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CENTRO CULTURAL PARAÍSO TERRESTRE FILOSOFIA E MESSIAS

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CENTRO CULTURAL PARAÍSO TERRESTRE

FILOSOFIA E MESSIAS

04) SÓCRATES E PLATÃO

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3

ÍNDICE

Conhecimento geral sobre Platão 05

O sacrifício de Sócrates como resgate de verdades universais 19 Tensão insolúvel entre comunidade e espécie humana 20

Ambiguidade da verdadeira autoridade 23

A ideia do rei-filósofo é um contra-senso em si 24

A história do ocidente marcada pela dualidade de poderes 29

O estado islâmico e a Israel bíblica 31

A vivência plena da tensão entre a ordem humana e a divina

como caminho da realização humana 33

Sócrates, Platão e Aristóteles 38

O sistema das ciências como contribuição platônica 40 A dialética como forma de ascensão espiritual /

a necessária passagem para o mito 42

O mito de Er 44

O mundo sensível e o mundo das ideias ou formas 48

O 3º mundo / Deus como princípios universais eternos e

de validade absoluta 52

O mundo das formas como mundo intermediário 54

A gratidão pela herança deixada pela tradição 58

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5 Conhecimento geral sobre Platão

Platão (428 a.C. – 348 a.C.) foi um filósofo e matemático do período clássico da Grécia Antiga, autor de diversos diálogos filosóficos e fundador da Academia em Atenas, a primeira instituição de educação superior do mundo ocidental. Juntamente com seu mentor, Sócrates, e seu pupilo, Aristóteles, Platão ajudou a construir os alicerces da filosofia natural, da ciência e da filosofia ocidental. Era um racionalista, realista, idealista e dualista e a ele têm sido associadas muitas das ideias que inspiraram essas filosofias mais tarde.

Os itens a serem tratados são:

1. Vida: 1.1. Origem; 1.2. Infância e juventude; 1.3. Afastamento da política e primeira viagem; 1.4. Primeira viagem à Sicília; 1.5. Fundação da escola e ensino; 1.6. Segunda viagem à Sicília; 1.7. Terceira viagem à Sicília; 1.8. Velhice e morte.

2. Obra: 2.1. Tradição e autenticidade; 2.2. Forma literária. 3. Filosofia: 3.1. Teoria das Ideias; 3.2. Epistemologia; 3.3. Dialética; 3.4. Ética e justiça; 3.5. Conceitos: 3.5.1. Anima mundi; 3.5.2. Demiurgo.

4. Legado 1. Vida

1.1. Origem

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6 proeminentes na época da Tirania dos Trinta, a breve oligarquia que se seguiu sobre o colapso de Atenas no final da Guerra do Peloponeso (404–403 a.C). Aristão e Perictíone, além do próprio Platão, tiveram outros três filhos, estes foram Adimanto e Glaucão, e uma filha Potone, a mãe de Espeusipo (então o sobrinho e sucessor de Platão como chefe de sua Academia filosófica).

Aristão parece ter morrido na infância de Platão, embora a data exata de sua morte seja desconhecida. Perictíone então se casou com Perilampes, irmão de sua mãe que tinha servido muitas vezes como embaixador para a corte persa e era um amigo de Péricles, líder da facção democrática em Atenas.

Em contraste com a sua reticência sobre si mesmo, Platão muitas vezes introduziu seus ilustres parentes em seus diálogos, ou a eles referenciou com alguma precisão: Cármides tem um diálogo com o seu nome; Crítias fala tanto em Cármides quanto em Protágoras e Adimanto e Glaucão têm trechos importantes em A República. Estas e outras referências sugerem uma quantidade considerável de orgulho da família e nos permitem reconstruir a árvore genealógica de Platão. De acordo com Burnet, "a cena de abertura de Cármides é uma

glorificação de toda [família] ligação. Os diálogos de Platão não são apenas um memorial para Sócrates, mas também sobre os dias mais felizes de sua própria família."

1.2. Infância e juventude

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7 De acordo com Diógenes Laércio, o filósofo foi nomeado

Aristócles como seu avô, mas seu treinador de luta, Aristão de Argos, o

apelidou de Platon, que significa "grande", por conta de sua figura robusta. De acordo com as fontes mencionadas por Diógenes (todos datam do período alexandrino), Platão derivou seu nome a partir da "amplitude" (platytês) de sua eloquência, ou então, porque possuía a fronte (platýs) larga. Estudiosos recentes têm argumentado que a lenda sobre seu nome ser Aristocles originou-se no período helenístico.

Platão era um nome comum, dos quais 31 casos são conhecidos apenas

em Atenas. A juventude de Platão transcorreu em meio a agitações políticas e a desordens devido à Guerra do Peloponeso, à instabilidade política reinante na cidade de Atenas que foi tomada pela Oligarquia dos Quatrocentos e assim submeteu-se ao governo dos Trinta Tiranos.

Apuleio nos informa que Espeusipo elogiou a rapidez mental e a modéstia de Platão como os "primeiros frutos de sua juventude infundidos com muito trabalho e amor ao estudo". Platão deve ter sido instruído em gramática, música e ginástica pelos professores mais ilustres do seu tempo. Dicearco foi mais longe a ponto de dizer que Platão lutou nos jogos de Jogos Ístmicos. Platão também tinha frequentado cursos de filosofia, antes de conhecer Sócrates, primeiro ele se familiarizou com Crátilo (um discípulo de Heráclito, um proeminente filósofo grego pré-socrático) e as doutrinas de Heráclito. 1.3. Afastamento da política e primeira viagem

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8 Após o término da guerra em Atenas, cerca de 404, auxiliado pelo reinado espartano vitorioso, o terror da Tirania dos Trinta começou, o que incluía parentes de Platão: o primo e o irmão de sua mãe, Crítias e Cármides, participaram do governo, ele foi convidado a participar da vida política, mas recusou porque considerou o então regime criminoso. Mas, a situação política após a restauração da democracia ateniense em 403 também o desagradou, um ponto de viragem na vida de Platão foi a execução de Sócrates em 399, que o abalou profundamente, ele avaliou a ação do Estado contra seu professor, como uma expressão de depravação moral e evidência de um defeito fundamental no sistema político. Ele viu em Atenas a possibilidade e a necessidade de uma maior participação filosófica na vida política e tornou-se um crítico agudo. Essas experiências levaram-no a aprovar a demanda por um estado governado por filósofos.

Depois de 399, Platão foi para Megara com alguns outros socráticos, como hóspedes de Euclides (provavelmente para evitar possíveis perseguições que lhe poderiam sobrevir pelo fato de ter feito parte do círculo socrático). Diógenes Laércio conta "foi a Cirene, juntar-se a Teodoro, o matemático, depois à Itália, com os pitagóricos Filolau e Eurito. E daí para o Egito, avistar-se com os profetas, ele tinha decidido encontrar-se também com os magos, mas a guerras da Ásia o fez renunciar a isso", é posto em dúvida se Platão foi mesmo ao Egito, há evidências de que a estadia foi inventada no Egito, para aproximar Platão à tradição de sabedoria egípcia.

1.4. Primeira viagem à Sicília

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9 descreve seu envolvimento nos incidentes de seu amigo Dion de Siracusa e Dionísio I (o tirano de Siracusa), Platão esperava influenciar o tirano sobre o ideal do rei-filósofo (exposto em Górgias, anterior à sua viagem), mas logo entrou em conflito com o tirano e sua corte, mesmo assim cultivou grande amizade com Díon, parente do tirano, a quem pensou que este pudesse ser um discípulo capaz de se tornar um rei-filósofo. Dionísio I se irritou tanto com Platão a ponto de vendê-lo como escravo a um embaixador espartano de Egina, felizmente tendo sido resgatado por Anicérides de Cirene, que estava em Egina.

Estes relatos sobre a primeira estadia em Siracusa são em grande parte controversos, os historiadores tradicionais consideram os detalhes do encontro entre Platão e o tirano e posterior ruptura com ceticismo. Em todo caso, Platão teve contato com Dionísio e o resultado foi desfavorável para o filósofo já que sua sinceridade parece ter irritado o governante.

