• Nenhum resultado encontrado

Da necessidade de defesa e os exércitos permanentes

No documento A paz perpétua Kantiana no século XXI (páginas 47-49)

4.1 O CONFRONTAMENTO DOS ARTIGOS KANTIANOS À REALIDADE DO

4.1.1 Da necessidade de defesa e os exércitos permanentes

Um dos pontos apresentados por Kant é que para a aplicação da paz perpétua é necessário que haja a abolição dos exércitos permanentes, tanto pelo temor que criam aos seus vizinhos quanto pelo fator filosófico de pagar para homens matarem e serem mortos. Ponto este dos mais controversos para os Estados, sendo vigorosamente defendido por uns e vigorosamente atacado por outros.

Estadistas e comandantes de forças armadas constantemente defendem a manutenção de um exército bem equipado e preparado para garantir a segurança e os interesses do Estado, e que a falta do mesmo significaria desvantagem com as demais potências ou mesmo sua ruína163.

Tal ideologia é visível ao analisar os dados de gastos militares pelo mundo, que demonstram um aumento neste tipo de gasto pelos Estados nos últimos anos. Somente do ano de 2016 para o ano de 2017 houve um aumento de 1.1% com gastos relativos à defesa, o que pode ser considerado módico. Contudo, se verifica que do início do século XXI, ou seja, o ano de 2001, em que foram gastos aproximadamente um trilhão de dólares – atualizados monetariamente – com o ano de 2017, onde houve o gasto de US$ 1,739 trilhão, percebe-se um aumento próximo a 70% no período de 17 anos164.

Estes dados se justificam pelo aumento de tensões na região do oriente médio, juntamente com a política russa165 e chinesa166 de aprimoramento e aumento de suas forças

163 Afirmando, inclusive, que a manutenção e investimento no exército gera riqueza para o Estado. VIEIRA,

Sergio. Exército trabalha com um terço do orçamento, revela comandante. Disponível em:

<https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2017/06/22/exercito-vem-trabalhando-com-1-3-do-orcamento- revela-comandante>. Acesso em: 13 maio 2018.

164 TIAN, Nan et al. Trends in world military expenditure, 2017. Solna: 2018. Disponível em:

<https://www.sipri.org/sites/default/files/2018-05/sipri_fs_1805_milex_2017.pdf>. Acesso em: 12 maio 2018.

165 CHRISTIE, Edward Hunter. Does Russia have the financial means for its military ambitions? Disponível

em: <https://www.nato.int/docu/review/2016/also-in-2016/does-russia-have-the-financial-means-for-its-military- ambitions/en/index.htm>. Acesso em: 18 maio 2018.

militares, consideradas defasadas com relação às demais potências ocidentais, o que acarretou o aumento de gastos por parte dos países ocidentais como forma de resposta a possível ameaça destes Estados167.

Demonstrando, portanto, como a corrida armamentista se desenrola exatamente da forma como tanto pensadores como Montesquieu168, Kant, Martin Wight169, Raymond Aron170 e tantos outros afirmaram. O temor de uma inferioridade e de um possível inimigo, que pode ou não se concretizar, leva os Estados a manterem seus exércitos e armamentos, sempre na procura de possuírem a tecnologia mais avançada171. Felizmente, não se chega hoje, ao ponto desta paz armada ser tão sufocante a ponto de ser pior que uma guerra, como apontava Montesquieu e Kant, quando se referiam aos seus tempos172.

Nos últimos anos os países mantiveram uma média entre um a dez por cento de seus rendimentos, contudo, como a riqueza experimentada pelos Estados hoje é muito superior a de dois séculos atrás, e mesmo os 3,3% alocados pelo Estados Unidos da América no ano de 2017 para sua defesa173, faz com que o montante atinja a cifra de mais de US$ 610 bilhões — que já chegou aos incríveis US$ 711 bilhões de dólares em 2011174.

O interessante sobre esses dados é que mesmo países sofrendo com crises econômicas e políticas, a exemplo do Brasil, estes continuam a investir, se não o mesmo montante, mas pelo menos a mesma porcentagem de suas rendas. Provando, dessa forma, como a ideia de defesa ainda está arraigada aos Estados, e como os ideais patrióticos e nacionalistas continuam a exercer forte influência nestes; o suficiente para manter um 166 LENDON, Brad. China boosts military spending 8% amidst ambitious modernization drive. CNN, 06 mar.

2018. Disponível em: <https://edition.cnn.com/2018/03/04/asia/chinese-military-budget-intl/index.html>. Acesso em: 17 maio 2018.

167 EMMOTT, Robin.; ALI, Idrees. U.S. tells NATO allies spending plans still falling short. Reuters, 13 fev.

2018. Disponível em: <https://www.reuters.com/article/us-usa-trump-nato/u-s-tells-nato-allies-spending-plans- still-falling-short-idUSKCN1FY013>. Acesso em: 14 maio 2018.

168 MONTESQUIEU, Charles de Secondat Baron de. The Spirit of Law. Tradução de Thomas Nugent.

Cincinnati: Robert Clarke & CO., v. I, 1873. p. 250-251. Disponível em: <https://archive.org/details/spiritoflaws1873mont>. Acesso em: 10 maio 2018.

169 WIGHT, Martin. A Política do Poder. Tradução de Carlos Sérgio Duarte. 2. ed. São: Imprensa Oficial do

Estado de São Paulo, 2002. p. 247.

170 ARON, Raymond. Paz e guerra entre as nações. Tradução de Sérgio Bath. 1. ed. São Paulo: Imprensa

Oficial do Estado de São Paulo, 2002. p. 803-804.

171 WIGHT, Martin. A Política do Poder. Tradução de Carlos Sérgio Duarte. 2. ed. São: Imprensa Oficial do

Estado de São Paulo, 2002. p. 258.

172 Cf. Nota 107.

173 TIAN, Nan et al. Trends in world military expenditure, 2017. Solna: 2018. p. 2. Disponível em:

<https://www.sipri.org/sites/default/files/2018-05/sipri_fs_1805_milex_2017.pdf>. Acesso em: 12 maio 2018.

174 THE WORLD BANK. Military expenditure (current LCU). Disponível em:

montante razoável em gastos militares em tempos de crise, mesmo sem qualquer tipo de ameaça175.

Relatados estes fatos, fica evidente que a política ainda predominante nas relações interestatais impede ou dificulta em demasia para que haja a desmilitarização, e também demonstra, com o caso dos países africanos176 e do Brasil, que há uma confusão generalizada no emprego do exército para fins de segurança interna, papel, na realidade, de função da instituição policial, uma vez que a força policial é empregada dentro de um Estado para fazer com que as partes integrantes deste cooperem entre si e promovam o progresso; diferentemente do exército, que é a aplicação da força no cenário externo para fazer valer a sua vontade em detrimento do outro177.

No documento A paz perpétua Kantiana no século XXI (páginas 47-49)