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Contexto int. vol.25 número2

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Academic year: 2018

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Esta resenha reúne o trabalho de três autores voltados para uma

sis-tematização das relações exteriores brasileiras que lhes permitiu identificar particularidades de momentos específicos na condução da política externa do país. Dessa forma, cada um busca apontar ca-racterísticas que individualizam a atuação diplomática brasileira

*Doutoranda em Relações Internacionais pelo Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Univer-sidade Católica do Rio de Janeiro (IRI/PUC-Rio).

CONTEXTO INTERNACIONAL Rio de Janeiro, vol. 25, no2, julho/dezembro 2003, pp. 403-411.

A Diplomacia do Interesse

Nacional – A Política

Externa do Governo Médici

Cíntia Vieira Souto. Porto Alegre, Editora UFRGS, 2003, 128 páginas.

As Mudanças da Política

Externa Brasileira nos Anos

80 – Uma Potência Média

Recém-Industrializada

Ricardo Sennes. Porto Alegre, Editora UFRGS, 2003, 143 páginas.

A Política Externa do

Governo Sarney – A Nova

República diante do

Reordenamento

Internacional (1985-1990)

Analúcia Danilevicz Pereira. Porto Alegre, Editora UFRGS, 2003, 98 páginas.

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conforme o governo examinado. Contudo, ressalte-se que, embora estas obras variem em seus modelos analíticos e se concentrem em períodos distintos da história do Brasil, elas nos possibilitam verifi-car, também, uma continuidade na matriz de inserção internacional do país entre as décadas de 70 e 90, conforme será visto a seguir.

Em seu trabalho sobre as orientações diplomáticas da administração Médici (1969-1974), Cíntia Vieira Souto centra suas preocupações analíticas em um dos períodos de nossa história até agora pouco ex-plorado por estudiosos da política externa do país. Sua revisão bibli-ográfica sobre alguns dos trabalhos mais relevantes acerca desse tema busca apontar contradições presentes nessa literatura que, no seu entender, limitam o entendimento sobre a inserção internacional do país durante aquela fase do governo militar. Ao longo de seu livro, à medida que se propõe a esclarecer tais equívocos, apresenta uma nova leitura sobre as relações exteriores do Brasil enquanto Médici esteve na Presidência.

Entre os problemas de interpretação que constam na bibliografia so-bre esse período histórico, dois merecem atenção por sua relevância na posterior argumentação da autora. Por um lado, Souto critica estu-dos retratando a política exterior dessa época como um mero desdo-bramento de determinadas práticas adotadas na gestão de Costa e Sil-va, deixando, por conseguinte, de salientar certos elementos da di-plomacia do governo Médici, fundamentais para se reconhecer que se tratava de uma matriz de política exterior com características pró-prias. Por outro, questiona a validade das análises baseadas em mo-delos dualistas. Nesta direção, como exemplos centrais, destaca as explicações fundadas em dicotomias do liberal-imperialismo e do nacional-autoritarismo, obscurecendo a real participação do país no cenário internacional, ou que tornam confusas as distinções entre as políticas interna e externa.

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que esta possuía um caráter próprio. Suas indagações sobre este pon-to se encontram no primeiro capítulo, ao discutir a ligação entre o projeto político-econômico doméstico e as diretrizes da política ex-terna durante aquele governo. Seguindo essa ordem de idéias, a auto-ra examina em que medida o projeto “Bauto-rasil Gauto-rande Potência”, apre-sentado em 1970 como parte do plano de governo para a inserção in-ternacional do país, se correlacionava à diplomacia do interesse naci-onal. Nesse processo de questionamento, conclui que a formulação da política externa passou a ser orientada conforme a definição de um programa governamental específico, voltado para a promoção do rápido desenvolvimento do país.

Feita essa discussão, Souto avalia, nos três capítulos subseqüentes, o modo pelo qual o país concebeu as decisões de política externa diante das transformações por que passava o cenário internacional. Como observa a autora, a distensão no relacionamento entre as superpotên-cias, favorecendo a multipolaridade política, e as prosperidades eco-nômicas européia e nipônica sinalizavam novas oportunidades para o Brasil pôr em prática sua diplomacia do interesse nacional. Em suas considerações sobre tal questão, essas seções do livro são dedicadas a uma detalhada análise das principais realizações de nossa diploma-cia no que tange às relações hemisféricas e extra-hemisféricas do Brasil, tanto na esfera bilateral como no plano multilateral.

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Contudo, esse posicionamento brasileiro em suas relações exterio-res, privilegiando as questões de interesse nacional e os imperativos da ordem econômica, resultou em alguns contenciosos com outros países. As conclusões da autora sobre essa temática são um ponto im-portante em sua análise, uma vez que corrige algumas das interpreta-ções de estudiosos da política externa de Médici, sobretudo aquelas que apontam um alinhamento automático e subordinado aos Estados Unidos. Ao contrário, afirma Souto, o comportamento externo do Brasil, tanto com o governo norte-americano como sua participação em foros multilaterais, evidenciava o esforço da diplomacia nacional para tirar vantagens, quando possível, para o projeto de desenvolvi-mento do país. Ao mesmo tempo, prossegue a autora, buscava-se evi-tar atritos em suas relações exteriores com posicionamentos mais ra-dicais em torno de determinados temas.

Enquanto Souto propõe um ensaio abrangente, seguindo um formato mais analítico sobre a atuação diplomática do governo Médici, a ava-liação sobre a política externa brasileira empreendida por Ricardo Sennes demonstra preocupações eminentemente teóricas e conceitu-ais. Esse percurso analítico do autor se evidencia logo no primeiro capítulo de seu livro, ao dedicar-se à definição do tipo de inserção in-ternacional do Brasil nos anos 80.

