Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa
A PERÍCIA PSIQUIÁTRICA E A SUA VALORAÇÃO NO PROCESSO PENAL PORTUGUÊS
UMA ANÁLISE SOBRE O ART.163.ºC. P. P
Catarina Emília de Campos Prates de Oliveira Mestrado em Direito e Ciência Jurídica
Área de Especialização:
Direito Penal e Ciências Criminais
Lisboa, 2020
Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa
A PERÍCIA PSIQUIÁTRICA E A SUA VALORAÇÃO NO PROCESSO PENAL PORTUGUÊS
UMA ANÁLISE SOBRE O ART.163.º C.P.P
Catarina Emília de Campos Prates de Oliveira Mestrado em Direito e Ciência Jurídica
Área de Especialização:
Direito Penal e Ciências Criminais
Dissertação apresentada em sede do Mestrado em Direito e Ciência Jurídica da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, como requisito parcial à obtenção do título de mestre em Direito na área de Ciências Jurídico- Criminais
Orientador: Professor Doutor Paulo de Sousa Mendes
Lisboa, 2020
Aos meus pais,
Agradecimentos
Esta dissertação é o fim de um ciclo que dura desde que pisei, pela primeira vez, a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Estaria a mentir se escrevesse que foi um percurso fácil. Pelo contrário, foram anos com muitos desafios e, por vezes, alguma desmotivação. Ainda assim, o gosto pelo Direito permitiu-me sempre voltar onde estava e continuar o caminho. Por fim, entrego aquilo que é, para mim, o meu contributo e a investigação numa das áreas que mais me cativou – o Processo Penal.
Esta conquista nunca teria sido possível sem o apoio daqueles que estiveram sempre comigo: quer os que acompanham este caminho desde o início, como aqueles que surgiram, entretanto, e me ajudaram a finalizá-lo.
Agradeço aos meus pais, pelo amor incondicional que me têm, por toda a paciência e força que sempre me deram desde que entrei nesta Faculdade. Pelas conversas de horas e pela motivação eterna. Nunca teria conseguido se não fossem eles.
Aos meus quatro avós, pela preocupação constante, presença, disponibilidade e pelo orgulho que têm em mim.
Ao André, por toda a força, carinho, conversas de horas e trocas e ideias. Pelo companheirismo, paciência e pela motivação que me deu (e dá), diariamente. Foi fundamental nesta reta final.
À Débora e à Raquel, por serem as minhas companheiras de faculdade que ouvem, desde o início, os meus desabafos e dúvidas, tendo sempre uma palavra amiga para me dar.
Ao meu orientador, Professor Doutor Paulo de Sousa Mendes, pela orientação na elaboração desta dissertação e disponibilidade para as minhas questões e hesitações.
Aos meus professores de mestrado: Professora Doutora Maria Fernanda Palma, Professor Doutor Augusto Silva Dias e Professor Doutor Rui Soares Pereira, pela sabedoria e inspiração transmitidas ao longo das diversas aulas.
Por último, mas não menos importante, a todos os meus amigos e amigas, que sempre acreditaram em mim (às vezes, mais do que eu própria) e me relembram constantemente, das minhas competências.
I
Resumo
Surgem cada vez mais questões a propósito de algumas decisões dos tribunais seguirem, sem questionarem, juízos técnicos e científicos das perícias ou, por outro lado, ignorarem a existência das últimas as quais, por sua vez, têm um papel relevante na análise da imputabilidade dos arguidos. Em última instância, pode-se verificar alguma confusão no papel do perito com o do juiz. Todavia, existem casos em que o quadro clínico não é suficiente para considerar o agente inimputável, da mesma forma que a decisão sobre a perigosidade criminal, não obstante poder necessitar de perícias, cabe ao juiz.
À semelhança do que sucede nos sistemas jurídicos de base common law, considera- se que seria uma mais valia para o sistema processual penal português, desenvolver e definir uma base de critérios que orientassem a análise da perícia psiquiátrica, por forma a que a última não se baseasse unicamente em regras de experiência, pois conforme se pode retirar de diversas decisões dos tribunais portugueses, por muito que se justifiquem aquelas, na maioria das vezes, a argumentação em causa ocupa pouco do texto final da decisão, ou seja, não se verifica uma justificação plausível para a divergência do perito, nem uma argumentação concisa com base nos conhecimentos anteriores. Isto, por si só, coloca em dúvida a possível argumentação do juiz, retira credibilidade à mesma e, eventualmente, poderá afastar juízos perícias que, de outra forma, seriam úteis para a decisão do caso.
PALAVRAS CHAVE: PERÍCIA; PROVA; PSIQUIATRIA; LIVRE APRECIAÇÃO;
PERITO.
II
Abstract
There are many questions about court decisions that follow, without questioning, technical and scientific judges of the experts or, on the other hand, ignore the existence of those. However, expert proof has a relevant role in the analysis of imputability defendants. Ultimately, there may be some confusion between the role of an expert and the judge. Regardless, there are cases in which the clinical picture is not necessary to consider the non-imputable agent, in the same way, that the decision on criminal danger, despite, may require expertise, is up to the judge.
As it happens in the common law-based legal system, it is considered that it would be an asset for the portuguese criminal procedural system to develop and define a base of criteria to guide the analysis of psychiatric expertise, so that the latter does not depend only on rules of experience. In most cases, the argument in question occupies little of the final text of the decision, that is, it does not occur a plausible justification for the divergence of the expert, nor a concise argument based on previous knowledge. This in itself, puts in doubt about the possible argument of the judge, removes credibility to it, and, eventually, it can dispel expert judgments that, otherwise, would be useful for the decision of the case.
KEYWORDS: EXPERTISE; PROOF; PSYCHIATRY; FREE APPRECIATION;
EXPERT.
III
Abreviaturas
A., AA. autor, autores
AA.VV. autores vários
art., arts. artigo, artigos bibl. bibliografia
C.C. Código Civil
C. E. D. H Convenção Europeia dos Direitos Humanos C.P.C Código de Processo Civil
c.f. confira, confronte
cit., cits. citado, citada, etc., cita-se; citação, citações
C.P Código Penal
C. P. P Código de Processo Penal
C. R. P Constituição da República Portuguesa
D.S.M-IV Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders ed., eds. edição, edições; editora, editoras
e. g. exempli gratia (por exemplo) et al. et al (e outros)
E. U. A Estados Unidos da América
F. M. R. I Functional Magnetic Ressonance Imaging
I.N.M.L.C.F Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses, I.P.
