VII
CUMPRINDO A PENA
A morte e o testamento de Pontes Vis- gueiro
Quando Pontes Visgueiro entrou a cumprir a pena na Casa de Correcção, es- tava o presidio sob a mais adeantada e fructuosa das suas administrações; era dirigido pelo medico, Dr. Almeida Valle, que havia sido nomeado e m 1868. Delle escreveu u m dos nossos poucos peniten- ciaristas, o Dr. A. H . de Souza Bandeira:
"Abandonando vant a j o s a clinica, o illustre medico preferiu dedicar todos os seus esforços ao
engrandecimento da Casa de
186 EVARISTO DÉ MORAES
Correcção da Corte, e durante
muitos annos exerceu, como ver- dadeiro sacerdócio, o espinhoso cargo de chefe daquelle estabe- lecimento. A sua educação lite- rária, o seu gênero de vida, e. so- bretudo, os dotes do seu coração, tinham-n'o feito o h o m e m apro- priado para tarefa de dirigir a regeneração dos culpados, e ef- fectivamente ella foi desempe- nhada com vantagem e brilho. O preso era tratado como u m en- fermo, e cuidadosamente estu- dadas as alterações do seu cara- cter, desde a entrada para a cel- lula até á sahida da prisão. N ã o contente com essa paciente ob- servação, o Dr. Valle inquiria sempre dos antecedentes do condemnado, informava-se do processo, para conhecer as condi- ções do crime e a natureza dos moveis que o determinaram." (A
Q U E S T Ã O PENITENCIARIA N O BRASIL, 1881, pag. 71). (26) Certamente, foram realizadas, pelo
(26) V. t a m b é m : Evaristo de Moraes, Prisões e Insti- tuições Penitenciárias no Brasil, pags. 16-20.
O CASO PONTES VISGUEIRO 187 culto e esforçado director da Casa de Cor- recção, úteis observações acerca da pes-
soa do ex-desembargador da Relação ma- ranhense, mas, por desgraça, não os en- contrámos no archivo do estabelecimento, nem no Archivo Nacional, onde, a res- peito de Pontes Visgueiro, só deparámos escassos informes e algumas gravuras, re- colhidos pelo Dr. Moreira de Azevedo.
Tão pouco lográmos examinar os autos do processo, que deveriam estar no ar- chivo do Supremo Tribunal Federal, por- que lá não estão...
Verdade é, entretanto, que Pontes Visgueiro foi internado, para execução da pena a elle imposta, na Casa de Corre- cção. Ali occorreu doloroso encontro, as- sim narrado por Almeida Nogueira, na obra já citada e m o capitulo I:
"Quando se deu a grande desventura, estava o desembar- gador Pontes Visgueiro tratando de requerer aposentadoria, sob o fundamento de completa surdez.
Depois da condemnação, te- ve o governo de estudar o objecto desse pedido, para dar á petição
EVARISTO DE MORAES
juridico despacho. Ouvida sobre o caso, opinou a secção de justiça do Conselho de Estado que, com a condemnação havida, tinha o supplicante perdido o cargo, ape- sar de vitalicio, e, por conse- guinte, carecia de direito a pre- tendida aposentação.
Estavam as coisas nesse pé, quando aconteceu o conselheiro Duarte de Azevedo, então minis- tro da Justiça, ir fazer u m a visita á penitenciaria do Rio. L á encon- trou na officina de encadernação, com a barba e a cabeça rapadas, jaqueta de zuarte e numero n u m a chapa á cinta, o desventurado ex- desembargador Pontes Visguei- ro, cuja presença, como era natu- ral, lhe produziu a mais dolorosa emoção.
O condemnado solicitou a graça, que lhe foi concedida, de falar ao ministro. Este ouviu-o c teve de lhe responder por escri- pto, porque elle realmente estava mais surdo que u m a porta; não ouviria u m tiro de canhão a cinco passos. Queria conhecer o des-
O CASO PONTES VISGUEIRO 189 tino que fora dado ao seu pedido de aposentadoria. E accrescen- tou: "... sim, porque — eu sou desembargador !"
Limitou-se o ministro a es- crever: "Foi".
Esta resposta lacônica, m a s terrivelmente peremptória, dei- xara totalmente acabrunhado o grande infeliz. Abaixou o rosto e emmudeceu. Dir-se-ia que aquella destituição, que lhe infligiam, da dignidade da toga, da qual ficara despido, doia-lhe muito mais, porque era u m a degradação pes- soal, e mais o mortificava, do que a pena material que estava cumprindo."
