INVENTÁRIO E PARTILHA
O “inventário e partilha” deve ser compreendido como o procedimento especial destinado a identificar os bens deixados pelo falecido, verificar sua exatidão, inclusive na perspectiva de herdeiros preteridos ou de bens que devam ser trazidos à colação, quantificar seu valor, apurar e providenciar o recolhimento do tributo incidente pela transferência de bens em virtude da morte, pagar seus credores e partilhá-los (no sentido de dividi-los) entre os herdeiros e legatários.
É o que, nas diversas Seções do Capítulo VI do Título III do Livro I da Parte Especial, é disciplinado sob as rubricas “disposições gerais”, “legitimidade para requerer o
inventário”, “inventariante” e “primeiras declarações”, “citações e impugnações”,
“avaliação e cálculo do imposto”, “colações”, “pagamento das dívidas”, “partilha”, além das “disposições comuns às seções precedentes”.
É célebre a discussão sobre a natureza contenciosa ou de jurisdição voluntária do inventário e da partilha e, consequentemente, sobre sua alocação entre os procedimentos especiais de jurisdição contenciosa, que foi preservada pelo CPC de 2015.
A questão é tanto mais coerente diante do art. 612, do § 3º do art. 627, do § 2º do art. 628, do § 2º do art. 641 e do caput do art. 643, segundo o qual as questões de direito que
dependam de prova que não a documental não serão resolvidas no âmbito do inventário, mas pelas “vias ordinárias”, isto é, de acordo com o procedimento comum
ou, se for o caso, por intermédio de algum procedimento especial.
Os dispositivos limitam expressamente a cognição judicial passível de ser exercida ao longo do inventário.
O desenvolvimento destas “vias ordinárias” não interfere no andamento do próprio inventário, sendo certo que diversos dispositivos (arts. 627, § 3º; 628, § 2º; 641, § 2º; e 643, parágrafo único) impõem ao magistrado a prática de determinados atos que, em última análise, visam ao asseguramento do resultado útil do que vier a ser decidido naquelas sedes.
Estas medidas, rotuladas genericamente, pelo art. 668, de “tutela provisória” perdem sua eficácia quando o interessado não tomar as providências que lhe couber no prazo de trinta dias contados da data em que o impugnante, o herdeiro excluído ou o credor não
admitido foi intimado da decisão ou, ainda, quando o magistrado extinguir o processo de inventário com ou sem resolução de mérito.
Há também interessante (e nova) previsão a respeito do assunto no parágrafo único do art. 647.
De acordo com o dispositivo, pode o magistrado deferir, fundamentadamente, a
qualquer dos herdeiros o exercício antecipado dos direitos de usar e de fruir de determinado bem, com a condição de que, ao término do inventário, tal bem integre a cota desse herdeiro, cabendo a este, desde o deferimento, todos os ônus e bônus
decorrentes do exercício daqueles direitos. Trata-se de verdadeira hipótese de tutela
antecipada em relação à sentença de partilha.
O CPC de 2015 preservou a possibilidade de o inventário e a partilha realizarem-se por
escritura pública – que constituirá documento hábil para qualquer ato de registro e para
levantamento de importância depositada em instituições financeiras – quando todos os interessados forem capazes e estiverem concordes (art. 610, § 1º).
Nesse caso, todos devem estar representados por advogados ou, se for esse o caso, por membro da Defensoria Pública (art. 610, § 2º).
Também é viável que a partilha seja feita por acordo de vontades, desde que entre partes capazes, no que é expresso o art. 659.
O caput do art. 610 estabelece a necessidade de o inventário e a partilha realizarem-se judicialmente quando houver testamento ou interessado incapaz.
O pedido de processamento do inventário deve ser apresentado até dois meses após a abertura da sucessão, isto é, do falecimento, cabendo ao magistrado, de ofício ou a requerimento, ampliar o prazo de doze meses que o art. 611 concede para conclusão dos trabalhos.
