Departamento de História
Receção e perceção da Revolução Russa na crise do sistema
demoliberal português – uma análise de imprensa
Marcos Nunes de Vilhena
Tese submetida como requisito parcial para obtenção do grau de
Doutor em História Moderna e Contemporânea
Orientador:
Prof. Doutor António Costa Pinto, Professor Associado Convidado,
Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa – Instituto Universitário de Lisboa
Departamento de História
Receção e perceção da Revolução Russa na crise do sistema
demoliberal português – uma análise de imprensa
Marcos Nunes de Vilhena
Tese submetida como requisito parcial para obtenção do grau de
Doutor em História Moderna e Contemporânea
Júri de Prova
Doutor António Pedro Ginestal Tavares de Almeida, Professor Catedrático da Faculdade de
Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa
Doutor Sérgio Carneiro de Campos Matos, Professor Associado com Agregação da Faculdade
de Letras da Universidade de Lisboa
Doutor Luís Nuno Faria Valdez Rodrigues, Professor Associado com Agregação do Instituto
Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa – Instituto Universitário de Lisboa
Doutora Maria Alexandre Lopes Campanha Lousada, Professora Auxiliar da Faculdade de
Letras da Universidade de Lisboa
Doutor Paulo Jorge Fernandes, Professor Auxiliar da Faculdade de Ciências Sociais e
Humanas da Universidade Nova de Lisboa
Doutor António Jorge Pais Costa Pinto, Professor Associado Convidado do Instituto Superior
de Ciências do Trabalho e da Empresa – Instituto Universitário de Lisboa
A
Francisca Bicho
, que me ensinou a pensar pela minha cabeça. AoTito
, para que nunca deixe de pensar pela sua. Em memória dePerfeito de Carvalho
,Gambetta Neves
e
Alexandre Vieira
.AGRADECIMENTOS
Esta tese é tributária do apoio e amizade de diversas pessoas, que se impõe mencionar. Um reconhecimento prévio e especial, endereço-o ao meu orientador, Professor António Costa Pinto (ISCTE-IUL, ICS-UL), cuja consciência da minha formação de base não se traduziu nunca em desconsideração pelo tema que me propunha a tratar e pela forma como o fiz. Mas alongo-o igualmente aos Professores Robert Rowland e Ângela Miranda Cardoso, que alimentaram a ideia deste doutoramento e acompanharam a elaboração do projeto de tese.
Menção especial merecem também a Fundação para a Ciência e Tecnologia, pela bolsa de investigação que me concedeu (2006-2010) e pelo sempre exemplar cumprimento das suas funções, e todo o pessoal das bibliotecas e arquivos em que trabalhei, nomeadamente da Biblioteca Nacional de Portugal, Hemeroteca Municipal de Lisboa e Torre do Tombo, não me surpreendendo encontrar, até no estrangeiro, quem fale da sua imensa disponibilidade, competência e simpatia. Semelhantes qualidades, aliás, encontrei em Lara Carregã, então secretária do Departamento de História do ISCTE, e em Ilda Ferreira, funcionária dos Serviços Académicos, aqui referidas com toda a gratidão, pois que sempre e oportunamente agilizaram a minha má relação com os processos burocráticos.
Evoco encarecidamente os Professores José Joaquim Dias Marques, Petar Petrov, Isabel Sabido, José Eduardo Horta Correia, Adriana Nogueira e Ângela Miranda Cardoso, pela competência e exigência por que se fizeram e mostraram diferentes e melhores do que os demais. No entanto, não gostaria de deixar passar esta oportunidade sem agradecer a Francisca Bicho, Mulher e Professora extraordinária, que me fez dependente de História sem mais cura do que o vício, e cuja inteligência, competência e trabalho não terão nunca reconhecimento suficiente.
Aos meus alunos, por todos os lados por onde tenho passado, e com quem, a cada aula, me faço mais pessoa e professor, agradeço a amizade e a paciência.
Aos amigos – Catarina Pereira, Eugénio Anacleto, Lúcia d’Almeida, Ricardo Alves, Agnieszka Daniluk, Pedro Pinto, Ana Jordão, Maria João Neutel, Rita Lopes, Luís Ricardo, Pedro Francisco, Hugo Torres, Xavier Farré, Letícia Fauri, Sam Cyrous, Marta Swiątek, Nádia Rego, Magda Bryła, Justyna Pelc, Tomasz Bułat, a extraordinária Karolina Kornek, os clãs Alves e Toscano, e a toda a família (Jakubowski, Páscoa, Rosa, Pinto, Caliço e Vilhena Bonito) – agradeço a paciência e amor com que me continuam a aguentar... e com que vos aguento.
Ao mano Gonçalo, agradeço o não me aguentar de todo e assim me mostrar o valor das nossas diferenças; ao mano António, o mostrar-me que tudo vem na altura certa; ao meu pai, o ter sido sempre diferente; e à minha mãe, agradeço o sê-lo, como dizia o Sena, “sem mais remédio que trazê-lo n'alma.”.
Pagarei com a companhia de todos os dias a Maria Jakubowska, pelo tempo e paciência e energia que esta tese nos tirou – não tanta, enfim, que não acabe por dedicá-la ao nosso pequenino Faust e a todos os que o sigam – espero que muitos!
SUMÁRIO
A presente tese é uma análise da articulação de movimentos políticos e sociais, e também das representações, ideários e efeitos gerados em torno de um fenómeno único – a Revolução Bolchevique. Atenta à evolução da situação europeia, mas atendo-se especificamente a Portugal, descreve e analisa a receção e perceção deste processo revolucionário ao nível da imprensa portuguesa da época e dos grupos aí representados, num período que vai do golpe constitucionalista russo de março de 1917 até ao 28 de Maio de 1926, procurando determinar como atuam sobre a crise do sistema demoliberal, condicionando (ou não) o advento da ordem ditatorial. Não a ocupando demandar ou provar um simples impacto, que uma tal associação e lapso de análise supõem já, move-a uma abordagem convergente e simultânea da imprensa portuguesa da época e da I República sob o fenómeno informativo gerado em torno do processo revolucionário. Nesta opção pela imprensa coeva, reconhece-se a sua representatividade como meio de comunicação de massas por que perpassa, da origem aos conteúdos, a atividade e ideário de quase todas as posições e interesses a considerar, mas também uma vontade de a reconsagrar como fonte, na sua dupla condição de registo e partícipe da História.