Morreu Pontes Visgueiro, na Corre- cção, a 24 de março de 1875, sendo enter- rado, no dia seguinte, e m o cemitério de S. Francisco Xavier. Publicou, então, o J O R N A L D O C O M M E R C I O esta noti- cia, contendo o testamento do ex-desem- bargador:
" T E S T A M E N T O — Falleceu, hon- tem, ás 8 1|2 horas da manhã, na Casa de Correcção, o desembargador José Cân- dido de Pontes Visgueiro, nascido a 13 de
190 EVARISTO DE MORAES
outubro de 1811, em Maceió, filho legi- timo de Manuel do Nascimento Pontes e Adriana Maria de Pontes, já fallecidos.
Declarou ter duas irmãs, D. Maria e D.
Thereza, esta casada com o Dr. Manuel Lourenço da Silveira, e aquella com o des- embargador Silvino Fernandes de Araújo Jorge, e u m irmão, o Dr. Manuel Adriano da Silva Pontes, que falleceu e m Paris, e m novembro de 1869, por moléstia adqui- rida na campanha do Paraguay, sendo esta a sua mais pungente recordação, por- que, si elle vivesse, a sua sorte teria sido outra. Declarou ser bacharel formado e m sciencias jurídicas e sociaes pela antiga Academia de S. Paulo, desde outubro de 1834; tendo sido juiz de direito mais de dez annos na comarca das Alagoas, e cerca de outros dez annos na de Paranaguá, do Piauhy, e quinze annos e meio desembar- gador na Relação do Maranhão, desde março de 1858 até agosto de 1873, tendo cumprido religiosamente nesses empre- gos os seus deveres, parecendo-lhe ter go- zado de merecida consideração, e diz-lhe a consciência, que sempre elle honrara a beca que vestira.
Nunca foi casado, m a s antes de for- mar-se teve u m a filha de nome Aristhéa,
O CASO PONTES VISGUEIRO 191
que foi creada por seus pães, e que é actualmente casada com o desembarga- dor Basilio Quaresma Torreão. Já a re- conheceu por escriptura publica, sem ha- ver entre a mãe delia e elle impedimento;
confirmando agora a perfilhação para to- dos os effeitos de direito, instituindo-a sua única e universal herdeira. N o m e o u testamenteiros os Drs. Gentil H o m e m de Almeida Braga, Laurindo José Alves de Oliveira, José Justiniano Rodrigues, o desembargador Antônio Manuel Fernan- des, sendo seus procuradores no Rio de Janeiro o Sr. José Justiniano Rodrigues e no Maranhão o Sr. Laurindo José Alves de Oliveira, sendo que as contas que apre- sentarem devem ser tidas como verdadei- ras e exactas, pelo muito conceito que lhe mereceram, da m e s m a fôrma que as que teve e m Maceió com o Sr. Eugênio José Neves de Andrade, as quaes suppõe esta- rem liquidadas.
Deixou, da terça de seus bens, á sua filha dez apólices da divida publica de 1:000$000 cada uma, não se communican- do este legado aos bens do seu casal. Si ao tempo de seu fallecimento não couber na terça, por motivos que não poude pre- ver, a legataria tomal-a-á toda e m apoli-
192 EVARISTO DE MORAES
ces, e, si houver fracções, se ajuntarão aos juros futuros das mesmas.
Depois de seu fallecimento seu testa- menteiro promoverá o inventario, para separar-se a terça e m apólices, e tomará conta dellas para receber e m tempo de- vido os dividendos, que irá pondo a juros (com as fracções que houver) e m u m ban- co ou onde melhor convier; e apenas haja quantia sufficiente para a compra de u m a apólice, será comprada para se juntar ás primeiras e ir assim augmentando o le- gado. Esta operação se repetirá emquanto sua filha fôr casada, que é o tempo e m que menos necessidade deve ter do uso e fru- cto do legado; m a s se enviuvar, cessará immediatamente o encargo do testamen- teiro, e ella tomará conta das apólices existentes e dos juros, podendo dispor ou conserval-as, deixando de ser innaliena- veis ou sujeitas a quaesquer condições.
