CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS LETRAS E ARTES
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS DA LINGUAGEM ÁREA DE LINGUÍSTICA TEÓRICA E DESCRITIVA
A CONSTRUÇÃO TRANSITIVA COMITATIVA
SOB A ÓTICA DA LINGUÍSTICA FUNCIONAL CENTRADA NO USO
ANA LUÍZA DE ANDRADE CAVALCANTE
Natal-RN 2021
A CONSTRUÇÃO TRANSITIVA COMITATIVA
SOB A ÓTICA DA LINGUÍSTICA FUNCIONAL CENTRADA NO USO
Trabalho apresentado ao programa de Pós-graduação em Estudos da Linguagem da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, na área de Linguística Teórica e Descritiva, linha de pesquisa Discurso, Cognição e Interação, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Estudos da Linguagem.
Orientador: Prof. Dr. José Romerito Silva.
Natal-RN 2021
Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN Sistema de Bibliotecas - SISBI
Catalogação de Publicação na Fonte. UFRN - Biblioteca Setorial do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes - CCHLA
Cavalcante, Ana Luíza de Andrade.
A construção transitiva comitativa sob a ótica da linguística funcional centrada no uso / Ana Luíza de Andrade Cavalcante. - 2021.
87f.: il.
Dissertação (mestrado) - Centro de Ciências Humanas Letras e Artes, Programas de Pós Graduação em Estudos da Linguagem, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, RN, 2021.
Orientador: Prof. Dr. José Romerito Silva.
1. Construção Transitiva Comitativa - Dissertação. 2.
Complemento relativo/oblíquo - Dissertação. 3. Linguística Funcional Centrada no Uso - Dissertação. 4. Gramática de
Construções - Dissertação. I. Silva, José Romerito. II. Título.
RN/UF/BS-CCHLA CDU 81'36
Elaborado por Ana Luísa Lincka de Sousa - CRB-15/748
A CONSTRUÇÃO TRANSITIVA COMITATIVA
SOB A ÓTICA DA LINGUÍSTICA FUNCIONAL CENTRADA NO USO
Dissertação apresentada à Banca Examinadora como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Estudos da Linguagem, área de concentração em Linguística Teórica e Descritiva.
Aprovada em: 31.05.2021
BANCA EXAMINADORA
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Prof. Dr. José Romerito Silva Presidente (UFRN)
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Prof. Dr. José da Luz da Costa Membro interno (UFRN)
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Prof. Dr. Ricardo Yamashita Santos Membro externo (UnP)
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Prof. Dr. Edvaldo Balduíno Bispo Suplente (UFRN)
Antes de tudo, agradeço aos meus pais, Edneide e Marcos, que, na jornada da vida, sempre investiram seus esforços em minha educação. Como se fosse hoje, recordo os dias em que minha mãe me levava para a aula particular de português, em cidade da esperança, com o professor Júnior.
Reconheço e agradeço o árduo empenho do meu pai, que investiu o dinheiro, fruto de seu trabalho duro, em boas escolas e cursos de inglês para mim.
Agradeço imensamente por, desde sempre, acreditarem em mim. Não posso deixar de agradecer também ao meu padrasto, Sena, que me deu suporte em tudo que precisei e foi sempre atencioso, além de muito cuidadoso com de minha saúde, alimentação e, ainda, dispor-se a me levar aos lugares onde precisei resolver tudo que foi preciso neste período recente de muitas adversidades e durante todo o mestrado. A vocês, toda a minha gratidão.
Agradeço também o apoio dos meus amigos. Sem cada um deles, eu não seria ninguém, mas agradeço especialmente à Cintía Asfora Fernandes, Paollo Passoline, Caroline Galdino, Victor Hugo, Estevam Fortunato, Aline Souto, Fladmylla Ohana, Rafael Vale e Gustavo pessoa. Amigos, vocês estiveram comigo durante esses dois anos e cinco meses, sempre me apoiando e me acolhendo. Eu nunca poderei agradecer o bastante por todo esse apoio em momentos que me foram tão desafiadores.
Em tempo, existem três pessoas especiais na minha jornada acadêmica que eu não poderia deixar de mencionar. Mardônio e Antônio, junto a vocês, eu vivi os melhores anos da minha vida na universidade. Vocês fizeram com que eu me apaixonasse pelo curso de Letras e, por isso, sou muito grata. Professor Marcos Costa, tão querido mestre e amigo. Naquela pequena sala, nos corredores do CCHLA, você fez com que eu me apaixonasse pela Linguística e, principalmente, ensinou-me a amar a pesquisa acadêmica. Obrigada por todos os ensinamentos. Serei eternamente grata por aqueles momentos e ensinamentos preciosos.
Ainda, gostaria de agradecer ao meu orientador, Romerito Silva.
Professor, o senhor me acolheu, me ensinou e me fez crescer como profissional e pesquisadora. Muito obrigada por toda a paciência de se
eternamente grata.
Neste trabalho, faz-se um estudo a respeito da Construção Transitiva Comitativa (CTC). A tradição gramatical dá pouca atenção ao verbo transitivo relativo/oblíquo, sendo a exceção disso Rocha Lima (2011). Na fronteira entre a gramática tradicional e a Linguística, encontram-se Bechara (2009) e Azeredo (2009), que fazem breve exposição sobre o complemento relativo.
Tratando desse tipo de verbo e de seu complemento em suas gramáticas, de base linguística, Mateus et al. (2003) e Castilho (2012) denomina-os, respectivamente, como verbo transitivo oblíquo e complemento oblíquo, examinando aspectos semânticos e morfossintáticos a eles relacionados. Em abordagens avulsas no campo linguístico, existem os trabalhos de Souza (2011), Jarnalo (2014) e Lerner (2015). Em todos eles, o verbo transitivo relativo e/ou o complemento relativo são vistos ressaltando-se unicamente seus aspectos semântico-sintáticos. Afastando-se, em parte, dessas abordagens, a oração com verbo transitivo relativo/oblíquo (incluindo seu complemento) é tratada aqui em perspectiva construcional. Para tanto, utiliza- se o aparato teórico-metodológico da Linguística Funcional Centrada no Uso de viés construcionista, conforme se encontra em Furtado da Cunha, Bispo e Silva (2013), Rosário e Oliveira (2016), entre outros. O material de análise é composto por dados do Corpus Discurso e Gramática em suas versões do Rio de Janeiro (VOTRE; OLIVEIRA, 1995), Rio Grande (VOTRE; OLIVEIRA, 1996), Juiz de Fora (VOTRE; OLIVEIRA, 1997) e Natal (FURTADO DA CUNHA, 1998). Os dados do corpus indicam que a CTC apresenta certa variedade semântica relacionada à extensão de seu significado básico. Ademais, seu complemento parece exibir diferentes graus de integração sintática com o verbo a que se vincula bem como links de herança diversos. Em tais fenômenos, estão implicados fatores de natureza cognitiva (como chunking, analogização, metonimização e metaforização) e discursivo-interacionais (entre eles, perspectivização, intersubjetividade e inferência pragmática).
Palavras-chave: Construção Transitiva Comitativa. Complemento relativo/
oblíquo. Linguística Funcional Centrada no Uso. Gramática de Construções.
In this work, a study is made about the Comitative Transitive Construction (CTC). The grammatical tradition pays little attention to the relative/oblique transitive verb. The exception is Rocha Lima (2011). At the border between the traditional grammar and Linguistics, there are Bechara (2009) and Azeredo (2009), who make a brief presentation on the relative complement. Regarding this type of verb and its complement in its linguistic-based grammars, Mateus et al. (2003) and Castilho (2012) denominate them, respectively, as oblique transitive verb and oblique complement, examining semantic and morphosyntactic aspects related to them. In separate approaches in the linguistic field, there are the works of Souza (2011), Jarnalo (2014) and Lerner (2015). In all of them, the relative transitive verb and / or the relative complement are seen emphasizing only their semantic-syntactic aspects.
