação ... 98

4.3 Grupo de Manejadores de Peixes Ornamentais do Amanã: aspectos socioeconômicos ... 105

4.4 A percepção dos moradores locais sobre a atuação do projeto de Peixes Ornamentais em Amanã ... 109

Considerações finais ... 115

Referências ... 120

Apêndices ... 130

Apêndice A: Roteiro para entrevista com membros do GMPOA ... 131

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Introdução

O interesse pelo tema aqui proposto resultou da experiência de quase três anos atuando como pesquisadora e extensionista do Projeto de Manejo Sustentável de Peixes Ornamentais em comunidades rurais nas Reservas de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (RDSM) e Amanã (RDSA), no estado do Amazonas. Tal projeto foi desenvolvido no âmbito do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM), organização social que, através de um convênio firmado com o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (IPAAM)1, faz a gestão das referidas unidades de conservação.

As RDS Mamirauá e Amanã são unidades de conservação de uso sustentável, que têm como proposta a conciliação de objetivos ambientais e sociais. Para minimizar as eventuais perdas ocasionadas pelas restrições ao uso dos recursos, impostas às populações locais, o IDSM vem desenvolvendo e implementando várias atividades econômicas de forma a complementar a renda das famílias e proporcionar melhores condições de vida. Entretanto, muitas vezes, ações desta natureza provocam alterações em âmbito local que nem sempre estão relacionadas aos anseios das populações alvo destas ações.

Neste sentido, o presente trabalho busca no âmbito de um debate sobre desenvolvimento, no qual é ressaltado o desafio da sustentabilidade, compreender o processo de elaboração e implementação de uma proposta de atividade econômica dentro de uma RDS, como resultado de práticas ambientalistas, focando, especialmente, os sentimentos e reações dos atores locais diretamente envolvidos e/ou afetados por ações como esta e quais arranjos locais vão sendo produzidos nessa dinâmica, em termos de aprendizado e participação política. O trabalho centra-se na compreensão destes processos em uma região da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã, onde vem atuando desde 2005 um projeto

1

O IPAAM foi criado em 1995 para coordenar e executar a política estadual de meio ambiente. Em 2003 passou a ser vinculado à Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SDS), portanto é o órgão executor da Política de Controle Ambiental do Estado do Amazonas.

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econômico, visando a implementação do manejo de espécies de peixes ornamentais como atividade a ser desenvolvida pela população dessa região.

Ações desta natureza, como a criação de unidades de conservação e implantação de projetos de desenvolvimento sustentável, resultam de transformações que começaram a ser percebidas a partir da década de 1960, quando se tornaram evidentes os limites do desenvolvimento do planeta e surgiram muitas discussões sobre a degradação do ambiente e a preocupação em rever valores e práticas da nossa civilização. Tais debates iniciaram de questões locais que foram ganhando força a partir da coalizão de vários grupos “[...] que se tornaram movimentos nacionais e, finalmente, um movimento multinacional” (MCCORMICK, 1992, p. 21). No centro das discussões desse movimento estava a idéia de que para evitar a catástrofe seria necessário uma mudança nos valores, que pudesse orientar a construção de uma nova realidade. Passaram a buscar, então, modelos alternativos, identificados como mais sustentáveis no uso dos recursos. O debate travado ao longo das últimas décadas contribuiu para que se chegasse à idéia de desenvolvimento sustentável, idéia essa que vem sendo refinada nas diversas experiências que buscam operacionalizá-la.

Os resultados dessas discussões são sentidos localmente com a criação de unidades de conservação, ou de leis específicas de proteção ambiental, ou de outras ações resultantes desse debate. Neste sentido, busca-se compreender a percepção local sobre um projeto de intervenção econômica e social, como é o Projeto de Manejo Sustentável de Peixes Ornamentais, que, geralmente, provocam alterações no âmbito local. Pretende-se perceber como essas intervenções estão sendo sentidas e interpretadas pelos atores alvo dessas ações.

Para a compreensão desses processos, a abordagem metodológica adotada seguiu uma perspectiva qualitativa, conjugando a utilização de procedimentos como a pesquisa bibliográfica, a documental e a de campo. A pesquisa bibliográfica foi direcionada para algumas categorias de análise que nortearam as reflexões desenvolvidas neste trabalho. Neste sentido, a discussão centra-se, essencialmente, na noção de desenvolvimento sustentável, idéia que tem inspirado a ação de muitos movimentos ambientalistas (Cf. AQUINO, 2003), na qual o IDSM também se enquadra. Estes princípios orientam as ações desenvolvidas nas Reservas

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Mamirauá e Amanã, buscando conciliar objetivos ambientais, sociais e econômicos, idéia base do desenvolvimento sustentável. Antes, porém, houve a necessidade de retomar o debate sobre desenvolvimento, conceito cuja evolução aponta para sua complexificação (Cf. SACHS, 2008b) e ao qual foram sendo adicionados sucessivos adjetivos impulsionados pelas novas problemáticas: econômico, social, político, cultural, sustentável. Ao longo do desenvolvimento do trabalho outras categorias contribuíram para refletir as questões em estudo e foram incluídas, como a noção de racionalidade ambiental de Enrique Leff (2001a, 2001b, 2006) e de ambientalização, este tendo como referência também Leff (2006) e Leite Lopes (2006).