Além daquele que estiver na posse e na administração do espólio, isto é, o conjunto de bens do falecido (art. 615, caput), têm também legitimidade para requerer o inventário e, por isso, concorrente, para o pedido:
(i)
o cônjuge ou companheiro supérstite;
(ii)
o herdeiro;
(iii) o legatário;
(iv) o testamenteiro;
(v)
o cessionário do herdeiro ou do legatário;
(vi) o credor do herdeiro, do legatário ou do autor da herança;
(vii) o Ministério Público, havendo herdeiros incapazes;
(viii) a Fazenda Pública, quando tiver interesse; e
(ix) o administrador judicial da falência do herdeiro, do legatário, do
autor da herança ou do cônjuge ou companheiro supérstite (art.
616, parágrafo único).
A petição inicial deve ser acompanhada com a certidão de óbito do “autor da herança”, isto é, daquele cujos bens, em virtude de sua morte, deverão ser inventariados e partilhados (art. 615, parágrafo único).
As regras de competência são as do art. 48:
Art. 48. O foro de domicílio do autor da herança, no Brasil, é o competente para o inventário, a partilha, a
arrecadação, o cumprimento de disposições de última vontade, a impugnação ou anulação de partilha
extrajudicial e para todas as ações em que o espólio for réu, ainda que o óbito tenha ocorrido no estrangeiro.
Parágrafo único. Se o autor da herança não possuía domicílio certo, é competente:
I - o foro de situação dos bens imóveis;
II - havendo bens imóveis em foros diferentes, qualquer destes;
III - não havendo bens imóveis, o foro do local de qualquer dos bens do espólio.
Recebendo a petição inicial, o magistrado nomeará o inventariante, isto é, quem administrará o espólio, representando-o ativa e passivamente em juízo e fora dele (art. 618, I e II), valendo-se da ordem de pessoas indicadas nos incisos do caput do art. 617.
Art. 617. O juiz nomeará inventariante na seguinte ordem:
I - o cônjuge ou companheiro sobrevivente, desde que estivesse convivendo com o outro ao tempo da morte deste;
II - o herdeiro que se achar na posse e na administração do espólio, se não houver cônjuge ou companheiro sobrevivente ou se estes não puderem ser nomeados;
III - qualquer herdeiro, quando nenhum deles estiver na posse e na administração do espólio;
IV - o herdeiro menor, por seu representante legal; V - o testamenteiro, se lhe tiver sido confiada a administração do espólio ou se toda a herança estiver distribuída em legados;
VI - o cessionário do herdeiro ou do legatário; VII - o inventariante judicial, se houver;
VIII - pessoa estranha idônea, quando não houver inventariante judicial.
Parágrafo único. O inventariante, intimado da nomeação, prestará, dentro de 5 (cinco) dias, o
compromisso de bem e fielmente desempenhar a função.
Intimado da nomeação, o inventariante prestará compromisso de bem e fielmente desempenhar a função no prazo de cinco dias (art. 617, parágrafo único). Enquanto não for nomeado o inventariante e, mesmo após, enquanto não prestar o compromisso, o
espólio continua na posse do administrador provisório (art. 613), observando-se o disposto no art. 614.
Art. 614. O administrador provisório representa ativa e passivamente o espólio, é obrigado a trazer ao acervo os frutos que desde a abertura da sucessão percebeu, tem direito ao reembolso das despesas necessárias e úteis que fez e responde pelo dano a que, por dolo ou culpa, der causa.
Dentre as diversas incumbências do inventariante previstas nos arts. 618 e 619, destaco a apresentação das “primeiras declarações”, isto é, todas as informações relevantes ao falecido e dos bens, direitos e dívidas que deixou, observando-se as exigências dos incisos do caput do art. 620. Terá o prazo de vinte dias a contar de sua nomeação para tanto. As primeiras declarações darão ensejo a termo circunstanciado, ou – o que é mais comum – serão fornecidas por petição assinada por procurador com poderes específicos (art. 620, § 2º).