Palavras-chave: Revolução Russa, receção, perceção, imprensa, crise, I República Portuguesa
SUMMARY
The present thesis analyses the connection between political and social movements, coupled with representations, ideals and results generated around one single phenomenon - the Bolshevik revolution. Focusing on European developments, but particularly on Portugal, it describes and considers the reception and perception of this revolutionary process from the perspective of the contemporaneous Portuguese press and groups represented within, in the period starting in the constitutionalist Russian coup in March 1917 until the 28th of May 1926. It also tries to determine how
they act upon the crisis of the demo-liberal system, and the possible conditioning of the upcoming dictatorship. The intent is not to assert or prove a simple impact, that the mention and period of analysis already supposes, but to approach the existing Portuguese press and First Republic in a converging and simultaneous manner, under the informational phenomenon around the Russian revolutionary process. This choice for the coeval press acknowledges not only its representativeness as means of mass communication by which the activity and ideals of almost all positions and interests under consideration pervades, from origin to essence, but also a will to re-consecrate it as a source in its dual condition of record and participant in history.
ÍNDICE
AGRADECIMENTOS SUMÁRIO – SUMMARY
INTRODUÇÃO ... 1
CAPÍTULO I – O IMPACTO DA REVOLUÇÃO RUSSA NALGUMA BIBLIOGRAFIA ESPECIALIZADA ... 13
1. Apresentação e revisão bibliográfica ... 15
1.1 Bibliografia Estrangeira ... 17
1.1.1 Obras de carácter geral ... 17
1.1.2 Obras sobre o impacto da Revolução Russa ... 19
1.1.3 Memórias e relatos em primeira mão ... 30
1.2 Bibliografia Nacional ... 35
1.2.1 Alguns estudos portugueses ... 35
1.2.2 Outras fontes portuguesas ... 80
CAPÍTULO II – ALGUNS CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DAS RELAÇÕES ENTRE PORTUGAL E RÚSSIA E PARA A ANÁLISE DA IMPRENSA ... 105
1. Portugal, Rússia e União Soviética ... 107
1.1 Comparando Portugal e Rússia – contributos para uma visão estrutural e para uma contextualização da Revolução Russa ... 107
1.2 Relações Diplomáticas entre Portugal e Rússia ... 129
2. A imprensa portuguesa na I República ... 135
2.1 Uma imprensa em mudança ... 135
2.1.1 Novos géneros jornalísticos ... 136
2.1.2 Transformações morfológicas ... 137
2.1.3 Transformações tecnológicas ... 139
2.2 Ganhos e gastos da imprensa ... 140
2.2.1 Preço de venda dos jornais ... 140
2.2.2 Preço do papel ... 141
2.2.3 Profissionais de imprensa ... 143
2.2.4 Agências noticiosas ... 147
2.3 Distribuição, tiragens e leitores ante o problema do analfabetismo e das mentalidades ... 148
2.4 A intervenção do Estado e o marco legal da imprensa ... 151
2.5 Imprensa e opinião pública ... 153
2.6 Imprensa e grupos de interesse ... 154
III CAPÍTULO – A REVOLUÇÃO RUSSA NA IMPRENSA PORTUGUESA ... 157
1. RECEÇÃO – A representação da Revolução Russa na imprensa portuguesa ... 159
1.1 A Rússia entre Revoluções – o ano de 1917 ... 159
1.1.1 A Revolução de Fevereiro ... 159
1.1.2 O crescimento bolchevique – poder dual e crise política ... 165
1.1.3 A Revolução de Outubro ... 176
1.2.1 Do desaire da guerra à traição das negociações da paz separada ... 190
1.2.2 Vermelhos, Brancos, e todos os outros – a Guerra Civil e a intervenção estrangeira ... 198
1.2.3 O Comunismo de Guerra ... 220
1.2.4 O Terror Vermelho ... 228
1.2.5 Velhos czares, novos czares ... 239
1.3 O Comunismo em crise – 1921-1924 ... 244
1.3.1 O reconhecimento diplomático ... 244
1.3.2 Nova Política Económica – a face visível da adaptação, desvios e evolução ... 253
1.3.3 A morte de Lenine, as lutas de liderança e o futuro da revolução ... 262
1.4 Da internacionalização da Revolução à perspetiva de uma nova grande guerra –1924- ... 271
1.4.1 A ameaça vermelha e a defesa da civilização ocidental ... 271
1.4.2 Outras faces da ameaça e do poder – algumas questões sociais, culturais e religiosas ... 280
- A educação, a ciência e as artes sob o domínio soviético ... 280
- A questão religiosa ... 288
- A situação da mulher ... 296
2. PERCEÇÃO – A perceção do impacto da Revolução Russa na imprensa portuguesa ... 303
2.1 Revoluções em tempo de Guerra: 1917-1918 ... 303
2.1.1 Quando a revolução foi boa – ainda a Revolução de Fevereiro ... 303
2.1.2 A Revolução de Outubro e o princípio da incerteza ... 307
2.1.3 Entre o medo e o oportunismo – as contradições da República Nova… e da velha ... 312
2.2 A Revolução na Rússia. Nem modelo, nem mito: 1919-1921 ... 320
2.2.1 Do desconhecimento do marxismo à exemplaridade do bolchevismo ... 320
2.2.2 Violência e repressão na configuração de uma ameaça que há de vir ... 328
2.2.3 A Revolução Russa na nova imprensa operária e na reorganização do movimento social português ... 341
2.3 O sentimento de ameaça internacional: 1921-1924 ... 351
2.3.1 Portugal na rota do internacionalismo vermelho ... 351
2.3.2 O fascismo e o riverismo na agregação das forças conservadoras e na prevenção do comunismo ... 359
2.3.3 Entre Internacionais: a Revolução no refluxo do movimento operário nacional ... 369
2.4 Ante a falência do demo-liberalismo: 1924- ... 382
2.4.1 A bolchevização do quotidiano ante a falência do demo-liberalismo ... 382
2.4.2 A ideia da ameaça na internacionalização da Revolução e na perda do Império ... 396
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 405 FONTES ... 419 1. Fontes primárias ... 419 2. Fontes secundárias ... 419 3. Fontes digitais ... 437 BIBLIOGRAFIA ... 439 ANEXO – Quadro de imprensa portuguesa
Ora porra! Então a imprensa portuguesa é que é a imprensa portuguesa? Então é esta merda que temos que beber com os olhos? Filhos da puta! Não, que nem há puta que os parisse.
Álvaro de Campos, num bilhete de Pessoa oferecido por A. Botto a Alberto de Serpa.
Em dezasseis anos desse regime houve 52 governos, nove Chefes de Estado, sete parlamentos. Legalmente, a Imprensa era livre, mas os jornais eram apreendidos, as oficinas desmanteladas, empastelado o tipo, presos os jornalistas. Somos um povo sentimental, emotivo, crédulo. É possível em semanas criar estados de espírito – e alguns jornais o fizeram – de onde surdiram revoluções, pronunciamentos, golpes de Estado. Desordem na rua e nos espíritos, e ao mesmo tempo na administração.
António de Oliveira Salazar (1967), entrevista a Le Figaro, 2 e 3 de setembro de 1958, Discursos, Coimbra, Coimbra Editora, vol. VI, pág.47.
