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ANUÁRIO DE JURISPRUDÊNCIA 485 PROCESSO N /93 ACÓRDÃO

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PROCESSO N° 15.296/93 ACÓRDÃO

N/M "CLIPPER SANTOS”. Processo de fratura da solda no ponto de fixação de barra de ferro componente da guia do cabo de laborar do guindaste n° 02, provocando a queda da mencionada barra na cabeça de arrumador posicionado no cais, causando-lhe graves lesões, que ensejaram sua morte. Deficiência de manutenção do equipamento de carga laborado. Negligência. Condenação.

Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.

Consta dos autos que, no dia 19/09/92, cerca das 00:15h, durante operação de carregamento de bobinas de papel para o N/M "CLIPPER SANTOS", de armação de Clipper Golbal, sob o comando de Nikolaos Georgios Soultanos, atracado ao cais do armazém n° 03 do porto de Itajaí, SC, uma peça de ferro da guia do cabo de laborar do guindaste n° 02 do navio, instalada no topo da lança, desprendeu-se, atingindo a cabeça do arrumador Valmor Maisen. que trabalhava no costado do navio, lingando as bobinas que eram embarcadas, causando-lhe lesões graves, que provocaram sua morte.

No inquérito instaurado pela Capitania dos Portos do Estado de Santa Catarina foram ouvidas cinco testemunhas.

Nikolaos Georgios Soultanos, comandante, declarou que existia uma programação de manutenção do guindaste a bordo, que incluía pintura, lubrificação e verificação de funcionamento, desde a data de aquisição da embarcação, cerca de três meses antes do acidente, não sendo o programa cumprido totalmente em razão do pouco tempo disponível.

Declarou, ainda, que a última vistoria anual de pau-de-caiga foi efetuada em abril de 1992, pelo imediato, quando o navio pertencia aos antigos armadores.

Richard Abuldoc Culpa, 2o oficial de náutica, declarou que o guindaste estava em bom estado e que a peça de ferro que atingiu a vítima fazia parte da guia do cabo de levantamento do guindaste.

Declarou, ainda, que estava embarcado no N/M "CLIPPER SANTOS há cerca de três meses, desde que o navio trocou de armador. Acrescentou que o funcionamento dos guindastes era verificado antes e após a utilização dos mesmos.

Marcelo Luiz Pereira, portuário, declarou que providenciou uma ambulância para socorrer Valmor Maisen e que a peça de ferro, que servia de guia para o cabo de aço do guindaste, caiu em razão de desgaste por corrosão. Acrescentou que o pessoal de bordo deveria ter detectado o desgaste excessivo da peça que caiu.

Valdemir Lopes, estivador, declarou que operava o guindaste e viu uma peça de ferro cair. Acrescentou que a peça estava mal soldada, desgastada e enferrujada.

Declarou, também, que a peça pode ter caído devido ao esforço que sofreu em razão do balanço das cargas.

Laudo de exame pericial, ilustrado com fotografias, atesta que a peça guia do cabo de aço de laborar do guindaste sofria, normalmente, o esforço provocado por balanços das cargas durante as fainas, o que, paulatinamente, causou ruptura em seu

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ponto de fixação. Assevera que faltou manutenção periódica mais apurada no equipamento, o que contribuiu para o desprendimento da peça de ferro.

Juntados aos autos documentos de praxe, incluindo certidão de óbito de Valmor Maisen.

O encarregado do inquérito, em seu relatório, apontou como possível responsável indireto pelo acidente a empresa Clipper Golbal, proprietária do N/M "CLIPPER SANTOS", por não efetuar manutenção adequada no guindaste, o que provocou a queda da peça de ferro da guia do cabo de laborar, por excessiva corrosão, vitimando o arrumador Valmor Maisen.

Por iniciativa da Douta Procuradoria, foram juntadas aos autos cópia do certificado de registro do N/M "CLIPPER SANTOS", constando como armador Clipper Santos Shipping Ltd. à época do evento em tela; cópia do certificado n° BAO 200024, emitido pelo Lloyd's Register of Shipping, atestando que, em 04/04/92, os aparelhos de carga do N/M "NEDLLOYD SEOUL" foram examinados visualmente e encontrados em ordem. Cabe ressaltar que o nome do N/M "NEDLLOYD SEOUL” foi mudado para "CLIPPER SANTOS"; e cópias dos certificados referentes à vistoria quadrienal de pau- de-carga do N/M "NEDLLOYD SEOUL", realizada em 09/03/88.

Também por iniciativa da Douta Procuradoria, Lachmann Agências Marítimas S/A informou que o N/M "CLIPPER SANTOS" tinha como armador Clipper Santos Shipping Ltd., era gerenciado por J. G. Goumas Shipping Co. e tinha como agentes gerais no Brasil Clipper do Brasil Ltda.