Art. 620. Dentro de 20 (vinte) dias contados da data em que prestou o compromisso, o inventariante fará as primeiras declarações, das quais se lavrará termo circunstanciado, assinado pelo juiz, pelo escrivão e pelo inventariante, no qual serão exarados:
I - o nome, o estado, a idade e o domicílio do autor da herança, o dia e o lugar em que faleceu e se deixou testamento;
II - o nome, o estado, a idade, o endereço eletrônico e a residência dos herdeiros e, havendo cônjuge ou companheiro supérstite, além dos respectivos dados pessoais, o regime de bens do casamento ou da união estável;
III - a qualidade dos herdeiros e o grau de parentesco com o inventariado;
IV - a relação completa e individualizada de todos os bens do espólio, inclusive aqueles que devem ser
conferidos à colação, e dos bens alheios que nele forem encontrados, descrevendo-se:
a) os imóveis, com as suas especificações,
nomeadamente local em que se encontram, extensão da área, limites, confrontações, benfeitorias, origem dos títulos, números das matrículas e ônus que os gravam;
b) os móveis, com os sinais característicos;
c) os semoventes, seu número, suas espécies, suas marcas e seus sinais distintivos;
d) o dinheiro, as joias, os objetos de ouro e prata e as pedras preciosas, declarando-se-lhes
especificadamente a qualidade, o peso e a importância; e) os títulos da dívida pública, bem como as ações, as quotas e os títulos de sociedade, mencionando-se-lhes o número, o valor e a data;
f) as dívidas ativas e passivas, indicando-se-lhes as datas, os títulos, a origem da obrigação e os nomes dos credores e dos devedores;
g) direitos e ações;
h) o valor corrente de cada um dos bens do espólio. § 1o O juiz determinará que se proceda:
I - ao balanço do estabelecimento, se o autor da herança era empresário individual;
II - à apuração de haveres, se o autor da herança era sócio de sociedade que não anônima.
§ 2o As declarações podem ser prestadas mediante
petição, firmada por procurador com poderes especiais, à qual o termo se reportará.
Se o inventariante não prestar, no prazo, as primeiras (e as últimas) declarações, não der ao inventário regular andamento, der motivo a perecimento de bens, além das outras hipóteses previstas no art. 622, ele pode ser removido, de ofício ou a requerimento dos interessados.
O incidente de remoção correrá em apartado, sendo intimado o inventariante para se manifestar a respeito no prazo de quinze dias (art. 623), seguindo-se a decisão do magistrado. Se a remoção for determinada, outro inventariante será nomeado com observância da ordem do art. 617 (art. 624), cabendo ao antigo entregar imediatamente a seu substituto os bens do espólio, sob pena de busca e apreensão ou imissão na posse, sem prejuízo da multa a ser fixada pelo magistrado em valor não superior a três por cento do valor dos bens inventariados (art. 625). A decisão é agravável de instrumento, o que encontra fundamento no parágrafo único do art. 1.015.
Apresentadas as primeiras declarações, será determinada, pelo magistrado, com
fundamento no caput do art. 626, a citação do cônjuge (ou companheiro), dos herdeiros e os legatários, além da intimação da Fazenda Pública, do Ministério Público (se houver herdeiro incapaz ou ausente), e do testamenteiro (se houver testamento).
Todos poderão se manifestar sobre as primeiras declarações e sobre a nomeação do inventariante, tendo o prazo de quinze dias para tanto (art. 627, caput). Acolhidas eventuais impugnações, as primeiras declarações serão ratificadas (art. 627, § 1º); se acolhida impugnação do inventariante, outro será nomeado, sempre de acordo com a ordem do art. 617 (art. 627, § 2º).
Art. 627. Concluídas as citações, abrir-se-á vista às partes, em cartório e pelo prazo comum de 15 (quinze) dias, para que se manifestem sobre as primeiras declarações, incumbindo às partes:
II - reclamar contra a nomeação de inventariante
III - contestar a qualidade de quem foi incluído no título de herdeiro.
§ 1o Julgando procedente a impugnação referida no inciso
I, o juiz mandará retificar as primeiras declarações. § 2o Se acolher o pedido de que trata o inciso II, o juiz
nomeará outro inventariante, observada a preferência legal.
§ 3o Verificando que a disputa sobre a qualidade de
herdeiro a que alude o inciso III demanda produção de provas que não a documental, o juiz remeterá a parte às vias ordinárias e sobrestará, até o julgamento da ação, a entrega do quinhão que na partilha couber ao herdeiro admitido.
