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Receção e perceção da Revolução Russa na crise do sistema: uma análise de imprensa

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Academic year: 2021

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Departamento  de  História

Receção   e   perceção   da   Revolução   Russa   na   crise   do   sistema  

demoliberal  português  – uma  análise  de  imprensa

Marcos Nunes de Vilhena

Tese  submetida  como  requisito  parcial  para  obtenção  do  grau  de

Doutor  em  História  Moderna  e  Contemporânea

Orientador:

Prof.  Doutor  António  Costa  Pinto,  Professor  Associado  Convidado,

Instituto  Superior  de  Ciências  do  Trabalho  e  da  Empresa  – Instituto  Universitário  de  Lisboa

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Departamento de História

Receção e perceção da Revolução Russa na crise do sistema

demoliberal português – uma análise de imprensa

Marcos Nunes de Vilhena

Tese submetida como requisito parcial para obtenção do grau de

Doutor em História Moderna e Contemporânea

Júri de Prova

Doutor António Pedro Ginestal Tavares de Almeida, Professor Catedrático da Faculdade de

Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa

Doutor Sérgio Carneiro de Campos Matos, Professor Associado com Agregação da Faculdade

de Letras da Universidade de Lisboa

Doutor Luís Nuno Faria Valdez Rodrigues, Professor Associado com Agregação do Instituto

Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa – Instituto Universitário de Lisboa

Doutora Maria Alexandre Lopes Campanha Lousada, Professora Auxiliar da Faculdade de

Letras da Universidade de Lisboa

Doutor Paulo Jorge Fernandes, Professor Auxiliar da Faculdade de Ciências Sociais e

Humanas da Universidade Nova de Lisboa

Doutor António Jorge Pais Costa Pinto, Professor Associado Convidado do Instituto Superior

de Ciências do Trabalho e da Empresa – Instituto Universitário de Lisboa

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A

Francisca Bicho

, que  me  ensinou  a  pensar  pela  minha  cabeça. Ao

Tito

, para que nunca deixe de pensar pela sua. Em  memória  de

Perfeito de Carvalho

,

Gambetta Neves

e

Alexandre Vieira

.

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AGRADECIMENTOS

Esta tese é tributária do apoio e amizade de diversas pessoas, que se impõe mencionar. Um reconhecimento prévio e especial, endereço-o ao meu orientador, Professor António Costa Pinto (ISCTE-IUL, ICS-UL), cuja consciência da minha formação de base não se traduziu nunca em desconsideração pelo tema que me propunha a tratar e pela forma como o fiz. Mas alongo-o igualmente aos Professores Robert Rowland e Ângela Miranda Cardoso, que alimentaram a ideia deste doutoramento e acompanharam a elaboração do projeto de tese.

Menção especial merecem também a Fundação para a Ciência e Tecnologia, pela bolsa de investigação que me concedeu (2006-2010) e pelo sempre exemplar cumprimento das suas funções, e todo o pessoal das bibliotecas e arquivos em que trabalhei, nomeadamente da Biblioteca Nacional de Portugal, Hemeroteca Municipal de Lisboa e Torre do Tombo, não me surpreendendo encontrar, até no estrangeiro, quem fale da sua imensa disponibilidade, competência e simpatia. Semelhantes qualidades, aliás, encontrei em Lara Carregã, então secretária do Departamento de História do ISCTE, e em Ilda Ferreira, funcionária dos Serviços Académicos, aqui referidas com toda a gratidão, pois que sempre e oportunamente agilizaram a minha má relação com os processos burocráticos.

Evoco encarecidamente os Professores José Joaquim Dias Marques, Petar Petrov, Isabel Sabido, José Eduardo Horta Correia, Adriana Nogueira e Ângela Miranda Cardoso, pela competência e exigência por que se fizeram e mostraram diferentes e melhores do que os demais. No entanto, não gostaria de deixar passar esta oportunidade sem agradecer a Francisca Bicho, Mulher e Professora extraordinária, que me fez dependente de História sem mais cura do que o vício, e cuja inteligência, competência e trabalho não terão nunca reconhecimento suficiente.

Aos meus alunos, por todos os lados por onde tenho passado, e com quem, a cada aula, me faço mais pessoa e professor, agradeço a amizade e a paciência.

Aos amigos – Catarina Pereira, Eugénio Anacleto, Lúcia d’Almeida, Ricardo Alves, Agnieszka Daniluk, Pedro Pinto, Ana Jordão, Maria João Neutel, Rita Lopes, Luís Ricardo, Pedro Francisco, Hugo Torres, Xavier Farré, Letícia Fauri, Sam Cyrous, Marta Swiątek, Nádia Rego, Magda Bryła, Justyna Pelc, Tomasz Bułat, a extraordinária Karolina Kornek, os clãs Alves e Toscano, e a toda a família (Jakubowski, Páscoa, Rosa, Pinto, Caliço e Vilhena Bonito) – agradeço a paciência e amor com que me continuam a aguentar... e com que vos aguento.

Ao mano Gonçalo, agradeço o não me aguentar de todo e assim me mostrar o valor das nossas diferenças; ao mano António, o mostrar-me que tudo vem na altura certa; ao meu pai, o ter sido sempre diferente; e à minha mãe, agradeço o sê-lo, como dizia o Sena, “sem mais remédio que trazê-lo n'alma.”.

Pagarei com a companhia de todos os dias a Maria Jakubowska, pelo tempo e paciência e energia que esta tese nos tirou – não tanta, enfim, que não acabe por dedicá-la ao nosso pequenino Faust e a todos os que o sigam – espero que muitos!

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SUMÁRIO

A  presente  tese  é  uma  análise  da  articulação  de  movimentos  políticos  e  sociais,  e  também  das   representações,   ideários   e   efeitos   gerados   em   torno   de   um   fenómeno   único   – a   Revolução   Bolchevique.   Atenta   à   evolução   da   situação   europeia,   mas   atendo-se especificamente a Portugal, descreve e analisa  a  receção  e  perceção  deste  processo  revolucionário  ao  nível  da  imprensa   portuguesa  da  época  e  dos  grupos  aí  representados,  num  período  que  vai  do  golpe constitucionalista russo de março  de  1917  até  ao  28  de  Maio  de  1926, procurando determinar como atuam sobre a crise do   sistema   demoliberal,   condicionando   (ou   não)   o   advento   da   ordem   ditatorial. Não   a   ocupando demandar  ou  provar  um  simples  impacto,  que  uma  tal  associação  e  lapso  de  análise  supõem   já,   move-a   uma   abordagem   convergente   e   simultânea da imprensa   portuguesa   da   época   e   da   I   República  sob  o  fenómeno  informativo  gerado  em  torno  do  processo  revolucionário. Nesta opção  pela   imprensa coeva, reconhece-se a  sua  representatividade  como  meio  de  comunicação  de  massas  por  que   perpassa, da origem aos conteúdos,   a   atividade   e   ideário   de   quase   todas   as   posições   e   interesses   a   considerar,  mas  também  uma  vontade  de  a  reconsagrar  como fonte, na sua dupla  condição  de  registo  e   partícipe  da  História.

Palavras-chave:  Revolução  Russa,  receção,  perceção,  imprensa,  crise,  I  República  Portuguesa

SUMMARY

The present thesis analyses the connection between political and social movements, coupled with representations, ideals and results generated around one single phenomenon - the Bolshevik revolution. Focusing on European developments, but particularly on Portugal, it describes and considers the reception and perception of this revolutionary process from the perspective of the contemporaneous Portuguese press and groups represented within, in the period starting in the constitutionalist Russian coup in March 1917 until the 28th of May 1926. It also tries to determine how

they act upon the crisis of the demo-liberal system, and the possible conditioning of the upcoming dictatorship. The intent is not to assert or prove a simple impact, that the mention and period of analysis already supposes, but to approach the existing Portuguese press and First Republic in a converging and simultaneous manner, under the informational phenomenon around the Russian revolutionary process. This choice for the coeval press acknowledges not only its representativeness as means of mass communication by which the activity and ideals of almost all positions and interests under consideration pervades, from origin to essence, but also a will to re-consecrate it as a source in its dual condition of record and participant in history.