Moving away, in part, from these approaches, the sentence with a relative / oblique transitive verb (including its complement) is treated here in a constructional perspective. For this, the theoretical-methodological apparatus of Functional Linguistics Centered on the Use of constructionist bias is used, as found in Furtado da Cunha, Bispo e Silva (2013), Rosário and Oliveira (2016), among others. The analysis material consists of database from Corpus Discurso e Gramática in its versions from Rio de Janeiro (VOTRE; OLIVEIRA, 1995), Rio Grande (VOTRE; OLIVEIRA, 1996), Juiz de Fora (VOTRE;
OLIVEIRA, 1997) and Natal (FURTADO DA CUNHA, 1998). The corpus data indicates that the oblique transitive construction with the preposition with presents a certain semantic variety related to the extension of its basic meaning. In addition, its complement seems to exhibit different degrees of syntactic integration with the verb which it is linked to as well as diverse inheritance links. These phenomena are motivated by cognitive (such as chunking, analogization, metonymization and metaphorization) and discoursive- interactional motivations (among them, perspective, intersubjectivity and pragmatic inference).
Keywords: Comitative Transitive Construction. Relative/Oblique complement.
Usage-based Functional Linguistics. Construction Grammar.
Lista de quadros e tabelas... 11
Lista de siglas e abreviaturas... ... 12
1 INTRODUÇÃO ... 13
1.1 Objeto de pesquisa e justificativa de seu estudo ... 13
1.2 Questões de pesquisa... 15
1.3 Hipóteses ... 16
1.4 Objetivos ... 17
1.4.1 Geral ... 17
1.4.2 Específicos ... 17
1.5 Enquadre teórico ... 17
1.6 Metodologia ... 18
1.6.1 Natureza metodológica geral da pesquisa... 18
1.6.2 Os dados para análise e seu tratamento ... 18
1.7 Estrutura do trabalho ... 20
2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA ... 21
2.1 Abordagem de gramáticos tradicionais sobre a oração transitiva com complemento preposicionado ... 21
2.1.1 Almeida (2009) ... 21
2.1.2 Cunha e Cintra (2011) ... 22
2.1.3 Rocha Lima (2011) ... 22
2.2 Tratamento dado ao tema em gramáticas de linguistas ... 23
2.2.1 Bechara (2009) ... 23
2.2.2 Azeredo (2009) ... 24
2.2.3 Castilho (2012) ... 24
2.2.4 Bagno (2012) ... 25
2.3 Estudos no campo da Linguística ... 26
2.3.1 Souza (2011) ... 26
2.3.2 Jarnalo (2014) ... 27
2.3.3 Lerner (2015) ... 28
3.2. Conceitos operacionais ... 30
3.2.1 Construção: noções gerais ... 30
3.2.2 Categorização e prototipicidade ... 34
3.2.3 Frame e MCI ... 37
3.2.4 Metáfora e Metonímia ... 39
3.2.5 Chunking ... 41
3.2.6 Iconicidade ... 42
3.2.7 Informatividade e perspectivização ... 43
3.2.8 Inferência pragmática ... 46
4 A CONSTRUÇÃO TRANSITIVA COMITATIVA (CTC) ... 48
4.1 Aspectos quantitativos gerais das amostras coletadas ... 48
4.2 O pareamento forma-função da CTC ... 54
4.2.1 Aspectos formais ... 54
4.2.2 Aspectos funcionais ... 54
4.2.3 Propriedades da CTC ... 56
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS 70
REFERÊNCIAS 75
ANEXOS 79
Quadros
Quadro 1: Caracterização do complemento relativo/oblíquo 27
Quadro 2: Pareamento simbólico da construção 30
Quadro 3: Rede esquemática de uma construção 32
Quadro 4: Construções e aloconstruções 34
Quadro 5: Rede esquemática da CTO 61
Tabelas
Tabela 1: Ocorrências da CTO no Corpus D&G 48 Tabela 2: Ocorrências de verbos da CTO no Corpus D&G 49
Ag – Agente
AAdv – Adjunto adverbial
CD&G – Corpus Discurso e Gramática Cog – Cognitivo
Com – Comitativo Comp – Complemento
CC – Complemento circunstancial CO – Complemento oblíquo CR – Complemento relativo
CTC – Construção Transitiva Comitativa CTO – Construção Transitiva Oblíqua GC – Gramática de Construções Exp – Experienciador
LC – Linguística Cognitiva
LFCU – Linguística Funcional Centrada no Uso N – Nome
NGB – Nomenclatura Gramatical Brasileira Obj – Objeto
Obl – Oblíquo OD – Objeto direto
ODP – Objeto direto preposicionado OI – Objeto indireto
Or – Oração
OTR/O – Oração transitiva relativa/oblíqua Pac – Paciente
Prep – Preposição SN – Sintagma nominal SP – Sintagma preposicional Suj – Sujeito
Trans – Transitivo V – Verbo
VT – Verbo transitivo
VTD – Verbo transitivo direto VTI – Verbo transitivo indireto VTO – Verbo transitivo oblíquo
VTR/O – Verbo transitivo relativo/oblíquo
1 INTRODUÇÃO
Esta seção tem como objetivo apresentar um quadro geral de minha pesquisa de mestrado sobre a construção transitiva comitativa. São aqui explicitados a delimitação do objeto de pesquisa e a razão de seu estudo, as questões de pesquisa, as hipóteses, os objetivos de pesquisa, o referencial teórico e a metodologia que norteiam o trabalho.
1.1 Objeto de pesquisa e justificativa de seu estudo
Em linhas gerais, quando se trata de transitividade verbal, a gramática tradicional – representada por estudiosos como Almeida (2009) e Cunha e Cintra (2017), por exemplo – costuma categorizar os verbos como intransitivos e transitivos. Os intransitivos são os verbos que expressam sentido acabado em si mesmos, não requerendo complementação. Portanto, não há a necessidade de um termo adicional completando o conteúdo semântico do verbo para que este expresse sentido pleno. Os verbos transitivos, por sua vez, precisam de um complemento para que possam exprimir sentido completo. Os complementos desses verbos são divididos, em geral, em objeto direto (OD), objeto indireto (OI) e objeto direto preposicionado (ODP).
Em se tratando mais especificamente da complementação verbal, há dois tipos de complemento, abordados por Bechara (2009) e por Rocha Lima (2011), que não recebem atenção paralela por parte dos demais gramáticos tradicionais. São eles o complemento relativo (CR) e o complemento circunstancial (CC). Esses complementos são considerados por Almeida (2009) e por Cunha e Cintra (2017) – também pela maioria dos gramáticos1 – como objeto indireto e adjunto adverbial (AAdv), respectivamente. A propriedade sintática caracterizadora desses termos é o fato de serem igualmente codificados por meio de um sintagma preposicional (SP).
