TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO – ARTIGO CIENTÍFICO
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DST/AIDS: Um estudo sobre o atendimento e assistência no município de
Miracema-RJ
Amanda Lemos da Silva – [email protected] – UFF/ICHS Danielle Mansur Bittencourt – [email protected] – UFF/ICHS Lais Couto Lopes – [email protected] – UFF/ICHS
Resumo
O presente trabalho possui com tema DST/AIDS: um estudo sobre o atendimento e assistência no município de Miracema – RJ. Partindo-se do crescente número de pacientes infectados no município em questão, o problema da pesquisa foi balizado na questão da ausência de médicos especializados para atendimento no programa HIV/AIDS, uma vez que o atendimento médico acontece apenas mensalmente. O objetivo geral procurou identificar os impactos da ausência de médicos especializados, no atendimento à pacientes soropositivos, cadastrados no Programa HIV/AIDS, no município de Miracema, RJ. A metodologia da pesquisa utilizada neste trabalho foi, a princípio, de caráter bibliográfico e documental. Após, foi realizada uma entrevista aberta com a Coordenação do Programa HIV/AIDS. Foi possível identificar, como impacto negativo, o tempo de espera pelas consultas com o médico infectologista, e que a disponibilização por parte das Unidades de Saúde de mais profissionais capacitados para acompanhamento dos portadores do vírus HIV é de extrema relevância, já que viabiliza um atendimento mais rápido, oportunizando que o paciente tenha confiança de que vai receber um tratamento adequado. Nessa perspectiva, garantir a assistência e o tratamento universais para soropositivos é uma das estratégias mais importantes para se conter a epidemia do HIV.
Palavras-chave: HIV/AIDS. Ausência. Profissionais Especializados. Atendimento.
Miracema.
1 Introdução
As políticas brasileiras de combate à Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) tiveram início no estado de São Paulo, em 1983. Segundo Mendonça et al (2010), essas políticas sofreram influências do Movimento Sanitarista, que visavam mudanças essenciais no sistema de saúde do país, com vistas à melhorias nas condições de vida da população, o que em 1988 culminou na criação do Sistema Único de Saúde (SUS). Tais políticas foram instituídas a princípio como subpolíticas no SUS, sendo estabelecidas em âmbito local. A gravidade da realidade, todavia, gerou a necessidade de atuação nacional
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2 ocasionando a implantação do Programa Nacional de DST/AIDS (PN-DST/AIDS) (PARKER e GALVÃO, 1999).
O Programa Nacional de DST/AIDS foi instituído pelo Ministério da Saúde (MS) em 1986, e estabeleceu como princípios doutrinários que conferem legitimidade ao SUS, os elementos a seguir: universalidade (dos medicamentos e insumos para prevenção), a equidade (foco nas ações junto aos grupos vulneráveis e estigmatizados) e a integralidade (por agregar prevenção, assistência e tratamento) (MARQUES, 2002).
Com o crescente aumento dos casos de DST/AIDS no Brasil, os gestores e autoridades responsáveis tiveram que desempenhar um papel de extrema relevância no âmbito dos programas voltados ao atendimento e assistência.
Tal realidade impôs a necessidade de tomar medidas efetivas nos municípios brasileiros, tais como: realizar o atendimento, fazer acompanhamento dos pacientes atendidos, e disseminar o máximo de informações sobre métodos de prevenção, para que as autoridades pudessem agir com eficácia de acordo com as necessidades específicas de cada usuário.
Nesse contexto, a temática “DST/AIDS: Um estudo sobre o atendimento e assistência no município de Miracema-RJ”, tem como objetivo geral identificar os impactos da ausência de médicos especializados, no atendimento à pacientes soropositivos, cadastrados no Programa HIV/AIDS, no município de Miracema, RJ.
Assim, a presente pesquisa aborda o atendimento e a assistência do Programa de prevenção de HIV/AIDS, implementado pela Secretaria Municipal de Saúde do município de Miracema – RJ, localizado na região Noroeste Fluminense, que possui aproximadamente 26.843 habitantes (IBGE, 2010).
A problemática da pesquisa está na seguinte questão: a falta de profissionais especializados para atendimento médico no programa HIV/AIDS, uma vez que o atendimento médico acontece apenas mensalmente.