1.5. Fundação da escola e ensino

Depois de sua primeira viagem à Sicília, por volta de 388 a.C, aos 40 anos, decepcionado com o luxo e os costumes da corte de Dionísio I de Siracusa e de lá é expulso, Platão compra um ginásio perto de Colona, a nordeste de Atenas, nas vizinhanças de um bosque de oliveiras em homenagem ao herói Academo. Ele amplia a propriedade e constrói alojamentos para os estudantes.

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10 Durante duas décadas, Platão assumiu suas funções na Academia e escreveu, nesse período, os diálogos chamados "da maturidade": Fédon, Fedro, Banquete, Menexêno, Eutidemo, Crátilo; começou também a redação de A República.

1.6. Segunda viagem à Sicília

Em 366/367, com a morte de Dionísio e encorajado por Dion, Platão transmite a direção da Academia a Eudóxio e retorna à Sicília. O velho Dionísio morrera em 367, logo após ter sabido que sua peça O

resgate de Heitor, tinha recebido o primeiro prêmio no festival das

Lenaias em Atenas. Seu filho Dionísio II sucedeu-lhe o trono e Dion era seu conselheiro. Dion teve trabalho em convencer Platão a voltar para Siracusa, ele insistiu com argumentos como a paixão do jovem tirano pela filosofia e educação e que a morte do velho tirano poderia ser o "destino divino" necessário para que enfim se realizasse a felicidade de um povo livre sob boas leis. Platão por fim, embarcou em 366, para sua segunda viagem à Sicília.

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11 1.7. Terceira viagem à Sicília

Em 361 a.C, Platão viaja novamente para Siracusa com seus alunos Espeusipo e Xenócrates em um navio enviado por Dionísio II, numa tentativa final de pôr ordem às coisas. Passou quase um ano tentando elaborar algumas medidas práticas para unir os gregos da Sicília em face do perigo cartaginês. No final, a má vontade da facção conservadora provou ser um obstáculo insuperável. Platão conseguiu partir para Atenas em 360, não sem antes correr algum perigo de vida. Em seguida, Dion recuperou sua posição à força, mas apesar de advertências de Platão, mostrou-se um governante imprudente e acabou assassinado. Ainda assim, Platão incitou os seguidores de Dion a prosseguirem com a antiga política, mas os seus conselhos não foram ouvidos. O destino final da Sicília foi ser conquistada pelos estrangeiros, como Platão previra.

Platão escreveu sobre a morte de seu amigo comparando-o a um navegante que antecipa corretamente uma tempestade, mas subestima sua força de destruição: "que eram perversos os homens que o puseram por terra, ele sabia, mas não a extensão de sua ignorância, de sua depravação e avidez".

1.8. Velhice e morte

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12 academia passou a ser dirigida por Espeusipo forte simpatizante do aspecto matemático da filosofia de Platão.

2. Obra

Houve um período na Idade Média em que quase todas as suas obras eram desconhecidas, mas, antes disso e depois da redescoberta de seus textos (Petrarca no século XIV tinha um manuscrito de Platão), ele foi lido e tomado como ponto de referência.

2.1. Tradição e autenticidade

Todas as obras de Platão que eram conhecidas na antiguidade foram preservadas, com exceção da palestra sobre o bem, a partir do qual houve um pós-escrito de Aristóteles, se encontra perdida. Há também obras que foram distribuídas sob o nome de Platão, mas possivelmente ou definitivamente não são genuínas, elas também pertencem ao Corpus Platonicum (o conjunto das obras tradicionalmente atribuídas a Platão), apesar de sua falsidade ser reconhecida mesmo nos tempos antigos. Um total de 47 obras são reconhecidas por terem sido escritas por Platão ou para o qual ele tomado como o autor.

O Corpus platonicum é constituído de diálogos (incluindo Crítias de final inacabado), a Apologia de Sócrates, uma coleção de 13 cartas e uma coleção de definições, o Horoi. Fora do corpus há uma coleção de

dieresis, mais duas cartas, 32 epigramas e um fragmento de poema (7

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13 É importante notar que na Antiguidade, vários diálogos considerados como falsamente atribuídos a Platão eram considerados genuínos, e alguns desses fazem parte do Canon de Trásilo, um filósofo e astrólogo alexandrino que serviu na corte de Tibério. Trásilo organizou os Diálogos de modo sistemático em nove grupos, chamados de Tetralogias, cujos escritos foram aceites como de Platão.

2.2. Forma literária

Com exceção de Epístolas e Apologia todas as outras obras não foram escritas em forma de poemas didáticos ou tratados - como eram escritos a maioria dos escritos filosóficos, - mas em forma de diálogos, a

Apologia contém passagens ocasionais de diálogos, onde há um

personagem principal, Sócrates e diferentes interlocutores em debates filosóficos separados por inserções e discursos indiretos, digressões ou passagens mitológicas.

3. Filosofia

Para Reale, os três grandes pontos focais da filosofia de Platão são a Teoria das Ideias, dos Princípios e do Demiurgo. A obra Fédon engloba todo o quadro da metafísica platônica e enfatiza essas três teorias, mas Platão advertiu os leitores de sua obra sobre a dificuldade existente em compreendê-las.

3.1. Teoria das Ideias

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14 mundo material mutável conhecido por nós através da sensação. Em uma analogia de Reale, as coisas que captamos com os "olhos do corpo" são formas físicas, as coisas que captamos com os "olhos da alma" são as formas não-físicas; o ver da inteligência capta formas inteligíveis que são as essências puras. As Ideias são as essências eternas do bem, do belo etc. Para Platão há uma conexão metafísica entre a visão do olho da alma e o objeto em razão do qual tal visão não existe. Este "mais real do que o que vemos habitualmente" é descrito em sua Alegoria da caverna.

3.2. Epistemologia

Muitos têm interpretado que Platão afirma — e mesmo foi o primeiro a escrever — que conhecimento é crença verdadeira justificada, uma visão influente que informou o desenvolvimentos futuro da epistemologia. Esta interpretação é parcialmente baseada na leitura do Teeteto.

3.3. Dialética

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15 grande mistério por trás do comum mundo das aparências do cotidiano do homem."

3.4. Ética e justiça

Na República, Platão define a justiça como a vontade de um cidadão de exercer sua profissão e atingir seu nível pré-determinado e não interferir em outros assuntos. Para que a justiça tenha alguma validade, ela terá que ser uma virtude e, portando, contribuidora de modo constitutivo para a boa vida de quem é justo.

Na filosofia de Platão, é possível visualizar duas modalidades de justiça: uma, absoluta, e outra, relativa. A justiça relativa é a justiça humana que se espelha nos princípios da alma e tenta dela se aproximar. Platão situa a justiça humana como uma virtude indispensável à vida em comunidade, é ela que propicia a convivência harmônica e cooperativa entre os seres humanos em coletividade. 3.5. Conceitos

3.5.1. Anima mundi

Considerada por Platão como o princípio do cosmos e fonte de todas as almas individuais, o termo é um conceito cosmológico de uma alma compartilhada ou força regente do universo pela qual o pensamento divino pode se manifestar em leis que afetam a matéria. O termo foi criado por Platão pela primeira vez na obra República ou ainda na obra Timeu.

3.5.2. Demiurgo

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16 matéria caótica preexistente através da imitação de modelos eternos e perfeitos.]

O uso filosófico e o substantivo próprio derivam do diálogo

Timeu, a causa do universo, de acordo com a exigência de que tudo que

sofre transformação ou geração (genesis) sofre-a em virtude de uma causa. A meta perseguida pelo demiurgo platônico é o bem do universo que ele tenta construir. Este bem é recorrentemente descrito em termos de ordem, Platão descreve o demiurgo como uma figura neutra (não-dualista), indiferente ao bem ou ao mal.

