MISS BRASIL:Beleza, Corpo e Gênero 1950 / 1980
JOSÉ RICARDO FERRAZ*
INTRODUÇÃO
Os Estados brasileiros se apresentam Nesta festa de alegria e esplendor Jovens misses, seus Estados representam Seus costumes, seus encantos, seu valor.
Em desfile nossa terra, nossa gente Pela glória do auriverde em céu de anil Sempre unidos Leste, Oeste, Norte, Sul Na beleza das mulheres do Brasil.1
A letra acima é da Canção das Misses, que as candidatas ao título de Miss Brasil cantavam no Maracanãzinho, no Rio Janeiro, e nem se percebia os sotaques das moças vindas de todos os Estados brasileiros, pois a plateia formava um coral com mais de vinte mil vozes e abafava qualquer som. O Miss Brasil era o mais importante dos concursos de beleza realizados, entre 1950 e 1980, e elegia as representantes do país nos três maiores concursos de beleza internacionais. A primeira classificada iria para o “Miss Universo”, as segunda e
*UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro
1 Canção das Misses – letra e música de Lourival Faissal.
terceira colocadas disputavam o Miss Mundo e Miss Beleza Internacional, respectivamente.
“As histórias sobre os concursos, os detalhes sobre suas decorações, prêmios, figurinos, pessoas envolvidas etc., transformavam o evento de diversão em algo de dimensão social, cultural e mesmo política, de maior envergadura2”.
Anualmente, e com índices sempre maiores de audiência, uma multidão apaixonada assistia às eleições das misses, e as transformavam de moças anônimas em tema de múltiplas e acaloradas discussões, referências de beleza e comportamento nacionais, como Marta Rocha, Yeda Maria Vargas, Marta Vasconcelos, Vera Fischer etc. As candidatas desfilavam em trajes de noite, banho, e, depois de 1963 passaram a desfilar, também, em trajes típicos, prova que não contava pontos, pois era o momento de confraternização das meninas.
Para Renato Ortiz3havia um incentivo à busca pela beleza decorrente da consolidaçãono Brasil da sociedade urbano-industrial, a partir dos anos 1940. Assim, chegou aideia de modernização que, no caso das mulheres, atingia o privado (em que as casas deveriam ser equipadas com eletrodomésticos modernos) e o público (em que a aparência bela deveria ser alcançada através do uso de cosméticos modernos) (ORTIZ, 1988).
As representantes estaduais chegavam à disputa do título nacional após venceram centenas de candidatas municipais nos seus estados. Chegar à final do Miss Brasil não era fácil, pois alguns clubes financiavam os programas de suas candidatas, os jantares elegantes, as aparições na televisão, etc., organizando recepções, festas e contato com a imprensa. Mas muitas delas, sem esse amparo financeiro, têm que despender um bom dinheiro para garantir um lugar na passarela. Os vestidos elegantes, as aparições noturnas, liquidam com as pequenas economias das candidatas pobres. Mas elas não se queixam, sabem que esse é o preço da glória4, e, com ou sem patrocínio, vinham para o Rio de Janeiro e se hospedavam no Serrador - conhecido como o Hotel das Misses.
2 O Cruzeiro. 11 junho 1960. p.4; 24 fev. 1962, p.118; 16 jun. 1962, p.124; 19 jun. 1965, p.25.
3 ORTIZ, Renato. A Moderna Tradição Brasileira. Cultura brasileira e indústria cultural. São Paulo:
Brasiliense, 1988
4 Manchete nº 474. 20 de maio de 1961. p. 54
Segundo Martha Rocha, elas eram muito prestigiadas na cidade, que recebia com festa a chegada das candidatas ao título de Miss Brasil. O concurso se transformou num dos grandes acontecimentos do país, uma alavanca para vender os costumes da época. As misses eram o exemplo das moças da moda, (...) – todas integradas à estrutura familiar mais tradicional, mas também capazes de exibir uma atmosfera de modernidade que o Brasil começava a viver nos anos 505.
Ângela Vasconcelos, a paranaense do Paraná eleita Miss Brasil 1964 é filha do Coronel Osni Vasconcelos, professor de História na Escola do Estado Maior do Exército e especialista em Napoleão Bonaparte. As funções do pai levaram-no, certa vez, a residir durante dois anos na Alemanha. Ângela foi também e aproveitou para aperfeiçoar seus conhecimentos linguísticos6.
Entre 1953 e 1976, as misses ficavam sob o comando de Maria Augusta Nielsen, “a fundadora da SOCILA - Sociedade Civil de Intercâmbio Literário e Artístico (...) uma escola onde ela pretendia criar modelos de classe e brasileiras”. Maria Augusta diz que teve muita sorte, quando Sarah Kubitschek a procurou para ensinar postura às suas filhas7. Segundo a Revista Realidade mostrou:
Miss tem que saber desfilar, para não dar vexame. E vão para as mãos de dona Maria Augusta, que tem uma escola de modelos, e há nove anos acompanha o concurso de Miss Brasil, ensinando andar, parar e rodopiar. Comanda tudo com uma bengala, e umas batidas no chão: a marcação da bengala é a marcação internacional. As moças saem daqui já sabendo desfilar como nos outros países 8.