Os dados empíricos foram coletados em dois momentos distintos: entre 2005 e 2006, ainda enquanto membro do projeto de peixes ornamentais, foram realizadas entrevistas semi-estruturadas com 135 famílias de 11 comunidades do setor Amanã, representando uma amostra de 91%. Essas informações foram importantes para uma caracterização socioeconômica da área e das famílias envolvidas na atividade de manejo de peixes ornamentais. Entre agosto e outubro de 2009, foram coletados os dados referentes à percepção dos moradores quanto às ações de intervenção. Nesse segundo momento, foram realizadas entrevistas semi-estruturadas com dois grupos eleitos para a análise: um composto por todos os membros do Grupo de Manejadores de Peixes Ornamentais do Amanã (GMPOA), representando aqueles mais envolvidos nas atividades do projeto de peixes ornamentais; outro, formado por lideranças comunitárias do setor Amanã, que representam os não envolvidos nessas ações. A escolha das lideranças para a coleta de informações justifica-se por serem, geralmente, aqueles que ouvem as queixas dos moradores de sua comunidade. Por essa razão, acredita-se que possam ter conhecimento das possíveis insatisfações dos membros das comunidades em relação à atuação do projeto ou do IDSM. Ressalta-se, entretanto, que muitas informações resultam das impressões que ficaram do contato anterior com as 11 comunidades visitadas durante o período em que desenvolvia atividades ligadas ao projeto de peixes ornamentais.

Paralelamente, realizou-se levantamento documental na instituição co-gestora da RDS Amanã. Estes dados, em conjunto com os demais, foram classificados por categoria de documento. Nesta perspectiva, as fontes foram distribuídas em categorias, como: fontes bibliográficas de temas relacionados às categorias de

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análise; fontes bibliográficas relacionadas ao ambiente da pesquisa; fontes documentais, como relatórios do projeto, relatórios da instituição, atas ou registros de reuniões do projeto na instituição e nas comunidades, correspondências eletrônicas, além das fontes não escritas, como as imagens e sons registrados.

O trabalho está estruturado em quatro capítulos, nos quais buscou-se retomar os caminhos trilhados até a implementação da atividade de manejo de peixes ornamentais no setor Amanã, enquanto atividade econômica a ser realizada pelas famílias. No primeiro capítulo retoma-se a discussão sobre a noção de “desenvolvimento” como ponto de partida para se chegar ao conceito de “desenvolvimento sustentável”, este figurando como saída que busca conciliar o desenvolvimento material com prudência ética. A partir de autores como Celso Furtado, Ignacy Sachs, José Eli da Veiga e Enrique Leff, são apresentados os limites e críticas a este conceito, passando por uma discussão sobre sua nova roupagem, o “desenvolvimento sustentável”. A partir daí, procura-se demonstrar as influências destes pensamentos nas novas formas de gestão territorial no Brasil, traduzindo-se, em termos de política pública, em unidades de conservação, principalmente na Amazônia brasileira.

O segundo capítulo aborda o processo de construção da categoria de Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS), implementada inicialmente no estado do Amazonas a partir da experiência da RDS Mamirauá e, posteriormente, da RDS Amanã. São analisadas as ações realizadas para a implantação destas unidades de conservação, a estrutura institucional criada para coordenar e desenvolver os trabalhos de pesquisa e extensão, necessários ao modelo proposto, e as estratégias utilizadas para atender aos princípios desta categoria de área protegida, que procuram aliar a conservação da biodiversidade ao desenvolvimento social. Ao final do capítulo apresenta-se o processo de formação de uma dessas estratégias implantadas visando atender a tais princípios – o Projeto de Manejo Sustentável de Peixes Ornamentais de Mamirauá e Amanã, desenvolvido pelo IDSM na RDS Amanã.

A intenção do capítulo três é apresentar como vem se construindo a relação entre o IDSM e as populações que residem e/ou usam os recursos naturais das Reservas Mamirauá e Amanã, dando atenção especial a estes processos na

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Reserva Amanã. São apresentados os primeiros contatos com as comunidades, as reações locais, a construção do modelo de participação implementado, e como a população local analisa a criação desta unidade de conservação atualmente. Conhecer este histórico permite compreender como hoje se processam as relações existentes entre esses atores e como se aplicam as propostas de projetos para essas áreas.

Por fim, o capítulo quatro direciona-se mais especificamente para a proposta de manejar espécies de peixes consideradas ornamentais. Nele apresenta-se uma caracterização socioeconômica das comunidades e famílias do setor Amanã onde o projeto de peixes ornamentais realizou consultas e iniciou atividade de manejo. Apresenta-se, também, o processo de formação do GMPOA, os aspectos socioeconômicos do conjunto de famílias que formam o grupo, os procedimentos de preparação para a pesca manejada através dos cursos de capacitação e, finalmente, as impressões tanto dos membros do GMPOA quanto das lideranças comunitárias do setor sobre a atuação do projeto de peixes ornamentais na área.

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Capítulo 1:

Desenvolvimento, ambiente e participação na Amazônia brasileira: concepções e críticas

Neste capítulo, a discussão está centrada, essencialmente, na noção de desenvolvimento sustentável, idéia que tem inspirado a ação de muitos movimentos ambientalistas (Cf. AQUINO, 2003), e na qual o IDSM também se enquadra, enquanto organização social que tem por finalidade a conservação da biodiversidade e o manejo participativo e sustentável dos recursos naturais da Amazônia. Estes princípios orientam as ações desenvolvidas nas Reservas Mamirauá e Amanã, buscando conciliar objetivos ambientais, sociais e econômicos, idéia base do desenvolvimento sustentável. Antes, porém, torna-se necessário retomar o debate sobre desenvolvimento, conceito cuja evolução aponta para sua complexificação (Cf. SACHS, 2008b) e ao qual foram sendo adicionados sucessivos adjetivos impulsionados pelas novas problemáticas: econômico, social, político, cultural, sustentável.

A discussão parte de autores importantes no debate sobre desenvolvimento e desenvolvimento sustentável, como Celso Furtado (1996, 2004), Ignacy Sachs (1994, 2005, 2008a, 2008b), José Eli da Veiga (2005) e Enrique Leff (2001a, 2001b, 2006). São apresentados os limites e críticas a noção de desenvolvimento, passando por uma discussão sobre sua nova roupagem, o desenvolvimento sustentável. Procura-se demonstrar as influências destes pensamentos nas novas formas de gestão territorial no Brasil, traduzindo-se, em termos de política pública, em Unidades de Conservação, principalmente na Amazônia brasileira.

