© by Graciela Constantino, 2009.
Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca da Faculdade de Educação/UNICAMP
Título em inglês : Theopric and practical in Carrier Guidance
Keywords : Career guidance; Psychodrama; Dramatic games; Adolescence; Identity; Education; Health Área de concentração : Psicologia educacional
Titulação : Doutora em Educação
Banca examinadora : Prof. Dr. Valério José Arantes (Orientador)
Profª. Drª. Marinalva Imaculada Cuzin Prof. Dr. Hélio Medrado
Profª. Drª. Orly Zucatto Mantovani de Assis Prof. Dr. Sérgio Ferreira do Amaral
Data da defesa: 13/07/2009
Programa de Pós-Graduação : Educação e-mail : [email protected]
Constantino, Graciella.
C766t Teoria e prática na Orientação Profissional / Graciela Constantino. – Campinas, SP: [s.n.], 2009.
Orientador : Valério José Arantes.
Tese (doutorado) – Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação.
1. Orientação profissional. 2. Psicodrama. 3. Jogos dramáticos. 4. Adolescência. 5. Identidade. 6. Educação. 7. Saúde. I. Arantes, Valério José. II. Universidade Estadual de Campinas. Faculdade de Educação. III. Título. 09-204/BFE
Dedico este estudo ao meu pai (in memorian) e a minha mãe, pelo compromisso de me conduzirem sem pouparem esforços no caminho do conhecimento; como também aos meus sobrinhos adolescentes: Julio Neto e Isabela, por inspirarem compreensão a respeito da Geração Zapping.
AGRADECIMENTOS
A Deus, pela centelha divina que, iniciou a família constituída por Julio (in memorian) e Maria Regina, sempre incentivando e sugerindo portas para um mundo de oportunidade e trabalho.
Aos mestres, amigos, colegas, pelo prazer de compartilhar.
Aos professores da banca examinadora por aceitarem contribuir desse Exame de Defesa. Ao Prof. Dr. Valério, orientador sábio e cauteloso, a quem respeito e admiro pela competência, dinamismo, humildade e solidariedade, que me proporcionou segurança diante do percurso teórico pantanoso atravessado, agradeço-te pelos valiosos ensinamentos.
Aos Pró-Reitores, Diretores, Coordenadores, à Chefia de Departamento de Pedagogia, e à Instituição UNEMAT — como um todo — na atual administração do Prof. Ms. Taisir Mahmudo Karim.
Aos funcionários da UNEMAT, em especial aos do Campus Universitário “Jane Vanini”, de Cáceres, Mato Grosso e aos do Departamento de Pedagogia: Andernice, Anderluci, Joilson, Reginaldo.
Aos alunos da extinta Escola de Aplicação e Valorização Humana “Lázara Faqueiro de Aquino”, da Faculdade de Educação da UNEMAT, na qual pude aprender costumes cacerenses e conviver com crianças e adolescentes que me ensinaram a valorizar a vida, nas pequenas expressões do dia-a dia.
À Nadir Camacho, funcionária da secretaria de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da Unicamp, atenciosamente agradeço-te; e também aos demais colegas daquela repartição administrativa.
Aos amigos (as) que atentamente ouviram queixas e satisfações desse momento precioso da vida. Aos colegas de curso, em especial, meus bons amigos do grupo de pesquisa, Mary e José Dias, que diante das adversidades apoiaram-me e incentivaram-me. Os meus agradecimentos pela socialização de conhecimentos, sugestões e amizade inesquecível.
Aos amigos e amigas da Faculdade de Educação da Unicamp, parceiros de discussões, expectativas conhecimentos.
Agradecimento especial aos Coordenadores, Professores e alunos do Ensino Médio, parceiros na implantação da Orientação Profissional na Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT).
Agradeço também aos brilhantes professores participantes do primeiro Mini-Curso de Orientação Profissional, implantando o SOP (Serviço de Orientação Profissional) na Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT).
A todos que contribuíram direta ou indiretamente com essa Tese, uma realização pessoal e profissional, meus sinceros agradecimentos.
A época moderna encontra-se, sobretudo, sob o signo da liberdade subjetiva. Essa se realiza na sociedade como um espaço, assegurado pelo direito privado, para a persecução dos interesses próprios; no estado como participação fundamental, em igualdade de direitos, na formação da vontade política; na esfera privada como autonomia e auto-realização ética e, finalmente, na esfera pública como processo de formação que se efetua através da apropriação da cultura tornada reflexiva (HABERMAS).
RESUMO
Essa pesquisa legitimou o Serviço de Orientação Profissional na Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), sendo realizada no Campus Universitário regional “Jane Vanini” do município de Cáceres-MT, um local conhecido como Pantanal, Brasil. Objetivou colaborar com as escolhas profissionais de adolescentes, minimizando a desinformação da escola do ensino médio em relação à temática e, as escolhas errôneas causadoras de evasões nos cursos universitários. Acrescenta contribuições acadêmicas teóricas e práticas na temática. A metodologia utilizada foi a qualitativa, a quantitativa e a Sociométrica, utilizando-se de pesquisa bibliográfica e de campo, com entrevistas dirigidas aos Gestores da Universidade e aos Cordenadores das dez escolas do ensino médio local, Questionários junto a professores e alunos e, uma formação teórica e prática destinada aos professores do Ensino Médio. A globalização produz uma massificação cultural, um descentramento de sujeito, em que as identidades estão homogeneizando-se de acordo com o consumo ditado pela órbita do mercado. Nesse contexto, o adolescente está desorientado em suas escolhas profissionais. A educação colabora com a crise de sentidos ao não atender o paradigma estético. Políticas públicas direcionadas à Orientação Profissional minimizam a desinformação, a dúvida na escolha de profissão, as evasões, pois ao auxiliar o centramento do sujeito, contribuí-se para escolhas mais assertivas e para a satisfação pessoal e profissional, colaborando-se também com as organizações flexíveis, e o bem-estar social.
Palavras Chave: Orientação Profissional, Psicodrama, Jogos Dramáticos, Adolescência, Identidade, Educação, Saúde.
ABSTRACT
This research legitimated a Career Guidance Service at University in Mato Grosso state in Cáceres-MT, regional University headquarter placed in Pantanal, Brazil. Objectived to collaborate with adolescents choose their careers, and minimizing the information few in high school relationships a matter, their wrong choices has been evasion in the colleges degreies. The thesis adds has brought academical theoric-practical contributions related in matter. The methodology used was a qualitative, a quantitative, and sociometrics analyses. Studies making use of biographical and in the field research through interviews with chancellors, principals, coordinator, questionnaires for teachers and students and vocation training for teachers from public and private high schools. The globalization makes a cultural mass, decentralizing the subject where identities have been homogenized according to the consumption established by the market orbit. In this context, adolescents have been confused about future careers, and Education has not met the aesthetic paradigm. Public politics focused on Career Guidance minimize the few information, the doubt choose careers, and evasions when helping to center people and so they contribute to more assertive choices and personal and professional satisfaction of flexible organizations and social wellness.
Keywords: Career Guidance, Phychodrama, Dramatic games, Adolescence, Identity, Education, Health.
LISTA DE SIGLAS
AIOSP – Associação Internacional de Orientação Escolar de São Paulo IAEVG – Associação Internacional de Educação e Orientação Profissional CRUB − Conselho dos Reitores das Universidades Brasileiras
DASP − Departamento de Administração do Serviço Público DCE − Diretório Central dos Estudantes
EMAJ − Escritório Modelo de Assistência Jurídica FAE – Faculdade de Educação
FAED − Faculdade de Educação FE − Faculdade de Educação
GEINE – Grupo de Estudos de Educação Inclusiva e Necessidades Educacionais Especiais IDORT − Instituto de Organização Racional do Trabalho
ISOP − Instituto de Seleção e Orientação Profissional LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional PCN – Parâmetros Curriculares Nacionais
SEDUC − Secretaria de Educação do estado de mato Grosso
SENAC – Serviço Nacional de Aprendizado Social ou Serviço Nacional de Formação Profissional.
