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Da Escola Normal ao ICLC: formação de professores (de matemática) em Cuiabá

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DE MATO GROSSO DO SUL (UFMS)

Volume 10, número 22 – 2017 ISSN 2359-2842

http://www.edumat.ufms.br/

[email protected]

Da Escola Normal ao ICLC: formação de professores (de matemática) em Cuiabá

From the so-called Normal School to the ICLC: the origins of teacher training (mathematics) in Cuiabá

Bruna Camila Both1 Ivete Maria Baraldi2

RESUMO

Em Cuiabá a formação de professores mostrou-se como um movimento tardio, tendo seu início oficial em meados do século XIX com a criação da Escola Normal, sendo essa a principal formadora da região até a década de 1960, quando passa a funcionar na capital a Campanha de Aperfeiçoamento e Difusão do Ensino Secundário (Cades), época na qual também é criado o primeiro centro de formação superior de professores nesta cidade, o Instituto de Ciências e Letras de Cuiabá (ICLC). Assim sendo, utilizando a História Oral, como metodologia, cotejamos fontes orais, por nós produzidas, e fontes escritas disponíveis, apresentando, então, uma história para essa formação de professores (de Matemática).

PALAVRAS-CHAVE:Cades. Mato Grosso. História da Educação Matemática.

ABSTRACT

In Cuiabá, the capital city of the State of Mato Grosso, Brazil, teacher training has proved to be a late movement.

Its official beginning was in the mid-nineteenth century, with the creation of the so-called Normal School, which was responsible for the teacher’s training in the region until the 1960s, when the Campaign of Improvement and Diffusion of Secondary Education (Cades, in Portuguese) was established. During this decade, the first center of higher education of teachers in this city was created: the Institute of Science and Languages of Cuiaba (ICLC, in Portuguese). Using Oral History as a methodology, we compare oral sources, produced by us, to available written sources, and then present a history for this formation of teachers (of Mathematics).

KEYWORDS:Cades. Mato Grosso. History of Mathematics Education.

Introdução

O artigo que aqui apresentamos se trata de um recorte de nossa pesquisa de mestrado, Both (2014), na qual estudamos a formação de professores de Matemática em Cuiabá entre as

1 Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – Campus Rio Claro. [email protected].

2 Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – Campus Bauru. [email protected].

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décadas de 1960 e 1980. Para o desenvolvimento da pesquisa e, consequentemente, produção deste artigo, nos valemos da metodologia da História Oral, por meio da qual pudemos escrever uma história para essa formação, constituída a partir de depoimentos orais de pessoas direta e/ou indiretamente envolvidas com o tema da pesquisa, bem como de fontes escritas que localizamos3.

Dentre nossos colaboradores estavam alunos e professores das primeiras turmas de licenciatura do Instituto de Ciências e Letras de Cuiabá (ICLC) e da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), de modo especial os envolvidos com o curso de Matemática, o primeiro chefe do Departamento de Matemática da UFMT e estudiosos do assunto que ainda hoje lecionam na referida Universidade4.

Com relação à metodologia, ela é comumente utilizada no grupo de pesquisa do qual participamos, Grupo História Oral e Educação Matemática (Ghoem), de modo especial nos trabalhos voltados à História da Educação Matemática, como o nosso. Embora se paute em procedimentos, está sempre em processo, em movimento, sendo, portanto, “entremeada por reflexões, sistematizações, aproveitamentos e abandonos: uma antropofagia” (GARNICA, 2013, p. 35). Na História Oral as narrativas são a matéria-prima, o pano de fundo dos trabalhos que dela se valem, sendo elas constituídas por meio de entrevistas, que são transcritas

3 Essas fontes foram localizadas em sites oficiais da internet (de organizações de ensino, órgãos governamentais, entre outros), na Biblioteca Central, no Departamento de Matemática, na Reitoria e no Núcleo de Documentação e Informação Histórica Regional (NDIHR) da Universidade Federal de Mato Grosso, campus Cuiabá, bem como no Arquivo Público do Estado de Mato Grosso e Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso (IHGMT), em Cuiabá. Além destes, recebemos de nossos depoentes, documentos pertinentes ao estudo. Dentre as fontes escritas encontram-se revistas e jornais da época, teses, dissertações e artigos, arquivos de circulação interna da UFMT, grades curriculares, livros, entre outros.