Para alcançar o objetivo geral, definiu-se como objetivos específicos: investigar de que forma é dado o tratamento e a assistência médica aos portadores de AIDS no município de Miracema e verificar se as ações desenvolvidas nos programas de saúde pública estão pautadas na perspectiva de continuidade.
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3 • A ausência do médico infectologista interfere na assistência prestada às pessoas
portadoras de AIDS?
O presente trabalho irá abordar um breve histórico da evolução da AIDS no Brasil e discorrerá sobre a execução do programa de assistência e tratamento ofertado no município de Miracema. Em seguida, discorremos sobre a falta de profissionais credenciados para atendimento médico no Programa HIV/AIDS em Miracema/RJ e como tal ausência pode ser um entrave na qualidade de vida dos portadores do vírus HIV. Na Metodologia, explanamos os procedimentos utilizados para a obtenção dos dados, a forma como foi conduzida a pesquisa e os recursos materiais utilizados. Após tais considerações, explanamos os resultados obtidos e as reflexões suscitadas que foram expostos e organizados para que posteriormente sejam comparados, discutidos e analisados. Por fim, foi apresentada a contribuição da pesquisa alinhada ao objetivo geral e aos objetivos específicos que nortearam tal investigação.
2 Referencial Teórico
2.1 O Processo de evolução da AIDS no Brasil
As Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) estão entre os problemas de saúde pública mais comum no Brasil e em todo o mundo sendo, na atualidade, ponderadas como o principal fator facilitador da transmissão sexual do Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV). Embora não haja ainda a cura para a infecção pelo HIV, vírus causador da AIDS, é possível controlar essa infecção por meio de ações que promovam a prevenção primária, pelo diagnóstico precoce e pela terapia adequada da pessoa portadora (BRASIL, 2006).
A Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS), como discorrem Lima, Cecilio e Bonafé (2013, p. 1):
(...) é uma doença causada pelo vírus do HIV, que é um retrovírus adquirido principalmente por via sexual (sexo desprotegido) e sanguínea, por meio de objetos perfuro-cortantes contaminados. O vírus do HIV se reproduz no corpo humano nos linfócitos TCD4+, tornando o corpo vulnerável à infecção por doenças oportunistas.
Segundo Marques (2002), a AIDS é uma Síndrome de Imunodeficiência Adquirida, e seu vírus transmissor é o HIV. As formas de contágio podem decorrer de relações sexuais sem
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4 preservativo, transfusão de sangue, uso de seringa ou agulha contaminada, instrumentos perfuro cortantes não esterilizados, e de mãe infectada para o filho durante gestação, parto ou amamentação, também conceituada como transmissão vertical. Na época em que tal doença surgiu, as autoridades sanitárias mundiais a subestimaram e confiaram que poderiam ser controladas facilmente por tecnologias e pelos conhecimentos modernos.
Ainda de acordo com o autor, no Brasil a evolução da AIDS trouxe à tona contradições sociais, econômicas e culturais, e as estratégias de combate desenvolvidas constituíram-se num importante mecanismo para desvelar como o poder público brasileiro se organiza para elaborar e implementar as políticas públicas de saúde.
Camargo Júnior (1994, p. 21), declara que um problema que vem sendo abordado no estudo do HIV/AIDS é “o da continuidade/descontinuidade em relação à história das doenças infecciosas e a respostas políticas dadas a elas”.
Nesse sentido, a fragmentação das ações de combate à AIDS contribui para desvincular o atendimento prestado, do princípio da integralidade estabelecido pelo SUS, que tem por premissa a continuidade e a articulação das ações e serviços de caráter preventivo e curativo, tomados numa concepção de totalidade.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que em 1997 existia mais de 30 milhões de pessoas vivendo com HIV/AIDS em todo o mundo. Já em 2016 de acordo com UNAIDS Brasil (2017), estima-se que mais de 36,7 milhões de pessoas esteja vivendo com HIV. Segundo dados Weekly Epidemiological Record (WER, 1997), que é o principal instrumento da Organização Mundial da Saúde – OMS que “alerta o mundo sobre as alterações no comportamento das doenças infecciosas e as medidas recomendadas para o controle” (MARKLE, FISHER, SMEGO JR, 2015, p. 325), até o final daquele ano foram registrados no mundo 1.736.958 casos, sendo que 48,3% ocorreram nas Américas e o Brasil ocupava o segundo lugar em número de casos de AIDS notificados nesse continente.