Conforme dito acima, o complemento relativo, comumente incluído na classe do objeto indireto, de fato, complementa o sentido de um verbo transitivo e se relaciona com este regido por preposição. Entretanto, segundo apontam Bechara (2009) e Rocha Lima (2011), o complemento relativo não tem
1 A exceção é Azeredo (2009), que também aborda o complemento relativo.
significação equivalente ao objeto indireto tampouco exibe propriedade morfológica semelhante a este. Para eles, (i) o OI designa a entidade à qual se dirige/destina a ação expressa pelo verbo, sendo, portanto, o beneficiário da ação (ou caso dativo), enquanto o CR pode designar conteúdo muito diverso;
(ii) o beneficiário exibe a propriedade +animado/humano, traço não obrigatório no CR; (iii) o OI é regido pelas preposições a ou para, diferentemente do CR, que pode ser regido por preposições diversas; (iv) o termo preposicionado que representa o OI pode ser normalmente substituído, na 3ª pessoa, pelo pronome oblíquo lhe(s), o que não é o caso do CR. Comparemos os exemplos (1) e (2) com os (3) e (4), a seguir:
(1) Enviaram o presente à aniversariante. / Enviaram-lhe o presente. – Bechara (2009, p. 346).
(2) Escrever a um amigo. (Escrever-lhe) – Rocha Lima (2011, p. 307).
(3) Não pensava nos amigos. / Não pensava neles. – Bechara (2009, p. 340) (4) Gostar de uvas (Gostar delas) – Rocha Lima (2011, p. 311).
Os exemplos (1) e (2) ilustram casos de complementação verbal que devem ser considerados OI pelo fato de preencherem as condições mencionadas anteriormente: descrevem o beneficiário da ação expressa pelos verbos enviaram e escrever – à aniversariante e a um amigo, respectivamente –; ambos recebem o traço +animado/humano; são regidos pela preposição a; o SP pode ser substituído por lhe quando na 3ª pessoa. Já nos exemplos (3) e (4), embora os verbos sejam transitivos e exijam complementos regidos por preposição, seus complementos não exprimem o beneficiário do conteúdo verbal, são regidos por outras preposições diferentes de a (em e de) e não podem ser substituídos por lhe. Logo, fica demonstrado que esses dois últimos complementos não possuem as mesmas propriedades (semânticas e morfológicas) dos dois primeiros.
No campo dos estudos linguísticos, trabalhos sobre transitividade/
estrutura argumental contemplam, em alguma medida, o complemento relativo.
Abordando a complementação dos verbos transitivos, Azeredo (2009) faz rápida referência ao complemento relativo, defendendo sua diferença em relação ao objeto indireto. De modo relativamente semelhante, Castilho (2012),
focalizando essa mesma questão, distingue o complemento relativo – para ele, complemento oblíquo – do objeto indireto. Oliveira (2010), discutindo mais especificamente o objeto indireto, também diferencia este do complemento relativo. Souza (2010), abordando o papel da preposição na transitividade verbal, faz referência passageira ao verbo transitivo relativo e ao complemento relativo. Jarnalo (2014) examina os sintagmas preposicionais que seguem o verbo em perspectiva gerativista. Lerner (2015), também tratando desses tipos de sintagmas, tece breves considerações sobre o complemento relativo.
Pelo exposto, observa-se que tais trabalhos não se concentram de forma direta nem mais abrangente na transitividade verbal relativa tampouco nos complementos dos verbos. Sobre essa questão, fazem explanações sucintas, ora voltando-se mais para aspectos semânticos gerais que diferenciam esses complementos do objeto indireto ora atendo-se a distinções morfossintáticas entre esses termos, com algum foco nas preposições.
Existem, portanto, lacunas evidentes na abordagem da complementação verbal relativa – entendida pela maioria dos gramáticos e linguistas como objeto indireto – que requerem investigação. Entretanto, dadas a amplitude e a complexidade desse tema bem como a impossibilidade de contemplar, a contento, as questões em aberto sobre ele, a pesquisa de mestrado restringe- se a examinar mais especificamente a oração transitiva relativa/oblíqua2 cujo complemento é regido pela preposição com. No trabalho, essa oração é tratada como Construção Transitiva Comitativa (CTC), em referência ao caso comitativo, que exprime, prototipicamente, a noção de companhia.
As limitações aqui observadas no tratamento da construção relativa/oblíqua por parte de gramáticos e pesquisadores levam às questões de pesquisas que seguem sobre a CTC, como desafios de pesquisa.
1.2 Questões de pesquisa
1) Qual a moldura semântica da CTC?
2 Adota-se aqui o termo oblíquo em vez de relativo, seguindo a mesma denominação dada por Mateus et al. (2003) e por Castilho (2012). A razão para essa escolha é o fato de se querer evitar confusão com a oração/construção adjetiva/relativa.
2) Qual o grau de integração semântico-sintática do complemento relativo/
oblíquo dessa construção?
3) Que processos cognitivos subjazem à CTC?
4) Que links de herança estão envolvidos na rede da CTC?
5) Que fatores discursivo-pragmáticos estão implicados no uso dessa construção?
1.3 Hipóteses
1) Presume-se que a CTC tem como conteúdo central um agente volitivo que é realizador de uma ação na companhia de/em conjunto com outrem, também agente, sendo ambos participantes obrigatórios previstos na moldura semântica da construção3. Dada a natureza polissêmica das construções transitivas, é possível que a CTC com tal preposição expresse significados distintos, porém, de alguma maneira, relacionados à sua noção básica.
2) Supõe-se, com base em varredura preliminar no corpus, que diferentes instanciações da CTC demonstram graus de integração semântico-sintática diversos entre o verbo e seu complemento, resultando em um continuum de composicionalidade/analisabilidade.
3) Ancorando-se em pressupostos cognitivistas defendidos pela Linguística Funcional Centrada no Uso (LFCU), aventa-se que a hipótese levantada em 1) – sobre a provável extensão semântica da CTC – tem como mecanismos cognitivos subjacentes os processos de conceptualização, analogização, metaforização e categorização.
4) Em uma abordagem construcional, assume-se que existem hierarquia e relações assimétricas entre construções, estando estas associadas, de alguma forma, por links de herança na rede. Assim, considerando as hipóteses anteriores, possivelmente, deve haver links de herança envolvendo a CTC, sobretudo aqueles por polissemia e por metáfora.
3 Moldura semântica da construção refere-se à conceitualização de um evento/uma situação para a qual existe uma codificação proposicional correspondente, convencionalmente sancionada pelo uso (GOLDBERG, 1998). Nesse caso, equivale a um frame linguístico- discursivo (MORATO, 2010). Assim, uma determinada cena conceitual com uma dada configuração semântica tende a ser prototipicamente codificada por uma estrutura sintática com certa quantidade/paridade de elementos linguísticos, como é o caso da moldura semântica transitiva.
5) Partindo da ideia quanto à existência de motivações discursivo-pragmáticas sobre a forma(ção) dos padrões linguísticos, cara à LFCU, admite-se a hipótese de que fatores como informatividade, perspectivização e inferência pragmática são cruciais nos variados usos da CTC.
1.4 Objetivos
Explicitam-se, a seguir, os objetivos geral e específicos deste trabalho.
1.4.1 Geral
Analisar a construção transitiva comitativa sob o viés teórico- metedológico da LFCU.
1.4.2 Específicos
1) Caracterizar a moldura semântica da CTC.
2) Aferir o grau de integração semântico-sintática do complemento relativo/
oblíquo dessa construção.
3) Descrever processos cognitivos subjacentes à CTC.
4) Identificar os links de herança envolvidos na rede da CTC.
5) Examinar fatores discursivo-pragmáticos implicados no uso dessa construção.
1.5 Enquadre teórico
A pesquisa em andamento apoia-se no quadro teórico-metodológico da Linguística Funcional Centrada no Uso (LFCU) articulada à abordagem construcional de viés cognitivista. Representando essa vertente de estudos linguísticos, podem ser citados, por exemplo, pesquisadores como Bybee (2010), Martelotta (2011), Traugott e Trousdale (2012), Furtado da Cunha, Bispo e Silva (2013), Rosário e Oliveira (2016), entre outros.
