IV. O teor científico que a perícia pode conferir a uma decisão judicial
2. A personalidade no contexto da inimputabilidade e a (in) certeza científica
56 personalidade, pois não se deixa de reconhecer que não existe, atualmente, uma base científica, segura e precisa, que consiga medir a capacidade de autocontrolo de alguém.
Toda a análise exposta até ao momento permite compreender as dificuldades colocadas a propósito da introdução, no âmbito do processo penal, do tema das perturbações da personalidade como causa de exclusão ou diminuição da capacidade de querer do autor de um crime.
2. A personalidade no contexto da inimputabilidade e a (in) certeza científica
57 relevância e gravidade, incidiu sobre a capacidade volitiva do agente; que entre o transtorno da personalidade e o facto ilícito existe um nexo causal, e não apenas, cronológico, que suporta a conclusão de que o segundo foi determinado pela primeira211. O grau de complexidade é de tal forma elevado que, na literatura psiquiátrica discute-se a fidedignidade dos atuais métodos de identificação das perturbações da personalidade, perspetivando-se a necessidade de redefinição do diagnóstico segundo o sistema de classificação proposto no DSM-IV212. Tem-se vindo a constatar que, a perceção e a caraterização clínicas dos distúrbios de personalidade, vão muito além da descrição daquele manual, colocando-se, cada vez mais, enfase na vida mental dos pacientes e na respetiva experiência interior213.
Desta forma, conclui-se que a classificação que se retira do DSM-IV não é, em si mesma, conclusiva quando se pretenda estabelecer o nível de controlo que um individuo é capaz de ter sobre o seu comportamento, devido a um distúrbio que tenha sido diagnosticado, pois acaba por não conseguir demonstrar, totalmente, a falta de autocontrolo aquando a prática do crime.
b) Incerteza científica e o problema da prova dos pressupostos da inimputabilidade
O juiz, em virtude da necessidade de esclarecimentos de ordem técnica, recorre aos especialistas, que se encarregam de descrever e opinar sobre os fatos a serem aclarados, contribuindo para a instrução214.
A perícia deve ser elaborada com antecedência e, o perito deve atuar restritamente respeitando, igualmente, os seus limites. Apenas as informações previamente solicitadas é que podem ser objeto de avaliação pericial, ou seja, caso se venha a analisar outras informações que não as solicitadas, as mesmas não devem ser utilizadas em desfavor do arguido. Ressalva-se ainda que, o perito não é um meio de prova, mas apenas o relatório pericial elaborado por aquele215.
211 A necessidade de uma correlação direta entre o distúrbio psíquico e a ação delituosa constitui, segundo afirmado na doutrina italiana, um importante critério delimitativo da maior extensão que a ampla compreensão do pressuposto psicopatológico da inimputabilidade introduz no campo de aplicação do instituto.
212 Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders.
213Shedler e Westen, 2004: 1350 e seguintes.
214 Mirabete, 2007: 261; Pacelli, 2013: 426.
215 Lopes, 2012: 612.
58 A relevância do juízo científico do artigo 163.º C.P.P está, necessariamente, relacionada com a especial credibilidade da perícia. Ora, esta credibilidade associa-se à presumida imparcialidade e competência do perito nomeado pelo tribunal, ou integrado no quadro administrativo das instituições oficiais de peritagem forense. Ou seja, em Portugal não vigora o sistema de perícias adversariais privadas assente na possibilidade de as “partes” no processo (assistentes e arguidos), apresentarem as suas próprias perícias:
as perícias são apresentadas por entidades designadas pelo tribunal e estabelecimentos oficiais reconhecidos por lei. Ou seja, verifica-se uma forma vinculada, de cariz público, o que é comprovado pela previsão do artigo 2.º, n.º 1, da Lei n.º 45/2004, de 19 de agosto, de acordo com o qual se estabelece que as perícias médico-legais são realizadas, obrigatoriamente, nas delegações e gabinetes médico-legais do Instituto Nacional de Medicina Legal216.