We know nothing more, and nobody knows nothing more about open political activity. Here you have a paradox – it seems to be a paradox, but in reality it is a direct and natural product of all the conditions of Russian life – that through the above-mentioned series of the most widespread bourgeois papers, the masses were informed more accurately, swiftly and directly about “underground” political activities, decisions, slogans, tactics, etc., than about the non-existent decisions of “the leaders of the open movement”!
Lenine ([1912] 1974), “Put your cards on the table”, em Lenin Collected Works, Moscow, Progress Publishers, vol. 17, pág. 516.
INTRODUÇÃO
Nas análises especificamente consagradas ao impacto internacional da Revolução Russa é comum convir que se os acontecimentos de fevereiro e a formação do Governo Provisório mereceram a simpatia das nações aliadas, aqueles ditos de outubro só puderam granjear a sua desconfiança, quer nas singularidades que arrolavam, quer na própria diferenciação face àquela primeira fase revolucionária que os precedera. Largamente desconhecidos ou desconsiderados pelo extraordinário empenho com que o Governo Provisório e corpo diplomático aliado1 procuravam encobrir a dimensão da agitação social2, não só em Petrogrado, como por toda a Europa3, os bolcheviques começam por
dever quase todo o protagonismo à celebração da paz separada e à rejeição da dívida russa para com as potências aliadas – fatores que concorrem, como o Terror e Grande Fome, na condenação e isolamento do seu regime e subsequente intervenção estrangeira na guerra civil, enquanto um maior interesse pelo seu postulado ideológico espera pela sua resistência no poder e pela internacionalização da revolução.
Já em Portugal, são poucos os estudos consagrados à Revolução Russa, menos ainda aqueles atentos ao seu impacto – não sendo claras, portanto, todas as razões são suspeitas. Ainda em 1976 e “a pretexto de alguns livros recentes” de Jorge Campinos, Manuel de Lucena, Fernando de Medeiros, João Quintela, António Viana Martins e Carlos da Fonseca4, Manuel Villaverde Cabral publicava, na Análise Social, um “ensaio de interpretação” “[…] sobre a natureza fascista ou não do regime saído do
28 de Maio.”5. Dois anos volvidos sobre a revolução democrática e recenseando uma nova geração de
historiadores, que, na sua maioria, se formava ou parava ainda pelo estrangeiro, tal artigo era um estado de arte tão atento quanto atual, pelas interpretações e propostas a que se prestava, “do fascismo e o seu advento em Portugal”6. Trinta anos mais tarde e para esta tese, contudo, deve quase toda a sua
importância ao facto de avaliar semelhantemente as obras em que a tónica recai nos grupos que preparam a ditadura7 e aquelas que a radicam na incapacidade do movimento operário para se
1 A 23 de março de 1917, por exemplo, João Chagas, chefe da legação diplomática portuguesa em Paris, remetia
ao Ministério do Negócios Estrangeiros um telegrama em que se lia: “Ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia fez seguinte declaração: De futuro todos os boatos de paz separada devem ser considerados falsos pois seria antinacional que livre Rússia negociasse com Alemanha reacionária” (cit. in Silva:1984:69).
2 Se nem o anarquista Kropotkine ou os partidos socialistas europeus se haviam coibido de justificar a guerra,
não devia surpreender que também uma boa parte do operariado, preterindo a razão internacionalista às insofismáveis razões nacionais, o fizesse.
3 Faz-se aqui referência aos motins dos soldados russos no verão de 1917 no campo militar de La Courtine, em
França, reprimidos a canhão;; e das inúmeras insurreições grevistas daquele ano, como as de Leipzig (abril), Leeds (maio e junho) e Turim (outubro).
4 Campinos, 1975; Lucena, 1976; Medeiros, 1976; Quintela, 1976; Martins, 1976; Fonseca, 1976. 5 Cabral, 1976a: 874.
6 Expressão utilizada pelo próprio Villaverde Cabral. 7 Campinos, 1975; Lucena, 1976.
substituir ao liberalismo burguês com alternativas de poder reais8, enquanto paralelamente se assume que o advento do fascismo em Portugal, “[…] suas condições e natureza, institucionalização e durabilidade […]”, se impõem como “[…] um programa de trabalho óbvio […]”9.
O que Cabral talvez não esperasse é que se viesse a constituir como o programa de trabalho mais óbvio em detrimento da história do movimento social português, de que, avinda no temor às polarizações políticas da época ou na ideia de um “[...] apodrecimento da ofensiva operária e a correlativa instalação do movimento organizado [...] num seguidismo sem perspetivas [...]”10, uma boa
parte dos investigadores acabaria por fugir11, ao arrepio de uns ventos que começavam também a
soprar lá de fora. Não bastando, a história do movimento operário português acusara sempre, como nenhuma outra, as arbitrariedades dos distintos regimes – com razão escrevia Manuel Joaquim de Sousa na carta-relatório remetida à AIT, em 193112: “Não quisemos nem podíamos fazer a história. Do
passado não existem artigos e do presente pouco poderá existir [...] com perseguições e as apreensões policiais muito se tem extraviado também.”13. Depois, aqueles a que caberia, por via da própria
extração social14 ou da experiência profissional ou sindical, escrever a história do movimento operário, negligenciavam já e continuariam a negligenciar a análise do seu papel no advento da ditadura. Em resultado disto, Pacheco Pereira15 queixava-se, já em 1981, que “Não abundam em Portugal trabalhos de índole bibliográfica e neste setor da história social nem sequer existem. [...] passando-se à margem de textos importantes que permanecem desconhecidos.”, o que justificava com o facto de ninguém
8 Medeiros, 1976; Quintela, 1976 9 Cabral, 1976a: 873.
10 Cabral, 1976a: 878
11 Não poderá deixar de ser sintomático que ao atualizar, uma vez mais, a bibliografia da investigação sobre o
fascismo português, António Costa Pinto faça justamente reportar a Villaverde Cabral e a Lucena as primeiras interpretações produzidas em Portugal, a que associa a ideia de que as interpretações sobre o salazarismo se foram tornando cada vez menos politicamente orientadas (1992b:47) – facto que não só confirma o seu conhecimento das outras obras publicadas no mesmo período, e a que aparentemente não confere importância, como confirma a mudança historiográfica aludida.
12 Carta apresentada no “Introito” de O Sindicalismo em Portugal (1973), do mesmo autor.
13 Igual ideia é dada por Bento Gonçalves na “Nota Preambular” à 1ª edição, clandestina, de Palavras
Necessárias: “Esta tarefa começa contrariada pela fundamental dificuldade da falta de documentos escritos e baseia-se toda em elementos de memória, provindos de leituras esparsas sobre alguns acontecimentos mais salientes e do conhecimento direto que tivemos de algumas fases e lutas do movimento operário no país.