Esse modelo de estudos linguísticos assume a noção de língua como um sistema simbólico maleável, que se regulariza, varia e muda conforme pressões de natureza interna e, sobretudo, externas, relacionadas às
necessidades comunicativas de seus usuários. Nessa perspectiva, entende que, na modelagem da língua, interagem fatores de ordem formal (fonético- fonológicos e morfossintáticos) e funcional (semânticos, cognitivos e discursivo- pragmáticos). Em razão disso, defende que a investigação dos fenômenos linguísticos deve ancorar-se nos dados de fala e/ou de escrita, oriundos das práticas discursivas do cotidiano social.
1.6 Metodologia
Nos subtópicos que seguem, detalham-se os aspectos gerais da metodologia adotada na pesquisa. São eles a natureza metodológica geral do trabalho bem como os dados para análise e seu tratamento.
1.6.1 Natureza metodológica geral do trabalho
Nesta pesquisa, utiliza-se o método empírico-indutivo, o qual, de acordo com Lakattos e Marconi (2001), tem como objetivo a explicação de processos observáveis. Eles buscam formular ponderações a partir de dados observáveis pela experiência. O método indutivo busca verificar casos particulares para chegar a generalizações. Esse caminho é feito a partir da observação de dados coletados, os quais não são apenas acúmulos de informação, mas devem ser analisados com o objetivo de afirmar ou negar as hipóteses levantadas.
A pesquisa possui um caráter quali-quantitativo, ou seja, nela, adota-se o método misto, nos termos de Lacerda (2016). O caráter qualitativo procura dar conta do fenômeno sob investigação considerando sua natureza e aspectos que lhe são próprios bem como fatores externos a ele relacionados, visando a uma compreensão mais acurada de tal fenômeno. O caráter quantitativo, por sua parte, capta frequências de amostras (tanto de types como de tokens), confirmando – ou não –, mediante seus resultados, a análise empreendida e as hipóteses levantadas (BYBEE, 2010). O levantamento quantitativo nesse tipo de análise favorece, ainda, a identificação da frequência de tokens, com o fim de flagrar a preferência dos usuários por certo(s) type(s) que é/são mais prototípico(s). Nesse sentido, permite, ainda, prever possíveis tendências e/ou formular generalizações.
1.6.2 Os dados para análise e seu tratamento
O material de análise é composto por dados do Corpus Discurso e Gramática (CD&G) em suas versões Rio de Janeiro (VOTRE; OLIVEIRA, 1995), Rio Grande (VOTRE; OLIVEIRA, 1996), Juiz de Fora (VOTRE;
OLIVEIRA, 1997) e Natal (FURTADO DA CUNHA, 1998). Esse corpus é composto por textos falados e escritos, produzidos por alunos e alunas de alfabetização, da quarta série do ensino infantil, da oitava série do 1º grau, do último ano do segundo grau4 e do ensino superior. Os textos são resultantes de entrevistas semicontroladas feitas aos estudantes e se acham divididos nas seguintes categorias (ou modos de organização discursiva): narrativa de experiência pessoal, narrativa recontada, descrição de local, relato de procedimento e relato de opinião.
Para a pesquisa, são utilizados apenas os textos de narrativa recontada, de narrativa de experiência pessoal e de relato de opinião dos informantes da oitava séria e do ensino superior, nas modalidades de fala e escrita. A justificativa para essa escolha é o grande volume das produções textuais nesses níveis de ensino, especialmente os dados de fala, e a provável representatividade de amostras que podem ser coletadas desse material.
Uma das técnicas utilizadas para o levantamento inicial de dados foi o uso do software AntConc. O AntConc é um software livre que permite o rastreamento e a compilação de dados no corpus.
De forma geral, a pesquisa compreende as etapas de procedimentos elencadas a seguir:
1. levantamento e tabulação de dados da CTC no corpus;
2. análise da moldura semântica e dos aspectos sintáticos dos construtos que instanciam a CTC, considerando o grau de integração conceitual e formal entre o verbo e o complemento relativo a ele associado;
3. mapeamento do (provável) processo de extensão semântica dessa construção;
4. verificação dos (possíveis) links de herança em instanciações dessa construção;
4 Aqui é mantida a terminologia dada no corpus a esses níveis de ensino.
5. identificação de fatores discursivo-pragmáticos subjacentes aos usos dessa construção.
1.7 Estrutura do Trabalho
A dissertação está organizada da seguinte maneira: a primeira seção corresponde a esta parte introdutória, na qual é apresentada uma visão geral do trabalho; a segunda diz respeito à revisão bibliográfica do tema; a terceira apresenta um panorama do referencial teórico utilizado no exame do objeto de investigação; a quarta trata da análise propriamente dita desse objeto; a quinta faz as considerações finais quanto ao estudo realizado.
2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
O objetivo desta seção é apresentar um panorama geral da literatura sobre a oração relativa/oblíqua, o verbo a ela relacionado e o complemento (regido por preposição) que o segue. Primeiramente, mostra-se a abordagem dessa questão em algumas gramáticas – de autores tradicionais e de linguistas – e, em seguida, o tratamento dado em trabalhos no campo da linguística.
2.1 Abordagem de gramáticos tradicionais sobre a oração transitiva com complemento preposicionado
Antes de expor mais especificamente o tratamento dado à transitividade verbal relativa e à sua complementação, veja-se como essa questão é abordada por gramáticos como Almeida (2009) e Cunha e Cintra (2011), os quais seguem o disposto na Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB).
2.1.1 Almeida (2009)
Almeida (2009) afirma que existem dois tipos de predicados: os incompletos e os completos. Os predicados incompletos são aqueles que possuem verbos os quais exigem complemento, ou verbos transitivos; os de predicação completa são aqueles que apresentam verbos sem complemento, ou verbos intransitivos. Quanto aos verbos transitivos, o autor subdivide-os em transitivos diretos e indiretos.
Para Almeida, os verbos transitivos diretos (VTD) são aqueles cuja ação por eles descrita passa diretamente para a pessoa ou coisa sobre a qual recai.
Já os transitivos indiretos (VTI) são aqueles cujos objetos a eles se ligam mediante uma preposição.
Almeida não faz distinção entre o verbo transitivo indireto e o transitivo relativo/oblíquo (VTR/O). Considera indiretos verbos cujo complemento é feito com preposição, sem importar as especificidades/diferenças de significado entre eles. Com isso, aloca todos os complementos do VTI na categoria do objeto indireto (OI).
2.1.2 Cunha e Cintra (2011)
Cunha e Cintra (2011) classificam transitividade verbal como sendo uma ação que é transmitida do verbo para outro(s) elemento(s). Os autores dividem os verbos em intransitivos (os quais descrevem ações que não vão além de si mesmos, exibindo significação completa), transitivos diretos e transitivos indiretos (os quais descrevem ações que se projetam para além de si mesmos, requerendo um complemento). Para os verbos transitivos, Cunha e Cintra consideram cinco tipos de complementos, a saber: objeto direto, objeto indireto, objeto direto pleonástico, objeto indireto pleonástico e objeto direto preposicionado.
Segundo esses autores, o OI, complemento de um VTI, pode ser representado por substantivo, pronome (substantivo), numeral, palavra ou expressão substantivada ou oração substantiva. Esses termos, em geral são de natureza oblíqua, isto é, associam-se ao verbo acompanhados por uma preposição.