M.M.P.D.J.P Magistrados do Ministério Público do Distrito Judicial do Porto n.º, n.os número, números
org. organizador, organização p., pp. página, páginas
parág. parágrafo
Port. Português
reimp. reimpressão rev. revisão, revista s., ss. seguinte, seguintes
S.M.M.P Sindicato dos Magistrados do Ministério Público S.T.J Supremo Tribunal de Justiça
T. R. L Tribunal da Relação de Lisboa T. R. P Tribunal da Relação do Porto T. R. E Tribunal da Relação de Évora v. g. verbi gratia (por exemplo) vol., vols. volume, volumes
Índice
Resumo ... I Abstract ... II Abreviaturas ... III
Introdução ... 1
I. As perícias no Código de Processo Penal ... 3
1. Introdução ao problema ... 3
a) O caso concreto da perícia psiquiátrica no âmbito jurídico: enquadramento do problema com base no Acórdão de 25 de janeiro de 2005 a 8 de março de 2005 Nº 9163 da Suprema Corte di Cassazione - Câmaras Criminais Unidas. ... 3
b) A prova: enquadramento geral, a génese e natureza da prova pericial no Código de Processo Penal Português ... 11
2. Admissibilidade e valoração da prova pericial ... 19
a) Critérios de Admissibilidade da Perícia ... 19
b) O valor da perícia ... 22
II. Dúvidas existentes relativamente às perícias ... 26
1. Contradição entre perícias e possíveis soluções... 26
a) Perícias Contraditórias ... 26
b) A realização de nova perícia: novo perito? ... 29
2. Distinção da perícia de outros objetos de prova ... 30
a) Perícia e Exame ... 30
b) Perícia e Testemunha ... 32
III. A Ciência e o Direito: novas realidades, critérios e meios de prova ... 34
1. A necessidade de argumentação enquanto aspeto legitimador da livre apreciação do juiz e controlo da discricionariedade ... 34
a) O sistema de prova livre: breves considerações ... 34
b) O papel da prova pericial na determinação da medida da pena ... 39
2. O teor científico que a perícia pode conferir a uma decisão judicial ... 43
a) A boa e a “má ciência” ... 43
b) Discurso jurídico e discurso médico ... 45
IV. O teor científico que a perícia pode conferir a uma decisão judicial ... 48
1. A prova científica e os seus efeitos no Direito Penal ... 48
a) A (in)imputabilidade ... 48
b) Perturbações da personalidade e o conceito de doença mental ... 53
2. A personalidade no contexto da inimputabilidade e a (in) certeza científica ... 56
a) Compreensão da relevância jurídico-penal das perturbações da personalidade num contexto dogmático ... 56
b) Incerteza científica e o problema da prova dos pressupostos da inimputabilidade ... 57
V. Últimas considerações: Consciência, lesões cerebrais e emoções – o impacto no Direito ... 61
1. O importante papel da prova pericial na compreensão do estado mental do arguido e o seu contributo para a realização dos fins das penas ... 61
a) O “medo” de se sobrevalorizar a perícia psiquiátrica ... 61
b) O relatório pericial e a (i)legítima desconfiança dos juízes: a competência exclusiva do juiz para decidir ... 67
2. O novo enquadramento da perícia psiquiátrica ... 71
a) Uma nova configuração jurídica da interdisciplinaridade com a ciência ... 71
b) Possível proposta: a prova pericial como standard ... 78
Conclusão ... 86
Bibliografia ... 90
Documentos ... 98
Jurisprudência portuguesa ... 99
Jurisprudência italiana ... 100
Jurisprudência americana ... 100
Jurisprudência T.E.D.H ... 101
1
Introdução
Nos dias de hoje a prova tornou-se num direito: o direito à prova. Por sua vez, o último concede aos sujeitos processuais garantias na realização e valorização das provas, retirando as últimas da tutela exclusiva do juiz. Desta forma, visa-se garantir a igualdade de direitos, tendo sempre por base a presunção de inocência.
Partindo de um caso da Suprema Corte di Cassazione das Câmaras Criminais Unidas, a presente dissertação incide sobre o tema da prova pericial, mais precisamente, a perícia psiquiátrica e a sua valoração em tribunal, com base no art.163.º, n.º 1 C.P.P. Com a prova pericial pretende-se facilitar a apreciação e definição dos factos concretos numa situação controversa na qual se tenha de aplicar o direito. A sua ocorrência verifica-se, sempre que, no decurso de determinado processo se necessite da perceção ou apreciação científica, artística ou técnica dos factos em causa, sendo necessário alguém com aqueles conhecimentos especiais para realizar o relatório pericial. Inevitavelmente trata-se de uma temática que acaba por relacionar outros temas conexos, nomeadamente, a imputabilidade e culpa de um arguido.
Apesar dos temas anteriormente referidos não serem o aspeto fulcral da presente investigação, os mesmos acabam por se relacionar, tendo-se ocupado certos capítulos com observações sobre aqueles. A conclusão sobre a inimputabilidade ou diminuição da imputabilidade do arguido, em virtude de anomalia psíquica, corresponde a um juízo judicial, de natureza jurídica, no entanto, aquela conclusão pressupõe o apuramento de matéria de facto, com conhecimentos científicos específicos relacionados com a psiquiatria.
O conceito de anomalia psíquica pressupõe que se analise a existência de uma perturbação do funcionamento psíquico, que não se restrinja a patologias. Nestas situações não basta que ocorra uma simples coincidência temporal da anomalia e da prática do facto, importa sim, que o perito verifique se existe um nexo causal entre aqueles elementos, ou seja, se a anomalia interferiu no processamento da informação cognitiva ou intelectual, de modo a que se possa afirmar que tal contribuiu para a diminuição da capacidade de avaliação da ilicitude do facto.
A questão principal prende-se em saber, em que medida é que as perturbações de personalidade podem afetar o julgamento de um arguido o que, por sua vez, releva em
2 termos de apreciação da prova pericial, levando à questão aqui em análise: como é que o juiz, de acordo com o art.163.º C.P.P deverá valorar uma perícia psiquiátrica.
A presente dissertação começa por enquadrar o problema a ser desenvolvido com base no caso da Corte Italiana supra referido para, de seguida, enquadrar, de modo geral, a génese e natureza da perícia em Portugal e, enquadramento das perícias. Em seguida serão abordados os critérios de admissibilidade das perícias, nomeadamente o seu regime e, o valor probatório. Apesar de serem temas que, por si só, constituem objeto de discussão em direito, analisar-se-á, ainda que de modo breve, as perícias contraditórias, a realização de novas perícias quando necessário e, a distinção da prova pericial de exames e de testemunhas. Posteriormente, será desenvolvida a relação entre o Direito e a Ciência médica, sendo que, para tal, far-se-á o enquadramento do sistema de prova livre, a interdisciplinaridade com a psiquiatria e, consequentemente, o papel da prova pericial na determinação da medida da pena. Será, igualmente, desenvolvida as dúvidas a propósito da “boa e da má ciência” e, as diferenças entre o discurso médico e o científico.
Posteriormente, analisar-se-ão os efeitos da prova científica no âmbito do direito penal, nomeadamente, a questão da (in) imputabilidade e, consequentemente, o conceito de doença mental e perturbações relacionadas. Poder-se-ão encontrar referências à M`Naugten Rule e Insanity Defense Reform Act, para enquadrar a jurisprudência norte americana e italiana.
Por último, será analisado o “medo” existente de se sobrevalorizarem provas científicas, tendo-se concluído que tal não passa de um receio infundado, pois a competência para tomar a decisão encontra-se nos juízes, conforme se aborda posteriormente, o que, por si só, não dispensa a análise da interdisciplinaridade com a ciência. Por fim, a presente dissertação termina com uma proposta de critérios e de criação de uma comissão de revisão pericial no âmbito judicial que permita ao juiz fundamentar a sua posição caso não adira a uma perícia psiquiátrica, respeitando-se, dessa forma, a argumentação científica solicitada no art.163.º, n.º 2 C.P.P.
3
I. As perícias no Código de Processo Penal
1. Introdução ao problema
a) O caso concreto da perícia psiquiátrica no âmbito jurídico: enquadramento do problema com base no Acórdão de 25 de janeiro de 2005 a 8 de março de 2005 Nº 9163 da Suprema Corte di Cassazione - Câmaras Criminais Unidas.
