LUIS
ANTÓNIO VICENTE BAPTISTA
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CRESCIMENTO URBANO E
MIGRAÇÕES
INTERNAS:
CONTRASTES E ALTERAÇÕES
/
SOC!0-ESPAC!AIS,
E REDES
DE
INTERCONHECIMENTO.
-
O
BAIRRO
DO
REGO
(LISBOA,
1900
-1985)
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» t- 4
CRESCIMENTO URBANO E
MIGRAÇÕES
INTERNAS:
CONTRASTES E
ALTERAÇÕES
SÓCIO
-ESPACIAIS,
E REDES
DE
INTERCONHECIMENTO.
-
O
BAIRRO
DO
REGO
-(LISBOA,
1900
-1985)
Dissertação
de Mestrado em Sociologia Aprofundada e Realidade Portuguesa, realizada na Faculdade deCiências Sociais e Humanas da Universidade Nova ds Lisboa.
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LISBOA
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1987
NOTA PRÉVIA
Quero expreusar os meus
agradecimentos
ao Prot. DoutorVitorino Magalhães Godinho
pela
confiança
que de pn ::: •.touneste projecto e ao I . P. E. D.
/Projecto
Universidade Abert,.)pelas
facilidades que me foram concedidas para arealização
do referido trabalho no âmbito do Centro de Estuda.::
lè PASTE
QUESTÕES
TEo'RICO-METODOLOGICAS
1 . O
objecto
dà investigação 52. Métodos e técnicas utilizados 22
I Iâ PARTE
A CIDADE A CONQUISTA DAS
QUINTAS
EH REDOR:UM PERCURSO DA URBANIZAÇÃO DA PRIMEIRA METADE DO oÉCW.yj
( 1900-1950)
INTRODUÇAO 28
CAPITULO I - CRESCIMENTO URBANO, DISTINÇÕES SOCIAIS E
DIFERENCIAÇÕES ESPACIAIS
1. A "Cidade Nova" e ?.z "Avenidas Movas": uma
zona extensa e indefinida 52
2. Proximidade
espacial
edistinções
profissionais
- aspopulações
doRego
edas Avenidas Novas 36
Síntese do
capítulo
61CAPITULO II - PECULIARIDADE DE UM ESPAÇO URBANIZADO
AS "PORTAS DA CIDADE": 0 BAIRRO DO REGO
1. As Quintas, os
Proprietários
e osTrabalhadores 65
2. A e:;tensão da
urbanização:
os bairrosdo
Rego
7 i3.
Estruturação
do insularidade 334.
Urbanização
não-programada
eapropriação
camarária 37
5. Os actores de uma
urbanização
não-programada
90
6. As características de um bairro
periférico:
funções
e act i vidades 99Síntese do
capítulo
113I I l-l PARTE
A REALIDADE LOCAL URBANA: UMA UISAO ESTRUTURAL
DA ACTUALIDADE (1950-1985)
INTRODUÇÃO 1 15
CAPÍTULO
I - CONTINUIDADE E MUDANÇA NC CONTEXTODA "CIDADE MAIOR"
1. O processo de
roedificação
do espaçoocupado
117
2. A
população
do bairro no contexto dafreguesia
e da cidade 1323. Persistências e
modificações
das actividadesprofissionais:
o mercado de trabalhotradição
rural e a historia urbana 160Síntese do
capítulo
168CAPITULO li - MIGRAÇÕES INTERNAS E PROXIMIDADE RESIDENCIAL
Introdução
171A. A origem
geográfica
dapopulação
residenteno bairro
1. A "naturalidade" dos eleitores recenseados
em 1985 - a dominância da
origem rural
174
2. As várias
gerações
de eleitores e arepresentatividade
dos "naturais" deLisboa 193
B.
Laços
de interconhecimento e estruturas decoabitação
1. Proximidades espaciais no contexto local
segundo
a origemgeográfica
dos habitantes209
2. A
implantação espacial
dos oriundosdos concelhos mais
representados....
2173. Estruturas de
coabitação
eestratégias
matrimoniais 228
Síntese do
capitulo
244CAPITULO III - IDENTIDADES E SOC I ABI LI DADES URBANAS
A. A(s) ident idade( s ) num espaço de
indefinição
urbana: o comum e o diferenciador
1. 0 bairro e a espaci a1 i
zação
dasdiferenças
247
2. A
construção
e amanutenção
de umaidentidade local... 270
B. A
cidade,
reguladora
da vida local1.
Grupos
profissionais
e redes deinterconhec imento 277
2. Mobilidade
geracional
e mobilidade social233
3. A
circulação
daspopulações
em espaço urbano2S6
C.
Migrantes
rurais e sociedade urbana1. A
socialização
urbana 29 \2. Persistência de
laços
cora o mundorural 292
Síntese do
capítulo
298CONCLUSÕES 300
NOTAS 306
BIBLIOGRAFIA 314
INTRODUÇAO
Um dos
grandes
problemas
contemporâneos
é o daconcentração,
cada vez maior, depopulação
nas cidades, emparticular
nas de maior dimensão. Osdesequilíbrios
populacionais
que daí advêm, tal como outrosdesequilíbrios
de ordem
estrutural,
reflectem-se narelação
entre as váriasregiões
constituintes de umpaís,
entreaquelas
onde sesituam os
grandes
centros e as outras, assim como naorganização
do espaço e no funcionamento da vida daspopulações
.Esta
concentração
populacional,
que se faz estender porzonas anteriormente distanciadas da vida dos
"burgos",
acompanha
um dos processos mais importantes a que vimosassistindo na actualidade: a urban í
zação
. Entendida mais comoinvenção
de um modo devida,
do que unicamente como aacção
da cidade sobre o campo ou o acréscimo da
população
dascidades
pela
chegada
dos rurais, a dinâmica urbanizadoraimpõe-se
de forma diversa nos diferentes espaços, emfunção
das
épocas
e das formas depenetração
dos modelos e dasimagens-guia do mundo urbano.
0 sentido unificador e un iversai izante que a
urbanização
-2-civilizaçâo
técnica e urbana", é, assim,percepcionado
evivido de modos diversos. A nível
espacial,
d ist mguem-sezonas de
tradição
urbana, zonas posteriormente urbanizadas ezonas actualmente
sujeitas
àurbanização.
Contudo, nosnossos
dias,
só comunidades isoladas e estatisticamenteirrelevantes
poderão
alhear-se deste processo remodelador daspróprias
relações
entre os homens e destes com o mundo em quevivem.