SENAI − Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial SESC − Serviço Social do Comércio
SOP − Serviço de Orientação Profissional
PEFOPEX – Programa Especial de Formação de Professores em Exercício PROEC − Pró-Reitoria de Educação e Cultura
PROEG − Pró-Reitoria de Educação e Graduação UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas UNEMAT – Universidade do Estado de Mato Grosso MEC – Ministério da Educação e Cultura
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO... 001
CAPÍTULO 1 − ORIGENS E CONCEITOS DA ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL ARTICULADOS À TEORIA DO PSICODRAMA ... 009
1.1. Psicodrama na Orientação Profissional ... 029
CAPÍTULO 2 − IDENTIDADE, DIFERENÇAS E EXCLUSÃO: CONEXÕES COM A EDUCAÇÃO E A ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL ... 053 CAPÍTULO 3 − DIALOGANDO COM A ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL: ENCONTROS NA INTERFACE PSICODRAMÁTICA ... 069
3.1. Formação de Professores em Orientação Profissional ... 075
3.2. Síntese das Avaliações da Formação de Professores em Orientação Profissional Dirigido ao Ensino Médio da Rede Pública e Privada do Município de Cáceres, MT ... 092
3.3. Análise e Interpretação dos Dados das Avaliações da Formação de Professores em Orientação Profissional... 094
CAPÍTULO 4 CARACTERIZAÇÃO DO AMBIENTE SOCIOCULTURAL SOB O OLHAR PSICODRAMÁTICO ... 4.1. Apresentação dos Campis: Cursos de Graduação, Especializações e Pós-Graduações com os Demonstrativos dos Projetos de Pesquisas de Extensão e Cultura e os Cursos Regulares, Dados da Educação Indígena, do Ensino à Distância e Quadro de Vagas do Vestibular - UNEMAT ... 099 109 METODOLOGIA DA PESQUISA... 121 1. Caracterização da Pesquisa... 121 2. Sujeitos da Pesquisa ... 124 3. Problema... 125 4. Justificativa ... 125 5. Objetivos ... 126 5.1. Objetivo Geral ... 126 5.2. Objetivos Específicos ... 126
6. Procedimentos para Coleta das Respostas ... 127
6.1. Testes Sociométricos da Formação de Professores em Orientação Profissional... 129
7. Orgãos Administrativos da UNEMAT Participantes da Pesquisa... 131
8. Escolas Públicas e Privadas do Ensino Médio do Município de Cáceres, MT ... 131
10. Amostragem Populacional dos Professores e Alunos das Escolas do Ensino Médio Público
e Privado do Município de Cáceres, MT... 133
ANÁLISES E INTERPRETAÇÃO DA COLETA DE DADOS ... 135
1. Apresentação da Análise e Interpretação da Coleta de Dados... 135
1.1. Análises Quantitativa dos Dados Pesquisados... 136
1.2. Gráficos Referentes aos Sujeitos da Pesquisa ... 137
1.3. Análise Sociométrica ... 145
1.4. Análise Qualitativa: Categorização das Análises e Interpretações da Coleta de Dados das Entrevistas e dos Questionários dos Sujeitos da Pesquisa... 148
1.4.1. Categoria A: Percepções dos Gestores ... 149
1.4.2. Categoria B: Necessidades de Intervenções ... 151
1.4.3. Categoria C: Expectativas de Intervenções. ... 154
1.5. Categorias de Análise e Interpretação dos Questionários Dirigidos aos Professores das Escolas Públicas e Privadas do Ensino Médio ... 156
1.5.1. Categoria A: Necessidades dos Professores ... 157
1.5.2 Categoria B: Expectativas dos Professores. ... 159
1.5.3. Categoria C: Dúvidas dos Alunos na Percepção dos Professores ... 161
1.6. Categorias de Análise e Interpretação dos Questionários Dirigidos aos Alunos das Escolas Públicas e Privadas do Ensino Médio. ... 164
1.6.1. Categorias A: Necessidade do Serviço de Orientação Profissional... 164
1.6.2. Categorias B: Expectativas dos Adolescentes ... 167
1.7. Análise e Interpretação dos Testes Sociométricos da Formação de Professores em Orientação Profissional... 171 CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES... 175 REFERÊNCIAS IBLIOGRÁFRICAS... 193 BIBLIOGRAFIAS CONSULTADAS ... 203 ANEXOS ... 213
ANEXO 1 – Projeto Piloto: A Relevância da Realização do Serviço de Orientação Profissional Focado nas Escolas Públicas e Privadas ... 214
ANEXO 2 – Entrevistas Dirigidas aos Gestores da UNEMAT ... 238
ANEXO 3 – Entrevistas aos Coordenadores de Escolas Públicas e Privadas do Ensino Médio... 241
ANEXO 4 – Questionário para o Professor do Ensino Médio ... 245
ANEXO 5 – Questionário para o Aluno do Ensino Médio... 246
ANEXO 6 – Questionário para o Aluno do Ensino Médio utilizado na Formação de Professores em Orientação Profissional ... 247
INTRODUÇÃO
O homem contemporâneo, colocado diante das múltiplas funções que deve exercer, pressionado por múltiplas exigências, bombardeado por um fluxo ininterrupto de informações contraditórias, em aceleração crescente que quase ultrapassa o ritmo orgânico de sua vida, em vez de se integrar como ser individual e social, sofre um processo de desintegração. Aliena-se de si, de seu trabalho, de suas possibilidades de criar e de realizar em suas vidas conteúdos mais humanos (FAYGA OSTROWER, 2003, p.05).
Há uma desconsideração por parte das políticas públicas quanto à Orientação Profissional. Tal descaso está comprometendo a competência profissional e, em uma esfera mais ampla, (des) valorizando ainda mais o trabalhador brasileiro e a sua saúde.
As primeiras indagações nessa área de conhecimento culminando nessa pesquisa intervencionista possibilitaram a constatação de tais fatos, iniciando-se a partir da escuta junto aos alunos dos primeiros anos de graduação de diversos cursos universitários, sendo constantes queixas de escolha errônea de curso, insatisfação pelo curso, ou ainda, desistência, em um período de quinze anos de docência na UNEMAT (Universidade do Estado de Mato Grosso).
Outros questionamentos aconteceram por ocasião da função de Coordenadora da extinta Escola de Aplicação e Valorização Humana “Lázara Falqueiro de Aquino” da UNEMAT, contendo à época dezoito professores, ocorrendo reuniões pedagógicas semanais, possibilitando socializações de conhecimentos interdisciplinares, diálogos a respeito do comportamento indisciplinado do adolescente e, uma preocupação quanto ao futuro dos alunos diante da complexidade do sistema educacional e da sociedade da “era das incertezas”, dentre outras discussões.
Representou um desafio, desenvolver essa pesquisa, já intervindo na formação de professores em Mato Grosso, fornecendo conhecimentos teóricos e práticos de Orientação Profissional, utilizando-se dos Jogos Dramáticos da Teoria do Psicodrama e dirigidos aos professores do Ensino Médio, preparando-os para serem multiplicadores junto às escolas, objetivando atender a defasagem dessa temática.
A pesquisa destacou como problema fatos, tais como a desinformação das profissões existentes no mercado, uma desorientação na escolha da profissão, a inexistência de políticas públicas educacionais para com a Orientação Profissional e, um disciplinamento e automação
histórica na subjetivação da identidade comprometendo a espontaneidade, essencial para a saúde humana.
Foi uma pesquisa pioneira, exigindo reflexões constantes diante das perplexidades e indignações, porém o apoio recebido nas orientações e o sentimento prazeroso em finalmente apresentá-lo, já com a primeira intervenção realizada, com elogios institucionais e dos participantes, evidencia que foi significativo e proveitoso cada momento desempenhado, cada indignação, cada satisfação, em prol do bem-estar social.