Havendo necessidade de produzir provas que não as documentais para comprovar a qualidade de herdeiro, as partes serão remetidas, “vias ordinárias”, impedindo, até sua ulterior decisão, a entrega do quinhão que na partilha couber a ele (art. 627, § 3º). Idêntica regra aplica-se ao caso de herdeiro preterido, isto é, não incluído nas primeiras declarações (art. 628).
Art. 628. Aquele que se julgar preterido poderá demandar sua admissão no inventário, requerendo-a antes da
partilha.
§ 1o Ouvidas as partes no prazo de 15 (quinze) dias, o juiz
decidirá.
§ 2o Se para solução da questão for necessária a
produção de provas que não a documental, o juiz remeterá o requerente às vias ordinárias, mandando reservar, em poder do inventariante, o quinhão do herdeiro excluído até que se decida o litígio.
Findos e resolvidos eventuais questionamentos sobre as primeiras declarações, serão avaliados os bens do espólio, sendo nomeado perito para tanto (art. 630), que observará o disposto nos arts. 872 e 873 (art. 631).
Se a Fazenda Pública concordar com o valor indicado nas primeiras declarações e todos os interessados forem capazes, a avaliação é dispensada (art. 633). Reciprocamente, havendo concordância, pelos herdeiros, dos valores indicados pela Fazenda, a avaliação restringir-se-á aos demais bens. Do laudo de avaliação as partes terão o prazo de quinze dias para se manifestarem (art. 635).
Superados eventuais questionamentos, o magistrado determinará a lavratura do termo
das últimas declarações (art. 636), seguindo-se o cálculo do tributo devido, sobre o qual
as partes serão previamente ouvidas, decidindo o magistrado (art. 637).
Art. 636. Aceito o laudo ou resolvidas as impugnações suscitadas a seu respeito, lavrar-se-á em seguida o termo de últimas declarações, no qual o inventariante poderá emendar, aditar ou completar as primeiras.
Art. 637. Ouvidas as partes sobre as últimas declarações no prazo comum de 15 (quinze) dias, proceder-se-á ao cálculo do tributo.
Nas “colações” está disciplinado o dever de o herdeiro informar no inventário bens que eventualmente tenha recebido durante a vida do falecido ou, consoante o caso, seus respectivos valores (art. 639).
Art. 639. No prazo estabelecido no art. 627 (15 dias), o herdeiro obrigado à colação conferirá por termo nos autos ou por petição à qual o termo se reportará os bens que recebeu ou, se já não os possuir, trar-lhes-á o valor. Parágrafo único. Os bens a serem conferidos na partilha, assim como as acessões e as benfeitorias que o
donatário fez, calcular-se-ão pelo valor que tiverem ao tempo da abertura da sucessão.
A iniciativa tem como finalidade igualar as legítimas de cada herdeiro nos termos dos arts. 2.002 a 2.012 do CC. Eventuais questionamentos serão resolvidos no próprio inventário, salvo se exigirem produção de prova que não a documental. Neste caso, caberá aos interessados discutirem por outras vias, sendo vedada a atribuição do quinhão hereditário àquele obrigado à colação, a não ser que apresente caução do valor correspondente à diferença (art. 641, § 2º).
Antes da partilha dos bens inventariados, os credores do espólio poderão pleitear a cobrança de dívidas vencidas e exigíveis, apresentando, para tanto, petições devidamente
instruídas a serem distribuídas por dependência ao juízo do inventário (art. 642, caput e § 1º).
Art. 642. Antes da partilha, poderão os credores do espólio requerer ao juízo do inventário o pagamento das dívidas vencidas e exigíveis.
§ 1o A petição, acompanhada de prova literal da
dívida, será distribuída por dependência e autuada em apenso aos autos do processo de inventário.
§ 2o Concordando as partes com o pedido, o juiz,
ao declarar habilitado o credor, mandará que se faça a separação de dinheiro ou, em sua falta, de bens
suficientes para o pagamento.
§ 3o Separados os bens, tantos quantos forem
necessários para o pagamento dos credores habilitados, o juiz mandará aliená-los, observando-se as disposições deste Código relativas à expropriação.