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ÍNDICE

AGRADECIMENTOS SUMÁRIO  – SUMMARY

INTRODUÇÃO ... 1

CAPÍTULO  I  – O  IMPACTO  DA  REVOLUÇÃO  RUSSA  NALGUMA  BIBLIOGRAFIA   ESPECIALIZADA ... 13

1.  Apresentação  e  revisão  bibliográfica  ... 15

1.1 Bibliografia Estrangeira ... 17

1.1.1 Obras  de  carácter  geral  ... 17

1.1.2 Obras  sobre  o  impacto  da  Revolução  Russa  ... 19

1.1.3 Memórias  e  relatos  em  primeira  mão  ... 30

1.2 Bibliografia Nacional ... 35

1.2.1 Alguns estudos portugueses ... 35

1.2.2 Outras fontes portuguesas ... 80

CAPÍTULO II – ALGUNS  CONTRIBUTOS  PARA  A  HISTÓRIA  DAS  RELAÇÕES  ENTRE   PORTUGAL  E  RÚSSIA  E  PARA  A  ANÁLISE  DA  IMPRENSA  ... 105

1.  Portugal,  Rússia  e  União  Soviética  ... 107

1.1  Comparando  Portugal  e  Rússia  – contributos  para  uma  visão  estrutural  e  para  uma  contextualização   da  Revolução  Russa  ... 107

1.2  Relações  Diplomáticas  entre  Portugal  e  Rússia  ... 129

2. A imprensa portuguesa  na  I  República  ... 135

2.1  Uma  imprensa  em  mudança  ... 135

2.1.1  Novos  géneros  jornalísticos  ... 136

2.1.2  Transformações  morfológicas  ... 137

2.1.3  Transformações  tecnológicas  ... 139

2.2 Ganhos e gastos da imprensa ... 140

2.2.1  Preço  de  venda  dos  jornais  ... 140

2.2.2  Preço  do  papel  ... 141

2.2.3 Profissionais de imprensa ... 143

2.2.4  Agências  noticiosas  ... 147

2.3  Distribuição,  tiragens  e  leitores ante o problema do analfabetismo e das mentalidades ... 148

2.4  A  intervenção  do  Estado  e  o  marco  legal  da  imprensa  ... 151

2.5  Imprensa  e  opinião  pública  ... 153

2.6 Imprensa e grupos de interesse ... 154

III  CAPÍTULO  – A  REVOLUÇÃO  RUSSA  NA  IMPRENSA  PORTUGUESA  ... 157

1.  RECEÇÃO  – A  representação  da  Revolução  Russa  na  imprensa  portuguesa  ... 159

1.1  A  Rússia  entre  Revoluções  – o ano de 1917 ... 159

1.1.1  A  Revolução  de  Fevereiro  ... 159

1.1.2 O crescimento bolchevique – poder  dual  e  crise  política  ... 165

1.1.3 A Revolução  de  Outubro  ... 176

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1.2.1  Do  desaire  da  guerra  à  traição  das  negociações  da  paz  separada  ... 190

1.2.2 Vermelhos, Brancos, e todos os outros – a Guerra  Civil  e  a  intervenção  estrangeira  ... 198

1.2.3 O Comunismo de Guerra ... 220

1.2.4 O Terror Vermelho ... 228

1.2.5 Velhos czares, novos czares ... 239

1.3 O Comunismo em crise – 1921-1924 ... 244

1.3.1  O  reconhecimento  diplomático  ... 244

1.3.2  Nova  Política  Económica  – a  face  visível  da  adaptação,  desvios  e  evolução  ... 253

1.3.3  A  morte  de  Lenine,  as  lutas  de  liderança  e  o  futuro  da  revolução  ... 262

1.4 Da internacionalização  da  Revolução  à  perspetiva de uma nova grande guerra –1924- ... 271

1.4.1  A  ameaça  vermelha  e  a  defesa  da  civilização  ocidental  ... 271

1.4.2 Outras  faces  da  ameaça  e  do  poder  – algumas  questões  sociais,  culturais  e religiosas ... 280

- A  educação,  a  ciência  e  as  artes  sob  o  domínio  soviético  ... 280

- A  questão  religiosa  ... 288

- A  situação  da  mulher  ... 296

2.  PERCEÇÃO  – A  perceção  do  impacto  da  Revolução  Russa  na  imprensa  portuguesa  ... 303

2.1  Revoluções  em  tempo  de  Guerra:  1917-1918 ... 303

2.1.1  Quando  a  revolução  foi  boa  – ainda  a  Revolução  de  Fevereiro  ... 303

2.1.2  A  Revolução  de  Outubro  e  o  princípio  da  incerteza  ... 307

2.1.3 Entre o medo e o oportunismo – as  contradições  da  República  Nova…  e  da  velha  ... 312

2.2  A  Revolução  na  Rússia.  Nem  modelo,  nem  mito:  1919-1921 ... 320

2.2.1 Do desconhecimento do marxismo  à  exemplaridade  do  bolchevismo  ... 320

2.2.2  Violência  e  repressão  na  configuração  de  uma  ameaça  que  há  de  vir  ... 328

2.2.3  A  Revolução  Russa  na  nova  imprensa  operária  e na  reorganização  do movimento social português  ... 341

2.3  O  sentimento  de  ameaça  internacional:  1921-1924 ... 351

2.3.1 Portugal na rota do internacionalismo vermelho ... 351

2.3.2  O  fascismo  e  o  riverismo  na  agregação  das  forças  conservadoras  e  na  prevenção  do   comunismo ... 359

2.3.3  Entre  Internacionais:  a  Revolução  no  refluxo  do  movimento  operário  nacional  ... 369

2.4 Ante a falência  do  demo-liberalismo: 1924- ... 382

2.4.1  A  bolchevização  do  quotidiano  ante  a  falência  do  demo-liberalismo ... 382

2.4.2  A  ideia  da  ameaça  na  internacionalização  da  Revolução  e  na  perda  do  Império  ... 396

CONSIDERAÇÕES  FINAIS  ... 405 FONTES ... 419 1.  Fontes  primárias  ... 419 2. Fontes secundárias ... 419 3. Fontes digitais ... 437 BIBLIOGRAFIA ... 439 ANEXO – Quadro de imprensa portuguesa

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Ora porra! Então  a  imprensa  portuguesa  é que  é  a  imprensa  portuguesa? Então  é  esta  merda  que  temos que beber com os olhos? Filhos  da  puta!  Não,  que  nem há  puta  que  os  parisse.

Álvaro  de  Campos, num bilhete de Pessoa oferecido por A. Botto a Alberto de Serpa.

Em dezasseis anos desse regime houve 52 governos, nove Chefes de Estado, sete parlamentos. Legalmente, a Imprensa era livre, mas os jornais eram apreendidos, as oficinas desmanteladas, empastelado o tipo, presos os jornalistas. Somos um povo sentimental, emotivo, crédulo.   É   possível   em   semanas   criar   estados   de   espírito   – e alguns jornais o fizeram – de   onde   surdiram   revoluções,   pronunciamentos, golpes de Estado. Desordem na  rua  e  nos  espíritos,  e  ao  mesmo  tempo na  administração.

António  de  Oliveira  Salazar  (1967),  entrevista a Le Figaro, 2 e 3 de setembro de  1958,    Discursos,  Coimbra,  Coimbra  Editora,  vol.  VI,  pág.47.

We know nothing more, and nobody knows nothing more about open political activity. Here you have a paradox – it seems to be a paradox, but in reality it is a direct and natural product of all the conditions of Russian life – that through the above-mentioned series of the most widespread bourgeois papers, the masses were informed more accurately,   swiftly   and   directly   about   “underground”   political activities, decisions, slogans, tactics, etc., than about the non-existent decisions  of  “the  leaders  of  the  open  movement”!

Lenine  ([1912]  1974),  “Put  your  cards  on  the  table”,  em    Lenin  Collected Works,  Moscow,    Progress  Publishers,  vol.  17,  pág.  516.

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INTRODUÇÃO

Nas   análises   especificamente   consagradas   ao   impacto   internacional   da   Revolução   Russa   é   comum  convir  que  se  os  acontecimentos  de  fevereiro  e  a  formação  do  Governo  Provisório  mereceram   a  simpatia  das  nações  aliadas,  aqueles  ditos  de  outubro  só  puderam  granjear  a  sua  desconfiança,  quer   nas   singularidades   que   arrolavam,   quer   na   própria   diferenciação   face   àquela   primeira   fase   revolucionária   que   os   precedera.   Largamente   desconhecidos   ou   desconsiderados   pelo   extraordinário   empenho  com  que  o  Governo  Provisório  e  corpo  diplomático  aliado1  procuravam  encobrir  a  dimensão   da  agitação  social2,  não  só  em  Petrogrado,  como  por  toda  a  Europa3,  os  bolcheviques  começam  por  

dever  quase  todo  o  protagonismo  à  celebração  da  paz  separada  e  à  rejeição  da  dívida  russa  para  com  as   potências  aliadas  –  fatores  que  concorrem,  como  o  Terror  e  Grande  Fome,  na  condenação  e  isolamento   do  seu  regime  e  subsequente  intervenção  estrangeira  na  guerra  civil,  enquanto  um  maior  interesse  pelo   seu  postulado  ideológico  espera  pela  sua  resistência  no  poder  e  pela  internacionalização  da  revolução.