4. Legado

Apesar de sua popularidade ter flutuado ao longo dos anos, as obras de Platão nunca ficaram sem leitores, desde o tempo em que foram escritas. O pensamento de Platão é muitas vezes comparado com a de seu aluno mais famoso, Aristóteles, cuja reputação, durante a Idade Média ocidental tão completamente eclipsada a de Platão que os filósofos escolásticos referiam-se a Aristóteles como "o Filósofo". No entanto, no Império Bizantino, o estudo de Platão continuou.

Os filósofos escolásticos medievais não tinham acesso à maioria das obras de Platão, nem o conhecimento de grego necessário para lê-los. Os escritos originais de Platão estavam essencialmente perdidos para a civilização ocidental, até que foram trazidos de Constantinopla no século de sua queda, por Gemisto. Acredita-se que Gemisto passou uma cópia dos diálogos platônicos para Cosme de Médici em 1438/39 durante o Conselho de Ferrara, quando foi chamado para unificar as Igrejas grega e latina e então foi transferido para Florença onde fez uma palestra sobre a relação e as diferenças de Platão e Aristóteles, Platão teria assim influenciado Cosme com seu entusiasmo.

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17 Platonistas (ver Al-Farabi, Avicena, Averróis, Hunayn ibn Ishaq). Muitos desses comentários sobre Platão foram traduzidos do árabe para o latim e, como tal, influenciou filósofos escolásticos medievais.

Filósofos ocidentais notáveis continuaram a recorrer à obra de Platão desde aquela época. A influência de Platão tem sido especialmente forte em matemática e ciências. Ele ajudou a fazer a distinção entre a matemática pura e a matemática aplicada, ampliando o fosso entre a "aritmética", agora chamada de teoria dos números e "logística", agora chamada de aritmética. Ele considerou logística como apropriado para homens de negócios enquanto os homens de guerra "devem aprender a arte de números ou ele não vai saber como reunir suas tropas", e a aritmética era apropriada para os filósofos "porque precisa emergir do mar de mudanças e lançar mão do verdadeiro ser".

Segundo Stephen Körner, o platonismo é "tendência natural do matemático", o que pode ser confirmado por nomes destacados de matemáticos que se reconhecem platônicos como Gottlob Frege, Bertrand Russell, A. N. Whitehead, Heinrich Scholz, Kurt Gödel, Alonzo Church, Georg Cantor etc. Partindo de Galileu, existe uma extensa tradição do platonismo fisicalista que vai até Werner Heisenberg, Roger Penrose, Frank Tipler, Stephen Hawking e muitos outros.

Gödel, responsável por alguns dos mais importantes resultados da lógica matemática do século XX, por exemplo, foi um platonista da velha escola, como Platão, Gödel acreditava na existência independente de formas matemáticas que ele identificou aos conceitos matemáticos, como os de conjuntos, número real etc.

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18 Hobbes considerou Platão como o melhor filósofo da Antiguidade clássica, pela razão de sua filosofia ter como ponto de partida ideias, enquanto que Aristóteles partia de palavras. Para Hobbes, Platão estaria apto a elaborar uma filosofia política por evitar conclusões falaciosas acerca do "o que é", "o que foi", "o que deveria ser".

No século XX, os metafísicos René Guénon e Frithjof Schuon, francês o primeiro e suíço-alemão o segundo, foram dois influentes autores que reelaboraram e atualizaram em linguagem contemporânea o pensamento universal e perene de Platão, por eles visto como um eminente representante da Filosofia Perene. Nos livros de ambos, como em A Crise do Mundo Moderno e O Reino da Quantidade, de Guénon, e

A Unidade Transcendente das Religiões, Forma e Substância nas Religiões e O Homem no Universo, de Schuon, as ideias de Platão são

expostas e discutidas em profundidade.

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19 O sacrifício de Sócrates como resgate de verdades universais

Mencionamos que a vida de Sócrates repete uma situação das tragédias gregas: a do sujeito que descobre uma lei que está para além da constituição da sociedade e, ao encarnar ou expressar essa lei, coloca-se em oposição à sociedade; esta, então, volta-se contra ele ao mesmo tempo em que reconhece, de algum modo, a sua superioridade. Tenho a impressão de que esse mecanismo teria que ser comparado à famosa teoria de René Girard sobre o bode expiatório  o sujeito que repentinamente é escolhido como o polo em torno do qual há a reunião das agressividades todas da sociedade. Ao voltar-se contra ele, restaura-se um senso pelo menos ilusório de solidariedade, de unanimidade, e, uma vez destruído, o bode expiatório se torna posteriormente objeto de culto.

Em parte, existe alguma coisa disso na vida de Sócrates. Aqueles que o matam, no mesmo instante já estão, de certo modo, reconhecendo em que quem vai sobreviver é Sócrates e não eles. A partir do instante que ele é morto, o destino, o futuro da filosofia estava assegurado. Ele inaugura uma nova modalidade de verdade cuja permanência, cuja durabilidade histórica é então assegurada pelo seu próprio sacrifício.

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20 coração do indivíduo, e não à coletividade como tal, arriscariam  como de fato sempre arriscam  ser engolfadas e submersas pela “verdade” socialmente admitida.

Tensão insolúvel entre comunidade e espécie humana

É claro que em hipótese alguma haverá uma solução para esse dilema. O ser humano carrega essa dualidade de modo estrutural e permanente. Por um lado, ele é um membro da coletividade, deve a ela a sua subsistência e os seus meios de expressão, seus meios de conhecimento  a começar pela própria língua. Não poderia dar nada disso a si mesmo. Então, nesse sentido, é um participante da verdade socialmente estabelecida e não teria sentido querer destruí-la ou voltar-se totalmente contra ela. Por outro lado, ele também tem, como indivíduo, meios de acesso a verdades que transcendem a órbita de consciência do grupo social ou da comunidade, e que, às vezes, se colocam acidentalmente ou temporariamente contra o dogma consagrado pela sociedade. Nesses momentos, o homem não pode abdicar nem de uma coisa nem de outra.

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21 verdade universal. Em última instância, é o projeto da paz perpétua de Kant, é o projeto da sociedade socialista, é o projeto da nova ordem mundial. Tudo isso são formas ilusórias de fuga a uma tensão que, longe ser um mal, é um demento [enlouqueço] constitutivo do ser humano.

Note que a tensão não é entre a coletividade e o indivíduo. Normalmente, quando se analisa isso, as pessoas equacionam assim: a coletividade de um lado, o indivíduo do outro, colocando sempre a coletividade como sinônimo da espécie humana. No entanto, bem analisadas as coisas, o representante da espécie humana não é a coletividade, mas sim o indivíduo. Ele [o indivíduo] se opõe à coletividade não enquanto indivíduo, mas enquanto representante da espécie humana, que, como tal, é capaz de alcançar certas verdades; estas, sendo universais, estão na escala da espécie humana como um todo, transcendendo infinitamente o círculo de uma comunidade em particular.

(22)

22 deduz a espécie, mas da espécie não se deduz o indivíduo. Eis por que o indivíduo humano, considerado como um todo, personifica, representa a totalidade da espécie humana melhor do que qualquer comunidade historicamente dada. [indivíduo é o representante da espécie humana].

Se você examinasse uma comunidade qualquer  por exemplo: a sociedade brasileira, a sociedade zulu ou a neozelandesa , de maneira alguma poderia deduzir as formas das outras sociedades historicamente existentes. Ao contrário, haverá entre estas várias formações sociais abismos e incompatibilidades que tornam uma até inimaginável e incompreensível nos termos da outra. Não existe a menor possibilidade da “intertradução” universal das culturas. Em cada uma há experiências, vivências, fatos, conhecimentos, sensações, imagens, etc., para as quais não se tem nenhum correspondente numa outra cultura determinada. Às vezes, só se pode conceder a ligação entre duas culturas através da mediação de uma terceira, de uma quarta, de uma quinta que se conheça. Para, num estudo antropológico, por exemplo, você compreender qualquer sociedade em particular que não seja a sua, já precisa ter conhecido muitas outras  e é somente através da mediação dessas várias que você chega a penetrar algo daquela em particular.