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1.1 Notas sobre os termos do debate

A proposta de desenvolvimento, ainda hoje buscada pela maioria das nações, sobretudo, aquelas que ainda não apresentam os níveis observados nos países altamente industrializados, tem sido objeto de debate, especialmente a partir da divulgação de estudos que mostraram que tal modelo tem gerado efeitos desastrosos no ambiente.

Desde a segunda guerra mundial quando a busca do desenvolvimento passou a ser, também, uma das razões de ser da Organização das Nações Unidas (ONU), vem se arrastando ambigüidades ao se identificar o desenvolvimento com crescimento econômico. O debate internacional sobre o sentido da noção de desenvolvimento teve início a partir dos anos 1960, quando se observou que o crescimento econômico ocorrido em diversos países semi-industrializados, entre os quais o Brasil, não se traduziu em maior acesso das populações pobres a bens materiais, à saúde e à educação. Neste sentido, em 1990 quando o Programa das Nações Unidas (PNUD) lançou o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), buscava-se evitar o uso exclusivo da riqueza econômica como critério para mensurar o desenvolvimento.

Além de se questionar esse modelo, quanto à capacidade de promover melhores condições de vida às populações, outros aspectos passaram a fazer parte do centro das discussões. De acordo com Furtado (1996), no início da década de 1970 a divulgação dos resultados de estudos sobre os limites do planeta trouxeram “[...] para o primeiro plano da discussão problemas cruciais que os economistas do desenvolvimento econômico trataram sempre de deixar na sombra” (FURTADO, 1996, p. 10). A partir de então muito se tem discutido sobre esse modelo e suas formas de reprodução nas economias periféricas.

Veiga (2005) diz haver três respostas quando se questiona o desenvolvimento: a primeira trata tal conceito como sinônimo de crescimento econômico, relação que o autor procura desmistificar em seu trabalho; a segunda afirma que o desenvolvimento não passa de ilusão ou manipulação ideológica. Para Veiga (2005), os que aderem a essa segunda corrente ficam isentos de discutir o

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“enigma do desenvolvimento sustentável, pois ele não passaria de uma nova roupagem da quimera original” (VEIGA, 2005, p. 18). A terceira, entretanto, segundo este autor, é o caminho mais complexo, trata-se dos que recusam as duas saídas e tentam explicar o desenvolvimento não como quimera e nem como crescimento econômico, mas como um caminho do meio, bem mais difícil de ser trilhado.

A primeira corrente apontada por Veiga (2005) faz referência à simples identificação do desenvolvimento com o crescimento econômico. Até o início da década de 1960, não se sentiu, segundo este autor, a necessidade de distinguir estes dois conceitos, pois as poucas nações desenvolvidas haviam alcançado este estado por meio da industrialização, ao passo que nos países que permaneceram subdesenvolvidos, o processo de industrialização era incipiente ou nem havia iniciado. No entanto, quando começaram a surgir evidências de que o crescimento ocorrido naqueles países semi-industrializados não se traduziu em maior acesso de populações pobres a bens materiais, como havia ocorrido nos países considerados desenvolvidos, iniciaram-se debates buscando discutir o sentido da noção de desenvolvimento. O Índice de Desenvolvimento Humano, lançado pelo PNUD no Relatório de Desenvolvimento Humano em 1990, para evitar a utilização exclusiva do aspecto econômico como critério de aferição, contribuiu para minimizar tais ambigüidades. A partir desse momento, seria “[...] muito esquisito continuar a insistir na simples identificação do desenvolvimento com o crescimento econômico” (VEIGA, 2005, p. 18).

A segunda linha de pensamento tem como questão central a impossibilidade de haver alguma mobilidade ascendente na rígida hierarquia da economia mundial. Esta seria formada por um pequeno núcleo de países centrais, uma extensa periferia, e uma semiperiferia formada por nações consideradas emergentes. Para os autores dessa corrente, as chances de transposição das linhas que separam os grupos de países são irrisórias, ou seja, “embora alguma mobilidade seja possível, é altamente improvável que o núcleo orgânico absorva muitos desses países da semiperiferia” (VEIGA, 2005, p. 21). Neste sentido, a essência desta tese é a de que o desenvolvimento é uma ilusão.

Furtado (1996) também partilhou desta opinião. Segundo ele, o estilo de vida dos países centrais é de tal forma elevado, quanto aos custos de depredação do

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mundo físico, que toda tentativa de generalizá-lo poderia levar ao colapso de toda uma civilização, pondo em risco a sobrevivência humana. O autor conclui a partir desta análise que:

[...] o desenvolvimento econômico – a idéia de que os povos pobres podem algum dia desfrutar das formas de vida dos atuais povos ricos – é simplesmente irrealizável. Sabemos agora de forma irrefutável que as economias da periferia nunca serão desenvolvidas, no sentido de similares às economias que formam o atual centro do sistema capitalista (FURTADO, 1996, p. 89. Grifos do autor).

Para Furtado (1996), o mito do desenvolvimento econômico desvia a atenção das necessidades fundamentais da coletividade para concentrá-la em objetivos abstratos, como o crescimento econômico.

Conforme mencionado, com o lançamento do primeiro Relatório de Desenvolvimento Humano em 1990, deixou-se de considerar o crescimento econômico como sinônimo de desenvolvimento. O crescimento passou a ser entendido como um elemento dentro de um processo maior, uma vez que seus resultados não se traduzem automaticamente em benefícios econômicos. Desta forma, tornou-se evidente a necessidade de se estruturar as políticas de desenvolvimento segundo critérios e valores além dos econômicos. Para Veiga (2005), aqui está a mudança fundamental no modo de se conceber o desenvolvimento a partir de então.