O nosso tema está diretamente relacionado a uma crescente centralidade do corpo e da beleza na nossa contemporaneidade; nela, o corpo tornou-se objeto de exposição, admiração, desejo e interferências, e diferentes disciplinas e áreas do conhecimento têm se preocupado com este tema. Nas Ciências Humanas e na historiografia tais inquietações
5 ROCHA, Martha. Uma biografia- em depoimento a Isa Pessoa. Objetiva. Rio de Janeiro. 1993. p. 57
6 Revista O Cruzeiro. ano XXXVI. n. 43 p.37
7Revista Manchete nº 967, de 01 de novembro de 1970
8 Revista Realidade nº 5, de agosto de 1966. Reportagem: “Porque choram as misses”. p. 90
emergem com a abertura da história para “outras histórias”, focalizando novos objetos, sujeitos e abordagens, culminando com o advento da Nova História Cultural. Assim os sujeitos adquiriram corporeidade e o corpo tornou-se sujeito da história, podendo-se observar que a construção do corpo tem uma historicidade (...)9.
Deste modo, abriram-se espaços para a discussão e escrita das mais variadas histórias, problematizando temas pouco trabalhados pela historiografia tradicional, dando visibilidade aos “personagens ocultos” e permitindo trabalhos como este, amparado numa perspectiva de História cultural que
apresenta riscos e põe exigências: é preciso teoria, sem dúvida, ela exige o uso desses óculos, conceituais e epistemológicos para enxergar o mundo. A Hist.
Cultural pressupõe um método, trabalhoso e minucioso para fazer revelar os significados perdidos do passado. Pressupõe ainda uma carga de leitura ou bagagem acumulada, para potencializar a interpretação por meio da construção do maior número de relações possível entre os dados. Como resultado, propõe versões possíveis para o acontecido, e certezas provisórias10.
No livro “Corpos de Passagem: ensaios sobre a subjetividade contemporânea”, Denise B. Sant’Anna entende que os textos coletados neste ensaio “resultam de reflexões sobre a atual valorização do corpo humano, (...) e intensa exploração comercial”. Expressam os limites do imperativo da beleza e da saúde perfeitas, assim como a onipresença da mobilidade corporal em expansão: silhuetas sempre de passagem, percepções sem detença, indivíduos reduzidos a turistas, consumidores vorazes de novidades, organismos liberados de seu patrimônio cultural e genético, incessantemente ameaçados pelo risco do descarte e do isolamento11.
9SOIHET, Rachel inMATOS, Maria Izilda S. de e SOIHET, Rachel. Orgs. O Corpo feminino em debate.São Paulo. Editora UNESP. 2003. p. 11
10 PESAVENTO, Sandra Jatahy. História & História Cultural. Belo Horizonte. Autêntica. 2008. p. 119
11SANT’ANNA, Denise Bernuzzi deCorpos de Passagem: ensaios sobre a subjetividade contemporânea. São Paulo. Estação Liberdade. 2001.
Para Mirian Goldenberg12, o corpo é um agente das diferenças sociais, sendo
“cultivado sob a moral da boa forma, surge como marca indicativa de certa virtude superior daquele que o possui. Um corpo coberto de signos distintos que, mesmo nu, exalta e torna visíveis as diferenças entre grupos sociais”.
Para realizar o trabalho com fontes orais, escritas e imagéticas, pretendo articulá-las com os objetivos da pesquisa. Assim, um quadro com questões levantadas já está delineado para ajudar na compreensão, por exemplo, do conjunto das rupturas e permanências nos discursos sobre a mulher daquele período, ou as questões relacionadas às construções e desconstruções em torno das feminilidades presentes nas falas das misses em muitas entrevistas. Para Sandra Pesavento:
“A imagem possui uma função epistêmica, de dar a conhecer algo, uma função simbólica, de dar acesso a um significado, e uma estética, de produzir sensações e emoções no espectador”. Mas, se esse espectador é um historiador, ele deve ter uma pergunta a fazer a essa imagem, e vai tomá-la como representação, ou seja, como traço ou fonte que se coloca no lugar do passado a que se almeja chegar13.
A pesquisa se justifica pela relevância dos estudos sobre gênero, mulheres e beleza, além da contribuição historiográfica original que contribuirá para diminuir a lacuna na bibliografia especializada, trazendo outros olhares sobre a beleza, seus concursos e formas de avaliá-los.
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13 PESAVENTO, Sandra Jatahy. Op. Cit. p. 87
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