ANDERSON DE SOUZA ROSA
A PAZ PERPÉTUA KANTIANA NO SÉCULO XXI
Palhoça 2018
ANDERSON DE SOUZA ROSA
A PAZ PERPÉTUA KANTIANA NO SÉCULO XXI
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Graduação em Direito, da Universidade do Sul de Santa Catarina, como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Direito.
Orientador: Prof. João Batista da Silva, MSc.
Palhoça 2018
A todos os bravos homens e mulheres que lutaram, morreram ou viveram dedicando suas vidas pelo estabelecimento da paz, tanto nos campos de batalha quanto no campo intelectual.
AGRADECIMENTOS
Agradeço primeiramente a Deus por toda sua magnanimidade, aos meus amados pais e a minha querida irmã por todo o suporte prestado e por sempre estarem ao meu lado. Gostaria também de fazer um agradecimento especial ao Professor João Batista que me orientou e me incentivou durante toda a realização do presente trabalho de conclusão de curso. E por fim, mas não menos importante, a todos os professores que foram referência durante esses anos de graduação e que ajudaram em minha formação acadêmica, bem como no presente trabalho, tanto diretamente quanto indiretamente. A todos, minha eterna gratidão.
―O maravilhoso deste empreendimento infernal é que cada líder dos assassinos faz abençoar suas bandeiras e invoca solenemente a Deus antes de lançar-se a exterminar a seu próximo‖ (Voltaire).
RESUMO
A presente pesquisa tem como principal objetivo verificar a possibilidade de aplicação da paz perpétua apresentada por Immanuel Kant no primeiro quartel do século XXI. Para tanto, utiliza-se do método de procedimento monográfico para chegar à resposta do questionamento. Primeiramente foram apresentadas as origens da guerra e da paz e suas consequências nas relações internacionais, para então, apresentar a teoria kantiana de paz perpétua que tem como objetivo pôr fim ou minimizar drasticamente o uso da guerra nas relações interestatais. E por fim, esta teoria fora contraposta com as atitudes e pensamentos correntes a fim de saber a possibilidade de sua aplicabilidade no período proposto. Ao fim, a conclusão alcançada com a presente pesquisa é de que não é possível a aplicação da paz perpétua devido à resistência ainda existente entre os Estados em ceder sua soberania para a criação de uma Federação de Estados, bem como, do sentimento nacionalista ainda presente entre seus cidadãos.
ABSTRACT
The main objective of the present research is to verify the possibility for the application of the perpetual peace presented by Immanuel Kant in the first quarter of the century XXI. Therefore, it uses the monographic methodology of research in order to arrive at the answer to the questioning. First, the origins of war and peace and its consequences in the international relations were presented, for then to introduce the Kantian theory of perpetual peace that have as purpose to put an end or drastically minimize the use of war in the interstate relations. And finally, this theory was opposed with the current attitudes and opinions in order to know the possibility of its application in the proposed period. Ultimately, the conclusion reached with the present research is that it is not possible the establishment of a perpetual peace due to the resistance that still existing among the States in cede their sovereignty for the creation of a Federation of States as well as the nationalist sentiment that still present among the citizens. Key words: War and Peace. Kant‘s Perpetual Peace. Federation of States.
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO... 11
2 ORIGEM DO PROBLEMA DA GUERRA E DA PAZ NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS ... 13
2.1 O ESTADO DE NATUREZA E O DIREITO NATURAL (JUS NATURALE) ... 14
2.2 O ESTADO (CIVITAS) COMO SOLUÇÃO AO ESTADO DE NATUREZA ... 17
2.3 A GUERRA E A PAZ NO DIREITO DAS GENTES (JUS GESTIUM) ... 19
2.3.1 As causas justificativas e os motivos de empreender guerra ... 20
2.3.2 Das alianças e federações estatais ... 23
2.3.3 O advento, queda e o ressurgimento do ideal de universalização ... 25
3 A TEORIA DA PAZ PERPÉTUA KANTIANA ... 29
3.1 ARTIGOS PRELIMINARES PARA UMA PAZ PERPÉTUA ... 30
3.2 ARTIGOS DEFINITIVOS PARA UMA PAZ PERPÉTUA... 34
3.2.1 Da república ... 35
3.2.2 Da federação ... 38
3.2.3 Do direito cosmopolita ... 41
3.3 DOS SUPLEMENTOS E APÊNDICES ... 43
4 PARA O ESTABELECIMENTO DE UMA PAZ PERPÉTUA KANTIANA NO SÉCULO XXI ... 45
4.1 O CONFRONTAMENTO DOS ARTIGOS KANTIANOS À REALIDADE DO SÉCULO XXI ... 46
4.1.1 Da necessidade de defesa e os exércitos permanentes ... 47
4.1.2 Da dívida pública e a interferência forçosa na constituição dos demais estados... 49
4.1.3 Da confiança mútua ... 51
4.1.4 Do sistema republicano ... 54
4.1.5 Do estabelecimento da república mundial ou de uma federação de Estados ... 57
4.1.6 Da hospitalidade universal e o estabelecimento de princípios básicos entre os estados ... 61
5 CONCLUSÃO ... 63
1 INTRODUÇÃO
Nada retirou mais o sono dos soberanos, infligiu mais medo aos seus súditos, exauriu mais os cofres públicos dos Estados e causou mais destruição ao patrimônio cultural, artístico e histórico que as guerras. E a despeito de ser um dos assuntos mais recorrentes da história humana desde os tempos imemoriais até a idade contemporânea, continua, contudo, sem solução prática.
A partir dessa premissa, busca-se verificar a possibilidade da aplicação do modelo político-jurídico apresentado por Immanuel Kant no século XVIII ao primeiro quartel do século XXI, uma vez que tal sistema tem como fim reduzir drasticamente a ocorrência de conflitos armados, estimulando seus atores a resolverem suas desavenças de forma juridicamente pacífica, favorecendo, assim, a uma paz longeva e disputas menos funestas.
Com o crescente discurso nacionalista belicista das maiores potências da atualidade, bem como a crise das maiores organizações internacionais, como a Organização das Nações Unidas e a União Europeia, coadunado com as reflexões trazidas pela leitura de clássicos tais como À Paz Perpétua de Kant, motivaram o pesquisador a examinar esta área na busca de gerar reflexões acerca da temática na atualidade.
A colaboração desta pesquisa para a sociedade se dá ao questionar se seria possível a aplicação de tal modelo na visão de mundo na contemporaneidade, do mesmo modo como contribui para futuras reflexões de sua efetivação, e suas prováveis implicações à vida cotidiana tanto da sociedade quanto dos Estados.
Para tanto, os objetivos a serem traçados para buscar a resposta da problemática proposta é apresentar primeiramente no primeiro capítulo as relações interestatais ao longo da história, com o fim de descrever o desenvolvimento da guerra e da paz entre estes entes.
Em seguida, no segundo capítulo, apresentar-se-á a teoria kantiana da paz perpétua, e por fim, no terceiro capítulo, esta teoria será confrontada com o pensamento e atitudes dos Estados na atualidade para ao fim tentar responder a questão problema da possível aplicação da paz perpétua kantiana no primeiro quartel do século XXI.
O método de abordagem, portanto, será o indutivo, pois parte do estudo das diversas interações interestatais referentes ao estabelecimento da paz e da guerra até a possibilidade geral do estabelecimento de uma paz perpétua kantiana na atualidade e de natureza qualitativa, posto que a presente pesquisa tem como objetivo a verificação da possibilidade ou não do ideal pacifista de Kant. Para tanto, utiliza-se do método de procedimento monográfico.
As técnicas de pesquisa são a bibliográfica por intermédio do emprego de doutrinas, artigos de jornais, artigos científicos e informações prestadas por sites oficiais; e documental, em razão do manuseio de legislações internacionais e relatórios, todos necessários para fundamentar a pesquisa de forma satisfatória.
2 ORIGEM DO PROBLEMA DA GUERRA1 E DA PAZ NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
A relação entre os Estados sempre se mostrou uma das mais árduas tarefas a ser enfrentada tanto por soberanos quanto por estudiosos do assunto, principalmente quanto aos meios de evitar a guerra e preservar a paz. E sendo o tema do presente trabalho a possibilidade de aplicação de um sistema permanente2, capaz de minimizar ou até mesmo erradicar o emprego da força no cenário internacional na atualidade3, far-se-á indispensável um breve estudo acerca da natureza estatal a fim de compreender sua essência e os problemas intrínsecos a este sistema.