Já  em  Portugal,  são  poucos  os  estudos  consagrados  à  Revolução  Russa,  menos  ainda  aqueles   atentos  ao  seu  impacto  –  não  sendo  claras,  portanto,  todas  as  razões  são  suspeitas.  Ainda  em  1976  e  “a   pretexto   de   alguns   livros   recentes”   de   Jorge Campinos, Manuel de Lucena, Fernando de Medeiros, João  Quintela,  António  Viana  Martins e Carlos da Fonseca4,  Manuel  Villaverde  Cabral publicava, na Análise  Social,  um  “ensaio  de  interpretação”  “[…]  sobre  a  natureza  fascista  ou  não  do  regime  saído  do  

28  de  Maio.”5.  Dois  anos  volvidos  sobre  a  revolução  democrática  e  recenseando  uma  nova  geração  de  

historiadores, que, na sua maioria, se formava ou parava ainda pelo estrangeiro, tal artigo era um estado  de  arte  tão  atento  quanto  atual,  pelas  interpretações  e  propostas  a  que  se  prestava,  “do  fascismo   e  o  seu  advento  em  Portugal”6. Trinta anos mais tarde e para esta tese, contudo, deve quase toda a sua

importância   ao   facto   de avaliar semelhantemente as   obras   em   que   a   tónica   recai   nos   grupos   que   preparam a ditadura7 e   aquelas   que   a   radicam   na   incapacidade   do   movimento   operário   para   se  

1  A  23  de  março  de  1917,  por  exemplo,  João  Chagas,  chefe  da  legação  diplomática  portuguesa  em  Paris,  remetia  

ao  Ministério  do  Negócios  Estrangeiros  um  telegrama  em  que  se  lia:  “Ministro  dos  Negócios  Estrangeiros  da   Rússia   fez   seguinte   declaração:   De   futuro   todos   os   boatos   de   paz   separada   devem   ser   considerados   falsos   pois  seria  antinacional  que  livre  Rússia  negociasse  com  Alemanha  reacionária”  (cit.  in  Silva:1984:69).  

2  Se  nem  o  anarquista  Kropotkine  ou  os  partidos  socialistas  europeus  se  haviam  coibido  de  justificar  a  guerra,  

não   devia   surpreender   que   também   uma   boa   parte   do   operariado,   preterindo   a   razão   internacionalista   às   insofismáveis  razões  nacionais,  o  fizesse.

3  Faz-se  aqui  referência  aos  motins  dos  soldados  russos  no  verão  de  1917  no  campo  militar  de  La  Courtine,  em  

França,  reprimidos  a  canhão;;  e  das  inúmeras  insurreições  grevistas  daquele  ano,  como  as  de  Leipzig  (abril),   Leeds  (maio  e  junho)  e  Turim  (outubro).

4  Campinos, 1975; Lucena, 1976; Medeiros, 1976; Quintela, 1976; Martins, 1976; Fonseca, 1976. 5  Cabral, 1976a: 874.

6  Expressão  utilizada  pelo  próprio  Villaverde  Cabral. 7  Campinos, 1975; Lucena, 1976.

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substituir ao  liberalismo  burguês  com  alternativas  de  poder  reais8, enquanto paralelamente se assume que   o   advento   do   fascismo   em   Portugal,   “[…]   suas   condições   e   natureza,   institucionalização   e   durabilidade  […]”,  se  impõem  como  “[…]  um  programa  de  trabalho  óbvio  […]”9.

O  que  Cabral  talvez  não  esperasse  é  que  se  viesse  a  constituir  como  o  programa  de  trabalho   mais   óbvio   em   detrimento   da   história   do   movimento   social   português,   de   que,   avinda   no   temor   às   polarizações   políticas   da   época   ou   na   ideia   de   um   “[...]   apodrecimento   da   ofensiva   operária   e   a   correlativa  instalação  do  movimento  organizado  [...]  num  seguidismo  sem  perspetivas  [...]”10, uma boa

parte dos investigadores acabaria por fugir11,   ao   arrepio   de   uns   ventos   que   começavam   também   a  

soprar  lá  de  fora.  Não bastando,  a  história  do  movimento  operário  português  acusara  sempre,  como   nenhuma outra, as arbitrariedades dos distintos regimes – com   razão   escrevia   Manuel   Joaquim   de   Sousa na carta-relatório  remetida  à  AIT,  em  193112:  “Não  quisemos  nem  podíamos  fazer  a  história.  Do  

passado  não  existem  artigos  e  do  presente  pouco  poderá  existir  [...]  com  perseguições  e  as  apreensões   policiais   muito   se   tem   extraviado   também.”13.   Depois,   aqueles   a   que   caberia,   por   via   da   própria  

extração  social14 ou  da  experiência  profissional  ou  sindical,  escrever  a  história  do  movimento  operário,   negligenciavam  já  e  continuariam  a  negligenciar  a  análise  do  seu  papel  no  advento  da  ditadura.  Em   resultado disto, Pacheco Pereira15 queixava-se,  já  em  1981,  que  “Não  abundam  em  Portugal  trabalhos   de índole  bibliográfica  e  neste  setor  da  história  social  nem  sequer  existem.  [...]  passando-se  à  margem   de   textos   importantes   que   permanecem   desconhecidos.”,   o   que   justificava   com   o   facto   de   ninguém  

8  Medeiros, 1976; Quintela, 1976 9  Cabral, 1976a: 873.

10  Cabral, 1976a: 878

11 Não  poderá  deixar  de  ser  sintomático  que  ao  atualizar,  uma  vez  mais,  a  bibliografia  da  investigação  sobre  o  

fascismo   português,   António   Costa   Pinto   faça   justamente   reportar   a   Villaverde   Cabral   e   a   Lucena   as   primeiras   interpretações   produzidas   em   Portugal,   a   que   associa   a   ideia   de   que   as   interpretações   sobre   o   salazarismo se foram tornando cada vez menos politicamente orientadas (1992b:47) – facto   que   não   só   confirma   o   seu   conhecimento   das   outras   obras   publicadas   no   mesmo   período,   e   a que   aparentemente   não   confere  importância,  como  confirma  a  mudança  historiográfica  aludida.

12 Carta  apresentada  no  “Introito”  de  O Sindicalismo em Portugal (1973), do mesmo autor.

13 Igual   ideia   é   dada   por   Bento   Gonçalves   na   “Nota   Preambular”   à   1ª   edição,   clandestina,   de   Palavras

Necessárias:  “Esta  tarefa  começa  contrariada  pela  fundamental  dificuldade  da  falta  de  documentos  escritos  e   baseia-se  toda  em  elementos  de  memória,  provindos de leituras esparsas sobre alguns acontecimentos mais salientes  e  do  conhecimento  direto  que  tivemos  de  algumas  fases  e  lutas  do  movimento  operário  no  país.  

14 Não   será   de   somenos   importância   que   o   próprio   Carlos   Fonseca   afirmasse   ter   banido   conceitos   ideológicos  

como consciência   de   classe   (1976,   vol.IV:13)   da   sua   obra,   quando   já   antes   escrevera   que   esta   “[...]   materializa  uma  ideia  fixa  a  que  não  foi  estranha  a  [sua]  origem  social.”  (1976,  vol.I:18)!

15  Pacheco Pereira referia-se  especificamente  à  história do  movimento  operário,  mas  a  inferência  aplica-se sem

peias   ao   processo   revolucionário   russo.   Este   tipo   de   obras   a   que   Pacheco   Pereira   alude   acabaria   por   fazer   moda   na   passagem   da   década   de   70   para   a   de   80.   No   entanto,   a   despeito   de   algum   trabalho   notável de compilação  bibliográfica,  a   verdade  é  que,  por  razões  que  se  explicam  na  I  Parte  deste  trabalho,  são  ainda   inúmeras  as  faltas  e  o  acesso  às  obras  de  referências  é,  por  vezes,  tão  ou  mais  difícil  que  o  acesso  às  fontes.   Ressalve-se, contudo, que Pacheco Pereira   mantém,   na   internet, uma das mais amplas e completas compilações  bibliográficas  sobre  comunismo,  anarquismo  e  a  história  do  PCP.  

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estar   “[…]   para   se   aborrecer,   perdendo   o   seu   tempo   com   tarefas deste tipo em vez de fazer investigações  de  maior  fôlego  e  prestígio.”16.

Em face desta tese,   o   artigo   de   Cabral   quase   nada   mais   acrescenta,   mas   tem-se   prestado   a   explicar   uma   notável   falta   de   referências   ao   movimento   social   português   e,   por   lógico   acréscimo,   à   Revolução   Russa,   que   nele   tanto   influi,   até   no   âmbito   de   um   fenómeno   de   que   chegam   a   ser   justificação  e  contraponto  político.  Avaliando  os  problemas  e  perspetivas  de  interpretação  em  que  o   Estado  Novo  tem  lançado  os  investigadores  nacionais  e  estrangeiros,  a  voltas  com  as  filiações  e  nomes   que  há  de  ter,  esperar-se-ia  que  também  o  hipotético desnorte anarquista e comunista do movimento social,   que   a   República   reprimiu,   o   exemplo   russo   contaminou,   e   a   que   o   28   de   Maio   sobreveio,   pudesse ter feito escola – mas  não  fez.  Sem  adiantar  o  que  caberá  ao  estado  de  arte,  seria  injusto  dizer   que  tais referências  se  resumem  à  ideia  do  terror  burguês  ante  a  ameaça  comunista  ou  à  invocação  das   disputas  ideológicas  no  meio  sindical  como  forma  de  justificar  ou  desculpabilizar  a  sua  incapacidade   para   travar   os   avanços   das   “direitas”,   encontradas,   respetivamente,   nos   estudos   do   “advento   do   fascismo”  e  nos  do  movimento  operário.  Não  se  anda  longe,  contudo,  e  o  mais,  e  mais  interessante,   são   algumas   análises   pessoais,   memórias   e   relatos   em   primeira   mão,   que   parecem   subsistir   até   aos   anos sessenta como produto ou alternativa aos consabidos condicionamentos.