4 Para a escolha dos depoentes conversamos com antigos professores da graduação de uma das autoras (Bruna cursou sua licenciatura em Ciências Naturais e Matemática pela UFMT, sendo seus professores alocados em Cuiabá), bem como com uma colega da pós-graduação de Rio Claro (cuiabana, que já lecionou na Universidade do Estado de Mato Grosso). Assim surgiram nossos dois primeiros depoentes: Heliete Martins Castilho Moreno (professora aposentada da UFMT, professora da Universidade a partir de 1977) e Carlos Antônio Dornellas (professor da UFMT desde 1975, aluno da primeira turma de Matemática desta Universidade), a primeira sugeriu que procurássemos Elisete de Miranda (professora aposentada da UFMT, aluna da primeira turma de Matemática desta Universidade), Carlos Antônio Dornellas (já indicado) e Aquiles Leite do Nascimento (professor da UFMT e do Centro Universitário de Várzea Grande, aluno da terceira turma de Matemática da UFMT). Já Carlos Dornellas nos sugeriu o contato de Vinícius Machado Pereira dos Santos (professor da UFMT desde 1989), Claudio Mellado (professor aposentado da UFMT, trabalhou no ICLC e acompanhou sua transição para a Universidade, foi o primeiro chefe do Departamento de Matemática da UFMT), Nilda Bezerra Ramos (professora aposentada da UFMT e aluna da primeira turma de Matemática de Cuiabá, pelo ICLC) e Sérgio Antônio Wielewski (professor da UFMT desde 1987). Também em conversa com Elizabeth Madureira Siqueira, uma das responsáveis pelo Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, foi sugerido o nome de Suíse Monteiro Leon Bordest (professora aposentada da UFMT, trabalhou no ICLC desde seu início e acompanhou sua transição para a Universidade), fechando assim nosso quadro de entrevistados.

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(passagem do oral para o escrito) e textualizadas (nesse movimento a transcrição é reordenada temática e/ou cronologicamente, retirando-se certos vícios de linguagem, mas mantendo-se outros, para que, ao ler, o colaborador se reconheça falando). Realizadas, transcrição e textualização, volta-se com esses documentos ao depoente, que assina uma carta de cessão autorizando seu uso. Inicia-se, então, formalmente (pois julgamos que ela tenha seu início na escolha do tema de pesquisa, perpassando por todo seu desenvolvimento) a análise dos dados, da qual, aqui, expomos parte.

Dessa maneira, neste recorte, nossa intenção é apresentar os primeiros movimentos para a formação de professores de Matemática em Cuiabá, capital de Mato Grosso. Tal formação mostrou-se como um acontecimento tardio, tendo seu início oficial em meados do século XIX com a criação da Escola Normal, sendo essa a principal formadora da região até os anos de 1960, quando passa a funcionar na capital a Campanha de Aperfeiçoamento e Difusão do Ensino Secundário (Cades), década na qual também é criado o primeiro centro de formação superior de professores nesta cidade, o Instituto de Ciências e Letras de Cuiabá (ICLC). Assim sendo, neste artigo, apresentaremos uma história para essa formação.

Iniciando a formação de professores (de Matemática) por meio da Escola Normal

Nas décadas de 1960/1970 eram poucas as escolas e, consequentemente, o número de profissionais era pequeno, o que dificultava a troca e as discussões dos conteúdos entre os professores, complicando ainda mais seus trabalhos. Com isso, tinham de estudar sozinhos para lecionarem, se autoformando. Além disso, os docentes se viam trabalhando em diferentes escolas ao mesmo tempo, de modo a atenderem a demanda. Dentre os que buscavam a docência, grande era o número que a procurava por ser uma oportunidade de emprego disponível, começando a lecionar, em alguns casos, antes mesmo de completar 18 anos5.

Até meados dos anos 1960, a Escola Normal era o ápice da formação docente em Cuiabá, tanto que, dentre os professores de Matemática que lecionaram para nossos entrevistados, apenas um nome é lembrado como tendo graduação na área: Aída Figueiredo, os demais, em sua maioria, eram normalistas. Assim, ainda em fins da década de 1960, era praticamente tradição as moças, ao darem continuidade aos estudos após o Ginásio, optarem

5 Informações disponibilizadas por nossos colaboradores.

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pelo Curso Normal ofertado na Escola Normal Pedro Celestino, que funcionava no Palácio da Instrução6. Portanto, esse curso era composto, em sua maior parte, por mulheres que, ao concluírem-no, partiam para a docência a qual, a princípio, deveria ser nos anos iniciais. No entanto, devido à escassez de professores específicos, as normalistas acabavam lecionando em diferentes níveis de ensino7.

Além dos professores formados pela Escola Normal atuavam na Educação Básica docentes formados pela Campanha de Aperfeiçoamento e Difusão do Ensino Secundário (Cades)8 ou mesmo profissionais de outras áreas como: médicos, arquitetos, agrônomos, dentistas e engenheiros. Existiam também os autodidatas, como João Crisóstomos de Figueiredo e Cesário Neto, que atuaram em diferentes disciplinas mesmo sem possuir formação em qualquer uma delas. No entanto, segundo nossos depoentes, apesar de não possuírem licenciatura, eram bons professores, competentes e comprometidos. Essa falta de formação superior durou muito tempo, tanto que ainda em 1992 era sentida, a diferença é que neste último período a maioria dos docentes leigos já possuía algum vínculo com uma instituição superior, ou seja, a capacitação já se encontrava disponível e eles a estavam buscando. Embora sendo sentida na capital, essa falta de formação não era tão intensa lá quanto no interior do estado, onde muitos docentes tinham apenas o Ginásio/Ensino Fundamental e lecionavam para essa mesma modalidade9.

Portanto, a partir do que apontamos acima, podemos dizer que as raízes para a formação de professores de Matemática em Mato Grosso estão na Escola Normal. Acreditava-se que, por meio da Escola Normal, seria possível uma “melhoria rápida na instrução pública do Estado”, desse modo, “investir na formação do professor era fundamental para a efetivação do ‘progresso social’, pois sua ação eficaz eliminaria a ignorância, traria a civilidade e a ordem social.”