Nesse sentido, apresenta-se o primeiro Capítulo contendo as origens e os conceitos da Orientação Profissional articulados à Teoria do Psicodrama, focando as transformações paradigmáticas: do mecanicista ao sistêmico, pois as novas descobertas das ciências físico-matemáticas despertaram as ciências humanas para novos conhecimentos e compreensões do universo.
O caos instalado pela queda das “verdades”, após a década de cinquenta, na segunda metade do século XX também provocaram transformações nas ciências humanas e sociais, causando desequilíbrios e novas formas de pensar e agir no mundo. Descreveu-se e problematizou-se nesse capítulo a Orientação Profissional desde sua episteme, articulando suas múltiplas dimensões: singular, social, econômica, educacional e cultural.
A Orientação Profissional está remodelando-se, buscando intervenções que possam atingir e suprir mais prontamente o adolescente a que caminho escolher para o futuro, pois o modelo cartesiano baseado na psicometria não mais atende o mercado oscilante e flexível, que necessita de profissionais polivalentes e espontâneos.
A nova organização flexível do trabalho prioriza os conteúdos qualitativos ao invés dos quantitativos, focando modos de produção, de gerenciamento e relações humanas pela perspectiva do modelo organizacional toyotista, distantes do tradicional modelo fordista.
O povo brasileiro foi subjetivado desde o Brasil Colônia por princípios éticos balizados pela educação, moralização e religião, na qual se sabe de dominação e de subserviência, assim como as relações sociais manipuladas pela tríade Trabalho-Educação-Saúde, de poucas condições de assistência e o modo de produção gerado pela mão-de-obra escrava.
Somente após a Lei Áurea, com a libertação dos escravos, que o Estado assume a educação, antes exercida pelos religiosos. Com a República e o advento da industrialização
torna-se necessário profissionalizar os trabalhadores e importar o modelo para recrutamento e torna-seleção de pessoal.
A Psicologia do trabalho foi a modalidade que administrou os conhecimentos da Orientação Profissional, tendo como instrumentos a psicometria européia e americana, causa de sua extinção no contexto educacional que não aceitou os princípios elitistas e importados a que ela se submeteu.
Ao se reformular e se adequar ao novo mundo do trabalho flexível, visibiliza sua inclusão na educação desde os primeiros anos da escolarização, pois que cumpre o papel de “ajudar” o jovem na sua orientação profissional, nas decisões de cursos, ocupações geradoras de auto-sustento, realização pessoal e a formação de identidade profissional competente que está articulada à qualificação profissional.
A Orientação Profissional enfocava a quantificação, a produção e, não era comprometida com os conflitos nas relações pessoais dos trabalhadores brasileiros, isto é, mais associada ao capital do que a saúde do trabalhador. Ela objetivava com sua prática aumentar a eficiência e a produtividade e nestas circunstâncias pode ter contribuído para prejudicar a criatividade e a saúde do trabalhador.
Passa por transformações, por reorganizações de suas técnicas e procedimentos, revendo seus critérios de maturidade para as escolhas profissionais, baseados nas características de personalidade: a determinação, a responsabilidade, a autonomia, o autoconhecimento, conhecimento da realidade educativa e sócio-profissional, e também incluindo outros como solicita o mercado: a flexibilidade, a auto-superação e o complexo espontaneidade/criatividade.
Há aumento significativo de profissões a cada dia no mercado em função das rápidas transformações globais, confundindo, causando mais dúvida quanto à escolha da profissão. A teoria da Psicologia pioneira e, “de ponta” que mais atende a necessidade do mercado toyotista de relações horizontais, as reflexões dos jovens que se desenvolvem e aprendem nas identificações secundárias grupais é o Psicodrama.
O percurso do genial criador do Psicodrama, Jacob Levy Moreno, lança luzes à Psiquiatria e à Psicologia com a teoria e representação de papéis, fazendo com que a humanidade tenha acesso ao universo subjetivo por meio da dramatização dos personagens da cena, visando alcançar a espontaneidade total.
Introduziu terminologia própria em dinâmica de grupo, como psicodrama, sociodrama,
sociometria, desempenho de papéis, tele, átomo social, inversão de papéis, etc. Apropriou-se do
teatro para desenvolver sua teoria e método adaptando-os ao contexto clínico e psicopedagógico, formando psiquiatras, psicólogos, professores, pedagogos, tornando-os especialistas em relações humanas em todo o mundo.
O Psicodrama, de embasamento filosófico fenomenológico e existenciais, de concepção holística, confia no ser humano enquanto ser de interação, de socialização, bem diferente da concepção do sujeito psicanalítico: frustrado e cindido desde o nascimento por perder o estado de completude, de unicidade com a mãe, o seu universo. Sendo o sujeito psicodramático cósmico e relacional e, a Socionomia, de interesse das Ciências Sociais e Humanas é a base da Psicoterapia de grupo.
As suas pesquisas, como “As grandes sínteses”, inovam e inscrevem na Psiquiatria e na Psicologia uma nova era de intervenção em saúde mental, desconstruindo antigas e limitadas compreensões de sujeito e de mundo que restringem o psiquismo em seu tempo, espaço,
realidade e cosmos.
Moreno apresentou para a humanidade uma concepção ética e existencial de valorização das dimensões humanas, da conscientização, de possibilidade da liberdade para escolhas cotidianas mais responsáveis e também relações humanas mais autênticas, sinceras, espontâneas e saudáveis.
Ao articular os quatro elementos universais que tangenciam as ciências possibilitou novas compreensões e intervenções na Psiquiatria, Psicologia e Psicopedagogia, pois apresentou sua Teoria imersa em paradigmas transformadores como o sistêmico e inter-relacional de Frijof Capra, o da complexidade Edgar Morin e, interativos de Jean Piaget.
Os Jogos Dramáticos possibilitam o rebaixamento da ansiedade, do clima de tensão, proporcionando campo relaxado, contexto mais tranquilo e alegre tanto ao jovem adolescente para a promoção do autoconhecimento e (re) orientação na escolha da profissão, como ao trabalhador ao qual já se exige flexibilidade e polivalência, colaborando para o bem-estar do mundo do trabalho atual toyotista que requer profissional centrado e espontâneo, não perturbado pelas neuroses e descomprometido com a realidade social.
A ação dramática presente nos Jogos do Psicodrama objetiva promover o “encontro” e a emergência do complexo espontâneo-criativo do jovem, harmonizando e auxiliando a reorganização interna, colabora-se com uma formação moral mais ética de Habermas.
A realidade conhecida como globalizada em que possibilita o acesso do jovem às outras culturas sem sair de casa, utilizando-se da Internet, mas que por outro lado está produzindo personalidades padronizadas, de acordo com cada órbita do mercado, independente do contexto geográfico, nacional, cultural e local.
Há um mercado global apresentado como capaz de homogeneizar o planeta, (des) norteado pelas políticas internacionais, desvalorizando as culturas locais, na qual os padrões de consumo são produzidos pela mídia que atende aos desejos financeiros do mercado dominante, que estimula o culto desenfreado ao consumo como se o mundo mais belo e estético fosse a padronização, a massificação das identidades ditada pela mídia, e não as relações humanas horizontais, isto é, transparentes e sinceras, também roubando a poesia, a arte, a estética e distanciando o sujeito da essência humana criadora.
Os adolescentes buscam autoconhecimento, auto-apoio, esclarecimento de suas dúvidas, sendo necessário o grupo rumo à identidade, para a transição ao mundo externo, pois a conduta do adolescente está balizada pela “normal anormalidade” em que os processos de mecanismos de projeção, introjeção e dissociações são intensas.
Vivenciam uma personalidade permeável, mutante, com freqüentes mudanças de humor acompanhadas de depressão e luto. A experiência grupal baliza a identidade adulta e, com os novos valores, hábitos, costumes e identificações, se auto-define, aprende a desempenhar novos papéis sociais e profissionais.