De acordo com o Boletim Epidemiológico AIDS (BRASIL, 1998), produzido pelo Ministério da Saúde, observa-se que a maior porcentagem dos casos de AIDS se concentra na Região Sudeste.
A distribuição geográfica dos casos de AIDS no Brasil, constata que a epidemia tem se expandido em quase todos os Estados da Federação. Até agosto de 1998, distribuídos por todo o país, haviam sido notificados 140.362 casos, sendo que
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5 99.671 casos, ou seja, 71% da totalidade se concentravam na região Sudeste (GRYSCHE, 2000, p. 289).
Tal conjuntura demonstra a necessidade de se pensar em estratégias incisivas e eficazes enfocando o perfil demográfico e epidemiológico das populações mais suscetíveis, com a finalidade de reduzir significativamente as taxas de contágio da doença.
Segundo dados do Informe Epidemiológico HIV/AIDS nº 1/2015, emitido pelo Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das Infecções Sexualmente Transmissíveis, do HIV/AIDS e das Hepatites Virais (DIAHV), da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS), do Estado do Rio de Janeiro (2015), publicado anualmente, entre os anos 2000 a 2014, o município de Miracema encontrava-se no terceiro lugar no ranking das taxas de incidência de AIDS, com uma porcentagem de 22,5% dos casos, atrás apenas de Sapucaia com 28,4% e Três Rios com 24,1% (SVS/SES-RJ, 2015).
Tendo em vista o aumento dos casos de incidência da AIDS em todo o país, o tratamento como forma de prevenção foi implementado na saúde pública como medida para o controle da transmissão do HIV, sendo que tal forma tem sido reconhecida como uma das medidas mais importantes (BRASIL, 2014). Desta forma, o diagnóstico precoce da infecção pelo HIV e a propagação de informação, são pontos primordiais para alcançar o sucesso no controle e prevenção do tratamento.
2.2 A falta de profissionais credenciados para atendimento médico no programa HIV/AIDS atrelada à qualidade de vida dos portadores do vírus HIV
Há dois fatores que garantem ao paciente infectado com o vírus HIV uma melhor qualidade de vida, que pode ser garantida durante anos. São eles: o diagnóstico precoce e o tratamento adequado (BRASIL, 2004). Nesse sentido, descobrir a contaminação ainda no início da mesma é relevante para que o tratamento seja eficaz e mais rápido.
Assim, quando um paciente não é atendido imediatamente a sua chegada ao setor epidemiológico, este pode ter comprometida a sua qualidade de vida. Martins (1996) defende que a qualidade de vida é um conceito intensamente marcado pela subjetividade, envolvendo todos os componentes essenciais da condição humana, quer seja físico, psicológico, social, cultural ou espiritual.
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6 Ao tratar deste assunto, Paiva, Pupo e Barboza (2006, p.116-117), já haviam afirmado que o tratamento dos soros positivos não se encontrava com a devida atenção pelas entidades públicas de saúde, fato este, que veio a ser confirmado através da entrevista que foi realizada com a responsável pelo setor de epidemiologia, já que há um déficit de profissionais para o atendimento mais rápido aos portadores de HIV.
Nesse sentido, conforme apontado por também por Kasper et al (2013, p. 27) “(...) a deficiência de profissionais de saúde treinados é considerada uma razão para a falha do tratamento da AIDS”.
Vale ressaltar ainda, conforme afirma Ribeiro et al (2006, p.76) que:
a cronicidade da AIDS coloca os serviços de saúde, representados pelos profissionais que lidam diretamente com a doença, num patamar extremamente importante, não só para garantir a adesão dos pacientes, mas para que se tornem um elo entre o paciente, a doença e o tratamento.
Dessa forma, as estratégias de atendimento ao paciente portador do vírus HIV podem ser insuficientes se estas não virem acompanhadas por “questões estruturais e que estão na base dos determinantes da epidemia no Brasil, como as situações de preconceito e estigma; a estrutura dos serviços de saúde, que apresenta déficit de profissionais e insuficiência nas estratégias de acolhimento e retenção dos usuários” (NEMES e SCHEFFER, 2016, p. 23).
Como também defende Teixeira (2011, p. 27), “a ausência de profissionais qualificados dificulta a atenção ao indivíduo em sua integralidade e desfavorece a adesão ao tratamento”. Entretanto, ainda segundo Teixeira (2011, p. 27) “se assistência ao portador da doença for feito em sua totalidade, resultará em qualidade de vida e longevidade, levando o país a alcançar melhores resultados em relação ao controle e combate à epidemia”.