Na opinião social, muitos são aqueles que afirmam que, o atual discurso judiciário implica uma correlação entre verdade e justiça. Ora, nesta ótica, poder-se-ia gerar a necessidade de se procurarem métodos que trouxessem certezas sobre questões que eventualmente surgissem, nomeadamente, nas decisões de casos jurídicos. Não obstante o exposto, existem dúvidas a propósito daquilo que se pode considerar, efetivamente, como sendo “verdadeiro”1. Já Michael Foucault admitira ter receio de certos discursos que poderiam ser considerados verdades absolutas, referindo-se, a este propósito, ao discurso científico e, em concreto, ao saber psiquiátrico2. Foucault demonstrou algum pessimismo face à qualidade e valor que uma análise psiquiátrica poderia ter, pois considerava que “aquela verdade”, introduzida pelos peritos, teria a particularidade de ser, na sua maioria, alheia às regras de formação de um discurso científico, nomeadamente, às regras do direito3.
Face ao referido acima, verifica-se alguma dificuldade em estabelecer a adequação necessária entre enunciados periciais, no âmbito da apreciação da prova produzida, e a fundamentação de decisões judiciais, mais precisamente, no contexto de aplicação do direito penal, o que será aprofundado na presente dissertação.
1 Não obstante a sua pertinência, este é um tema que não será desenvolvido na presente investigação.
2 De l'institution judiciaire peut-être, plus ils le détiennent aussi du fait qu'ils fonctionnent dans l'institution judiciaire com discours de vérité, discours de vérité parce que discours à statut scientifique, ou avec discours formulés, et formes exclusivement par des gens qualificatifs, à l'intérieur d'une institution scientifique (Foucault, 1974-1975: 4).
3 Or, il se trouve que, au point où viennent se rencontrer l’institution destinée à régler la justice, d’une part, et les institutions qualifiées pour énoncer la vérité, de l’autre, au point, plus brièvement, où se rencontrent le tribunal et le savant, où viennent se croiser l’institution judiciaire et le savoir médical ou scientifique en général, en ce point se trouvent être formulés des énoncés qui ont le statut de discours vrais, qui détiennent des effets judiciaires considérables, et qui ont pourtant la curieuse propriété d’être étrangers à toutes les règles, même les plus élémentaires, de formation d’un discours scientifique ; d’être étrangers aussi aux règles du droit et d’être, comme les textes que je vous ai lus tout à l’heure, au sens strict, grotesques. (Foucault, 1974-1975: 9).
4 O direito processual penal relaciona questões muito diversas entre si, algo que se verifica, em especial, no âmbito da valoração das provas e, em concreto, na prova pericial.
Esta realidade deve-se, essencialmente, à dificuldade e complexidade que existe em coordenar a valoração de provas, a livre apreciação das mesmas por parte do Tribunal e, uma fundamentação que legitime a validação do poder judicial4.
Neste seguimento, a presente dissertação visa questionar o valor da prova pericial no Processo Penal, nomeadamente, a perícia psiquiátrica consagrada no artigo 159.º C.P.P e a necessidade, ou não, de fundamentação por parte do juiz. É sabido que aquela perícia se torna essencial para detetar casos de anomalia psíquica, sendo, por essa razão, relevante para efeitos de determinação da imputabilidade do arguido. Todavia, à luz das normas processuais, uma perícia, seja ela qual for, presume-se afastada do princípio da livre apreciação de prova (127.º C.P.P), salvo se o juiz tiver outra visão e fundamentar a sua divergência (art.163.º, n.º 2 e 97.º, n.º 5 C.P.P). Desta forma, algo que inicialmente poderia parecer claro, na prática demonstra ter muito mais complexidade.
Têm surgido diversas questões derivadas do facto de alguns acórdãos seguirem, sem sequer questionarem, os juízos técnicos e científicos das perícias que, por sua vez, chegam a determinar a imputabilidade ou não, dos arguidos5. Ora, esta posição pode levar a que se confundam, em última instância, as tarefas do perito com as do juiz, não obstante, caber ao último a palavra final.
Por outro lado, verifica-se, igualmente, a existência de certas decisões que, contrariamente ao expectável, rejeitam a perícia com base numa argumentação subjetiva, sem terem por base um juízo efetivamente científico, o que, por si só, contraria o dever de fundamentação previsto no art.163.º, n.º 2 C.P.P, ou seja, cai-se no extremo oposto de renunciar o juízo de um perito, sem qualquer justificação para tal, visão esta com a qual não se concorda, uma vez que, se tal perícia foi solicitada, a mesma terá de ser convenientemente analisada e respeitada, ainda que não seja seguida para a tomada da decisão.
Basta analisar algumas decisões dos tribunais portugueses para que se compreenda que a maioria das questões colocadas a propósito da imputabilidade nos casos de arguidos
4 Costa, 2009-2010: 59.
5 Alves, 2013-2014: 8.
5 com determinada patologia, são respondidas com base no valor que os tribunais atribuem a uma perícia, logo a última não é, de todo, irrelevante, o que, todavia, não significa que se torne no elemento decisivo de um processo judicial.
Face ao que fora exposto e, uma vez que a jurisprudência portuguesa a propósito do tema que se propõe tratar é escassa, partir-se-á de um caso da Suprema Corte di Cassazione - Câmaras Criminais Unidas, ocorrido em 20056, no qual se fixou jurisprudência obrigatória no sentido de incluir as perturbações de personalidade no âmbito das possíveis causas de inimputabilidade.
De um modo geral, esteve em causa um homicídio que ocorreu em 2001, no seguimento de uma disputa de condomínio, derivada do ruído que advinha de um sistema hidráulico existente no apartamento da vítima. Segundo os dados do caso, o arguido tinha saído de casa para desligar aquele sistema e, quando encarou a vítima, baleou-a com dois tiros de pistola tendo causado a sua morte.
Aquando a decisão, o Tribunal de primeira instância considerou que o arguido teria atuado com “vício parcial de mente”7, tendo sido condenado a uma pena de 15 anos e 4 meses de prisão. Mediante uma consulta psiquiátrica inicial, ordenada pelo Ministério Público, verificou-se que o arguido padecia de um transtorno de personalidade paranoide, para além de ser portador de uma patologia orgânica (malformação cerebral venosa de uma artéria que, consequentemente, interferia na sua capacidade de compreensão).
Posteriormente, uma segunda assessoria técnica identificou no arguido uma incapacidade total de compreender e querer aquando a prática do facto, tendo sido, por essa razão, considerado um sujeito não psicótico, mas, também com personalidade de tipo paranoide.
A prova pericial que foi produzida a propósito da capacidade de entender e querer do arguido e, a respetiva perigosidade social, gerou três avaliações psiquiátricas, que, por sua vez, originaram três conclusões diferentes entre si: a primeira perícia considerou a existência de um distúrbio de personalidade de tipo paranoide num sujeito portador de
6 Veja-se o acórdão da Suprema Corte di Cassazione - Câmaras Criminais Unidas, de 25 de janeiro de 2005 a 8 de março de 2005, Nº 9163. Acessível em: www.diritto-in-rete.com.
7 Segundo o art.88.º do Código Penal italiano, “é inimputável aquele que, no momento em que cometeu o facto, se encontrava, por enfermidade, num estado mental excludente da sua capacidade de entender ou de querer”. O art.89.º, por seu turno, refere-se ao “vício parcial de mente”, dispondo que “aquele que, no momento em que cometeu o facto, se encontrava, por enfermidade, num estado de mente suscetível de diminuir grandemente, sem excluí-la, a capacidade de entender ou de querer, é criminalmente responsável, mas, a pena é diminuída.