É  assim,  portanto,  que  esta  tese  procura  agora  descrever  e  analisar  a  receção  e  perceção17  da  

Revolução   Russa   ao   nível   da   imprensa   portuguesa   da   época   e   dos   grupos   e   interesses   que   esta   representa,   num   período   que   vai   desde   as   primeiras   referências   ao   golpe   constitucionalista   russo   de   fevereiro   de   1917   até   ao   golpe   militar   de   28   de   maio   de   1926,   procurando   determinar   como   atuam sobre a crise do sistema demoliberal  da  I  República  Portuguesa  e  o  advento  da  ordem  ditatorial.  Não  a   ocupando  demandar  ou  provar  o  simples  impacto,  que  tal  associação  e  lapso  de  análise  devem  supor   já,  move-a  chegar,  pela  origem  e  teor  das  representações,  à  perceção  que  dele  se  vai  tendo  ao  nível  da   imprensa  e  à  forma  como  influencia  e  condiciona  a  ação  e  relações  dos  grupos  aí  representados.  Move-a  t Move-ambém   Move-a   Move-abord Move-agem  convergente  e  simultâne Move-a  d Move-a  Revolução  Russ Move-a,  d Move-a  I  Repúblic Move-a  e  d Move-a  imprens Move-a   portuguesa  de  época.  Move-a,  finalmente,  suprir  uma  lacuna  da  historiografia  portuguesa.

Vertidos  para  esta  tese,  tais  objetivos  são  não  só  limitados  a  um  período  de  dez  anos,  como  à   utilização  da  imprensa  de  época  como  fonte  das  representações  a  estudar.  À  primeira  opção  assiste  tão   só   o   confinamento   temporal   entre   o   início   da   Revolução   Russa   e   o   que   se   avalia   serem   as   suas   consequências   em   Portugal,   sem   sacrifício   de   uma   análise   suficientemente   ampla   e   fundamentada.   Embora  sejam  três,  pelo  menos,  as  revoluções  que  a  Rússia  conhece  nas  primeiras  duas  décadas  do   século  XX,  o  que  aqui  se  entende  por  Revolução  Russa  é  o  processo  de  ascenso,  tomada  e  controlo  do   poder   pelos   bolcheviques,   que   se   inicia   com   a   Revolução   de   Fevereiro   (março)   e   a   abdicação   de  

16  Pereira, 1981a: 989.

17  Designa-se   aqui   por   receção   o   processamento   noticioso   da   Revolução   Russa,   bem   como   os   fatores   e  

fenómenos   que   sobre   ele   atuam;;   já   por   perceção,   entende-se   o   conjunto   de   atitudes   decorrentes   da   compreensão  desse  processamento  informativo.

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Nicolau  II18  –  assim  se  lhe  refere  a  sobeja  maioria  dos  especialistas,  sem  maior  comprometimento  de   sentido   ou   limite,   e   assim   se   lhe   refere   também   esta   tese,   que,   rejeitando   fazê-lo   reduto   ou   responsabilidade  de  um  grupo19,  di-lo  mais  facilmente  russo,  folgado  termo,  do  que  reduzido  a  um  mês  

ou   a   um   dos   seus   episódios20.   A   análise,   portanto,   coincidirá   com   o   que   vulgarmente   se   toma   pelo  

início   do   processo   revolucionário,   mas   não  com   o   fim,   que   um   grande   número   de   autores   afina  em   1921,   com   o   fim   da   Guerra   Civil   e   o   lançamento   da   Nova   Política   Económica,   mas   que   esta   tese   encontra   nas   Grandes   Purgas   estalinistas   de   1937-38,   não   só   porque   mais   e   melhor   se   vê   em   pleno   processo  revolucionário21  do  que  num  arrepio  ainda  mais  indefinido  deste,  mas  também  porque,  como  

bem  escreve  Sheila  Fitzpatrick,  “(...)  Russian  society  remained  highly  volatile  and  unstable  during  the   NEP  period,  and  the  party's  mood  remained  aggressive  and  revolutionary.”22.  

Já  na  opção  pela  imprensa  portuguesa  de  época,  reconhece-se  a  sua  representatividade  como   meio  de  comunicação  de  massas  por  que  perpassa,  da  origem  ao  conteúdo  informativo,  a  atividade  e   ideário  de  quase  todas  as  posições  e  interesses  a  considerar,  mas  também  a  vontade  de  a  reconsagrar   como   fonte23,   na   sua   dupla   condição   de   registo   e   partícipe   da   História.   Em   Portugal,   de   facto,   a   imprensa   como   fonte   histórica   parece   esperar   ainda   alguns   desenvolvimentos,   sendo   tarefa   árdua   encontrar,  no  âmbito  da  investigação  em  história  ou  mesmo  em  ciências  da  comunicação,  obras  que   reflitam  ou  referenciem  um  marco  comum  para  a  sua  utilização  ou  que  exclusivamente  se  lhe  atenham,   conquanto  sirva  a  não  poucas.  Conforme  a  entende  esta  tese,  e  porque  tão  bem  a  serve,  pode  e  deve  ter   um  papel  determinante  num  país  com  tão  larga  história  de  censura  e  tão  curta  produção  livreira.  

Em   primeiro   lugar,   constitui   uma   ótima   fonte   documental,   não   só  por  fixar  o   conhecimento  

18  As  causas  da  Revolução  radicam  na  história  da  Rússia  e  não  cabe  a  este  trabalho  descortiná-las  ou  discuti-las,  

posto  que  o  fazem  já,  e  melhor,  autores  como  E.H.  Carr,  Marc  Ferro  ou  Sheila  Fitzpatrick;;  tão  pouco  lhe  cabe   verberar  sobre  a  natureza  desse  mesmo  processo,  a  que  Barrington  Moore  Jr.,  Jeffrey  Paige,  Crane  Brinton  ou   Theda  Skocpol,  entre  tantos  outros,  deram  também  um  enorme  contributo.

19  Impõe-se   lembrar   que   a   força   política   que,   a   7   de   novembro,   avança   para   o   poder,   se   chama   ainda   Partido  

Operário   Social-Democrata   da   Rússia,   que   não   terá   outro   nome   até   março   do   ano   seguinte,   e   que   o   seu   programa  é  ainda  aquele  que  as  fações  menchevique  e  bolchevique  acertaram  no  congresso  de  1903.  

20  Outubro,  afinal,  só  na  Rússia;;  no  entanto,  os  contemporâneos  russos,  e  entre  eles  Lenine,  referiam-se-lhe  como  

“Golpe  de  Outubro”,  “Levantamento  de  25”,  “Revolução  de  Novembro”,  “Revolução  Bolchevique”,  “Golpe   Bolchevique”,   ou   simplesmente   “Outubro”;;   no   seu   X   aniversário,   dá-se   mesmo   a   consagração   oficial   de   “Grande   Revolução   Socialista   de   Outubro”:   Великая   Октябрьская   Социалистическая   Революция,   Velikaya  Oktyabr'skaya  sotsialisticheskaya  revolyutsiya.