A realidade
generalizada
a nível mundial defuga
daspopulações
dos campos nadirecção
das cidades e dasindústrias, reveste-se, consequentemente, de
particularidades
no que respeita ao contexto social e nacional, e ate
continental, em que se
produzem.
Constituídas maioritariamente por
populações
chegadas
doexterior, as cidades de maior dimensão têm, historicamente,
nas
migrações
internas uma componente decisiva do seucrescimento. Com a
deslocação,
aspopulações
vindas doscampos e que se instalara na
cidade,
são confrontadas comoutro
"quadro
vivencial" que é diferentemente assimiladoconsoante os modos como os percursos, a
chegada
e ainstalação
na cidade se efectivam.Este processo é, no entanto, interactivo no sen+ido em que
se, por um lado, as
funções,
as actividades e a vida dacidade se
distinguem
das dos espaços de origem dos migrantes,os
recéra-chegados
são, também, por seu lado, "obreiros" daspróprias
maneiras de viver na cidade, àqual
acorrerampopulac
ionais que habitam acidade,
resulta a continuadareestruturação
dos viveres urbanos, consequente àspráticas
sociais desenvolvidas
pelos
seus habitantes e que semodificara inequivocamente com a extensão do edificado urbano
e o
alargamento
da área de influência das cidades.Caracterizar as
particularidades
espaciais epopulacionais
de uma
cidade,
e das suas várias zonas componentes,apresenta-se como um trabalho de elementar
necessidade,
paramelhor
compreender
a variedade desituações,
despoletadas
pelos
generalizados
processos urban izadores. Porém, a suaabordagem
éparticularmente
sinuosa, cora a progressivacompiexi
fícaçâo
das realidades sociais,pelo
que se revela damaior
pertinência
acombinação
de "olhares científicos" e dosseus métodos
específicos.
Esteesforço,
para que resulte, tem de ser antecedido de trabalhos demediação,
permitindo
que asparticularidades
e asgeneralidades
se articulem com vista auma
explicação
mais eficaz destescomplexos
fenómenos.Todavia,
são poucofrequentes
os trabalhos que apresentamesta
dupla
perspectivaçâo
, combinando a dimensão macroestrutural (do estudo das cidades e dos campos, dasestruturas sociais e económicas das sociedades em que se estabelecem...) com a dimensão microana1 í t iça (dos processos
migratórios,
das comunidades, dos modos de vida e dasrelações
de interconhecimento e familiares em espaçosdiferenciados. . . ) .
Neste
sentido,
depois
de expostas as principaisquestões
-4-de
modificações
operadas
numa área sujeita a uma intensaurbanização,
apontando
asdistinções
que as diferentescomponentes espaciais então assumem, sob o ponto de vista da
edificação
e dacomposição
da suaspopulações
(2èparte).
Seguidamente,
deter-nos-emos nas continuidades quediferenciam espaços
geográficos
concomitantes, atendendo aoreajustamento do edificado
local,
âimportância
da componentemigratória
dapopulação
e àpersistência
de uma identidadeespacial
(3êparte).
Perante a inevitabilidade do fenómeno
urbanizador,
quenâo deixa de evidenciar a sua presença em todo o
país
emboraa ritmos diferentes, pensamos
poder
contribuir com estetrabalho para a
caracterização
de um espaço sujeito àocupação
urbana. Por outro lado, cremos, com a perspectiva deligação
local-global
, fornecer elementos para o conhecimentoda realidade
populacional
e doslaços
de interconhecimento na
-5-1. O OBJECTO DE INVESTIGAÇÃO
Os "usos sociais" dados
pelos
diversos actores a um espaçopodem
ser entendidos como factorsignificativo
deestruturação
dasrelações
sociais; aconstrução
física de umbairro é
acompanhada
de umaconstrução
social que tomasentido se articulada com as realidades envolventes.
Entre os
múltiplos
factores que condicionam a vida de umbairro urbano, do i3 se salientam: o
espacial
e opopulacional.
Estes têmparticular importância
naexplicação
de uma realidade social visto constituírem a condicionante
morfo
lógica
da vida local, traduz indo-se a suaarticulação
nos modos como a
população
se relaciona com o espaço onde seestabelece. A
observação
deste fenómeno épossível
através daidentificação
desubpopu
lações
e do tipo delaços
que estasdesenvolvem com este e com outros espaços de referência.
No fundo, trata-se de conhecer os mecanismos de
interligação
do processoglobal
de crescimento urbano e dasestruturas de relacionamento em
"espaços
aglomerados"
cora uma realidade soeio-espac ialparticular,
de onde emerge umadinâmica local
específica.
0 modo como o processo deconstrução
de um bairro interfere no estabelecimento edesenvolvimento das
relações
locais, e nasrelações
entre oe que, por sua vez, se articula com as interferências que se
produzem
ao nível da factores soeio-demográf
icos , como são osmovimentos
migratórios
e acomposição
profissional
dapopulação
.Neste contexto, o impacto que a
chegada
de umapopulação
migrante provoca na vida da cidade alterando a sua estrutura
espacial
edemográfica
é um factor central para entender omodo como anteriores
equilíbrios
locais eglobais
da cidadese modificam. Este fenómeno é o resultado
prático
e visíveldas
transformações
económicas e sociais que opaís
sofre eque se reflectem,
particularmente,
na suacapital,
sendo osrecém-chegados
os actores inconscientes de uma eventualabertura no mercado de trabalho urbano. A sua
importância
relaciona-se com o volume e a
amplitude
que os movimentosmigratórios
internos atingem na vida recente da cidade-século XX -, e daí que sejam os migrantes quem, na maior
parte das vezes, vem habitar os novos espaços residenciais
que a cidade vai tomando aos tradicionais arrabaldes rurais.
Resulta assim que definidos os aspectos fundamentais do
problema
nospropusemos
constituir umquadro
morfoló1^
■. co davida local . Centrámos a
observação
nadiferenciação
social deque o espaço é
prenúncio
atendendo a que a dinâmica da suaprodução
e a forma como éocupado
tomaconfigurações
particulares
consoante a área da cidade e apopulação
residente que se tome por
objecto
de estudo.Nâo sendo,
porém,
linear o modo como seproduz
e se
-7-delimitaçâo
de um espaço urbanoespecífico,
operaciona1 ízaresta nossa análise.