6 uma patologia de tipo orgânico, tendo concluído por uma plena capacidade de entender, apesar da capacidade de querer se encontrar diminuída; a segunda perícia considerou, num primeiro momento existir uma total incapacidade de entender, mas, num segundo momento, capacidade de querer limitada no momento do facto; por último, a terceira prova pericial ordenada pelo tribunal, verificou um perturbação paranoide, combinada com elementos de perturbação de personalidade narcísica, o que corresponderia a uma diminuição da capacidade de entender e querer, indicando, por essa razão, perigosidade social.
Face ao que fora concluído, a primeira instância considerou que o arguido teria um vício parcial da mente e, dessa forma, seria penalmente responsável, mas com uma pena diminuída. Posteriormente, o arguido, Ministério Público e partes civis interpuseram recurso perante o qual, o Tribunal de Apelação de Roma, considerou que se deveria excluir a diminuição da responsabilidade, considerando o arguido alguém com meros distúrbios de personalidade, os quais não estariam integrados no conceito de enfermidade da mente previsto na lei penal italiana.
Desta última decisão foi interposto recurso para a Suprema Corte di Cassazione, que, por sua vez, decidiu remeter o processo para o Pleno das Secções Criminais para fixação de jurisprudência, de modo a superar a divergência entre duas orientações que se desenvolviam em simultâneo: uma, segundo a qual, para efeitos de inimputabilidade, as anomalias que influenciassem a capacidade de entender e de querer, seriam doenças mentais em sentido estrito (insuficiências cerebrais originárias e outras que derivem de danos cerebrais, como as psicoses agudas ou crónicas) e, uma segunda orientação, minoritária, que entende o conceito de enfermidade mental recebido pelo C.P. italiano de modo mais amplo do que o de doença mental, considerando que, apesar de nem todas as enfermidades mentais serem consideradas doença, também os sujeitos com psicopatias deveriam poder entrar no âmbito normativo daquele conceito legal, caso os últimos se manifestassem com intensidade e complexidade que, no limite, poderia aproximar-se de uma psicose.
Perante o exposto, verifica-se que a Suprema Corte di Cassazione não colocou o enfâse da sua análise na classificação das possíveis causas de inimputabilidade, centrando-se antes na determinação dos termos em que tais perturbações seriam suscetíveis de afetar a capacidade de querer ou de entender do sujeito. Por forma a
7 concluir a sua argumentação, referiu que as conclusões mais recentes da psiquiatria reconhecem espaços cada vez maiores de responsabilidade para os doentes mentais logo, também estes poderiam ser alvo de responsabilidade penal: partiu da consideração de que, o conceito de inimputabilidade é, simultaneamente, empírico e normativo, ou seja, caberia às ciências empírico-sociais individualizar o conjunto dos requisitos biopsicológicos necessários que um individuo possuiu, para ter capacidade de compreensão e reprodução do conteúdo normativo, enquanto ao juiz caberia fixar a relevância jurídica dos dados científicos apresentados. Desta forma, concluiu no sentido de anular a sentença em segunda instância, encaminhando o caso para nova decisão noutra câmara do Tribunal de Apelação de Roma.
Desta forma, segundo a jurisprudência fixada pela Suprema Corte di Cassazione, uma perturbação de personalidade, apenas tem relevância para efeitos de inimputabilidade quando revele consistência; intensidade; relevância e gravidade tais que se tornem suscetíveis de incidir, em concreto, sobre a capacidade intelectual ou volitiva de alguém.
Ora, esta conclusão, com a qual se concorda, não pretende desculpar o agente de um crime, mas sim, ter em consideração os antecedentes que podem ter levado àquela atitude8. No entanto, aquela avaliação apenas é possível com recurso a uma perícia específica e uma devida valoração da mesma.
Na presente dissertação, a questão fulcral não será tanto a análise da imputabilidade e culpa do arguido, mas, sim, qual o tratamento a ser dado às perícias psiquiátricas no caso concreto. Inevitavelmente serão abordadas e relacionadas questões sobre a culpa e imputabilidade, no sentido de fundamentar as posições que serão expostas, contudo, o foco será a perícia psiquiátrica e a valoração da mesma, em especial, o dever de fundamentação do juiz.
De acordo com os pressupostos estabelecidos no art.20.º, n.º1 do C.P português, a relevância concreta de uma perturbação da personalidade do ponto de vista da inimputabilidade pressupõe que o agente se encontrava: afetado por uma perturbação de personalidade no momento da prática do crime; que aquele distúrbio, em virtude da sua consistência, intensidade, relevância e gravidade incidiu diretamente na capacidade volitiva do agente e, por último, que entre o transtorno da personalidade e o facto ilícito
8 Palma, 2005: 230.
8 existe um nexo causal que permite concluir que o último foi causalmente determinado pela referida perturbação.
Em Portugal, apesar da jurisprudência neste tema ser escassa, é possível encontrar algumas decisões nas quais se debateu, ainda que, de modo muito sintético, as questões evidenciadas até ao momento.
Exemplo do que se acaba de referir foi a decisão do Supremo Tribunal de Justiça,9 na qual, de um modo geral, a arguida em causa fora acusada da prática de um crime de homicídio qualificado10 e, nos autos apensos, de outros crimes11. Após julgamento pelo tribunal de primeira instância, decidiu-se absolver a primeira dos crimes referidos, contudo, foi condenada por outros, com pena de prisão de sete anos e nove meses, sessenta dias de multa e indemnização com juros de mora, em virtude dos danos materiais causados. Desta decisão coube recurso para o Tribunal da Relação de Coimbra que, por sua vez, condenou a arguida pelos crimes inicialmente apontados pelo Ministério Público, tendo igualmente aumentado a pena de prisão para treze anos. Por último, interpôs-se recurso para o Supremo, o qual considerou que a primeira instância não tinha atribuído a devida atenção ao juízo científico dos peritos médico-legais, segundo os quais a arguida seria inimputável. No seguimento da sua análise, o Supremo optou por revogar a decisão da Relação e julgar nulo o acórdão da primeira instância, por infração dos artigos 163.º, n.ºs 1 e 2; 379.º, n.º 1, al. a) e 374.º, n.º 2 C.P. P12.
No que importa para a análise em concreto, o Supremo Tribunal de Justiça a 11 de fevereiro, em 2004, entendeu que a perícia psiquiátrica, realizada na Delegação de Coimbra, teria sido suficiente para a declaração de inimputabilidade da arguida, uma vez
9 Cfr.: Acórdão do S.T.J de 11/02/2004.
10 A arguida causou queimaduras ao ex-namorado com ácido sulfúrico, afirmando que aquele “se não era dela, também não seria de mais ninguém”, deixando-o sozinho no local enquanto o mesmo solicitava ajuda.
A vítima acabou por falecer, em virtude dos ferimentos.
