IMPACTOS AMBIENTAIS E TRANSGRESSÕES À LEGISLAÇÃO: ANÁLISE DA ORGANIZAÇÃO ESPACIAL DE BACIA HIDROGRÁFICA EM
PROCESSO URBANIZACÃO.
SILVEIRA, Alan1; CUNHA, Cenira Maria Lupinacci da2
1. Geógrafo (bacharel e licenciado) e Mestre em Geografia (Organização do Espaço) pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia da UNESP – Campus de Rio Claro. Doutorando na
mesma Universidade – [email protected].
2. Profª Drª. do Departamento de Planejamento Territorial e Geoprocessamento (Deplan/IGCE/UNESP – Campus de Rio Claro) e coordenadora do Laboratório de
Geomorfologia (LAGEO) – [email protected].
Resumo:
O trabalho tem por objetivo aplicar a proposta metodológica de Moroz, Canil e Ross (1994) para investigação da organização espacial de área em processo de urbanização, principalmente na análise dos impactos ambientais e das transgressões à legislação ambiental. A proposta conta com a elaboração de um documento cartográfico de síntese intitulado por Carta de Derivações Ambientais e Transgressões Legais, por meio da integração de documentos cartográficos intermediários e informações da legislação ambiental selecionada. Foram utilizadas como documentos intermediários a Carta de Declividade ou Clinográfica, a Carta de Cobertura Vegetal e Uso da Terra e a Carta Geomorfológica. A área de estudo refere-se à bacia do córrego das Ondas, localizada em vetor de expansão urbana da cidade de Piracicaba (SP). Pôde-se observar que o processo de urbanização, bem como a ocupação do território a partir da monocultura canavieira, vem sendo conduzido de forma irregular perante a legislação ambiental, contribuindo para a promoção de derivações ambientais.
Palavras-chave: impactos ambientais, transgressões legais, produtos cartográficos intermediários e produto cartográfico de síntese.
Introdução.
A relação estabelecida entre o sistema antrópico e o sistema natural, bem como seus reflexos na organização espacial é tema marcante na ciência geográfica. Fornecendo recursos técnicos que propiciam o desenvolvimento de metodologias de investigação geográfica, a Cartografia, subsidia a leitura e interpretação das organizações espaciais, já que objetiva apresentar em seus cartogramas modelos de representação da realidade. Moroz, Canil e Ross (1994), em trabalho de origem geográfica, utilizando de recursos da ciência cartográfica, propuseram a configuração de um produto cartográfico de síntese intitulado como Carta de Derivações Ambientais e Transgressões Legais. Para Ross (1995), a Carta de Derivações Ambientais e Transgressões Legais representa uma análise sintética sobre os tipos de intervenções feitas pelos homens nos sistemas naturais, avaliando os impactos ambientais gerados na natureza, além das transgressões à legislação ambiental incidente.
Trata-se da combinação de informações contidas nos produtos cartográficos intermediários como as Cartas de Cobertura Vegetal e Uso da Terra, de Declividade ou
e ROSS, 1994). Os autores da proposta, quanto ao objetivo do trabalho, argumentam que:
[...] este trabalho tem como objetivo maior, afirmar ainda mais a necessidade de um planejamento urbano efetivo e conseqüente, que compatibilize os interesses sociais e econômicos e as condições do ambiente natural, a fim de minimizar os efeitos impactantes e conseqüentemente, diminuir os prejuízos causados à qualidade de vida da população, direta ou indiretamente afetada (MOROZ, CANIL e ROSS, 1994, p.36).
Assim, este trabalho tem como principal objetivo aplicar a proposta metodológica de Moroz, Canil e Ross (1994) para a investigação da organização espacial de área em processo de urbanização. A temática chave da investigação refere-se aos impactos ambientais e as transgressões à legislação ambiental.
A área selecionada para o estudo corresponde à bacia do córrego das Ondas (figura 1), localizada no município de Piracicaba (SP), mais especificamente em área de expansão urbana noroeste do sítio urbano de Piracicaba. O Plano Diretor de 1991, bem como seu Diagnóstico de Revisão em 2003 (PIRACICABA, 1991 e PÓLIS, 2003), aponta o setor noroeste como vetor de expansão urbana.
Figura 1: Localização da Área de Estudo. Fonte: PÓLIS, 2003. Organização: Silveira (2009).
Em recente estudo diagnóstico sobre o setor noroeste do sítio urbano de Piracicaba, Silveira (2009), observou o intenso processo de uso e ocupação desta bacia:
Em sua alta e média bacia, as formas de relevo dissecadas com solos de potencial a fragilidade erosiva alta, estão recobertos por pastagem e cana-de-açúcar.
Já para a baixa bacia do córrego das Ondas, as formas de relevo altamente dissecadas, compondo solos de alta fragilidade erosiva, estão sobrepostos
pela urbanização do bairro Vila Sônia sem infra-estruturar adequada. (SILVEIRA 2009, p.137-138).
