Capítulo 2. Mamirauá e Amanã: percursos em nome do “Desenvolvimento
2.2 SCM e IDSM: dinâmicas institucionais e implementação das Reservas
vermelho) e o Parque Nacional do Jau (em azul), destacando sua localização na Amazônia. Fonte: Banco de Imagens do IDSM.
Os trabalhos de implementação e gestão da RDS Amanã vêm sendo desenvolvidos pelas mesmas instituições responsáveis pela proposta da RDS Mamirauá e sua gestão, a Sociedade Civil Mamirauá (SCM) e o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM). As ações desenvolvidas inicialmente em Mamirauá estão sendo replicadas e adaptadas à realidade de Amanã.
2.2 SCM e IDSM: dinâmicas institucionais e implementação das Reservas
Para a coordenação dos trabalhos nas Reservas, uma estrutura institucional foi criada antes mesmo da recategorização da Estação Ecológica Mamirauá para RDS. Em 1991 foi criado o “Projeto Mamirauá”, com o objetivo de coordenar as atividades de pesquisa e de desenvolvimento social tendo em vista a implantação da Reserva. Mas, de acordo com Inoue (2003), “durante o processo de estabelecimento da rede
de relações de cooperação [...], percebeu-se a necessidade de se criar uma ONG para administrar o projeto” (INOUE, 2003, p. 210).
Segundo esta autora, quando a proposta começou a ser construída por pesquisadores ligados, principalmente, a instituições de pesquisa da Amazônia (Museu Paraense Emílio Goeldi – MPEG; Universidade Federal do Pará – UFPA; Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA), estes já tinham conhecimento do apoio do governo britânico a projetos ambientais no âmbito do Museu Goeldi. Porém, havia o receio de vincular o Projeto Mamirauá a esta instituição pelo fato de pessoas ligadas a ela estarem sendo acusadas de desviar recursos de um projeto apoiado por uma agência britânica em Caxiuanã. As ONGs internacionais que apoiavam o projeto (Wildlife Conservation Society – WCS; World Wide Fund for Nature –WWF) também manifestaram o desejo por outro arranjo institucional. Neste sentido, muitas discussões e troca de correspondências entre instituições brasileiras e internacionais6 ocorreram até que se chegasse a um arranjo aceitável para todas as partes. “Mamirauá tornou-se [...] um dos projetos sob responsabilidade do CNPq, ligado à mesma diretoria em que estavam as unidades de pesquisa como o INPA e o próprio Museu [Goeldi]. Uma ONG seria criada para gerir os recursos internacionais” (INOUE, 2003, p. 213).
Assim, a criação da Sociedade Civil Mamirauá (SCM) em 1992 aconteceu em parte para responder a exigências formais das agências financiadoras. Entre as responsabilidades da SCM estavam a gestão dos recursos do governo britânico, WWF/Reino Unido, WCS e Conservation International (CI), e implementar as atividades de campo (INOUE, 2003). Estes trabalhos foram coordenados por Márcio Ayres, juntamente com a antropóloga Deborah Lima, que planejou e supervisionou as atividades da parte social até 1995. Ayres permaneceu na coordenação dos trabalhos até 2003, ano de seu falecimento.
Nos primeiros anos foram realizados levantamentos de dados para fundamentar a elaboração do plano de manejo e criar bases para atuar na região e envolver a população usuária da Reserva, atores sociais e instituições. As pesquisas
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Para maior conhecimento sobre os arranjos institucionais construídos durante as primeiras fases de Mamirauá veja os capítulos 7 e 8 de Inoue (2003).
iniciais voltaram-se para o estudo de recursos chaves, considerados do ponto de vista ambiental e social. De acordo com Reis (2005), nesta fase:
os programas sociais dedicavam-se a promover ações de desenvolvimento humano e incentivar a participação dos setores envolvidos enquanto, paralelamente, investigavam os aspectos sociais, antropológicos e políticos das comunidades e da região, visando orientar as abordagens que seriam adotadas (REIS, 2005, p. 46).
De acordo com Inoue (2003) essa fase foi até 1996 quando o Plano de Manejo da RDSM foi aprovado. Após esse período a autora caracteriza como a “Fase II” do Projeto Mamirauá, quando inicia o processo de implementação do Plano de Manejo. Esse momento caracterizou-se pelo aumento da importância das atividades de extensão, tendo os recursos da principal agência financiadora direcionados para esse fim, pois nessa fase “[...] seria necessário fortalecer a extensão e o sistema de fiscalização e começar programas de alternativas econômicas para a população local” (INOUE, 2003, p. 247).
