Esclarece Truelle que isto é commum nos prodromos da demência senil. (V. no T R A I T É D E P A T H O L O G I E , de Ser-gent, Ribadeau e Babonneix, a PSY-CHIATRIE, T. II, 1921, pag. 254.) (28)
(28) N a já citada obr"\ de Kraft-Ebing, e na pagina já alludida, t a m b é m se observa que "a perversão sexual e a depravaçáo éthica p o d e m preceder, durante annos, a m i n a da intelligencia".
O CASO PONTES VISGUEIRO
E, sendo como já sabemos, lenta a evolução da enfermidade, não teria impor-tância a possivel objecção baseada na me-ticulosidade das precauções economico-juridicas do testamento, escripto na Casa de Correcção. Baste lembrar que, desde a pratica do crime, passando pela feitura do testamento, até á morte de Pontes Vis-gueiro, não decorreram, siquer, dois an-nos ...
Poder-se-iam, outrosim, enxergar traços de sadismo na attitude do desem-bargador, por occasião do facto criminoso, mordendo o seio da victima, já semi-mor-ta. Isto, porém, não prejudicaria a thése que adoptámos, de accordo com a indica-ção de Afranio Peixoto; porquanto, traços de sadismo se vislumbram, até, nos ares de indivíduos normaes, e m dados mo-mentos de exaltação sexual.
O que não supporta divergência sen-sata é a caracterisação mórbida do crime.
Recordem-se: os precedentes familia-res do desembargador; a sua duradoura e honesta actuação na magistratura; a sua rápida, mas accentuada, passagem pela deputação geral; a correcção do seu pro-cedimento para com a filha, expontanea-mente reconhecida, educando-a com
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mero e casando-a com u m seu collega e amigo; o conceito e m que era geralmente tido e que levara o governo imperial a to-mar e m consideração a sua surdez, ao ac-commodal-o e m funcção judiciaria de alta responsabilidade, não o compellindo a se aposentar; a attitude de pessoas gradas do Maranhão e do Rio de Janeiro, trazen-do á Justiça o testemunho da sua persis-tente estima para com o h o m e m accusado de u m crime que a toda gente horrorisára;
as palavras significativas do severo Pro-curador da Coroa, não se dedignando de confessar, no Supremo Tribunal, a antiga amizade que o unira ao matador de M a -ria da Conceição; emfim, tudo quanto o processo fornece no sentido da discordân-cia do crime com a personalidade anterior do criminoso.
Que oceorre, logo, ao espirito de quem medita sobre esta evidente discor-dância ?
A feição anômala do crime. E, si tal feição assim se impõe, irresistivelmcnte, porque não admittir a classificação psy-chiatrica mais plausível ?
Demais, bem analysadas certas cir-cumstancias anteriores, concomittantes e posteriores ao crime, sem custo se
per-O CASper-O Pper-ONTES VISGUEIRper-OS 217 cebe que a auto-critica do desembargador já falhava lamentavelmente, quando elle
attrahiu á sua casa a volubilissima aman-te, para lhe dar o trágico fim demonstrado pelo processo.
A só idéa de a matar na própria resi-dência, com a collaboração perigosa de um empregado de poucos dias, denuncia (em h o m e m tão experiente da vida e ha-bituado a apreciar, como juiz, casos cri-minaes de toda espécie) deficiência de raciocínio.
Convém, aqui, relembrar u m a cir-cumstancia: tal era o extranhavel com-portamento de Pontes Visgueiro, depois do encontro de Maria da Conceição e m companhia do preparatoriano Costa, que Amancio Cearense transmittira, e m gran-de reserva, ao chefe gran-de policia, e ao gran- des-embargador Torreão, receios de que elle praticasse algum acto de violência, e fora ao ponto de interessar-se pelo afasta-mento de Mariquinhas...
Estava elle, portanto, visivelmente anormalisado, e não se resguardava da observação dos seus amigos.
Outro signal de diminuição da auto-critica reside na maneira pueril pela qual procurou acalmar a m ã e e as amigas da
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victima, mentindo-lhes por fôrma a ser tão facilmente desmentido, inculcando-lhes a supposição da ida da rapariga para o Pará .
E tudo que se liga ao escondimento do cadáver não é menos expressivo.
T e m u m rio ao pé da porta, e o mar não muito longe; já dispõe de auxiliares prestativos; ainda não está vigiado. N o emtanto, prefere ao expediente menos arriscado, e que a emergência aconse-lhava, promover o enterramento do cadá-ver nas condições reveladas pelos autos:
apenas um palmo abaixo do chão do quin-tal, ao pé da escada...
N e m é necessário estar esmiuçando as mostras de imprudência que accen-tuam a anormalidade do proceder de Pon-tes Visgueiro, anPon-tes, durante e depois do crime. Ellas emergem do que deixámos descripto no capitulo II e das declarações de Paixão Cearense e Guilhermino.
Assim se percebe que, a despeito de tal ou qual adaptação do viver do desem-bargador ao ambiente, elle não permane-cia normal, como se poderia crer. O auto-matismo de certos gestos, de certas pala-vras, de certas deliberações encobre, as mais das vezes, grave enfermidade
men-O CASmen-O Pmen-ONTES VISGUEIRmen-O 219 tal em marcha. E' a licção dos competen-tes.
Ainda aqui, neste triste episódio da nossa chronica criminal, se confirmam as observações scientificas.
Deplorável foi que não se houvesse procedido, aquella época, ao exame me-dico-mental do desembargador.
Noutro caso, o do Dr. José Mariano da Silva, anterior ao de Pontes Visgueiro, tal exame foi realizado, e a defesa teve e m que assentar a argumentação propicia á thése da irresponsabilidade criminal.
(29)
Provavelmente, aconteceria o m e s m o si houvessem sido aproveitadas as indica-ções constantes dos autos e effectuadas algumas diligencias technicas, já possí-veis naquelle tempo.
(29) V. Viveiros de Castro — obra cit., pags. 163-165.
ÍNDICE
Í N D I C E
DUAS PALA VRAS DE EXPLICAÇÃO 7 I — A PESSOA DO CRIMINOSO E OS
PRE-CEDENTES DO FACTO 9
II — O CRIME 35 /// — ACTIVIDADES POLICIAES 63
IV — A ATTITUDE DA IMPRENSA LOCAL E A POLEMICA JURÍDICA EM TORNO
DO CASO 75 V — A PRISÃO E O PROCESSO 97
VI — OS DEBATES EM PLENÁRIO — O
JULGAMENTO 105 VII — CUMPRINDO A PENA — A MORTE
E O TESTAMENTO DE PONTES
VIS-GUEIRO 185 VIII — BOATOS, VERSOS POPULARES E
ROMANCE A RESPEITO DE PONTES
VISGUEIRO 197 IX — A MAIS PLAUSÍVEL
INTERPRETA-ÇÃO PSYCHIATRICA DO CRIME .... 207
N O T A — As gravuras que apparecem nesta obra são reproducções de desenhos de Ângelo Agostini insertos
na revista carioca " O Mosquito", de 4 de outubro de 1873.
Off. Graph. d'A NOlTXü
C 96526 9501 B