§ 4o Se o credor requerer que, em vez de dinheiro,
lhe sejam adjudicados, para o seu pagamento, os bens já reservados, o juiz deferir-lhe-á o pedido, concordando todas as partes.
§ 5o Os donatários serão chamados a pronunciar-se
sobre a aprovação das dívidas, sempre que haja possibilidade de resultar delas a redução das liberalidades.
Art. 643. Não havendo concordância de todas as partes sobre o pedido de pagamento feito pelo credor, será o pedido remetido às vias ordinárias.
Havendo concordância de todas as partes com o pedido – inclusive legatários (art.
645), serão reservados ou alienados os bens suficientes para pagamento das dívidas (art. 642, §§ 2º a 5º).
Caso contrário, a solução do pedido deverá ser processada mediante o procedimento comum, determinando, o magistrado, a reserva de bens bastantes para o pagamento da dívida quando comprovada documentalmente (art. 643). A mesma regra aplica-se
aos casos de dívidas ainda não vencidas (art. 644).
Reservados bens suficientes para pagamento das dívidas, a serem alienados consoante as regras da expropriação de bens (arts. 876 a 903), cabe às partes formularem pedido de quinhão do bens restantes para fins de partilha. O magistrado proferirá decisão (agravável de instrumento) na qual deliberará a respeito daqueles pedidos e designará os bens que
devam constituir quinhão de cada herdeiro e legatário (art. 647, caput). Nada há que impeça, que as partes, desde que capazes, celebrem, por acordo de vontades, a partilha, hipótese em que deve ser observado o disposto no art. 659.
Não havendo acordo, será organizado o chamado “esboço de partilha” a partir da referida decisão judicial e das regras dos arts. 648 a 651, sobre o qual as partes se manifestarão
no prazo comum de quinze dias (art. 652).
Resolvidos eventuais questionamentos, será efetivada a partilha que, após o recolhimento do tributo e apresentada certidão negativa (ou equivalente) de tributos, será julgada por sentença (art. 654, caput).
Após o trânsito em julgado, os herdeiros receberão os bens que lhe couberem e um formal de partilha que pode, consoante o caso, ser substituído por certidão de pagamento do quinhão hereditário (art. 655).
Mesmo após o trânsito em julgado da partilha, ela pode ser emendada nos mesmos autos do inventário quando tenha havido erro de fato na descrição dos bens, podendo o juiz, de ofício ou a requerimento da parte, a qualquer tempo, corrigir-lhe as inexatidões materiais. É bastante, para tanto, que todas as partes estejam de acordo (art. 656).
De acordo com o art. 669, também é possível que seja necessária a realização de
sobrepartilha de bens quando:
(i) tiverem sido sonegados; (ii) descobertos após a partilha;
(iii) forem litigiosos, assim como os de liquidação difícil ou morosa; e (iv) situados em lugar remoto da sede do juízo onde se processa o inventário.
O procedimento a ser observado é o mesmo do inventário e da partilha, tramitando nos autos do primeiro inventário (art. 670).
Eventual partilha amigável, lavrada em instrumento público, reduzida a termo nos autos do inventário ou constante de escrito particular homologado pelo juiz (art. 659), pode ser
anulada, no prazo de um ano, por dolo, coação, erro essencial ou intervenção de incapaz, nos termos do § 4º do art. 966:
Art. 966. A decisão de mérito, transitada em julgado, pode ser rescindida quando:
I - se verificar que foi proferida por força de prevaricação, concussão ou corrupção do juiz;
II - for proferida por juiz impedido ou por juízo absolutamente incompetente;
III - resultar de dolo ou coação da parte vencedora em detrimento da parte vencida ou, ainda, de simulação ou colusão entre as partes, a fim de fraudar a lei;
IV - ofender a coisa julgada;
VI - for fundada em prova cuja falsidade tenha sido apurada em processo criminal ou venha a ser demonstrada na própria ação rescisória;
VII - obtiver o autor, posteriormente ao trânsito em julgado, prova nova cuja existência ignorava ou de que não pôde fazer uso, capaz, por si só, de lhe assegurar pronunciamento favorável;
VIII - for fundada em erro de fato verificável do exame dos autos.