Situado na área administrativa do concelho de Lisboa, o
bairro do
Rego
nasce com o processo deurbanização
generalizado
que, no início do século, ocorre nesta zona deperiferia
rural da cidade.Apresentando-se
hoje
isoladogeograficamente,
o nossoobjecto
físico deinvestigação,
reúne as
condições
para ser analisado enquanto un idadeterritorial autónoma. Este posicionamento
privilegiado
permite uma
observação
detalhada das formas deorganização
social do espaço quer no que respeita á sua
estruturação
ocupacional
a partir derelações
sociais que ao espaço se vêmtranspostas
(processo
deedificação),
como ainda no queconcerne â influência da estrutura soe
io-espacial
, que se vaidefinindo na vida local e, em
particular,
nasrelações
que seestabelecem entre os indivíduos que aqui se vão instalando
(processo
defixação
depopulação).
Porém, este isolamento nâo é senão relativo, estando a
nossa unidade
espacial
de análise inserida numa zona maisampla,
com as mesmas características, que opróprio
crescimento urbano e a sua história vieram diferenciar. Aí
próximo,
sujeitas a umaprofundado
planeamento
camarário veêmluz as "Avenidas Novas". Construídas na viragem do século
destinavam-se a grupos sociais favorecidos
podendo
afirmar-seque a sua
edificação,
no âmbito de umaexpansão
urbanaconstruções
daépoca.
0 bairro do
Rego,
por seulado,
reveste-se de outrascaraterí st iças , permi 1 1 ndo-nos a
proximidade
espacial
destas duas unidades, observar o contraste de realidadesdiferenciadas numa mesma zona de crescimento urbano. Esta
comparação
é ainda mais pertinente visto constituírem estasduas
urbanizações,
uma unidade administrativa da cidade, afreguesia
de Nossa Senhora de Fátima.Neste
quadro
depercepção
do real, umproblema
central senos colocou. Até que ponto a
noção,
quase exclusivamenteestatística, de
população
urbana nos permite caracterizaraqueles
que habitam nas cidades ? Efectivamente, estaremosperante uma
população
urbanapela
simples
razão de elahabitar
aquém
dos limites fixados administrativamente, paradefinir o que é a cidade ou até área urbana de Lisboa ?
A discussão, tem na maior parte dos casos, sido centrada
na dimensão
demográfica
que um centro deve atingir para que asua
população
seja considerada urbana, e menos na realidade social e económica que o condiciona, comojá
apontou VA M.GODINHO (1971). Pensamos que Visão
morfológica
no sentado quelhe dá, por
exemplo,
G. GURVITCH, enquanto "base material dasociedade",
é fundamental para dar sentido a umanoção
facilmente esvaziável como é a da
população
urbana. Nãoexistindo autonomamente, a
noção
depopulação
urbana funcionapor
contraposição
ànoção
de popu 1açâo
rural. Dicotomia de
-9-urbano sâo "
t
ipos-ideai
s " , estabelecidos a partir de umprocesso que deixa de colocar "o campo e a cidade como duas
realidades, mas como uma
projecção, ecologicamente
diferente,de uma única sociedade em contínua
inovação
de si-mesma"(RAMBAUD,
1969,p.9)
.Substituindo a clássica dicotomia campo-c idade, a
urbanização
condiciona aevolução
dos factos, acrescendo-osem
complexidade,
e conduzindo a umamudança
de perspectivaque as
revoluções
industrial,
dos transportes e dascomunicações
vêm acentuar,distinguindo
meiosecológicos,
que, apesar de diversos, vivem sujeitos a condicionalismos
que tendem a un 1versa1 izar-se.
Era
relação
âquestão
daspopulações
urbana e rural o quefica mais claro é que ao
negligenciar
os processos queacompanham
os diferentes graus deevolução
dos grupossociais, esta dicotomia vem
simplificar
a vida socialpela
oposição
de dois modos de vida era detrimento da diversidadedas sociedades rurais e sociedades urbanas.
Contudo, se a
designação
"urbano" é relativa ao processodesencadeador, nâo só da
acção
da cidade sobre o campo e doacréscimo de
população
dascidades,
com achegada
daspopulações
dos campos mas, da"invenção
de um medo de vidatendente à
realização
do homem social" (RAMBAUD); talprocesso resulta, precisamente, da
confrontação
daspróprias
características
ecológicas,
económicas e sociais queclassicamente
distinguem
campo e cidade. Daí que oproblema
importância,
pois que é o terrenoprivilegiado
deinterpenetração
de mundos que se aproximam [cidades ecampos],
sendo nestaarticulação
determinante aquestão
damobilidade das
populações
dos campos que há séculos sedeslocam no sentido das cidades.
É neste panorama que toma
lugar
o crescimento urbano,processo de conquista do espaço rural "resultante da
concentração
numérica das formas novas daocupação
do espaço,Ce] de formas novas das
relações
económicas e sociais" (P.GEORGE,
1972,
p.383),
que assume na actualidade uma dimensãonunca antes conhecida. Deste modo. a
importância
que as zonasurbanas. mais ou menos recentemente
urbanizadas,
alcançam
pelo
volume daspopulações
que ashabitam,
conduz ànecessidade de melhor
apreender
essa realidade difusa, o quepassa
pela
tentativa declassificação
dapopulação
aíresidente (J. PEIXOTO, 1987 ) .
Esta é uma
questão
da maiorpertinência,
se abordada emfunção
das diferentescondições
h istórico-espacia is doslugares
e da multivaríadacomposição
dessapopulação;
e naqual
temposição
de relevo acaracterização
da componentemigratória,
consoante asépocas
de estabelecimento dessesmigrantes na zona urbana considerada, e consoante ainda as
suas zonas de origem
geográfica,
as suas origens sociais e ospercursos tomados até à sua
fixação
definitiva.Precisar a
importância
quantitativa desta componente dapopulação
que vive na cidade-os migrantes - é
uma tarefa
-1
1-operacional
idade ao conceito"população
urbana",inclusivamente testando-o no caso
específico
da cidade deLisboa.
Em 1960
já
a cidade tinha sofrido um importante processode crescimento
populacional
eespacial.
No entanto, àdistância de menos de três décadas a
população
"urbana",
referidapelo
censo de então, é fundamentalmente, umapopulação
que vivia na cidade há relativamente pouco tempo,ou mesmo que acabou de
chegar
â cidade ou aos seus arrabaldes.0 fenómeno tem a ver com a estrutura da sociedade
global
ecora as suas
condições
de desenvolvimento. Nâo se industrializando e nâo se modificando verdadeiramente,Portugal
encontra-se contingenciado
por uma saída estruturalda sua
população
para outros destinos, o que vem evitar queprocessos intensos de
concentração
urbana surjam, a partir decentros com
capacidade
de resposta em termos de mercado detrabalho, como aconteceu em
países
hoje
desenvolvidos e quetiveram na indústria e na consequente
deslocação
maciça depopulação
vinda dos campos um dos factores fundamentais dasua actual
condição.