A constituição do indivíduo, longe de torná-lo um oposto dialético da espécie, faz dele, ao contrário, a própria espécie personificada. Onde houver um indivíduo humano vivente, tem-se toda a espécie humana representada fisicamente. Ele carrega em seu corpo os sinais de toda a herança da espécie humana.

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23 conservados em livros, microfilmes, CDs, etc., nem esta pode dizer que é um microcosmo no qual se contêm todas as outras. De certo modo, o desastre ou a farsa do multiculturalismo, hoje, já é um sinal disso.

Ambiguidade da verdadeira autoridade

Cada formação social tem certas limitações que ela não pode transcender de maneira alguma, mas que os indivíduos dentro dela podem. Por exemplo, nenhuma sociedade pode se gabar de ser tão sábia nas suas instituições e na sua constituição que possa dar conta de todas as diferenças entre todas as outras culturas, estejam ou não estejam representadas dentro dela pela presença de alguns indivíduos. No entanto, basta olhar qualquer desses grandes livros de história ou de antropologia  como livros do Frazer ou do Toynbee  para ver que um indivíduo humano é capaz de conter dentro de seu imaginário, de sua concepção do mundo, a quase totalidade das culturas e, de certo modo, transitar mais ou menos livremente entre todas.

Por outro lado, esse mesmo indivíduo, por mais que ele tivesse esta universalidade de visão, ainda estaria submetido às leis de sua própria coletividade; por mais amplo que fosse o seu horizonte de consciência, isto não lhe daria o direito de proclamar que sua autoridade individual bastaria para impugnar a autoridade da sociedade.

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24 autoridade intelectual ou cognitiva, ele teria que ser o tirano absoluto. Seria o representante da verdade universal e teria ao seu dispor a polícia, o aparato judicial, etc., e iria modelar todas as cabeças dos indivíduos de acordo com sua ideia. Acontece que esta mesma ideia é incompatível com as condições de aquisição da sabedoria, que supõe aquilo que dizia o apóstolo: “experimentai de tudo e ficai com o que é bom”. O próprio trajeto da busca da sabedoria implica tentativa e erro, implica uma liberdade, uma flexibilidade de conduta ao menos interior, que seria absolutamente incompatível com o governo do filósofo.

A ideia do rei-filósofo é um contra-senso em si

Se o filósofo se tornasse o governante absoluto, então naturalmente ele seria o último filósofo, não haveria mais filósofos daí por diante. Os homens todos, daí por diante, teriam que aceitar o conteúdo doutrinal, por assim dizer, da sabedoria já adquirida, sem poder adquirir essa sabedoria por si mesmos. Dito de outro modo, eles trocariam a conquista efetiva, real, existencial da sabedoria por uma espécie de resumo condensado da sabedoria em teses ou dogmas supostamente definitivos. Isto também é incompatível com a própria natureza da linguagem humana.

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25 seu conteúdo, a universalidade do conteúdo sapiencial que ela exprime, mas terá, por outro lado, as limitações semânticas daquela língua em particular tomada naquela sua específica fase histórica de desenvolvimento. É por isso mesmo que o filósofo governante, neste sentido, a ideia mesma do filósofo governante é um contra-senso em si. Uma coisa cujo próprio enunciado já é uma autocontradição não pode ser um ideal de maneira alguma. Se se enuncia um ideal que no mesmo instante em que é declarado já nega a si mesmo, isto é a mesma coisa que dizer que não é ideal de maneira alguma, é apenas palavras sem sentido. Veremos, então, toda essa problemática que já está enunciada sinteticamente na vida de Sócrates reaparecer como problema já dentro da filosofia de Platão. Esse mesmo problema do rei filósofo aparecerá dentro não só da filosofia de Platão, mas num episódio em particular de sua vida. É quando ele, inspirado por essa mesma teoria, tenta orientar uma revolução, um golpe num país vizinho, e o golpe fracassa e todos os conspiradores são assassinados ou presos. O próprio Platão é preso e vendido como escravo e resgatado, comprado por um aluno em uma feira.

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26 aceite esta morte como uma sentença justa, e sob certos aspectos até benéfica, mostram que, de antemão, ele já conhecia a falácia da teoria do rei-filósofo.

Este problema reaparecerá, agora desdobrado dialeticamente, na afirmação platônica da teoria do rei-filósofo, isto é, no sonho platônico do governo dos filósofos, e em seguida na sua negação por Aristóteles. Curiosamente, vê-se uma espécie de dialética invertida, porque há primeiro a síntese, depois a afirmação e depois a negação. Sócrates já era a solução do debate havido em torno do rei-filósofo entre Platão e Aristóteles. Vamos depois, na medida do possível, examinar mais detalhadamente o que ambos disseram a respeito, mas desde já é necessário saber que Platão realmente acreditava na teoria do rei-filósofo.

[Aluno: A forma como Sócrates morreu e Cristo também

influenciaram na história que foi contada depois. Se Sócrates não tivesse morrido da forma que morreu, a história teria sido contado diferente. Acho que é o conteúdo da obra dele que definiu um pouco a história que foi contada depois.]

(27)

27 vida e as palavras reproduzidas por outros. Ele nada deixou de próprio punho.

O fato de que tudo isso nos chegue através de testemunhos e não apenas de palavras, que nos chegue como relato de fatos e não como reprodução de escritos, isto é fundamental para essa história. Uma coisa é você discutir o que Platão achava disso ou daquilo, o que Aristóteles achava, e outra coisa é você discutir o que aconteceu efetivamente para fulano ou sicrano. É isso que vai dar a diferença. Sócrates efetivamente morreu. O que se passou de fato no episódio do julgamento e morte de Sócrates? Este é um episódio da história do Ocidente, tal como a morte de Cristo.

Toda a discussão que pode surgir daí não é de ordem doutrinal de maneira alguma, mas é a simples divergência quanto à maneira de narrar um fato. Quando São Paulo apóstolo diz, por exemplo, que “Aquele que diz que Cristo veio na carne é cristão, e quem nega isso não é cristão”, a divergência que ele está assinalando não é de doutrina, não é de uma teoria, mas quanto à maneira de narrar um fato. Uns dizem que o que aconteceu foi uma coisa, outros dizem que foi outra. Não são diferentes teorias em luta, mas diferentes narrativas em luta.

(28)

28 fato de certa maneira. Se você disser “Não é”, então é outro personagem a que está se referindo. O personagem não seria aquele alegado pelos evangelhos, mas seria outro que você descobriu.

Isso quer dizer que a vida de Sócrates contém já a resolução sintética daquilo que mais tarde aparecerá como divergência doutrinal. Existe uma teoria política de Platão e uma teoria política de Aristóteles. O que uma afirma a outra nega, mas sua síntese já estava dada não como doutrina, porém existencialmente, na vida de Sócrates. Ele já estava declarando aquilo mesmo que a tragédia grega já tinha declarado nos séculos anteriores: que a verdade universal impera sobre todas as eras e, por isso mesmo, ela não se realiza materialmente em época alguma.

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29 A história do ocidente marcada pela dualidade de poderes

[Aluno: O profeta não é a encarnação disso?]

[Profeta defenderia um tipo de verdade universal que é de todas as eras, contra a verdade historicamente localizada de cada uma dessas eras? Ele representaria uma eternidade dentro do tempo, uma verdade universal encarnada de maneira perfeita e acabada num tempo historicamente dado.]

Não exatamente, porque todo profeta se encaixa dentro do ciclo da profecia, todo profeta é um elo de uma cadeia.

[Aluna: A autoridade papal não é uma tentativa de unir o poder

político, Igreja e Estado?]

(30)

30 do tempo. Isso quer dizer que nenhum gato escapará da definição de gato, mas nenhum deles a realizará integralmente.

[Aluna: O que eu quis dizer é que ele, como chefe do Estado,

portanto do poder político, é ao mesmo tempo autoridade máxima da doutrina.]