Baldioti (2010) cita o famoso sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, ao dizer “quem tem AIDS tem pressa”. Relata ainda que “no Rio, a corrida dos pacientes soropositivos da rede pública é para superar a falta de medicamentos e de profissionais para atendê-los”.
Uma reportagem do portal de notícias IG São Paulo demonstra que:
Um estudo divulgado na revista científica PLoS Pathogens feito pela Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, aponta que com apenas quatro meses de infecção inicial pelo vírus HIV o cérebro já pode sofrer danos por causa da sua reprodução no local. O estudo acompanhou 72 pacientes nos dois primeiros anos da infecção(IG SÃO PAULO, 2015).
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7 De acordo com Castanheira (2002, p. 140):
A necessidade de extensão dos serviços em função do comportamento epidemiológico da epidemia, ao lado da complexidade tecnológica de sua abordagem, exige uma composição entre essas duas alternativas organizacionais. De um lado, há necessidade de serviços especializados que possam acompanhar a complexidade do tratamento e as constantes atualizações que estas têm exigido, e que para isso necessitam profissionais especializados e dedicados exclusivamente a este programa.
Assim, quando um paciente procura atendimento e não encontra o médico especialista, consequentemente o mesmo precisa enfrentar uma longa demora para a realização de exames de CD4, que identificam como está o sistema imunológico e o exame de carga viral, que contabiliza o número de vírus presente em certa quantidade de sangue. O atraso do diagnóstico e do início do tratamento prejudica sobremaneira o portador de HIV.
3 Procedimentos Metodológicos
Inicialmente esta pesquisa foi bibliográfica com cunho qualitativo. Ludke e André (1986, p. 38), consideram que a análise documental deve buscar identificar informações factuais nos documentos, a partir de questões ou hipóteses de informações, considerando que essa análise deve utilizar qualquer material escrito que possa servir como fonte de informações: leis, regulamentos, autobiografias, jornais, revistas e estatísticas, dentre outros.
Assim, a presente pesquisa propiciou análises teóricas com base em documentos, como leis, fichas de investigação e notificação do Posto de Saúde de Especialidades Irineu Sodré, artigos e teses dispostos em base de dados como o Scielo e o Google acadêmico, além de livros, permitindo um melhor conhecimento sobre o contexto do tema proposto.
Trata-se também de uma pesquisa exploratória, classificada como estudo de caso, que, segundo Chizzotti (1995, p. 102), é uma caracterização abrangente para designar uma diversidade de pesquisas que coletam e registram dados de um caso particular ou de vários casos a fim de organizar um relatório ordenado e crítico de uma experiência, ou avaliá-la analiticamente, objetivando tomar decisões a seu respeito ou propor uma ação transformadora. Em relação aos procedimentos metodológicos, o estudo foi realizado na forma de pesquisa documental onde foram consultadas as fichas de investigação e as fichas de
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8 notificação que são preenchidas, enviadas ao Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), e arquivadas no Centro de Tratamento da AIDS, visando à obtenção dos dados fornecidos acerca das estatísticas da AIDS no município de Miracema - RJ. Nessas fichas é possível identificarmos o gênero dos pacientes, assim como os primeiros sintomas, informações sobre a parceria sexual, a faixa etária, a escolaridade, dentre outras informações.
De acordo com Fonseca (2002, p. 32), a pesquisa documental “recorre a fontes como tabelas estatísticas, jornais, revistas, relatórios, documentos oficiais, cartas, filmes, fotografias, relatórios de empresa, dentre outros”.
O local que foi o objeto de estudo é o Centro de Tratamento da AIDS, pertencente ao Posto de Saúde de Especialidades Irineu Sodré, situado à Avenida Nilo Peçanha, nº 59 – Centro, no município de Miracema, localizado ao Noroeste do Estado do Rio de Janeiro, tendo segundo o IBGE de 2010, população estimada de 26.843 habitantes. A equipe responsável pelo referido posto conta com uma Coordenadora, que também tem a função de psicóloga, um técnico de enfermagem que faz a coleta de sangue para os exames CD4 e Carga Viral, uma biomédica, responsável pela dispensação do medicamento, uma assistente que coleta informações pessoais dos pacientes e um médico infectologista.