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disponível, tendo em vista a natureza de sua inserção internacional e sua capacidade de barganha em diversas arenas.

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Nos dois capítulos subseqüentes, Sennes desenvolve sua argumenta-ção sobre as mudanças na política externa brasileira durante a década de 80, fundamentando-se na premissa de que essas transformações ocorreram não apenas em termos estratégicos e retóricos, mas altera-ções mais profundas podem ser igualmente percebidas nas concep-ções e perspectivas sobre as capacidades e possibilidades da política exterior do país nos planos internacional e regional.

Seguindo essa ordem de idéias, o terceiro capítulo centra-se nos efei-tos negativos sobre as potências médias e países recém-industria-lizados provocados pelo reordenamento econômico no sistema inter-nacional, sendo acompanhados por um acelerado processo de globa-lização, mudanças tecnológicas e produtivas nos anos 70 e 80. Outro importante fenômeno examinado pelo autor refere-se ao fim da Guer-ra Fria. Como conseqüência dessa série de eventos, houve um reposi-cionamento estratégico dos países desenvolvidos e novas orienta-ções passaram a ser definidas em órgãos multilaterais voltados para questões econômicas, comerciais e financeiras que, por sua vez, afe-tariam as estratégias de desenvolvimento e o comportamento inter-nacional dos países do Terceiro Mundo.

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O quinto e último capítulo trata da natureza da matriz da política ex-terna que emerge no final da década de 80 e início dos anos 90. Ao avaliar o comportamento externo do país nesse período, o autor aponta os elementos indicadores de um esgotamento da matriz que prevaleceu até então. Nesse sentido, embora a postura do Brasil ain-da correspondesse à de uma potência média recém-industrializaain-da, o país passa a adotar um outro padrão de inserção internacional, que se torna mais evidente a partir de 1987-1988. Nesse contexto, inicia-va-se o processo de abertura econômica, ocorria uma alteração do seu posicionamento nas negociações com o GATT e a integração re-gional passava a assumir uma considerável relevância na agenda ex-terna brasileira. É nesse momento, ainda, observa Sennes, que o país se revela como grande mercado emergente, tentando demonstrar ser uma área atrativa para investimentos e negócios internacionais.

Conforme fica sugerido no título da obra de Analúcia Pereira, assim como Sennes, a autora revela uma preocupação com os impactos do reordenamento internacional sobre as relações exteriores do país. Outros aspectos levantados por Pereira indicam convergências entre sua análise e a de Sennes sobre a atuação externa do país no governo Sarney. Todavia, enquanto Sennes se concentra na premissa de que os fatores sistêmicos foram dominantes em relação aos determinan-tes de ordem interna na reestruturação do posicionamento externo do país, Pereira sugere um exame mais detalhado da arena doméstica. Nesta direção, Pereira concentra sua investigação na base política nacional e na redemocratização para compreender as mudanças nas dimensões políticas do país no cenário internacional. Dito de outro modo, a autora propõe-se a verificar em que medida a condição de-mocrática foi capaz de garantir um maior grau de autonomia para a atuação diplomática em face das pressões externas.

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relação às práticas de política externa do regime anterior. Para res-ponder a essa indagação, a autora avalia, na primeira parte de seu li-vro, a conjugação de fatores internos e externos que representaram desafios à diplomacia brasileira naquele momento. Dentre os condi-cionantes do cenário mundial, ressalta as pressões exercidas pelas potências hegemônicas ocidentais para que o país promovesse a abertura de sua economia. No plano nacional, a construção democrá-tica e a crise econômica delinearam as orientações da polídemocrá-tica externa ao longo do governo Sarney. Em seguida, Pereira destaca os elemen-tos que caracterizam as mudanças na política externa implementadas durante a administração desse presidente. Como reação às pressões das grandes potências, o governo apresentou formulações autôno-mas de ação diplomática, procurou consolidar suas relações exterio-res e estabelecer alternativas de relacionamento com países em de-senvolvimento, como a China, além de tentar evitar o monitoramen-to de organismos internacionais, como o FMI, sobre a dívida externa brasileira.

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gover-no brasileiro estreitasse e aprofundasse os laços de cooperação com outras regiões que representassem opções à sua proposta de desen-volvimento. Entre as alternativas encontradas, houve iniciativas de aproximação com a URSS e a Europa do Leste para a obtenção de re-cursos ao fomento da cooperação econômica e tecnológica, e ações diplomáticas e comerciais com países da África Subsaariana, Ásia e Oriente Médio. No que diz respeito às organizações multilaterais, a diplomacia brasileira utilizou-se de espaços em fóruns e em institui-ções como a ONU para denunciar e protestar contra as desigualdades do sistema internacional.

Ao final, Pereira responde a uma de suas indagações iniciais. Conclui que a política externa no governo Sarney ainda revelava traços de continuidade em relação aos governos do regime militar, como, por exemplo, a manutenção do poder estatal na condução do programa de desenvolvimento. Contudo, se, por um lado, não houve grandes inovações, argumenta a autora, por outro, houve avanços qualitati-vos, sobretudo em direção à integração e cooperação com a América Latina e o Cone Sul, quando expressos com o restabelecimento de re-lações diplomáticas com Cuba e com uma maior ênfase nos temas ambientais e de direitos humanos.

Os pontos aqui destacados não esgotam todos os aspectos das

análi-ses desanáli-ses três ensaios daColeção Estudos Internacionais. Todavia,

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