Não, o que aconteceu no Ocidente foi o contrário. O Papa nunca foi o chefe do Estado.

[Aluna: Do Vaticano...]

O Vaticano é um Estado simbólico, uma criação moderna, você também não pode esquecer isso.

[Aluna: Às vezes é uma tentativa de fazer isso, mesmo que

seja...]

Não, dentro da Igreja existiram alguns teóricos do que seria o Estado Católico, mas, note bem, isto é uma coisa bastante recente na História. Isto surge no século XIX  e a história do Ocidente é marcada exatamente pela dualidade de poderes. [...] Essa dualidade é afirmada desde o início, já na constituição do Primeiro Império, com Carlos Magno. O imperador é constituído, sagrado pela Igreja, mas ele é uma autoridade de direito próprio. Quer dizer, a Igreja não o constitui, ela apenas o reconhece como tal; afirma a legitimidade dele perante Deus, mas não é ela [a Igreja] que constitui esse poder. E justamente a história do Ocidente é marcada por um milênio de conflito entre Igreja e Estado. Nunca houve esta fusão.

(31)

31 coisa. Um Estado que personifica, que incorpora uma doutrina tida como verdadeira, como universalmente válida e de certo modo terminal  e que, ao mesmo tempo, é a única autoridade qualificada para julgar o que está dentro ou o que está fora da doutrina , isso só aconteceu nos impérios antigos e, de uma forma já muito modificada, nos regimes totalitários.

O estado islâmico e a Israel bíblica [Aluno: E o Estado islâmico?]

O Estado islâmico não é um Estado, esse é que é o problema. Quer dizer, nem aí você verá isso. Se você ler o Corão de alto a baixo, verá que tem todo um código civil, as leis que determinam o comércio, a propriedade, o casamento, a herança, etc., mas não tem uma linha sobre a constituição do Estado. Esse é que é o problema. Teoricamente, o islâmico seria o Estado sacro, mas como é que vai ser esse Estado?

[Aluna: Mas a organização temporal do poder é toda baseada

na religião.]

(32)

32 [Aluno: Alguma coisa que me parece chegar perto disso é a

organização de Israel antes do período dos reis, porque tem aquele momento em que há uns juízes instituídos, que são filhos de Samuel, e não estão prestando um bom serviço. Os anciãos querem instituir um reino como os vizinhos, vão lá e Deus fala: “Não façam isso”...]

Mas na história de Israel já aparece todo este drama. Quando eles vão pedir a Samuel que institua um rei, ele mesmo diz: “Não façam isso... vai ser um problema”. Israel tinha uma forma peculiar de organização na qual só existia a autoridade religiosa, personificada nesses profetas, anciãos, juízes, etc. Transmitiam a Lei e até certo ponto tinham uma autoridade civil, mas não de tipo estatal. Essa autoridade civil os rabinos conservaram até o século XVIII. Dentro da comunidade judaica, principalmente quando bem isolada do meio, quando sediada num gueto, o rabino tinha um poder de juiz (...), mas ainda assim não se pode dizer que é um poder estatal. É um poder religioso com certa extensão judiciária, policial, etc.

[Aluno: Semelhante ao juiz islâmico?]

Em parte. Tem semelhança, mas o juiz islâmico já é um representante do Estado, que existe oficialmente como Estado  embora a tradução do Corão para a constituição do Estado seja problemática em todos os casos.

(33)

33 A vivência plena da tensão entre a ordem humana e a divina

como caminho da realização humana

A partir do momento em que surge a pessoa de Sócrates e a possibilidade da filosofia, e que mais tarde aparece, sobretudo o cristianismo, a partir daí acho que todo ser humano tem a obrigação de entender que a tensão entre lei divina e lei humana é insolúvel. A ideia desse perfeito equilíbrio nos impérios antigos era falsa. Só pôde durar durante certo tempo, enquanto nenhum ser humano tomava conhecimento de que havia essa tensão, mas ela já estava lá de algum modo. Mesmo dentro dos impérios antigos você vê essa tensão aparecer e reaparecer a toda hora.

(34)

34 esferas de exigência incomensuráveis, é isto a verdadeira natureza humana.

[“homem se transforma em animal quando se corrompe, e em

ser Divino, quando se eleva. Esta é uma verdade secular. O homem é realmente um ser intermediário entre Deus e a besta. De acordo com esta verdade, o verdadeiro civilizado é aquele que se libertou do instinto animal. Pode-se conceituar o progresso da civilização como a evolução do homem animal para o homem Divino. E o lugar onde se reúnem homens Divinos poderá ser outro que não o Paraíso Terrestre?”

“É uma verdade indiscutível que o homem pode decair até o nível animal, da mesma maneira como poderá elevar-se até à Divindade. Sem dúvida eu acredito que um homem verdadeiramente civilizado, é um ser libertado de sua natureza animal e que uma civilização elevada é o estado no quais todos os seres humanos cresceram e tornaram-se divinos. O Paraíso na Terra significa um mundo habitado apenas por seres divinos.”]

(35)

35 Cada indivíduo só conquista a sabedoria na medida em que aprende a suportar essa tensão entre o divino e o humano. Mas se ele fosse impedido de fazer isso por uma nova legislação estatal sábia, então o acesso à sabedoria estaria proibido justamente pela própria imposição da sabedoria como regra final da sociedade. A própria proposta, isso aí é o rei-filósofo realizado, o governo dos filósofos.

Esta ideia do governo dos filósofos retorna num mundo moderno com uma força tremenda. Aquele pessoal da Revolução Francesa o que era? Eram os governantes-filósofos. Eram os filósofos que conheciam, no entender deles, as leis que já não diziam serem leis de Deus, mas leis da razão  portanto, leis universalmente válidas , e que tinham a obrigação de destruir todos os governos que não obedecessem e implantar a nova ordem, que seria universalmente válida, a paz perpétua, etc.

[Aluno: Esta oposição é aquela dos sofistas, entre physis e

nomos? Quer dizer, as leis da natureza e as leis do homem seriam mais ou menos equivalentes?]

Você diz a oposição tal como os homens da Revolução Francesa viam? Ah, certamente! Eles admitiam que existissem as leis feitas pelo homem e as leis que seriam eternas, leis da natureza, numa espécie de direito natural. E se você suprimiu a ideia de Deus, então, a outra instância legisladora que sobra seria a natureza. É claro que isso é absolutamente utópico, porque a natureza não tem lei alguma.

(36)

36 guerra. Ele era um homem obediente às leis da sua comunidade, mas ao mesmo tempo tem acesso a alguns conhecimentos que transcendem e até certo ponto negam a universalidade, a absolutez dessa verdade social vigente. Entre o terrestre e o divino, entre o histórico e divino, entre a temporalidade e a eternidade, é exatamente aí nesse limite que o homem está. Outro dia, escrevi um artigo no Globo dizendo exatamente isto, que em todas as sociedades existem testemunhos de que as pessoas sabiam disso. Não há nenhuma cultura que tenha negado isto ou que desconhecesse esta situação intermediária do ser humano.

[“Como vemos, a Grande Natureza ensina ao homem a

importância do tempo. Em seu estado original, ela é a própria Verdade, e por isso serve de modelo a todos os projetos do homem. Eis a condição vital para o sucesso. O Johrei, a Agricultura Natural e outros princípios preconizados por mim, praticamente não fracassam; eles alcançam os objetivos almanejados por que se baseiam na Lei da Natureza.”].

(37)

37 num plano mais limitado, com conceitos mais empíricos e menos universais.