Um importante passo nessa fase foi a criação, em 1999, do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM)7 como forma de garantir a continuidade e maior estabilidade aos trabalhos desenvolvidos. A criação do IDSM8 foi resultado do desejo dos membros de Projeto Mamirauá e do maior envolvimento do CNPq por meio do empenho pessoal de José Tundisi, presidente do CNPq entre 1995 e 1998, que “[...] começou a estabelecer as condições para isso e seis meses depois que ele saiu do CNPq, o IDSM foi criado, em 04 de junho de 1999” (INOUE, 2003, p. 250). Segundo a autora, um dos reflexos do estabelecimento do Instituto9 foi o aumento dos recursos repassados pelo componente brasileiro. O Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) ao qual o Instituto está vinculado tem garantido grande parte dos recursos por meio de um contrato de gestão firmado entre estas duas instituições a partir de março de 2001 (IDSM, 2002). Em 2007 esses repasses
7 O IDSM é uma pessoa jurídica de direito privado, legalmente constituída em abril de 1999 e qualificada como Organização Social através de Decreto Presidencial em junho de 1999. Está sediada na cidade de Tefé, no estado do Amazonas. “Tem por finalidade a conservação da biodiversidade com o manejo participativo e sustentável dos recursos naturais da Amazônia” (IDSM, 2007: 11)
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Agradeço imensamente a valiosa contribuição da Diretora Geral do IDSM, Ana Rita Alves, em fornecer alguns esclarecimentos sobre o processo de constituição do IDSM.
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representaram 65,15% dos recursos totais arrecadados pelo Mamirauá (IDSM, 2008).
2.3 “Alternativas econômicas”: entre complementar a renda das famílias e a substituição de atividades econômicas
Para atender aos princípios de conservação da biodiversidade associada ao desenvolvimento social que orientam a categoria de RDS, desde a criação da RDSM e, sobretudo, após a aprovação do plano de manejo em 1996, o Instituto vem desenvolvendo pesquisas que possam subsidiar a implementação de atividades econômicas complementares para as famílias das Reservas Mamirauá e Amanã. De acordo com Reis (2005) e Moura (2007), as pesquisas iniciais priorizaram, entre outros recursos, aqueles importantes do ponto de vista econômico, como algumas espécies de peixe bastante valorizadas (como o pirarucu e o tambaqui) e algumas espécies madeireiras. Tais pesquisas deram suporte às atividades de pesca e manejo florestal, iniciadas por volta do ano 2000.
Para gerir essas atividades foi criado o Núcleo de Apoio à Produção Econômica (NAPE), um dos diferentes núcleos ligados à Coordenação de Extensão do IDSM. Seu objetivo era “introduzir novas práticas de organização da produção e comercialização dos produtos econômicos, com uso sustentado dos recursos naturais, como medida compensatória às normas restritivas estabelecidas no Plano de Manejo” (IDSM, 2002, p. 43). Segundo Ana Rita Alves10
, diretora geral do IDSM, com a criação do Instituto, houve a possibilidade de se constituir diretorias, assim, em maio de 2002 foi criada a Diretoria de Alternativas Econômicas (DAE) para coordenar os vários programas de manejo que vinham sendo implantados, além dos programas de organização política e de qualidade de vida. Em outubro de 2005 a DAE passa a ser Diretoria de Manejo de Recursos Naturais e Desenvolvimento Social (DMDS). Para Ana Rita Alves as alterações na nomenclatura não foram mudanças de visão do Instituto em relação às alternativas econômicas, elas foram ocorrendo para atender à estrutura funcional do IDSM. Foram “[...] adaptações de
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nomes para a diretoria que coordena essas atividades que „manejam os recursos naturais [...], geram lucros e estes são absorvidos pelos habitantes das reservas‟” (Ana Rita Alves, maio de 2010). A alteração para Diretoria de Manejo de Recursos Naturais e Desenvolvimento Social foi proposta por Isabel Sousa – então diretora da DAE e atualmente na direção da DMDS – por achar que assim iria abranger melhor as atividades desenvolvidas nesta área nas duas Reservas.
O processo de implementação de “alternativas econômicas”11 decorre das dificuldades apresentadas pelos moradores da Reserva Mamirauá durante suas Assembléias Gerais12, em cumprir as normas estabelecidas no plano de manejo aprovado em 1996. A implementação do plano de manejo da RDSM resultou em duas medidas: o zoneamento, indicando as zonas de uso e preservação; e as normas de manejo, que orientam as regras de extração das espécies utilizadas. O processo de negociação dessas normas foi realizado nas assembléias gerais, que ocorrem anualmente e todas as comunidades da Reserva se reúnem com representantes de instituições que atuam ou possuem interesse na área para discutir o manejo dos recursos e o sistema representativo.