(SILVA, 2006, p. 35).

Em Cuiabá, a primeira Escola Normal tem seu movimento inicial em 1838, quando o estado enviou a Niterói um professor (Joaquim de Almeida Louzada) para que se capacitasse e em seu retorno assumisse a regência da Escola. No entanto, como a carência de profissionais

6 Localizado na Rua Antônio Maria, Bairro Centro Sul de Cuiabá.

7 Textualização professora Suíse Monteiro Leon Bordest, disponível em Both (2014).

8 A Cades oferecia, em nível nacional, dentre outros, cursos de orientação aos Exames de Suficiência, que eram, normalmente, ministrados no período de férias escolares e cursados por pessoas interessadas na docência, que almejavam uma qualificação e autorização para lecionar. Ainda neste artigo abordaremos mais a respeito desta Campanha e de sua atuação em Cuiabá.

9 Textualização professora Heliete Martins Castilho Moreno, disponível em Both (2014).

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qualificados era intensa, ao regressar a Mato Grosso, o professor não assumiu a docência e sim a Secretaria do Governo da Província. Mesmo sem um professor formado, essa Escola se estabeleceu em Cuiabá em 28 de outubro de 1840, iniciando seus trabalhos em 1842 e sendo extinta dois anos mais tarde devido à falta de professores para nela atuarem. Além disso, o governo afirmava não ter condições de mantê-la, mesmo acreditando em sua importância para o estado (AMORIM; FERREIRA, 2014).

Até 1910 a Escola passou por diversos obstáculos, sendo fechada e reaberta muitas vezes, se estabilizando a partir do referido ano devido à chegada de dois professores (Leowergildo de Mello e Gustavo Kuhlmann), formados em Escolas Normais de São Paulo, para atuarem na capital mato-grossense (XAVIER; SÁ, 2008; CAVALCANTE; OLIVEIRA, 2006). Segundo Simião (2006), por meio deles adequou-se o modelo utilizado em São Paulo à realidade cuiabana.

No Curso Normal eram enfocados especialmente conteúdos metodológicos, não se dando, portanto, muita atenção ao conteúdo preparatório para um Ensino Superior. Tanto que normalistas, como a professora Heliete10, por exemplo, sentiram dificuldade em acompanhar um curso superior quando por ele optavam, por não terem estudado os conteúdos ofertados, à época, pelos anos finais do Ensino Secundário (atual Ensino Médio).

Como não havia formação superior para professores em Cuiabá, a Secretaria de Educação indicava algumas pessoas para cursarem especializações na capital paulista, no Centro Regional de Pesquisas Educacionais (CRPE), na Universidade de São Paulo (USP).

Uma dessas pessoas foi a professora Suíse11, que foi aluna de um desses cursos em 1964 e ao retornar, como meio de retribuir a formação recebida, ministrou um curso a diretores de escolas, onde hoje se encontra instalado o 9º Batalhão de Engenharia de Construção (9º BEC). Neste local funcionava um Centro Educacional para Formação de Professores, além desse curso ministrado pela professora Suíse outros ocorreram ali, visando atender professores e diretores, sendo que, para isso, vinham docentes de outros locais para ministrá-los.

Assim, eram poucos os professores com formação no estado. Devido a isso, nossos colaboradores, como o professor Aquiles Leite do Nascimento12, por exemplo, consideravam uma honra se formar em uma licenciatura e poder trabalhar em uma das seis escolas da capital,

10 Narrativa 7 de Both (2014).

11 Narrativa 1 de Both (2014).

12 Narrativa 6 de Both (2014).

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no entanto, não era o salário o motivador para a busca da profissão, o professor, segundo ele, ainda tinha o respeito de seu aluno.

Entre as cidades mato-grossenses, nos anos 196013, que ofereciam, principalmente, o atual Ensino Médio, estavam: Três Lagoas, Campo Grande, Corumbá, Cáceres e Cuiabá, sendo que dentre elas, a única, além da capital, que continuou a pertencer a Mato Grosso, após sua divisão, foi Cáceres. Como a população não era muito grande, não se sentia a necessidade da abertura de muitas escolas e, embora existisse a falta de professores formados, esse motivo não despertava o interesse dos governantes em disponibilizar um curso de graduação no estado.

Diante da necessidade de professores, usualmente Mato Grosso os “importava” de outras regiões, principalmente de São Paulo e em menor número de Minas Gerais. Outros cursos eram vistos como mais necessários, pois nestes o governo reconhecia a demanda de profissionais qualificados, sendo eles Direito, já em funcionamento, Economia e Engenharia Civil, que se concretizaram alguns anos mais tarde14.

Como eram poucas as cidades a ofertarem o Colegial (Ensino Médio), os alunos do interior do estado que pretendiam cursar essa modalidade se deslocavam principalmente para Cuiabá ou Campo Grande, dependendo de sua localização. Desse modo, aumentou o número de estudantes na capital e visando atendê-los foi criado o Restaurante Estudantil Maria Aparecida Pedrossian15 (Remap), que fornecia alimentação por um preço acessível. Para utilizá-lo, o estudante precisava comprovar carência, a não existência de parentes na cidade e que lá estava para estudar e trabalhar. Além dos estudantes da Educação Básica, o restaurante também atendia aos universitários, antes da criação do restaurante universitário na UFMT16.