Do mesmo modo que Almeida, Cunha e Cintra também não consideram o complemento relativo/oblíquo. Este está igualmente incluso no que classificam como objeto indireto. Dessa forma, tais gramáticos também não levam em conta as especificidades de significado que distinguem os verbos transitivos indiretos, relativos e aqueles de complementação circunstancial, abrigando-os na classe geral dos VTI. Tampouco se atêm aos diferentes aspectos semânticos e morfossintáticos de seus respectivos complementos, atribuindo-lhes o rótulo genérico de OI.
2.1.3 Rocha Lima (2011)
Diferenciando-se dos gramáticos anteriores, para Rocha Lima (2011), o verbo transitivo relativo, por ser de significação incompleta, requer um termo que lhe complemente o sentido. Esse termo é o complemento relativo, o qual,
“ligado ao verbo por uma preposição determinada (a, com, de, em, etc.), integra, com o valor de objeto direto, a predicação de um verbo de significação
relativa.” São exemplos desse tipo de verbo casos como assistir, conversar, gostar e crer.
Assim, conforme esse autor, o complemento relativo distingue-se do objeto indireto pelo fato de não designar a pessoa ou a coisa à qual se destina a ação descrita no verbo, sendo, assim, o beneficiário da ação, e de não poder ser substituído, na 3ª pessoa, pelo pronome lhe(s).
2.2. Tratamento dado ao tema em gramáticas de linguistas
2.2.1 Bechara (2009)
Em sua gramática, Bechara (2009, p. 344) dedica uma seção sobre o predicado complexo. Para o autor,
O predicado complexo também pode conter verbo cujo conteúdo léxico é de grande extensão semântica, que exige outro tipo de signo léxico que delimite e especifique a experiência comunicada, à semelhança do que vimos com o complemento direto. A diferença é que neste segundo caso o determinante do predicado complexo vem introduzido por preposição. A tal termo preposicionado chamamos complemento relativo. [Grifos do autor].
A respeito da preposição entre o verbo e seu complemento, Bechara afirma que ela constitui uma extensão do signo léxico verbal. Para o autor, a relação entre a preposição e o verbo que ela acompanha se dá por meio de uma espécie de servidão gramatical.
Esse entendimento parece coadunar-se com o de Rocha Lima, apresentado anteriormente, para quem o complemento relativo é um tipo de
“objeto direto”, uma vez que a preposição é parte da natureza oblíqua do verbo, e não de seu complemento. Por esse raciocínio, pode-se representar a sequência verbo e complemento relativo conforme a seguinte análise: assistir a
| o jogo; namorar com | a filha do vizinho; gostar de | filmes românticos;
acreditar em | fantasmas.5
Bechara esclarece, ainda: “A escolha de qual preposição deva introduzir este complemento relativo depende da norma estabelecida pela tradição,
5 Na seção de análise, essa questão será retomada para discussão.
tradição que pode permitir, às vezes, o emprego variado e indiferente de mais de uma preposição.” (idem, p. 345).
2.2.2 Azeredo (2009)
Azeredo (2009) também utiliza o conceito de verbo transitivo relativo, mas acrescenta uma nova categoria diferente da apresentada por Rocha Lima:
o verbo transitivo birrelativo. Incluem-se nessa categoria verbos como queixar- se (de algo a alguém), desculpar-se (a alguém de/por algo) e similares.6
Primeiramente, esse autor propõe a ideia de verbos transitivos relativos, cuja ligação com o complemento é mediada por uma preposição. Cabe ressaltar que, para Azeredo, as preposições são esvaziadas de sentido, sendo enfraquecidas do ponto de vista do sentido, o que ocorre por exigência do verbo transitivo oblíquo. O autor (idem, p. 217) assinala que:
O esvaziamento semântico dessas preposições tem favorecido o desaparecimento delas junto a alguns verbos de uso frequente na fala ordinária: os seguidos de a, que os tornam transitivos direto (…). É importante enfatizar que essas preposições não contribuem para a relação de sentido entre o verbo e o complemento; a função delas é meramente conectiva, e sua supressão diante do que pode ser explicado como “redundância conectiva” da sequência ‘preposição + conjunção/ pronome relativo”.
Além da observação sobre o uso da preposição, Azeredo coloca os verbos transitivos diretos e os relativos na mesma categoria, dividindo-os verbos em 5 subconjuntos: (i) verbos denotadores de uma ação que culminam num resultado; (ii) verbos que se referem a uma entidade cuja parte da constituição interna seja divisível em partes; (iii) verbos cujos complementos são um substantivo ou um pronome referente a seres humanos e uma oração geralmente sob forma infinitiva; (iv) verbos que expressam a intenção em monitorar o comportamento de alguém; (v) verbos heterogêneos, que não apresentam um traço semântico comum.
2.2.3 Castilho (2012)
6 A construção com esse tipo de verbo não constitui objeto de exame neste trabalho.
Castilho (2012) traz a noção de transitividade ligada à constituição de predicados. Esses predicados podem selecionar de zero a três argumentos – um externo e outro(s) interno(s) –, aos quais atribui caso e papel temático. Tais casos e papéis argumentais associam-se, por sua vez, às funções sintáticas de sujeito e complemento(s). Essa abordagem ecoa, em parte, trabalhos de pesquisadores como Givón (1990), Goldberg (1995), Camacho (1999) e Franchi e Cançado (2003) sobre estrutura argumental e papéis temáticos.
No caso dos predicados com complementos preposicionados (um SP), o autor reconhece sua complexidade e as diferentes perspectivas sobre eles.
Com isso em vista, assinala, ainda, as distinções terminológicas dos complementos, decorrentes dessas diferenças: objeto indireto, complemento relativo/oblíquo, complemento circunstancial.
Em seu estudo, o autor distingue o verbo transitivo indireto do transitivo oblíquo (ou relativo), separando, assim, o OI do CR, que ele prefere chamar de complemento oblíquo (CO). Nesse sentido, adota o mesmo termo encontrado em Mateus et al. (2003)7.
Para Castilho, as sequências formadas por V + SP encerram uma cadeia de transitividade, pois o verbo, seleciona uma preposição, e esta seleciona um sintagma nominal como seu complementizador, constituindo com ele o SP.
Nessa direção, o autor considera o CO uma extensão do verbo, ocorrendo como argumento interno único na sentença ou juntamente com o objeto direto.
Pode receber os papéis temáticos de locativo, origem, alvo ou comitativo.
2.2.4 Bagno (2012)
Bagno (2012, p. 516), ao tratar de transitividade verbal, afirma o seguinte:
Quanto às classificações tradicionais da transitividade verbal, elas se referem, como sabemos, ao tipo de complemento que é acionado pela semântica do verbo, ou, no caso dos intransitivos, pela não necessidade de complemento. No entanto, como sempre, é o contexto discursivo que vai determinar o caráter transitivo e/ou intransitivo de um verbo.
7 No caso de Mateus et al. (2003), o objeto indireto é denominado objeto dativo.
No tópico sobre complementos verbais, o autor traz uma discussão em relação ao objeto indireto e ao complemento relativo/oblíquo. Bagno informa que alguns estudiosos contemporâneos chamam de OI apenas complementos que trazem o traço semântico beneficiário, introduzido pelas preposições a ou para, sendo os demais casos considerados como complemento relativo, conforme entendido por Bechara (2009).
Ainda segundo o linguista, a regência verbal se gramaticalizou ao ponto de a unidade verbo + preposição constituírem uma unidade léxico-gramatical.
Nesse caso, o verbo exige uma preposição, conforme a ideia de servidão gramatical apresentada por Bechara.
2.3 Estudos no campo da Linguística
2.3.1 Souza (2011)
Souza (2011) busca contrastar as teorias gramaticais tradicionais sobre transitividade e complementos com outras perspectivas que, para ele, são mais coerentes. Esse autor adota as concepções de transitividade com base em estudos de gramáticos e linguistas, entre eles, Bechara, Cunha e Cintra, Rocha Lima, Azeredo e Vilela.