No segundo capítulo foram relacionadas as temáticas da identidade, da diferença e da exclusão, se destacando as conexões com a educação, pois, contribui para a formação de identidades mais espontânea e criativa, nessa perspectiva, significa o olhar inclusivo e de respeito às diferenças individuais, sociais e culturais; além de significar a valorização de habilidades construídas sócio-historicamente.
Incluindo a Orientação Profissional como eixo transversal em seu currículo, colabora-se para que haja profissionais mais satisfeitos no mercado de trabalho e mais bem-sucedidos, com mais competência profissional.
Por essa razão, a Orientação Profissional se reformula, adaptando-se ao cidadão do novo milênio, considerando como fundamental a formação da cidadania, pois em tempos de desintegração da percepção de si e do outro, há uma “crise de sentidos” por um lado e por outro uma geração Zapping, descentrada, com afeto deslocado para os instrumentos da mídia: vídeos-game, chats de relacionamentos, Orkut, Messenger, MP3, MP4, Ipods, celulares e outros.
Ao atender as dimensões cognitivas e afetivas, o Serviço de Orientação Profissional (SOP) contribui para a busca de sentidos que remete à necessidade de realização, pois intervém nas necessidades de estimulação, de motivação e de valorização humana. Se a perspectiva educacional é formar cidadãos autônomos e “lançando luzes” ao paradigma estético, o resgate da espontaneidade lhe é parceiro.
Oferecer possibilidade para despertar a potencialidade criativa citada por Guatarri e o acesso aos valores do paradigma estético, potencializar a percepção do novo, desequilibrando as conservas culturais, se combate o medo que imobiliza o desejo e, colabora-se com a espontaneidade, contribuindo para com o processo de vir-a-ser, cujos valores são o Bem, o Belo e o Verdadeiro, sendo capaz de reinventá-lo, transformá-lo.
A Educação ao utilizar o Psicodrama seja como recurso pedagógico ou psicopedagógico contribui para um prazeroso, autêntico ato pedagógico, para relações humanas horizontais, combatendo a “trincheira” que se tornou a prática da docência.
No terceiro capítulo apresenta um diálogo entre a Orientação Profissional e o Psicodrama, composto por doze Encontros de Profissionais da Educação, no formato de uma formação de professoras na Orientação Profissional, registrada por fotografias e contendo as sínteses das avaliações dos professores participantes.
A metodologia dessa pesquisa se fundamenta na pesquisa qualitativa, quantitativa a partir de elaboração de tabelas e de gráficos, e metodologia psicodramática a partir de sociogramas, também embasada na fenomenologia. Contou com os instrumentos da Entrevista, sendo dirigida aos Gestores da Universidade do Estado de Mato Grosso e aos Coordenadores das Escolas Públicas e Privadas de Ensino Médio e com o Questionário efetuado junto aos professores e alunos dessas escolas.
Objetivando implantar o Serviço de Orientação Profissional na Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), foi realizada pesquisa bibliográfica de diversos referenciais teóricos, como também de campo, possibilitando a identificação, as análises e interpretações das
informações, das necessidades, das expectativas e sonhos e, a insuficiente intervenção nessa área do conhecimento.
Compreendeu-se a partir das análises e interpretações dos dados das entrevistas dirigidas aos Gestores da Universidade que, a ausência de políticas públicas educacionais em Orientação Profissional está inviabilizando escolhas profissionais mais assertivas, ao mesmo tempo gerando evasões dos cursos universitários, comprometendo o quadro de vagas da universidade.
Através dos questionários dirigidos aos alunos se percebeu uma desinformação de profissões, dúvidas nas escolhas, gerando insegurança em relação às expectativas e sonhos para o futuro, conseqüente da percepção da instabilidade do mundo do trabalho dos pais, deixando a escolha profissional para o final do Ensino Médio.
Atendendo as necessidades codificadas na categorização dos dados de acordo com “núcleos de sentido” de Bardin e mensuração deles por meio de tabelas e gráficos, foi realizado a primeira formação em Orientação Profissional junto aos professores do Ensino Médio e, as análises e interpretações da coleta de dados, obtidas nas avaliações demonstram o sucesso da implantação do Serviço de Orientação Profissional (SOP) e a expectativa da continuidade desse trabalho, que será realizado a partir de um Projeto de Extensão da Universidade do Estado de Mato Grosso, correspondendo à solicitação dos sujeitos da pesquisa.
Na análise e interpretação dos dados coletados, foi constatada a necessidade do Serviço de Orientação Profissional e ao implantá-lo na Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), cumpriram-se os objetivos dessa pesquisa, fornecendo uma formação de conhecimentos teóricos e práticos aos primeiros participantes da rede Pública e Privada do Ensino Médio.
A implantação desse projeto busca contribuir para a minimização da evasão dos cursos universitários, com o conhecimento das profissões existentes no mercado, escolhas mais assertivas e profissionais mais satisfeitos pessoal e profissionalmente, podendo essa escolha representar oportunidade única para se cursar o Ensino Superior numa universidade pública e poder contribuindo para com o bem estar e o desenvolvimento social e econômico de sua localidade.
Entretanto, vale ressaltar que a crença no Serviço de Orientação Profissional (SOP) para o Estado, intervindo junto aos professores do Ensino Médio, não significa solucionar todos os outros conflitos apresentados, mas ao esclarecê-los e promover meios para minimizá-los, se
espera colaborar para a formação de melhores cidadãos cósmicos, de hoje e dos próximos milênios.
CAPÍTULO 1
ORIGENS E CONCEITOS DA ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL
ARTICULADOS À TEORIA DO PSICODRAMA
O homem é algo mais que um ente psicológico, biológico, social, e cultural: é um ente cósmico. Porque o bem é co-responsável por todo o universo, por todas as formas de ser e por todos os valores, ou sua responsabilidade não significa absolutamente nada... Além da “vontade de viver” de Shopenhauer, da “vontade de domínio”de Nietzsche e da “vontade de valer” de Weininger, proponho a “vontade do supremo valer”. A partir daí, apresento a hipótese de que o cosmos em devir seja a primeira e última existência e o valor supremo (MORENO, 1978, apud Martín 1972, p.18).
A complexidade e a perda de certeza devido à crise estrutural instalada diversas realidades contemporânea-econômica, social, política e moral, evidenciando o caos, remete à indagações a respeito da existência e ao desenvolvimento do pensamento, tornando-o relativo, paradoxal, e refletir a Orientação Profissional pela ótica da era da incerteza, do caos, desmascarando “verdades” construídas historicamente, torna-se um desafio.
Já que, atualmente a Orientação Profissional objetiva remodelar-se, reconstruir-se no terreno pantanoso que ela edificou-se, gerando profunda mudança de percepção quanto ao seu papel na sociedade e contribuindo para o pensamento do jovem hoje se adaptar a um mercado de trabalho instável e às mudanças paradigmáticas dessa era de incertezas, dentre eles, o paradigma técnico-organizacional.
Situando na história as mudanças paradigmáticas dos dias atuais, por exemplo: o paradigma técnico-organizacional, que refletem diretamente na Psicologia e na Orientação Profissional, anteriores à segunda metade do século XX, em que físicos como Werner Heisenberg, Albert Einstein, e Neils Borh, pesquisadores da estrutura dos átomos, da natureza dos fenômenos subatômicos e da expansão do universo, colocaram o mundo em contato com a nova realidade e visão de mundo.
Um universo concebido a partir do paradigma sistêmico, não mais estático, mas dinâmico, complexo, interdependente:
(...) o mundo material que então observavam já não se assemelhava a uma máquina, construída de uma multidão de objetos distintos; surgia - lhes em vez disto, como um todo indivisível, uma rede de relações que incluía o observador humano de modo essencial (CAPRA, 2005, p. 13).