Isto m e s m o se guardará si fôr legataria no estado de viuvez, porque então não terá logar o encargo do testamenteiro e ella tomará conta do legado sem condição al- guma. Podendo acontecer que sua filha não exista ao tempo de seu fallecimento.
ou que falleça posteriormente no estado de viuvez, toda a sua terça, no primeiro
O CASO PONTES VISGUEIRO 193
caso, será repartida igualmente entre suas netas Maria Raymunda, Maria An- tonina e Maria Altina, como legatarias, ou entre as que existirem, si acaso tiver fallecido alguma; e, no segundo, tudo quanto houver do legado passará igual e repartidamente a ellas, também como le- gatarias.
E m ambos os casos as apólices (com as fracções, si as houver) ficarão do mes- m o modo restrictamente sujeitas ás dis- posições acima, e m poder do testamentei- ro, salvo se a sua filha fallecer quando ca- sada e com testamento, e se der outra ad- ministração ao legado de seus filhos, por- que então se cumprirá sua determinação somente quanto á pessoa encarregada da administração. Nestas legatarias tam- bém o legado será innalienavel, n e m se communicarão aos bens do marido e si se casarem, porque si alguma fallecer sem filho o legado passará á irmã ou irmãos sobreviventes, ficando (entendido que a respeito da que vier a fallecer com descen- dência cessam todas as condições e res- tricções impostas ao legado.
Declarou julgar não ser devedor a pessoa alguma, porque, tendo incumbido seu procurador Eugênio José Neves e An-
is
194 EVARISTO DE MORAES
drade da venda de u m a casa que tinha e m Maceió, para com o seu producto saldar as suas contas, pagar u m a conta e m Per- nambuco ao Dr. Praxedes Pitanga, pro- veniente de despezas que se fizeram com a vinda dos restos mortaes de seu irmão de Paris, e outra na thesouraria de M a - ceió, que elle devia á Fazenda Nacional, suppõe este negocio terminado com a re- messa do saldo, que houve a seu favor, ao seu procurador no Maranhão.
Declarou que as contas ainda aber- tas com o seu amigo o barão de Parahim, serão reguladas pelo que elle disser.
Nada dispoz sobre suffragios a sua alma, por confiar muito na piedade de sua filha, e, u m a vez que tem de morrer longe delia, pouco importa o m o d o pelo qual seu corpo tem de ser atirado, desconhecido, na valia de algum cemitério.
Declarou, ainda, que não foi inimigo de ninguém, no verdadeiro sentido da pa- lavra; e, si inimigos teve, perdôa-lhes todo o mal que lhe fizeram.
Sendo humano e piedoso, e tendo muito amor á justiça e ao próximo, si o seu espirito se desvairou um dia, que per- dão poderá desejar dos homens ? Quem podia perdoal-o já não existe."
O CASO PONTES VISGUEIRO 195 Este testamento foi feito a 5 de ja- neiro de 1875, apresentado por José Jus- tiniano Rodrigues, e aberto hontem, ás 2 1|4 horas da tarde, pelo Dr. juiz da Pro- vedoria, na sala dos despachos.
VIII
BOATOS, VERSOS POPULARES E ROMANCE A RESPEITO DE PON-
TES VISGUEIRO
Por mais de uma vez, correram boa- tos, mormente no Norte, de haver Pontes Visgueiro conseguido escapar da Casa de Correcção, indo viver e m Portugal, ou nos sertões da Bahia.
Si bem que tivéssemos recolhido os dados fidedignos, constantes do capitulo anterior, e absolutamente contrários á versão da fuga, buscámos informações acerca daquelles boatos. São de bôa fonte, pois emanam do eminente desembargador do Superior Tribunal da Bahia, Dr. Lu- catelli Doria, as que seguem, a nós envia- das por elle, e m carta, respondendo a que lhe endereçámos.
EVARISTO DE MORAES
— "Bahia, 31 de julho de
1933.— E x m o . Sr. Dr. Evaristo de Moraes. Respeitosas sauda- ções.— E m minhas mãos a carta com que V. Ex. m e honrou, e m data de 19 do m e z hoje findo, e que passo a responder. Pede-me V. Ex. esclarecimentos sobre a vida e morte do desembargador Pontes Visgueiro "nos sertões da Bahia, annos depois da data e m a qual affirma o processo que elle fallecera na Casa de Corre- cção do Rio, e m 24 de março de 1875."
Relativamente á vida e mor- te de Pontes Visgueiro nos ser- tões deste Estado, facto que á V. Ex. afigura-se de u m a lenda, nada posso informar. Estou, mesmo, a acreditar que tal facto jamais se deu.
Sei, porém, alguma cousa, com relação á fuga de Pontes Visgueiro da prisão e m que cum- pria a pena que lhe foi imposta, e que talvez possa interessar a V. Ex., desde que, como diz, está escrevendo u m a monographia
O CASO PONTES VISGUEIRO 199
sobre o crime mórbido do infeliz magistrado.