Dispõe o art.154.º, nº 1 do C.P.P, que a autoridade judiciária fixa, não só o local da perícia, mas, também, o objeto daquela. Em complementaridade, o art.152.º C.P.P prevê a possibilidade de se afastar o modelo da perícia pública caso tal se mostre mais conveniente sendo, por essa razão, possível que uma perícia se realize noutro laboratório ou estabelecimento que não o oficial (por exemplo, quando no estabelecimento oficial a tecnologia em causa nãos seja adequada). Assim, embora a regra exclua o regime de perícias adversárias, é possível vislumbrar exceções217.
Perante a relevância jurídico penal das perturbações da personalidade, o problema da confrontação do processo penal com o grau de validade que tem vindo a ser atribuído à prova pericial produzida no interior de um processo, a Suprema Corte Italiana anunciou um critério judiciário no âmbito do controlo da fidedignidade científica dos elementos probatórios que resultassem do conhecimento pericial: segundo o Pleno das secções Criminais, no processo de valoração da prova pericial, os tribunais deverão sindicar a última de acordo com as aquisições científicas atuais e mais partilhadas ou acolhidas no âmbito dos vários paradigmas interpretativos presentes no seio da psiquiatria218.
O problema relativo à qualidade científica da perícia psiquiátrica e, à necessidade de se estabelecerem normas para o seu controlo judiciário em termos que permitam apurar a sua fiabilidade, tem um alcance muito geral: os enunciados que os peritos introduzem no
216 Gomes de Sousa, 2011: 30.
217 Sousa, 2011: 29.
218 Sentenza 25 Gennaio 2005, 8 Marzo 2005, n. 9163.
59 processo têm a particularidade de poderem ser estanhos a todas as regras da formação de um discurso científico logo, a perícia psiquiátrica poderá estar, muitas vezes, desligada do conhecimento mais recente e, dessa forma, originar alguma regressão, o que pode colocar em causa o seu valor e fiabilidade.
Nos E.U.A, considerando que o requisito da aceitação generalizada poderia ser facilmente manipulado e por isso, seria falível, o Supremo Tribunal Norte Americano substitui-o por um outro que colocava a tónica na natureza do âmbito e finalidade a que o saber científico e destina, sendo o intuito principal, evitar o risco de adesão a setores parciais da comunidade científica e decisões judiciais assentes em explicações, teorias ou testes sem real validade. Desta forma, atribui-se aos juízes o papel de gatekeepers219, ou seja, de detentores da “custódia do método científico”, relativamente a toda a prova pericial.
A função de gatekeeping permite conduzir os juízes a avaliar a fidedignidade das conclusões periciais e, ter em consideração que, os pressupostos da responsabilidade penal devem provar-se para além da dúvida razoável.
Por este motivo, a lei portuguesa consagra, conforme já foi anteriormente referido, a adesão a um conceito de inimputabilidade, que pressupõe um elemento psicopatológico que, por sua vez, abrange várias situações de perturbação mental, independentemente da sua estrita classificação como doença, podendo ser enquadrada na categoria de anomalia psíquica e, um elemento psicológico, que se reporta à capacidade de avaliação da ilicitude do facto e de determinação do comportamento, em conformidade com essa avaliação220.
Aquele novo critério sobre a fidedignidade das teorias e dos testes científicos, desenvolvido pela jurisprudência de Daubert, Joiner e Kuhmo, permitiu criar um ambiente de discussão favorável à redução do nível de falibilidade científica das decisões judiciais relativamente à demonstração da relação de efetiva incidência entre uma possível perturbação da personalidade e a capacidade de querer do sujeito agente de um crime. Não é por acaso que, em revistas especializadas discute-se a utilização nos processo, das teorias sobre os distúrbios de personalidade como o teste de Rorschach221
219 Grove e Barden, 1995: 224 e 226.
220 Neves, 2008: 24.
221 A fidedignidade científica dos testes Rorschach como técnica de diagnóstico de uma perturba- ção da personalidade é discutida sob o critério de validação desenvolvido nos casos Daubert, Joiner e Kuhmo por Grove, William M. e Barden, R. Christopher (1999: 226 e seguintes).
60 e das imagens do cérebro (brain imaging), assim como, se examinam parte dos diagnósticos mais controversos utilizados em tribunal, debatendo-se a possibilidade de formular um juízo retrospetivo do estado mental reportado ao momento do cometimento do crime o que, por si só, demonstra a evolução que tem ocorrido neste âmbito.
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