Campanha de Aperfeiçoamento e Difusão do Ensino Secundário – Cades: importante meio da formação docente cuiabana

Outro curso, de abrangência nacional, que proporcionava a formação docente na capital mato-grossense foi iniciado em 1960: a Campanha de Aperfeiçoamento e Difusão do Ensino

13 Cabe destacar que, nesse período, o atual Mato Grosso do Sul ainda fazia parte de Mato Grosso, pois a divisão do estado só ocorreu anos mais tarde, em 11 de outubro de 1977.

14 Aqui usamos por base as informações recebidas de nossos depoentes.

15 Nome da esposa do ex-governador mato-grossense Pedro Pedrossian.

16 Textualização professor Carlos Antônio Dornellas, disponível em Both (2014).

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Secundário (Cades), ofertada em Cuiabá17. Essa Campanha, como destacam Baraldi e Gaertner (2013, p. 13, grifo das autoras), tratou-se de um “importante veículo dos ideais da época no que diz respeito à formação de professores e uma maneira dos docentes se aperfeiçoarem, discutirem e formalizarem sua prática, num momento em que era raro em nosso país um lócus para tal exercício”.

A Cades foi criada em 1953, por meio do Decreto número 34.638, sendo que a partir de 1955, por meio da Lei 2.430, os exames de suficiência para o exercício da docência foram condicionados aos cursos ofertados por esta campanha. Assim, após a finalização dos cursos e consequente aprovação nos exames de suficiência, o cursista recebia uma autorização para lecionar em locais onde não havia licenciados em Faculdades de Filosofia (BARALDI;

GAERTNER, 2013). Os cursos tinham por objetivo “suprir as deficiências dos professores, até então leigos, referentes aos aspectos pedagógicos e aos conteúdos específicos das disciplinas que iriam lecionar ou que já lecionavam nas escolas secundárias” (BARALDI; GAERTNER, 2013, p. 21), pois, até então, sua formação baseava-se na prática cotidiana, repetindo modelos de seus antigos professores. Além dos cursos, a Cades publicou periódicos e manuais visando auxiliar na formação docente.

Na capital mato-grossense, o curso foi instalado após o convite do professor Ernesto Garcia de Araújo, Secretário da Cades, para que esta cidade também passasse a oferecê-lo. A cooperação para a realização dos cursos da Cades veio do governo do estado de Mato Grosso, por meio da Secretaria de Educação18, que “não poupou esforços no sentido de conseguir a vinda desses cursos” (A CADES..., 1960, p.3).

Assim, em 04 de janeiro de 1960, iniciou seu funcionamento no anfiteatro do Colégio Estadual de Mato Grosso (CAMPANHA..., 1960), hoje Escola Estadual Liceu Cuiabano

“Maria de Arruda Müller”. Naquele ano foram oferecidos cursos em nove áreas, atendendo a mais de cem alunos (CURSOS..., 1960), dos quais 95% eram de outras cidades (NÍVEL..., 1960). Na ocasião, o curso teve duração de vinte e cinco dias, se encerrando, portanto, em 29 de janeiro de 1960. A formação em Matemática, referente à parte de conteúdos, ficou sob responsabilidade de Irmã Glória Imamura, já a Didática Especial foi ministrada por Bernardo Lopes de Souza.

17 Cabe aqui destacar que a Cades começou a funcionar em Cuiabá em 1960, no entanto, já havia oferecido três outros cursos antes disso, em Campo Grande, na época cidade mato-grossense.

18 Na época, 1960, sob responsabilidade de Manuel Bonifácio Nunes da Cunha.

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Ao término dos cursos realizaram-se os Exames de Suficiência em 02 e 03 de fevereiro daquele ano; no primeiro dia foram aplicados os Exames de Didática Geral e de Didática Especial e no segundo os exames escritos e orais (EXAMES..., 1960).

Como o número dos que saíam para fazer uma graduação fora era pequeno e o ensino superior ainda estava pouco divulgado, os cursos de férias, oferecidos por essa campanha, estavam entre os principais formadores de professores em Cuiabá. Uma lista com o nome dos inscritos nesse curso, na capital em 1967, referente à Matemática, é apresentada em Both (2014).

Os docentes que lecionavam na Cades, muitas vezes, vinham de fora do estado, já que os formados atuantes em Mato Grosso eram poucos. Ao término do curso os alunos realizavam uma avaliação, um exame, e recebiam uma espécie de certificado, uma autorização para que pudessem lecionar. Essa certificação era fornecida pela Secretaria Estadual de Educação.

A Cades era ofertada em diferentes áreas, entre elas Matemática; quando voltada ao Ginásio, contemplava ainda Geografia, História, Ciências e Português, e o cursista optava pela que mais lhe interessasse19.

Esses cursos, diferentemente da Escola Normal, autorizavam o professor que não possuía licenciatura a lecionar para os antigos: Ginásio, Científico, Clássico20 e Normal21. Ter a autorização para lecionar fornecida pelo curso, era obrigatório para conseguir sala de aula para atuar.