A Douta Procuradoria representou contra Clipper Santos Shipping Ltd., armadora, e J. G. Goumas Shipping Ltd., gerenciadora, por seus respectivos representantes legais e aos cuidados de Clipper do Brasil Ltda., com fulcro no art. 14, letra "b" (avaria) e no art. 15, letra "e" (fato que colocou em risco as vidas de bordo), ambos da Lei n° 2.180/54, por entender que ambos negligenciaram quanto ao dever de conservação e manutenção dos equipamentos de caiga da embarcação, tendo em vista que a falta de manutenção da peça contribuiu para o seu desprendimento, já que se encontrava corroída pela ferrugem, conforme constatado pelo exame pericial de fls. 31.

Citados por edital, Clipper Santos Shipping Ltda. foi defendida, através da Clipper do Brasil Ltda., por advogado constituído, enquanto J. G. Goumas Shipping Ltda. permaneceu revel, sendo-lhe designado defensor público da União.

As representadas não apresentam antecedentes no Tribunal Marítimo.

Clipper do Brasil Ltda. denunciou à lide Caillet (Paranaguá) Ltda., representante do Clube Protetor do Navio, que indenizou a viúva pela morte de Valmor Maisen, ocorrida em 19/09/92, de acordo com o art. 70, inciso III, do CPC; e aigüiu preliminar de extinção do processo sem julgamento do mérito, por desobediência, por parte da Douta Procuradoria, aos prazos peremptórios previstos no parágrafo Io, do art. 41 da Lei n° 2.180/54.

No mérito, alega que, de acordo com o certificado n° 200024, em anexo, datado de 04/02/92, todos os guindastes foram examinados e encontrados em boas condições de operação.

Alega, ainda, que a inspeção anual e quadrienal autenticadas pelo Lloyds Register no Rio de Janeiro, em 1993, demonstaram que os aparelhos de operação, entre os quais os guindastes de convés e outros, não mostraram sinais de defeitos.

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Alega, ainda, que qualquer responsabilidade pela operação e fiscalização caberia ao comandante do navio.

O Juiz-Relator determinou, às fls. 165, a substituição, no pólo passivo da representação, da empresa Clipper Santos Shipping Ltd., pela empresa Clipper do Brasil Ltda., atendendo requerimento da Douta Procuradoria.

A defesa de J. G. Goumas Shipping Ltd., gerenciadora do N/M "CLIPPER SANTOS , alega que não há nos autos qualquer referência sobre a acusada, salvo ter sido apontada como gerenciadora do navio, com sede na Grécia, enquanto que o armador encontra-se devidamente representado no Brasil.

Alega, ainda, que, de qualquer forma, o navio encontrava-se com seus certificados em dia, conforme fls. 51 usque fls. 107.

Na fase de instrução, nenhuma prova foi produzida.

Em alegações finais, manifestaram-se a Douta Procuradoria e a Douta Defensoria Pública da União.

Por despacho saneador irrecorrido, o juiz-relator indeferiu o requerimento de denunciação à lide de Caillet (Paranaguá) Ltda., feito por Clipper do Brasil Ltda., pois a Lei n° 2.180/54 não contempla o mencionado instituto, sendo facultado à parte interessada a apresentação de representação privada. Rejeitou, também, a preliminar de extinção do processo sem julgamento do mérito, suscitada, também, por Clipper do Brasil Ltda.» tendo em vista que os prazos previstos no parágrafo Io do art. 41 da Lei n° 2.180/54 se referem a processo de iniciativa da parte interessada e não da Procuradoria Especial da Marinha. Intimou a Clipper do Brasil Ltda. da sua inclusão no pólo passivo da representação em substituição à Clipper Santos Shipping Ltd.

Clipper do Brasil Ltda. não apresenta antecedentes no Tribunal Marítimo. Analisando-se as provas testemunhal, documental e pericial, verifica-se que a vistoria anual de pau-de-carga do N/M "CLIPPER SANTOS", ex-"NEDLLOYD SEOUL", realizada pelo Lloyds Register of Shipping, no porto de Cristobal, Panamá, em 04/04/92, foi visual, superficial e inadequada, colocando sob suspeita a seriedade que deve nortear as atividades de uma sociedade classificadora, que tem como atribuição atestar, de forma contínua, as condições satisfatórias dos vários componentes da estrutura, chapeamento, máquinas, equipamentos, aparelhos e instrumentos de uma embarcação, retirando-a de classe sempre que verificar que determinados itens não atendem ao padrão mínimo de segurança ditado pelas normas internacionais que regem a matéria e por suas próprias especificações.