A ciência clássica concebia o universo de forma linear, estável e determinado, hoje e, a partir dos novos instrumentos, sabe-se que há instabilidades e flutuações, bifurcações e, em ciências humanas e sociais há desterritorializações reinando a idéia de assimetria, de desconexão, de descentramento e de transformação nesse período de transição, permitindo que “a ciência nos dê do futuro uma imagem menos mutilante do que o desenvolvimento automático das leis deterministas clássicas” (PRIGOGINE, 1993, p.44).
As transformações e inovações, advindas de novas descobertas, bem como dos avanços na microeletrônica, desencadearam uma reestruturação em todas as atividades industriais e de serviços, assim como nas estruturas das organizações e no próprio comportamento das pessoas, para que se adaptassem ao uso de computadores e de novos instrumentos de comunicação nas indústrias, possibilitando uma série de inovações e transformações nas organizações e na gestão.
Nesse platô, direcionando-o às ciências humanas, focando a Psicologia e, por fim, a Orientação Profissional, há inquietação quanto à formação do cidadão do futuro, não mais desconectado do mundo do trabalho. Assim, se pensa a Orientação Profissional como eixo educativo, em que se aplicada desde o início da escolarização promoverá escolhas profissionais mais bem adaptadas à cultura do jovem aluno.
A nova organização flexível do trabalho coloca em questão os pressupostos tradicionais e o conteúdo qualitativo passa a ser valorizado, tornando utópico articulá-lo à Orientação Profissional, se não dimensioná-lo às multiplicidades de referências teóricas, concebendo a segunda como salutar na conectividade triádica: Trabalho-Educação-Saúde.
As transformações no modelo organizacional geradas pela revolução tecnológica e consequentes adaptações ao mundo da microeletrônica, geraram mudanças estruturais, em que opõe a centralização à descentralização, a alta hierarquização inerente às organizações burocráticas a horizontalização das estruturas organizacionais, a organização das tarefas por especialidade à organização flexível e multifuncional, e uma estrutura totalmente voltada ao produto, agora orientada ao mercado-cliente.
Diante do novo modelo de mercado, novas adaptações são constantes e também a Psicologia que administra os conhecimentos da Orientação Profissional, legitimando um modelo elitista de atingir a sociedade, revê formas mais condizentes de atuar e atingir o jovem diante das transformações globais e do aumento do número de profissões no mercado.
Também a Orientação Profissional busca novas saídas para atender a esse novo mercado de multiprofissões e dúvidas em suas escolhas. Contudo, anteriormente a essa problematização, será descrito o contexto histórico do surgimento da Psicologia no Brasil e, consequentemente, da Orientação Profissional.
A histórica da Psicologia no Brasil inicialmente restringiu-se à observação do pensamento e do comportamento, na época do Brasil Colônia, aparecendo “nas obras literárias dos religiosos dos séculos XVII e XVIII, associando pensamentos psicológicos à educação, à moral, e à religião” (MOTTA, 2005, p. 61).
O interesse e a reflexão da evolução do pensamento e do comportamento revelam-se em obras de outros campos do conhecimento: a teologia, a pedagogia, a medicina, a política e a arquitetura, daquele período. No Brasil Colônia, a formação da cognição e a cristalização dos comportamentos foram inscritas a partir da educação, da moralização e da religião, exercendo mecanismos de controle e de poder na cultura, remetendo à cognição e ao comportamento um disciplinamento, um ordenamento histórico:
Os mecanismos disciplinares são, portanto, antigos, mas existiam em estado isolado, fragmentado, até os séculos XVII e XVIII, quando o poder disciplinar foi aperfeiçoado como uma nova técnica de gestão dos homens. Fala-se freqüentemente em invenções técnicas do século XVII; as tecnologias químicas, metalúrgicas, etc. Mas, erroneamente nada se diz da invenção técnica dessa nova maneira de gerir os homens, controlar suas multiplicidades, utilizá-las ao máximo e majorar o efeito útil de seu trabalho e sua atividade, graças a um sistema de poder suscetível de controlá-los (FOUCAULT, 1993, p.105).
À época, o disciplinamento e conseqüente alienação à realidade decorrente dele, eram exercidos pelas intervenções ideológicas do Estado, da Igreja e da medicina, que se associaram e subjetivaram a cognição e o comportamento para a ordem e a obediência civil acreditando na salvação eterna, instaurando os mecanismos de controle e de poder, que resultam na automação e subserviência do povo brasileiro desde a sua colonização.
Vale recordar, porém, que foi o fracasso da tentativa de aculturar o índio como trabalhador que incentivou os colonizadores civis e religiosos a adotarem no século XVIII o escravagismo e a demografia nacional. Desde 1500, calcula-se que houve extermínio de cerca de dois milhões dos povos indígenas. Ainda sobre os povos indígenas, na legislação portuguesa a questão era muito contraditória, pois ora os índios eram considerados e aceitos como súditos do rei, ora desconsiderados e estigmatizados como bárbaros:
Quando convinha considerá-los como súditos, exigia-se deles uma obediência cega às leis de Portugal, codificadas em longas ordenações escritas, impossíveis, portanto, serem compreendidas pelos índios, que não dominavam a leitura e a escrita. Por outro lado, quando se desejava considerá-los como bárbaros e incivilizados. Todas as ações violentas eram aceitas para capturá-los e, segundo a visão dos colonizadores, necessárias para arrancá-los do estágio de barbárie, alcançando-os ao da civilização. Assim, de uma forma como de outra, a violência sobre o índio era aceita e plenamente justificada pelos colonizadores (SIQUEIRA, 2002, p.63).
A educação, tanto para a população indígena quanto para os brasileiros miscigenados, era tarefa dos religiosos. Com a reforma de 1890, o Estado passa a exercer a função educadora, pois o desejo desenvolvimentista objetivava a industrialização do país equiparando-os aos grandes países europeus e a educação passa a ter como meta profissionalizar o brasileiro, com vistas à modernidade capitalista.
Nessa transição do Brasil colônia e o desenvolvimento da economia do modelo fordista, o crescimento nos moldes da modernidade precisava trocar a mão-de-obra escrava pelo trabalhador livre, mas obediente. Para tanto, era preciso educá-los nos parâmetros instituídos pelo projeto do Estado que detinha o triângulo do poder:
Esse triângulo de poder aparece num mesmo movimento de obediência política; Estado, Igreja e medicina associam-se na busca de saberes e poderes para o controle dos aspectos da vida humana, e por isto cada vértice é complementar. Aos médicos, a salvação do corpo; aos sacerdotes, a salvação da alma; e ao estado, o controle da força de trabalho. (MOTTA, 2005, p.63)
Somente no final do Brasil Império, com os interesses dos trabalhadores, dominantes da vida política, social e intelectual com seus interesses voltados à modernização, passaram a postular a extinção do regime de trabalho escravo, de três séculos de exploração e à Lei Áurea na data de 13 de maio de 1888, junto à liberdade dos cidadãos africanos dela decorrente, que não significaram a igualdade.
A República marcou novo período na História: a industrialização e, com ela, a influência européia e americana nos modelos desenvolvimentistas agro-industriais e tecnológicos. A Revolução Industrial teve como símbolo a máquina a vapor, devido à introdução de máquinas nas indústrias, inventada em 1769, pelo escocês James Watt (1736-1819).
Sob o prisma do trabalho, esse período promoveu transformações paradigmáticas técnico-organizacionais, pois por meio das máquinas se faz possível transformação da natureza. Um dos
marcos deste período foi Henri Ford que em 1913, segundo Lisboa “introduz em sua fábrica Ford
Motor Company, em Detroit, um modelo de produção e de gestão baseado em um sistema de
inovações técnicas e organizacionais, tendo como objetivos a produção e o consumo em massa, mais conhecida como produção em série” (LISBOA, 2002, p. 35).
Nas primeiras décadas do século XX no Brasil havia mão-de-obra e mercado relativamente concentrado, matéria-prima disponível e em conta, capacidade geradora de energia e sistema de transportes ligados aos portos.