21  Referindo-se  ainda  às  diferentes  fases  do  processo,   Fitzpatrick  escreve:  “The  different  stages   –  the  February  

and  October  revolutions  of  1917,  the   Civil  War,  the   interlude   of  NEP,  Stalin's   'revolution  from  above'),  its   'Thermidorian'  aftermath,  and  the  Great  Purges  –  are  treated  as  discrete  episodes  in  a  twenty-year  process  of   revolution.”  (1994:4)

22  Fitzpatrick,  1994:  3.  Lê-se   ainda:  “The   Bolsheviks  feared  counterrevolution,  remained  preoccupied  with  the  

threat  from  'class  enemies'  at  home  and  abroad,  and  constantly  expressed  their  dissatisfaction  with  NEP   and   unwillingness  to  accept  it  as  final  outcome  of  the  Revolution.”  (ibidem)

23  Torres  Ramirez  escreve   que   “[…]  el  término   ‘fuente’  tomado  en  sentido  amplio  puede   nombrarse   cualquier  

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sobre   um   suporte   material,   como   por  representar   um   acervo   coevo   e   imediato   da   ação   humana,   por   proceder  ao  registo  corrente  dos  factos  sociais,  culturais  e  políticos  mais  relevantes24,  mas  também  dos  

mecanismos  inerentes  à  sua  apreensão  e  representação,  de  uma  linguagem  e  de  um  discurso25.  Depois,  

distingue-se   pela   clareza,   simplicidade   e   imediatismo   no   seu   processo   de   criação,   sem   deixar   de   veicular   uma   opinião,   posto   que   inerente   à   seleção   e   transmissão   de   uma   notícia,   há   sempre   uma   manipulação   do   conhecimento   a   apreender   pelo   público   leitor,   numa   recriação   do   real:   a   leitura   aproxima  o  leitor  do  seu  quotidiano  e  daquele  do  autor,  numa  “[...]  interação  verbal  entre  os  indivíduos   [que]  é  o  processo  de  natureza  social,  não  individual,  vinculado  às  condições  de  comunicação  que,  por   sua   vez,   vinculam-se   às   estruturas   sociais   –   o   social   determinando   a   leitura   e   constituindo   seu   significado.”26.  Permite  ainda  rastrear  biografias  e  a  atividade  dos  jornalistas,  políticos,  intelectuais  e  

os  jornais  da  sua  colaboração,  permitindo  aceder  ao  seu  discurso  e  interesses.  É  um  efetivo  meio  de   socialização,   capaz   de   criar   e   refletir   uma   consciência   nacional   e   uma   opinião   pública,   difundindo   ideias  e  argumentos  que  expressam  os  interesses  de  uma  classe  ou  grupo  dominantes  e  articulando-se   com  os  demais  aspetos  da  vida  social  e  simulando  uma  participação  abstrata  dos  cidadãos.  Ao  mesmo   tempo,  é  um  agente  de  mudança  social,  acusando,  por  isso  mesmo,  a  necessidade  de  uma  permanente   adaptação   ao   contexto27.   Finalmente,   e   como   averba   António   Nóvoa,   “[…]   permite   apreender   discursos  que  articulam  práticas  e  teorias,  que  se  situam  no  nível  macro  do  sistema,  mas,  também  no   plano   micro   da   experiência   concreta,   que   exprimem   desejos   de   futuro   ao   mesmo   tempo   que   denunciam  situações  do  presente.”28.  Porém,  e  conforme  Gramsci  propusera  já29,  esta  tese  entende  que  

a  imprensa  não  fala  pela  opinião  pública,  mas  apenas  por  si  e  pelos  interesses  que  representa.  

Limitadas   que   possam   parecer   e   revistos   que   foram   os   mais   diversos   postulados   historiográficos  e  teóricos  sobre  a  imprensa,  tais  opções  determinam  e  condicionam  a  metodologia  a   seguir  nesta  tese.  Impõem,  em  primeiro  lugar,  que  se  proceda  à  identificação  de  uma  imprensa  com  

que  pueda  usarse  como  testimonio  para  acceder  al  conocimiento.”  (2002:  317).

24  Nóvoa  (2002:  31),  tratando  da  imprensa  como  fonte  para  os  estudos  da  história  da  educação,  afirma  que  “As  

suas  páginas  revelam,  quase  sempre  a  ‘quente’,  as  questões  essenciais  que  atravessaram  o  campo  educativo   numa   determinada   época.   A   escrita   jornalística   não   foi   ainda,   muitas   vezes,   depurada   das   imperfeições   do   quotidiano  e  permite,  por  isso  mesmo,  leituras  que  outras  fontes  não  autorizam.”  

25  Linguagem,  na  definição  de  Fiorin  (1990:  52),  é  aqui  entendida  como  “componente  da  comunicação  que  tem  

como   finalidade   última   não   apenas   informar,   mas   persuadir   o   interlocutor   a   aceitar   o   que   está   sendo   comunicado”;;  já  o  discurso  (idem:  31)  é  uma  “unidade  do  plano  de  conteúdo;;  é  o  nível  do  percurso  gerativo   de  sentido,  em  que  formas  narrativas  abstratas  são  revestidas  por  elementos  concretos.  Quando  um  discurso  é   manifestado  por  um  plano  de  expressão  qualquer,  temos  um  texto”.

26  Soares,  2002:  18.

27  Como  explica  Teun  Van  Dijk  (2000:32):  “En  el  estudio  del  discurso  como  acción  e  interacción,  el  contexto  es  

crucial.  [...]  El  discurso  se  produce,  comprende  y  analiza  en  relación  con  las  características  del  contexto.  Por   lo  tanto,  se  interpreta  que  el  análisis  social  del  discurso  define  el  texto  y  el  habla  como  situados:  describe  el   discurso  como  algo  que  ocurre  o  se  realiza  “en”  una  situación  social.”  

28  Nóvoa,  2002:  11. 29  Gramsci,  1978:  65.

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uma   relação   descritiva   e   participativa   com   as   formas   de   organização,   relações   de   poder,   discursos,   conflitos,   e   evolução   ideológica   dos   movimentos,   classes   e   grupos   sociais,   e   que   não   só   permita   reconstituir   um   determinado   contexto   histórico,   conforme   propõem   autores   como   Foucault,   Maingueneau  ou  Teun  van  Dijk30,  como  um  quadro  de  estudos  amplo  e  representativo.  Em  todo  este  

processo,  contudo,  importará  ter  em  conta  que  a  atividade  da  imprensa  não  depende  mais  de  um  facto   do   que   de   qualquer   outro,   importando   que   uma   tal   identificação   não   se   subordine   à   necessidade   de   chegar   à   receção   e   perceção   da   Revolução   Russa,   subvertendo   aquela   que   pode   ser   a   dimensão   do   fenómeno  em  face  de  outros  e  da  sua  própria  representação  –  ou  seja,  que  o  processo  revolucionário   russo  seja  representado  em  função  dos  demais  acontecimentos  nacionais  e  estrangeiros  e  vice-versa,   sem  que  isso  se  traduza  numa  demanda  de  tipos  específicos  de  imprensa.  

Impõem,  depois,  que  se  proceda  à  seleção  de  uma  amostra.  Critérios  como  disponibilidade31  e  

formato,  tiragem  e  difusão,  tipo  e  filiação  do  jornal  e  sua  duração  e  local  de  edição,  formulados  sob  a   leitura  de  literatura  especializada  e  do  contacto  com  a  imprensa  de  época  e  já  previamente  ensaiados,   apontaram  à  necessidade  de  organização  e  racionalização  do  tempo  e  da  informação,  à  crença  de  que   uma  maior  dimensão  e  impacto  de  um  jornal  se  traduzem  num  maior  interesse  no  seu  arquivamento  e   conservação,  e  ao  ensejo  de  transpor  para  a  análise  o  relevo  e  a  proporção  dos  mais  distintos  tipos  de   publicações,   valorizando   as   que,   pela   maior  duração  coincidente  com   o   lapso  em   estudo,   melhor   se   prestam  à  análise  da  receção  e  do  impacto  e  das  suas  eventuais  tendências  ou  alterações.  No  entanto,   ainda  que  tenham  permitido  seriar  uma  representativa  amostra  de  três  dezenas  de  publicações  entre  as   quatro   centenas   conhecidas   no   período   em   estudo,   não   só   excluíram   alguns   títulos   semanais   ou   quinzenais  com  a  importância  da  Bandeira  Vermelha  ou  do  ABC,  ou  ainda  outros,  como  o  Diário  de  

Lisboa   ou   O   Norte,   de   publicação   intermitente   ou   apenas   parcial   dentro   do   lapso   de   análise;;   como  

acabaram  não  só  por  ceder  primazia  aos  jornais  que,  pela  sua  associação  às  cúpulas  do  poder  político  e   económico,   parecem   conhecer   uma   maior   regularidade   e   estabilidade,   como   por   assumir   para   as   distinções  entre  imprensa  generalista  e  ideológica  e  entre  imprensa  burguesa  e  operária,  diferenças  de   representação   e   perceção,   que   nem   dependem   tanto   da   filiação   de   um   jornal,   como   do   contexto   e   condições  de  receção.    

Longe  da  inutilidade  que  se  lhe  pode  supor,  tal  seriação  foi  apenas  rematada  pelo  derradeiro   critério  de  deixar  falar  as  fontes  e  compreender  como  estas  se  convocam  para  o  palco  da  confrontação   ou   da   adulação   ao   sabor   dos   acontecimentos,   parando   apenas   ante   a   perceção   da   redundância   da   consulta   de   algumas   outras.   Daqui   derivam,   portanto,   as   quarenta   e   cinco   publicações   que   servirão   definitivamente   a   esta   tese,   cuja   análise   se   faz   em   ponto   próprio   e   cujos   dados32  se   apresentam   em  

30  Vide  Foucault  (2005),  van  Dijk  (2000)  e  Maingueneau  (1993).  Este  último  diz,  do  discurso  jornalístico,  que  é  o  

resultado  da  sua  posição  sócio-histórica,  e,  portanto,  estribado  pelo  contexto  de  criação  (1993:  14).