Para se identificar o problema da pesquisa, entrevistou-se a responsável pelo setor de epidemiologia do município em questão, a Coordenadora e Psicóloga do Programa HIV/AIDS. Por meio de um questionário aberto, não estruturado composto por sete questões, apêndice em anexo. A referida Coordenadora esclareceu como acontece o atendimento dos pacientes portadoras do vírus HIV, que relatou no decorrer da entrevista que o maior problema que enfrenta é a falta de profissionais médicos capacitados para o atendimento a pacientes com diagnóstico de HIV/AIDS.
4 Desenvolvimento – Apresentação e discussão dos resultados
A pesquisa documental realizada nos registros do Setor Epidemiológico de Miracema, mais especificamente nas fichas de investigação e nas fichas de notificação preenchidas com os dados dos pacientes que são atendidos no Centro de Tratamento da AIDS, identificou-se que, desde o ano de 2012 até o ano de 2016 foram descobertos 37 casos do
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9 vírus HIV. Desses, 12 eram mulheres e 25 homens. A maior incidência aconteceu no ano de 2014, com 11 casos, conforme podemos notar no gráfico abaixo:
Gráfico 1 – Casos do vírus HIV no município de Miracema
Fonte: Elaborado pela autora com base em dados fornecidos pelo Setor epidemiológico de Miracema, RJ (2017).
Rodrigues e Praça (2010) demonstram através de sua pesquisa que entre os 544.846 casos de AIDS no país, a maior parte dos infectados são homens. Tal fato pode ser verificado através de nossa pesquisa, uma vez que, dentro da amostra de indivíduos abordada sobre tal assunto prevalece uma maior predominância do sexo masculino com diagnóstico do vírus HIV.
Gráfico 2 – Sexo dos pacientes com diagnóstico de HIV atendidos em Miracema
Fonte: Elaborado pela autora com base em dados fornecidos pelo Setor epidemiológico de Miracema, RJ (2017).
A faixa etária dos pacientes é bem variável. O mais novo possui 23 anos e o paciente mais velho tem 64 anos.
0 2 4 6 8 10 12 2012 2013 2014 2015 2016 Total Mulheres Homens 32% 68% Mulher Homem
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Gráfico 3 – Faixa etária dos pacientes com HIV
Fonte: Elaborado pela autora com base em dados fornecidos pelo Setor epidemiológico de Miracema, RJ (2017).
Como pode-se perceber, a maior faixa etária diagnosticada com HIV está entre 36 a 45 anos de idade.
Em entrevista realizada no setor epidemiológico de Miracema com a Coordenadora do Programa HIV/AIDS, foi identificado que há apenas um médico infectologista que atende somente uma vez por mês, o que dificulta o início do tratamento do paciente portador da AIDS.
De acordo com a profissional de saúde entrevistada, a forma de identificação da AIDS é feita através:
Teste rápido (HIV) disponibilizado pelo Ministério de Saúde, e caso o resultado seja positivo (reagente) a confirmação se dá através de exame laboratorial. Ainda de acordo com a profissional, esse tipo de teste facilitou consideravelmente o diagnóstico precoce de doenças infectocontagiosas, permitindo assim, um tratamento que, apesar de não ser tão rápido quanto se espera pela falta de profissionais, pode se tornar eficaz, possibilitando uma maior qualidade de vida aos pacientes atendidos (PROFISSIONAL 1).
No tocante a este assunto, pode-se observar uma melhora significativa na oferta de diagnóstico das doenças. Conforme Paiva, Pupo e Barboza (2006) destacam, antes já havia tido uma evolução na oferta e aconselhamento só para mulheres gestantes, hoje os testes estão abrangentes e mais acessíveis não só para tal público, atingindo desta forma, mais pessoas interessadas a fazerem o teste.
Ao ser questionada sobre “Como acontece o tratamento da AIDS?”, a Coordenadora responde que:
Primeiro o paciente faz o exame e se este der positivo, é encaminhado para o Programa. Uma vez encaminhado para o Programa, ele é notificado no SINAN. Depois de notificado, é agendada a consulta dele com o infectologista, que vai pedir
13% 46% 41% Até 35 anos Até 45 anos Acima de 45 anos
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11 os exames de base: CD4, carga viral, hepatite, VDRL, bioquímica, hemograma. Após a coleta desse sangue, iniciar o antirretroviral, que é decidido pelo próprio médico (PROFISSIONAL 1).