O desequilíbrio setorial do café gerou mais condições à industrialização e à Orientação Profissional, trilhando o paradigma determinista vigente à época, visava à produção, à automação do trabalhador em prol do capital, distanciando ainda mais o homem de sua natureza criativa e o efetivando como homem-máquina.
Os Estados Unidos da América lideravam o movimento de mecanização, de padronização, e logo a psicotécnica de berço nesse país, chegam ao mundo industrializado, inclusive ao Brasil, “com a força de verdade salvadora” (MOTTA, 2005, p.77), sendo criados institutos para o desenvolvimento pesquisas na área, o Instituto Internacional de Organização Científica do Trabalho de Genebra e a criação do primeiro Instituto de Organização Racional do Trabalho, o
IDORT.
A concentração demográfica e a urbanização intensificam no sudeste, e com o crescimento urbano e industrial, os conflitos entre capital e produção e as intervenções dos anarquistas, reivindicando melhores salários e direitos, conduzem crises nas relações humanas das indústrias.
O trabalho tem por significado epistêmico a palavra grega tripalium, que se refere ao antigo instrumento de três pontas usado para tortura, reportando à metáfora de representação demoníaca de um garfo de três pontas.
Articulando esse instrumento às representações que ele reporta ao nível subjetivo, pode-se observar que a exploração e a tortura do trabalhador, cruelmente ao desvalorizar o significado humano das ações exercidas, já que o sujeito é desconsiderado, ou tem menos valia do que a produção utilitária, como se a vida plenamente equilibrada desde os parâmetros Freudianos não se depende do “binômio Amor e Trabalho”.
A satisfação no trabalho é base da felicidade e da realização humana, na medida em que o homem sublimou a libido, a energia vital, instintivamente direcionada da sexualidade às
atividades socialmente aceitas, e filogeneticamente direcionou a agressividade por meio de renúncias sucessivas ao instinto, gerando frustrações ao ego, entretanto, impulsionando-o para o trabalho “civilizado”.
Nesse sentido, “o homem civilizado trocou uma parcela de suas possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança” (FREUD, 1996, p.119), considerando felicidade como bem-estar ou alegria de viver, satisfação pela vida, um equilíbrio entre Eros (Deus grego representante do amor) regente do instinto de vida, do prazer e Tanathos (Deus grego representante das trevas, da destruição) operante no instinto de morte, na destruição de si e do outro, para que ocorra o desenvolvimento da civilização.
Já que Eros e Ananke (Deusa da Necessidade) tornaram-se os pais, os guias da civilização humana e a satisfação pessoal e profissional, uma garantia de equilíbrio psicológico ao ser humano, considerando como homem normal àquele que não perturbado por neuroses, psicoses ou perversões.
Compreende-se a relevância do equilíbrio no relacionamento homem-trabalho, ocorrendo em meio aos desequilíbrios gerados pelas experiências e adversidades. No final de sua obra, perguntaram a Freud qual seria a definição para um adulto normal e ele, no estilo singular e pragmático de final de vida, respondeu: “o homem normal é aquele capaz de tendo como tradução: ‘amar e trabalhar’” (FIORI, 1981, p.45), originalmente do alemão: “‘lieben und arbeiten’” Amar no sentido de compartilhar, de dedicação mútua. Trabalhar no sentido de ser útil, produtivo, transitando com satisfação entre os mundos expressivo e instrumental.
Implicando em maturidade, o cenário da relação entre a vida familiar e a profissional, no sentido de tornar consciente o que sufoca o inconsciente, com sintomas de conflitos, angústias, ansiedades e depressões que atrapalham tanto a vida do trabalhador, a produtividade, como a vida dos seus dependentes.
No platô antropológico, o trabalho foi uma invenção divina que serviu de castigo aos pecadores expulsos do paraíso, remetendo ao contexto bíblico o caos gerado pela hierarquização do trabalho. Percebe-se que desde a antiguidade, o trabalho apresenta aspectos distintos nos diversos segmentos da sociedade, segregando o prestígio social e o menor e maior trabalho causando perplexidade:
Durante toda a história da humanidade, o trabalho escravo revelou o lado perverso da maldição bíblica. A distribuição desigual de poder entre os homens, com base no trabalho forçado, estabeleceu a categoria de senhores e escravos. Não é de se estranhar, portanto, a quantidade de queixas ligadas às diversas conotações negativas do trabalho: obrigação penosa dever pesado, punição descabida, desprazer inevitável, imposição fatídica, ou seja, fatalidade inexorável para a grande maioria dos homens. Poucos privilegiados escapam a esse cruel destino (MOSCOVICI, 2001, p.129).
O trabalho promove movimento, energia, desequilíbrios, sendo-o necessário para a saúde. No entanto, quando não há satisfação em exercê-lo, a saúde do trabalhador fica comprometida, pois a satisfação é fundamental para a saúde empresarial que nesses tempos de globalização requer: qualidade, produtividade e competitividade, nas quais os profissionais da Psicologia, principalmente os psicodramatistas, auxiliam as organizações nessa finalidade.
Ideologicamente, a Psicologia do Trabalho atendia a outros paradigmas distantes dos da solidariedade, integrativo e inclusivo, pois, ao surgir no início do século XX em um contexto de racionalidade, atendia a princípios éticos distantes dos parâmetros sociais inclusivos de linearidade do tempo e do espaço, servindo apenas aos critérios da produção, próximos de princípios (des) humanos do escravagismo.
O ordenamento e o trabalho alienado representado pelos tempos da industrialização, do fordismo, da modernidade, não foi conivente com os principais aportes das ciências humanas, atualmente baseadas em premissas éticas de respeito à vida, e sim, em aportes da Psicologia Científica, primando à eficiência e engajada em encontrar soluções que possam ser recomendadas aos governantes, gerando lucrabilidade que, do ponto de vista das relações humanas, prevaleceu às relações verticais.
As verticalidades são espaços de fluxo ou espaços econômicos nos quais acontecem as relações humanas “portadoras de uma ordem implacável, cuja convocação incessante a segui-la representa um convite ao estranhamento. Observa-se que, quanto mais “modernizados e penetrados por essa lógica, mais os espaços respectivos tornam-se alienados” (SANTOS, 2006, p.108) causando relações humanas pouco participativas e de submissão à hierarquia do poder.
A Psicologia do Trabalho ditada por princípios de ciência comportamentalista objetivava a produtividade, a quantificação, explicando a compreensão da relação trabalho e capital pela produtividade, e bem distante da sua importância para a formação e de compreensão empática do que acontece nas relações de interações humanas para melhor dinâmica e evolução organizacional.
A nova ciência dedica-se ao saber-fazer do trabalhador seguindo “os passos de análise, desconstrução, reconstrução, síntese em outros parâmetros de avaliações e de resultados. A nova síntese fica justificada pela produtividade aumentada do trabalhador, que garante o homem certo para o lugar certo”(MOTTA, 2005, p. 156). Como se não fosse possível adquirir novas habilidades, ou mesmo transformar, ou aprimorar outras.
Em um formato excludente aos de menos oportunidades e opções para entrar em um mercado de trabalho qualificado e para atender à demanda da industrialização emergente da década de trinta no Brasil, foi o IDORT, na capital de São Paulo, esse órgão inicialmente responsável pela formação de técnicos aplicadores de psicotécnicos que, mais tarde, selecionaria o trabalhador mais necessitado e adaptado às demandas empresariais.
Com essa ideologia potencializa-se no ser humano o sentimento de desvalia e de incapacidade de desenvolver-se e superar-se, perpetuando a escravidão histórica em uma realidade que “persiste através dos tempos desde sua forma original, direta e clara na antiguidade, até as formas indiretas e sofisticadas dos nossos dias” (MOSCOVICI, 2001, p.130), conforme foi submetido o menos privilegiado sócio-culturalmente.
Foi no Estado Novo que o presidente Getúlio Vargas, instaurando um período de ditadura, fechando o Congresso Nacional e impondo ao país uma nova constituição, conhecida por “polaca”, inspirada pela Polônia e de tendência fascista, substitui o IDORT por órgãos governamentais, como o Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP).