A operação de aparelhos de carga apresentando peças desgastadas, principalmente aquelas que laboram constantemente, abaixo dos padrões mínimos de segurança requeridos, configura fator de enorme risco para a vida das pessoas envolvidas nas movimentações das cargas, e pode ser considerado como similar ao ato de se aportar uma arma contra um ser humano indefeso, de forma premeditada, com o intuito de massificar o lucro em detrimento do inestimável valor da vida humana, não se podendo admitir que as sociedades classificadoras, que têm o privilégio de emitir certificados em nome do governo brasileiro, compactuem com tal prática ilegal e imoral. Basta uma verificação nos processos que tramitaram e tramitam por esta Corte de Justiça para se constatar que vistorias anuais de pau-de-carga e, principalmente, quadrienais, apesar de constarem dos livros dos aparelhos de carga dos navios, não estão sendo

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efetuadas, de um modo geral, de acordo com os rígidos padrões necessários e, teoricamente, exigidos pelas próprias classificadoras.

Por outro lado, tivessem as representadas, Clipper do Brasil Ltda., armadora, e J. G. Goumas Shipping Ltda., armadora-gerenciadora, providenciado, táo logo passaram a armar e gerenciar o N/M "CLIPPER SANTOS", a realização da vistoria quadrienal de pau-de-carga, vencida no mês de março de 1992, certamente o processo de fratura da solda no ponto de fixação da barra de ferro componente da guia do cabo de laborar do guindaste n° 02, que, de acordo com o laudo de exame pericial de fls. 31, provocou a queda da mencionada barra, instalada no tope da lança, teria sido detectado e sanado, já que, por ocasião das vistorias quadrienais os aparelhos são verificados minuciosamente e submetidos a uma manutenção detalhada, com desmonte de todas as peças móveis. Assim, não há dúvida que, por ocasião do desmonte das roldanas localizadas no tope da lança, a guia do cabo de laborar seria examinada. Não deve ser esquecido que, independentemente das mencionadas vistorias, que são acompanhadas pela classificadora, era obrigação das representadas manter os aparelhos de carga em condições operacionais seguras, providenciando manutenção adequada.

Conclui-se que procedem os termos da representação da Douta Procuradoria, já que o acidente e o fato da navegação, caracterizados pelo processo da fratura da solda no ponto de fixação de barra de ferro componente da guia do cabo de laborar do guindaste n° 02 do N/M "CLIPPER SANTOS”, provocando a queda da mencionada barra na cabeça do arrumador Valmor Maiscn, que arrumava lingadas de papel de imprensa para embarque, no cais, causando-lhe sérias lesões, que provocaram seu óbito, tiveram como causa determinante a deficiência de manutenção do equipamento de carga laborado, ficando configurada a negligência da armadora Clipper do Brasil Ltda., e da armadora-gerenciadora J.G. Goumas Shipping Ltda., que faltaram com o dever de cuidado exigível das mesmas em relação à embarcação pela qual eram responsáveis.

Na aplicação da pena, deve ser levado em consideração que do nefando evento restou ceifada uma preciosa vida.

Assim,

A C O R D A M os Juizes do Tribunal Marítimo, por unanimidade: a) quanto à natureza e extensão do acidente e fato: processo de fratura da solda no ponto de fixação de barra de ferro componente da guia do cabo de laborar de guindaste de bordo, provocando a queda da mencionada barra na cabeça de arrumador posicionando no cais, causando-lhe graves lesões, que ensejaram sua morte; b) quanto à causa determinante: deficiência de manutenção do equipamento de carga laborado; c) decisão: julgar o acidente da navegação capitulado no art. 14, letra "b”, da Lei n° 2.180/54 e o fato da navegação previsto no art. 15, letra "e", do mesmo diploma legal, como decorrentes de negligência, condenando Clipper do Brasil Ltda. e J.G. Goumas Ltda. à pena de multa de R$ 9.500,00 (nove mil e quinhentos reais), para cada uma, de acordo com o contido no art. 121, letra "g" c/c art. 124 parágrafo Io c/c art. 129, letra "b", todos da Lei n° 2.180/54. Custas na forma da lei. Honorários de Defensor Público da União no mínimo legal; d) medidas preventivas e de segurança: oficiar à Diretoria de Portos e Costas para que alerte às sociedade classificadoras autorizadas da necessidade de melhor controle das condições dos aparelhos de carga das embarcações que freqüentam os portos nacionais, através de maior rigor nas vistorias anuais e quadrienais de pau-de-carga e

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verificação, sempre que possível, da consonância do descrito nos livros dos aparelhos de carga com as reais condições de tais aparelhos, a fim de evitar que a embarcação esteja regular no papel e, na realidade, abaixo dos padrões recomendados pelas próprias sociedades classificadoras. P.C.R. Rio de Janeiro, RJ, 28 de agosto de 1997. - LUIZ CARLOS DE ARAÚJO SALVIANO, Juiz Relator - MARIO AGUSTO DE CAMARGO OZÓRIO, Vice-Almirante (RRm), Juiz-Presidente.

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