31  Em  Portugal,  recorde-se,  o  depósito  legal  é  estabelecido  em  1923,  e  o  depósito  legal  de  publicações  impressas  

só  passa  a  ser  obrigatório  a  partir  de  1931.  

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anexo  –  é  que  será  pertinente  ler,  com  a  qualidade  e  estampa  de  um  DN,  sobre  os  “Acontecimentos  em   Petrogrado”,  mas  sê-lo-á  também  compreender  como,  ao  repto  de  “Proletários  de  todo  o  mundo...”,  o   mal  estampado  Avante!  de  1919  alarma  a  burguesia.  Muito  naturalmente,  um  tal  número  explica-se  na   ideia  de  que  aumentando  os  títulos,  aumentam  os  limites  da  caracterização,  da  análise  e  da  qualidade   deste   estudo;;   mas   explica-se   também   pelo   facto   de   nunca   se   publicar   num   mesmo   momento   a   totalidade  destes  títulos  e  de  não  serem  tantos  ou  tão  certos  os  dados  conhecidos  ou  disponíveis  para  a   imprensa   da   época.   Depois,   conquanto   sejam   órgãos   de   referência   ou   baseiem   ou   mimetizem,   em   muitos  casos,  a  informação  de  outros  jornais,  nem  mesmo  uma  tão  ampla  amostra  pode  dar  conta  da   profusão   de   outros   jornais,   diários   ou   não,   urbanos,   regionais,   insulares   ou   mesmo   coloniais,   nem   daquela  vinculada  a  atitudes  de  classe  específicas,  quer  entre  o  patronato,  quer  entre  o  operariado.

Superada  esta  fase,  impõe-se  ainda  proceder  a  uma  seleção  dos  artigos,  à  sua  leitura  e  análise   das  fórmulas  e  mecanismos  de  elaboração  das  representações,  avaliando  em  que  medida  tendem,  ou   não,  para  uma  produção  de  discursos  mais  ou  menos  tipificados;;  finalmente,  que  se  avalie  o  impacto  e   fixação   dessas   tipificações   no   sentido   de   uma   associação   ou   dissociação   a   possíveis   disputas   ideológicas,   em   função   de   aspetos   como   a   sua   origem,   o   seu   conteúdo,   a   sua   relação   com   as   características  do  suporte  e  com  o  contexto  da  sua  produção.  Pretende-se,  pois,  chegar  não  apenas  ao   tipo   de   mecanismo   de   receção   e   elaboração   de   uma   ou   várias   tipologias   de   representações,   mas   também   ao   teor   das   relações   que   se   estabelecem   entre   distintos   grupos   e   interesses   e   os   órgãos   de   imprensa  que  lhes  são  contrários  ou  favoráveis,  determinando  se  agem  individualmente  ou  por  reação,   quer  ao  nível  organizativo,  quer  ao  nível  dos  ideários  entre  movimentos  que  defendam  ou  se  oponham   ao  modelo  demoliberal.  Pretende-se  também,  para  além  das  contribuições  tidas  por  certas  pela  maioria   dos  investigadores,  como  a  difusão  do  marxismo  e  de  um  modelo  de  partido  único,  compreender  se   outras  houve,  mais  ou  menos  relevantes,  ou  se  atuou  mormente  como  um  catalisador  sobre  condições   previamente  existentes  ou  então  introduzidas.  

Tudo  isto  se  socorre,  entretanto,  de  uma  análise  da  construção  discursiva33,  de  conteúdo  e  da  

comparação  contrastiva  entre  as  fontes  de  imprensa  e  entre  estas  e  outras  obras,  sem  as  quais  o  modelo   não   estaria,   entretanto,   completo.   À   primeira   cabe   apenas   atentar   na   forma   como   os   discursos   são   criados  à  luz  do  contexto  histórico  em  que  se  integram.  A  análise  de  conteúdo  permite,  para  além  do   que  no  texto  tem  um  carácter  meramente  informativo,  descortinar  e  compreender  o  que  é  subjetivo  e   veiculado   a   fim   de   influir   sobre   o   público   leitor.   A   comparação   contrastiva,   por   seu   lado,   permite   confrontar  os  conteúdos  das  diversas  fontes  de  imprensa  entre  si  e  com  o  de  outras  pertinentes,  mas   também  os  temas  e  linhas  de  investigação  a  desenvolver  aqui  com  os  de  outros  investigadores.

Explanados   que   foram,   assim,   os   problemas,   objetivos   e   metodologia   desta   tese,   restará,  

contacto  direto  com  as  fontes,  mas  sempre  devedor  do  esforço  de  Matos  e  Lemos  (2006).  

33  Construção  discursiva,  como  a  define  Foucault,  é  a  capacidade  de  reconhecer:  “[…]  semelhantes  sistemas  de  

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porventura,   fazer   uma   curta   referência   à   sua   organização   e   estilo.   No   que   respeita   à   organização,   importará  dizer  que  o  corpo  da  tese  se  divide  em  três  partes  –  esta  é  a  estrutura  que  consagra  não  só  a   importância   que   a   imprensa   e   a   sua   análise   têm   para   esta   tese,   mas   também   a   ideia   de   um   diálogo   histórico   entre   a   Rússia   e   Portugal.   Assim,   na   primeira,   faz-se   uma   revisão   crítica   da   bibliografia   historiográfica  estrangeira  e  nacional,  bem  como  de  algumas  outras  obras  nacionais  de  que  esta  tese  é   largamente   tributária.   Na   segunda   parte,   consagrada   a   algumas   generalidades,   procede-se   a   uma   caracterização  da  imprensa  portuguesa  de  época,  a  uma  comparação  entre  Portugal  e  Rússia  e  ainda  a   uma   reconstituição   das   relações   entre   os   dois   países.   Já   à   terceira,   finalmente,   cabe   uma   análise   paralela   da   receção   e   da   perceção   do   impacto   da   Revolução   Russa   na   imprensa   portuguesa,   a   que   assiste  a  necessidade  quer  de  distinguir  entre  a  profusa  uniformidade  informativa  e  aquelas  que  são  as   atitudes   específicas   assumidas   dentro   de   cada   jornal,   quer   de   amortecer,   na   abordagem   de   um   fenómeno  concreto,  o  impacto  que  uma  receção  decorrente  de  fortes  condicionamentos  informativos   poderia   ter   sobre   a   ideia   da   perceção,   quer   ainda   de   trazer   à   análise   da   receção   a   contextualização   internacional  de  que  carece  para  ter  a  ordem  e  o  sentido  de  que  a  análise  da  perceção  beneficiará  já   numa  relação  concreta  com  o  contexto  nacional.  Diz-se  paralela,  porque  mesmo  enformando  subpartes   distintas,   Receção   e   Perceção   encerram   um   semelhante   número   de   capítulos   e   pontos,   temática   e   cronologicamente   correlacionados.   Uma   tal   organização   reconhece   e   realça   a   existência   de   uma   periodização   intrínseca   a   dois   fenómenos   –   o   processo   revolucionário   russo   e   a   crise   do   sistema   demoliberal   português   –   e   dentro   da   qual   estes   podem   estruturados   e   analisados,   isolada   ou   conjuntamente,  sem  confusão  ou  assimilação  de  nenhum,  e  determinando  quais  foram  as  interferências   de   todos   os   acontecimentos:   no   primeiro   período,   compreendido   entre   1917   e   1918,   focam-se   os   derradeiros   anos   da   guerra   e   os   seus   efeitos   tanto   na   desestabilização   política   europeia,   como   no   condicionamento  da  representação  da  Revolução  Russa;;  no  segundo,  entre  1919  e  1921,  procede-se  a   uma   abordagem   da   Guerra   Civil   russa   e   da   defesa   do   processo   revolucionário   à   luz   do   desenvolvimento  do  movimento  social  português  e  do  surgimento  de  uma  nova  imprensa  operária;;  no   terceiro,  entre  1921  e  1924,  atenta-se  na  aplicação  da  NEP,  na  questão  do  reconhecimento  diplomático   da  URSS  e  na  internacionalização  da  ameaça  comunista  em  face  da  cisão  operária,  da  pulverização  das   forças  demoliberais  e  do  impacto  do  fascismo  e  do  riverismo  na  agregação  das  forças  conservadoras;;   no  derradeiro,  de  1924  em  diante,  analisa-se  a  chegada  de  Estaline  ao  poder,  a  internacionalização  da   ideia  da  ameaça  comunista  e  o  aprofundamento  da  crise  política  em  Portugal  e  o  advento  da  ditadura.  