O SINAN é alimentado, principalmente, pela notificação e investigação de casos de doenças e agravos que constam da lista nacional de doenças de notificação compulsória (BRASIL, 2016). A utilização efetiva desse sistema possibilita a realização do diagnóstico de maneira dinâmica da ocorrência de um evento na população, podendo fornecer subsídios para explicações causais dos agravos de notificação compulsória, além de vir a indicar riscos aos quais as pessoas estão sujeitas, contribuindo assim, para a identificação da realidade epidemiológica de determinada área geográfica. É, portanto, um instrumento relevante para auxiliar o planejamento da saúde, definir prioridades de intervenção, além de permitir que seja avaliado o impacto das intervenções (PORTAL SINAN).
A próxima pergunta foi “Quais as especificidades do tratamento?”. A Coordenadora do programa explanou que:
Quem trata é o infectologista, que acompanha os pacientes com de HIV. Ele que determina a data iniciar o medicamento, quem informa o momento certo de iniciar o medicamento, ou seja, quem prescreve todo o tratamento. A especificidade é essa, o médico infectologista que determina toda a conduta do paciente, de início, meio e, se necessário, do fim do tratamento (PROFISSIONAL 1).
Quando questionada “Como acontece as capacitações para o médico que atende HIV”?, a Coordenadora relata que:
Não houve interesse de nenhum profissional médico, além do já existente, em se capacitar no tratamento do HIV, já que este deveria passar de 3 a 4 dias em uma oficina que é oferecida pela Sociedade de Infectologia do Estado do Rio de Janeiro - Filiada à Sociedade de Brasileira de Infectologia (SBI) no Rio de Janeiro, o que na visão do médico era complicado. Na realidade, vou ser honesta com vocês, nenhum médico nosso de Miracema nunca quis ser treinado para atender HIV. Já foi oferecido pelo Estado vários cursos, mas ninguém tem interesse de atender HIV. Esse infectologista é do Hospital Universitário Gaffrée e Guinle, que vem uma vez por mês atender aqui em Miracema. Agora, os outros médicos do município não são treinados para atender pacientes de HIV. As condutas são feitas com os pacientes de acordo com que o infectologista orienta, quando o paciente está internado no hospital, o médico do hospital entra em contato com o infectologista e ele passa orientação para o médico do hospital para que ele faça a conduta com o paciente. Não temos médicos em Miracema treinados pelo Estado para atender HIV (PROFISSIONAL 1).
Ao ser questionada sobre “Quantos médicos deveriam atuar nos Postos de Saúde para esse tratamento?”, a Coordenadora esclarece que: “O ideal seria termos pelo menos mais
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12 dois médicos para atender à demanda e para não deixar um paciente portador do vírus HIV que necessita de pronto atendimento na fila de espera”.
Ao ser indagada “O que acontece quando um possível portador do vírus HIV dá entrada no Setor de Epidemiologia? Ele logo recebe o medicamento?”. Segundo a Coordenadora:
Não há nenhum médico credenciado que possa prescrever o medicamento, já que não estão preparados para tal. Supondo-se que um paciente dê entrada no setor epidemiológico no primeiro dia do mês e o médico infectologista só atende todo dia 31, esse paciente terá que esperar até esse dia para ser avaliado e dar início ao tratamento. Dessa forma, se houvesse mais um médico credenciado, especializado no atendimento ao HIV, o paciente não precisaria esperar tanto e, consequentemente, não viveria com a angústia e a ansiedade da espera (PROFISSIONAL 1).
Dessa forma, de acordo com a Coordenadora do Programa, a combinação de medicamentos só pode ser prescrita por um médico infectologista. O paciente, por sua vez, passa por momentos que o levam a achar que vão morrer em razão da espera pelo atendimento médico.
Quando questionada sobre “Como os pacientes portadores do vírus HIV são atendidos, caso necessite de alguma intervenção relevante?”, a Coordenadora responde:
Os médicos que temos aqui acompanham o paciente se houver necessidade em outras situações, na ausência do infectologista, por exemplo, o paciente pode estar com febre, tossindo e não está bem, a gente encaminha ao pneumologista para fazer um RX para verificar se não é uma tuberculose ou pneumonia. As outras especificidades de clínica geral são acompanhadas por qualquer outro médico da clínica, um ortopedista, um neurologista ou um psiquiatra. Encaminhado para o serviço social, do serviço social é encaminhado para outro médico. Ou quando o próprio infectologista pede que outro médico de outra área avalie (PROFISSIONAL 1).