Após reflexões sobre o que esses autores dizem, Souza (2011, p. 7) pondera:
A transitividade verbal é geralmente estudada em seu aspecto semântico e relacional, isto é, um verbo é chamado intransitivo por seu conteúdo léxico não exigir a presença de um outro termo que lhe complete o sentido; por outro lado, o verbo transitivo, sendo aquele cujo conteúdo léxico necessita de receber um termo que o complete, é classificado pela teoria tradicional de acordo com o tipo de relação estabelecida entre ele e o complemento: direto, sem “auxílio” de preposição;
indireto, com “auxílio” de preposição. [...] É possível verificar, em estudos diferenciados, a inserção do verbo transitivo
“relativo” e do verbo transitivo circunstancial.
Em relação ao complemento relativo, o autor assinala que, para a gramática tradicional, a preposição aparece somente por uma questão de servidão gramatical, não acrescentando nada ao sentido da oração. Para Souza, entretanto, a preposição pode, sim, expressar algum significado, não devendo, por isso, ser vista como mero elemento relacionador.
Assim, alinhado a Rocha Lima, Bechara, Azeredo e Vilela, Souza defende a distinção entre OI, CR/CO e CC. Como o autor, em seu artigo, demonstra preocupação com o ensino de português segundo a tradição gramatical, argumenta que considerar as diferenças entre esses termos é de suma importância para que o aluno tenha uma melhor compreensão sobre a língua.
2.3.2 Jarnalo (2014)
O objetivo de Jarnalo (2014) é examinar a diferença entre objeto indireto e complemento oblíquo, ou relativo, proposta por Rocha Lima, Bechara e Castilho em confronto com o tratamento dado em Cunha e Cintra. Depois, busca aproximar esse tratamento do Programa Minimalista conforme proposto por Hornstein, Nunes e Grohmann (2005).
Jarnalo conclui que os complementos OI e OBL/REL são, de fato, duas funções sintáticas distintas e, assim sendo, devem representar estruturas sintáticas diversas. Defende, ainda, que o OI e o CO/CR expressam diferentes formas de vinculação ao verbo.
A autora apresenta o seguinte quadro, resumindo e, ao mesmo tempo, contrastando o entendimento dos autores abordados sobre o CR/CO.
Quadro 1: Caracterização do complemento relativo/oblíquo
Gramáticas Rocha Lima (2011) Bechara (2009) Castilho (2012)
Características
Corresponde a preposição + ele(s), ela(s)
Comutável por preposição + ele(s), ela(s) ou por
advérbios locativos, situativos e direcionais
Comutável por pronome advérbio dêitico ou por
preposição + pronome Encabeçado pelas
preposições a, com, de, em, etc.
A preposição que o introduz constitui uma extensão do signo léxico verbal
Preenchido por um SP nucleado por de, em, com, a e para
Quase nunca coexiste com OD na sentença
Ocorre como argumento interno único na sentença ou com OD
Denota, como o OD, o ser sobre o qual recai a ação
Verbos locativos, situativos e direcionais
Recebe papéis temáticos de locativo, origem, alvo ou comitativo Fonte: Jarnalo (2014, p. 13).
2.3.1 Lerner (2015)
Lerner (2015) procura analisar a discrepância entre os gramáticos a respeito do sintagma preposicional tanto na função de complemento verbal como na de complemento nominal, considerando, ainda, casos ambíguos e/ou duvidosos entre a complementação e a adjunção. A autora faz um apanhado daquilo que Rocha Lima, Bechara, Azeredo e Bagno entendem sobre esses casos, tratando, também das distinções entre objeto indireto, complemento relativo e complemento circunstancial feitas por esses estudiosos.
Do mesmo modo que Souza (2011), Lerner também se preocupa com o ensino de português baseado na visão tradicional. Nessa direção, defende que as questões que ela aborda em seu trabalho sejam objeto de discussão em sala de aula, a fim de que o ensino de língua tenha uma abordagem mais problematizadora e reflexiva.
Por fim, apenas a título de registro, cabe mencionar o trabalho de Romero e Vilela (2020)8 sobre o ODP com a preposição com. Trata-se de uma discussão assinalando as distinções entre casos como cumprir o dever/cumprir com o dever, em relação aos quais, segundo as autoras, devem ser consideradas não apenas diferenças semânticas mas também enunciativas.
Conforme se vê nessa breve exposição de estudos sobre transitividade verbal, em particular, a que se expressa pela complementação do significado do verbo mediante um SP, há diversidade de perspectivas. Apesar de fornecerem alguma contribuição para o trabalho aqui desenvolvido, ainda deixam em aberto questões que se pretende explorar na análise a ser empreendida em relação à transitividade relativa/oblíqua.
8 Por não ter relação direta com o objeto da pesquisa em foco (a transitividade verbal relativa/oblíqua/), não foi reservado um subtópico específico para o trabalho das autoras.
3. LINGUÍSTICA FUNCIONAL CENTRADA NO USO
Esta seção apresenta, em primeiro lugar, um breve panorama do modelo teórico-metodológico que dá suporte a este trabalho, a saber, a Linguística Funcional Centrada no Uso (LFCU) em seu viés construcionista. Na sequência, explana alguns conceitos operacionais que servem como ferramentas para análise do objeto de estudo em foco.
3.1. Caracterização geral
Segundo Furtado da Cunha, Bispo e Silva (2013), Linguística Funcional Centrada no Uso (LFCU) é o rótulo específico utilizado por linguistas brasileiros – mais particularmente do grupo de estudos Discurso e Gramática – para designar o que se denomina Usage-based Linguistics, um recente ramo do funcionalismo linguístico norte-americano aliado à Linguística Cognitiva, especialmente em sua vertente da Gramática de Construções. A LFCU, oriunda da longa tradição de estudos tipológicos e sobre mudança linguística (ou Gramaticalização), que caracterizou o Funcionalismo praticado por Talmy Givón, Paul Hopper, Joan Bybee, Elizabeth Traugott e outros, passa agora a incorporar em sua abordagem a noção de construção como constituindo a unidade básica da língua.
Entre os princípios básicos da LFCU, estão a ideia de que (KEMMER;
BARLOW, 2002; FORD; FOX; THOMPSON, 2003; BECKNER et al., 2009):
(i) a língua é um sistema adaptativo complexo, regulada pelo uso que dela se faz;
(ii) a língua é constituída por uma rede de construções interconectadas e hierarquizadas por meio de elos (links) de relações verticais e horizontais;
(iii) fatores internos e, sobretudo, externos (cognitivos e sociocomunicativos) são responsáveis pela emergência, fixação, variação e mudança dos padrões linguísticos;
(iv) léxico e gramática constituem um continuum gradiente, não havendo nenhum componente central em relação aos demais planos da língua;
(v) a língua deve ser examinada com base em dados do discurso natural.
3.2 Conceitos operacionais 3.2.1 Construção: noções gerais
De acordo com Goldberg (1995), construção designa o pareamento simbólico e convencional entre forma e função na língua. Nesse sentido, a construção é um padrão linguístico abstrato, resultante de processos indutivos dos falantes por meio de usos recorrentes em situações de interação verbal.
Conforme a proposta de Croft (2001), no polo da forma, estão presentes propriedades fonológicas, morfológicas e sintáticas; no da função, propriedades semânticas, discursivas e pragmáticas. O quadro a seguir ilustra esse entendimento:
Quadro 2: Pareamento simbólico da construção.