Mais recentemente, uma perspectiva semelhante é encontrada nos trabalhos de Amartya Sen, especialmente em seu livro Desenvolvimento como liberdade, obra de síntese, baseada em cinco conferências proferidas por Sen entre 1996 e 1997, enquanto membro do Banco Mundial. Neste trabalho o desenvolvimento é apresentado como um processo de expansão ou ampliação das liberdades reais dos indivíduos. Nele o autor procura demonstrar a necessidade de se reconhecer as diferentes formas de liberdade por meio do combate às privações. Desta forma:

o desenvolvimento requer que se removam as principais fontes de privação de liberdade: pobreza e tirania, carência de oportunidades econômicas e destituição social sistemática, negligência dos serviços públicos e intolerância ou interferência de Estados repressivos (SEN, 2000, p. 18).

Estes se configuram, segundo este autor, como os maiores desafios ao desenvolvimento, visto que embora se verifique um aumento na riqueza mundial,

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observa-se, também, a negação de liberdades elementares à grande parte da população. A expansão das liberdades é vista, assim, como o principal fim e o principal meio do desenvolvimento.

Entre os autores que têm se dedicado ao problema do desenvolvimento nas últimas décadas, Veiga (2005) destaca a importante contribuição de Ignacy Sachs. De acordo com Sachs (2008b), a reflexão sobre o desenvolvimento tal como o conhecemos hoje teve início ainda nos anos 40 do século passado, no contexto de reconstrução da periferia devastada da Europa no pós-guerra. Como conceito histórico e social, o pensamento dominante na época pregava que o desenvolvimento seria alcançado por meio da intervenção do Estado nos assuntos econômicos, priorizando o pleno emprego. Entretanto, dois avanços conceituais são enfatizados pelo autor: o primeiro refere-se à atenção dada à problemática ambiental desde os anos 1970, que levou “[...] a uma ampla reconceitualização de desenvolvimento, em termos de ecodesenvolvimento, recentemente renomeado desenvolvimento sustentável” (SACHS, 2008b, p. 36); o segundo foi influenciado pelos trabalhos de Amartya Sen, onde “o desenvolvimento pode ser redefinido em termos da universalização e do exercício efetivo de todos os direitos humanos: políticos, civis e cívicos; econômicos, sociais e culturais; bem como direitos coletivos ao desenvolvimento, ao ambiente etc.” (SACHS, 2008b, p. 37).

Sachs (2008b) resume a evolução do conceito de desenvolvimento nas últimas décadas apontando para a sua complexificação. Foram sendo adicionados sucessivos adjetivos impulsionados pelas novas problemáticas. Neste sentido, ao conceito de desenvolvimento foram acrescidos os adjetivos: econômico, social, político, cultural, sustentável. Mas, tanto Sachs (2005) quanto Veiga (2005) partem da definição de Celso Furtado como a que melhor sintetiza a idéia de desenvolvimento. Conforme Furtado (2004):

o crescimento econômico, tal qual o conhecemos, vem se fundando na preservação dos privilégios das elites que satisfazem seu afã de modernização; já o desenvolvimento se caracteriza pelo seu projeto social subjacente. Dispor de recursos para investir está longe de ser condição suficiente para preparar um melhor futuro para a massa da população. Mas quando o projeto social prioriza a efetiva melhoria das condições de vida dessa população, o crescimento se metamorfoseia em desenvolvimento (FURTADO, 2004, p. 484).

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Para Sachs (2005), a compreensão do conceito de desenvolvimento torna-se importante na medida em que é necessário recorrer ao par

“desenvolvimento/mau-desenvolvimento” para que se possam definir políticas de saída do mau

desenvolvimento.

1.2 Políticas de desenvolvimento na Amazônia brasileira e a proposta de desenvolvimento sustentável

Orientado por teorias centradas essencialmente no aspecto econômico do desenvolvimento, o Estado brasileiro implantou na Amazônia ao longo das últimas décadas do século passado, muitos projetos desenvolvimentistas com o propósito de incorporar a região aos processos de reprodução do capital. Este processo foi marcado por estratégias concebidas para atenuar a desigualdade inter-regional na qual a Amazônia se encontrava em relação às outras regiões do Brasil. Entretanto, de acordo com Lira, Silva e Pinto (2008), a inserção da Amazônia ao contexto da economia nacional por meio dessas estratégias se deu de forma dependente, subordinada à lógica das necessidades de reprodução desse capital no espaço nacional. A estratégia nacional para promover o desenvolvimento da Amazônia foi pautada na implementação de projetos intensivos em capital, baseados num modelo de desenvolvimento desequilibrado, voltado quase que exclusivamente para atividades e setores dependentes de demandas do mercado internacional. Os investimentos realizados por esses projetos aceleraram o ritmo de crescimento da produção regional, tanto que nas duas últimas décadas do século passado as taxas de crescimento econômico foram superiores ao observado em nível nacional (LIRA; SILVA; PINTO, 2008).

Ocorreu que essas políticas implementadas, visando diminuir a desigualdade inter-regional, acabaram gerando desigualdades intra-regionais em virtude das características dessas políticas: setoriais, restritas a área de localização e dependentes de demandas extra-regional e extra-nacional. Assim, no século XXI o desenvolvimento que ocorre na Amazônia é desigual e restrito a alguns subespaços econômicos e bastante heterogêneos no que se refere à produção regional, situação

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diferente de como se encontrava até sua integração ao mercado nacional (LIRA; SILVA; PINTO, 2008).