E m 1892 fui nomeado juiz de direito da comarca de Santa Ritta do Rio Preto, neste Estado, e limitrophe com o Estado do Piauhy, onde Visgueiro fora bas- tante conhecido.
Exercera o cargo de vigário da freguezia de Santa Ritta, an- tes da minha judicatura ali, u m padre (cujo nome não m e recor- do) que m e garantiram pessoas de credito na localidade ter sido h o m e m bastante culto e parti- cular amigo de Pontes Visgueiro.
com o qual mantinha constante e fraternal correspondência.
Juiz ali, falando, certo dia, e m roda de pessoas conceitua- das, sobre o crime praticado por Pontes Visgueiro, contaram-me, então, o seguinte facto que aqui deixo, na sua pureza, e por conta dos seus narradores.
Certa feita, o referido vigá- rio, amigo de Visgueiro, que já até havia celebrado missa por al- m a do mesmo, recebeu u m a car-
EVARISTO .DE MORAES
ta de procedência estrangeira e abrindo-a encontrou u m a folha de papel e m branco.
H o m e m experiente, que era, guardou o papel desconfiado de ser o m e s m o portador de algum segredo. E não se enganou.
Submettido o papel a deter- minados processos chimicos, re- velou-se a escripta.
Era u m a carta do infortu- nado Pontes Visgueiro ao seu leal e dedicado amigo, informan- do-o da sua fuga e nova vida.
Tal foi o contentamento do padre, que não se poude conter e revelou a alguns amigos Íntimos, na maior reserva, que o seu amigo Visgueiro estava vivo e bem vivo.
O facto m e foi narrado por homens do maior conceito, resi- dentes e m Santa Ritta, de m o d o a inspirar-me credito. Lembro- m e dos coronéis Constantino Castro e Muniz Serpa (já falleci- dos) como também do coronel Affonso Araújo, que m e consta viver e m terras do Piauhy.
O CASO PONTES VISGUEIRO 201 Como verá V. Ex., nas cir-
cumstanciascias e m que m e foi narrado o facto, não se pôde con- ceber que ahi esteja u m a fanta- sia, u m capricho da imaginação do então vigário de Santa Ritta, ou alguma novella creada por aquelles que m e informaram de tal acontecimento.
Depois de recebida a carta de V. Ex., conversando a respei- to da m e s m a com o Dr. Silva Campos, competente historiogra- pho e alto funccionario do Ar- chivo Publico, neste Estado, for- neceu-me o m e s m o algumas no- tas sobre a vida e fuga de Pontes Visgueiro, as quaes aqui resumo.
Diz o Dr. Silva Campos que foi o crime que mais impressio- nou, até hoje, os habitantes da pacata cidade de S. Luiz do M a - ranhão, e m 1873. Que para conter o populacho, que por duas vezes apedrejou e intentou assaltar a casa do criminoso, necessário foi o emprego da força publica. Af- firma, ainda, o Dr. Silva Campos que e m Manáos existiu u m por-
EVARISTO DE MORAES
tuguez que conheceu intimamen- te Pontes Visgueiro no Mara- nhão, e, que, depois de haver corrido noticia da morte do mes- m o , encontrou-o e m Lisboa, c o m elle conversou, e visitou-o no aposento e m que residia. Que o portuguez e m questão era ho- m e m digno de inteira fé. Q u e no Rio de Janeiro ha u m a pessoa que ouviu a historia da bocca do lusitano. E' o Dr. Hermenegildo Lopes de Campos, medico refor- m a d o do Exercito, residente á Avenida Rodrigues Alves, n. 431
(Empreza de armazéns frigorí- ficos).
Diz, finalmente, o Dr. Sil- va Campos que, segundo a tradi- cção maranhense, o fallecimento de Pontes Visgueiro foi simula- do, tendo o feretro partido para o cemitério cheio de pedras. Q u e houve quem, desconfiando da tra- móia, procurasse abrir o caixão para contemplar o cadáver, no que foi obstado.
C o m o verá V. Ex., as notas que m e foram fornecidas pelo Dr.
O CASO PONTES VISGUEIRO 203 Silva Campos, notas cujo origi-
nal acompanha esta, coincidem, de certo modo, com o facto que m e foi narrado e m Santa Ritta, parecendo certa a fuga de Pontes Visgueiro.