§ 1o Há erro de fato quando a decisão rescindenda admitir
fato inexistente ou quando considerar inexistente fato efetivamente ocorrido, sendo indispensável, em ambos os casos, que o fato não represente ponto controvertido sobre o qual o juiz deveria ter se pronunciado.
....
§ 3o A ação rescisória pode ter por objeto apenas 1 (um)
capítulo da decisão.
§ 4o Os atos de disposição de direitos, praticados pelas
partes ou por outros participantes do processo e homologados pelo juízo, bem como os atos
homologatórios praticados no curso da execução, estão sujeitos à anulação, nos termos da lei.
ARROLAMENTO PELO RITO SUMÁRIO
Verdadeira alternativa ao procedimento ao inventário é o arrolamento, adjetivado pelo art. 660, de sumário, no qual, desde a petição inicial, todos os herdeiros manifestar-se-ão de comum acordo sobre a nomeação do inventariante, sobre os títulos de herdeiros e os bens do espólio e sobre seu valor para fins de partilha (art. 660).
Quando o valor dos bens deixados for igual ou inferior a 1.000 salários mínimos, o inventário será processado como arrolamento, cujo procedimento, extremamente concentrado, é o do art. 664 e que se caracteriza pela viabilidade de todos os questionamentos serem resolvidos em uma audiência especialmente designada para tanto. Este procedimento também será observado, mesmo quando houver incapaz, mas todas as partes e o Ministério Público estiverem concordes.
RESUMO - Ação de Inventário
CABIMENTO
Embora a sucessão ocorra de forma automática (ipso iure), havendo imediata transmissão do patrimônio para os herdeiros, com escopo de regularizar formalmente esta transmissão, a lei exige que os interessados providenciem a instalação do processo de inventario no prazo de 2 (dois) meses (art. 611, CPC), contados da data do falecimento do autor da herança (abertura da sucessão),
onde os bens serão arrolados e, posteriormente, partilhados entre os herdeiros, após o pagamento dos credores (art. 1.997, CC).
Segundo os arts. 615 e 616 do CPC, tem legitimidade concorrente para requerer o inventário: I – quem estiver na posse e administração do espólio;
II – o cônjuge ou companheiro supérstite; III – o herdeiro;
IV – o legatário; V – o testamenteiro;
VI – o cessionário do herdeiro ou do legatário;
VII – o credor do herdeiro, do legatário ou do autor da herança; VIII – o Ministério Público, havendo herdeiros incapazes; IX – a Fazenda Pública, quando tiver interesse;
X – o administrador judicial da falência do herdeiro, do legatário, o autor da herança ou do cônjuge ou companheiro supérstite.
Se todos os interessados forem capazes e concordes, o inventário e a partilha devem ser feitos na forma de “arrolamento”, que pode ser judicial, conforme procedimento previsto nos arts. 659 a 667 do CPC, ou extrajudicial, por meio de escritura pública (art. 610, § 1º, CPC).
Mesmo havendo interessados incapazes, o inventário processar-se-á na forma de “arrolamento”, quando o valor dos bens do espólio for igual ou inferior a 1.000 (mil) salários mínimos, desde que concordem todas as partes e o Ministério Público (arts. 664 e 665, CPC).
BASE LEGAL
A sucessão está disciplinada nos arts. 1.784 a 2.027 do Código Civil; já a ação de inventário encontra disciplina nos arts. 610 a 673 do Código de Processo Civil.
PROCEDIMENTO
O procedimento especial dessa ação encontra-se previsto nos arts. 610 a 673 do CPC, podendo ser assim resumido:
I - petição inicial (arts. 319 e 320, CPC):
a) o requerente deve informar o óbito, instruindo o pedido com a certidão de óbito do autor da herança; deve, ainda, informar sobre a existência ou não de testamento;
b) formados os autos, esses vão conclusos para o Juiz, que poderá: (1) determinar que o autor emende a inicial no prazo de 15 (quinze) dias (art. 321, CPC); (2) recebê-la, nomeando inventariante (art. 617, CPC), sob compromisso.