14 Não será de somenos importância que o próprio Carlos Fonseca afirmasse ter banido conceitos ideológicos
como consciência de classe (1976, vol.IV:13) da sua obra, quando já antes escrevera que esta “[...] materializa uma ideia fixa a que não foi estranha a [sua] origem social.” (1976, vol.I:18)!
15 Pacheco Pereira referia-se especificamente à história do movimento operário, mas a inferência aplica-se sem
peias ao processo revolucionário russo. Este tipo de obras a que Pacheco Pereira alude acabaria por fazer moda na passagem da década de 70 para a de 80. No entanto, a despeito de algum trabalho notável de compilação bibliográfica, a verdade é que, por razões que se explicam na I Parte deste trabalho, são ainda inúmeras as faltas e o acesso às obras de referências é, por vezes, tão ou mais difícil que o acesso às fontes. Ressalve-se, contudo, que Pacheco Pereira mantém, na internet, uma das mais amplas e completas compilações bibliográficas sobre comunismo, anarquismo e a história do PCP.
estar “[…] para se aborrecer, perdendo o seu tempo com tarefas deste tipo em vez de fazer investigações de maior fôlego e prestígio.”16.
Em face desta tese, o artigo de Cabral quase nada mais acrescenta, mas tem-se prestado a explicar uma notável falta de referências ao movimento social português e, por lógico acréscimo, à Revolução Russa, que nele tanto influi, até no âmbito de um fenómeno de que chegam a ser justificação e contraponto político. Avaliando os problemas e perspetivas de interpretação em que o Estado Novo tem lançado os investigadores nacionais e estrangeiros, a voltas com as filiações e nomes que há de ter, esperar-se-ia que também o hipotético desnorte anarquista e comunista do movimento social, que a República reprimiu, o exemplo russo contaminou, e a que o 28 de Maio sobreveio, pudesse ter feito escola – mas não fez. Sem adiantar o que caberá ao estado de arte, seria injusto dizer que tais referências se resumem à ideia do terror burguês ante a ameaça comunista ou à invocação das disputas ideológicas no meio sindical como forma de justificar ou desculpabilizar a sua incapacidade para travar os avanços das “direitas”, encontradas, respetivamente, nos estudos do “advento do fascismo” e nos do movimento operário. Não se anda longe, contudo, e o mais, e mais interessante, são algumas análises pessoais, memórias e relatos em primeira mão, que parecem subsistir até aos anos sessenta como produto ou alternativa aos consabidos condicionamentos.
É assim, portanto, que esta tese procura agora descrever e analisar a receção e perceção17 da
Revolução Russa ao nível da imprensa portuguesa da época e dos grupos e interesses que esta representa, num período que vai desde as primeiras referências ao golpe constitucionalista russo de fevereiro de 1917 até ao golpe militar de 28 de maio de 1926, procurando determinar como atuam sobre a crise do sistema demoliberal da I República Portuguesa e o advento da ordem ditatorial. Não a ocupando demandar ou provar o simples impacto, que tal associação e lapso de análise devem supor já, move-a chegar, pela origem e teor das representações, à perceção que dele se vai tendo ao nível da imprensa e à forma como influencia e condiciona a ação e relações dos grupos aí representados. Move-a t Move-ambém Move-a Move-abord Move-agem convergente e simultâne Move-a d Move-a Revolução Russ Move-a, d Move-a I Repúblic Move-a e d Move-a imprens Move-a portuguesa de época. Move-a, finalmente, suprir uma lacuna da historiografia portuguesa.
Vertidos para esta tese, tais objetivos são não só limitados a um período de dez anos, como à utilização da imprensa de época como fonte das representações a estudar. À primeira opção assiste tão só o confinamento temporal entre o início da Revolução Russa e o que se avalia serem as suas consequências em Portugal, sem sacrifício de uma análise suficientemente ampla e fundamentada. Embora sejam três, pelo menos, as revoluções que a Rússia conhece nas primeiras duas décadas do século XX, o que aqui se entende por Revolução Russa é o processo de ascenso, tomada e controlo do poder pelos bolcheviques, que se inicia com a Revolução de Fevereiro (março) e a abdicação de
16 Pereira, 1981a: 989.
17 Designa-se aqui por receção o processamento noticioso da Revolução Russa, bem como os fatores e
fenómenos que sobre ele atuam;; já por perceção, entende-se o conjunto de atitudes decorrentes da compreensão desse processamento informativo.
Nicolau II18 – assim se lhe refere a sobeja maioria dos especialistas, sem maior comprometimento de sentido ou limite, e assim se lhe refere também esta tese, que, rejeitando fazê-lo reduto ou responsabilidade de um grupo19, di-lo mais facilmente russo, folgado termo, do que reduzido a um mês
ou a um dos seus episódios20. A análise, portanto, coincidirá com o que vulgarmente se toma pelo
início do processo revolucionário, mas não com o fim, que um grande número de autores afina em 1921, com o fim da Guerra Civil e o lançamento da Nova Política Económica, mas que esta tese encontra nas Grandes Purgas estalinistas de 1937-38, não só porque mais e melhor se vê em pleno processo revolucionário21 do que num arrepio ainda mais indefinido deste, mas também porque, como
bem escreve Sheila Fitzpatrick, “(...) Russian society remained highly volatile and unstable during the NEP period, and the party's mood remained aggressive and revolutionary.”22.
Já na opção pela imprensa portuguesa de época, reconhece-se a sua representatividade como meio de comunicação de massas por que perpassa, da origem ao conteúdo informativo, a atividade e ideário de quase todas as posições e interesses a considerar, mas também a vontade de a reconsagrar como fonte23, na sua dupla condição de registo e partícipe da História. Em Portugal, de facto, a imprensa como fonte histórica parece esperar ainda alguns desenvolvimentos, sendo tarefa árdua encontrar, no âmbito da investigação em história ou mesmo em ciências da comunicação, obras que reflitam ou referenciem um marco comum para a sua utilização ou que exclusivamente se lhe atenham, conquanto sirva a não poucas. Conforme a entende esta tese, e porque tão bem a serve, pode e deve ter um papel determinante num país com tão larga história de censura e tão curta produção livreira.
Em primeiro lugar, constitui uma ótima fonte documental, não só por fixar o conhecimento
18 As causas da Revolução radicam na história da Rússia e não cabe a este trabalho descortiná-las ou discuti-las,
posto que o fazem já, e melhor, autores como E.H. Carr, Marc Ferro ou Sheila Fitzpatrick;; tão pouco lhe cabe verberar sobre a natureza desse mesmo processo, a que Barrington Moore Jr., Jeffrey Paige, Crane Brinton ou Theda Skocpol, entre tantos outros, deram também um enorme contributo.
19 Impõe-se lembrar que a força política que, a 7 de novembro, avança para o poder, se chama ainda Partido
Operário Social-Democrata da Rússia, que não terá outro nome até março do ano seguinte, e que o seu programa é ainda aquele que as fações menchevique e bolchevique acertaram no congresso de 1903.