11 Falsificação de documento autêntico, burla e furto
12 Posteriormente, os autos baixaram à Relação de Coimbra onde, por sua vez, foram remetidos à primeira instância, na qual o juiz ordenou nova perícia médico-legal. Houve novamente recurso, quer para a Relação, como para o S.T.J, pois a arguida foi sempre julgada do mesmo modo, tendo a Relação da segunda vez julgado improcedentes os recursos interlocutórios (do despacho que ordenara nova perícia) e, da decisão final. O S.T.J, no processo 08P2844, incidiu, essencialmente, sobre o caso julgado formal formado pelo S.T.J em 2004 (art.672.º C.P.P.), tendo concluído que o tribunal de primeira instância ao reabrir a audiência para a produção de prova suplementar sobre os factos da acusação, violou o caso julgado formal, formado pelo acórdão do S.T.J. de 11/02/2004, sendo nulos os atos processuais posteriores ao despacho da Relação de Coimbra que, após o acórdão, remeteu os autos para a primeira instância e que contrariam o sentido daquele, nomeadamente a realização de nova perícia médico-legal., mantendo-se assim a decisão do caso julgado formal.
9 que fora evidenciada a existência de um “transtorno depressivo grave com sintomas psicóticos”, num quadro de “instabilidade emocional, prejuízo de controlo dos impulsos (…) na base de reações explosivas e violentas, em prejuízo das capacidades de autocontrolo”13. Para além da arguida ter sido declarada imputável, o Supremo considerou que não houve fundamentação científica que justificasse a divergência do juiz face à perícia em causa, pois, considerou que a Relação se baseou apenas em acontecimentos prévios à prática do crime (o planeamento e a decisão em realizar determinado ato14), sendo que tal atitude ignorou o valor probatório, inerente à perícia psiquiátrica, tendo sido violado o “dever qualitativo de fundamentação” do art.163.º C.P.P.
Ficou provado que a arguida teve uma infância problemática, em virtude de problemas de álcool e de uma pena de prisão da mãe, sendo filha de pais separados. Era uma jovem isolada e, apesar de ter uma relação próxima com a mãe, a última era frequentemente agressiva. Foi igualmente constatado que, à data dos factos ocorridos, a arguida fora diagnosticada com doença afetiva e depressão grave, apresentando um perfil de personalidade limite, com propensão para atos impulsivos15.
Do ponto de vista psiquiátrico-forense, invocou-se a figura da inimputabilidade em razão de anomalia psíquica, recomendando-se medidas de tratamento médico psiquiátrico adequado, em virtude da perigosidade social da arguida16. Todavia, a psicóloga subscritora do exame psicológico, em julgamento, declarou que "não detectou no momento do exame, alteração cognitiva, não notando quebras com a realidade, mas antes mecanismos de defesa", “fraqueza de ego", referindo (...) a capacidade da arguida para manter a faculdade de avaliação da ilicitude dos atos, de distinguir o bem e o mal e de se determinar em conformidade”.
13 Foi igualmente realizada perícia sobre a personalidade a qual também viria a concluir que a arguida seria inimputável em virtude de incapacidade de determinação devido à deterioração das faculdades mentais.
14 As decisões anteriores ao S.T.J consideraram que a arguida atuou consciente e voluntariamente, com o propósito de assassinar a vítima e, nada fez para a auxiliar, o que demonstraria não ter sentido nenhum arrependimento.
15 Na primeira perícia médico-legal, do ponto de vista psiquiátrico, o relatório respetivo conclui que “a examinada, cujo nível intelectual se situa na Classe normal lenta, terá evidenciado (à data dos factos) um Transtorno depressivo grave, com sintomas psicóticos (conforme rubrica F32.3, da CID-10), num fundo de personalidade emocionalmente instável, de tipo impulsivo”, o que dificultaria o controlo de impulsos e, poderia gerar mais suscetibilidade de se sentir frustrada, culminando com reações violentas, sem capacidade de autocontrolo. Numa perícia sobre a personalidade conclui-se que a arguida teria baixo juízo crítico e instabilidade emocional e, traços de personalidade boderline e psicopáticos.
16 Na audiência de julgamento, os médicos psiquiatras "reafirmaram o entendimento de que a arguida agiu em estado de inimputabilidade por distorção da leitura da realidade”
10 Neste sentido, o tribunal de primeira instância concluiu que a arguida, no momento da prática dos factos, era imputável, pois tinha consciência da sua conduta, ilicitude da mesma e capacidade para determinar a primeira17. Desta forma, conforme observou o Supremo em 2004, o tribunal de primeira instância limitou-se a ignorar a validade da perícia psiquiátrica em causa, sobrepondo-lhe uma convicção probatória, sem realizar um juízo situado no mesmo plano científico, concluindo, nesse sentido, pela existência de erro notório na apreciação de prova.
Ora, apesar de a decisão final ter concluído que a perícia psiquiátrica deveria ter sido tida em conta, uma das maiores dificuldades prende-se com a seguinte questão: para além de não se saber ao certo como é que se apura que, no momento da prática dos factos, um arguido/a sofria, efetivamente, de falta de autocontrolo ou psicose, como é que o juiz, sem conhecimentos psiquiátricos, pode ser obrigado a fundamentar a sua decisão, caso não considere o parecer final de um perito?
Num outro acórdão, também ele do Supremo Tribunal de Justiça18, apesar do relatório pericial ter demonstrado que o arguido sofria de uma perturbação de personalidade, como tal não se enquadrava na ideia de doença mental, detetada previamente ao julgamento, o tribunal ignorou aquele relatório, tendo considerado que o arguido era imputável. O mesmo sucedeu em 200919, onde se verificou que o arguido possuía uma personalidade boderline, mas, ainda assim, o tribunal entendeu que tal não relevava para efeitos de imputabilidade diminuída.
Conforme se pode verificar nas diversas decisões apresentadas, a questão principal prende-se em saber, como é que as perturbações de personalidade podem afetar a medida da pena de um arguido o que, por sua vez, releva em termos de apreciação da prova pericial, levando à questão aqui em análise: como é que o juiz, de acordo com o art.163.º C.P.P deverá valorizar uma perícia psiquiátrica.
17 Depois de ter cometido o ato, dirigiu-se ao local de trabalho da mãe, pedindo para se matarem, pois, tinha acabado de assassinar o ex-namorado, o que demonstraria consciência nos seus atos, revelando em audiência que queria marcar o falecido. Este tribunal baseou-se em declarações dos pais do falecido e ex- namorado da arguida, que a última manifestava alterações de comportamento, agressividade e ciúmes, o que era compatível com o relatório pericial, contudo, nada comprova que na prática dos factos, a arguida tenha atuado sob estado descontrolado, pois seguiu tudo conforme planeara afirmando a frase “se não és para mim, não és para ninguém”, o que demonstra um discurso coerente.
18Acórdão de 21/05/2015, relatado por Helena Moniz, no âmbito do processo com o n.º 199/14.9GCBRG.G1. S1.
19 Acórdão de 19/03/2009, relatado por Fernando Fróis, no âmbito do processo 09P0315.
11 b) A prova: enquadramento geral, a génese e natureza da prova pericial no
Código de Processo Penal Português
Quando se refere a palavra “prova”, questiona-se, quase de modo automático, qual o sentido que se deve atribuir à mesma. Perante aquela dúvida, de acordo com a maioria doutrinária, é possível enquadrar a mesma em três significados: atividade probatória, meio de prova e, por último, enquanto resultado.