Construção Forma
Elo de relações simbólicas
do pareamento forma-função
Função Propriedades
fonológicas, morfológicas
e sintáticas
Propriedades semânticas,
discursivas e pragmáticas Fonte: Adaptado de Croft (2001).
A noção de construção aplica-se desde o plano do morfema até unidades maiores do que a palavra, como sentenças e gêneros discursivos, abarcando uma representação uniforme de todos os níveis que formam o conhecimento linguístico (ÖSTMAN, 2005). Para Fried (2015), tanto as construções lexicais como as gramaticais podem ser completamente não especificadas (ou totalmente esquemáticas), constituindo construções abertas, como é o caso da construção transitiva direta SN1 V SN2; inteiramente especificadas e parcialmente flexíveis, como, por exemplo, a expressão idiomática Ir pentear macaco, que tem o primeiro verbo variável; parcialmente preenchidas, tal como a construção adjetival N-oso; ou totalmente especificadas, isto é, construções idiossincráticas, como o ditado popular Filho de peixe peixinho é.
De acordo com Traugott e Trousdale (2013), em relação à construção, três são as propriedades que a caracterizam: esquematicidade, produtividade e
composicionalidade. São propriedades que permitem aferir o grau quanto à especificidade, diversificação, transparência forma-função, analisabilidade, entre outros aspectos, de uma construção. Esquemas são generalizações taxonômicas que apontam para padrões de experiência rotinizados. São abstrações inconscientemente percebidas pelos falantes.
Esquematicidade diz respeito, então, a quanto uma construção (em suas propriedades formais e funcionais) é geral e aberta ou específica, devendo ser considerada em um continuum. Está relacionada com o grau em que uma construção captura padrões mais gerais em uma série de construções mais especificadas (TRAUGOTT; TROUSDALE, 2013). Portanto, generalidade, virtualidade e (in)especificidade são noções relativas a esse parâmetro.
Produtividade também é um fenômeno gradiente, a qual se refere à extensão e à frequência com que novas instâncias (ou types) de um esquema construcional emergem. Diz respeito, ainda conforme Traugott e Trousdale (2013), ao grau em que os esquemas sancionam outras construções menos esquemáticas e ao grau em que tais esquemas são restringidos, atuando, assim, no nível da potencialidade esquemática. Aumento na frequência de uso corresponde a aumento na frequência do construto (ou token), que tem a ver com a quantidade de vezes em que a mesma unidade ocorre no texto.
Esses processos estão relacionados ao que Bybee (2010) denomina frequência de type (type frequency), que tem a ver com a produtividade de uma construção. Nessa perspectiva, o aumento da classe hospedeira9 de uma construção permite o surgimento de novos types construcionais, que representam instanciações menos esquemáticas e mais especificadas dessa construção.
Composicionalidade refere-se ao grau de transparência entre forma e significado no nível da construção (TRAUGOTT; TROUSDALE, 2013). Há a composicionalidade semântica e a composicionalidade sintática. A primeira diz respeito à soma dos significados das partes. Uma construção é mais composicional em termos semânticos quando o significado das partes ainda é
9 Conforme Himmelmann (2004), aumento da classe hospedeira (host class) refere-se ao processo de expansão de contexto de uma dada categoria linguística, resultando na ampliação paradigmática de seus membros. Esse processo ocorre mediante a mudança de contexto semântico-pragmático, com ressemantização dos itens envolvidos, e a mudança de contexto sintático, com rearranjo na ordem dos constituintes.
recuperado no significado do todo. A segunda refere-se ao nível de integridade morfossintática das subpartes, no sentido de que, quanto mais composicional, mais essas subpartes retêm as propriedades gramaticais de sua categoria fonte.
Portanto, nos termos de Traugott e Trousdale (2013), uma construção superordenada, de esquema genérico, envolve a combinação de outros diferentes (sub)tipos de construções (subesquemas), os quais podem, individualmente, ser instanciados por microconstruções, cada uma com suas particularidades formais e sem necessária coincidência semântica entre si.
Essas virtualidades (micro)construcionais são realizadas no discurso por meio de construtos, isto é, sua expressão concreta (falada ou escrita). Tais relações vão representadas no quadro a seguir:
Quadro 3: Rede esquemática de uma construção.
Fonte: Autoria própria.
Tratando das relações entre construções, Goldberg (1995) postula haver links de herança entre elas. Dividem-se em quatro tipos: polissemia, metáfora, subparte e instanciação.
O link de polissemia tem a ver com o fato de uma dada construção apresentar o mesmo template formal de outra, mas diferir relativamente desta em termos semânticos. Um exemplo disso é a construção transitiva Eu esqueci a carta (SujExp VCog ObjTema), que se associa esquematicamente à sua “co-irmã”
mais prototípica Eu rasguei a carta (SujAg VAção ObjPac), mas não possui a mesma correspondência quanto aos papéis temáticos dos componentes.
O de metáfora revela extensão de sentido em um ou mais componentes de uma construção. Em Ela entrou em depressão, por exemplo, entrar é
conceptualizado metaforicamente como movimento para dentro realizado por um trajetor e depressão como local, ou contêiner.
O de subparte se estabelece quando uma construção exibe uma configuração parcial de outra, mas tem existência própria e independente de sua matriz. Isso pode ser exemplificado com a construção ergativa A porta abriu, que é parte da construção transitiva direta Alguém/Algo abriu a porta.
O de instanciação se mostra no fato de uma construção constituir-se como um caso ad hoc de outra. Por exemplo, uma construção intransitiva pode, eventualmente, apresentar-se como sintaticamente “transitiva”, conforme se vê em Ele chorou a perda do filho (SN1 V SN2). Nesse caso, chorar participa de uma construção de moldura transitiva embora ela não corresponda, de fato, ao protótipo dessa construção, que tem o objeto afetado pela ação do sujeito.
Goldberg (idem) apresenta, ainda, o link de herança múltipla. É quando uma construção herda propriedades de construções diversas. Esse fenômeno pode ser observado, por exemplo, na sentença A senhora ainda não foi atendida?, a qual herda propriedades da construção interrogativa, da negativa e da passiva.
Dado que a língua se modifica, no plano da forma e/ou no da função, motivada por pressões internas (estruturais) e, sobretudo, externas (cognitivas e/ou sociocomunicativas), uma das noções fundamentais na LFCU é a de variação construcional. Essa noção, que tem nos estudos sociolinguísticos destaque privilegiado sob o rótulo de variação linguística, diz respeito ao fato de, em um determinado estágio sincrônico, haver domínios funcionais na língua que podem ser codificados por formas distintas (HOPPER; TRAUGOTT, 2003;
BYBEE, 2010). Trata-se de formas em competição ou em distribuição complementar, conforme DuBois (1985).
Abordando esse fenômeno sob viés construcionista, Goldberg (1995) formula o princípio da não sinonímia, segundo o qual se duas formas são divergentes uma da outra, elas também devem divergir em termos semânticos ou pragmáticos. Ou seja, duas construções aparentadas que se apresentam formalmente distintas, embora tenham o mesmo conteúdo, não possuem a mesma funcionalidade discursivo-interacional.
Com base nessa questão, Cappelle (2006) propõe os conceitos de construtema e aloconstrução. O primeiro refere-se a um pareamento
superodenado com o mesmo valor semântico, porém formalmente pouco especificado; o segundo diz respeito a formas sutilmente distintas, porém mais especificadas, que instanciam o construtema. Para a adoção dessa terminologia, Cappelle toma como referência as distinções entre fonema e alofone, na Fonologia, e entre morfema e alomorfe, na Morfologia. Essa mesma visão é seguida por Perek (2015).