A Amazônia é hoje reflexo das políticas desenvolvimentistas que potencializaram ao mesmo tempo o crescimento econômico e as desigualdades sociais. Esses projetos trouxeram com eles além das desigualdades intra-regionais apresentadas, inúmeros conflitos sociais e prejuízos ambientais. Problemas que podem ser observados na abundante literatura sobre esses processos na Amazônia desde os anos 1970. Alguns trabalhos podem ilustrar essa questão, como: os efeitos da construção de grandes rodovias demonstrados em Hébette (1991); os impactos dos Grandes Projetos em termos de crise agrária na Amazônia (HALL, 1991); a desestruturação socioambiental da comunidade de Laranjal em Barcarena no Pará, com a implantação do complexo Albrás Alunorte para a produção de alumínio (VASCONCELLOS, 1996); a desestruturação de engenhos de várzea no estuário do Amazonas (ANDERSON, 1991); a construção da Usina Hidrelétrica de Balbina, próxima à Cachoeira Balbina no rio Uatumã, estado do Amazonas, que inundou uma área de cerca de 2.928,5 km2, incluindo parte do território dos índios Waimiri-Atroari, e prejudicou todos os afluentes dos rios Uatumã e Abonari, tornando-os inabitáveis em virtude da putrefação da floresta submersa (BAINES, 1994).

Além destes trabalhos, uma vasta literatura sobre a implantação dos grandes projetos na Amazônia tem demonstrado que o caráter autoritário com que se revestiu a ação do Estado acabou por ensejar conseqüências que marcaram profundas alterações na organização do espaço geográfico amazônico. A Amazônia é marcada por práticas que se baseiam nas idéias de progresso e de crescimento econômico e, assim, pela implementação de um modelo exógeno, no qual a população local tem sido excluída das discussões sobre projetos que, geralmente, causam impactos sobre ela.

A avaliação dos resultados dessa forma de exploração do homem “civilizado” sobre sociedades tidas como “inferiores” ou “primitivas” e sobre a natureza em várias partes do mundo, levaram os cientistas de diversas áreas do conhecimento a realizarem amplos debates ambientalistas. Neste sentido, a partir da década de 1960, com a crescente preocupação de cientistas, líderes políticos e organismos internacionais com os limites do desenvolvimento do planeta, começaram a surgir

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muitas discussões sobre a degradação do ambiente e a preocupação em rever valores e práticas da nossa civilização.

Um marco desse processo foi a realização da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, em Estocolmo em 1972. Segundo McCormick (1992, p. 97), “foi a primeira vez que os problemas políticos, sociais e econômicos do meio ambiente global foram discutidos num fórum intergovernamental com uma perspectiva de realmente empreender ações corretivas”. Entre os resultados mais significativos da Conferência em Estocolmo, o autor destaca a criação do Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas (UNEP) como um produto tangível do evento. Esta foi a forma institucional criada para que os princípios e plano de ação elaborados em Estocolmo se transformassem em políticas e programas ativos e tivessem resultados práticos.

A partir de então, o debate foi ampliado e no caminho dessa discussão ambiental, surgiu o conceito de ecodesenvolvimento. Este foi usado pela primeira vez em 1973 pelo canadense Maurice Strong, primeiro diretor-executivo do UNEP2, para caracterizar uma concepção alternativa de desenvolvimento, cujos princípios foram formulados por Ignacy Sachs, segundo o qual, os eixos do desenvolvimento seriam seis: satisfação das necessidades básicas; solidariedade com as gerações futuras; participação da população envolvida; preservação dos recursos naturais e do meio ambiente; elaboração de um sistema social que garanta emprego, segurança social e respeito a outras culturas; programas de educação (Sachs, 1994). Estes princípios objetivavam fornecer subsídios principalmente para o desenvolvimento das regiões menos desenvolvidas, com soluções mais adequadas aos territórios locais envolvendo uma crítica à sociedade industrial.

Os resultados das discussões realizadas em diversos momentos ao longo das últimas décadas, como a Declaração de Cocoyok, das Nações Unidas, em 1974; a elaboração do Relatório de Dag-Hammarskjöld, pela fundação de mesmo nome em parceria com a ONU, em 1975; e com a elaboração do Relatório Brundtland, em 1987, pela Comissão Mundial da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (UNCED), contribuiram para que se chegasse à idéia de desenvolvimento sustentável. Este vem sendo refinado desde então.

2

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De acordo com Leis (1999), o desenvolvimento pautado na sustentabilidade é uma das principais questões discutidas em relação ao meio ambiente. Com a divulgação do Relatório Brundtland em 1987, o posicionamento ético dos países, quanto à utilização dos recursos naturais e ao compromisso com a qualidade de vida das gerações futuras, passou a ser exigido. O desenvolvimento sustentável é visto como uma “saída” que busca conciliar o desenvolvimento material com prudência ética. Nesse relatório, o desenvolvimento sustentável foi definido como aquele que satisfaz as necessidades do presente sem comprometer a possibilidade das futuras gerações satisfazerem as suas (BRUNDTLAND, 1991). Em seu sentido mais amplo, a estratégia de desenvolvimento sustentável visa promover a harmonia entre os seres humanos e entre a humanidade e a natureza.

A partir deste sentido, atribuído ao conceito de desenvolvimento sustentável no Relatório Brundtland, pôde-se perceber que o mesmo não diz respeito apenas ao impacto da atividade econômica no meio ambiente, refere-se, principalmente, às conseqüências dessa relação na qualidade de vida e no bem-estar da sociedade, tanto presente quanto futura. Atividade econômica, meio ambiente e bem-estar da sociedade formam o tripé básico no qual se apóia a idéia de desenvolvimento sustentável. A aplicação desse conceito requisita, portanto, uma série de medidas tanto por parte do poder público como da iniciativa privada, assim como um consenso internacional. É preciso frisar, ainda, a participação de movimentos sociais, constituídos principalmente na forma de Organizações Não-Governamentais (ONGs), na busca por melhores condições de vida associadas à preservação do ambiente e a uma condução da economia adequada a tais exigências.

No contexto específico das crises do desenvolvimento e do meio ambiente, a busca do desenvolvimento sustentável remete, também, a um sistema político que assegure a efetiva participação dos cidadãos no processo decisório; um sistema social que possa resolver as tensões causadas por um desenvolvimento não-equilibrado; um sistema de produção que respeite a obrigação de preservar a base ecológica do desenvolvimento; um sistema internacional que estimule padrões sustentáveis de comércio e financiamento; um sistema administrativo flexível e capaz de auto corrigir-se.