Todavia, o crescimento da cidade, que se vai fazendo de
forma continuada desde o último
quartel
do século XIX,deve-se
igualmente
menos ao crescimento natural do que àApresentando-se
fundamentalmente como um espaço derecepção
daspopulações
oriundas de zonas rurais, Lisboa nâose mostra como uma cidade com ura núcleo de famílias de
tradição
urbanaparticularmente
amplo,
rareando famílias emque a
permanência
na cidade dos seusantepassados
sefaça
hámais de duas ou de três
gerações,
ou seja, anterior àacelaraçâo
do processo de crescimento dacapital,
o que tem aver com as características de uma sociedade fortemente
rural izada.
0 crescimento do
principal
centro urbano dopaís,
efectua-se
já
tardiamente no âmbito dospaíses
europeus.Porém, esta
situação
nâoimpede
que nas últimas duas décadasum movimento
populacional
de sinal contrário seproduza.
Sãoas
gerações
mais novas de habitantes da cidade de Lisboa,muitos dos quais
já
aí nascidos, tal como acontece nasredondezas da
cidade,
que vão progressivamente saindo dacapital
para vir a residir nasimediações
(a Norte e a Sul doTejo).
Este facto tem reflexos no envelhecimento dapopulação
da cidade, pois nâoalbergando
um númerosignificativo
de novos moradores, Lisboa vê-sedesguarnecida
de uma parte da sua
população
mais jovem, ev 1denc iando-sedesta forma a origem rural da maioria dos seus habitantes
mais idosos.
Quanto à
chegada
de novos contigentesmigratórios
estacontinua a ocorrer mesmo
depois
de 1960, mas agora em muitomenor número, e com uma maior
dispersão
dosrecém-chegados
-13-quadro
de análise,apercebemo-nos
que o entendimento dofenómeno das
migrações
internas,particularmente
dos campospara a cidade, é central para
compreender
oreforçar
dasassimetrias
populacionais
entre zonas urbanas/rurais.A
questão
que se noscoloca,
face ao tipo deabordagem
queaqui desenvolvemos, é a de saber se
poderemos
falar de umapopulação
das cidades delonga permanência
e enraizada. Serecuarmos o tempo de uma
geração,
a 1960, verificamos que 60.8% dapopulação
residente nopaís
vive em aldeias efreguesias
rurais cora menos de 2000 habitantes(V.M.
GODINHO,
1971,
p. 182) , enquanto 20.7% dos nacionaisresidentes habitava em centros
populacionais
entre 2000 e20000 habitantes e apenas 18.3% residia em centros com mais
de 20000
habitantes,
representando
Lisboa e oPorto,
75%destes últimos, o que
corresponde
a 13.3% dapopulação
total.A
configuração
destepaís
rural,
ainda em 1960, dá-nos umaprimeira
indicação
sobre o nível deurbanização
verificado nonosso
país
e que V.M. GODINHO classifica (P.27,
1971) eA. L. VIEIRA descreve (1977).
Assim, o que se
afigura
como umpeculiar
e tardiocrescimento do
principal
centro urbano éacompanhado
pela
inexistência de uma rede de cidades médias,
captadoras
depopulação
rural, o que dá às maiores cidades (Lisboa e Porto)a
condição
dehegemon
izadoras do fenómeno urbano emPortugal.
Um aspecto que é necessário acentuar, na análise daurbanização
de umpaís
que contava então (1960) 8 milhões ediminuta
quantidade
de gente e deterritório,
quepoderão
funcionar diferentemente, ao nivel do
impulsionamento
dascidades intermédias,
quando pretendemos
comparar a nossa coma
situação
de outrospaíses
europeus (emespecial
aEspanha).
Se atendermos à
hipótese
crível de que ascomunicações
internas, pouco desenvolvidas, têm favorecido sobretudo a
estruturação
das saídas, então, esta, vem dealgum
modo fazerluz sobre a
impossibilidade
de um verdadeiro desenvolvimentodas cidades interiores.
Outro aspecto que se evidencia
quando
tratamos dasassimetrias
populacionais,
ainda relacionado com adistinção
entre zonas rurais e
urbanas,
tem a ver com adistinção
1 itoral/inter íor. Se a
mudança
de escala nos valoresnuméricos dos séculos XIX e
XX,
que identificamhoje
grandes
cidades,
nâo se venf-.ca para acapital
portuguesa, estefacto nâo
impede
o acentuar das assimetrias regionais dentrodo País. Estas ref lectem-se, em termos
populacionais,
nofacto de 60.2% da
população
se concentrar em torno dos doisgrandes
centros nacionais (distritos de Lisboa/Setúbal ePorto/Braga/Aveiro),
o quecorresponde
a uma reduzida faixa1 itoral do
país
.Se a estes distritos juntarmos os de Leiria e
Coimbra,
que
ligam
os dois principais centros, temos era1981,
numaparcela
que ronda 1/4 do território, concentrada 69.9% dapopulação
residente dopaís.
Deste modo, para além da parteda
explicação
que as formas e os volumes diferenciados da
-15-dentro do território os processos de
migração
se foramefectivando e de que maneira: a
capital
centralizadora, onderesidem em
1981,
a níveldistrital,
2 milhões de habitantes,chega
a concentrar, com o distrito de Setúbal, 29.3% do totalda
população
do continente em1981,
e mais de 1/5 dapopulação
(22.3%),
isoladamente.Noutro
plano,
aconcentração
depopulação
era torno dacidade-capital
dopaís
temcorrespondência
em termos urbanosnaquilo
quepode
ser considerado as"funções
externas"(M. ROCHEFORT) de uma
cidade,
as quais comportam sempre umaespecificidade
defunções
regionais e nacionais nahierarquia
da rede urbana nacional. Mas há
igualmente
a considerarcarateríst iças
endógenas
de desenvolvimento, que fazem decada cidade uma realidade única num
quadro
nacional e atéinternacional .