Sua repercussão na capital era tão grande que ao retornar a Cuiabá, após ter cursado quatro anos de licenciatura, queriam que professora Suíse cursasse a Cades, para que assim estivesse capacitada a lecionar (Both, 2014). Com isso é possível perceber o quão conceituado era o curso nesta cidade, o que, inclusive, pode ser notado também nos jornais da época, que enfatizavam sua importância. Muitos dos que fizeram o curso cadesiano, posteriormente, buscaram o ICLC para adquirirem um diploma de nível superior.

Em 1970, na capital, passaram a chamá-lo de Curso de Orientação para os Exames de Suficiência (Coes), ou como encontrado em alguns documentos: Curso de Orientação para

19 Informações disponibilizadas pelo professor Aquiles em sua entrevista.

20 Pela Lei Orgânica do Ensino Secundário de 1942 (BRASIL, 1942), instituiu-se que o Ensino Secundário seria ministrado em dois ciclos: o primeiro, composto de um curso único, o Ginásio; e o segundo, formado por dois cursos paralelos, o Clássico e o Científico.

21 A primeira Escola Normal, destinada, então, a fornecer essa modalidade de ensino, foi criada em 1835, em Niterói (CARVALHO, 2015).

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Professores para os Exames de Suficiência (Copes). Como nos contou o professor Aquiles, ele funcionava de modo similar aos cursos da Cades, no entanto, foi ofertado em dois níveis, um após o Ginásio, para os que o haviam concluído e nesse nível queriam atuar, mesmo ainda cursando o Secundário, e outro após o Colegial, para lecionar nessa modalidade. Essa opção de cursá-lo após o Ginásio se dava devido à falta de docentes para suprir as necessidades. Por exemplo, cursá-lo logo após ter terminado o Ginásio possibilitou ao professor Aquiles ser convidado a lecionar em uma grande escola da capital, na qual a maioria dos docentes possuía entre 30 e 50 anos, enquanto que o professor Aquiles ainda cursava o Colegial22.

Segundo esse professor, diferente da Cades, que tinha duração em torno de um mês, o Copes durou três meses. Ocorreu nos meses de janeiro, fevereiro e março, nos períodos matutino, vespertino e, em alguns dias, no noturno. Iniciou em 03 de janeiro de 1970 e terminou em 10 de abril desse mesmo ano, totalizando 100 dias de curso. Sua duração foi de 360 horas, como se fosse uma especialização de todo o conhecimento do Ginásio e/ou do Colegial. Em Both (2014) disponibilizamos uma prova de Matemática aplicada pelo Copes, na cidade de Dourados, em 1968.

Em 1970 o curso foi ofertado no Centro Educacional Nilo Póvoas, que havia sido recentemente inaugurado. Os professores que trabalharam nesse curso eram conhecidos como catedráticos. Os conteúdos matemáticos foram lecionados por João Bosco London23, já a Metodologia e Didática do Ensino da Matemática por um professor que vinha de Goiás, chamado Gilberto24. Na disciplina de Metodologia e Didática, como meio de avaliação, os cursistas precisavam ministrar aulas, sobre determinados assuntos, para os demais colegas. Essa foi a última turma, pois a partir da criação da UFMT o curso não foi mais oferecido.

Instituto de Ciências e Letras de Cuiabá – ICLC: primeira formação superior para professores em Cuiabá

22 Isso de estar cursando o antigo Segundo Grau e já estar lecionando também aconteceu com o professor Sérgio Antônio Wielewski (Narrativa 8 de Both (2014)), no Paraná, na década de 1970.

23 Engenheiro civil e um dos fundadores da Faculdade de Engenharia Civil da UFMT de Cuiabá.

24 Não conseguimos localizar mais informações acerca deste professor.

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Até a década de 1960, em Cuiabá, a procura pelo Ensino Superior não se mostrava muito significativa, até mesmo pela pequena quantidade de estudantes no Colegial25. Além disso, outra possibilidade é a de que a população poderia considerar que ter o correspondente ao antigo Ginásio já atendia, na maior parte das vezes, as exigências do mercado de trabalho, gradativamente esses requisitos foram transferidos ao Ensino Secundário e posteriormente ao Ensino Superior. Pautada nessas novas premissas, a formação em nível superior começa a se disseminar, sendo criada em 1966 a Faculdade de Filosofia Ciências e Letras26, que em julho desse mesmo ano, por meio da Lei 2.629, passou a constituir o Instituto de Ciências e Letras de Cuiabá (ICLC). Ao ser criado, este instituto além de incorporar a Faculdade de Filosofia Ciências e Letras agregou também a Faculdade de Ciências Econômicas, que havia sido instituída no ano anterior, 1965.

O ICLC iniciou seu trabalho vinculado à Secretaria de Estado de Educação e Cultura, ofertando quatro cursos: Licenciaturas Plenas em Geografia, História Natural, Letras e Matemática27. Foi o primeiro movimento em busca de formar professores em nível superior em Cuiabá. Entre os diversos objetivos desta instituição encontrava-se a ideia de “criar e desenvolver o espírito universitário em Mato Grosso” (DORILEO, 1984, p. 19).