Terminando, tenho a dizer a V. Ex. que desta minha informa- ção, bem assim das notas do Dr.
Silva Campos, poderá fazer o uso que entender, caso encerrem algum prestimo para a monogra- phia que V. Ex. está a escrever.
C o m a maior consideração de V. Ex. Grande admirador e me- nor creado.— (assignado) Luca- telli Doria."
Contém a nota fornecida pelo Dr. Sil- va Campos o que fielmente reproduziu o desembargador Lucatelli e dá noticia de minima parte da producção poética do povo a respeito de Pontes Visgueiro e do seu crime.
Ahi vão, a titulo de curiosidade, estes versinhos, colhidos, no dizer do Dr. Silva Campos, dos lábios de pessoa nascida e creada e m S. Luiz:
204 EVARISTO DE MORAES
"Seu Pontes Visgueiro Q u e fim Maricás levou ? Ella entrou e não sahiu, E m sua casa ella ficou.
Seu Pontes Visgueiro Gosta de chupar caju;
Guarda a castanha no bolso E Mariquinhas no bahú.
Seu Pontes Visgueiro Gosta de comer m a m ã o ; Guarda a semente no bolso E Mariquinhas no caixão.
Seu Pontes Visgueiro Metta a penna no tinteiro;
Matou a Mariquinhas E enterrou no canteiro."
Producção literária, ou, por outra, com pretenção a literária, referente ao caso —Pontes Visgueiro, encontrámos no romance M A R I A D A C O N C E I Ç Ã O ,
A VICTIMA D O D E S E M B A R G A D O R P O N T E S VISGUEIRO, romance his-
tórico, por F. R., precedido de u m prólogo por C. Imolopy. A o romance foram addi-
O CASO PONTES VISGUEIRO 205 cionadas seis poesias medíocres, a propó- sito dos amores e do crime do desembar-
gador.
Temos conhecimento, também, de uma novella, da autoria do Sr. Lima Ro- drigues, em a qual foi habilmente apro- veitado o caso—Pontes Visgueiro. (26 A ) .
Poude o autor colher no Maranhão, de onde é filho, mais de u m a informação digna de credito, apparecendo poucas cir- cumstancias não confirmadas pelo pro- cesso. A o que parece, houve bem explicá- vel silencio por parte de pessoas que ti- nham conhecido intimamente Maria da Conceição e não a reputavam a reles pros- tituta descripta nos autos.
(26 A ) Publicada na revista "Nação Brasileira", n. 26, de fevereiro de 1934.
IX
A MAIS PLAUSÍVEL INTERPRETA- ÇÃO PSYCHIATRICA DO CRIME
Vários escriptores, dentre os que se occupáram, aliás sem muita detença, do caso — Pontes Visgueiro, mostráram-se inclinados á explicação mórbida do cri- me. Q u e m maior attenção dedicou ao as- sumpto foi o juiz-criminalista Viveiros de Castro, consagrando-lhe algumas paginas da sua conhecida obra A T T E N T A D O S A O P U D O R (Estudo sobre as aberrações do instincto sexual), editada e m 1895.
Fez o saudoso magistrado descripção fiel dos factos revelados pelo processo; ana- lysou-os c o m aguda perspicácia, accen- tuou os mais indicativos da anormalidade
208 EVARISTO DE MORAES
emocional e mental do desembergador, affirmando, afinal:
— "Dissemos, no prólogo,
que esta monographia era escri- pta com u m fim humanitário. A analyse desse processo, desse erro judiciário, commettido pelo primeiro tribunal do paiz, con- firma a necessidade de nossas conclusões. H a o vicio e ha a de- generescencia. O primeiro deve ser punido; a segunda é irrespon- sável. E para que a justiça possa, com segurança, decidir, o seu primeiro cuidado deve ser o exa- m e medico-legal do accusado."
(pags. 375-376).
Na thése de concurso que acerca da
"Capacidade Civil e seus problemas me- dico-legaes" escreveu o Dr. Estacio de Lima, candidatando-se para professor na Faculdade de Medicina da Bahia, assim alludiu elle ao caso — Pontes Visgueiro:
— "Constituem as psycho-
ses de involução o capitulo das perturbações mentaes da velhice.
O CASO PONTES VISGUEIRO 209 Costuma-se, no c o m m u m , diffe- rençar cinco typos dessas anoma- lias: o depressivo, o agitado, o confuso, o paranóico e o apathi- co. São anomalias, dissemos com justeza, porque a senilidade não é forçosamente acompanhada desses distúrbios mentaes. O avanço da sciencia ha, hoje, mui- tos erros evitado, e e m parti- cular quanto á responsabilidade criminal.