Sendo o Estado fruto da criação humana, e sua existência de uma complexidade correspondente à de seus artífices, é imperioso resgatar, como o faziam os clássicos, primeiramente a sua causa e seus propósitos, ou seja, o próprio ser humano para então, ter-se a clareza necessária para alcançar o objetivo pretendido com o presente trabalho científico.
Como o ser humano é dotado de razão, e se debruça sobre sua existência e natureza desde seus primórdios, estudando o universo a sua volta, bem como os seres vivos e suas interações, este fez diversas deduções acerca de si mesmo e do mundo no qual habita, efetuando também diversas criações. Sendo as mais importantes para o presente trabalho: o estado de natureza4 e o jus naturale, ou direito natural, que é a lei que a natureza ensina a
1 O termo ―guerra‖ refere-se não somente as lutas ou batalhas empregadas com o uso de armas, mas também ao
período em que se está disposto a guerrear, não havendo garantia de segurança. Assim sendo, todo o período em que não há esta disposição ou este medo, é denominado de paz. HOBBES, Thomas. Leviatã, ou Matéria, forma
e poder de um Estado eclesiástico e civil. Tradução de Rosina D' Angina. 2. ed. São Paulo: Martin Claret,
2012. p. 104-105.
2 Apesar de outros autores também terem trabalhado a teoria sobre a paz perpétua, utilizar-se-á e se estudará no
presente trabalho o projeto de paz perpétua prevista pelo filósofo prussiano Immanuel Kant.
3 Com o vocábulo ―atualidade‖ durante toda a pesquisa, entende-se de forma estrita, o ano de 2018, e de forma
ampla, o primeiro quartel do século XXI. Não podendo se estender além deste ponto, devido à rapidez com que têm ocorrido as mudanças nos últimos tempos.
4 É o estado em que todo ser humano se encontra naturalmente perante seus semelhantes, que será mais bem
esclarecido no subitem 2.1. LOCKE, John. Dois tratados sobre o governo. Tradução de Julio Fischer. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p. 381-382.
todos os seres vivos5; civitas6, denominado comumente de Estado; e, o jus gentium, ou direito das gentes, que regula as relações entre os diferentes povos7.
Relembra-se que, por se tratar de um trabalho monográfico, mostrar-se-á de forma sucinta, mas sempre zelosa, os institutos mencionados, não entrando nas divergências pormenorizadas, dada a densidade dos assuntos. Assim, ver-se-á neste primeiro capítulo, o que é o mais consensual entre os pensadores jusnaturalistas, tratando primeiramente acerca do estado de natureza e do direito natural, que darão sequência ao tema relativo aos Estados e o direito internacional.
2.1 O ESTADO DE NATUREZA E O DIREITO NATURAL (JUS NATURALE) 8
Apesar do tema da guerra e da paz ser normalmente atribuído a um problema Estatal, não se pode olvidar que o Estado fora criado e pensado pelo e para o homem9; assim, por se tratar de um problema crucial para o Estado, por consequência, o é também para o homem. À vista disto, é vital entender a natureza do homem, para que se possa entender suas mazelas e pensar nas possíveis soluções para estas. E foram as teorias do estado de natureza e do direito natural às primeiras teorias a tentar explicar a condição humana.
Estas teorias têm sua fonte na própria natureza, assim sendo, esta concedeu a todos os seres vivos o preceito de conservação10. Isto é, todos os animais11, por sua essência,
5 JUSTINIAN, Emperor. The Digest of Justinian. Tradução de Charles Henry Monro. Cambridge: University
Press, v. I, 1904. p. 3. Disponível em: <https://archive.org/details/digestofjustinia01monruoft>. Acesso em: 02 mar. 2018.
6 Palavra de origem romana que significa o corpo civil, ou os membros de um determinado Estado. SMITH,
William. Dictionary of Greek and Roman Antiquities. 2. ed. Boston: Little, Brown, and Company, 1865. p. 291. Disponível em: <https://archive.org/details/dictionaryofgree00smituoft>. Acesso em: 02 mar. 2018.
7 JUSTINIAN, Emperor. The Digest of Justinian. Tradução de Charles Henry Monro. Cambridge: University
Press, v. I, 1904. p. 3. Disponível em: <https://archive.org/details/digestofjustinia01monruoft>. Acesso em: 02 mar. 2018.
8 O direito natural vem sendo estudado e tratado desde a antiguidade; tendo inúmeros renomados pensadores
escrito a respeito do tema. Obviamente, há numerosas nuances e algumas discordâncias entre autores. Contudo, devido ao limitado espaço de uma monografia, será apresentada aqui a ideia mais corrente do que é o direito natural, e o que boa parte dos autores concorda acerca do tema. Ressalta-se que o conceito que será apresentado, não é baseado em preceitos religiosos. Aqui vale a máxima de autores como Hugo Grotius, que diz que, mesmo que se considere que Deus não exista, este direito continuaria a valer, pois a razão também inclina os homens a ela. GROTIUS, Hugo. On the Rights of War and Peace. Tradução de William Whewell. Cambridge:
University Press, 1853. p. XXVI. Disponível em: <https://archive.org/details/onrightsofwarpea00grotuoft>. Acesso em: 14 fev. 2018.
9 O termo ―homem‖ aqui empregado, e durante todo o trabalho, não faz distinção de gênero ou discriminação,
referindo-se assim, a toda pessoa, a todo ser humano. Usa-se tal termo devido a constante utilização, que é costumeira dos autores a respeito deste tema.
10 CÍCERO, Marco Túlio. Dos deveres. Tradução de Alex Marins. São Paulo: Martin Claret, 2001. p. 34. 11 Aqui se entende por ―animais‖ todos os seres vivos, inclusive o ser humano.
têm direito a sua preservação e de sua espécie, deste modo todos compartilham os mesmos ensinamentos da natureza, como por exemplo, a reprodução da espécie, criação de sua prole etc.12.
No estado de natureza, na qual todo homem pertence, esse possui liberdade para utilizar de suas faculdades para alcançar e manter tudo até onde sua própria força o permite13; nessa condição a constituição básica de cada homem é tão equivalente, que gera a total igualdade destes. Ressalta-se que mesmo havendo uma aparente superioridade física ou de gênio, qualquer um é capaz de injuriar a outro; principalmente ao se considerar que, por todos possuírem o uso da razão e da comunicação, cada um é capaz de aliar-se a alguém mais forte ou de utilizar-se de subterfúgios para tanto14.
Esse estado de igualdade revela consequentemente também a total liberdade entre estes, já que, sendo de mesma natureza, não se pode falar acerca de sujeição. Podendo assim cada homem dispor de todas suas faculdades para atingir a preservação de sua propriedade15.
Consequentemente, há uma ligação não somente entre todos os animais, mas especialmente entre todos os homens16, uma vez que são animais políticos17. Isto se deve ao fato de ser o único a conseguir utilizar-se da palavra para expressar sua razão, debatendo e trocando conhecimentos complexos com seus semelhantes18.
Por conta disto, ao homem é necessária sua associação com seus semelhantes a fim de alcançar seu completo desenvolvimento e bem estar, uma vez que para consegui-lo é preciso uma gama de conhecimentos, trabalho e tempo que seria impossível sozinho proporcioná-lo19. Sem o ensinamento desses conhecimentos aos demais, que proporcionam ao homem uma vida mais cômoda, teria este, por consequência, uma existência austera e penosa,
12 AQUINO, Santo Tomás de. Suma Teológica: volume 2: Ia IIae. Tradução de Alexandre Correia. 4. ed.
Campinas: Ecclesiae, 2016. p. 565-566.
13 ROUSSEAU, Jean-Jacques. O contrato social: Princípios do direito político. Tradução de Edson Bini. 2. ed.
Bauru: Edipro, 2015. p. 24.
14 HOBBES, Thomas. Leviatã, ou Matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil. Tradução de
Rosina D' Angina. 2. ed. São Paulo: Martin Claret, 2012. p. 102-103.