Os primeiros cursos28 foram instalados em função das áreas que possuíam professores para atuar. No entanto, nem sempre a formação era no curso em que o professor lecionava, como no caso da Matemática, para o qual, de acordo com nossos depoentes, não havia licenciado ou bacharel formado especificamente nela, atuando na docência.

25 Em Mato Grosso, na década de 1960, 53 estabelecimentos ofereciam o Colegial, atual Ensino Médio, destas escolas “41% dos alunos matriculados cursou o secundário, 29% o normal, 25% o técnico comercial e 5% os cursos de administração de empresas e de química industrial” (REINERS, 1967, p.2-3). Reforça-se o interesse nestas informações, pois é deste cenário que saem os futuros alunos do curso superior em Matemática. Ainda segundo o autor referenciado acima, no estado de Mato Grosso havia cerca de 643 estudantes no nível superior em 1966, dos quais 144 estudavam no centro estadual de ensino da capital.

26 Esta instituição já havia sido instituída em 1952, porém somente iniciou seu funcionamento, ainda de modo incipiente, em 1966.

27 Aqui cabe o questionamento de por que Matemática. Essa indagação surge, porque, entre outros motivos, não havia matemáticos ou licenciados em Matemática para atuarem nesse curso. Uma possibilidade seria pelo fato de uma licenciatura ser mais barata de ser mantida do que uma Engenharia, por exemplo, área na qual eram formados a maioria dos professores. Outra opção que nos ocorre é a de que os cursos que iniciaram poderiam ter relação com o momento em que o estado e o país viviam, de busca de interiorização/colonização, nesse caso o curso de Matemática poderia formar profissionais para subsidiar o posterior curso de Engenharia, que apoiado pela Geografia e História Natural, poderiam colaborar para o desbravamento de Mato Grosso.

28 Textualização professora Suíse, disponível em Both (2014).

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Além disso, não possuíam experiência em nível superior, o que fez com que, por vezes, buscassem ajuda junto aos professores mais experientes de outros estados29, que auxiliaram indicando bibliografias, metodologia e cedendo, em alguns casos, até a ementa do curso para que pudessem se basear para criar a do Instituto, a qual foi montada pelos professores em atuação. No caso da Matemática, por engenheiros, que eram maioria no corpo docente do curso (RIBEIRO, 2011).

Essa nova instituição consistiu em um avanço para a região, apresentando à população uma nova oportunidade de seguir com os estudos, não precisando, para isso, deixar o estado30. Foi um pontapé inicial para a formação superior, pois com ele ampliaram-se opções de cursos em Cuiabá31. Surge também para atender a necessidade de mão-de-obra qualificada para os setores do governo, para dar suporte à organização formal do estado.

Por meio do ICLC, professores com grande experiência, mas sem um diploma, puderam obtê-lo, e pessoas que tinham interesse em avançar intelectualmente tiveram uma nova opção além da Faculdade de Direito. Assim como alunos, havia professores experientes, diretores, profissionais de carreira que buscavam valorização em seus setores e jovens que almejavam dar continuidade aos estudos. As turmas não eram muito grandes, mas o nível dos alunos era bom, tanto que muitos dos formados nas primeiras turmas passaram a lecionar na Universidade logo após sua fundação32.

O salário no ICLC, segundo a professora Suíse, deixava a desejar, logo, os professores eram obrigados a manterem vínculo empregatício em outros locais, um dos motivos pelo qual os cursos funcionaram no período noturno. Como as licenciaturas eram oferecidas à noite, e em algumas vezes no sábado pela manhã, mesmo pessoas que não fossem de famílias abastadas podiam participar, pois havia a possibilidade de manter o emprego durante o dia.

Neste Instituto, como contado pela professora Suíse, eram poucos os professores, pois em Mato Grosso a maioria dos profissionais não possuía formação superior. Em seu segundo ano de funcionamento, essa situação foi agravada devido ao aumento do número de disciplinas a serem ministradas, pois a cada ano uma nova turma era agregada ao curso, aumentando automaticamente o número de disciplinas a serem ofertadas, intensificando a falta de docentes.

29 Essa ajuda era obtida em oportunidades diversas, tais como: viagens, participação em eventos e cursos, entre outros. Vindo, também, do contato com antigos professores, da graduação, dos então docentes de Cuiabá.

30 Até então era comum os jovens buscarem cidades paulistas ou cariocas para prosseguirem seus estudos.

31 Pois até a criação do ICLC funcionava em Cuiabá apenas o curso de Direito.

32 Informações fornecidas pela professora Suíse em sua entrevista.

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Outro agravante para essa situação é que, embora trabalhassem mais, devido ao aumento da carga horária, o salário se mantinha o mesmo. Esse ponto fez com que houvesse uma paralização das aulas, até que novos professores foram contratados e as partes, Estado e instituição, entraram em acordo.

O Instituto começou pequeno, ligado à Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso33 (Seduc), na época os Secretários de Educação que se envolveram em sua implantação foram: Hermes Rodrigues de Alcântara34, Francisco Alexandre Ferreira Mendes35 e Oscar da Costa Ribeiro36.

Como diretores do ICLC atuaram: Nilo de Campos Póvoas, seguido por Jecelino José Reiners e por fim Attílio Ourives37, que estava na direção no momento da transição para a UFMT38.