No Brasil, foi célebre o pro-
cesso e julgamento do desembar- gador Visgueiro, no Maranhão; e injusta a pena imposta ao des- graçado enfermo. Estou e m que, actualmente, a cousa seria ou- tra." (Obra cit, 1926, pags. 207- 208).
Não diverge a interpretação psychia- trica do crime, cujo histórico fizemos, na penna, por mais de u m titulo admirável, do professor Afranio Peixoto.
Depois de haver, com ligeiros equívo- cos, narrado os factos, e notado que não fora realisada "perícia sobre o estado mental", pergunta:
14
210 EVARISTO DE MORAES
— "Aos 62 annos, u m crime de amor tão bárbaro, de ciúme vingativo, embora a premedita- ção longa e requintada, e m com- pleta opposição á honorabilidade privada e publica, de h o m e m de familia e de sociedade, de magis- trado e de ancião, com tão com- pleta falta de emotividade, e qua- si affronta publica, não será se- guro indicio de u m a involução senil, demencial ou predemen- cial ?" ( P S I C O - P A T O L O G I A F O R E N S E , 3a ed., 1931, pag.
314).
Apoia-se o abalisado professor e m Krafft-Ebing, quando este doutrina que os delictos sexuaes dos velhos reclamam sempre exame do estado mental. (27)
A' primeira vista, poderá se afigurar menos fundada na sciencia psychiatrica esta explicação mórbida do crime de Pon- tes Visgueiro.
Identicamente, e m Portugal, no fa- moso caso do padre Manoel da Fonseca Azevedo, não foi admittida a irresponsa-
(27) Depara-se este ensinamento na Medicine Légale des Alienes, ed. de 1911, pag. 244.
O CASO PONTES VISGUEIRO 211
bilidade criminal, por não se coadunarem, apparentemente, certas manifestações da
intelligencia daquelle homicida com a hy- pothese da involução senil; mas o estudo do provecto especialista Júlio de Mattos deixou fora de duvida o equivoco e m que laboraram os sustentadores da culpabili- dade. (OS A L I E N A D O S N O S T R I B U - N A E S , vol. I, 1902, pag. 63 e seguintes).
Apontou Júlio de Mattos a causa da- quelle erro judiciário:
— "E\ em regra, insidiosa e
longa a duração da demência se- nil, cujas primeiras manifesta- tações costumam passar desper- cebidas, ou não são interpreta- das." (Obra cit., vol. II, 1903, pag. 285).
Confere o que, na mesma data, ensi- nava o professor Dupré, collaborando no copioso T R A I T É D E P A T H O L O G I E M E N T A L E , dirigido por Gilbert Ballct:
— "O começo da demência
senil é insidioso, a sua marcha é lenta, e sua evolução regular- mente progressiva." (pag. 1251).
Aos versados em Psychiatria não as-
212 EVARISTO DE MORAES
sombra que a enfermidade mental de Pon- tes Visgueiro pudesse ter passado, na- quelle periodo, despercebida aos seus Ínti- mos. Cumpre, porém, seguindo os mes- tres daquella sciencia, não confundir a in- volução senil, caracteristicamente patho- logica, com a senilidade meramente phy- siologica. Aquella b e m podia existir, tal como vimos aventada, prematuramente, e m u m h o m e m de 62 annos. N ã o era Pon- tes Visgueiro alienado pelo simples facto de haver attingido tal idade. T u d o indica que elle o era por u m a constituição de cunho degenerativo, a qual, talvez, pu- desse, também, explicar a surdez que o acabrunhava desde a infância e se tor- nara completa e definitiva, cerca dos 40 annos.
A propósito, já e m 1889, firmava Thi- vet, na sua monographia " L A F O L I E C H E Z L E S V I É I L L A R D S " , este princi- pio:
— " N o estudo das moléstias mentaes do velho, é preciso .an- tes de tudo, considerar o terreno sobre o qual evoluem as pertur- bações psychicas. Tem-se, outro- sim, de evitar a confusão de seni- lidade com demência; aquella
O CASO PONTES VISGUEIRO 213 exprime um estado physiologico,
a ultima u m estado pathologico."
(pag. 123).
Accentúa, por igual, a differença dos dois estados Alexandre Paris, na sua obra
CARACTERES D E D E G E N E R E S - CENCE E T ALIENATIONS M E N - TALES, editada em 1909:
— "E' a demência senil uma
alienação mental; differe, sensi- velmente, do enfraquecimento das faculdades superiores do ve- lho normal, m e s m o centenário."
