3.2. Conceitos operacionais
3.2.4 Metáfora e Metonímia
De acordo com Lakoff e Johnson (1980), nosso sistema conceptual é, por natureza, metafórico. Isso significa que nós compreendemos e experienciamos uma coisa em termos de outra.
Para esses autores, metáfora diz respeito à projeção de sentido entre domínios distintos. Nessa perspectiva, um domínio – chamado fonte –, muitas vezes, de base conceitual mais “concreta”, projeta aspectos de seu significado em outro domínio – denominado alvo –, de natureza mais abstrata, de sorte que este é compreendido em termos daquele.
Um exemplo disso dado pelo autor é nosso entendimento de discussão como guerra. Assim como na guerra existe uma disputa entre adversários, os quais utilizam instrumentos de ataque (armas) e de defesa para vencer o outro, a discussão é conceitualizada como um embate de opiniões em que os argumentos – e, às vezes, ofensas – são utilizados como “armas” para atacar e defender um ponto de vista e lograr êxito. Daí por que, nesse caso, recorre-se a termos como atacar, defender, derrubar, vencer, entre outros ligados ao domínio bélico. Portanto, o domínio alvo discussão é conceitualizado em termos do domínio fonte guerra, visto que propriedades semânticas deste, que é mais vinculado à concretude, é projetado naquele, de caráter abstrato.
Conforme Bybee (2010), o processo de metaforização se dá mediante analogização – também vinculada às capacidades cognitivas gerais –, a qual se refere ao mecanismo de associação entre domínios conceituais pelo fato de
estes compartilharem determinadas propriedades que os tornam, em alguma medida, “similares”. Com isso, um conceito de significado mais básico vinculado à concretude pode projetar parte de seu conteúdo em outro mais abstrato, resultando em extensão de significado (TRAUGOTT; TROUSDALE, 2013).
Lakoff e Johnson(1980) apresenta três tipos de metáforas: o primeiro são as chamadas metáforas estruturais, que ocorrem quando estruturamos um conceito em termos de outro, tal como visto no parágrafo anterior com discussão é uma guerra; o segundo são as metáforas orientacionais, que, ao contrário das primeiras, não organizam um conceito, mas todo um sistema de conceitos em relação a outro. Um exemplo disso é que, para nós, o que é bom está para cima, e o que é ruim, para baixo. O terceiro tipo são as metáforas ontológicas que nos permitem concretizar algo abstrato em termos de uma entidade. O exemplo que Lakoff e Johnson (1980) nos fornecem é “Inflation is lowering our standard of living” (“A inflação está baixando nossa qualidade de vida”). Nesse caso, a inflação é “concretizada” como sendo uma entidade capaz de “realizar” uma ação.
Outro conceito fundamental apresentado por Lakoff (1987) é o de metonímia. Segundo o autor, assim como a metáfora, a metonímia constitui uma das bases da nossa cognição.
Entretanto, diferentemente da metáfora, a metonímia tem a ver com a relação de significado entre entidades pertencentes ao mesmo domínio conceitual. Desse modo, um conceito é entendido em termos de outro pelo fato de ambos compartilharem alguma contiguidade semântica: causa e efeito, contêiner e conteúdo, parte e todo, autor e obra, entre outros.
Um dos exemplos dados por Lakoff (1987, p. 79) é “O sanduíche de presunto acabou de derramar cerveja sobre si” [Tradução Nossa]. Aqui podemos ver um exemplo de metonímia no qual o sanduíche de presunto, na verdade, representa o cliente que fez o pedido dessa comida. A compreensão de um enunciado como esse é possível em razão da relação semântica contígua entre o “comedor” e sua comida, o que permite que esta seja referida/conceitualizada em lugar daquele.
De acordo com Taylor (1995), a metonímia está na base de muitas metáforas, desempenhando papel crucial para a estruturação destas. O autor
exemplifica isso com a relação contígua entre quantidade e altura. O raciocínio é que, ao acrescentarmos (quantitativamente) elementos em uma superfície, dispondo uns sobre os outros, vai-se formando uma pilha desses elementos, resultando em certa altura (em razão das coisas empilhadas). Tem-se, com isso, uma associação entre causa e efeito.
Segundo Taylor, essa relação metonímica é o que licencia a projeção metafórica da noção de quantidade na ideia de altura, permitindo expressões do tipo Os preços dos combustíveis subiram/estão nas alturas.
Ainda para esse autor – e outros como Croft e Cruse (2004) –, os modelos metafóricos e metonímicos podem ser relacionados às noções de categorização e frame, sendo fundamentais para a formação e o entendimento de estruturas linguísticas. Isso porque os processos de metaforização e de metonimização levam ao realinhamento categorial, uma vez que ocorre deslocamento de significado, resultando em recategorização e novo enquadre conceitual, o que afasta a categoria do protótipo. Nesses processos, é crucial o mecanismo da inferência pragmática (a ser explicitado mais adiante).
Para ilustrar esses fenômenos recorremos às amostras a seguir.
(5) […] o namoro da gente foi assim se defasando porque eu não podia sair com ele... sabe? minha mãe me prendia muito... (CD&G Natal, p. 105).
(6) [...] ela... assim na avenida... né? rodando bolsinha... aí eu sei que ela... ele parou... né? aí ela disse... “quer sair comigo?” num sei o quê... essas coisas... né? (CD&G Natal, p. 108).
O significado de sair em (5) refere-se a deslocamento a partir de um ponto; portanto, envolve a noção mais “concreta” de movimento em um determinado percurso espacial. O adjunto adverbial com ele indica a circunstância de companhia. Em (6), sair comigo exprime noção diferente da anterior, pois não se vincula primeiramente à ideia de se movimentar direcionalmente a partir de um local; em vez disso, designa ter um relacionamento amoroso/sexual com alguém (no caso, a locutora). Nesse sentido, sair com apresenta-se como um exemplar de extensão semântica de caráter ao mesmo tempo metonímico e metafórico. Isso porque, subjacente ao
sentido metafórico da expressão, identifica-se a noção metonímica de contiguidade entre o evento significado (caso amoroso/sexual) e o fato de este envolver o fato de um dos cônjuges ou mesmo ambos se deslocar(em) de sua(s) casa(s) para o encontro amoroso.