Em 1938, o Serviço de Seleção Profissional da Estrada de Ferro Central do Brasil e, em 1939, do Laboratório de Politécnica do Senai e, em 1942, “pode-se dizer que o florescimento da aplicação da Psicologia Organizacional no Brasil, na década de trinta, esteve, em sua maior parte vinculada ao IDORT” (ZANELLI, 2002, p.29).
Em 1947, o Instituto de Seleção e Orientação Profissional (ISOP) tornou-se o mais importante centro de Psicologia Aplicada ao trabalho no país. Tais eventos tiveram participação direta para a profissionalização do psicólogo no Brasil e, após a regulamentação da profissão,
essas atividades foram encampadas pela Psicometria.
A seleção psicométrica do trabalhador foi construída com base em critérios de eficiência, bem distante da concepção da necessidade de valorização do ser humano, conforme o objetivo central das relações humanas, gerando a idéia de que se gera mais lucro com menos custos, e toda
a panacéia da psicometria fica a critério da produção, da quantificação, adestrando e robotizando o homem e o distanciando da espontaneidade e conseqüentemente da saúde:
Todo trabalho é competição, é velocidade, é acompanhar a máquina, é repetir sem erros para lucrar mais com menos custos. É em primeiro lugar lucro. Por conseguinte é a ciência a serviço do ideário liberal. Para tanto a preocupação com a saúde fica prioritariamente voltada para a sua produtividade, porque como revelou o exemplo analisado, o trabalhador deve formar uma unidade indissolúvel com a máquina (MOTTA, 2005, p. 156).
As primeiras intervenções não se tratavam dos interesses dos trabalhadores, das necessidades de espaço para a escolha de seu estilo de vida como protagonista de sua história, adaptando o trabalho às suas habilidades, criando-se uma distância entre a realização pessoal e a profissional, dicotomizando a relação trabalho-saúde.
Hoje se sabe que é preciso trabalhar, é preciso amar, desenvolver habilidades de dar e receber afeto, competência profissional e emocional para viver bem, desenvolver habilidades para executar bem as tarefas, buscando equilíbrio e realização intrapessoal, interpessoal, fazendo da relação homem-trabalho um elemento inovador criativo..
Felizmente, nos dias atuais, a Psicologia Fenomenológica reconstrói a idéia conservada e deixada pela Psicologia Comportamentista de que “trabalho é vida”, reingressando a percepção no movimento de vir-a-ser humano e, portanto, de devir espontâneo, desde que o aqui-agora lhe seja o contexto que promova liberdade de reinvenção, de possibilidades de novas maneiras de significar e de “andar” na vida.
Nessa perspectiva, o trabalho passa a ser visto como vivo “porque vivo está o trabalhador capaz de resistências, lutas, construções e desconstruções, mesmo nos momentos de repressão” (IDEM, 2005, p.228). No toyotismo, do ponto de vista da relação homem-trabalho, o capital explora a dimensão cognitiva da classe trabalhadora para que a empresa possa ser mais competitiva no mercado.
Somente a partir das três últimas décadas do século XX, o acelerado desenvolvimento da microeletrônica, os avanços das telecomunicações, o incremento da automação possibilitou mudança radical na operacionalização da produção, não mais baseado no fordismo.
O modelo fordista foi elaborado pelo empresário estadunidense Henri Ford (1863-1947), fundador do Ford Motor Company, que revolucionou a indústria automobilística na primeira metade do século XX, cuja característica principal foi o modelo verticalizado, hierarquizado e
rígido de produção em massa, porém, a produção era estocada, sendo necessários enormes investimentos e grande quantidade de mão-de-obra.
Esse foi o modelo da alienação e automação da banalização da espontaneidade, em que cada trabalhador executa uma função, com um parco ou nenhum conhecimento de outras funções, deixando o trabalhador alienado e quando se atrapalha prejudica todas as outras funções executadas por outros trabalhadores.
O toyotismo, elaborado pelo empresário japonês Taiichi Ohno, surgiu nas fábricas de montadora de automóvel Toyota, após a Segunda Guerra Mundial, mas se consolidou no cenário mundial somente na década de setenta, modelo adotado pela globalização e de elemento principal, o da produção flexível. Ao contrário do fordismo, no qual se estocava a produção, no toyotismo produz-se somente o necessário, reduzindo ao máximo o estoque.
Essa flexibilização objetiva a produção de um bem exatamente no momento em que fosse demandado, no chamado Just Time. Dessa forma, ao trabalhar com pequenos lotes, pretende-se a qualidade dos produtos seja a máxima possível: a Qualidade Total. A crise do petróleo levou as organizações a aderirem ao toyotismo, pois esse modelo consumia menos energia e matéria prima, ao contrário do modelo fordista.
Na organização de trabalho toyotista, cujo critério mais relevante é a qualidade total no processo produtivo, imprime-se a idéia de trabalhadores “polivalentes ou multifuncionais” e também, semelhante ao fordismo, alienando e distanciando o trabalhador da identificação com o seu trabalho e com o produto criado, gerando a sensação de impotência diante da própria produção do trabalho:
No mundo atual, existem dois tipos de setores com relação ao trabalho: um operado por homens que planificam as atividades e ostentam o poder econômico (meios de produção) e outro, composto por aqueles que executam tarefas, vendendo sua força de trabalho aos primeiros, na medida em que não congrega em suas mãos o capital necessário capaz de fazer gerar a produção. E é deste processo polarizado que surge o trabalho alienado, causa da desumanização profissional do homem, quando ele deixa de ser um sujeito identificado com o trabalho que faz e o produto que cria, para converter-se num objeto onde a força do trabalho-mercadoria esta a serviço dos detentores do poder que lucram com isso (TORRES, 2001, p.49).
Há estudos dos impactos sociais das atuais inovações tecnológicas, organizacionais e de gerenciamento, presentes nos processos de trabalho, de influência do mercado toyotista, identificando o perfil da força do trabalho como sendo participes ou coniventes com a idéia de que o trabalho linear segmentado, padronizado e repetitivo, característico do padrão tecnológico
taylorista e fordista, têm sido substituídos por nova modalidade marcada pela integração e pela flexibilidade.
No entanto, quanto ao trabalhador e do índice de igualdade socioeconômica, a desigualdade social opera na história da civilização. Ao metaforizá-la, comenta Sennet (2006, p.54):
(...) o calcanhar-de-aquiles da economia moderna, ela se manifesta de muitas formas, remunerações descomunais para alto executivos, uma defasagem cada vez maior nas corporações entre os salários mais elevados e a mais baixa estagnação das camadas médias de renda frente às das elites.
Nesse contexto desigual e excludente, potencializado pela globalização, a profissão fica articulada à necessidade e desconectada com a vida, as expectativas e os sonhos. Bernard Jenschke, atual Presidente da International Association of Educacional and Vocacional Guidance (IAEVG), esclarece que a profissão deve ser vista como a relação entre trabalho e a vida, modelo não adotado nos primórdios da Orientação Profissional, conforme descrito no início desse Capítulo.
Ainda hoje, muitos profissionais dessa área de conhecimento, atuando no trabalho Clínico, Escolar ou Empresarial, não compactuam com a idéia do plano de carreira vincular-se ao plano de vida. Contrapondo-se a essas concepções, articulando a Orientação Profissional à idéia de um gerenciamento de vida, o autor esclarece que:
O desenvolvimento profissional deve ser combinado com um projeto de vida geral e a orientação deve basear-se no desenvolvimento de um plano de habilidades na vida que prepare as pessoas para enfrentar as permanentes transformações sociais e as situações da vida do individuo. A escolha de uma profissão ou de um trabalho deve implementar um conceito de si mesmo e conceber uma identidade social significativa para a pessoa (JENSCHKE, 2002, p.24).