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Nestes termos, no Relatório Brundtland (2001) há uma série de medidas que devem ser tomada pelos Estados nacionais, são elas: a) limitação do crescimento populacional; b) garantia de alimentação em longo prazo; c) preservação da biodiversidade e dos ecossistemas; d) diminuição do consumo de energia e desenvolvimento de tecnologias que admitem o uso de fontes energéticas renováveis; e) aumento da produção industrial nos países não-industrializados à base de tecnologias ecologicamente adaptadas; f) controle da urbanização selvagem e integração entre campo e cidades menores; g) as necessidades básicas devem ser satisfeitas. No nível internacional, as metas propostas são as seguintes: h) as agências de desenvolvimento devem adotar a estratégia de Desenvolvimento Sustentável; i) a comunidade internacional deve proteger os ecossistemas supranacionais como a Antártica, os oceanos, o espaço; j) as guerras devem ser banidas; k) a ONU deve implantar um programa de Desenvolvimento Sustentável.

Algumas outras medidas providenciais para a implantação de um programa o mínimo adequado de desenvolvimento sustentável seriam: o uso de novos materiais na construção; reestruturação da distribuição de zonas residenciais e industriais; aproveitamento e consumo de fontes alternativas de energia, como a solar, a eólica e a geotérmica; reciclagem de materiais aproveitáveis; não-desperdício de água e de alimentos; menor uso de produtos químicos prejudiciais à saúde nos processos de produção alimentícia.

Realizar um programa de desenvolvimento sustentável exige, portanto, um alto nível de conscientização e de participação tanto dos governos e da iniciativa privada quanto da sociedade civil. Para tanto, não se deve deixar que estratégias de tal porte e extensão fiquem à mercê do livre mercado, visto que os danos que se visam resolver foram causados justamente pelos processos desencadeados por um modelo de capitalismo cada vez mais selvagem e desenfreado, indo de encontro a um dos requisitos básicos do conceito de desenvolvimento sustentável que é a satisfação das necessidades básicas da população. Essa participação da sociedade, tão necessária nas discussões acerca do uso indiscriminado dos recursos naturais, ganhou força a partir dos anos 1960, quando a prioridade do Estado e do mercado nestes debates começou a ser questionada pela sociedade civil, que passou a se organizar na forma de associações ou ONGs, “[...] com capacidade de intermediar e

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limitar de forma efetiva tanto as ações do mercado como do Estado” (LEIS, 1999, p. 100).

Embora muito se tenha discutido ao longo das últimas décadas, de acordo com Sachs (2008a), um elemento central da idéia de desenvolvimento sustentável tem se mantido. Segundo este autor, “seja denominado ecodesenvolvimento ou desenvolvimento sustentável, a abordagem fundamentada na harmonização de objetivos sociais, ambientais e econômicos não se alterou desde o encontro de Estocolmo [1972] até as conferências do Rio de Janeiro” (SACHS, 2008a, p. 54. Grifo do autor). Ele acredita que tal abordagem ainda seja válida na recomendação da utilização dos oito critérios distintos de sustentabilidade parcial: social, cultural, ecológico, ambiental, territorial, econômico, político (nacional) e político (internacional).

Uma perspectiva que procura radicalizar essa proposta de desenvolvimento sustentável é apontada por Enrique Leff (2001a). De acordo com alguns autores (BOEIRA, 2002; GONÇALVES, 2006; LOPES, 2009), o conceito de racionalidade ambiental, elaborado por Leff, emerge da reflexão do autor sobre a crise ambiental e os problemas que a causaram. A maioria dos problemas que hoje são enfrentados pela humanidade teria suas origens na racionalidade moderno-colonial, na racionalidade econômica, que mercantiliza a natureza e os valores culturais. Para Leff (2006, p. 15), a questão ambiental surge, assim, como uma crise da civilização, da racionalidade da modernidade, da “hegemonia totalizadora do mundo globalizado”.

Leff (2006) observa que nem o mercado, nem normas ecológicas, nem uma moral conservacionista, nem soluções tecnológicas foram capazes de reverter os efeitos da racionalidade econômica, como a degradação ambiental, a concentração de poder e a desigualdade social. Neste sentido, ele aponta a necessidade de se pensar outra racionalidade, que seja capaz de integrar os valores da diversidade cultural, os potenciais da natureza, a eqüidade e a democracia como valores que sustentam a convivência social, e como princípios de uma nova racionalidade produtiva, em sintonia com os propósitos da sustentabilidade, a racionalidade ambiental. Segundo o autor, a construção desta nova racionalidade perpassa um conjunto de processos sociais:

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[...] é um processo de produção teórica e de transformações sociais [...] [n]as relações entre instituições, organizações, práticas e movimentos sociais, que atravessam o campo conflitivo do ambiental e afetam as formas de percepção, acesso e usufruto dos recursos naturais, assim como a qualidade de vida e os estilos de desenvolvimento das populações (LEFF, 2006, p. 240. Grifo do autor).

A degradação ambiental, a ampliação da pobreza e a crescente desigualdade social que o mundo vivencia são conseqüências da ação predatória e centralizadora da racionalidade econômica. Esses efeitos estariam, segundo Leff (2001b, 2006), impulsionando a construção de identidades coletivas e a formação de novas formas de organização social para enfrentar a crise ambiental. São movimentos que buscam compreender as causas dessa problemática ambiental e solucionar os seus efeitos nas condições de vida da sociedade. É a “[...] emergência de novos atores sociais mobilizados por valores, direitos e demandas que orientam a construção de uma racionalidade ambiental” (LEFF, 2001b, p. 96).