Por outro lado, surge um segundo problema: de que se você confia que as leis estão não na supratemporalidade, mas na materialidade, na natureza visível. Então, o caminho da sabedoria já não é mais, evidentemente, a imitação dos deuses ou a experiência da vida no divino, a experiência da ascensão até o divino, a metanóia [transformação espiritual ou mudança essencial de pensamento], mas simplesmente a investigação das ciências naturais. Agora, o ideal do sábio é substituído pelo ideal do cientista. Além de isso ser uma diminuição, um rebaixamento formidável  porque se está substituindo em primeiro lugar um estilo integral de vida pelo simples exercício de uma profissão universitária , ainda há um problema: quando o cientista, confiando na existência de leis da natureza, que estariam incrustadas na própria matéria, quando ele vai investigar para descobrir essas leis, descobre que elas não existem. Encontra aquele resíduo de indeterminação e de irracionalidade que é absolutamente irremovível da natureza. Então, o que acontece? A equação sofre uma nova mutação.

(38)

38 Tanto em Marx quanto em Nietzsche vê-se esta celebração do poderio do homem sobre todo o mundo. O homem é uma espécie de demiurgo que vai fazer o mundo do jeito que ele quiser, vai se libertar das determinações naturais porque, agora, ele vai governar a natureza. No instante seguinte, já se tem o troco. Como é que você vai governar a natureza se a natureza não tem leis constantes nas quais vocês possa se basear para dominá-la? Se ela é uma espécie de buraco negro onde tudo pode acontecer? Então você tem uma série de mutações da equação, mas que são mutações determinadas apenas como uma fuga da realidade fundamental. Você vai dizer: “A realidade fundamental é o seguinte: nós estamos de fato entre a temporalidade e a eternidade, não tem como escapar disso”. Se tentar equacionar de outro jeito, dizendo: “Não, não é bem assim, vamos simplificar...”, a coisa piora e complica cada vez mais.

Mas tudo isto, note bem, são fugas do verdadeiro drama humano, e o drama é esse, de estar na temporalidade e ter consciência da eternidade. Você tem consciência da eternidade, mas não a alcança. Você não pode chegar lá, nem fazer de conta que ela não existe. Então você diz: “Bom, este é o problema, aí está todo o drama da nossa vida”.

A vida de Sócrates expressa mais a vida dele do que a “filosofia”, porque eu não vejo diferença entre uma coisa e outra; quer dizer, a vida dele é a filosofia dele.

Sócrates, Platão e Aristóteles

[Aluno: Voltando a essa questão da síntese do rei-filósofo, você

(39)

39

na vida do Sócrates e depois ela se desmembrou em tese e antítese, com Platão e Aristóteles.]

Exatamente.

[Aluno: Mas você já disse o contrário. Disse que Sócrates seria

uma tese ou antítese, ou seja, que ele se submeteu completamente à decisão do Estado; que Platão tentou se impor e que Aristóteles achou, a síntese educando...]

(...) do ponto de vista doutrinal é isto. Se você for ver o que cada um disse, Sócrates disse isso, depois Platão disse aquilo, então a ordem da dialética é uma. Agora, se você encarar por um ponto de vista existencial, encarar esses três episódios, Sócrates, Platão e Aristóteles  não do ponto de vista do conteúdo das suas filosofias, mas como acontecimentos na história humana , então me parece que a equação inverte, porque, de certo modo, a síntese já estava dada em Sócrates.

(40)

40 que estou dizendo agora não me parece uma narrativa mais aproximada da realidade existencial do que aconteceu, porque Sócrates se submete num sentido, mas não se submete num outro.

O sistema das ciências como contribuição platônica

Bom, com isso nós temos alguns elementos já para começar o estudo do platonismo. (...) Partindo do que Sócrates havia definido existencial e verbalmente, o ideal do filósofo, a primeira diferença notável, a primeira contribuição notável com que Platão avança nessa direção é a ideia de um sistema integral do conhecimento humano, um sistema das ciências. Se Sócrates havia enunciado a simples possibilidade de um conhecimento apodíctico e dado uma indicação vaga e imperfeita do método que deveria conduzir a isso, que seria a dialética, Platão já acredita que, por meios dialéticos, é possível construir um tipo de enciclopédia das ciências. Não uma enciclopédia só no sentido quantitativo, mas sim uma enciclopédia sistêmica, isto é, compor uma ciência integral que vai desde os primeiros princípios até os últimos detalhes.

(41)

41 Essa ideia estava ausente em Sócrates. Ele nunca enunciou uma ambição desse porte. Essa diferença aparece também em parte associada à diferente modalidade de existência filosófica de um e de outro, porque Sócrates nunca teve um grupo formal de discípulos. Ele conversava com as pessoas em geral, na praça pública. Quer dizer, seus discípulos eram todos mais ou menos improvisados  qualquer pessoa com que lhe acontecesse de se confrontar numa conversação de rua é um discípulo para aquele momento. Mas Platão não, ele tem um círculo organizado de discípulos e colaboradores que querem, mediante investigação e discussão dialética, chegar a formar uma doutrina integral, uma ciência integral.

Não é preciso ser muito esperto para ver que este projeto já tem, de algum modo, certa contradição desde o início. Se conseguissem chegar a uma formulação definitiva dessa sabedoria, a uma formulação que fosse válida para todo um grupo de pessoas, este grupo já seria uma espécie de sociedade em microcosmo, ter-se-ia automaticamente, e quase como consequência imediata, a transmutação da doutrina em legislação social. Então, de certo modo, a ideia do rei-filósofo já está embutida na própria prática da Academia.

(42)

42 A dialética como forma de ascensão espiritual

/a necessária passagem para o mito

É claro, porém, que dentro da própria Academia surge uma infinidade de dificuldades na formulação dessa doutrina universal. Em primeiro lugar, porque a dialética, que é usada como método, sendo uma técnica de discussão, ela mesma já supõe um conflito de opiniões, e ninguém garante que a confrontação dialética tenha de chegar necessariamente a algum resultado. Aliás, uma das características fundamentais do discurso dialético, em contraposição ao retórico [conjunto de regras que constituem a arte do bem dizer, a arte da eloquência; oratória], é que a discussão dialética pode prosseguir indefinidamente. O retórico, não, tem que tomar uma decisão, quer dizer, acabado o tempo de discussão tem que haver uma sentença. Porque a retórica visa sempre a uma decisão de tipo prático. É uma ação, e nenhuma ação humana pode se prolongar no tempo indefinidamente; uma ação que nunca se consumasse seria exatamente uma não-ação, ou seja, o contrário de uma ação.

(43)

43 Mas, note bem, para Platão a dialética já é uma coisa um pouco diferente do que era para Sócrates. Platão via na dialética uma espécie de disciplina ascética, quer dizer, uma purificação do espírito e uma progressiva ascensão a níveis cada vez maiores de conhecimento e de espiritualidade. Sócrates nunca tinha dito que a dialética é isto. Ela às vezes parece isto em suas palavras, às vezes parece ser apenas uma técnica de discussão e, em certos momentos, parece até uma erística [arte ou técnica da disputa argumentativa no debate filosófico, empregada com o objetivo de vencer uma discussão e não necessariamente de descobrir a verdade de uma questão. Esta técnica foi desenvolvida principalmente pelos sofistas]. Nós não podemos negar a verdade de que Sócrates, que tanto combateu os sofistas, às vezes usa recursos sofísticos na discussão. Quer dizer, ele não tinha uma perfeita clareza. Embora fosse o descobridor da dialética, ele ainda não tinha uma perfeita clareza da distinção entre o que seriam técnicas dialéticas e o que seriam técnicas sofísticas.

(44)

44 surgem depois, inclusive a de Hegel, mas isso aí não precisa ser decidido já, podemos deixar para depois.

Platão acredita, então, poder aperfeiçoar a dialética no sentido de transformá-la num método ascético que deveria levar o indivíduo até a descoberta de certas realidades fundamentais. De fato, na estrutura dos Diálogos platônicos, a dialética vai espremendo os personagens envolvidos até um ponto em que eles não podem mais continuar discutindo no mesmo plano. Mas o afunilamento, o cerco cada vez mais estreito que vai sendo colocado na investigação da questão, isso exige uma espécie de mutação, de passagem de nível, quando então à discussão se sucederia uma apreensão contemplativa de alguma verdade que transcende a própria esfera da discussão. É nesse momento que, na estrutura do Diálogo platônico, ao diálogo sucede a narrativa do mito [lenda].