Entre as dificuldades apresentadas ainda nos primeiros anos, destacaram a falta de “alternativas” de renda que pudessem garantir o sustento da família nos períodos em que devem evitar a realização de uma atividade, como o período de defeso de algumas espécies de peixes, impossibilitando aos pescadores desempenhar sua principal atividade econômica e satisfazer as necessidades de suas famílias. Nos registros da V Assembléia Geral, em 1997, um ano após a aprovação do plano de manejo, novamente, a falta de alternativas de renda foi
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Este termo vem sendo paulatinamente alterado nos relatórios e publicações do IDSM para “atividades complementares” ou “manejo de recursos naturais”, entre outros. Um exemplo foi a mudança na definição de um dos macroprocessos que representam as diferentes vertentes de atuação do IDSM no quadro de indicadores e metas pactuado com o Ministério da Ciência e Tecnologia. Entre 2002 e 2005 o macroprocesso 3 era definido como “Desenvolvimento de Alternativas Econômicas com Uso Sustentado dos Recursos Naturais”. A partir de 2006 a denominação desse macroprocesso mudou para “Desenvolvimento de Programas de Manejo Sustentado de Recursos Naturais” (IDSM, 2003, 2004, 2005, 2006b, 2007).
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Modelo político escolhido e reconhecido pelos comunitários (Cf. REIS, 2005). As assembléias são realizadas anualmente pelos residentes e usuários da RDSM e, posteriormente, foi incentivada a realização na RDSA. Na RDSM, a primeira ocorreu em fevereiro de 1993, em março de 2010 foi realizada a XVII edição do evento. Na RDSA, ocorreram apenas duas desde a criação da Reserva em 1998, a primeira em 2001 e a segunda em 2009.
apontada como uma das razões para o não cumprimento de normas estabelecidas no plano de manejo.
Esse tem sido o desafio desta forma de conservação da natureza que aliou ao componente ambiental à preocupação com o elemento social. Pois, “[...] diversamente das categorias ambientais que são orientadas, mais prioritariamente, para satisfação das necessidades dos grupos locais, como é o caso das reservas extrativistas [...]” (REIS, 2005, p. 49), os comportamentos e práticas permitidos nas novas unidades de desenvolvimento sustentável, não devem ser arbitrários. O uso dos recursos naturais deve ser orientado por planos de manejo fundamentados em pesquisas científicas, como observa esta autora:
Estão sujeitos a uma „administração ecológica‟ [...]. O „governo ecológico‟ [...] é aquele que rege o funcionamento das unidades de conservação baseado nas leis da natureza, e orienta a utilização dos recursos pelos usuários através de um plano de manejo embasado nas pesquisas científicas, que garante a reprodução dos ecossistemas em jogo. Tendo por princípios proteger a natureza e promover a melhoria das condições humanas, estas novas unidades conciliam estes dois objetivos através do manejo sustentável e participativo dos recursos. (REIS, 2005, p. 49-50).
Para atender a esses princípios e, deste modo, minimizar as perdas ocasionadas por restrições no uso dos recursos, desde a criação das Reservas os seus idealizadores têm realizado estudos a fim de conhecer os recursos naturais e possibilitar a inserção de atividades de manejo que garantam a conservação da biodiversidade, ao mesmo tempo em que atendam às necessidades dos moradores. De acordo com Inoue (2003), essas ações devem ser pensadas em uma perspectiva global, “[...] pois trata-se de repartir os custos para conservar a biodiversidade, vista como um valor para a humanidade como um todo” (INOUE, 2003, p. 251).
Assim, ao longo desses anos têm sido propostos vários projetos de pesquisa buscando conhecer os recursos para a implantação de atividades que possam gerar renda para as comunidades locais. Estes têm recebido apoio tanto de instituições nacionais quanto internacionais, proporcionando a implementação de muitas atividades econômicas nas comunidades de Mamirauá e Amanã. De acordo com o último relatório disponível no site do IDSM13, em 2007 o Instituto contava com cinco
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INSTITUTO DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL MAMIRAUA. Relatório Anual do Contrato de Gestão celebrado entre o MCT e o IDSM/OS. Exercício de 2007. Parte I. Tefé/AM, 2008. Disponível em www.mamiraua.org.br Arquivo acessado em 20/02/2009.
programas de manejo de recursos atuando nas duas Reservas: Manejo de Pesca, Manejo Florestal, Agricultura Familiar, Artesanato e Ecoturismo, atendendo, em conjunto, um total de 13 comunidades na Reserva Amanã e 31 na Reserva Mamirauá.