20 Outubro, afinal, só na Rússia;; no entanto, os contemporâneos russos, e entre eles Lenine, referiam-se-lhe como
“Golpe de Outubro”, “Levantamento de 25”, “Revolução de Novembro”, “Revolução Bolchevique”, “Golpe Bolchevique”, ou simplesmente “Outubro”;; no seu X aniversário, dá-se mesmo a consagração oficial de “Grande Revolução Socialista de Outubro”: Великая Октябрьская Социалистическая Революция, Velikaya Oktyabr'skaya sotsialisticheskaya revolyutsiya.
21 Referindo-se ainda às diferentes fases do processo, Fitzpatrick escreve: “The different stages – the February
and October revolutions of 1917, the Civil War, the interlude of NEP, Stalin's 'revolution from above'), its 'Thermidorian' aftermath, and the Great Purges – are treated as discrete episodes in a twenty-year process of revolution.” (1994:4)
22 Fitzpatrick, 1994: 3. Lê-se ainda: “The Bolsheviks feared counterrevolution, remained preoccupied with the
threat from 'class enemies' at home and abroad, and constantly expressed their dissatisfaction with NEP and unwillingness to accept it as final outcome of the Revolution.” (ibidem)
23 Torres Ramirez escreve que “[…] el término ‘fuente’ tomado en sentido amplio puede nombrarse cualquier
sobre um suporte material, como por representar um acervo coevo e imediato da ação humana, por proceder ao registo corrente dos factos sociais, culturais e políticos mais relevantes24, mas também dos
mecanismos inerentes à sua apreensão e representação, de uma linguagem e de um discurso25. Depois,
distingue-se pela clareza, simplicidade e imediatismo no seu processo de criação, sem deixar de veicular uma opinião, posto que inerente à seleção e transmissão de uma notícia, há sempre uma manipulação do conhecimento a apreender pelo público leitor, numa recriação do real: a leitura aproxima o leitor do seu quotidiano e daquele do autor, numa “[...] interação verbal entre os indivíduos [que] é o processo de natureza social, não individual, vinculado às condições de comunicação que, por sua vez, vinculam-se às estruturas sociais – o social determinando a leitura e constituindo seu significado.”26. Permite ainda rastrear biografias e a atividade dos jornalistas, políticos, intelectuais e
os jornais da sua colaboração, permitindo aceder ao seu discurso e interesses. É um efetivo meio de socialização, capaz de criar e refletir uma consciência nacional e uma opinião pública, difundindo ideias e argumentos que expressam os interesses de uma classe ou grupo dominantes e articulando-se com os demais aspetos da vida social e simulando uma participação abstrata dos cidadãos. Ao mesmo tempo, é um agente de mudança social, acusando, por isso mesmo, a necessidade de uma permanente adaptação ao contexto27. Finalmente, e como averba António Nóvoa, “[…] permite apreender discursos que articulam práticas e teorias, que se situam no nível macro do sistema, mas, também no plano micro da experiência concreta, que exprimem desejos de futuro ao mesmo tempo que denunciam situações do presente.”28. Porém, e conforme Gramsci propusera já29, esta tese entende que
a imprensa não fala pela opinião pública, mas apenas por si e pelos interesses que representa.
Limitadas que possam parecer e revistos que foram os mais diversos postulados historiográficos e teóricos sobre a imprensa, tais opções determinam e condicionam a metodologia a seguir nesta tese. Impõem, em primeiro lugar, que se proceda à identificação de uma imprensa com
que pueda usarse como testimonio para acceder al conocimiento.” (2002: 317).
24 Nóvoa (2002: 31), tratando da imprensa como fonte para os estudos da história da educação, afirma que “As
suas páginas revelam, quase sempre a ‘quente’, as questões essenciais que atravessaram o campo educativo numa determinada época. A escrita jornalística não foi ainda, muitas vezes, depurada das imperfeições do quotidiano e permite, por isso mesmo, leituras que outras fontes não autorizam.”
25 Linguagem, na definição de Fiorin (1990: 52), é aqui entendida como “componente da comunicação que tem
como finalidade última não apenas informar, mas persuadir o interlocutor a aceitar o que está sendo comunicado”;; já o discurso (idem: 31) é uma “unidade do plano de conteúdo;; é o nível do percurso gerativo de sentido, em que formas narrativas abstratas são revestidas por elementos concretos. Quando um discurso é manifestado por um plano de expressão qualquer, temos um texto”.
26 Soares, 2002: 18.
27 Como explica Teun Van Dijk (2000:32): “En el estudio del discurso como acción e interacción, el contexto es
crucial. [...] El discurso se produce, comprende y analiza en relación con las características del contexto. Por lo tanto, se interpreta que el análisis social del discurso define el texto y el habla como situados: describe el discurso como algo que ocurre o se realiza “en” una situación social.”
28 Nóvoa, 2002: 11. 29 Gramsci, 1978: 65.
uma relação descritiva e participativa com as formas de organização, relações de poder, discursos, conflitos, e evolução ideológica dos movimentos, classes e grupos sociais, e que não só permita reconstituir um determinado contexto histórico, conforme propõem autores como Foucault, Maingueneau ou Teun van Dijk30, como um quadro de estudos amplo e representativo. Em todo este
processo, contudo, importará ter em conta que a atividade da imprensa não depende mais de um facto do que de qualquer outro, importando que uma tal identificação não se subordine à necessidade de chegar à receção e perceção da Revolução Russa, subvertendo aquela que pode ser a dimensão do fenómeno em face de outros e da sua própria representação – ou seja, que o processo revolucionário russo seja representado em função dos demais acontecimentos nacionais e estrangeiros e vice-versa, sem que isso se traduza numa demanda de tipos específicos de imprensa.
Impõem, depois, que se proceda à seleção de uma amostra. Critérios como disponibilidade31 e
formato, tiragem e difusão, tipo e filiação do jornal e sua duração e local de edição, formulados sob a leitura de literatura especializada e do contacto com a imprensa de época e já previamente ensaiados, apontaram à necessidade de organização e racionalização do tempo e da informação, à crença de que uma maior dimensão e impacto de um jornal se traduzem num maior interesse no seu arquivamento e conservação, e ao ensejo de transpor para a análise o relevo e a proporção dos mais distintos tipos de publicações, valorizando as que, pela maior duração coincidente com o lapso em estudo, melhor se prestam à análise da receção e do impacto e das suas eventuais tendências ou alterações. No entanto, ainda que tenham permitido seriar uma representativa amostra de três dezenas de publicações entre as quatro centenas conhecidas no período em estudo, não só excluíram alguns títulos semanais ou quinzenais com a importância da Bandeira Vermelha ou do ABC, ou ainda outros, como o Diário de
Lisboa ou O Norte, de publicação intermitente ou apenas parcial dentro do lapso de análise;; como
acabaram não só por ceder primazia aos jornais que, pela sua associação às cúpulas do poder político e económico, parecem conhecer uma maior regularidade e estabilidade, como por assumir para as distinções entre imprensa generalista e ideológica e entre imprensa burguesa e operária, diferenças de representação e perceção, que nem dependem tanto da filiação de um jornal, como do contexto e condições de receção.