Assim, o estudo de uma cidade nâo diz só respeito á
dimensão e à
composição
da suapopulação,
antes necessita deser articulada com a análise das
funções
que estadesempenha,
em
particular,
e atendendo àestruturação
da sua vidaprópr
ia.Noutra escala e refocando agora a dimensão micro da
análise
espacial,
algumas questões
se evidenciam. Há aspectosa considerar como a zona da cidade em que se instalam os
recém-chegados,
os contactos que os levam aempreender
estadeslocação,
e mesmo ascondições
em que aqui se fixam.Coloca-se, por
conseguinte,
aquestão
de saber que realidadedemarcações
sociais se entrepoem,àqueles
que, vindos com odesejo
de ascender, vão, em muitos casos, ser colocados nabase da
pirâmide
soeio-prof
issíonai da cidade.Tal como esta também se coloca a
questão
de saber como sesustentam
laços
antigos neste "novo mundo" em que se instalamos vindos dos campos, ou ainda, que identidades persistem, e
que outras se criam, atendendo às
condições
particulares
emque no âmbito da vida local em espaço urbano se desenvolvem
as
relações
de interconhec imento.A nossa análise centra-se nos
problemas
da cidade emcrescimento, que é receptora de uma
população
diversificada eoriunda de variadas zonas do
país,
e cujacomposição
procuramos detectar.
Mas, para além da componente
demográfica
é necessárioatender à componente
geográfica
naqual
se evidenciaradistinções
soe io-espaciais .Contrapõem-se
zonas dehabitação
concomitantes mas
distintas,
as quais vão sendo edificadas aolongo
dosperíodos
de maiorpendor
urbanizador, comoconquista do espaço caracterizado tradicionalmente como
rural. Por este processo toda a vida local se altera com a
rápida edificação
e achegada
maciça de novos habitantes, oque vem
pôr
em causa a anteriorestruturação
soeio-espacialde núcleos habitacionais até então autónomos da cidade.
As
mudanças
verificadas centram-se naalteração
de umaanterior estrutura
espacial,
definida por um tipo deocupação
específica,
a que seliga
um sistema derelações
sociais,
-17-sociais
próprias.
Estasdesestruturaçâo
ereestruturação,
queocorrem em
relação
aos modos de viver noquadro
social local,obrigam
a quequando
estamos perante umqualquer
espaçonestas
condições
tenhamos eraatenção
a realidade queprecede
a
concentração
populacional
e aedificação.
Embora este fenómeno nunca esteja
separado
doquadro
dereferência
global
do crescimentourbano,
enquanto uratodo,
asparticularidades
locais levam a que nos centremos numaunidade
espacialmente
definível. Esta postura permite-nosavançar na
compreensão
de uma realidadecomplexa
emultidimensionada (como é a realidade urbana) sendo os
estudos
parcelares
o meio que nos conduz a esseaprofundamento.
Assim, atendendo a que a
parcelizaçâo
considera sempre otodo, é
possível
debruçarmo-nos
sobre os feixes deproblemas
que nos levam das
questões
relativas ao espaço e àpopulação
urbana, como o são a
urbanização
de um espaço comcaracterísticas de arrabalde rural e a
concentração
depopulação
de origem social egeográfica
diversa, á dassociabi 1 idades urbanas, em que
pontificam
a vertente daconstrução
e amanutenção
de uma identidadeespacial
noâmbito da cidade. Ainda na micro-escala, se revelam as redes
de interconhecimento e a
manifestação
de soeiabi 1 idades, queacompanham
os agentesmigratórios
na passagem de umquadro
socio-geográf
ico para um outro, e queligam
diferentemente osvários grupos habitacionais que se definem no âmbito da vida
Identificada a Cidade, nos estudos clássicos da
Sociologia,
com a ideia de anomia, no sentido que lhe deu E.DURKHEIM, vêm os estudos recentes da
Antropologia
e daSociologia
Urbana (NEUBY, 1980; SEGALEN, 1934) reafirmar oque os trabalhos dos anos 50 e 60
já
indicavam quanto àestruturação
das redes de interconhec imento em espaçourbano,
quer entre os oriundos de uma mesma origem (CHODK I EUICZ ) ,
quer na vida local tradicional da cidade (A.F. COSTA), ou em
bairros e cidades mais recentes (M. SEGALEN).
Porém,
o uso dediferentes conceitos, desenvolvidos por diferentes
investigadores,
obriga
a repensar a suautilização,
tantomais que esta é relativa a "unidades de análise"
distintas,
como ainda a realidades envolventes também elas
di ferenciadas.
A.FREMONT vem defender, na continuidade de outros
geógrafos
esociólogos,
autilização
do espaço social(p.35,
1974),
sobretudopela
suaacepção multidisciplinar,
enquantoNEWBY se preocupa com o repensar de um conceito clássico da
Sociologia,
o de comunidade, dando-lhe novos sentidos eprocurando
esclarecer realidades diversas que têm sidoidentificadas indiscriminadamente sob esta
designação.
Outra perspectiva de
abordagem
é ainda, apropósito
dasrelações
estabelecidas r.c âmbito do mundo urbano, a queCHOMBART DE LAWVE entende por meio social que acentua a
necessidade de se
dirigir
oinvestigador
para o estudo de"certos grupos que têm uma
importância
particular
no campodas estruturas soeiais( meios sociais) "
-19-Era
qualquer
dos casos, todavia, a dicotomia rural-urbanovem
repor
umposicionamento
dúbio masútil,
acentuando-se ouso que estes autores fazem, com
frequência,
denoções
comoespaço urbano e meio
urbano,
resultantes daaplicação
dosconceitos referidos ao processo urbanizador e que
ganham
pertinência
assim tomados; o mesmo acontecendo com o conceitode comunidade,
perspectivado
noquadro
de uma análisemultidimensionada.
Depois
depassados
em revistaalguns
dos principaisconceitos formulados para a análise do espaço num contexto de
cidade,
detemo-nos naquestão
daclassificação
do espaçosocial urbano (R.