A esse respeito, consideremos casos variantes como (i) Vou ao/no supermercado e (ii) Assistimos (a)o filme. Em (i), a variação entre ir a e ir em, segundo Araújo e Rocha (2011) é uma questão de perspectivização do evento:
enquanto ir a focaliza a direção, ir em focaliza o local de chegada, o qual é visto como um contêiner. Já em (ii), assistir a, focaliza o filme como se fosse o alvo da ação, ao passo que assistir (sem Prep) focaliza o filme apenas como objeto-tema. Ainda conforme esses autores, outra diferença marcante, além da perspectiva diversa sobre os eventos, refere-se ao registro linguístico: as duas primeiras formas em (i) e (ii) são de caráter mais formal, indiciando uma situação de discurso mais monitorado e um locutor com certo grau de escolaridade; as segundas assinalam uma linguagem mais coloquial/comum em um contexto menos monitorado e, provavelmente, por um falante menos escolarizado.
Em termos formais, ambas as construções podem ser representadas conforme o que segue:
Quadro 4: Construtemas e aloconstruções.
Fonte: Autoria própria.
Cappelle (idem) assinala, ainda, que, em casos assim, estabelecem-se links de relações tanto verticais, ou taxonômicos (entre o construtema e suas instanciações aloconstrucionais), quanto horizontais (entre as aloconstruções), uma vez que estes se dão em um estágio sincrônico de língua.
3.2.2 Categorização e prototipicidade
A categorização é um processo cognitivo de domínio geral relativo ao fato de categorizarmos e organizarmos os seres/objetos do mundo em que vivemos de acordo com suas semelhanças, a partir das nossas experiências.
De acordo com Bybee (2010), a categorização permite a formação de redes de experiências que possibilitam que categorias exemplares (em vários domínios) apresentem efeitos prototípicos. Tais categorias são, assim, chamadas de protótipos, os quais constituem os membros centrais mais representativos em um continuum categorial.
O principal estudo feito sobre categorização/prototipia é o de Eleonor Rosch na década de 70. A autora fez um estudo com as cores no dinamarquês, operando com as noções de cores focais e não focais. A um grupo foram ensinados nomes arbitrários para cores não focais e a outro, nomes de cores focais. O grupo que trabalhou com cores focais saiu-se muito melhor devido ao fato de que as cores focais apresentam um certo padrão prototípico, facilitando assim sua categorização.
Esse e vários outros estudos foram feitos, mostrando que as categorias possuem membros mais prototípicos. Uma ilustração disso se dá com a categoria ave, por exemplo: um membro como pardal é muito mais representativo do protótipo, visto que reúne um conjunto de propriedades mais centrais e recorrentes dessa categoria, do que pinguim, o qual apresenta menos propriedades definidoras da categoria (entre elas, a de não voar). A categorização e a prototipia, contudo, não residem nesses fatores em si mesmos, mas dependem da experiência humana no contato com o mundo e no armazenamento de informação (input) via interação social e o acionamento de mecanismos/processos cognitivos.
Para Duque e Costa (2012), a capacidade humana de armazenar conhecimento acerca das experiências de mundo possibilita um conhecimento prévio das situações, o que permite maior economia cognitiva no reconhecimento e na seleção daquilo que é mais recorrente e do que pode ser inferido. Assim, nossa capacidade de reconhecimento das situações está fortemente relacionada à capacidade humana de categorizar e de organizar o conhecimento sociocultural estocado.
Assim entendida, transferimos esse modo de estocagem e organização cognitivas para a língua (TAYLOR, 1995). Ou seja, as unidades linguísticas
são, igualmente, definidas em categorias e, para Bybee (2010), estas formam a base do sistema linguístico.
Conforme Furtado da Cunha, Bispo e Silva (2013), a categorização linguística também ocorre por relações de identidade/semelhança entre componentes linguísticos quando estes são reconhecidos e associados a representações armazenadas. Do mesmo modo que em outros domínios, na língua, os elementos são estocados em termos de um continuum categorial, com membros mais centrais, membros mais periféricos e outros fronteiriços, de categorização mesclada/difusa. Um exemplo para isso é a categoria adjetivo:
um membro como lindo é considerado mais prototípico do que trabalhador ou moído.
Langacker (2008) defende a importância da categorização para a regularidade da língua. Segundo ele, sem categorização, não podemos discernir padrões ou regularidades, uma vez que estes envolvem a recorrência da configuração do que é igual/similar. Quanto a isso, Bybee (2010) destaca a importância da frequência de ocorrência para a formação de novas categorias.
Para ela, aqueles itens mais frequentes podem ter papel fundamental na formação de novos itens.
Para demonstrar a relação desses conceitos com o objeto de estudo sob exame, vejamos os seguintes dados:
(1) [...] aí ficou com o gato... mas só que o gato num... num... num estranhava... só se dava bem com as crianças… (CD&G Natal, p. 5).
(2) [...] era só farofa... aí eu disse ... “fiquei com outra pessoa”... aí ele fez... “eu não acredito... (CD&G Natal, p. 106 ).
Em (1), ficou com o gato tem sentido mais básico, pois ficar significa permanecer em algum lugar (acepção espacial/situativa) e o adjunto com o gato designa em companhia (de alguém/algo), i.e., de teor comitativo (Com).
Portanto, nesse caso, o verbo enquadra-se na categoria dos locativos com significado mais “concreto”, podendo ser considerado mais prototípico. Em (2), fiquei com outra pessoa não pode ter a mesma interpretação de (1), pois ficar forma com a preposição com um todo semântico diverso, significando ter um
relacionamento amoroso (com alguém). Com isso, exibe conteúdo mais abstrato, em que a noção espacial fica bastante opaca e periférica, afastando- se, assim, do protótipo categorial, de caráter eminentemente locativo.
3.2.3 Frame e MCI
De acordo com Ferrari (2014, p. 50), “O termo Frame designa um sistema estruturado de conhecimento, armazenado na memória de longo prazo e organizado a partir da esquematização da experiência.” Segundo a autora, o frame tem como base nossas experiências corpóreas e culturais, daí por que muitos frames divergem de um grupo social para outro. Um exemplo disso é o frame casamento, o qual, muito provavelmente, tem um enquadre conceptual para um brasileiro diverso do que tem um nativo da polinésia, em razão de diferenças em aspectos legais, no ritual religioso, na festa comemorativa, entre outras.
Para Morato (2010), frame envolve estruturas conceituais diversas, abarcando tanto a memória semântica, ou de longo prazo (esquemas imagéticos, enquadres culturais, scripts etc.), quanto a episódica, relacionada à interação linguístico-discursiva (GIVÓN, 1998). Nesse sentido, frame também pode ser associado à moldura semântica que descreve a conceitualização de como um/a evento/situação, a qual é convencionalmente codificada por meio de um determinado padrão sintático (no caso, uma construção), conforme abordagem em Goldberg (1998). Assim, uma cena transitiva, por exemplo, evoca, prototipicamente, uma estrutura sintática correspondente que inclui, pelo menos, dois participantes, além do verbo envolvido no evento.
Lakoff (1987) associou a ideia de frame ao processo de categorização.
Essa associação resultou no que ele denomina como de Modelos Cognitivos Idealizados (MCI). O autor considera os MCI como sendo a ferramenta pela qual as pessoas entendem o mundo. Eles são utilizados como forma de organização do conhecimento humano, de modo que cada MCI é uma estrutura conceitual complexa. Ainda de acordo com Lakoff, os MCI dividem-se em quatro tipos: esquemas de imagem, mapeamento metafórico, mapeamento metonímico e estruturas proposicionais.