A prova enquanto atividade probatória, traduz-se num conjunto de atos, relacionados entre si, que visam permitir e conduzir o juiz à formação da sua convicção20, ou seja, verifica-se uma série de atos probatórios que permitem que se forme uma convicção a propósito da realidade dos factos e a sua demonstração. Subjacente àquele primeiro sentido, encontra-se a procura pela verdade material, pois de acordo com alguma doutrina, baseando-se na atividade probatória, o juiz poderá obter critérios objetivos e controláveis, através da motivação21. Por sua vez, a procura pela verdade material relaciona-se com o princípio da investigação, o qual, de um modo geral, visa assegurar que a atividade investigatória do tribunal não se limita aos elementos de facto, pois pode trazer para o processo outras informações, também elas, relevantes. Em seguida, a prova como instrumento, permite que o juiz forme a sua convicção a propósito dos factos. Neste sentido, o legislador previu, expressamente, os diversos meios de prova que podem levar à produção da última (artigos 128.º a 170.º C.P.P), sempre que estejam em causa os critérios substantivos gerais do art.340.º C.P.P. Por último, surge a prova enquanto resultado, ou seja, a convicção que o juiz forma a propósito da existência, ou não, de factos jurídico-criminais.
Para proceder à análise detalhada do problema exposto, será necessário abordar, de forma objetiva, o enquadramento das perícias, pois apesar da presente investigação se centrar, essencialmente, na perícia psiquiátrica, a mesma insere-se num universo complexo: o da prova pericial.
Ao abrigo do artigo 151.º C.P.P português, a perícia consiste num meio de prova que requer, para a sua compreensão e análise, conhecimentos técnicos, científicos ou artísticos, específicos22. Atendendo ao regime geral, a prova pericial encontra-se sujeita
20 Eiras, 2008: 135.
21 Eiras, 2008: 65 e 138.
22 Verdelho, 2009: 145.
12 ao modo de produção de conclusões que, posteriormente, se projetam num processo, no sentido de garantir a fiabilidade dos seus resultados. Conforme se retira do artigo 163.º C.P.P, a perícia não é livremente valorada pelo juiz, todavia, esta afirmação não é absoluta, pois, conforme já foi descrito anteriormente, poder-se-á divergir daquela, mediante uma argumentação da mesma natureza23.
Para certos autores, o direito probatório é um meio para que se consiga garantir a realização do direito penal substantivo24, uma vez que é com base nos factos apurados, que se toma a decisão do caso concreto. A investigação criminal inicia-se na notícia do crime e termina quando a sentença transita em julgado, pois até àquele último momento, vigora o princípio da presunção de inocência do suspeito, na medida em que poderão surgir novos elementos de prova que alterem o rumo que determinado processo estaria a tomar25. Desta forma, a atuação da justiça não ocorre em tempo real, sendo necessária uma reconstituição dos factos, através da recolha e apreciação material dos últimos26. Por conseguinte, a prova reporta-se ao passado tendo, inevitavelmente, um caráter retrospetivo27.
Normativamente, a prova processual penal incide sobre todos os factos que sejam juridicamente relevantes para a existência, ou não, do crime, punibilidade e determinação da medida da pena ou de segurança, conforme se retira do art.124.º, n.º 1 do C.P.P.
Doutrinariamente, a prova surge como um meio para demonstrar a realidade dos factos28 e pela forma como poderá convencer o juiz na perceção dos últimos29. Poderá, desta forma, ser definida como sendo um processo, mediante o qual, através de um facto conhecido, se retira, por representação, o facto a provar30. Assim sendo, o conhecimento dos factos torna-se essencial na aplicação do direito ao caso em concreto, na medida em que, para muitos autores, através de uma prova, é possível alcançar um juízo de certeza sobre os factos em questão31.
23 Albuquerque, 2011: 451; Taruffo, 2005: 67.
24 Marques Ferreira, 1997: 221.
25 Valente, 2010: 29 e 30.
26 Abreu, 200: 31 e 270.
27 Marques Ferreira, 1997: 223.
28 Santos, 2003: 222.
29 Roxin, 2000b: 185.
30 Carnelutti, 1915: 58; Tonini, 2000: 32.
31 Cavaleiro Ferreira, 1956 e 1981 b: 280.
13 Face ao exposto, poder-se-á entender que decisões baseadas em prova são formadas por conclusões, pois, ao considerar-se determinado facto como adquirido, conclui-se pela existência de outro32. Os factos poderão ser físicos, quando manifestados externamente e, psicológicos quando associados a um prisma interior33. Neste sentido, cabe ao juiz considerar as questões de facto e de direito, isto é, analisar os factos em causa, as circunstâncias daqueles e, verificar se, legalmente, existe uma norma que se aplique em específico34.
Relativamente à perícia propriamente dita, esta apenas surge nos tribunais no final da Idade Média, o que se deveu à passagem do sistema acusatório para o inquisitório35. Cabia ao juiz formar a sua convicção, individualmente, o que levava a que, muitas vezes, necessitasse de peritos e das respetivas perícias36. Foi com as Ordenações Manuelinas que surgiu expressamente a figura da perícia e se considerou, pela primeira vez, a sua importância37, a qual foi evoluindo posteriormente com as Ordenações Filipinas, tendo sido a partir daí que os peritos passaram a ser reconhecidos no processo38. Contrariamente às restantes perícias (às quais a lei não dedicava muita importância), nas médico-legais, verificava-se a obrigação de realização de exames, solicitando-se, para tal, pessoas com os devidos conhecimentos39.
Não obstante, em 1895 a bibliografia sobre o tema da perícia ainda era rara40, não existindo sequer legislação sobre a mesma. Nos finais do século XIX, considerou-se a defesa do juramento, no âmbito de cautelas de caráter técnico, associadas à realização de perícias, como uma forma de assegurar que os peritos diriam apenas a verdade41. Numa outra perspetiva, como o perito fica sujeito a diversas observações que podem colocar em
32 Veja-se, neste sentido Dumont, 1830 a: 16.
33 Dumont, 1830 a: 20 e 21.
34 Dumont, 1830 a: 19.
35 Para Jorge Soares, o os exames médico-legais estavam previstos na Idade Média (2001: 10).
36 Costa, 1895: 16.
37 Para maiores desenvolvimentos, consultar as Ordenações Manuelinas, livro5, título 42, 2.º parágrafo.
38 Em determinadas circunstâncias legais, impunha-se o recurso ao perito médico, algo que estava igualmente previsto no âmbito do direito canónico e nas Ordenações Filipinas. Por outro lado, também as ordenações Afonsinas estabeleciam questões realizadas com exames – para uma análise com maior detalhe, veja-se a obra de Cabral de Moncada (2001: 902) e as Ordenações filipinas (Livro I, título 65, parag.38).
Aquela importância do perito médico continuou a aumentar e, em 1760, o Assento do Tribunal da Relação do Porto, a 20 de novembro direcionou a sua atenção para novos pormenores tais como: o local onde os exames de vítimas deveriam ser realizados e, quem é que teria competência para efetuar as respetivas observações. Posteriormente, o Alvará de 22 de janeiro de 1810 estabeleceu que os exames médico-legais apenas poderiam ser efetuados por professores de medicina.
39 Costa, 1895: 27.
40 Costa, 1895: 13.
41 Costa, 1895: 126.
14 causa a sua imparcialidade e, dessa forma, a boa administração da justiça, constatou-se que a função pericial não deveria ser atribuída apenas a um perito a título individual42.