Nota  diversa,  mas  ainda  assim  afim  a  estoutras  de  caráter  teórico-metodológico,  é  a  que  cabe   ao  estilo.  Neste  ponto,  esta  tese  procura,  na  já  sugerida  correlação  entre  receção  e  perceção,  dar  conta   do  processo  revolucionário  russo  e  da  crise  do  sistema  demoliberal  português  de  forma  simultânea  e   cronológica,  por  considerar  que  só  assim  é  possível  reproduzir  a  sua  evolução,  como  a  da  imprensa   que   lhe   dá   suporte   físico,   como   ainda   a   do   contexto   que   integra.   Destarte,   intenta   aproximar-se   da  

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perspetiva   do   leitor   da   época,   que   não   vê   assim   tão   diferente   do   atual,   em   face   de   uma   tão   grande   oferta   de   títulos,   notícias,   figuras   e   lugares   e   acidentes   de   uma   geografia   que   sabe   imensa   e   imensamente  distante.  Privilegia,  portanto,  e  sempre  que  o  sentido  do  texto  e  o  espaço  o  permitem,  a   citação   parcial   ou   integral   destas   notícias   em   face   de   quaisquer   outras   considerações.   Porém,   não   crendo   pertinente   –   tratando-se   de   textos   da   primeira   metade   do   século   XX   –   a   manutenção   da   ortografia   de   época,   salvo   assinaladas   exceções,   este   trabalho   tinha-a   já   modernizada,   quando   o   processador   de   texto,   dando   seguimento   ao   despacho   ministerial,   a   reatualizou   pelo   Acordo   Ortográfico  –  Althusser  di-lo-ia  não-violentamente  vitimado  pelo  exercício  do  poder  do  Estado,  mas   nem  há  como  fazer  funcionar  o  Word  ante  uma  profusão  de  “novos”  erros.  

Mas  nem  o  problema  se  assemelhou  tão  grave  quanto  aquele  da  transliteração  e  uniformização   da   grafia   de   nomes   e   topónimos   estrangeiros,   mormente   russos.   Para ambos os casos e sempre que possível  recorre-se  a  formas  já  consagradas  na  língua  portuguesa  ou  noutros  estudos  de  referência  em   português;;   nas   demais   situações,   contudo,   afinamse   as   terminações   mais   comuns,   em   ev, ov e -ine, naquelas que noutros textos e fontes possam aparecer, respetivamente, como -eff, -off, –in ou quaisquer   outras   variações,   aceitando   ainda   a   terminação   -sky,   não   só   por   ser   a   mais   comum   às   transliterações  da  terminação  -цkий, mas por ser ainda a que vulgarmente distingue os nomes russos dos polacos, grafados com -ski.  Para  todas  as  outras  situações,  convenciona-se  a  utilização  da grafia mais  próxima  da  sua  realização  fonética,  importando,  afinal,  deixar  claro  de  quem  ou  de  que  lugar  se   trata, e referir-se-lhe  sempre  da  mesma  forma.  Tratando  especificamente  dos  topónimos,  importará  ter   em conta que mudaram alguns e que outros ainda  se  perderam  para  o  tempo  ou  a  imensidão  da  Rússia   (termo  já  por  si  impreciso)  e  de  quase  toda  a  Ásia,  fazendo  este  trabalho  por  informar,  em  não  poucos   casos,  da  sua  função  e  localização  face  aos  acontecimentos.

Um problema adjacente e que vulgarmente se põe  a  outros  trabalhos  sobre  a  Rússia  é  o  das   datações,   uma   vez   que   o   calendário   Juliano,   com   treze   dias   de   atraso   em   relação   ao   Gregoriano,   vigorou   aí   até   14   de fevereiro de 1918 – e esta data refere-se   apenas   aos   territórios   sob   controlo   bolchevique, posto  que  naqueles  ocupados  pelas  forças  Brancas,  o  calendário  Juliano  manter-se-á  em   uso   até   ao   final   da   Guerra   Civil,   em   1920.   Partindo   de   uma   análise   da   imprensa   portuguesa,   no   entanto,  só  raríssimas  vezes  ele  se  põe  a  este  trabalho,  que,  então,  apresenta as duas datas.

Cai  também  no  estilo  a  questão  das  referências  bibliográficas,  em  que  não  só  se  suprime,  ou   contrai  com  a  preposição  precedente,  o  artigo  definido  que  integra  o  título  de  alguns  jornais  (ex.:  o   artigo do Século; O Século é…),   agilizando   a   referência   no   corpo   de   texto   e   a   leitura;;   como,   e   deliberadamente   contrariando   as   normas   de   formatação   e   apresentação   gráfica   definidas   pelo   Departamento  de  História  do  ISCTE,  se  faz  seguir  à  citação  de  uma  fonte  de  imprensa  a  respetiva  nota   de   referência   ((título),   data:   número   de   página),   não   só   por   serem,   nalguns   casos,   em   tão   grande   número   que   ocupariam,   em   rodapé,   uma   boa   parte   da   página,   como   por   igualmente   empecerem   a   compreensão  do  texto,  como  ainda  por  levarem  a  algumas  repetições  supérfluas.

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Finalmente,   este   trabalho   mantém   no   original   todas   as   citações   estrangeiras   que   apresenta,   eximindo-se  ao  esforço  de  traduzir  o  que  pode  facilmente  ser  compreendido  pelo  mais  inábil  leitor  de   inglês,   francês   ou   castelhano.   Igualmente   se   exime   da   apresentação   de   uma   tábula   de   notações,   por   considerar  que  as  siglas  e  acrónimos  utilizados,  sempre  introduzidos  por  extenso  no  texto,  são  ainda  do   conhecimento  comum.

Posto  isto,  e  contando  ter  introduzido  suficientemente  nesta  tese,  restará  ainda,  mesmo  antes   dos costumeiros  votos  de  uma  agradável  leitura,  uma  explicação,  crê-se que oportuna, da sua origem e percurso. Resulta esta   de um projeto intitulado Representações   da   Revolução   Russa   na   Crise   dos  

Sistemas Demoliberais da Europa do Sul entre 1917 e 1939, em que se aventava   a   hipótese   deste  

processo  revolucionário,  radicalizado  nas  suas  representações  de  imprensa,  ter  favorecido  o  advento  de   uma  ordem  ditatorial  em  Portugal,  Espanha  e  Itália,  mas  que,  compreendidas  as  dificuldades  inerentes   a tamanha empresa e o curto   desenvolvimento   que   a   temática   conhece,   acabei   reduzindo   ao   caso   nacional  e  a  um  período  mais  curto.  

Saído   de   uma   licenciatura   em   Línguas   e   Literaturas   Modernas   – variante de Estudos Portugueses,  com  que  escapei  ao  desemprego  ou  a  uma  colocação  a  algumas  centenas  de  quilómetros   de   casa   apenas   pela   emigração   a   alguns   milhares   mais,   tem   surpreendido   a   opção   por   um   doutoramento  em  História  Contemporânea,  ademais  tratando  da  Rússia  revolucionária  e  da  não  menos   convulsionada  I  República  Portuguesa.  Justifico-o  com  um  interesse  pela  área  científica  e  pela  matéria,   que sempre e ilogicamente tenho visto desprovidas de estudos.

São  poucos,  hoje,  os  que  ainda  se  podem  arrogar  de  ter  vivido  no  primeiro  quartel  do  século   XX, mas muitos tiveram o seu pouco de Guerra Fria. Eu tive-a no urso Micha, no Nikita do Elton John e  nas  bulhas  do  pátio  da  escola:  à  pergunta  “Índio  ou  Cowboy?”,  respondia  invariavelmente  “Russo!”.   Escolhendo lados, escolhia a URSS, porque tinha selos, brinquedos e desenhos animados bonitos e porque   alguma   razão   havia   para   que   o   Carlos   Fino   ficasse   tanto   tempo   num   país   tão   frio.   Não   me   aqueceu, portanto, assistir ao   desaparecimento   de   um   país   por   cujos   destinos   eu   me   batera   e   saíra   tantas  vezes  vitorioso,  mais  por  mau  carácter  do  que  por  conhecimento;;  mas  decorei  os  novos  países   que  a  desagregação  criou  e  tive  ainda,  depois,  de  arranjar  espaço  para  a  nova  geografia  dos  Balcãs.  

Foi   notável  a  eficiência  e  indiferença  com  que  a  escola  e,  por  sinal,  todo  o  mundo  à  minha   volta  se  adaptaram  à  nova  realidade.  Adaptei-me  também,  até  que,  já  no  secundário  e  depois  de  me   guiarem,  incólume,  da  Pré-História  à  Revolução  Industrial,  de  novo  me  travaram  a  atenção  na  Rússia,   em  que  entrei  por  um  filme  de  Eisenstein  a  tomar  um  chocolate  com  a  Natalie  no  Café  Pushkine  – o que  é  um  bom  professor  e  a  gente  tê-lo!  Importante  foi  ainda  a  descoberta  da  I  República  Portuguesa,   talhada a bombas e ideais no  canto  que  sempre  me  haviam  vendido  como  o  mais  pacato  da  Europa.  É   preciso  aceitar  sem  complexos  e  vergonhas  a  memória  da  juventude  para  compreender  o  que  é  gostar   de certa forma de algumas coisas.