15 Aqui, e durante todo o trabalho, se utiliza o sentido lockeano de propriedade, e não o sentido costumeiro de
propriedade que se dá somente a bens materiais. A propriedade para Locke, em suma, compreende a vida, a liberdade e os bens. LOCKE, John. Dois tratados sobre o governo. Tradução de Julio Fischer. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p. 381-383.
16 CÍCERO, Marco Túlio. Dos deveres. Tradução de Alex Marins. São Paulo: Martin Claret, 2001. p. 47. 17 ARISTÓTELES. Política. Tradução de Pedro Constantin Tolens. 5. ed. São Paulo: Martin Claret, 2010. p. 56. 18 CÍCERO, Marco Túlio. Dos deveres. Tradução de Alex Marins. São Paulo: Martin Claret, 2001. p. 46. 19 VATTEL, Emer de. The Law of Nations, Or, Principles of the Law of Nature, Applied to the Conduct
and Affairs of Nations and Sovereigns, with Three Early Essays on the Origin and Nature of Natural Law and on Luxury. Indianapolis: Liberty Fund, 2014. E-book de acesso restrito. Preliminares, §10.
pois, ao não poder contar com o trabalho conjunto dos demais, haveria de utilizar todo o seu tempo para suprir as mais básicas necessidades de sobrevivência, não dispondo assim de tempo suficiente para desenvolver tais comodidades20.
Apesar de o homem ser um ser racional e depender de seus semelhantes, este ainda é movido por suas paixões que podem vir a serem virtudes ou vícios conforme as utiliza em consonância com a razão21. E tais vícios e prazeres podem levar a conflitos e injúrias, o que acarreta a uma situação de inimizade e de guerra entre seus semelhantes22.
As inconveniências de tal estado ficam evidentes neste ponto, uma vez que, por viver em um estado de perfeita igualdade e liberdade, cada homem é juiz de seus atos23. No entanto, como visto, as paixões interferem nas decisões humanas, o que acaba por causar desentendimentos; e como cada homem é juiz de suas ações, uma resolução amigável acaba, muitas vezes, sendo inviabilizada24.
Como resultado, para assegurar a preservação de tudo querido a ele, o homem se vê obrigado a abandonar esse estado perfeito de natureza, em que cada um tem direito a tudo que possa conseguir e manter, e sua liberdade natural, que somente vê limite na força individual, para em troca, receber a liberdade civil, que consiste na igualdade moral de seus membros, limitada pela vontade geral dos mesmos25. Nesta liberdade civil, cada homem abre mão daquele poder executório e de julgamento para sua preservação e as transfere à sociedade política, no qual as deliberações são tomadas por seu corpo, e todos os membros são iguais perante a lei, sendo regidos por regras fixas e idênticas26.
20 PUFENDORF, Samuel von. Of the Law of Nature and Nations: eight books. Tradução de Basil Kennett e
George Carew. 4. ed. London: J. Walthoe, R. Wilkin, J. and J. Bonwicke, S. Birt, T. Ward, and T. Osborne, 1729. p. 102-103. Disponível em: <https://archive.org/details/oflawofnaturenat00pufe>. Acesso em: 01 mar. 2018.
21 ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Luciano Ferreira de Souza. São Paulo: Martin Claret, 2015.
p. 48.
22 HOBBES, Thomas. Leviatã, ou Matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil. Tradução de
Rosina D' Angina. 2. ed. São Paulo: Martin Claret, 2012. p. 84-85.
23 PUFENDORF, Samuel von. Of the Law of Nature and Nations: eight books. Tradução de Basil Kennett e
George Carew. 4. ed. London: J. Walthoe, R. Wilkin, J. and J. Bonwicke, S. Birt, T. Ward, and T. Osborne, 1729. p. 106. Disponível em: <https://archive.org/details/oflawofnaturenat00pufe>. Acesso em: 01 mar. 2018.
24 PUFENDORF, Samuel von. The Whole Duty of Man, According to the Law of Nature. 5. ed. London:
Gosling, R.; Pemberton, J.; Motte, B., 1735. p. 34. Disponível em:
<https://archive.org/details/wholedutyofmanac00puferich>. Acesso em: 15 mar. 2018.
25 ROUSSEAU, Jean-Jacques. O contrato social: Princípios do direito político. Tradução de Edson Bini. 2. ed.
Bauru: Edipro, 2015. p. 24-27.
26 LOCKE, John. Dois tratados sobre o governo. Tradução de Julio Fischer. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes,
Constatada esta necessidade do homem de abandonar o estado de natureza, e tendo refletido a respeito da natureza humana, pode-se passar então ao exame do corpo político denominado de Estado.
2.2 O ESTADO (CIVITAS) COMO SOLUÇÃO AO ESTADO DE NATUREZA
O corpo político denominado Estado será aqui explicado e definido com base na teoria contratualista, pois esta teoria é a mais recorrente entre os pensadores clássicos e que melhor explica o surgimento do Estado. O contratualismo, portanto, se baseia na concordância mútua de determinado grupo de homens a se sujeitar a uma associação política, denominada de Estado, que visa em suma, a segurança de seus membros27.
A rejeição do estado de natureza faz surgir a figura do Estado, que nada mais é que uma associação política28 entre os homens. A dupla necessidade de depender dos seus pares para suprir suas exigências e se defender das injúrias, fez o homem recorrer a maior força disponível ao ser humano, que é o poder combinado de vários homens29.
Tal necessidade ensejará a criação do Estado, um corpo político, fruto da coletividade30, que é a união de diversos homens sob o mesmo poder. Esse Leviatã31, mais forte que qualquer homem individual, garantirá a segurança de todos contra as injúrias dos concidadãos, bem como de homens que estão fora de sua associação política. Proporcionando assim, uma vida tranquila e satisfatória a seus membros32; as artes33 e as faculdades inventivas
27 LOCKE, John. Dois tratados sobre o governo. Tradução de Julio Fischer. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes,
2005. p. 468-469.
28 É imperioso destacar, como muito bem o fez Locke, que quando se trata de associação política, ela não deve
ser confundida com as formas de governo. Este termo refere-se a toda comunidade independente, como o faziam os romanos, com o termo civitas, e os ingleses, com o termo commonwealth, pois elas não podem estar
subordinadas a outros governos. LOCKE, John. Dois tratados sobre o governo. Tradução de Julio Fischer. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p. 501-502. Já as formas de governo, para boa parte dos estudiosos, se referem à quantidade de pessoas que detêm o poder do governo, isto é: democracia, quando o poder reside na totalidade ou na maioria do povo; aristocracia, quando o poder reside em uma pequena porção da população; e, monarquia, quando o poder está concentrado somente em um. ROUSSEAU, Jean-Jacques. O contrato social: Princípios do direito político. Tradução de Edson Bini. 2. ed. Bauru: Edipro, 2015. p. 60-61.
29 HOBBES, Thomas. Leviatã, ou Matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil. Tradução de
Rosina D' Angina. 2. ed. São Paulo: Martin Claret, 2012. p. 75.
30 ROUSSEAU, Jean-Jacques. O contrato social: Princípios do direito político. Tradução de Edson Bini. 2. ed.
Bauru: Edipro, 2015. p. 21-22.
31 Hobbes faz aqui a famosa analogia do Estado à figura do monstro Bíblico Leviatã, descrito no Antigo
Testamento, no Livro de Jó, capítulos 40 e 41. HOBBES, Thomas. Leviatã, ou Matéria, forma e poder de um
Estado eclesiástico e civil. Tradução de Rosina D' Angina. 2. ed. São Paulo: Martin Claret, 2012. p. 15-16.
32 HOBBES, Thomas. Leviatã, ou Matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil. Tradução de
florescem, uma vez que o medo da injúria e da dependência da própria força desaparecerem; propiciando ao homem a ociosidade necessária para a melhoria de sua vida e da sociedade34.
O Estado é um corpo artificial35 formado pela junção de vários homens, e estes sendo perfeitamente livres, abrem mão desta liberdade absoluta, de forma consentida a este corpo moral para que este instale a concórdia entre os homens. Mas, tendo em vista que a distância e as diferenças culturais dificultam a criação de uma única associação política, geram-se então diversos Estados; e, como sua constituição é formada por homens, e a vontade deste corpo é movida pela vontade geral destes, aquele acaba por também encontrar-se em estado de natureza com os demais homens e associações políticas36.