Em princípio, o Instituto não possuía sede própria, logo, todos os cursos eram ofertados em um mesmo prédio cedido a ele. Inicialmente, foi instalado no porão do Colégio Estadual de Mato Grosso, onde as salas eram separadas por biombos; o ICLC funcionava embaixo e os alunos da escola tinham aula em cima. Depois foi para o Palácio da Instrução, na Escola Normal Pedro Celestino, e a seguir para a Escola Técnica Federal de Mato Grosso, mudando, finalmente, para a Escola José Barnabé de Mesquita, à época, recém construída. Ao construírem esta última, visando melhor atender estruturalmente o Instituto39, ainda não se sabia da real instalação da Universidade Federal. Desta escola o ICLC transferiu-se, em agosto de 197040, para o primeiro bloco construído no Campus da UFMT41.

Para a Licenciatura em Matemática foram abertas 25 vagas, as quais não foram completamente preenchidas, sendo que 23 alunos42 a iniciaram, mas muitos foram desistindo

33 De 1961 a 1966 tal secretaria era denominada Secretaria de Estado de Educação, Cultura e Saúde. De 1966 a 1994 passou a se chamar Secretaria de Estado de Educação e Cultura, para, finalmente, receber o nome que hoje dispõe: Secretaria de Estado de Educação (FERREIRA, 2006).

34 Secretário entre 09 de fevereiro de 1961 a 30 de junho de 1965 e de 06 de dezembro de 1965 a 20 de janeiro de 1966.

35 Secretário entre 09 de fevereiro de 1966 a 08 de março de 1966.

36 Assumiu a Secretaria em 1966.

37 Textualização professora Suíse.

38 Ao ser criada em 10 de dezembro de 1970, a UFMT incorporou as duas instituições de nível superior até então vigentes em Cuiabá, o ICLC e a Faculdade de Direito.

39 Informações fornecidas pela professora Suíse em sua entrevista.

40 Nesse mesmo período se instalou na Universidade a Faculdade de Direito, que até então se situava no centro da capital.

41 Espaço em que hoje funciona o Instituto de Ciências Humanas e Sociais (ICHS).

42 Entre eles Luzia Guimarães, que foi reitora da UFMT de 1992 a 1996.

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ou mudando de curso e apenas três a concluíram: Nilda Bezerra Ramos43, Luiz Gonzaga Coelho e Mauro Custódio, hoje já falecido. Como ao final do curso a turma era pequena, muitas aulas foram ministradas apenas a um aluno, quando os outros dois não podiam ir, pois esse um equivalia a uma porcentagem grande do total da turma. Para ingressarem no ICLC havia um vestibular composto de duas etapas: prova escrita e, para os que passassem nesta primeira, prova oral (RIBEIRO, 2011).

Entre os professores dessa licenciatura estavam: Leonardo Slhessarenko44, José Garcia Neto45, Moacyr Freitas46, Antônio Rodrigues da Silva, Luis Lotufo47, Enzo Ricci48, Jaci Rosa49, Silvia50 e Claudio Mellado51.

O Instituto ofereceu o curso de Matemática apenas para uma turma, até abriu-se vestibular em outros anos (SILVA, 1967), no entanto, não havia procura. Houve, no que seria a segunda turma, apenas um inscrito, Coronel Zeferino, dentista do exército, hoje já falecido.

O curso começou a ser ofertado a ele, no entanto, percebeu-se que seria inviável e ele acabou trancando-o.

A Licenciatura Plena em Matemática ofertada pelo ICLC era composta por 15 disciplinas, totalizando 2.700 horas, diluídas em quatro anos de estudo, em regime seriado. No primeiro ano foram 760 horas: Fundamentos da Matemática Elementar – 180 horas, Álgebra – 180 horas, Desenho Geométrico e Geometria Descritiva – 240 horas, Geometria Analítica – 160 horas; No segundo ano foram cursadas 770 horas: Álgebra – 120 horas, Geometria Analítica – 140 horas, Física Geral – 180 horas, Cálculo Diferencial e Integral – 150 horas, Psicologia da Educação (1º semestre: adolescência, 2º semestre: aprendizagem) – 180 horas;

No terceiro ano do curso foram 750 horas: Cálculo Diferencial e Integral – 210 horas, Física Geral – 180 horas, Didática – 180 horas, Administração Escolar – 180 horas; E, por fim, o quarto ano com 420 horas: Cálculo Numérico – 240 horas, Prática de Ensino de Matemática – 180 horas (RIBEIRO, 2011).

43 Narrativa 3 de Both (2014).

44 Economista. Em sua disciplina de Prática de Ensino acompanhava os alunos nas escolas.

45 Trabalhou Álgebra com os alunos do ICLC de Matemática.

46 Arquiteto. Trabalhava Desenho Geométrico e Geometria Descritiva.

47 Lecionou Cálculo Diferencial e Integral.

48 Ministrou a disciplina de Física Geral.

49 Trabalhou com Psicologia da Educação (RIBEIRO, 2011).

50 Professora de Didática, supomos ser a professora Silvia Vitorino, já que ela lecionou Didática Geral para a primeira turma da UFMT.

51 Narrativa 2 de Both (2014). Não lecionou para a turma de Matemática, pois passou a compor o quadro docente do ICLC em dezembro de 1970, no entanto, era docente dessa área, mesmo sendo formado em Física.