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Foram  inúmeras,  entretanto,  as  voltas  que  dei,  mas  direi apenas que, terminando a licenciatura e   já   considerando   a   possibilidade   de   seguir   para   doutoramento,   discutia   com   os   professores   Robert   Rowland  e  Ângela  Miranda  Cardoso  possíveis  temas  de  tese,  e  foi  o  primeiro  que  sugeriu,  conhecendo   de   antemão   os   meus interesses,   um   estudo   do   impacto   da   Revolução   Russa   na   crise   do   sistema   demoliberal   português   e,   por   acréscimo,   do   espanhol   e   do   italiano   – e   não,   não   havia   muita   coisa   escrita sobre o assunto, e sim, era isso mesmo que o justificava. Entretanto, o Professor  António  Costa   Pinto cedeu-me  a  honra  da  sua  orientação,  o  ISCTE  acolheu-me como aluno e a FCT concedeu-me uma   bolsa,   porque,   afinal,   não   era   tão   mau   aluno   de   Filologia   que   não   pudesse   vir   a   ter   alguma   oportunidade  em  História  – Esperaaaaança,  cantaria  o Solnado!

Durou  a  empresa  mais  do  que  a  conta,  é  verdade,  mas  há  trabalhos  com  trezentas  páginas  que   se  atêm  a  um  dia  da  história  da  Humanidade  e  o  meu  atém-se a dez anos. São  vinte  dossiês  de  lombada   larga,   uma   boa   dúzia   de   CD   de   dados   e   cerca   de   quatro   mil   artigos   de   fundo,   crónicas,   imagens,   notícias  e  notas,  cuja  simples  compilação  costumava   ser  matéria  de  respeito…  no  tempo  em  que  os   doutoramentos   custavam   boas   notas,   tempo   e   esforço   –   somos   já   “[...]   práqui   uma   gentalha   a   fazer   passamanes  com  a  história  [...]”,  mas  haja  ECTS!  Antes  que  o  meu  filho,  portanto,  lhes  faça  o  que  eu,   apenas  às  contas  de  muito  esforço  e  chá  de  camomila,  deixei  de  lhes  fazer  nalgum  dia  de   Halny  ou   Suão,  cedê-los-ei,  de  bom  grado,  a  quem  os  quiser.   E durou, afinal, para que me trouxesse a vida a leste; para que visse progredir, de novo e por toda a Europa, os maiores exacerbamentos conservadores e  nacionalistas,  sempre,  por  estas  bandas,  apontados  à  Rússia;;  para  que  sentisse,  como  tantos  outros,  os   efeitos de uma grave crise financeira  com  curiosa  reincidência  meridional;;  e  para  que  a  New Eastern

Europe34 me  avisasse,  já  próximo  de  acabar  esta  tese,  do  fim  da  era  pós-soviética  e  do  negro  futuro  dos   países  da  antiga  União.  

Muito se alteraram, entretanto, os meus interesses e mais ainda cresceram as minhas desilusões.  Tenho   agora   mais   certa,   no   entanto,   a   oportunidade   desta   tese,   como   tenho   em   crer   que   quem  não  a  enxergar,  quem  julgar  extemporâneos  os  estudos  sobre  a  Rússia  ou  a  União  Soviética  na   ponta   diametralmente   oposta   da   Europa,   ou   quem   disser   absurda   uma   relação   entre   o   processo   revolucionário  russo  e  o  fim  da  I  República,  desse  mesmo  absurdo  de  que  se  faz  o  silêncio  em  torno  do   tema,   não   só   persiste   na   incompreensão   e   desconhecimento   da   Rússia   que   caracteriza   as   coevas   representações   da   imprensa   a   estudar   aqui,   como   incorre   em   comprometimentos   a   que   cônscia   ou   convenientemente se julga estar esquivando, e defrauda ainda ao advento da ordem ditatorial em Portugal uma parte substancial  das  suas  causas,  dos  seus  partícipes  e  dos  seus  efeitos,  talhando  curta  a   possibilidade   de   uma   mais   completa   compreensão   das   suas   origens,   efeitos   e   significação.  

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I  CAPÍTULO  –  O  IMPACTO  DA  REVOLUÇÃO  RUSSA  NALGUMA  

BIBLIOGRAFIA  ESPECIALIZADA

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1.  Apresentação  e  revisão  bibliográfica

Um  problema  sempre  caro  a  esta  tese  foi  o  da  identificação  dos  estudos  que  especificamente   abordassem  o  impacto  internacional  da  Revolução  de  Outubro,  cedo  empreendendo  uma  pesquisa  por   inúmeras   bases   bibliográficas   nacionais   e   estrangeiras,   que   bem   depressa,   porém,   começaria   a   evidenciar  os  seus  problemas.  Em  poucas  palavras,  estudos  sobre  a  Revolução  Russa  ou  sobre  a  União   Soviética  são   muitos,  estudos   consagrados  ao  seu  impacto   no   estrangeiro   são   alguns,   referências   na   historiografia   portuguesa   são   poucas,   estudos   apostados   na   articulação   e   análise   das   relações   entre   grupos  distintos  no  âmbito  da  receção  e  formulação  das  sua  primeiras  representações  e  seu  impacto  em   Portugal  são  nenhuns,  e  à  falta  de  maior  especificidade,  de  tudo  isto,  igualmente,  se  terá  que  que  servir   esta   tese.   Ampla   e   difusa,   a   bibliografia   a   apresentar   reflete,   assim,   todos   os   problemas   de   uma   compilação,  cujo  eixo  continua  a  ser  a  receção  e  perceção  do  processo  revolucionário  russo,  mas  cujos   limites   se   alargaram   bem   para   além   do   pretendido   ou   inicialmente   pensado,   tocando   a   não   poucos   estudos  e  fontes,  tanto  estrangeiros  como  nacionais.  

Com   a   compilação   de   obras   estrangeiras   não   se   pretende,   é   mor   que   se   explique,   coligir   a   totalidade  dos  estudos  e  linhas  de  investigação  em  torno  da  Revolução  Russa,  ou  tão-pouco  ensaiar   uma  caracterização  do  seu  impacto  noutros  países,  posto  que  não  haveria  coragem  para  tentar  fazer  em   poucas  linhas  o  que,  para  o  caso  português,  levara  alguns  anos  –  o  que  se  pretende,  sim,  é  assinalar   alguns  dos  distintos  contributos  estrangeiros  para  a  história  do  impacto  da  Revolução  fora  da  Rússia.   Depois,   proceder   a   uma   compilação   da   bibliografia   estrangeira   não   se   justifica   apenas   pela   possibilidade   comparativa,   mas   ainda   porque,   apesar   das   representações   veiculadas   pela   imprensa   portuguesa   serem   intrinsecamente   nacionais,   pelo   menos   ao   nível   da   produção   do   discurso,   elas   derivam  quase  sempre  de  notas  de  imprensa  estrangeira,  direta  ou  indiretamente  recolhidas.  Importa,   assim,  ter  uma  ideia,  nem  que  muito  geral,  do  que  se  escrevia  lá  fora,  para  melhor  compreender  o  que   passava  cá  dentro,  e  para  compreender,  igualmente,  quanto  se  mudou  e  quanto  vinha  já  mudado.  Mas   importa,  igualmente,  que  na  carência  ou  insuficiência  dos  estudos  nacionais,  não  deixe  esta  tese  de  se   sentir  bem  informada  ou  fundamentada.  

 Sobre   estes,   sem   grande   injustiça   se   pode   afirmar   que   raras   vezes   se   ativeram   ao   processo   revolucionário  russo35,  e,  quando  o  fizeram,  foi  curtamente  e  atentando  ou  na  sua  ação  ideológica  na  

reorganização   dos   movimentos   operários   nacionais,   à   medida   que   procuravam   registar   ou   definir   a   penetração  do  comunismo;;  ou  no  seu  impacto  na  I  República  e  nos  estratos  sociais  que  perfilharam  e   prepararam  a  ascensão  do  salazarismo,  em  alusões  que  não  vão  além  de  uma  frase  e  enformam  a  ideia   de  uma  ameaça  que  pesa  sob  a  sociedade  burguesa,  ou,  com  alguma  simpatia  e  aprofundamento,  uma  

35  Joaquim   Palminha   Silva   (1984)   escrevia:   “Não   existe,   até   ao   momento   em   que   concluímos   este   trabalho,  

nenhum  estudo  nem  inventário  sobre  obras  de  propaganda,  divulgação  ou  crítica,  tanto  à  revolução  como  à   Rússia  dos  Sovietes;;  obras  da  autoria  de  portugueses  ou  traduções  que  editoras  de  ocasião  ou  casas  de  nome   feito  lançaram  no  mercado  a  partir  de  1981.”  (idem:  315).  Deste  então,  não  foram  muitos  mais  os  contributos.

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