Com a entrada em vigor do DL n.º 16489 de 15 fevereiro de 1929, a prova pericial passou a enquadrar-se dentro da prova pessoal, diferentemente dos exames que pertenciam à prova real, uma vez que, embora um perito fosse parte interveniente na apreciação que faria de uma prova real, ou seja, de um exame, os factos e a análise dos mesmos, conforme se analisará posteriormente, são realidades distintas, logo o perito passou a ser encarado como um auxiliar do juiz em determinadas áreas da ciência que aquele não dominaria, contribuindo para a averiguação e apreciação de provas previamente existentes43. Não obstante, o Código de Processo Penal português, de 1929, continuava sem distinguir entre prova pericial e exames, tratando ambos em conjunto (artigos 175.º a 201.º).
Já no código de 1929, a prova pericial estava sujeita à livre apreciação do juiz, considerando-se que a ciência forense tinha um papel de orientação para a formação da livre convicção daquele, podendo este, a todo o tempo, não atribuir relevância probatória à prova pericial. Já naquela altura, certos autores divergiam daquele preceito, defendendo que o juiz apenas deveria colocar em causa um parecer pericial, mediante uma crítica material, também ela com conteúdo científico44, restringindo a liberdade de apreciação de provas periciais somente a elementos de facto, que sustentassem apreciações científicas, sendo que, aqueles apenas poderiam ser colocados em causa mediante uma crítica material e, também ela, de teor científico, visão esta posteriormente adotada no C.P.P de 1987.
O C.P.P atual é antecedido pela lei n.º 43/86 de 26 setembro (lei de autorização legislativa em matéria de processo penal, que autorizou a revogação do direito anterior e a elaboração de um novo código, conforme consta do seu artigo primeiro), a qual, por sua vez, determinou a definição da regra constante do art.163.º C.P.P que, no fundo, consiste numa exceção ao princípio da livre apreciação de prova, consagrado no 127.º C.P. P45.
42 Costa, 1895: 111.
43 Gonçalves, 2009: 401.
44 Figueiredo Dias, 1981: 209.
45 Ao longo dos anos, o C.P.P tem sido sucessivamente alterado: em concreto, relativamente à matéria das perícias, a Lei n.º 59/98, de 25 de agosto, procedeu à alteração de alguns artigos, clarificando alguns aspetos de regime e, adaptando-o à lei de organização do sistema médico-legal. O DL n.º 320-C/2000, de 15 dezembro introduziu a possibilidade de peritos de instituições oficiais puderem prestar esclarecimentos
15 Passou a entender-se que a prova deveria ser livremente apreciada pelo julgador, com exceção da perícia psiquiátrica, pois naquele caso, o juízo unânime dos peritos impedia qualquer divergência por parte do juiz.
É curioso que, na lei supra referida, das diversas alíneas que visaram definir o sentido e extensão daquela, uma delas se refere, em concreto, à “Regulamentação específica da prova pericial”, consagrando no art.2.º, n.º 2, al.31, aquilo que viria a ser o atual art.163.º C.P.P.
No seguimento do que anteriormente foi descrito, perícia surgiu como um meio de prova sui generis46 que obteve uma maior importância, à medida que a evolução científica se tornou mais presente no direito processual penal47. O objeto da prova pericial é amplo em virtude da necessidade que existe em recorrer a um conhecimento especializado de determinada matéria48. Desta forma, a perícia impõe-se como o conhecimento especializado, que leva ao processo critérios e regras valorativas próprias de uma profissão ou atividade, cabendo ao perito observar, recolher e analisar factos, através dos seus conhecimentos especiais49, o que, por último, resulta num relatório50.
Verifica-se assim uma relação entre provas e factos, pois o juiz não acede diretamente aos últimos, mas, sim, à prova que se faz dos mesmos, em termos processualmente regulamentados. Assim sendo, a perícia inclui juízos passíveis de integrar a conclusão do juiz, ou seja, o essencial da perícia traduz-se na interpretação inerente à conclusão pericial que consta do relatório da última51.
Para alguns autores, o perito apenas contribuiu para a investigação e apreciação de uma prova que já existia anteriormente, logo a perícia não seria um verdadeiro meio de prova, pessoal ou real. Nesta visão teria uma natureza híbrida, sendo a sua principal função auxiliar o juiz52.
mediante meios tecnológicos, no intuito de contribuir para a garantia dos direitos fundamentais do arguido, o que se iria traduzir numa maior eficiência no trabalho dos peritos. Por sua vez, a Lei n.º 48/2007, de 29 de agosto procedeu a diversas alterações em matéria probatória, em especial, no que respeita às perícias médico-legais forenses, passando a refletir, na sua maioria, o regime atualmente em vigor, tendo inserido os pressupostos de “carácter técnico, científico e artístico”.
46 Marques Ferreira, 1997: 253; Malatesta, 1912: 303; Paiva, 1895: 72 e 73.
47 Roxin, 2000: 240.
48 Dalia e Ferraioli, 1997: 187; Paiva 1895: 66 e 71.
49 Dumont, 1830 a: 53 e 1830 b: 193 e 198; MMPDJP, 2009: 404; Magalhães, 2003/2004: 5.
50 Malatesta, 1912: 39.
51 Tavares, 2017: 196; Valente, 2009: 347; Magalhães, 2003 – 2004: 5.
52 Marques da Silva, 1999: 177.
16 Conforme já foi referido anteriormente, ao abrigo do art.151.º C.P.P, a perícia consiste numa prova que tem lugar sempre que a apreciação de factos requeira conhecimentos específicos (técnicos, artísticos ou científicos), estando sujeita a um procedimento destinado a garantir a fiabilidade dos seus resultados.
Apesar de ser entendida como um meio de prova, a verdade é que a perícia não se encontra devidamente concetualizada no C.P.P português, isto é: a sua definição não é tida em consideração pelo legislador, sendo, sim, obtida mediante interpretação. Além de não definir especificamente “o que é” uma perícia, o art.151.º C.P também não indica
“qual o momento” da perícia, pois apenas refere “quando é necessária”.
Por esta razão, muitos são os autores que procuram definir “perícia”: não obstante a definição parecer simples de compreender, existe controvérsia sobre se aquela é, efetivamente, um meio de prova ou, um método de obtenção de prova.
Cavaleiro Ferreira entendia que a apreciação dos factos seria uma função judicial, para a qual o juiz careceria de conhecimentos jurídicos, técnicos e científicos, assim como, de experiência comum, tendo o perito a função fundamental de contribuir no processo, para a formulação de um parecer ou opinião, sobre o significado ou valor dos meios de prova53. No mesmo sentido, Germano Marques da Silva, entende a perícia como a atividade de perceção ou apreciação dos factos probandos, efetuada por pessoas dotadas de especiais conhecimentos, técnicos, científicos ou artísticos 54. De modo mais sucinto, Paulo Pinto de Albuquerque define a perícia como “um meio de prova que visa a avaliação de vestígios da prática do crime com base em especiais conhecimentos técnicos, científicos ou artísticos”55.
Entende-se, na presente investigação, que o juiz não deve confiar mais nas regras de experiência, do que, na própria averiguação do caso e, conforme refere Paulo de Sousa Mendes, o juiz pode, se assim o entender, decidir contra aquelas regras56.
Por sua vez, indo ao encontro do C.P.P português atual, Figueiredo Dias entende que a avaliação realizada por um perito, deverá ter um valor probatório diferente de outros
53 Cavaleiro Ferreira, 1981: 366 e 367.
54 Marques Da Silva, 1993: 152 e 164.
55 Albuquerque, 2011: 420.
56 Sousa Mendes, 2009: 1001.
17 meios de prova (tal como a prova testemunhal), sendo vista como um verdadeiro auxiliar ou colaborador do juiz57.