Como resultado das reflexões sobre as raízes éticas e ideológicas da crise ambiental, que questiona o modelo de desenvolvimento capitalista, verificou-se a constituição do paradigma ambiental. A partir desse cenário de reformulação de critérios e de valorização social, aliado ao referencial ambiental, foi sendo conferida à Amazônia importância científica e simbólica (LIMA; POZZOBON, 2005). Esse novo referencial questiona o lugar da espécie humana na natureza e sua responsabilidade pelo futuro da biosfera, e permitiu um novo olhar “[...] sobre as relações entre populações humanas e o meio ambiente na Amazônia” (LIMA; POZZOBON, 2005, p. 46).

Com a atuação de ONGs e grupos de pesquisa na Amazônia, o “tradicional” passou a ser valorizado, sobretudo, a partir da participação comunitária, por meio da formação de associações com fins preservacionistas e constituição de organizações de representação comunitária, como associações de moradores e centros comunitários (CONCEIÇÃO, 2001). Segundo Conceição (2001, p. 146), a partir dessas assessorias, alguns resultados puderam ser observados:

[...] ações pontuais interessantes para a preservação ambiental, como a proposição de regulamentações e formas de controle na apropriação de recursos escassos, especificamente a pesca de lagos, em determinados períodos do ano [...] Começou-se a ver o conteúdo político das discussões ambientalistas e preservacionistas reconhecendo finalmente o grau de envolvimento nas ações e a disputa por decisões, apresentado pelas

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populações ribeirinhas e tradicionais, agora em processo de organização e presentes, de alguma forma, no cenário político.

Conforme Lima (2005), foi a primeira vez na história da Amazônia que o modo de vida da população ribeirinha despertou tanto interesse político. A discussão ambiental possibilitou aos ribeirinhos da Amazônia maior visibilidade por reconhecer o conhecimento e a adaptabilidade dessas populações em relação aos recursos naturais (Cf. CONCEIÇÃO, 2001) ou em razão de seu modo de vida essencialmente ligado ao ambiente (Cf. LIMA, 2005). Esta autora destaca, ainda, que:

o reconhecimento do baixo impacto da produção familiar sobre o ambiente transpôs a população ribeirinha da margem das políticas públicas para o centro de uma política socioambiental que busca um novo paradigma para o desenvolvimento que seja ambientalmente sustentável, socialmente justo e democrático (LIMA, 2005, p. 338)

Diversos estudos buscaram demonstrar a valorização dos saberes das populações locais sobre a natureza. Castro (1997) salienta que essa valorização é proveniente de debates sobre a preservação dos ecossistemas e da biodiversidade, pois “[...] reconhecem-se esses saberes e as formas de manejo a eles pertinentes como fundamentais na preservação da biodiversidade” (CASTRO, 1997, p. 221).

A diversidade e a extensão dos saberes e das técnicas acumuladas por essas populações para apropriar-se dos recursos do meio ambiente e adaptá-los às suas necessidades básicas, alimentam-se em processo contínuo. Um exemplo dessa integração do homem com o ambiente a fim de satisfazer suas necessidades sem comprometer o ambiente, é visto entre os pescadores de peixes ornamentais na região de Barcelos, no estado do Amazonas. Diferentemente do que ocorre em outras atividades exploratórias, os “piabeiros”, como são localmente conhecidos (Cf. SOBREIRO, 2007; PRANG, 2001), sabem que a manutenção da atividade depende da conservação da floresta, por essa razão mantêm uma relação harmoniosa com o ambiente.

Castro (1997) aponta que, em virtude de as formas de reprodução social dessas populações demonstrarem uma integração harmoniosa com o ambiente, utilizando formas apropriadas de manejo, a sociedade e muitos estudiosos estabeleceram uma associação entre populações tradicionais e desenvolvimento

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sustentável, uma vez que esse modo de vida contempla princípios de sustentabilidade ambiental.

Autores como Diegues (1995), Sachs (1994), Leis (1999), Cavalcanti (2001), Loureiro (2002) propõem a utilização desse novo conceito de desenvolvimento – o desenvolvimento sustentável – como alternativa ao atual modelo, que não tem conseguido solucionar os problemas provocados por sua forma de produção, reproduzindo cada vez mais as contradições sociais existentes na sociedade.

O modelo de desenvolvimento baseado na acumulação capitalista, no qual se sustentaram as intervenções na Amazônia, configurou-se num modelo equivocado, uma vez que, na maioria dos casos, as ações baseavam-se em modelos exógenos que desconsideravam aspectos não apenas ambientais, mas sociais e culturais da região, gerando com isso graves problemas ambientais e sociais.

O que parece ser consenso na posição de muitos estudiosos da problemática ambiental é a necessidade de se pensar uma “nova forma de civilização” conforme pensa Sachs (2008a) ou uma “nova racionalidade” no dizer de Leff (2001a, 2001b, 2006), que não busque somente o crescimento econômico, mas que comporte princípios humanísticos baseados numa nova ética na relação dos homens entre si e destes com a natureza, visando a solução dos problemas sociais. Tais princípios inspiraram a construção de novas categorias de Unidades de Conservação de uso sustentável, preocupadas não apenas com o ambiente natural, mas também com a qualidade de vida da população que habita esse ambiente, é o caso das Reservas de Desenvolvimento Sustentável.

1.3 O modelo de preservação que influenciou a criação de Unidades de Conservação no Brasil

Anterior à idéia de desenvolvimento sustentável, outro ideal predominava entre os que se preocupavam com as questões ambientais e, mais especificamente, com a destruição de grandes espaços florestais. Em meados do século XIX, após a consolidação e urbanização acelerada do capitalismo americano, o extermínio quase total das comunidades indígenas e a expansão das fronteiras para o oeste, houve

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uma inversão de valores sobre a natureza. Esta, antes detestável, passou a ser admirada. Assim, segundo Larrère e Larrère (1997, p. 206), “nas últimas décadas do século XIX, o movimento a favor da protecção das florestas „virgens‟ ganhou amplidão, mas cindiu-se entre os partidários da „conservação‟ e os da „preservação‟”. Os primeiros viam esses espaços como reservas de recursos, “conservar era fazer um „bom uso‟ (wise use) da natureza” (LARRÈRE; LARRÈRE, 1997, p. 206). Já os partidários da “preservação” defendiam que a floresta deveria ser mantida livre de qualquer intrusão humana.