Após o sujeito ter excluído pela discussão todas as hipóteses falsas, aí tem uma passagem. Ora, esta passagem é sempre meio problemática, porque nada garante que aquilo que está sugerido no mito seja perfeitamente compreendido, inteligido pelos ouvintes. O mito é, evidentemente, uma forma enigmática de narrar e pode ser interpretada de várias maneiras  mas, de qualquer modo, ele dá uma fortíssima impressão. Mesmo que você não o entenda na primeira, pela simples narrativa você tem a impressão de que percebeu algo que é muito importante, embora não saiba o que pensar daquilo.

O mito de Er

(45)

45 presença de juízes. O juízo final ali não é exatamente como no mundo cristão  “você vai para o céu ou para o inferno”. Você vai ter outra vida depois, então, conforme o julgamento que seja feito da sua vida, pode escolher outra, cujo desenrolar só pode visualizado de maneira abreviada e sintética. Há uma infinidade de modelos para você escolher, então volta para a Terra para viver a vida que supõe ter sido escolhida mais sabiamente do que a anterior, mas cujas implicações você não conhece em detalhes. Portanto, também voltará a fazer uma série de erros e, depois, quando morrer de novo, você será novamente levado perante os juízes, verá os defeitos da vida que levou e escolherá outro modelo, e assim por diante, não se sabendo quando isto vai terminar.

É claro que uma das maneiras mais viáveis de compreender esse mito é entender a morte não como morte biológica, mas apenas como suspensão do fluxo dos acontecimentos vividos durante uma espécie de recolhimento. Nesse recolhimento o homem se abstém de agir e entra num estado de renúncia ascética à ação no mundo para poder compreender quais são as bases, os verdadeiros fundamentos da sua vida, e então escolher uma nova conduta. Ou seja, a experiência de Er não implica necessariamente a morte, mas é algo que talvez muitos de nós já tenhamos vivido várias vezes durante a nossa existência. Minha Vida não está bem, eu estou errando, a direção que eu tomei não é certa e vou escolher outra. Esta outra você apreende sinteticamente, de uma maneira simbólica, por exemplo, no sonho.

(46)

46 você viveu até hoje! Mas como só apreendeu sinteticamente, portanto resumidamente, é claro que quando sair deste momento de pura apreensão intelectiva e for viver aquilo você fará novos erros, que podem ser até piores do que os anteriores  até você passar por uma nova “morte” e modificar muitas vezes a sua vida.

Isto é uma metanóia [mudança essencial de pensamento ou de caráter. Ou transformação espiritual]. O Er é um mito, é uma metanóia, é uma transfiguração do rumo total da vida pela visão da imperfeição da vida levada e das possibilidades de um novo modelo, que no momento você percebeu de algum modo. Mas é claro que essa é só uma das múltiplas interpretações que se pode dar a este mito. Qualquer que seja o caso  a história do sujeito que morre e que, de repente, é colocado nessa tremenda responsabilidade de escolher o que vai ser na próxima vida, que não sabe se vai acabar se arrependendo também do que fez nessa nova vida , esta morte no mito de Er é um momento de alta responsabilidade.

(47)

47 Quando você tem um problema básico dentro de uma filosofia, ele aparecerá não somente no conteúdo dessa filosofia, mas na própria estrutura dos textos que a expressam. Quando o filósofo não sabe exatamente o que vai dizer, esta dúvida, esta hesitação aparecerá não apenas na nebulosidade do que ele afirma, mas, de certo modo, na ambiguidade da própria construção do texto. É sempre possível com um pouco de paciência reencontrar isso. Então, quando nos Diálogos platônicos há a passagem da dialética ao mito, o que se está declarando é o seguinte: “Olha, a parte seguinte do ensinamento é demasiado elevada, demasiado complexa para que eu possa explicar por extenso, então vou dar uma imagem, um mito aproximativo”.

Ora, nesse mesmo momento em que há a passagem da dialética ao mito, existe um segundo aspecto, mas como a expressão é mítica, significa que este segundo mundo, este mundo de cima  o mundo das formas ou das ideias  pode ser conhecido, mas não pode ser ensinado. Cada um vai ter que decifrar o mito com seus próprios recursos. Então, de novo o caráter individual, o caráter indeclinavelmente individual da busca da sabedoria, está reafirmado no próprio corpo de uma filosofia que pretende, por outro lado, expor a sabedoria universal de tal modo que ela possa ser imposta igualmente a todo mundo pelo rei-filósofo. Quanto problema tem aí! Isto significa que dentro da filosofia de Platão se condensa um aglomerado de problemas, de temas e de dificuldades que alimentam a nossa discussão até hoje.

(48)

48 absolutamente formidável, e é justo isso o que a torna tão interessante, porque a gente nunca sabe exatamente onde é que Platão quis chegar.

O mundo sensível e o mundo das ideias ou formas

[Aluno: Eu fiquei sabendo que a própria palavra ideia já dá esse

conceito de que a pessoa tem que compreender por si mesma a que ela se refere, porque vem de ideîn, que quer dizer “aquilo que pode ser visto”, que a própria pessoa deve ver.]

Certo, depende de um ato de intelecção  como é o lema de minha homepage: “Não há ato mais desprovido de testemunha do que o ato de conhecer”. Quando você descobre algo, você sabe algo, só você sabe que sabe; ninguém está dentro da sua cabeça para saber se você sabe ou não. É esse o caráter irredutivelmente individual da conquista da sabedoria. As pessoas podem participar da discussão, mas o momento intelectivo, que é o final da discussão, que é aquele onde a dialética se transforma em mito, aí é cada um por si!

Ao mesmo tempo, note bem, esse indivíduo é indivíduo enquanto oposto à coletividade historicamente determinada, e não enquanto oposto à espécie humana. O indivíduo nunca é oposto à espécie, nunca! Ele é oposto à coletividade. Este, por exemplo, é um grande erro de muitas discussões modernas: identificar a oposição indivíduo versus coletividade como oposição indivíduo versus espécie.

(49)

49 constituição universal está dada no indivíduo fisicamente existente, temporalmente existente, isso quer dizer que a passagem do mundo sensível para o inteligível se dá dentro do próprio indivíduo. Aí ele passa por uma metanóia, uma transfiguração, no momento em que ele mesmo se compreende já não apenas como indivíduo, mas como membro da espécie e, portanto, como portador do conhecimento universal. Ele não faz isto enquanto indivíduo isolado da espécie, mas, ao contrário, exatamente como representante máximo da espécie. É este indivíduo isolado, no instante do seu ato de intelecção, que manifesta e realiza da maneira mais patente as possibilidades supremas que definem a própria espécie humana.

[Aluno: É isto que Agostinho quer dizer quando fala que nós

encontramos Deus dentro de nós mesmos?]

Isto, é exatamente isto! Naquele instante em que você está mais sozinho e mais isolado é que o conjunto da espécie humana está se realizando em você. É por isso que não é uma solidão, é uma solidão apenas em relação à coletividade historicamente dada. Na medida em que você se desliga do espírito daquela era, está ligado ao espírito de todas as eras. Isto quer dizer que, de fato, no próprio indivíduo, na constituição do próprio indivíduo, já está dada toda a dialética entre o mundo do sensível ou da temporalidade e o mundo da eternidade.

(50)

50 temporalidade; em Aristóteles, há a afirmação de que este mundo só existe dentro da temporalidade. Mas de fato as duas coisas são verdadeiras de algum modo, principalmente porque as tais formas seriam os modelos eternos das coisas temporalmente existentes.

Então, o que seria, por exemplo, a “cavalidade”? É o projeto que Deus fez para os cavalos. Se você perguntar: “Onde existe a cavalidade? Ela existe em si ou existe no cavalo?”  você tem os dois termos de uma oposição que definem uma discussão que houve dentro da escola platônica entre os defensores da primeira formulação do platonismo e, do outro lado, Aristóteles. Os primeiros dizem que as formas existem em si e são independentes deste mundo físico; Aristóteles diz, ao contrário, que elas estão no próprio mundo físico.