(pag. 418).
Mais adeante, ensina Paris que, no inicio da demência senil, p o d e m sobrevir, não só idéas de perseguição e preoccupa- ções hypocondriacas, como, também, di- vagações erotico-megalomaniacas. (pag.
(422). E accrescenta que, pelo lado m o - ral, a desordem se caracterisa pela alte- ração dos sentimentos affectivos. Allude, finalmente, ao periodo medico-legal da demência senil, e m o qual o enfermo pra- tica desatinos (pag. 423).
Frisando, precisamente, o nosso caso, se nos offerece a velha observação do pro-
214 EVARISTO DE MORAES
fessor Bali, encontrando, entre os signaes mais freqüentes da demência senil, a ex- citação das funcções genitaes. ( L E Ç O N S
SUR LES MALADIES M E N T A L E S ,
1880-1883, pag. 348).
Accresce á observação do velho psy- chiatra francez a de Silvio Venturi, addu- zindo:
— " O s loucos senis não são capazes de amar fortemente, na- turalmente e de accordo com as conveniências da sua idade e da sua posição social." ( C O R R E -
L A T I O N S PSYCHO-SEXUEL- LES, 1899, pag. 157).
Ajustam-se todos estes ensinamentos
scientificos ao crime de Pontes Visgueiro.
N e m obsta a esta interpretação psychia- trica a circumstancia da integridade, mais opparente do que real, das suas faculda-
des intellectuaes.
Esclarece Truelle que isto é commum nos prodromos da demência senil. (V. no T R A I T É D E P A T H O L O G I E , de Ser- gent, Ribadeau e Babonneix, a PSY- CHIATRIE, T. II, 1921, pag. 254.) (28)
(28) N a já citada obr"\ de Kraft-Ebing, e na pagina já alludida, t a m b é m se observa que "a perversão sexual e a depravaçáo éthica p o d e m preceder, durante annos, a m i n a da intelligencia".
O CASO PONTES VISGUEIRO
E, sendo como já sabemos, lenta a evolução da enfermidade, não teria impor- tância a possivel objecção baseada na me- ticulosidade das precauções economico- juridicas do testamento, escripto na Casa de Correcção. Baste lembrar que, desde a pratica do crime, passando pela feitura do testamento, até á morte de Pontes Vis- gueiro, não decorreram, siquer, dois an- nos ...
Poder-se-iam, outrosim, enxergar traços de sadismo na attitude do desem- bargador, por occasião do facto criminoso, mordendo o seio da victima, já semi-mor- ta. Isto, porém, não prejudicaria a thése que adoptámos, de accordo com a indica- ção de Afranio Peixoto; porquanto, traços de sadismo se vislumbram, até, nos amo- res de indivíduos normaes, e m dados mo- mentos de exaltação sexual.
O que não supporta divergência sen- sata é a caracterisação mórbida do crime.
Recordem-se: os precedentes familia- res do desembargador; a sua duradoura e honesta actuação na magistratura; a sua rápida, mas accentuada, passagem pela deputação geral; a correcção do seu pro- cedimento para com a filha, expontanea- mente reconhecida, educando-a com es-
216 EVARISTO DE MORAES
mero e casando-a com u m seu collega e amigo; o conceito e m que era geralmente tido e que levara o governo imperial a to- mar e m consideração a sua surdez, ao ac- commodal-o e m funcção judiciaria de alta responsabilidade, não o compellindo a se aposentar; a attitude de pessoas gradas do Maranhão e do Rio de Janeiro, trazen- do á Justiça o testemunho da sua persis- tente estima para com o h o m e m accusado de u m crime que a toda gente horrorisára;
as palavras significativas do severo Pro- curador da Coroa, não se dedignando de confessar, no Supremo Tribunal, a antiga amizade que o unira ao matador de M a - ria da Conceição; emfim, tudo quanto o processo fornece no sentido da discordân- cia do crime com a personalidade anterior do criminoso.
Que oceorre, logo, ao espirito de quem medita sobre esta evidente discor- dância ?
A feição anômala do crime. E, si tal feição assim se impõe, irresistivelmcnte, porque não admittir a classificação psy- chiatrica mais plausível ?