LEDRUT,
p.101),
oqual
comportadistinções
de âmbito
ecológico
e soeio-prof
issional . Assim, a idade doaglomerado,
a zona da cidade era que se situa, asfunções
quedesempenha
no âmbito da cidade ou acomposição
da suapopulação
sâo aspectos reveladores daespecificidade
de uraespaço de carateristiças urbanas. Tal facto introduz-nos
necessariamente na
questão
dadiferenciação
doespaço
social.Esta é característica da
estruturação
da cidade, vindo aevidenciar-se com a
expansão
do "urbano"pelos
arrabaldes,através do fenómeno da
edificação
de tipo urbano (concentradoe era
altura),
como ainda em termosecológicos,
soe
io-prof
iss ionais e até etários.A cidade de
Lisboa,
tendo característicasespecíficas,
conhece ura crescimento
peculiar,
detectadojá
nasequência
dacapital
se vê sujeita a um ritmo detransformações,
queapenas o Porto
acompanha
(0. RIBEIRO, Dic. História dePortugal
, p. 63) .Mas é com a última guerra mundial que o autor identifica o
grande
surto de crescimento da cidade, que veio a estender-seaté aos nossos dias, cobrindo
hoje
toda uma extensa áreaenvolvente do núcleo administrativo da cidade e que nos anos
60, Orlando Ribeiro
já
encontra assaltada. "Em Lisboa (...)uma das mais
significativas
imagens detransformação
dospaíses
rurais da velhaEuropa,
atransgressão
urbana alastracompacta sobre a horta e o sequeiro do
agricultor
saloio. Aresidência, a indústria, o veraneio constituem, dominantes ou
combinados, os estímulos que transformam as duas margens do
estuário do
Tejo,
o literal da baia de Cascais e a área norteda cidade numa
grande
região
urbana,
que conta cerca de1400000
habitantes,
um sexto dapopulação
dopaís" (p.64).
Esta realidade recorta-se,
todavia,
no seu interior dediferentes tonalidades em que a
construção
de bairros de tipooperário
epopular
contrastam com os símbolos urbanos demodernidade das
habitações
de grupos sociais em ascensão. 0crescimento da cidade, esse
particularmente,
faz-se emgrande
medida à conta dos "bairros
pobres"
que são o destinoresidencial,
periférico,
de umapopulação
vinda dos campos,que vai
chegando
maciçamente,bordejando
continuamente olimite habitacional da área urbana da cidade.
Lisboa cresce, com a
proliferação
dospátios,
das casas e
-21-habitantes nas
"vilas",
nos bairrosimprovisados,
que com ocrescimento
já
vivido entre as Guerras e com a extensão da rede de transportes urbanos a zonas maislongínquas
do centro, se vêrelegada
a habitar cada vez maislonge
da áreacentral .
A
ocupação
das antigasperiferias
evidencia, para além docontraste entre as novas zonas edificadas da
cidade,
de caraterí st iças diversas, atransformação
do "habitat" dosantigos moradores e a
transposição
depopulações
vindas demeios rurais, ou de outros meios, para um "novo" espaço onde vêm reestruturar a sua vida familiar. Ficamos assim perante a
questão
de saber como persistem oslaços
doschegados
acidade cora o espaço de origem, e
pelo
facto de seremmaioritárias nestas
áreas,
de que modo se perpetuam as suasanteriores
práticas
sociais neste outro contexto.Fica ainda por saber como se estruturam as
relações
a nívellocal,
neste novo espaço de residência, atendendo ásmodificações
materiais da vida dos indivíduos, que em termosde
vizinhança
se vêem sujeitos a um diferenteenquadramento
daquele
que têra por referência.Sendo esta uma realidade
peculiar
noquadro
urbano,
a daindefinição
espacial
entre umatradição
rural,
ainda viva, ea recente história da sua
urbanização,
encontra-se marcadapela
forma como aocupação
de um espaço com estascaracterísticas se faz e
pela
população
que a ela acorre, naA
interpenetração
do "rural" e do "urbano", e emespecial
a
penetração
do "rural" naconstituição
do "urbano", é visível nacomposição
dapopulação
das cidades. Estainterpenetração
tem continuidade nasquestões
espaciaistomadas no
quadro
dasrelações
vividas localmente, e que se desenvolvem com o instalar destapopulação
na cidade. Daí ser difícil dissociar o que ainda é rural do quejá
é urbano dadoque o que encontramos, efectivamente, são modos de vida marcados por
quadros
sociais de referência. Há que consideraros percursos individuais de
deslocação espacial,
as origens eos trajectos sociais. Há ainda que atender á
dependência
degrupos regionais,
profissionais,
locais e outros, que tendem a integrar diferentemente os oriundos de zonas rurais era meio urbano.Esta
questão
é tambémcolocada,
mesmo em cidades degrande
dimensão comoParis,
Londres e NovaIorque,
tendoinvestigações
de diverso tipo revelado aimportância
dointerconhec imento era meio urbano, inclusive assente em grupos
de
originários
de um mesmolugar
ou zona (vd. referências em NEWBY, 1980; SEGALEN, 1984).2. MÉTODOS E TÉCNICAS UTILIZADOS
0 primeiro passo, crucial na
definição
de umametodologia
-23-investigador
estarácapacitado
paraescolher,
entre osmúltiplos
métodos e técnicas utilizados em Ciências Sociais,os que melhor se
adequam
à sua pesquisa concreta.Deste
modo,
a nossa unidade de análise foi definida apartir de vários critérios.
Preocupou-nos,
emprimeiro
lugar,
encontrar uma pequena unidade
territorial,
comalgum
grau dehomogeneidade
imediatamenteperceptível
no construído e napopulação,
e que tivesse umadelimitação
-geográfica
evidente.Corroborando estas
características,
quanto àdelimitação
daunidade de análise, assmala-se que a
edificação
aoRego
seencontra
separada
de outrosaglomerados
habitacionais porvárias fronteiras artificiais, de que se salienta a linha do
caminho de ferro. Como indicam P.HAUSER e J.MATRAS
( 1965, p. 25) acerca da
delimitação
de unidades territoriaispara análise " há
geralmente
interesse em definir essas zonasconforme os caracteres físicos ou traços distintivos da
utilização
da terra, como porexemplo
as fronteiras naturais,rios e cursos de
água,
ou as fronteiras artificiaisrelativamente permanentes, tais como o caminho de ferro ou as
artérias de
grande
tráfego".
Se ao escolher a unidade de análise nos preocupou que esta
tivesse uma certa
homogeneidade
local, aexplorar,
e umaclara
delimitação
espacial,
nâo deixámos, todavia, deconsiderar fundamental contextualizar a
edificação
e apopulação
deste espaço,pela
comparação
com uma unidadevizinha,
significativa
da realidade envolvente. Utilizando oJ.
MATRAS,
p. 27) propusemo-nos estudar comparativamente a nossaunidade de análise (o Bairro do
Rego),
semperder
de vista a realidade de umaglomerado
diferentemente estruturadoespacial
epopulacionalmente
, e que representa na zona e naépoca
deconstrução,
aorientação
dopróprio
crescimento urbano (as "Avenidas Novas").Por fim, saliente-se que o entendimento que temos deste
espaço enquanto bairro é interrogativo, no sentido em que,
recuperada
anoção
de"quartier"
de R.LEDRUT(1968,
cap.I,
2ãparte),
tivemos como ponto departida
ahomogeneidade
inicialmenteperspectivada
doaglomerado,
aqual
nem semprese verifica, como a
própria
estruturação
do edificado localveio a
confirmar,
e que inclusive se estende emrelação
àcomposição
populacional.