Concluindo, entende-se a perícia como um verdadeiro meio de prova, pois a lei prevê a admissibilidade desta, tendo por base a sua relevância, quando a perceção ou apreciação de determinados factos “(…) exigirem especiais conhecimentos técnicos, científicos ou artísticos, e não para, através dela e do seu valor probatório tarifado, afastar os outros meios de prova”58. Trata-se de um meio de prova produzido através de conhecimentos especiais que, por sua vez, o juiz não possuiu, mas necessita de aceder para conseguir formar a sua opinião e, com isso, tomar a melhor decisão para o caso em concreto.
Verifica-se, igualmente, que a prova pericial remete para o conceito de “prova científica”, a qual, por sua vez, se carateriza como aquela que recorre a métodos específicos, técnicos científicos e artísticos e que, pela sua natureza, impõem o recurso a um perito59. Uma investigação criminal constitui, no fundo, uma série de diligências relacionadas com aquele facto que alterou determinada realidade, procurando reunir os elementos suscetíveis de convencer o tribunal da prática de certo facto e da responsabilidade do arguido60.
Alguém é considerado perito, não só quando procede a uma avaliação pericial, mas, também, quando recorre à análise de dados e factos que uma pessoa, com os conhecimentos comuns, não conseguiria percecionar. Verifica-se, assim, um objetivo duplo, no âmbito da perícia: permite demonstrar a existência de uma prova que, sem aqueles conhecimentos, nem seria reconhecida e, apreciar o seu valor61.
O Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 9 de maio de 199062, citado por Maia Gonçalves, afirma que a prova pericial não é facultativa, mas, sim, obrigatória, conforme resulta do art.151.º C.P.P. Na opinião daquele autor, ainda assim, a lei deixou alguma discricionariedade ao magistrado do Ministério Público, pois, repousa nas mãos do último a decisão subjetiva de solicitar, ou não, a intervenção do perito. Caberá ao magistrado, em caso de dúvida, decidir sobre a pertinência da realização de perícias. No entanto, é-se
57 Figueiredo Dias, 1981: 209; Alves, 2013-2014: 10.
58 Ac.T.R.C. de 24/05/2017, relatado por Gabriel Catarino, no âmbito do processo 697/10.3TXEVR-C. S1.
59 Dominioni, 2005: 12; Paiva, 1895: 73.
60 Magalhães, 2003-2004: 64; Dias e Monteiro, 1984 a: 28.
61 Jesus, 2011: 127.
62 Acórdão S.T.J. de 09/05/1990, relatado por Ferreira Vidigal, no âmbito do processo 040762.
18 da opinião que aquele artigo, poderia ser mais desenvolvido, por forma a evitar que fossem realizadas perícias desnecessárias e, não se omitissem outras que fossem essenciais63.
O procedimento de realização de uma perícia requer alguma atenção: prestado o compromisso de honra, a autoridade judiciária competente elabora, oficiosamente, ou a requerimento, as suas observações. Segundo a Relação de Coimbra, a nove de junho, de 1992, em processo penal apenas os consultores técnicos, designados pelos sujeitos processuais, poderiam requerer a formulação de observações o que, como afirma Costa Pimenta, será deferido ou indeferido, com base em critérios de conveniência64. No entanto, poderá verificar-se algum excesso de discricionariedade, pois o juiz pode indeferir o requerimento, caso entenda que tal é inconveniente (art.156.º, n.º 1), o que contraria as garantias do processo penal, consagradas no art.29.º C.R.P. Por último, na realização do relatório pericial, o perito observa o art.157.º e, posteriormente, conforme afirma Marques Ferreira, o sistema instituído pelo art.158.º, prevê um controlo público sobre os resultados da perícia, mediante fiscalização judiciária da mesma65.
Concluindo, o juiz deverá recorrer a peritos, mesmo nas situações em que julgue ser capaz de decidir por si só, pois, a justiça não deverá basear-se apenas na certeza e exclusividade do magistrado66. A perícia é um meio de prova que, em virtude da urgência da sua realização, deverá ter uma produção antecipada, para ser válida em julgamento67. Desta forma, a prova pericial tem uma virtualidade face aos restantes meios de prova, pois, apesar de produzida no inquérito ou na instrução, pode servir para efeitos de formação da convicção em sede de julgamento, desde que sujeita a contraditório68.
63 Trindade, 2001.
64 Pimenta Costa, 1991: 434.
65 Cavaleiro Ferreira, 1988: 256.
66 Malatesta, 1912: 311.
67 Dalia e Ferraioli, 1997: 508. No entanto, autores como Sandra Tavares (2017: 201 (740)), entendem que o conteúdo do relatório pericial como declaração ou prova declaratória não deve ser considerado prova pessoal. Na prova pericial as declarações a existirem devem ser prestadas aquando a audiência a título de esclarecimento do relatório prévio, sendo diversas daquilo que está escrito.
68 Carmo, 2005: 381.
19 2. Admissibilidade e valoração da prova pericial
a) Critérios de Admissibilidade da Perícia
Existe, atualmente, uma maior consciência, por parte de todos os intervenientes processuais da importância que a perícia tem69. A versão inicial do Código de Processo Penal português, não explicava, nem estabelecia nenhum critério, para determinar a feitura de uma perícia, tendo sido essa questão resolvida por jurisprudência que, por sua vez, considerava que a diligência deveria ser realizada sempre que se verificasse ser essencial para a descoberta da verdade70. Aquela ideia (e, consequentemente, jurisprudência), encontra-se hoje fora de contexto com a revisão de 2007, pois, a lei n.º 48/2007 de 29 de agosto, passou a consagrar o critério de necessidade, apesar de o fazer para as perícias que incidam sobre a averiguação de caraterísticas físicas ou psíquicas das pessoas.
Ainda assim, embora não se concorde com a presente opinião, poder-se-á entender que, em sede de audiência, a necessidade por perícia pode ser suprimida, quando o tribunal possua os conhecimentos técnicos necessários para poder aceder aos factos apresentados71. Tal conhecimento, não tem de ser geral, ou seja, não é indispensável que, num tribunal de constituição coletiva, todos os seus membros, obrigatoriamente, possuam essa tecnicidade: basta que um deles a tenha. Desta forma, segundo alguns autores, poderá a perícia ser inferida pelo tribunal, se um, ou mais membros deste, possuir conhecimentos técnicos próprios, devendo ser dada oportunidade aos sujeitos processuais, para se pronunciarem sobre a questão em causa72. No entanto, relativamente à perícia sobre o estado psíquico do arguido, tal não se crê ser possível. Não parece que o tribunal seja detentor de tais capacidades técnicas, que permitiram avaliar o estado psíquico de alguém.
Para se ordenar as perícias na fase de inquérito, a mesma tem de ser ordenada, ou autorizada, por norma, pelo Ministério Público, não sendo esta uma competência que possa ser delegada em órgão de polícia criminal (apesar deste ter a faculdade de o fazer
69 Gonçalves; Alves, 2009: 179; Latas, 2006: 73 a 97; Silva Dias, 2005: 187.
70 Acórdão S.T.J. de 17/07/1997, relatado por Pires Salpico, no âmbito do processo 97P599.
71 Acórdão S.T.J. de 10/07/1997, relatado por Dias Girão, no âmbito do processo 315/97; Albuquerque, 2011: 422.
72 Albuquerque, 2011: 421.