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Os alunos do Instituto, ao se graduarem, foram diplomados como acadêmicos da UFMT, na qual o ICLC foi incorporado após sua criação em 1970. Desse modo, receberam o diploma como sendo formados pela Universidade. Os licenciandos em Matemática do ICLC colaram grau em dezembro de 1969, porém esse curso somente foi reconhecido anos mais tarde, junto com a primeira turma dessa área da Universidade Federal, em 1974. Assim sendo, receberam seu diploma juntamente com esses alunos em 197552, no entanto, no diploma recebido pelos alunos do ICLC consta a data correta de colação de grau da turma, 196953. Portanto, foi o governo federal que forneceu o reconhecimento àquele curso que era estadual, ofertado no Instituto.

À medida que o Instituto foi se firmando, novos cursos foram sendo instalados, tanto que em final de 1971 já totalizavam 11, sendo eles: Economia, Engenharia, Química, Matemática, Geografia, Pedagogia, Ciências Contábeis, Física, História Natural, Letras e Serviço Social (DORILEO, 1977), os quais foram transferidos à Universidade ao término deste ano.

Com organização em estilo de universidade, dispunha de departamentos: Ciências Exatas, Biociências, Ciências da Terra, Ciências Humanas, Letras e Artes; e de Atividades Extracurriculares, bem como de um Colégio Universitário. A Faculdade de Educação acomodava os cursos de Matemática, História Natural, Pedagogia, Letras, Química, Geografia, História e Física; já a de Economia, além da própria Economia, também alojava Ciências Contábeis; existiam ainda as Faculdades de Engenharia Civil e de Serviço Social ofertando os cursos que lhes davam o nome, enquanto a Faculdade de Ciências Médicas ainda estava para ser instalada, se concretizando apenas anos mais tarde, já na Universidade Federal de Mato Grosso (DORILEO, 1977). Como entidade autônoma do estado, o ICLC era a maior instituição de ensino superior de Mato Grosso.

Em relação ao ICLC, muitos pontos negativos foram elencados por nossos depoentes, tais como: a falta de espaço e de prédio próprios; os professores embora dedicados não eram formados na área, então eles mesmos expunham suas dificuldades e receios em ministrar as disciplinas, com isso os alunos tinham que buscar, por conta própria, meios para supri-las; o número reduzido de alunos dificultava as discussões e os estudos conjuntos; além disso, as

52 Textualização da professora Nilda, disponível em Both (2014).

53 Uma foto deste diploma foi disponibilizada pela professora Nilda e consta em sua textualização, disponível em Both (2014).

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bibliografias disponíveis eram poucas, inclusive muitas vezes eram cedidas do próprio acervo pessoal do docente. Mas, embora fossem muitas as dificuldades, os alunos conseguiram terminar um curso superior.

Algumas considerações

Por meio desses aspectos podemos reforçar o que já é apontado em outros trabalhos que enfocam a História da Educação Matemática Brasileira e tratam da formação de professores, dando-se visibilidade “à inexistência de uma identidade única para o professor de Matemática no Brasil, à presença constante do signo da urgência e da carência, à contraposição entre igualdade de condições e desigualdade de oportunidades” (GOMES, 2014, p. 32).

A formação de professores para ensinar Matemática no Brasil, além de ser marcada pelas características acima apresentadas, é fruto de requisitos ditados por diferentes leis ao longo da História, por políticas públicas descontinuadas, entre outros. Ademais é possível/necessário destacar-se as formações que, destinadas a uma modalidade/nível de ensino, acabavam atendendo a outros que se faziam necessários, como nos resultados aqui apresentados, em que normalistas lecionavam até mesmo para o Secundário e os formados pelo ICLC, e posteriormente pela UFMT, mesmo sem uma pós-graduação já passavam a atuar como professores na Universidade. Esse aspecto também é ressaltado por Gomes (2014, p. 33),

“requisitos institucionais conduziram à contratação de docentes com base em uma titulação acadêmica nem sempre condizente com o trabalho de formação de professores”.

Em Cuiabá essa formação também foi marcada pela carência e urgência. Quando a carência se apresentava forte a urgência era resultado para supri-la, tendo em cursos como a Cades, por exemplo, um modo de formar professores antes de se implantar um curso superior.

A formação docente em Cuiabá foi, portanto, fruto de um processo tardio, se concretizando quando a carência e urgência se mostravam como insustentáveis.

Por fim, reforçamos que essas formações, oferecidas pela Escola Normal54, ICLC e Cades/Coes/Copes, foram ofertadas até a implantação da Universidade Federal de Mato Grosso, sendo que a partir de então ela ficou responsável por essa categoria. Em Both (2014) também

54 A Escola Normal funcionou até a implantação da LDB 5.692 de 1971, quando foram extintas essas escolas e em seu lugar passou a ser ofertado o curso de Magistério, que também tinha por objetivo formar professores para a primeira fase do Primeiro Grau.

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foram estudadas esta Universidade e a formação por ela oferecida, que por não fazerem parte dos objetivos deste artigo não foram abordadas.

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22 mar. 14.

Submetido em abril de 2016 Aprovado em abril de 2017

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