Daí, que o que se entende porbairro se sustente nesta inicial
delimitação
espacial,
estruturadora de uma vida local
peculiar,
que o processo decrescimento urbano tratou de diferenciar de outras zonas mas também de reduzir na sua eventual
homogeneidade.
Quanto
àdelimitação
temporal
da nossaanálise,
considerámos
primordial
cobrir todo operíodo
aolongo
doqual
decorre a vida do bairro doRego.
Deste modo, inicia-se o estudo com odespontar
do século (1900), numa fase aindaanterior ao início da
edificação,
sendo esta continuada até aos nossos dias (1985).Explica-se
estaopção
vistopretendermos
analisar este espaço enquanto zona desujeição
às
alterações provocadas pela
urbanização
e com achegada
-25-cont inuidades e rupturas no
quadro
"morfológico"
local.0
próprio
prosseguimento
dainvestigação
leva-nos a buscar diversos métodos,conciliados,
de modo a obter um resultado final satisfatório.Inicialmente
propusémo-nos
testar a rentabilidade naexploração
do ficheiro de Recenseamento Eleitoral dafreguesia
de Nâ Sã de Fátima (1985), tendo em vista conhecer a dimensão e as origensgeográficas
dapopulação
migrante aqui residente. Contudo, cedo nosapercebemos
dalimitação
einsuficiência de dados que daí
poderíamos
retirar. Noessencial,
possibilita
o estudo de umaquestão,
quasenulamente tratada que é a da
composição,
por zonas de origem, dapopulação
da cidade, o que nos permite, desta forma, dimensionarobjectivamente
o fenómeno.A
definição
do panorama dapopulação
adulta residente nas unidades de análise que tratámos comparativamente mostra-se,porém,
bastante insuficiente. Semcompreender
o modo comoestes espaços evoluíram, do ponto de vista urbano, dificilmente seria
possível
entender a realidade das sociabi 1 idades ai estabelecidas assim como dos processosmigratórios
que tiveram como destino estes espaços.Vocacionando a nossa
análise,
exclusivamente em torno doexistente sobre a
edificação
do bairro nas Actas da CâmaraMunicipal
de Lisboa entre 1900 e 1985.Esta recolha permite-nos levar por diante uma análise da
ocupação
do espaço e dasrelações
suscitadas entre os váriosintervenientes, que remonta â fase da
pré-ed
i fícaçâo
. Destemodo, cobrimos a
questão
fundamental daedificação
em espaçosujeito a uma progressiva
urbanização
e asimplicações,
emtermos de
relações
sociais que aestruturação
de uma zonaurbanizada envolve.
Simultaneamente
procurámos
conjugar esta análise com umaoutra, mais intens iva, e orientada para o
aprofundamento
dasquestões
suscitadaspelo
desenrolar da pesquisa. Dai quetivéssemos
optado
por recolher "histórias de vida" que nospermitiram reunir extractos da realidade vivida no
local,
através de informadores previlegiadamente
colocadospara a esta se referirem, quer
pelo
facto de teremparticipado
activamente na vida local, quer por aí residiremhá muitos anos.
Os elementos recolhidos através de um
guião
aberto dizemrespeito à
percepção
do espaço físico e social e àprodução
das
relações
eestratégias
de interconhec imento.Numa fase posterior
apercebemo-nos
da utilidade decompletar
ainformação
sobre adiferenciação
social dapopulação
residente no Bairro doRego
e das Avenidas Novasatravés da sua carater
ízaçâo
soeio-prof
issiona 1 . Apossibilidade
surgiu através do levantamento dos dados
-27-de 1925 e do ficheiro dos alunos da Escola Primária locai
entre 1944 e 1958.
Esta exaustiva recolha de materiais e o tratamento a que
obriga
nâopode
deixar de seracompanhada
da ref lexâo sobre opróprio
processo deinvestigação,
permiti ndo-nos, assim, emrelação
aosdados,
a necessária distância crítica. Nessesentido contribuíram ainda as entrevistas informais a
moradores ou conhecedores da vida do bairro assim como a
nossa
observação
do espaço e dos factos e, sobretudo, a\
A CIDADE A CONQUISTA DAS QUINTAS cM REDOR:
~ f
UM PERCURSO DA
URBANIZAÇÃO
DA PRIMEIRA MnTAD^. 2>ú SuCJLú- 28
-INTRODUÇÃO
A cidade de Lisboa conheceu no seu último século de vida
um processo de crescimento
generalizado,
que a tornahoje
irreconhecível aos olhos de ura observador de meados do
século
passado
( J . GASPAR. 1975; R . S. 3RITO, 1976 ;J. A.
FRANÇA,
1980) .A
capital
portuguesa foipalco
de sucessivas íases decrescimento acelarado que são, no entanto, reduzíveis a dois
momentos fundamentais. Um primeiro
preenche
o últimoquartel
do século XIX ecorresponde
a uma fase de incrementoindustrial então vivida, ref iect mdo-se esta na
proliferação
de bairros
operários
e de característicaspopulares,
e quese estende até aos primeiros anos do nosso século. Um outro
é marcado
pela remodelação
urbana, centrada na pessoa deDuarte Pacheco ( V. M. FERREIRA; 1986) e que
corresponde
àapropriação
pela
CâmaraMunicipal
de Lisboa dos espaçosvazios da cidade,
permitindo
a partir dos anos 30 aexpansão
do espaço urbano, o que se processa até aos anos 60.
Esgotadas
aspossibilidades
deconstrução
no interior doslimites administrativos do
concelho,
o crescimento urbanoultrapassa
taisparâmetros
para se espraiar por toda umavasta "zona
metropolitana"
em que vivia,aquando
do Censo de1981, perto de 1/3 da
população
dopaís.
Neste contexto, as "Avenidas Novas",
explorando
aorientação
Norte, foram um dos eixos principais daexpansão
estendendo-se
hoje
o edificado urbano nessadirecção
para lá de Loures.Planeada
já
no final do séculopassado
com RessanoGarcia,
esta zona dacidade,
que aindahoje
é conhecida por este nome - AVENIDAS NOVAS-,compreende
uma área indefinida deocupação
espacial
de tipo urbano [HAUSER e MATRAS,1965],
a
qual
foi, até à fase deconcretização
deste projecto, um arrabalde da cidade.Situada então fora dos limites da cidade estava-ihe
destinada o
desempenho
defunções
de abastecimento epassagem de alimentos para a
capital
como ainda o de espaçode
recreação
dos citadinos,segundo
nos informa a literatura sobre Lisboa e os documentos relativos àedificação
na cidade da C.M.L.. ê com aaprovação
do Plano Geral deMelhoramentos de 1904, que incluía estas novas artérias, que
se dá início à
edificação
urbana do local-concluída na sua
estrutura actual nos anos 40.