Nesse embate, predominou a perspectiva preservacionista, que propôs reservar grandes áreas naturais à disposição das populações urbanas para fins de recreação. Em 1872, após a realização de vários estudos, foi criada a primeira área com status de Parque Nacional do mundo, o Parque Nacional de Yellowstone, que passou a ser uma região reservada e proibida de ser colonizada, ocupada ou vendida, segundo as leis americanas (DIEGUES, 1994). Esta perspectiva via nos Parques Nacionais a única forma de salvar partes de grande beleza da natureza contra os efeitos devastadores do desenvolvimento urbano-industrial. Baseava-se nas conseqüências do capitalismo sobre o oeste selvagem americano e nos efeitos da mineração sobre seus rios e lagos. Desta forma, qualquer intervenção humana na natureza era vista de forma negativa. Desconsiderava-se que os índios americanos tinham vivido em harmonia com a natureza por muitos anos. Para os defensores dessa proposta, todos os grupos sociais eram iguais e a natureza deveria ser mantida intocada das ações negativas da humanidade.

Esse modelo americano acabou se espalhando pelo mundo numa perspectiva dicotômica entre “povos” e “parques”. Partindo do princípio de que a presença humana é sempre devastadora para a natureza, deixaram de ser considerados os diferentes modos de vida das chamadas “populações tradicionais” existentes em outros países como na América do Sul e na África. Essa postura preservacionista na criação de Parques Nacionais, que desconsidera a existência e o modo de vida das populações que habitam a área, acabou gerando conflitos afetando populações de extrativistas, pescadores e índios em países do terceiro mundo (DIEGUES, 1994; LARRÈRE; LARRÈRE, 1997).

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De acordo com Larrère e Larrère (1997), essa perspectiva de proteção da natureza foi criticada por geógrafos, antropólogos e ecólogos do terceiro mundo, pois conjuga etnocentrismo e imperialismo. Para os autores, essa forma de proteção “[...] é um luxo de países ricos e desenvolvidos inacessível aos mais pobres, e prejudica-os quando lhes é aplicada” (LARRÈRE; LARRÈRE, 1997, p. 207).

Seguindo, então, modelos de Parques e Reservas adotados em outras realidades, o Brasil, assim como outros países, enfrentou e ainda vem enfrentando muitos problemas e conflitos em decorrência desse processo. A criação de Unidades de Conservação de proteção integral em lugares onde populações fazem uso social dos recursos há várias gerações é apenas um exemplo de tal problema. Chiozzini (2005) ilustra essa questão com o caso de algumas comunidades localizadas no Parque Nacional do Jaú, no Amazonas. Mesmo sendo uma categoria de Unidade de Conservação que não permite ocupação humana, pois se trata de uma unidade de proteção integral, que permite apenas o uso indireto dos recursos, essas comunidades continuam residindo no Parque e fazendo uso dos recursos.

Vallejo (2006) aponta que essa problemática só começou a ser considerada a partir dos anos 1970, após a Conferência de Estocolmo (1972), consolidando-se, efetivamente, a partir do III Congresso Mundial de Parques Nacionais, em 1982. Houve uma evolução na abordagem do conceito de Parque Nacional, em relação à integração com o desenvolvimento socioeconômico. Ficou estabelecido que os Parques Nacionais e outras Unidades de Conservação só teriam sentido com a elevação da qualidade de vida da população, sem o que ela seria forçada a explorar, de forma predatória, os recursos naturais.

Tornou-se imprescindível a reformulação das políticas de áreas protegidas, de forma que as “populações locais tenham papel mais central do que deve ser conservado, como e para quem” (PIMBERT; PRETTY, 2000, p. 210), reconhecendo legalmente as reivindicações ancestrais da terra, beneficiando as comunidades locais com o controle sobre os recursos naturais contidos nos Parques e outras

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categorias de áreas protegidas. Em entrevista a Chiozzini (2005), Lúcia Ferreira3, ressaltou que:

são necessárias mudanças substanciais relacionadas ao tratamento dado a essas populações, inclusive considerando a hipótese de não retirá-las: em curto prazo, é necessário democratizar o debate sobre a gestão dos parques, com a participação oficial dos moradores no processo de tomada de decisão (CHIOZZINI, 2005, p. 06).

A instituição do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), juntamente com a criação de novas categorias de unidades de uso sustentável, constituiu-se em um avanço nesse sentido. No entanto, torna-se cada vez mais necessário que os debates em torno dessa questão se ampliem para que se tenha no futuro, a mínima garantia à integridade do patrimônio preservado, mas com a participação e decisão de todos os atores envolvidos.

1.4 Sistema Nacional de Unidades de Conservação no Brasil: notas sobre a instituição de uma lei

Somente a partir do final dos anos 1970, sob influência de organizações ambientalistas internacionais foi que se cogitou a possibilidade de criação de um sistema nacional de unidades de conservação no Brasil. Até então as Unidades de Conservação brasileiras eram “criadas de forma esporádica, casuística e assistemática, de acordo com oportunidades surgidas em contextos e circunstâncias políticas específicas” (SANTILLI, 2005, p. 169). Mas, somente em 1988 o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), hoje extinto, encomendou à Fundação Pró-Natureza (Funatura), uma proposta de lei que instituísse um sistema nacional de unidades de conservação. Tal proposta foi aprovada pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA) e encaminhada pelo então presidente Fernando Collor de Mello ao Congresso Nacional, em maio de 1992. Após oito anos de tramitação, o projeto foi aprovado em 2000 com alguns vetos presidenciais (SANTILLI, 2005). Atualmente, as Unidades de Conservação são entendidas

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Pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas, com experiência em estudos sobre conflitos sociais em Unidades de Conservação.

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