Como forma de ampliar e diversificar as atividades realizadas nessas áreas, outros projetos de pesquisa têm sido desenvolvidos e implementados pelo IDSM nas Reservas mencionadas, visando à criação de outras atividades econômicas a serem realizadas pelas famílias das comunidades locais. Entre eles está o Projeto de Manejo Sustentável de Peixes Ornamentais de Mamirauá e Amanã.
2.4 Projeto de Manejo Sustentável de Peixes Ornamentais de Mamirauá e Amanã: proposta de nova atividade econômica.
O processo de criação e implementação do Projeto de Manejo Sustentável de Peixes Ornamentais de Mamirauá e Amanã14 é resultado de demandas locais, particularmente de comunidades do setor15 Jarauá da Reserva Mamirauá, durante a assembléia geral de 2003. Os moradores argumentavam que no plano de manejo estava estabelecida a proibição da captura de acará-disco16 (Symphysodon
aequifasciatus) (Figura 2) até o ano 2000 e, por essa razão, solicitavam que o
Instituto realizasse pesquisas sobre essa e outras espécies de peixes para averiguar se os estoques já haviam se recuperado.
Nas áreas das comunidades que reivindicavam tais estudos, houve entre o final da década de 1970 e durante toda a década de 1980 uma intensa exploração de algumas espécies de peixes comercializados como ornamentais (MENDONÇA;
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Doravante sempre que mencionar Projeto estarei me referindo ao Projeto de Manejo Sustentável de Peixes Ornamentais de Mamirauá e Amanã.
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Os setores são parte da organização política das comunidades e constituem conjuntos de assentamentos localizados próximos uns dos outros, que usam em comum uma mesma área, por isso tomam decisões conjuntas sobre o manejo dos recursos e sobre questões políticas locais. As formas de organização comunitária nas Reservas Mamirauá e Amanã serão melhor detalhadas nos capítulos três e quatro deste trabalho.
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Espécie de peixe de grande importância no mercado como ornamental, sendo a principal espécie comercializada na região do médio Solimões e uma das selecionadas para compor o plano de manejo de peixes ornamentais da RDSA (Cf. HERCOS; QUEIROZ; ALMEIDA, 2009; SOUZA; MENDONÇA, 2009).
CAMARGO, 2006). Estudos realizados por Crampton (1999) a partir de 1992 mostraram que os acarás estavam presentes em densidades muito menores que a maioria dos ciclídeos nos lagos do Jarauá, onde ocorreu a exploração. O autor acredita que a aparente escassez de indivíduos reprodutores da espécie tenha sido conseqüência da sobrepesca desse período. Além da redução dos estoques, Crampton (1999) acredita que tal fato tenha afetado, igualmente, o comportamento reprodutivo normal da espécie na RDSM. Estes estudos embasaram a construção do plano de manejo da Reserva Mamirauá e recomendaram a proibição da captura da espécie acará-disco até o ano 2000 para permitir a recuperação dos estoques. Estes deveriam ser reavaliados após esse período para que se pudesse decidir se a pesca seria reaberta em pequena escala ou se seria necessário conceder mais tempo para os estoques se recuperarem.
Figura 2: Exemplar de acará-disco (Symphysodon aequifasciatus), uma das espécies mais comercializadas como ornamental na região do médio rio Solimões.
Foto: Henrique Lazzarotto.
Na Reserva Amanã, Mendonça e Camargo (2006) apontaram evidências de também ter existido uma atividade de captura de peixes ornamentais em período bastante curto no final da década de 1990. Esta exploração teria ocorrido em algumas comunidades próximas ao lago Amanã. Segundo os autores, as evidências indicam que nestas áreas houve capturas da espécie acará-disco, embora não tenha
havido o estabelecimento da atividade de pesca ornamental, como ocorreu em Mamirauá e na região de Tefé. Nesta última, a atividade teve início no final da década de 1970 e permanece até os dias atuais, representando importante incremento na renda de muitas famílias (Cf. SOUZA; MENDONÇA, 2009).