Vislumbra-se assim que o homem conseguiu achar a solução para as inconveniências advindas do estado de natureza concernente aos seus pares mais próximos; no entanto, esta acaba não resolvendo ou dando somente uma resolução parcial ao problema, uma vez que, além de não pôr todos os homens sob a mesma sujeição, acaba por criar entes mais poderosos e com mais recursos, que também se encontram em estado de natureza entre si. Isto acarreta o aumento exponencial da destruição causada quando as partes litigantes não veem outro modo a não ser a utilização das armas para a solução do problema, ficando novamente dependentes do juízo destes Estados37.
O homem passa a estudar e observar as relações destes Estados, fazendo deduções, estabelecendo regras e costumes para que haja o bom convívio destes corpos políticos. Prescrevendo também regras gerais e objetivas concernentes ao uso da força de que dispõem, a fim de que a concórdia reine entre os mais diversos povos, como assim se verá no próximo tópico.
33 O termo ―artes‖ aqui empregado, se refere a todo conhecimento que tem por finalidade a comodidade do
homem e que não tenha como objetivo causar injúria aos demais.
34 ROUSSEAU, Jean-Jacques. O contrato social: Princípios do direito político. Tradução de Edson Bini. 2. ed.
Bauru: Edipro, 2015. p. 24.
35 HOBBES, Thomas. Leviatã, ou Matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil. Tradução de
Rosina D' Angina. 2. ed. São Paulo: Martin Claret, 2012. p. 15-16.
36 VATTEL, Emer de. The Law of Nations, Or, Principles of the Law of Nature, Applied to the Conduct
and Affairs of Nations and Sovereigns, with Three Early Essays on the Origin and Nature of Natural Law and on Luxury. Indianapolis: Liberty Fund, 2014. E-book de acesso restrito. Preliminares, §4.
37 ARNOLD, Henry Harley. A Força Aérea na era atômica. In: MASTERS, Dexter e WAY, Katherine (Org.).
Um mundo ou nenhum: um relatório ao público sobre o pleno significado da bomba atômica. Tradução de
2.3 A GUERRA E A PAZ NO DIREITO DAS GENTES (JUS GESTIUM)38
Neste ponto, passa-se então à observação da guerra e da paz, bem como das soluções pensadas com a finalidade de resolver os inconvenientes ocorridos com a criação dos Estados. Sendo assim, o jus gentium encarregou-se de tratar destes assuntos e de outros relativos às relações interestatais.
O jus gentium, ou direito das gentes, que posteriormente se denominou de direito internacional, surgiu e teve seu maior desenvolvimento com os romanos, apesar de haver provas de sua utilização, ao menos, desde o século V a.C. pelos primeiros helenos39. Mas foi com os romanos efetivamente que o jus gentium surgiu e virou matéria de estudo, recebendo definições pelos maiores jurisconsultos romanos, uma vez que com o crescimento do Império Romano, tanto territorialmente quanto economicamente, o fizeram ter de lidar com os mais diversos tipos de povos, governos e culturas40.
Surgindo assim diversas definições sobre o tema. Ulpiano afirma, por exemplo, que o jus gentium é utilizado por todas as tribos do gênero humano, tratando, pois, de suas relações mútuas41. Segundo este mesmo autor, foi com este direito que fora estabelecido a escravidão e a alforria, já que pelo direito natural não há diferenciação entre homens, uma vez que todos nascem livres42. E para Hermogenianus, foi o jus gentium que introduziu a guerra, as definições de fronteiras, estabelecimento de reinos, o mútuo comércio etc.43. Do mesmo
38 Sempre houve imensa discussão sobre o que seria, a origem e quais as regras do jus gentium; pois, assim como
acontece com o direito natural, que se é inferida por meio do uso da razão, diversos autores durantes milênios discorreram sobre o tema, e, obviamente, surgiram discordâncias acerca de inúmeras matérias atinentes ao jus
gentium. Desse modo, serão tratados no presente trabalho somente os principais pontos em vista do assunto em
questão. Como por exemplo: das causas justas e injustas de promover a guerra e sobre o sistema de alianças e uniões estatais.
39 TUCÍDIDES. História da guerra do Peloponeso. Tradução de Mário da Gama Kury. 3. ed. Brasília:
Universidade de Brasília, 1987. p. 30-31.
40 O jus gentium propriamente dito surgiu por um fator preponderantemente comercial; surgindo para facilitar e
desenvolver o comércio internacional entre os romanos e os demais povos da antiguidade. Só posteriormente, que seu conteúdo foi alastrado para tratar dentre outros assuntos o relativo à da guerra e da paz. DAL RI JÚNIOR, Arno. História do Direito Internacional: Comércio e Moeda, Cidadania e Nacionalidade. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2004. p. 24-28.
41 JUSTINIAN, Emperor. The Digest of Justinian. Tradução de Charles Henry Monro. Cambridge: University
Press, v. I, 1904. p. 3. Disponível em: <https://archive.org/details/digestofjustinia01monruoft>. Acesso em: 02 mar. 2018.
42 JUSTINIAN, Emperor. The Digest of Justinian. Tradução de Charles Henry Monro. Cambridge: University
Press, v. I, 1904. p. 4. Disponível em: <https://archive.org/details/digestofjustinia01monruoft>. Acesso em: 02 mar. 2018.
43 JUSTINIAN, Emperor. The Digest of Justinian. Tradução de Charles Henry Monro. Cambridge: University
Press, v. I, 1904. p. 3. Disponível em: <https://archive.org/details/digestofjustinia01monruoft>. Acesso em: 02 mar. 2018.
modo, Gaius também afirma que apesar de toda civitas estabelecer um corpo de leis para sua regulação interna, a razão natural ainda mantém esta lei, universal, igual para todos os homens, uma vez que é utilizada por todas as nações44.
Apesar da grande gama de assuntos tratados, o mais importante e debatido, tanto entre pensadores quanto por soberanos, sempre foi a questão relativa à da guerra e da paz. Isto torna-se completamente compreensível, posto que poucas coisas no planeta são capazes de provocar tão bruscas mudanças em um espaço tão curto de tempo quanto a guerra.
Dada a gravidade do uso desse instituto nas vidas humanas, um tema sempre tratado pelos pensadores do direito internacional é se seria lícita ou não sua utilização e, se fosse, em que ocasiões seria justa ou não sua aplicação.
2.3.1 As causas justificativas e os motivos de empreender guerra
Os pensadores clássicos do direito internacional, portanto, irão buscar tais respostas justamente no direito que abrange todos os seres humanos, que é o direito natural. Contudo, é mister ressalvar que o debate neste determinado assunto gera diversas controvérsias entre os próprios pensadores, fazendo surgir muitas vezes entendimentos completamente opostos acerca do mesmo tema. Assim, demonstrar-se-á o entendimento mais usual entre os autores de direito internacional acerca das causas e motivos para empreender guerra pelos Estados.
A resposta destas questões emerge do direito natural, em que como a principal lei da natureza é a da preservação, e a todos os animais foram dadas armas para que as utilizassem para mantê-la, vê-se, por conseguinte, que não há nada no direito natural contrário a guerra, já que esta tem como objetivo justamente a conservação de sua vida e integridade física45. Assim, a guerra é lícita também, uma vez que procura punir aqueles que violam o direito alheio, os obrigando a observar as leis e os costumes, fazendo assim com que retornem ao consórcio humano46.
44 JUSTINIAN, Emperor. The Digest of Justinian. Tradução de Charles Henry Monro. Cambridge: University
Press, v. I, 1904. p. 5. Disponível em: <https://archive.org/details/digestofjustinia01monruoft>. Acesso em: 02 mar. 2018.
45 GROTIUS, Hugo. On the Rights of War and Peace. Tradução de William Whewell. Cambridge: University
Press, 1853. p. 9-10.p. Disponível em: <https://archive.org/details/onrightsofwarpea00grotuoft>. Acesso em: 14 fev. 2018.
