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Cad. Saúde Pública vol.9 número4

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Academic year: 2018

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Cad. Saúde Públ., Rio de Janeiro, 9 (4): 419-420, out/dez, 1993 419

EDITORIAL /

EDITORIAL

D

esde muito cedo em suas carreiras, pes-quisadores de todas as áreas vão-se fami-liarizando com o sistema de “revisão pelos pares” (peer reviewing) de seus manuscritos.

Trata-se de importante mecanismo que, em essência, prescreve que os trabalhos científicos devem passar necessariamente pela avaliação de membros da comunidade de cientistas da área.

No que se refere às publicações científicas em geral, o processo de peer reviewing iniciou-se com a Philosophical Transactions of the Royal Society, uma das primeiras revistas científicas,

fundada em Londres, em 1665, e até hoje publi-cada. Por ocasião da criação da revista, o Con-selho da Sociedade instituiu “[that the Philo-sophical Transactions] ...be licensed ...being first reviewed by some members of the same”1. Tal

mecanismo constitui a essência do atual sistema de revisão pelos pares tão proclamado pelos principais periódicos científicos.

Até o surgimento das revistas, a difusão do conhecimento científico fazia-se de forma mo-rosa e restrita, em geral baseado na troca de correspondência, relatórios e/ou publicações próprias. O advento dos periódicos revolucionou o sistema de informação em ciência, pois não apenas permitiu o acesso de idéias e novas descobertas a um público maior, como também garantiu um mínimo de qualidade aos trabalhos publicados, já que os mesmos haviam que passar pelo crivo dos referee da institução responsável

por sua publicação.

É interessante notar que, em seus primórdios, várias sociedades responsáveis por publicações (e.g., a Academie Française e a Royal Society)

e, em particular, seus editores, tinham como praxe literalmente refazer experimentos para “autenticá-los” antes de autorizar sua publicação para garantir sua “veracidade”2,3. Nos dias de

hoje, com o processamento de milhares de manuscritos por ano que são submetidos ao que poderíamos chamar de “sistema de periódicos científicos mundial”, imagine se fosse de rotina conferir cada detalhe de um manuscrito, refazer experimentos ou análises estatísticas?

Atualmente, peer review consiste basicamente

de um sistema de triangulação entre editores, consultores e autores que visa garantir minima-mente a originalidade e, até certo ponto, a autenticidade do trabalho a ser publicado. No caso dos Cadernos de Saúde Pública, por

exem-plo, todos os manuscritos são revisados por, ao menos, dois consultores. Isto ocorre sem que autores e revisores saibam da identidade uns dos outros, ou seja, algo como um sistema duplo-cego. Para a revista, assim como para os autores, este mecanismo traz várias vantagens, destacando-se a verificação acerca da adequação dos métodos, indicação de referências bibliográficas e de possíveis pontos do trabalho a serem me-lhor explorados. No entanto, para que o sistema funcione, é fundamental que o corpo de consul-tores seja constituído por especialistas reconhe-cidos que, antes de qualquer coisa, sejam tam-bém autores.

Muitas análises críticas têm sido produzidas a respeito do sistema de peer reviewing, por vezes apontando falhas graves, contribuindo para a reflexão e aperfeiçoamento do sistema4,5,6.

Al-guns estudos, por exemplo, têm destacado a influência da filiação institucional dos autores na aceitação ou não de um artigo e a relativamente baixa concordância entre pareceres acerca de um mesmo manuscrito7,8.

Não restam dúvidas quanto aos problemas inerentes ao peer reviewing. Contudo, este

sistema é ainda o mais utilizado para prover assessoria técnica aos editores na avaliação de manuscritos. Para o seu aperfeiçoamento, é fundamental que editores e consultores concor-dem com os pontos centrais que devem nortear a avaliação de um manuscrito: sua contribuição à disciplina, originalidade e adequação do desen-ho da pesquisa. Da parte da revista, deve ser estimulada a submissão do trabalho a um núme-ro maior de consultores (muitas revistas já trabalham com até cinco consultores por ma-nuscrito) visando minimizar o impacto da sub-jetividade e preferências pessoais sobre a tomada de decisão final. Esperamos que se inicie no Brasil uma discussão mais ampla acerca do sistema de publicação científica visando o aper-feiçoamento das revistas nacionais.

Carlos E. A. Coimbra Jr.

Referências: (1) Bull Sci Technol Soc, 1: 427-37, 1981; (2) Science as a Process (D. L. Hull), Chicago U. P., 1988; (3)

The Sociology of Science (K. Merto), Chicago U.P., 1973; (4)

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