II - primeiras declarações (art. 620, CPC):
a) cabe ao inventariante apresentar as primeiras declarações no prazo de 20 (vinte) dias, contados da data em que prestou o compromisso;
b) nela, ele deve apresentar a qualificação completa do falecido e dos herdeiros e seus cônjuges; a relação completa e individualizada de todos os bens do espólio (imóveis, móveis, dinheiro, joias, títulos, dinheiro etc.), assim como o seu valor corrente; a relação completa das dívidas, ativas e passivas, indicando as datas, a origem e o nome dos credores e dos devedores.
III - citação (arts. 626 a 629, CPC):
IV - manifestação dos herdeiros e da Fazenda Pública (arts. 627 a 629, CPC):
a) concluídas as citações, o juiz deve abrir prazo comum de 15 (quinze) dias para que os herdeiros, interessados e Fazenda Pública se manifestem sobre as primeiras declarações;
b) os interessados podem:
(1) arguir erros, omissões e sonegação de bens; (2) reclamar contra a nomeação de inventariante;
(3) contestar a qualidade de quem foi incluído no título de herdeiro;
c) havendo impugnação, o juiz, após oitiva dos demais interessados, decidirá; se houver necessidade de provas que não a documental, o juiz remeterá a parte às vias ordinárias, sobrestando o feito; d) a Fazenda Pública informará o juízo, de acordo com os dados que constam de seu cadastro imobiliário, o valor dos bens de raiz descritos nas primeiras declarações.
V - da avaliação (arts. 630 a 635, CPC):
a) após o decurso do prazo para oferecimento de impugnações, o juiz nomeará perito para avaliar os bens do espólio;
b) apresentado os laudos, o juiz mandará que as partes se manifestem no prazo comum de 15 (quinze) dias;
c) se todas as partes forem capazes, não se procederá à avaliação se a Fazenda Pública concordar de forma expressa com o valor atribuído aos bens nas primeiras declarações.
VI - das últimas declarações e do cálculo do imposto (arts. 636 a 638, CPC):
a) aceito o laudo de avaliação ou resolvidas as impugnações suscitadas, o juiz determinará que seja lavrado o termo das “últimas declarações”, no qual o inventariante poderá emendar, editar ou completar as primeiras;
b) lavradas as “últimas declarações”, o juiz abrirá prazo para que os interessados se manifestem no prazo comum de 15(quinze) dias;
c) não havendo impugnações ou resolvidas as impugnações, proceder-se-á ao cálculo do tributo, sobre o qual novamente as partes serão ouvidas, assim como a Fazenda Pública.
VII - do pagamento de dívidas (arts. 642 a 646, CPC):
- antes da partilha, os credores do espólio poderão requerer ao juízo o pagamento das dívidas vencidas e exigíveis.
VIII - da partilha (arts. 647 a 657, CPC):
a) pagos os credores habilitados, ou separados bens bastantes para o pagamento, o juiz concederá o prazo comum de 15 (quinze) dias para que os interessados formulem o pedido de quinhão;
b) decorrido o referido prazo, o juiz proferirá decisão deliberando sobre a partilha, resolvendo os pedidos das partes e designando os bens que devam constituir quinhão de cada herdeiro e legatário;
c) enviados os autos ao partidor, este organizará o esboço da partilha de acordo com a decisão judicial;
d) elaborado esboço da partilha, as partes serão intimadas a se manifestar; não havendo impugnações ou resolvidas as que houverem a partilha final, será lançada nos autos.
IX - do pagamento do imposto e da sentença de partilha (arts. 654 a 658, CPC):
Obs.: quitado o imposto de transmissão causa mortis, juntada nos autos certidão ou informação negativa de dívida para com a Fazenda Pública, o juiz julgará por sentença a partilha, expedindo-se o competente formal de partilha.
FORO COMPETENTE
O foro competente para a ação de inventário é, de regra, o último domicílio do autor da herança (art. 48, CPC).
QUESTÕES A SEREM RESPONDIDAS PELO INVENTARIANTE
quando e onde foi o óbito?qual era o domicílio do de cujus? quem e quantos são os herdeiros?
qual é a qualificação e o endereço dos herdeiros? quais os bens deixados pelo de cujus?
quem está na posse dos bens? qual é a situação de cada bem? qual é o valor de cada bem?
qual é a proposta de partilha dos bens? qual é a razão, quando houver, da discórdia?