Apesar de não haver nada mais conforme a natureza que o homem mostrar benevolência com seus pares, evitando a todo custo ocasionar injúria, e assim poder desfrutar de paz, seria algumas vezes legítimo e até necessário fazer a guerra. Entretanto, quando a natureza permite a guerra, é para nada mais que garantir segurança e paz duradoura, já que a paz é sempre o prêmio almejado em uma guerra47; e como o homem pode resolver suas controvérsias tanto pela argumentação quanto pela força, só se deve recorrer à segunda, quando não puder usar da primeira48. Não obstante, apesar de ser preferível essa máxima, não se deve esperar ser pacientemente massacrado ou saqueado sem poder se defender ou rechaçar a injúria por meio da força; todavia, sempre de forma moderada e nada além do necessário49.
Tendo em vista que a guerra é lícita, as razões para um Estado entrar em guerra são de duas classes: a primeira, se ele possui o direito de colocá-la em curso, ou seja, razões justas para tal, que são chamadas de causas justificativas; a segunda, baseada na conveniência e utilidade da guerra para com o Estado, chamada de motivos50.
Em relação à primeira classe, enumeram-se três causas justas para se empreender a guerra, sendo elas: defesa; recuperação da propriedade, ou seja, aquilo que lhe pertence; e, por último, a punição de injúrias51; posto que é a iniquidade daqueles que agem de forma errônea que faz com que se movam guerras justas52.
Por consequência, depreende-se de início que somente uma das partes pode ter causa justa na guerra. Ainda assim, Gentili levanta a possibilidade de ambas as partes sustentarem uma justa causa de guerra. Ressalva-se, no entanto, que não se trata da justiça
47 PUFENDORF, Samuel von. Of the Law of Nature and Nations: eight books. Tradução de Basil Kennett e
George Carew. 4. ed. London: J. Walthoe, R. Wilkin, J. and J. Bonwicke, S. Birt, T. Ward, and T. Osborne, 1729. p. 833-834. Disponível em: <https://archive.org/details/oflawofnaturenat00pufe>. Acesso em: 01 mar. 2018.
48 CÍCERO, Marco Túlio. Dos deveres. Tradução de Alex Marins. São Paulo: Martin Claret, 2001. p. 41. 49 VATTEL, Emer de. The Law of Nations, Or, Principles of the Law of Nature, Applied to the Conduct
and Affairs of Nations and Sovereigns, with Three Early Essays on the Origin and Nature of Natural Law and on Luxury. Indianapolis: Liberty Fund, 2014. E-book de acesso restrito. Book III, Chap. I, §3.
50 VATTEL, Emer de. The Law of Nations, Or, Principles of the Law of Nature, Applied to the Conduct
and Affairs of Nations and Sovereigns, with Three Early Essays on the Origin and Nature of Natural Law and on Luxury. Indianapolis: Liberty Fund, 2014. E-book de acesso restrito. Book III, Chap. III, §25. Sendo
que, outra nomenclatura usual também, por alguns autores, é chamar as causas justificativas de pretextos, e os motivos de causas. POLIBIO. Historias Libros I-IV. Tradução de Manuel Balasch Recort. Madri: Gredos, 1981. p. 279-280.
51 GROTIUS, Hugo. On the Rights of War and Peace. Tradução de William Whewell. Cambridge: University
Press, 1853. p. 62. Disponível em: <https://archive.org/details/onrightsofwarpea00grotuoft>. Acesso em: 14 fev. 2018.
52 AUGUSTINE, Saint. The City of God. Tradução de Marcus Dods. Edinburgh: T. & T. Clark, v. I, 1871. p.
absoluta53, já que esta não autorizaria genuinamente que ambos tivessem razão na mesma contenda. Assim, trata-se da justiça relativa, que pela deficiência da percepção humana, não se consegue ter uma compreensão total do fato; acarretando interpretações equivocadas ou incompletas sobre determinado acontecimento. Mesmo assim, é preciso que haja, no mínimo, essa justiça relativa, pois, se assim não fosse, se as partes beligerantes carecessem completamente de quaisquer razões54, as guerras seriam nada mais que latrocínios55. Portanto, causas injustas são consideradas aquelas em que o Estado toma em armas sem ter sofrido qualquer tipo de injúria ou estar ameaçado de tal56.
Já em consideração a segunda classe, é imprescindível que a guerra traga vantagens ao Estado e aos cidadãos, sendo útil e aconselhável, ou seja, prudente, e acima de tudo, necessário empreendê-la; devendo estar sempre acompanhada de uma causa justificativa para então o soberano, juntamente com seu povo, poder embarcar em uma guerra. Contudo, esses motivos podem ser viciados, isto é, são motivados não em face do bem do corpo político, mas sim pelas paixões, como o desejo por poder, glória, conquista, revanche etc.57. E há inúmeros casos em que o soberano, por motivos escusos, usa de causas justificativas para empreender a guerra, mas sua real intenção, por exemplo, é a conquista ou o aumento de seu poder ou diminuição do poder de seus vizinhos58, fazendo com que sua conduta seja repreensível. E se age por benefício, mas carece de justa causa, sua guerra é injusta. Devendo assim, como anteriormente afirmado, haver a conciliação de ambos59.
53 Entende-se por ―justiça absoluta‖, usada aqui por Gentili, aquela em que há uma compreensão completa do
acontecimento, tendo-se ciência de todas as partes e de todos os ângulos possíveis do mesmo, e que não há qualquer tipo de vício comprometendo a análise do fato. Tendo por assim dizer, a verdadeira faceta do acontecimento, isto é, vendo em sua forma pura e plena, podendo assim, chegar a conclusão correta do fato.
54 Gentili relembra aqui a questão dos particulares, em que cada um acreditando realmente e tendo pontos para
basear seus direitos, acabam por entrar em litígio, sem, no entanto, as partes serem consideradas desonestas; desde que, obviamente, o fato seja real. GENTILI, Alberico. O direito de guerra. Tradução de Ciro Mioranza. 2. ed. Ijuí: Unijuí, 2006. p. 86-87.
55 GENTILI, Alberico. O direito de guerra. Tradução de Ciro Mioranza. 2. ed. Ijuí: Unijuí, 2006. p. 86-87. 56 VATTEL, Emer de. The Law of Nations, Or, Principles of the Law of Nature, Applied to the Conduct
and Affairs of Nations and Sovereigns, with Three Early Essays on the Origin and Nature of Natural Law and on Luxury. Indianapolis: Liberty Fund, 2014. E-book de acesso restrito. Book III, Chap. III, §27.
57 VATTEL, Emer de. The Law of Nations, Or, Principles of the Law of Nature, Applied to the Conduct
and Affairs of Nations and Sovereigns, with Three Early Essays on the Origin and Nature of Natural Law and on Luxury. Indianapolis: Liberty Fund, 2014. E-book de acesso restrito. Book III, Chap. III, §30.
58 TUCÍDIDES. História da guerra do Peloponeso. Tradução de Mário da Gama Kury. 3. ed. Brasília:
Universidade de Brasília, 1987. p. 29.
59 VATTEL, Emer de. The Law of Nations, Or, Principles of the Law of Nature, Applied to the Conduct
and Affairs of Nations and Sovereigns, with Three Early Essays on the Origin and Nature of Natural Law and on Luxury. Indianapolis: Liberty Fund, 2014. E-book de acesso restrito. Book III, Chap. III, §33.
Considerando-se que a guerra pode ser lícita, os Estados sempre procuraram formas de se resguardar, tanto defensivamente quanto ofensivamente, da ameaça ou injúria de outros Estados, meios estes que serão tratados a seguir.
2.3.2 Das alianças e federações estatais
Como pode ter-se observado a questão do empreendimento ou não da guerra, bem como de sua justiça, fica a cargo unicamente do Estado ofendido, devendo este, em última instância, verificar se houve alguma injúria e se é benéfico mover a guerra; e como sendo o Estado movido por homens e estes não estarem imunes a atitudes iníquas, tanto em assuntos privados quanto em assuntos públicos, faz com que, inevitavelmente, essas atitudes reflitam no comportamento dos Estados.