A entrevista aberta realizada com a Coordenação do Programa de HIV/AIDS permitiu identificar que, apesar dos exames serem todos realizados no Posto de Saúde de Especialidades Irineu Sodré, da oferta de medicamentos após a identificação do vírus HIV, do oferecimento de transporte para uso do paciente, o atendimento médico especialista é um entrave, já que este é realizado de mês a mês e, como já apontado, é um tempo muito grande para dar início ao tratamento da AIDS, que requer imediata assistência com vistas a minimizar o sofrimento do paciente portador do vírus HIV.
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5 Conclusão ou considerações finais
Quanto ao objetivo geral deste trabalho, que se preocupou em identificar os impactos da ausência de médicos especializados, no atendimento à pacientes soropositivos, cadastrados no Programa HIV/AIDS, no município de Miracema, RJ, foi possível identificar que o principal entrave no tratamento dos portadores do vírus HIV no município de Miracema é a ausência do médico infectologista que atende mensalmente. Necessário se faz a ampliação da cobertura do atendimento com profissionais médicos capacitados, qualificando assim os serviços oferecidos aos portadores do vírus HIV.
Foi possível identificar como impacto negativo o tempo de espera pelas consultas com o médico infectologista. Os pacientes, ao descobrirem que são portadores do vírus HIV, muitas vezes têm que esperar cerca de um mês para a consulta com o médico especialista que atende ao município mensalmente. Dessa forma, uma possível alternativa para auxiliar os pacientes na descoberta da síndrome, seria a disponibilização por parte das Unidades de Saúde de mais profissionais capacitados para acompanhamento dos mesmos, viabilizando um atendimento mais rápido, oportunizando que o paciente tenha confiança de que vai receber um tratamento urgente e adequado.
Aos objetivos específicos propostos, que foram investigar de que forma é dado o tratamento e a assistência médica aos portadores de AIDS no município de Miracema e verificar se as ações desenvolvidas nos programas de saúde pública estão pautadas na perspectiva de continuidade, constatou-se que o município oferece todo o tratamento para os pacientes cadastrados no Programa HIV/AIDS, realizado no Posto de Saúde de Especialidades Irineu Sodré, embora as consultas sejam realizadas uma vez ao mês com o médico infectologista. Um tempo de espera que sugere ser angustiante para o paciente que, ao descobrir a doença, requer de assistência e tratamento imediatos, visto à gravidade de sua integridade física e mental.
Conclui-se desta forma, que uma das alternativas para o problema da pesquisa seria a contratação de pelo menos mais dois médicos infectologistas, ou a capacitação de profissionais que já atuam no município.
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14 Diante do exposto, considera-se vital que todo indivíduo tenha direito e acesso a um serviço de saúde pública de qualidade, e que por ser a saúde uma política estrutural, deve sempre constar na agenda pública municipal. Portanto, é necessário que a sociedade e o poder público somem esforços para permitir um tratamento que tenha continuidade, acionando as instituições que compõe a rede de saúde pública, possibilitando que os serviços prestados se aproximem cada vez mais da realidade dos sujeitos envolvidos, considerando suas demandas, propiciando dignidade e qualidade de vida aos mesmos.
Nessa perspectiva, garantir a assistência e o tratamento universais para soropositivos é uma das estratégias mais importantes para se conter a epidemia do HIV. Acerca de novas proposições de trabalhos relacionados ao tema, sugere-se uma análise qualitativa que busque identificar se há fatores que podem motivar aos profissionais de saúde em questão a se especializarem, para atuarem nos programas de tratamento do indivíduo portador do vírus HIV.
6 Referências
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TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO – ARTIGO CIENTÍFICO
17
Apêndice:
Entrevista
Psicóloga/Coordenadora do Programa HIV/AIDS.
1. Como a AIDS é identificada? Em caso positivo, qual o próximo passo?
2. Como acontece o tratamento da AIDS?
3. Quais as especificidades do tratamento?
4. Como acontece as capacitações para o médico que atende HIV?
5. Quantos médicos deveriam atuar nos Postos de Saúde para esse tratamento?
6. O que acontece quando um possível portador do vírus HIV dá entrada no Setor de Epidemiologia? Ele logo recebe o medicamento?
7. Como os pacientes portadores do vírus HIV são atendidos, caso necessite de alguma intervenção relevante?