DOCUMENTOS
O inventariante deverá ser orientado a fornecer ao Advogado cópia dos seguintes documentos, entre outros:
-certidão de óbito, certidão de casamento ou nascimento, RG e CPF do falecido;
-havendo cônjuge ou companheiro sobrevivente, seus documentos pessoais (RG e CPF); comprovante de residência;
-certidão de casamento ou nascimento, RG e CPF dos herdeiros e de seus cônjuges; -escritura ou compromisso de compra e venda dos imóveis;
-certidão de propriedade;
-IPTU atual e do ano do óbito, quando distintos;
-documentos de eventuais veículos (com escopo de avaliar o bem, é importante juntar tabela do Jornal do Carro ou FIPE);
-extrato de conta bancária, poupança ou comprovante de aplicações, quando for o caso; -certidão negativa de débitos fiscais das Fazendas Municipal, Estadual e Federal;
-relação completa dos credores e devedores do falecido, assim como discriminação do valor dos créditos e débitos.
A Fazenda cobra imposto sobre a transmissão de bens e direitos que ocorre em razão do falecimento do titular do domínio. Tratando-se de imposto estadual, sua incidência, base de cálculo, forma de recolhimento e porcentagem variam de Estado para Estado.
VALOR DA CAUSA
Na ação de inventário, o valor da causa será equivalente à soma do valor atribuído aos bens deixados pelo de cujus, sejam móveis ou sejam imóveis.
DESPESAS
- o inventariante, antes de ajuizar a ação, deve proceder ao recolhimento das custas processuais, que, de regra, envolvem a taxa judiciária, o valor devido pela juntada do mandato judicial e as despesas com diligências do Oficial de Justiça (quando houver necessidade de citar herdeiros).
Os valores dessas custas variam de Estado para Estado.
Citação e intimação via postal
Vide tabelas seguintes: (*) (**) Guia FED TJ Código 120-1 Comunicado SPI nº 55/2008, Provimento CSM nº 2.462/2017 Mandato judicial (Desde 1º/2/2018) R$ 22,1676 por mandante, assim considerado o casal Guia DAR E* Código 304-9
Lei Estadual nº 10.394/1970 alterada pela Lei nº 216/1974, art. 48
Lei nº 16.665/2018
2% sobre o MENOR salário – mínimo vigente na capital do Estado
QUESTÃO FINAL: Diferencie arrolamento sumário art. 660 NCPC do Arrolamento Comum art. 664 NCPC.
Art. 660. Na petição de inventário, que se processará na forma de arrolamento sumário, independentemente da lavratura de termos de qualquer espécie, os herdeiros:
I - requererão ao juiz a nomeação do inventariante que designarem; II - declararão os títulos dos herdeiros e os bens do espólio, observado o disposto no art. 630;
III - atribuirão valor aos bens do espólio, para fins de partilha.
Art. 664. Quando o valor dos bens do espólio for igual ou inferior a 1.000 (mil) salários-mínimos, o inventário processar-se-á na forma de arrolamento, cabendo ao inventariante nomeado, independentemente de assinatura de termo de compromisso, apresentar, com suas declarações, a atribuição de valor aos bens do espólio e o plano da partilha.
Inventários, arrolamentos, separação judicial ou consensual, divórcio e outras ações em que haja partilha Monte-mor até R$ 50.000,00: 10 UFESPs ou R$ 257,00 De R$ 50.001,00 até R$ 500.000,00: 100 UFESPs ou R$ 2.570,00 De R$ 500.001,00 até R$ 2.000.000,00: 300 UFESPs ou R$ 7.710,00 De R$ 2.000.001,00 até R$ 5.000.000,00: 1.000 UFESPs ou R$ 25.700,00 Acima de R$ 5.000.000,00: 3.000 UFESPs ou R$ 77.100,00 Guia DARE* Código 230-6 Art. 4º, § 7º
As custas deverão ser recolhidas antes da adjudicação ou da homologação da partilha, tendo por base de cálculo o valor total dos bens que integram o monte-mor.