Iraplantam-se
as "Avenidas Novas" numa área com características de arraba Ide rural , quesegundo
L.MUMFORD sedistingue
simultaneamente da cidade e do campo (1), e que éconstatável através da estrutura
ocupacional
dominante - asquintas-. Esta circunstância
é,
porém,
comfrequência
esquecida
nos nossos diasquando
ao falar-se dapenetração
- 30
-dos espaços rurais(3).
Construído na sua
grande
parte entre osprimórdios
dosanos 10 e o final dos anos 30, o bairro ao
Rego
iraplanta-se
nesta vasta área
dependente
de um espaço central, queplaneado pelas
autoridades municipais comopolo
dinamizador do crescimento da cidade, sedistingue
das^planeadas
implantações
vizinhas. Este posicionamento de ambas asunidades espaciais permite-nos que as abordemos
comparativamente (2ã Parte , cap. I ) ,
procurando
detectar o qiseentre as "Avenidas Novas" e o "Bairro ao
Rego'
se assemelhae se dist ingue .
Mas, o continuado processo de crescimento da cidade
faz-se sentir
significativamente
neste contexto local, vindo modificar a vida daspopulações.
Assim, do ponto de vista daocupação
espacial
é aconstrução
doHospital
de Santa Maria,inaugurado
em 1953, que vem alterar o tipo de isolamento relativo do bairro, o que estáligado
ao desenvolvimento dasvias rodoviárias para acesso às
instalações
hospitalares,
emparticular,
e deligação
entre o centro urbano e asperiferias
cada vez maislongínquas,
erageral.
Do ponto de vista
demográfico
operíodo
maiscontemporâneo
interrompe o relativo isolamento social da suavida colectiva cora a
chegada
depopulações
distintas das quetradicionalmente aí se haviam instalado . Tal tendência
coincide com as
alterações
profundas
que a vida da cidadeconhece, em
especial
a partir dos anos da guerra de 1939-45,"pequenez
e (o) prov í nc ian 1 srao " característicos da cidadeanterior. Tem esta tendência continuidade nos anos 50 com a
acelaraçâo
do crescimento desordenado dasaglomerações
e apersistência
da incontidafuga
dos campos para a cidade(J.GASPAR, 1975, p. 126) a que
correspondem
novasdirecções
para o crescimento urbano.
Podemos
dizer,
por fim, que aremodelação
a que foisujeita esta zona e o consequente reajustamento do espaço
físico e social do bairro, a que está
ligada
aconstrução
doHospital
de SantaMaria,
são elementos da maiorimportância
que nos levam a
distinguir
duas fases nesta análise ieincidência
sócio-espacial
.Numa primeira fase (2ã Parte,
cap.II)
ocorre aconstituição
do bairro e aestruturação
da vida local nocontexto da nova
ocupação
espacial,
situadatemporalmente
entre 1900 e 1950. Num
segundo
tempo, que retomaremos naParte posterior, assiste-se às
modificações
na estrutura deocupação espacial
entretanto definida, a que aimplantação
- 32
-CAPITULO I
CRESCIMENTO URBANO, DISTINÇÕES SOCIAIS E DIFERENCIAÇÕES
ESPACIAIS
1 . A "Cidade Nova" e as Avenidas Novas: uma zona extensa
e indef in ida
O século XX traz consigo o desafio da
construção
de uma"cidade nova". Nas
palavras
de J.A. FRANÇA (A arte eraPortugal
no século XIX, 22 vol.,p.124)
"ocapital
começava adiscipl
inar-se, dentro dequadros
de uma economia realista,já
empenhada
numadefinição
industriai", criando-se assim a"primeira
oportunidade
da vastaestruturação
urbanadepois
doprograma
pombalino'1
Cp.
123).De facto, as
modificações
notraçado
urbano sucediara-se ,como se constata na revisão da
planta
de Lisboa de 1871 em1911 ( vd .
Figura
n° 1). Nesteperíodo
a cidade avança eravários sentidos. Numa
orientação,
a Avenida da Liberdade éconcluída,
surgindo
diversos bairros aolongo
do seupercurso, sendo ainda urbanizada a zona em torno do
Parque
Eduardo
VII,
queliga
a Rotunda doMarquês
àPraça
Duque
deSaldanha. Noutras
direcções
aexpansão
faz-se através daAvenida Dã. Amélia (Almirante Reis) e com a
concretização
doFIGURA N° l - Revisão da Planta
da Cidade em 1911, tendo por base a Planta relativa a 1871
ANTA DA CIDADE
DE LISBOA
Xõ
m: J.A. rRANÇA, A arte era
Portuga:
no século XIX,2°vol.,
p. 124- 34
-O eixo que une a Rotunda ao Saldanha destaca-se dos
demais
pelo
tipo deconstrução
aípraticada.
Afirma oreferido autor que a cidade
progredia
agora"para
norte-nordeste, com as Avenidas Novas, bairro de luxo, em
prédios
de rendimento epalacetes
decapitalistas
enegociantes
ligados
às colónias..."Cp.
125). No entanto, aedificação
destas novas ruas, esteesforço
deplaneamento
do construi do , em quepontificara
as "moradias desenhadaspelos
melhores
arquitectos",
é confrontada com o surgimento denovas zonas de
habitação
nas redondezas das áreas depreferência
dos grupos sociais mais abastados. A miragem deuma cidade
arquitectural
é de pouca dura, sucumbindo estaperante a
proliferação
deconstruções
de todo o tipo quealbergam,
em redor doslugares
"eleitos" para os arrojos daModernidade, crescente número de habitantes "encaixotados"
por "mestres-de-obras e curiosos"
dispostos
ao lucro fácil.É
porém,
nas décadas seguintes,quando
já
está definido oespaço
principal
deocupação
destaburguesia
a residir forado centro
tradicional,
que se estabelece a nomenclatura"Avenidas Novas" a
qual
designa
uma vasta área deconstrução.
Abrange
nâo só as artériasplaneadas
comotambém os bairros construídos na sua