Demais, bem analysadas certas cir- cumstancias anteriores, concomittantes e posteriores ao crime, sem custo se per-
O CASO PONTES VISGUEIROS 217 cebe que a auto-critica do desembargador já falhava lamentavelmente, quando elle
attrahiu á sua casa a volubilissima aman- te, para lhe dar o trágico fim demonstrado pelo processo.
A só idéa de a matar na própria resi- dência, com a collaboração perigosa de um empregado de poucos dias, denuncia (em h o m e m tão experiente da vida e ha- bituado a apreciar, como juiz, casos cri- minaes de toda espécie) deficiência de raciocínio.
Convém, aqui, relembrar u m a cir- cumstancia: tal era o extranhavel com- portamento de Pontes Visgueiro, depois do encontro de Maria da Conceição e m companhia do preparatoriano Costa, que Amancio Cearense transmittira, e m gran- de reserva, ao chefe de policia, e ao des- embargador Torreão, receios de que elle praticasse algum acto de violência, e fora ao ponto de interessar-se pelo afasta- mento de Mariquinhas...
Estava elle, portanto, visivelmente anormalisado, e não se resguardava da observação dos seus amigos.
Outro signal de diminuição da auto- critica reside na maneira pueril pela qual procurou acalmar a m ã e e as amigas da
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victima, mentindo-lhes por fôrma a ser tão facilmente desmentido, inculcando- lhes a supposição da ida da rapariga para o Pará .
E tudo que se liga ao escondimento do cadáver não é menos expressivo.
T e m u m rio ao pé da porta, e o mar não muito longe; já dispõe de auxiliares prestativos; ainda não está vigiado. N o emtanto, prefere ao expediente menos arriscado, e que a emergência aconse- lhava, promover o enterramento do cadá- ver nas condições reveladas pelos autos:
apenas um palmo abaixo do chão do quin- tal, ao pé da escada...
N e m é necessário estar esmiuçando as mostras de imprudência que accen- tuam a anormalidade do proceder de Pon- tes Visgueiro, antes, durante e depois do crime. Ellas emergem do que deixámos descripto no capitulo II e das declarações de Paixão Cearense e Guilhermino.
Assim se percebe que, a despeito de tal ou qual adaptação do viver do desem- bargador ao ambiente, elle não permane- cia normal, como se poderia crer. O auto- matismo de certos gestos, de certas pala- vras, de certas deliberações encobre, as mais das vezes, grave enfermidade men-
O CASO PONTES VISGUEIRO 219 tal em marcha. E' a licção dos competen- tes.
Ainda aqui, neste triste episódio da nossa chronica criminal, se confirmam as observações scientificas.
Deplorável foi que não se houvesse procedido, aquella época, ao exame me- dico-mental do desembargador.
Noutro caso, o do Dr. José Mariano da Silva, anterior ao de Pontes Visgueiro, tal exame foi realizado, e a defesa teve e m que assentar a argumentação propicia á thése da irresponsabilidade criminal.
(29)
Provavelmente, aconteceria o m e s m o si houvessem sido aproveitadas as indica- ções constantes dos autos e effectuadas algumas diligencias technicas, já possí- veis naquelle tempo.
(29) V. Viveiros de Castro — obra cit., pags. 163-165.
ÍNDICE
Í N D I C E
DUAS PALA VRAS DE EXPLICAÇÃO 7 I — A PESSOA DO CRIMINOSO E OS PRE-
CEDENTES DO FACTO 9
II — O CRIME 35 /// — ACTIVIDADES POLICIAES 63
IV — A ATTITUDE DA IMPRENSA LOCAL E A POLEMICA JURÍDICA EM TORNO
DO CASO 75 V — A PRISÃO E O PROCESSO 97
VI — OS DEBATES EM PLENÁRIO — O
JULGAMENTO 105 VII — CUMPRINDO A PENA — A MORTE
E O TESTAMENTO DE PONTES VIS-
GUEIRO 185 VIII — BOATOS, VERSOS POPULARES E
ROMANCE A RESPEITO DE PONTES
VISGUEIRO 197 IX — A MAIS PLAUSÍVEL INTERPRETA-
ÇÃO PSYCHIATRICA DO CRIME .... 207
N O T A — As gravuras que apparecem nesta obra são reproducções de desenhos de Ângelo Agostini insertos
na revista carioca " O Mosquito", de 4 de outubro de 1873.
Off. Graph. d'A NOlTXü
C 96526 9501 B
BUNDOORA GENERAL 345.8107
M827e
MORAES, Euaristo de, 1871-1939
Um erro judiciário : o caso Pontes Visgueiro
BRN : 864667