Como todo Estado, em sua origem surge de forma modesta, não dispondo de demasiado poder, somado ao fato de haver, muitas das vezes, Estados fronteiriços movidos unicamente pelo desejo de conquista, que são por consequência maiores tanto em tamanho quanto em força, faz com que estes Estados procurem o auxílio dos demais, formando uniões60. O surgimento destas uniões faz com que os Estados sigam o caminho de seu criador61, unindo-se aos seus semelhantes62 para assegurar a propriedade63 e a paz de seus súditos, formando assim, Estados cada vez mais extensos e poderosos64.
60 Trata-se aqui de uniões consentidas, por deliberação espontânea das partes, já que não era incomum a
anexação de territórios e populações inteiras por parte dos Estados vitoriosos, mesmo contrário à vontade da população conquistada. Cf. Nota 64.
61 O homem.
62 Ou seja, outros Estados; e tais uniões são das mais diversas possíveis. Sendo tratadas mais adiante neste
mesmo capítulo.
63 Cf. Nota 15.
64 AUGUSTINE, Saint. The City of God. Tradução de Marcus Dods. Edinburgh: T. & T. Clark, v. I, 1871. p.
152-153. Disponível em: <https://archive.org/details/TheCityOfGodV1>. Acesso em: 19 mar. 2018. Contudo, este crescimento nem todas as vezes surge do conscentimento mútuo dos Estados; alguns Estados, preferiram subjulgar os demais, de forma justa ou não, para assegurar sua preservação. Um dos mais famosos exemplos é a Roma Antiga; esta pequena cidade da peninsula itálica se tornou um dos maiores impérios que o mundo já viu, ao transformar em províncias os Estados inimigos subjugados; pois era a maneira mais segura, do ponto de vista romano, de garantir que estes povos não cometeriam mais ofensas contra sua cidade; afastando os inimigos e avançando até que as barreiras naturais fornececem segurança contra Estados afastados. Tal prática,
proporcionou a península itálica um período de paz, que inclusive foi nomeado de Pax Romana (Paz Romana), que durou por alguns decênios durante os primeiros anos do Império Romano. PETIT, Paul. A paz romana. Tradução de João Pedro Mendes. São Paulo: Pioneira, 1989. p. 85-86.
Na antiguidade, devido ao fato da religião dificultar a junção das diversas cidades65, uma vez que cada uma professava seus próprios deuses, e sendo a religião uma das bases da associação entre os homens, isto acabava por exercer uma grande influência na tomada de decisões tanto na vida particular quanto na vida pública66, desta forma a união mais comum que surgiu entre Estados, portanto, fora a da aliança.
Em sentido estrito67, a aliança é um pacto de união de ajuda mútua, entre dois ou mais Estados, em que há o propósito quer de mútua defesa em caso de ataque a um deles, quer a combinação de forças para conjuntamente atacar um terceiro Estado ou, a agregação de ambos68.
Esse método de união é o preferido entre Estados, uma vez que as partes contratantes, mantém sua soberania, território e população, mas militarmente são considerados um único Estado, com seus aliados, perante potências externas, já que o ataque direcionado a qualquer um deles será considerado um ataque a todos69.
Entretanto, o grande problema das alianças é a sua imprevisibilidade, devido ao fato de ser um tipo de acordo entre as partes, não há garantia definitiva de que estas, no
65 Apesar de que em alguns casos, a religião foi primordial, como relatado por Tito Lívio, no surgimento da
amizade e da aliança entre cidades, como ocorrido entre a cidade de Roma e a da cidade de Cere, na Etrúria; LIVIUS, Titus. The History of Rome. Tradução de George Baker. London: Jones & Co., v. I, 1830. p. 208. Disponível em: <https://archive.org/details/historyofrome01livyuoft>. Acesso em: 13 mar. 2018.
66 COULANGES, Fustel de. The Ancient City: A Study on the Religion, Laws, and Institutions of Greece and
Rome. Tradução de Willard Small. 10. ed. Boston: Lee and Shepard, 1901. p. 273-279. Disponível em: <https://archive.org/details/ancientcitystudy00fustuoft>. Acesso em: 16 mar. 2018.
67 Oppenheim também disserta acerca do sentido amplo de aliança; tal aliança normalmente engloba diversos
propósitos, comumente, vagos e imprecisos. OPPENHEIM, Lassa Francis Lawrence. International Law: A Treatise.Vol. I. Peace. London: Longmans, Green, and Co., 1905. p. 569. Disponível em:
<https://archive.org/details/internationallaw12oppe>. Acesso em: 11 mar. 2018. Um exemplo de tal aliança é a Santa Aliança (Holy Alliance), firmada entre o Imperador da Áustria, o Rei da Prússia e o Imperador da Rússia em 26 de setembro de 1815, após a queda de Napoleão Bonaparte, e tinha como propósito asseverar a amizade entre estas nações e salvaguardar, na relação com as demais soberanias, os preceitos de justiça, caridade cristã e paz. HERTSLET, Edward. The Map of Europe by Treaty: Showing the Various Political and Territorial Changes which Have Taken Place Since the General Peace of 1814. London: Butterworths, v. I, 1875. p. 317-319. Disponível em: <https://archive.org/details/mapeuropebytrea00unkngoog>. Acesso em: 20 mar. 2018.
68 Oppenheim agrega igualmente, outras características, como: tempo, quando for permanente ou temporária;
tipo de assistência oferecida se for total ou parcial em relação à força, tanto de exército, marinha e aeronáutica; quando há assistência monetária, etc.. OPPENHEIM, Lassa Francis Lawrence. International Law: A
Treatise.Vol. I. Peace. London: Longmans, Green, and Co., 1905. p. 569-572. Disponível em: <https://archive.org/details/internationallaw12oppe>. Acesso em: 11 mar. 2018.
69 Um bom exemplo destas alianças são as da antiga Hélade (Grécia antiga), em que apesar de serem inúmeras
cidades-estados diminutas, formaram grandes redes de aliança, o que as tornavam incrivelmente poderosas. As mais famosas foram as dos Lacedemônios, que forneciam ajuda as outras cidades desde que mantivessem um governo oligárquico segundo os interesses de Esparta; e a dos Atenienses, que forneciam ajuda em troca de naus e impuseram o pagamento de tributos, em forma de dinheiro aos aliados, transformando-os em tributários. TUCÍDIDES. História da guerra do Peloponeso. Tradução de Mário da Gama Kury. 3. ed. Brasília: Universidade de Brasília, 1987. p. 27.
momento previsto, irão cumprir seus deveres. Outro problema que surge com este tipo de acordo também, é que mesmo que haja resposta ao chamado, por se tratar de soberanias distintas, pode haver inconvenientes quanto à mobilização e organização do exército, táticas militares a serem utilizadas e quem deve, em último caso, dar a decisão final sobre estes fatos e outros decorrentes da aliança70.
Por isto, alguns Estados, dado à similaridade, tanto em termos de origem histórica, religião, língua, cultura quanto em proximidade, resolvem unirem-se sob um governo central, no qual cada Estado cede parte de sua soberania a este novo Estado constituído, uma Federação de Estados. Tal situação faz com que os inconvenientes das alianças desapareçam, visto que, como agora fazem parte de um único governo, que detêm a palavra final, todos são obrigados a atender ao chamado, e mais, já que existe uma autoridade central, esta fica encarregada dos assuntos externos, da guerra e da paz, e das diretrizes a serem adotadas nestes determinados tópicos, de forma muito mais eficaz71.
Outro ponto relevante é que, como o número de Estados soberanos diminui, as probabilidades de desavenças e o surgimento de causas justificativas ou de motivos para moverem guerra consequentemente diminui, uma vez que, mesmo que um dos Estados federados se sinta prejudicado, este só entrará em guerra caso o governo central que visa à segurança e o interesse de todos os Estados Federados concorde e mova guerra em face dessa injúria72. E dessa forma, é mais viável usar o instituto da aliança com os demais Estados que não possuem similaridades ou que não são fronteiriços.
Essas condutas, porém, demonstraram ser insuficientes para manter a paz entre os Estados, pois as guerras continuaram em curso, agravadas agora, pelo inconveniente dos Estados poderem dispor de uma força muito maior.