(51)

51 Ora, isso quer dizer que a sondagem dialética que nos leva do mundo sensível para o mundo das ideias não pode chegar a bom resultado, porque ela seria o simples conhecimento humano do divino. A dialética teria, então, o poder de nos transfigurar em conhecedores do eterno. Ela não pode fazer isso, por essa razão nos leva até certo ponto, daí vem o mito. Isto significa que a dialética não cumpre o que promete. Ela promete levar até o céu, mas quando chega lá, não pode mais... tem que entrar o mito.

O conhecimento das formas ou das ideias enquanto tal é necessariamente imperfeito e alusivo, mas se for só isto nós ficaremos eternamente em dúvida, porque conhecemos este mundo aqui, mas sabemos que é um mundo imperfeito em que as coisas aparecem e desaparecem. Tudo está em permanente fluxo, e existe um fundo de irracionalidade no mundo sensível. Passados dois mil anos, o pessoal fala de buraco negro, e daí a irracionalidade do mundo sensível aparece de novo, e de novo, e de novo, e nunca vai embora.

(52)

52 que Ele nos dê o conhecimento e a explicação sobre as formas?”. Aí é que está o “terceiro andar” do platonismo.

O 3º mundo/

Deus como princípios universais eternos e de validade absoluta Todos os manuais, pelo menos até certo tempo, colocavam o platonismo como um tipo de filosofia dualista, porque via dois mundos: o mundo sensível e o mundo inteligível, que seriam as formas. Mas isto não é exato, porque Platão não fala de dois mundos, fala de três. Há o

mundo dos entes sensíveis, que, estando em fluxo permanente e tendo

uma forma precária de existência, têm um fundo de irracionalidade absolutamente indeclinável. Depois há o mundo das formas, que teoricamente explicariam este mundo sensível, mas que por sua vez só podem ser conhecidas muito imperfeitamente. Acima deles há o mundo

dos princípios, ou leis eternas, que dão o fundamento das formas e, ao

mesmo tempo, o fundamento deste mundo. É evidente que Platão está se referindo ao conhecimento intelectual de Deus, e Deus aparece, neste aspecto, sob a forma de princípios universais eternos e de validade absoluta. Seria um conhecimento de ordem puramente metafísica.

Algo dessas leis eternas encontradas pelo platonismo estão justamente no livro de Mário Ferreira dos Santos, A sabedoria das leis

eternas, que talvez tenha sido a melhor explicação desses princípios.

(53)

53 modelos eternos das criaturas e dos entes, estão submetidas aos princípios.

Um deles [um primeiro princípio] é o de que tudo o que existe só pode existir como unidade. Todo ente que existe, existe como unidade.

O segundo princípio é que somente o próprio Deus, ou a origem de todas as coisas, pode existir como unidade simples. Tudo o mais existe como unidade complexa, unidade parcial ou unidade imperfeitamente realizada. Aí é que surge a distinção entre Deus considerado em si mesmo e enquanto criador das criaturas.

Deus considerado enquanto criador das criaturas  é fácil perceber que isso só constitui um seu aspecto, porque o Eterno antecede as criaturas. Antecede de quanto? De toda uma eternidade. O aspecto que Ele tem de criador das criaturas não pode ser todo Ele, mas, ao mesmo tempo, é Ele. Há, então, Deus em si mesmo e Deus enquanto criador, e assim por diante. (Não vamos nos deter na explicação de princípios, que exigiriam um estudo mais particularizado, mas creio que isso está muitíssimo bem realizado no livro do Mário Ferreira dos Santos. Não conheço explicação melhor, nem mesmo a do Giovanni Reale acho que transcende isso.)

(54)

54 Por exemplo, quando eu digo “eu estou aqui”, você entende perfeitamente o que eu estou dizendo. Mas se eu disser [o contrário] “eu não estou aqui”, o que estou querendo dizer? Que estou em outro lugar, ou que este que está aqui não sou eu? [contraditória não unívoca] O simples enunciado da frase “eu não estou aqui” não diz isso de jeito nenhum. Então a famosa distinção entre contrário [inverso] e contraditório [incoerente] não pode ser feita aqui, não dá para fazer, porque não se sabe a que a frase se refere.

Outro exemplo: o famoso princípio de identidade, que A é igual a A. Se você disser “A não é igual a A”, o que você quer dizer? Que o segundo A é diferente do primeiro, ou que este é diferente de si mesmo? A simples sentença “A é diferente de A” não esclarece se é uma coisa ou a outra que ela quer dizer.

Isto é um simples teste lógico. A noção de evidência é, para mim, uma noção básica absolutamente incontornável. Não tem como escapar dela. Se você tentar de algum modo contornar, dizendo “Não, não existe evidência, só existem coisas que dão a impressão de ser evidência”, ainda está raciocinando com base numa definição de evidência que você escondeu embaixo do tapete. Então, evidência significa impossibilidade do contrário  e impossibilidade absoluta seria uma impossibilidade sob qualquer aspecto que seja.

O mundo das formas como mundo intermediário

(55)

55 coroamento do platonismo, na verdade era somente uma pirâmide truncada que subentende outra parte superior, que são os princípios. O mundo das formas é apenas intermediário entre o mundo dos princípios e o mundo da temporalidade. Ele é apenas uma transição. E como se disséssemos que ele não tem uma existência suficientemente definida para que se possa conhecê-lo. Traz também dentro de si uma ambiguidade constitutiva, que só é resolvida na esfera dos princípios. Os princípios resolvem as ambiguidades do mundo das formas e, ao mesmo tempo, suprimem e abolem a existência dessas formas, as quais são apenas uma transição entre o mundo do divino (o mundo do absoluto, do eterno) e o mundo da temporalidade.

Ora, essa transição só pode ser feita de ambiguidade, então ela corresponde precisamente àquele famoso mundo intermediário que pode ser expressa na história do corvo de Noé. Muito bem, na história do dilúvio, após quarenta dias e quarenta noites, eles têm a expectativa de encontrar terra. Para confirmar isso, Noé solta um corvo. O corvo fica girando em círculos e não consegue achar nada. Dias depois, eles soltam uma pomba, que vai direto e encontra terra. Entre a arca, o navio de Noé e a nova terra, tem-se exatamente a analogia do mundo sensível e do mundo divino, entre a temporalidade e a eternidade. Têm-se, então, duas tentativas de travessia, uma fracassada e a outra bem-sucedida. Na bem-sucedida, a pomba voa em linha reta, e naquela que é fracassada o corvo fica girando.

(56)

56 três traços, um embaixo, um no meio e um em cima. A linha reta é o Tao, que vai unir então os três mundos: da temporalidade e do eterno. Com o que no meio? O próprio homem.

[“Eu sempre aconselho manter a ordem em tudo, e a transcrição

da palavra “SU” (chefe, senhor, dono) nos sugere a mesma ideia. Ela é transcrita da seguinte forma: (). Vamos analiza-la.

Os três traços horizontais significam: Céu, homem e terra; ou Sol, Lua e terra; ou os números sagrados 5,6,7; ou Deus, espírito e matéria. Esses traços são completados por outro, vertical, que os atravessa no meio, e em cima de todos há um sinal. (...)

Observemos que no meio da palavra forma-se uma cruz () e relembremos que o traço de cima representa o Céu, e o de baixo a Terra. Isso quer dizer que o mundo dos homens está entre o Céu e a Terra; por essa razão ele tem forma de cruz. É essa a realidade do Paraíso Terrestre, ou Reino de Deus. A palavra que designa Deus (“Kami”) tem a mesma significação. “KA” () significa “fogo”; “MI” () significa “água”. O fogo arde verticalmente, e a água corre horizontalmente. Unindo “KA” e “MI”, obtemos “KAMI”, ou seja, Deus, cujo trabalho é unir, atar. Agora chegou o momento em que Deus quer unir o que está separado, porque está próximo o Reino dos Céus.”]

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