Longe da inutilidade que se lhe pode supor, tal seriação foi apenas rematada pelo derradeiro critério de deixar falar as fontes e compreender como estas se convocam para o palco da confrontação ou da adulação ao sabor dos acontecimentos, parando apenas ante a perceção da redundância da consulta de algumas outras. Daqui derivam, portanto, as quarenta e cinco publicações que servirão definitivamente a esta tese, cuja análise se faz em ponto próprio e cujos dados32 se apresentam em
30 Vide Foucault (2005), van Dijk (2000) e Maingueneau (1993). Este último diz, do discurso jornalístico, que é o
resultado da sua posição sócio-histórica, e, portanto, estribado pelo contexto de criação (1993: 14).
31 Em Portugal, recorde-se, o depósito legal é estabelecido em 1923, e o depósito legal de publicações impressas
só passa a ser obrigatório a partir de 1931.
anexo – é que será pertinente ler, com a qualidade e estampa de um DN, sobre os “Acontecimentos em Petrogrado”, mas sê-lo-á também compreender como, ao repto de “Proletários de todo o mundo...”, o mal estampado Avante! de 1919 alarma a burguesia. Muito naturalmente, um tal número explica-se na ideia de que aumentando os títulos, aumentam os limites da caracterização, da análise e da qualidade deste estudo;; mas explica-se também pelo facto de nunca se publicar num mesmo momento a totalidade destes títulos e de não serem tantos ou tão certos os dados conhecidos ou disponíveis para a imprensa da época. Depois, conquanto sejam órgãos de referência ou baseiem ou mimetizem, em muitos casos, a informação de outros jornais, nem mesmo uma tão ampla amostra pode dar conta da profusão de outros jornais, diários ou não, urbanos, regionais, insulares ou mesmo coloniais, nem daquela vinculada a atitudes de classe específicas, quer entre o patronato, quer entre o operariado.
Superada esta fase, impõe-se ainda proceder a uma seleção dos artigos, à sua leitura e análise das fórmulas e mecanismos de elaboração das representações, avaliando em que medida tendem, ou não, para uma produção de discursos mais ou menos tipificados;; finalmente, que se avalie o impacto e fixação dessas tipificações no sentido de uma associação ou dissociação a possíveis disputas ideológicas, em função de aspetos como a sua origem, o seu conteúdo, a sua relação com as características do suporte e com o contexto da sua produção. Pretende-se, pois, chegar não apenas ao tipo de mecanismo de receção e elaboração de uma ou várias tipologias de representações, mas também ao teor das relações que se estabelecem entre distintos grupos e interesses e os órgãos de imprensa que lhes são contrários ou favoráveis, determinando se agem individualmente ou por reação, quer ao nível organizativo, quer ao nível dos ideários entre movimentos que defendam ou se oponham ao modelo demoliberal. Pretende-se também, para além das contribuições tidas por certas pela maioria dos investigadores, como a difusão do marxismo e de um modelo de partido único, compreender se outras houve, mais ou menos relevantes, ou se atuou mormente como um catalisador sobre condições previamente existentes ou então introduzidas.
Tudo isto se socorre, entretanto, de uma análise da construção discursiva33, de conteúdo e da
comparação contrastiva entre as fontes de imprensa e entre estas e outras obras, sem as quais o modelo não estaria, entretanto, completo. À primeira cabe apenas atentar na forma como os discursos são criados à luz do contexto histórico em que se integram. A análise de conteúdo permite, para além do que no texto tem um carácter meramente informativo, descortinar e compreender o que é subjetivo e veiculado a fim de influir sobre o público leitor. A comparação contrastiva, por seu lado, permite confrontar os conteúdos das diversas fontes de imprensa entre si e com o de outras pertinentes, mas também os temas e linhas de investigação a desenvolver aqui com os de outros investigadores.
Explanados que foram, assim, os problemas, objetivos e metodologia desta tese, restará,
contacto direto com as fontes, mas sempre devedor do esforço de Matos e Lemos (2006).
33 Construção discursiva, como a define Foucault, é a capacidade de reconhecer: “[…] semelhantes sistemas de
porventura, fazer uma curta referência à sua organização e estilo. No que respeita à organização, importará dizer que o corpo da tese se divide em três partes – esta é a estrutura que consagra não só a importância que a imprensa e a sua análise têm para esta tese, mas também a ideia de um diálogo histórico entre a Rússia e Portugal. Assim, na primeira, faz-se uma revisão crítica da bibliografia historiográfica estrangeira e nacional, bem como de algumas outras obras nacionais de que esta tese é largamente tributária. Na segunda parte, consagrada a algumas generalidades, procede-se a uma caracterização da imprensa portuguesa de época, a uma comparação entre Portugal e Rússia e ainda a uma reconstituição das relações entre os dois países. Já à terceira, finalmente, cabe uma análise paralela da receção e da perceção do impacto da Revolução Russa na imprensa portuguesa, a que assiste a necessidade quer de distinguir entre a profusa uniformidade informativa e aquelas que são as atitudes específicas assumidas dentro de cada jornal, quer de amortecer, na abordagem de um fenómeno concreto, o impacto que uma receção decorrente de fortes condicionamentos informativos poderia ter sobre a ideia da perceção, quer ainda de trazer à análise da receção a contextualização internacional de que carece para ter a ordem e o sentido de que a análise da perceção beneficiará já numa relação concreta com o contexto nacional. Diz-se paralela, porque mesmo enformando subpartes distintas, Receção e Perceção encerram um semelhante número de capítulos e pontos, temática e cronologicamente correlacionados. Uma tal organização reconhece e realça a existência de uma periodização intrínseca a dois fenómenos – o processo revolucionário russo e a crise do sistema demoliberal português – e dentro da qual estes podem estruturados e analisados, isolada ou conjuntamente, sem confusão ou assimilação de nenhum, e determinando quais foram as interferências de todos os acontecimentos: no primeiro período, compreendido entre 1917 e 1918, focam-se os derradeiros anos da guerra e os seus efeitos tanto na desestabilização política europeia, como no condicionamento da representação da Revolução Russa;; no segundo, entre 1919 e 1921, procede-se a uma abordagem da Guerra Civil russa e da defesa do processo revolucionário à luz do desenvolvimento do movimento social português e do surgimento de uma nova imprensa operária;; no terceiro, entre 1921 e 1924, atenta-se na aplicação da NEP, na questão do reconhecimento diplomático da URSS e na internacionalização da ameaça comunista em face da cisão operária, da pulverização das forças demoliberais e do impacto do fascismo e do riverismo na agregação das forças conservadoras;; no derradeiro, de 1924 em diante, analisa-se a chegada de Estaline ao poder, a internacionalização da ideia da ameaça comunista e o aprofundamento da crise política em Portugal e o advento da ditadura.