2.3.3 O advento, queda e o ressurgimento do ideal de universalização
Com as medidas desenvolvidas anteriormente se mostrando ineficazes para a manutenção da paz como um todo, e com todos estes inconvenientes, desejosos por reascender o antigo ideal romano, no qual boa parte dos povos conhecidos estava sob um
70 HAMILTON, Alexander.; JAY, John; MADISON, James. The Federalist. Indianapolis: Liberty Fund, 2001.
p. 16. Disponível em: <http://files.libertyfund.org/files/788/0084_LFeBk.pdf>. Acesso em: 20 mar. 2018.
71 HAMILTON, Alexander.; JAY, John; MADISON, James. The Federalist. Indianapolis: Liberty Fund, 2001.
p. 15. Disponível em: <http://files.libertyfund.org/files/788/0084_LFeBk.pdf>. Acesso em: 20 mar. 2018.
72 HAMILTON, Alexander.; JAY, John; MADISON, James. The Federalist. Indianapolis: Liberty Fund, 2001.
governo, juntamente com o ideal de que todo o povo cristão também deveria estar sob o mesmo Estado73, fez com que em 25 de dezembro do ano 800 d.C., o Papa Leão III coroasse Carlos Magno74, como Imperador e sucessor do Império Romano75. Dando assim início ao que foi posteriormente chamado de Sacro Império Romano76.
Apesar de sua considerável longevidade, o Sacro Império apenas conseguiu se estabelecer de forma mais estável nos povos de origem germânica, não alcançando seu objetivo de restaurar a glória romana77. Tal causa pode ser elencada pela resistência dos demais Estados de considerarem o Imperador como líder78, juntamente com as disputas de poder, tanto dos príncipes germânicos quanto de potências estrangeiras, somando a isto o surgimento das disputas religiosas que tiveram enorme impacto com a reforma protestante nos territórios do Império, minando assim o ideal de uma nação cristã79.
Tais circunstâncias desencadearam a Guerra dos Trinta Anos, que com sua conclusão, na famosa Paz de Westphalia80, irá estabelecer definitivamente o raison d’etat81 e
73 BRYCE, James. The Holy Roman Empire. 4. ed. London: Macmillan and Co., 1873. p. 44-45. Disponível
em: <https://archive.org/details/holyromanempire01brycgoog>. Acesso em: 21 mar. 2018.
74 Carlos Magno viveu entre os anos de 742 d.C. e 814 d.C, sendo Rei dos Francos. Reino este que cobria boa
parte da Europa central, principalmente onde hoje é a França, Alemanha e Itália.
75 Apesar de ainda existir nesta época o Império Bizantino, que era a parte oriental do Império Romano, o
isolamento do restante da Europa e dissensões com a igreja católica, bem como de escândalos e boatos envolvendo o governo bizantino, pelo fato da imperatriz ser uma mulher, fez com que Carlos Magno fosse coroado como legítimo sucessor do Império Romano. Causando controvérsias quanto a sua nomeação como verdadeiro sucessor com o Império bizantino, haja vista que esse ainda continuava a existir. BRYCE, James.
The Holy Roman Empire. 4. ed. London: Macmillan and Co., 1873. p. 46-47. Disponível em:
<https://archive.org/details/holyromanempire01brycgoog>. Acesso em: 21 mar. 2018.
76 BRYCE, James. The Holy Roman Empire. 4. ed. London: Macmillan and Co., 1873. p. 366. Disponível em:
<https://archive.org/details/holyromanempire01brycgoog>. Acesso em: 21 mar. 2018.
77 O Sacro Império Romano foi dissolvido oficialmente em 06 de agosto de 1806, com a declaração de renúncia
de seu último imperador Francis II. BRYCE, James. The Holy Roman Empire. 4. ed. London: Macmillan and Co., 1873. p. 366. Disponível em: <https://archive.org/details/holyromanempire01brycgoog>. Acesso em: 21 mar. 2018.
78 SAINT-PIERRE, Abbé de. Projeto para Tornar Perpétua a Paz na Europa. Tradução de Sérgio Duarte.
São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2003. p. 57.
79 AXWORTHY, Michael e MILTON, Patrick. A Westphalian Peace for the Middle East. Disponível em:
<https://www.foreignaffairs.com/articles/europe/2016-10-10/westphalian-peace-middle-east>. Acesso em: 17 mar. 2018.
80 A chamada Guerra dos Trinta Anos começou em 23 de maio de 1618, envolvendo a maioria dos países
Europeus, e terminou oficialmente em 24 de outubro de 1648, com a assinatura do Tratado de Münster , que foi um dos tratados que ficaram conhecidos como a Paz de Westphalia. Iniciada dentro do território do Sacro Império Romano devido a conflitos religiosos, mas agravada por interesses particulares e interesses de outros Estados fora do Império, fez com que a guerra se estendesse demasiadamente e causasse uma destruição nunca antes vista no continente Europeu, com um número assombroso de mortos e a destruição completa de vilas e cidades. SCHILLER, Frederick. History of the Thirty Years' War. Tradução de A. J. W. Morrison. New York: John B. Alden, 1883. p. 86,517. Disponível em: <https://archive.org/details/1883historyofthi00schiuoft>. Acesso em: 25 mar. 2018.
81 Tal tratado é conhecido por marcar uma ruptura entre a mistura de interesses religiosos e interesses estatais,
o balanço de poder82 nas relações internacionais nos séculos seguintes. Sendo o último, consagrado no Congresso de Viena de 1814-15, onde a divisão dos Estados Europeus fora feita minuciosamente, a fim de evitar que uma fosse poderosa ou débil demais83, fazendo com que o ideal de uma universalização nos moldes do Império ruísse.
Apesar de garantir momentos de paz por algum tempo, posto que, como cada potência tem em teoria o mesmo poder, cria-se, portanto, uma circunstância adversa, que faz com que a chance de uma guerra diminua. Pois, como possuidoras da mesma força, a guerra fica a cargo do acaso, imprevisível. Com esta situação, os Estados se tornam mais reticentes em empreendê-la, uma vez que os custos de fazê-la são elevados e o sucesso incerto84.
Existe uma linha extremamente tênue entre a paz e a guerra neste sistema; isto se deve ao fato de que não é somente uma variável estanque e perpétua que determina a força de um Estado, já que mesmo o mais poderoso e próspero dos Estados hoje, pode amanhã, estar envolto em caos e miséria; e o mais miserável hoje, pode em pouco tempo tornar-se poderoso; então o medo e a ambição se instalam nos demais Estados, criando o desequilíbrio nas relações de poder interestatais desenhadas pelo balanço de poder, tornando todo o sistema instável85. Em decorrência desta instabilidade, somada à falta de um sistema que pudesse garantir de forma eficiente a paz, surgiu entre alguns pensadores europeus a criação de um projeto para uma sociedade europeia, reavivando assim o ideal de universalização86.
Esses projetos visam, em suma, a criação de um sistema no qual a disputa dos soberanos seja resolvida através da arbitragem ou de um sistema jurídico internacional, os dissuadindo de resolverem suas disputas por meio da guerra, proporcionando um ambiente pacífico nas relações interestatais e promovendo garantias para a segurança de todos os membros. Seguindo desta maneira o exemplo dos particulares, que buscando viver em paz e
conceito de que o Estado pode fazer tudo àquilo que é necessário para manter seus interesses e bem estar. Implementado de forma mais contundente pelo Cardeal Richelieu, primeiro ministro da França de 1624 até 1642, que teve um papel muito importante no desenrolar da Guerra dos Trinta Anos e principal defensor e aplicador de tal teoria. KISSINGER, Henry. Diplomacy. New York: Simon & Schuster, 1994. p. 58-59.
82 Outro ponto importante desta paz foi o maior desenvolvimento da teoria do balance de poder que se seguiu nos
próximos séculos. Tal teoria tenta criar um equilíbrio de poderes entre os Estados em questão, fazendo com que nenhum seja forte demais ou fraco demais. Isso faz com que os litigantes se sintam dissuadidos de empreender guerra, dado a incerteza de seu sucesso. Esta teoria assim prevê muitas vezes a cessão de territórios e a união de diferentes Estados, ou seu desmembramento, como ocorreu após as Guerras Napoleônicas, a fim de alcançar este objetivo. KISSINGER, Henry. Diplomacy. New York: Simon & Schuster, 1994. p. 79-80.