Neste sentido, vários fatores contribuíram para se pensar no uso sustentável de espécies de peixes com potencial ornamental para complementar a renda das famílias em Mamirauá e Amanã: o histórico de exploração de algumas espécies na região, inclusive nas Reservas; a solicitação das comunidades em 2003, na X Assembléia Geral de Moradores da RDS Mamirauá; e os resultados dos estudos realizados até então e das experiências conhecidas em outras partes do Amazonas, que demonstravam que a captura em pequena escala de algumas espécies de peixes ornamentais poderia ser alternativa para diminuir a pressão de atividades menos sustentáveis (Cf. CRAMPTON, 1999; MENDONÇA; CAMARGO, 2006).
Diversas pesquisas sobre a biologia dessas espécies já vinham sendo realizadas mesmo antes da solicitação das comunidades. Mas em 2005, uma parceria firmada entre o IDSM e a Zoological Society of London (ZSL) possibilitou a formação do Projeto de Manejo Sustentável de Peixes Ornamentais de Mamirauá e Amanã e permitiu ampliar a abordagem que se desenvolvia até então, mais voltada aos aspectos relacionados à biologia destes recursos. Neste sentido, o projeto foi formado por uma equipe interdisciplinar, objetivando verificar a viabilidade, não apenas ambiental, mas também social e econômica da atividade. Criado a partir da parceria entre IDSM e ZSL, o projeto teve o apoio da Darwin Initiative – DEFRA/UK17 com duração total de três anos, além de recursos obtidos por outras fontes, como MCT, Petrobrás e CNPq.
Os primeiros contatos com as comunidades das áreas onde se pretendia realizar estudos foram realizados ainda em 2005. Para a seleção das comunidades foram considerados os acordos de uso das áreas entre as comunidades. A equipe responsável pelo levantamento da ictiofauna já tinha estudos em andamento em alguns lagos usados por todo o setor Mamirauá na RDSM, em razão disso, a equipe de extensão deveria realizar pesquisas em todas as seis comunidades desse setor. Em Amanã foi mantida a mesma forma de seleção, realizando levantamento
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socioeconômico em todas as comunidades usuárias dos igarapés onde a equipe de biólogos pretendia desenvolver pesquisas, baseadas em estudos anteriores que indicavam áreas potenciais. A partir dessa forma de seleção a equipe de extensão realizou levantamento socioeconômico em 11 de um total de 13 comunidades dessa área da Reserva Amanã. Deste modo, as pesquisas foram realizadas em igarapés e lagos de dois setores nas duas Reservas: o setor Mamirauá na RDSM e o setor Amanã na RDSA (Figura 3).
Figura 3: Mapa da área de estudo do Projeto de Peixes Ornamentais: Setores Mamirauá (na RDSM) e Amanã (na RDSA) destacados em amarelo.
Fonte: Banco de Imagens, IDSM.
Antes, porém, que os estudos fossem iniciados, a equipe do projeto realizou reuniões com todas as comunidades dessas áreas, e estas foram consultadas tanto sobre a possibilidade de realização das pesquisas em suas áreas de uso, quanto sobre o interesse em participar do manejo, caso os resultados dos estudos demonstrassem que a atividade era viável. A consulta às comunidades antes de realização das pesquisas é uma orientação do IDSM e uma prática da maioria dos
projetos desenvolvidos nas duas Reservas18. Com a anuência das lideranças e moradores é possível realizar os trabalhos. No setor Amanã, na RDSA, onde o projeto realizou grande parte das pesquisas, além das reuniões informando os objetivos do estudo, as comunidades exigem que uma cópia do projeto seja deixada na comunidade.
As informações dos levantamentos biológicos, econômicos e sociais realizados pelo projeto permitiram a tomada de decisão pela implantação do manejo de peixes ornamentais na área pesquisada da Reserva Amanã. A prioridade dada à Reserva Amanã para iniciar o manejo deveu-se, principalmente, ao fato de haver maior concentração de espécies de peixes com potencial ornamental nessas áreas. Mas a intenção do projeto é que brevemente a atividade seja estendida para Mamirauá (HERCOS; QUEIROZ; ALMEIDA, 2009).
Para maior clareza sobre a escolha dessa área, é importante esclarecer como foram selecionadas pelo projeto as espécies de peixes consideradas com potencial ornamental. A seleção contou com três fontes de dados: abundância local, valor de mercado e situação no marco legal. O objetivo foi aliar as três fontes de informação em uma única análise. As espécies selecionadas deveriam apresentar alta abundância nas áreas potenciais de captura (informações levantadas pelos estudos ictiológicos); alcançar valores de mercado atraentes o suficiente para serem