Quanto ao termo orientação, relaciona-se ao sentido de ajuda, contribuição ou suporte, para que a pessoa possa dirigir-se ou guiar-se dentro de um projeto de vida que lhe seja satisfatório, cuja idéia será utilizada ao longo desta pesquisa científica.
O outro ponto polêmico na Orientação Profissional é o termo vocação que, freqüentemente,tem sido associado à idéia de dom, de condição inata ou de chamamento divino, porém, etimologicamente, essa palavra deriva-se de vocatio, ou chamamento interior, tratando-se da representação do desejo, da intenção e, portanto, orientado intrinsecamente. E ao beber das águas epistemológicas de Abbagnano (2003, p.1006):
Na origem um dos conceitos fundamentais do cristianismo paulino: “Quem for chamado numa vocação, nela permanece’ (Ad Cor., I, VII, 20). A vocação é hoje um conceito pedagógico e significa propensão para qualquer ocupação, profissão ou atividade, é diferente da aptidão, por ser a atração que o individuo sente por determinada forma de atividade, para o qual pode ser ou não apto. A aptidão pode ser controlada objetivamente; a vocação é subjetiva . Uma vocação pode portanto ser um beco sem saída.
Complementando, devido à repercussão da Orientação Profissional, houve dificuldade de compreensão dos termos Orientação Profissional e Orientação Vocacional, gerando discussões etimológicas fundamentadas em diferentes traduções da língua inglesa Americana e Britânica. Nos dicionários da língua portuguesa encontra-se a palavra vocação com o sentido de chamamento interior, enquanto que nos de língua inglesa a mesma palavra significa emprego,
ocupação, profissão.
Carvalho (1995) contribui na clarificação dessa questão quando se reporta a expressão em inglês, Vocational Guidance, como representando área ampla, incluindo desde os primeiros momentos da escolha de uma profissão, por meio da escolhas de cursos adequados, até a programação de carreiras, o ajustamento e a realização pessoal e profissional.
Contudo, nas traduções para a língua portuguesa das obras americanas começaram a surgir diferenças de significados, uma vez que a palavra vocação em inglês não corresponde exatamente ao significado em nosso idioma, de sentido subjetivo. Do ponto de vista teórico, identificam-se nas leituras de Ferretti (1997) diversos fundamentos ideológicos permeando as Teorias de Orientação Profissional, dentre elas, a Teoria Desenvolvimentista.
Nessa perspectiva, o desenvolvimento profissional se caracteriza como resultante da interação das experiências vividas pelo sujeito e das solicitações da cultura, evidenciando a relevância para a compreensão de sujeito e de suas habilidades construídas sócio-culturalmente, para que se realizem escolhas profissionais mais adequadas.
Nem todos possuem as mesmas possibilidades e habilidades, mas, tratando-se de classes sociais menos favorecidas às próprias condições de vida, obrigam à sujeição profissional, enquanto que em outras classes o modelo acadêmico é mais acessível para inclusão do mercado de trabalho. Infelizmente, as desigualdades estruturais da sociedade e seus reflexos na educação configuram a Orientação Profissional distante de seus objetivos democráticos e igualitários de acesso, até as últimas décadas do século XX.
No processo de fazer “o individuo descobrir e usar seus dotes naturais e tomar ciência das fontes de treinamento disponíveis, a fim de que se possa viver de modo a tirar o máximo proveito para si próprio e para a sociedade” (CARVALHO, 1995, p.44), desenvolvendo habilidades construídas sócio-culturalmente ou adquirindo novas e readaptando as já obtidas ao ser humano que pode superar-se e obter satisfação pessoal e profissional em suas escolhas.
Para que haja seu efetivo exercício faz-se necessário: informação ocupacional; coleta de dados individuais; aconselhamento; descoberta e uso das disponibilidades educacionais; treinamento com jogos dramáticos; e acompanhamento psicológico. Entretanto, incluída no movimento global de busca de saídas mais adequadas ou mais bem adaptada à realidade pluridiversa e transcultural, a Orientação Profissional tem colaborando para a inclusão social, e teoriza:
Portanto, os dados sugerem que o programa de orientação profissional, além de contribuir para incorporar novos aspectos (determinações) à reflexão que os orientandos fazem com a finalidade de escolher a profissão, ajuda na eliminação de preconceitos, superando analises superficiais e restritivas, possibilitando, enfim, uma leitura mais complexa da realidade na qual estão imersos (BOCK, 2002, p.177).
Esclarecendo a questão da percepção de que algumas pessoas são mais indicadas ou realizam mais bem determinado trabalho do que outras, historicamente tais crenças datam da Grécia Antiga, com a obra A República, sugeridas pelo filósofo Platão que determinava categorias de pessoas mais adequadas a determinadas tarefas.
Após esse período, no Império Romano, Cícero analisou as diferenças entre as pessoas quanto aos seus talentos e aos trabalhos existentes na época e, mesmo na Idade Média, praticamente não havia liberdade de escolha ocupacional, pois “nesta época o campo ocupacional era determinado primeiramente pelo nascimento, sendo o primeiro aprendizado realizado dentro das famílias” (CARVALHO, 1995, p.26).
No Renascimento, seguindo a continuidade histórica, na visão de homem antropocêntrico houve aumento do reconhecimento e valorização da humanidade, conhecido como humanismo, a renovação das concepções políticas, com o reconhecimento da origem humana, ou natureza das sociedades e dos Estados.
Já com o advento do Iluminismo e a visão humanística retirando o homem da minoridade, da compreensão de sujeito como sendo incapaz de pensar sem a orientação de outro e concebendo “a razão como critica e guia de todos os campos da experiência humana”
(ABBAGNANO, 2003, p.534), ideologia aplicada na política e na economia da época. A democracia do início da sociedade industrial, na Modernidade, dotada de relativa liberdade na escolha das ocupações. Essa condição gerou a compreensão de que somente no início do século XX surgiu a necessidade de trabalho científico de investigação psicológica e a finalidade de adequação das características do indivíduo aos novos trabalhos da industrialização.
O desenvolvimento tecnológico no final do século XIX e no início do século XX, no mundo do trabalho, impulsionou o desenvolvimento da Orientação Profissional. Neste período, várias descobertas e avanços importantes haviam ocorrido nos setores tecnológicos e científicos como a lâmpada, o telégrafo, o rádio, o automóvel, o cinema, o avião, o telefone e outras invenções, contribuindo gradativamente para o crescimento, o culto à máquina e à relação: homem-trabalho.
A primeira modalidade foi a da Psicologia do Trabalho, em 1902. O primeiro Centro de Estudo foi criado em Munique, na Baviera, com o objetivo de identificar os indivíduos desprovidos de vocação e capacidade para determinadas tarefas, apenas com a finalidade de evitar acidente de trabalho. A Orientação Profissional, historicamente, passou por transformações significativas:
Nos primeiros tempos, influenciada pela psicometria, apoiou-se fortemente nos testes como instrumentos de medida de aptidões. Depois quando a concepção de caráter inato das profissões, bem como as inteligências e das características de personalidade começou a ser contestada, a Orientação Profissional relativizou a contribuição de testes específicos de aptidão, complementando–os com inventários de interesses e personalidade, além de outros instrumentos (FERRETTI, 1997, p.33).
O objetivo fundamental e específico da Orientação Profissional, é de guiar, indicar caminhos no processo de escolha de modo que realize opções ocupacionais mais bem adequadas.
Assim, focando o desenvolvimento da Orientação Profissional nas primeiras décadas do século XX, ela encontrava-se ora como parte da Psicologia do Trabalho, ora como parte da Orientação Educacional.
Junto ao avanço da Psicologia e às idéias de sistematização também a racionalização científica do trabalho dissipa-se rapidamente pelo mundo industrializado aparecendo nos tempos de penúria de guerra e pós-guerra, especificamente em vinte e sete de julho de 1914, quando explode a Primeira Guerra mundial, e se aceleram as evoluções das técnicas e das máquinas.