Nota diversa, mas ainda assim afim a estoutras de caráter teórico-metodológico, é a que cabe ao estilo. Neste ponto, esta tese procura, na já sugerida correlação entre receção e perceção, dar conta do processo revolucionário russo e da crise do sistema demoliberal português de forma simultânea e cronológica, por considerar que só assim é possível reproduzir a sua evolução, como a da imprensa que lhe dá suporte físico, como ainda a do contexto que integra. Destarte, intenta aproximar-se da
perspetiva do leitor da época, que não vê assim tão diferente do atual, em face de uma tão grande oferta de títulos, notícias, figuras e lugares e acidentes de uma geografia que sabe imensa e imensamente distante. Privilegia, portanto, e sempre que o sentido do texto e o espaço o permitem, a citação parcial ou integral destas notícias em face de quaisquer outras considerações. Porém, não crendo pertinente – tratando-se de textos da primeira metade do século XX – a manutenção da ortografia de época, salvo assinaladas exceções, este trabalho tinha-a já modernizada, quando o processador de texto, dando seguimento ao despacho ministerial, a reatualizou pelo Acordo Ortográfico – Althusser di-lo-ia não-violentamente vitimado pelo exercício do poder do Estado, mas nem há como fazer funcionar o Word ante uma profusão de “novos” erros.
Mas nem o problema se assemelhou tão grave quanto aquele da transliteração e uniformização da grafia de nomes e topónimos estrangeiros, mormente russos. Para ambos os casos e sempre que possível recorre-se a formas já consagradas na língua portuguesa ou noutros estudos de referência em português;; nas demais situações, contudo, afinamse as terminações mais comuns, em ev, ov e -ine, naquelas que noutros textos e fontes possam aparecer, respetivamente, como -eff, -off, –in ou quaisquer outras variações, aceitando ainda a terminação -sky, não só por ser a mais comum às transliterações da terminação -цkий, mas por ser ainda a que vulgarmente distingue os nomes russos dos polacos, grafados com -ski. Para todas as outras situações, convenciona-se a utilização da grafia mais próxima da sua realização fonética, importando, afinal, deixar claro de quem ou de que lugar se trata, e referir-se-lhe sempre da mesma forma. Tratando especificamente dos topónimos, importará ter em conta que mudaram alguns e que outros ainda se perderam para o tempo ou a imensidão da Rússia (termo já por si impreciso) e de quase toda a Ásia, fazendo este trabalho por informar, em não poucos casos, da sua função e localização face aos acontecimentos.
Um problema adjacente e que vulgarmente se põe a outros trabalhos sobre a Rússia é o das datações, uma vez que o calendário Juliano, com treze dias de atraso em relação ao Gregoriano, vigorou aí até 14 de fevereiro de 1918 – e esta data refere-se apenas aos territórios sob controlo bolchevique, posto que naqueles ocupados pelas forças Brancas, o calendário Juliano manter-se-á em uso até ao final da Guerra Civil, em 1920. Partindo de uma análise da imprensa portuguesa, no entanto, só raríssimas vezes ele se põe a este trabalho, que, então, apresenta as duas datas.
Cai também no estilo a questão das referências bibliográficas, em que não só se suprime, ou contrai com a preposição precedente, o artigo definido que integra o título de alguns jornais (ex.: o artigo do Século; O Século é…), agilizando a referência no corpo de texto e a leitura;; como, e deliberadamente contrariando as normas de formatação e apresentação gráfica definidas pelo Departamento de História do ISCTE, se faz seguir à citação de uma fonte de imprensa a respetiva nota de referência ((título), data: número de página), não só por serem, nalguns casos, em tão grande número que ocupariam, em rodapé, uma boa parte da página, como por igualmente empecerem a compreensão do texto, como ainda por levarem a algumas repetições supérfluas.
Finalmente, este trabalho mantém no original todas as citações estrangeiras que apresenta, eximindo-se ao esforço de traduzir o que pode facilmente ser compreendido pelo mais inábil leitor de inglês, francês ou castelhano. Igualmente se exime da apresentação de uma tábula de notações, por considerar que as siglas e acrónimos utilizados, sempre introduzidos por extenso no texto, são ainda do conhecimento comum.
Posto isto, e contando ter introduzido suficientemente nesta tese, restará ainda, mesmo antes dos costumeiros votos de uma agradável leitura, uma explicação, crê-se que oportuna, da sua origem e percurso. Resulta esta de um projeto intitulado Representações da Revolução Russa na Crise dos
Sistemas Demoliberais da Europa do Sul entre 1917 e 1939, em que se aventava a hipótese deste
processo revolucionário, radicalizado nas suas representações de imprensa, ter favorecido o advento de uma ordem ditatorial em Portugal, Espanha e Itália, mas que, compreendidas as dificuldades inerentes a tamanha empresa e o curto desenvolvimento que a temática conhece, acabei reduzindo ao caso nacional e a um período mais curto.
Saído de uma licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas – variante de Estudos Portugueses, com que escapei ao desemprego ou a uma colocação a algumas centenas de quilómetros de casa apenas pela emigração a alguns milhares mais, tem surpreendido a opção por um doutoramento em História Contemporânea, ademais tratando da Rússia revolucionária e da não menos convulsionada I República Portuguesa. Justifico-o com um interesse pela área científica e pela matéria, que sempre e ilogicamente tenho visto desprovidas de estudos.
São poucos, hoje, os que ainda se podem arrogar de ter vivido no primeiro quartel do século XX, mas muitos tiveram o seu pouco de Guerra Fria. Eu tive-a no urso Micha, no Nikita do Elton John e nas bulhas do pátio da escola: à pergunta “Índio ou Cowboy?”, respondia invariavelmente “Russo!”. Escolhendo lados, escolhia a URSS, porque tinha selos, brinquedos e desenhos animados bonitos e porque alguma razão havia para que o Carlos Fino ficasse tanto tempo num país tão frio. Não me aqueceu, portanto, assistir ao desaparecimento de um país por cujos destinos eu me batera e saíra tantas vezes vitorioso, mais por mau carácter do que por conhecimento;; mas decorei os novos países que a desagregação criou e tive ainda, depois, de arranjar espaço para a nova geografia dos Balcãs.
Foi notável a eficiência e indiferença com que a escola e, por sinal, todo o mundo à minha volta se adaptaram à nova realidade. Adaptei-me também, até que, já no secundário e depois de me guiarem, incólume, da Pré-História à Revolução Industrial, de novo me travaram a atenção na Rússia, em que entrei por um filme de Eisenstein a tomar um chocolate com a Natalie no Café Pushkine – o que é um bom professor e a gente tê-lo! Importante foi ainda a descoberta da I República Portuguesa, talhada a bombas e ideais no canto que sempre me haviam vendido como o mais pacato da Europa. É preciso aceitar sem complexos e vergonhas a memória da juventude para compreender o que é gostar de certa forma de algumas coisas.