83 KISSINGER, Henry. Diplomacy. New York: Simon & Schuster, 1994. p. 79. 84 KISSINGER, Henry. Diplomacy. New York: Simon & Schuster, 1994. p. 79-80.
85 SAINT-PIERRE, Abbé de. Projeto para Tornar Perpétua a Paz na Europa. Tradução de Sérgio Duarte.
São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2003. p. 23,28.
86 SAINT-PIERRE, Abbé de. Projeto para Tornar Perpétua a Paz na Europa. Tradução de Sérgio Duarte.
de forma tranquila, se submetem ao mesmo poder soberano, sendo regidos pelas mesmas leis e orientações e, também, sendo coagidos por uma força maior a fim de não injuriarem um ao outro, sob pena de ser decretada uma sanção jurídica contra aquele que o fizer – evitando assim, a utilização da força bruta e das armas para resolver os litígios entre os Estados. Preservando o povo e seus bens, dos terríveis inconvenientes a que são expostos durante uma guerra87.
Apesar do surgimento deste projeto para uma paz perpétua, sua maioria fora escrita pensando na realidade europeia. Por isto, o próximo capítulo abordará de forma central a ideia kantiana de uma paz perpétua, já que este autor escrevera seu projeto com o propósito de ser universal e globalmente aplicável.
87 ROTERDÃO, Erasmo de. A Guerra e Queixa da Paz. Tradução de A. Guimarães Pinto. Lisboa: Edições 70,
3 A TEORIA DA PAZ PERPÉTUA KANTIANA
Com os problemas verificados no capítulo anterior, surge a questão de como resolvê-los e de qual seria a melhor maneira para alcançar a tão almejada paz. Durante o primeiro capítulo, viu-se que em toda a história tentaram-se inúmeras hipóteses, desde alianças, um Estado universal que reinaria sobre os demais, sistemas de balanço de poder etc., mas todas se mostraram ineficazes para conter a escalada de conflitos e o desencadeamento de guerras.
Será apresentada neste capítulo a teoria da paz perpétua de Immanuel Kant, esboçada principalmente em seu ensaio denominado À Paz Perpétua88, na qual apresenta sua solução de que o único modo de acabar com o inconveniente da guerra seria por meio de um Estado jurídico. Sendo este, regido por um conjunto de leis universalmente promulgadas que regulam a liberdade externa, denominada sob uma concepção geral de ―direito público‖89.
O tema proposto por Kant, ou seja, uma ideia racional de paz universal, não se trata de filantropia ou de princípios éticos, mas é, baseada em princípios jurídicos e, por isto, devem ser observadas, conforme será apresentado a seguir; o tema, portanto, será dividido seguindo a ordem efetuada por Kant em seu ensaio, em que primeiramente são apresentados os artigos preliminares, posteriormente os artigos definitivos e, por fim, os artigos secretos e os suplementos necessários para alcançar o ideal de uma paz perpétua.
O propósito deste capítulo é apresentar a ideia kantiana de como alcançar a paz perpétua, portanto, não haverá neste momento o debate com demais pensadores acerca desta temática, uma vez que tal ficará para um momento futuro, mais precisamente no capítulo três deste trabalho.
88 Ensaio que será tratado com maior enfoque neste capítulo, pois fora nesse em que houve a compilação das
ideias desta paz perpétua. Contudo, em alguns pontos serão utilizados de forma subsidiária outras obras de Kant, como a Metafísica da Ética e a Filosofia do Direito, no qual este tratou de forma mais esmiuçada de temas sobre o direito. E, ademais, o autor do presente trabalho, devido à dificuldade em encontrar alguns dos escritos de Kant em uma das línguas que conheça, também se utilizará do trabalho de autores como Soraya Nour, que fez seu doutorado de filosofia em Frankfurt, na Alemanha, e que teve acesso aos escritos originais de Kant, estudando o tema de forma muito aprofundada e acurada; sendo, portanto, de relevante ajuda no enriquecimento do presente capítulo. Cf. NOUR, Soraya. À paz perpétua de Kant: Filosofia do direito internacional e das relações internacionais. 2. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013.
89 Ressalta-se aqui a diferença entre o que Kant entende por direito público, que diverge ligeiramente do que é
comumente utilizado. O direito público, para Kant, é um sistema de leis para um povo ou conjunto de povos, que por suas influências recíprocas, veem a necessidade implementarem um estado jurídico, que em uma das suas três relações, é considerado o estado civil, ou seja, o Estado. Mais adiante, no item 3.2 será abordado melhor essas três relações jurídicas do direito público. KANT, Immanuel. The Philosophy of Law: An Exposition of the Fundamental Principles of Jurisprudence as the Science of Right. Tradução de William Hastie. Edinburgh: T. & T. Clark, 1887. p. 161-162. Disponível em: <http://oll.libertyfund.org/titles/kant-the-philosophy-of-law>. Acesso em: 02 abr. 2018.
3.1 ARTIGOS PRELIMINARES PARA UMA PAZ PERPÉTUA
A ideia da paz perpétua de Kant começa sendo apresentada por meio de seus artigos preliminares, divididos em seis artigos, que proíbem algum tipo de ato estatal. E, apesar de todas serem leis proibitivas, três destes atos previstos nos artigos preliminares necessitam de supressão imediata e as outras três permitem um adiamento de sua execução sem ser, contudo, ad aeternum90, isto é, não devendo perder de vista o fim almejado91. Portanto, passa-se a verificar os três artigos que prescrevem atitudes de supressão imediata92.
O primeiro artigo preliminar de supressão imediata é que nenhum tratado de paz deve ser considerado como válido se a parte contratante tiver feito uma reserva secreta93 quanto a alguma matéria para poder usá-la como pretexto para uma guerra futura. E, mesmo que a parte contratante desconheça no momento da assinatura do tratado de paz uma causa anterior, este aniquilaria qualquer causa que até então poderia dar motivo a uma guerra futura. Esta crítica se faz devido ao fato de que então não se trataria de paz, que significa justamente o fim de todo tipo de hostilidade, mas sim de um simples armistício, uma vez que os contratantes apenas desfrutariam de certo tempo para poderem se recompor94; contrariando assim, o fim proposto por tal tipo de tratado95.
O segundo artigo preliminar de supressão imediata é que nenhum Estado em guerra deve utilizar-se de hostilidades que façam com que seja impossível estabelecer uma confiança mútua entre os beligerantes na paz futura. Dentre estas hostilidades pode-se enumerar: emprego de assassinos; envenenadores; quebra da capitulação96; instigação à
90 Que dura eternamente, não possuindo fim.
91 KANT, Immanuel. Perpetual Peace: A philosopical essay. Tradução de Mary Campbell Smith. London:
Swan Sonnenschein & Co., 1903. p. 107. Disponível em:
<https://archive.org/details/perpetualpeaceap00kantuoft>. Acesso em: 29 mar. 2018.
92 No presente trabalho se fará uma explanação em uma ordem diversa da apresentada por Kant em seu ensaio,
justamente por este, ao final de seus artigos preliminares, os dividir naqueles de supressão imediata e os que podem ser postergados. Ficando assim, de acordo com o autor do presente trabalho, mais didático em explaná-los deste modo.
93 Esta reserva secreta se refere a uma reserva mental do contratante. Ele omite de forma proposital alguma
questão controversa, para poder usá-la posteriormente. Isso pode se dar para que a parte possa se recuperar; conseguir aumentar seu poder ou esperar para que a parte adversária se enfraqueça para então empreender novamente a guerra com maiores chances de vitória. KANT, Immanuel. Perpetual Peace: A philosopical essay. Tradução de Mary Campbell Smith. London: Swan Sonnenschein & Co., 1903. p. 108. Disponível em:
<https://archive.org/details/perpetualpeaceap00kantuoft>. Acesso em: 29 mar. 2018.
94 Cf. Nota 1.
95 KANT, Immanuel. Perpetual Peace: A philosopical essay. Tradução de Mary Campbell Smith. London:
Swan Sonnenschein & Co., 1903. p. 107-108. Disponível em:
<https://archive.org/details/perpetualpeaceap00kantuoft>. Acesso em: 29 mar. 2018.