Foram inúmeras, entretanto, as voltas que dei, mas direi apenas que, terminando a licenciatura e já considerando a possibilidade de seguir para doutoramento, discutia com os professores Robert Rowland e Ângela Miranda Cardoso possíveis temas de tese, e foi o primeiro que sugeriu, conhecendo de antemão os meus interesses, um estudo do impacto da Revolução Russa na crise do sistema demoliberal português e, por acréscimo, do espanhol e do italiano – e não, não havia muita coisa escrita sobre o assunto, e sim, era isso mesmo que o justificava. Entretanto, o Professor António Costa Pinto cedeu-me a honra da sua orientação, o ISCTE acolheu-me como aluno e a FCT concedeu-me uma bolsa, porque, afinal, não era tão mau aluno de Filologia que não pudesse vir a ter alguma oportunidade em História – Esperaaaaança, cantaria o Solnado!
Durou a empresa mais do que a conta, é verdade, mas há trabalhos com trezentas páginas que se atêm a um dia da história da Humanidade e o meu atém-se a dez anos. São vinte dossiês de lombada larga, uma boa dúzia de CD de dados e cerca de quatro mil artigos de fundo, crónicas, imagens, notícias e notas, cuja simples compilação costumava ser matéria de respeito… no tempo em que os doutoramentos custavam boas notas, tempo e esforço – somos já “[...] práqui uma gentalha a fazer passamanes com a história [...]”, mas haja ECTS! Antes que o meu filho, portanto, lhes faça o que eu, apenas às contas de muito esforço e chá de camomila, deixei de lhes fazer nalgum dia de Halny ou Suão, cedê-los-ei, de bom grado, a quem os quiser. E durou, afinal, para que me trouxesse a vida a leste; para que visse progredir, de novo e por toda a Europa, os maiores exacerbamentos conservadores e nacionalistas, sempre, por estas bandas, apontados à Rússia;; para que sentisse, como tantos outros, os efeitos de uma grave crise financeira com curiosa reincidência meridional;; e para que a New Eastern
Europe34 me avisasse, já próximo de acabar esta tese, do fim da era pós-soviética e do negro futuro dos países da antiga União.
Muito se alteraram, entretanto, os meus interesses e mais ainda cresceram as minhas desilusões. Tenho agora mais certa, no entanto, a oportunidade desta tese, como tenho em crer que quem não a enxergar, quem julgar extemporâneos os estudos sobre a Rússia ou a União Soviética na ponta diametralmente oposta da Europa, ou quem disser absurda uma relação entre o processo revolucionário russo e o fim da I República, desse mesmo absurdo de que se faz o silêncio em torno do tema, não só persiste na incompreensão e desconhecimento da Rússia que caracteriza as coevas representações da imprensa a estudar aqui, como incorre em comprometimentos a que cônscia ou convenientemente se julga estar esquivando, e defrauda ainda ao advento da ordem ditatorial em Portugal uma parte substancial das suas causas, dos seus partícipes e dos seus efeitos, talhando curta a possibilidade de uma mais completa compreensão das suas origens, efeitos e significação.
I CAPÍTULO – O IMPACTO DA REVOLUÇÃO RUSSA NALGUMA
BIBLIOGRAFIA ESPECIALIZADA
1. Apresentação e revisão bibliográfica
Um problema sempre caro a esta tese foi o da identificação dos estudos que especificamente abordassem o impacto internacional da Revolução de Outubro, cedo empreendendo uma pesquisa por inúmeras bases bibliográficas nacionais e estrangeiras, que bem depressa, porém, começaria a evidenciar os seus problemas. Em poucas palavras, estudos sobre a Revolução Russa ou sobre a União Soviética são muitos, estudos consagrados ao seu impacto no estrangeiro são alguns, referências na historiografia portuguesa são poucas, estudos apostados na articulação e análise das relações entre grupos distintos no âmbito da receção e formulação das sua primeiras representações e seu impacto em Portugal são nenhuns, e à falta de maior especificidade, de tudo isto, igualmente, se terá que que servir esta tese. Ampla e difusa, a bibliografia a apresentar reflete, assim, todos os problemas de uma compilação, cujo eixo continua a ser a receção e perceção do processo revolucionário russo, mas cujos limites se alargaram bem para além do pretendido ou inicialmente pensado, tocando a não poucos estudos e fontes, tanto estrangeiros como nacionais.
Com a compilação de obras estrangeiras não se pretende, é mor que se explique, coligir a totalidade dos estudos e linhas de investigação em torno da Revolução Russa, ou tão-pouco ensaiar uma caracterização do seu impacto noutros países, posto que não haveria coragem para tentar fazer em poucas linhas o que, para o caso português, levara alguns anos – o que se pretende, sim, é assinalar alguns dos distintos contributos estrangeiros para a história do impacto da Revolução fora da Rússia. Depois, proceder a uma compilação da bibliografia estrangeira não se justifica apenas pela possibilidade comparativa, mas ainda porque, apesar das representações veiculadas pela imprensa portuguesa serem intrinsecamente nacionais, pelo menos ao nível da produção do discurso, elas derivam quase sempre de notas de imprensa estrangeira, direta ou indiretamente recolhidas. Importa, assim, ter uma ideia, nem que muito geral, do que se escrevia lá fora, para melhor compreender o que passava cá dentro, e para compreender, igualmente, quanto se mudou e quanto vinha já mudado. Mas importa, igualmente, que na carência ou insuficiência dos estudos nacionais, não deixe esta tese de se sentir bem informada ou fundamentada.
Sobre estes, sem grande injustiça se pode afirmar que raras vezes se ativeram ao processo revolucionário russo35, e, quando o fizeram, foi curtamente e atentando ou na sua ação ideológica na
reorganização dos movimentos operários nacionais, à medida que procuravam registar ou definir a penetração do comunismo;; ou no seu impacto na I República e nos estratos sociais que perfilharam e prepararam a ascensão do salazarismo, em alusões que não vão além de uma frase e enformam a ideia de uma ameaça que pesa sob a sociedade burguesa, ou, com alguma simpatia e aprofundamento, uma
35 Joaquim Palminha Silva (1984) escrevia: “Não existe, até ao momento em que concluímos este trabalho,
nenhum estudo nem inventário sobre obras de propaganda, divulgação ou crítica, tanto à revolução como à Rússia dos Sovietes;; obras da autoria de portugueses ou traduções que editoras de ocasião ou casas de nome feito lançaram no mercado a partir de 1981.” (idem: 315). Deste então, não foram muitos mais os contributos.