Dessa forma, a seleção da bacia do córrego das Ondas como unidade de estudo da pesquisa, vem a ser justificada pelas condições identificadas no diagnóstico ambiental executado, bem como pelo processo eminente de expansão urbana apontado pelos Planos Diretores (PIRACICABA, 1991 e PÓLIS, 2003).
1 - Técnica de Mapeamento das Derivações Ambientais e Transgressões Legais.
Moroz, Canil e Ross (1994) aplicaram a proposta de mapeamento das derivações ambientais e transgressões legais em áreas de mananciais da região metropolitana de São Paulo, com o objetivo de confrontar a legislação (Lei de Proteção aos Mananciais da RMSP) com a forma de uso e ocupação, procurando obter resultados que indicassem as transgressões à lei, bem como as alterações ambientais da área (MOROZ, CANIL e ROSS, 1994).
Para isso, propuseram a elaboração de um documento cartográfico de síntese, resultante da combinação dos produtos cartográficos intermediários representados pelas Cartas de Cobertura Vegetal e Uso da Terra (em diferentes cenários) e de Declividade ou Clinográfica, somadas às informações referentes à legislação ambiental (MOROZ, CANIL e ROSS, 1994).
Nestes termos, sua aplicação para a área selecionada para estudo contou com algumas adaptações necessárias baseadas em Silveira (2009). Estas adaptações relacionam-se com a legislação ambiental de interesse (selecionada), com a utilização da Carta Geomorfológica como produto cartográfico intermediário e com a ausência de diferentes cenários de uso e ocupação da terra.
1.1 Os Produtos Cartográficos Intermediários.
A elaboração da Carta de Declividade ou Clinográfica seguiu a proposta de De Biasi (1970 e 1992), sendo realizada de modo analógico sobre a Base Cartográfica, na escala 1: 10.000. As classes de declividade seguiram a proposta de Ross (1994 e 2001), com a composição de sete classes, com valores estabelecidos com base em estudos sobre a capacidade de uso/aptidão agrícola associados com aqueles conhecidos como valores limites críticos da geotecnia.
Sanchez (1993), que sugere que tenha a metade dos valores do ábaco principal. Posteriormente a sua elaboração analógica, a Carta de Declividade ou Clinográfica foi escaneada e transferida para o software Auto CAD Map (2004). No mesmo software promoveu-se sua edição e vetorização para sua apresentação.
A Carta de Cobertura Vegetal e Uso da Terra foi elaboradapor meio da interpretação de fotografias aéreas coloridas do ano de 2005, concedidas em formato digital pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento de Piracicaba (IPPLAP), na escala aproximada de 1:25.000. Foi, portanto, constituído um mosaico de fotografias aéreas inseridas no software Auto CAD Map (2004), georeferenciando a imagem com a Base Cartográfica. Sempre que necessário, recorreu-se a fotointerpretação tradicional, com estereoscópios de bolso, a fim de sanar dúvidas, bem como a trabalhos de campo para atualização das informações.
A Carta Geomorfológica foi elaborada seguindo a proposta dos níveis taxonômicos do relevo de Ross (1990, 1992 e 2001), valorizando os 5º e 6º táxons, já que a escala de mapeamento exige detalhes (1:10.000). Para sua elaboração, foi utilizada a Base Cartográfica, como também as fotografias aéreas concedidas pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento de Piracicaba (IPPLAP), na escala aproximada de 1:25.000, cenário de 2005.
Assim, o 5º e o 6º táxons na área de estudo foram mapeados baseados na fotointerpretação de pares estereoscópicos de fotografias aéreas. No 5º táxon foram mapeadas as formas de vertentes e dos topos, sendo estas: côncavas (Vc), convexas (Vcc), retilíneas (Vr), topos convexos (Tc) e topos planos (Tp). Como 6º táxon foram identificadas as seguintes formas de relevo: sulcos erosivos, ravinamentos, voçorocamentos, colos, linha de cumeada arredondada, linha de cumeada aguda, caimento topográfico, vales em “V”, vales em fundo chato, rápidos, rupturas topográficas, ilhas fluviais, Aptf, terraços agrícolas, cortes de estradas, aterros de estradas, drenagem canalizada, cava de mineração, retirada de material, drenagem original aterrada, drenagem pluvial, entre outros. Tais informações foram mapeadas com uso das simbologias, bem como sua organização na legenda, valendo-se da proposta de Tricart (1965).
1.2 – A Legislação Ambiental de Interesse. Foram selecionadas as seguintes leis de interesse:
- Lei Federal 4.771/1965 - Código Florestal (BRASIL, 1965), assim como as Resoluções CONAMA (2002) 302 (que dispõe sobre os parâmetros, definições e limites de Áreas de Preservação Permanente de reservatórios artificiais e o regime de uso do entorno) e 303 (que dispõe sobre parâmetros, definições e limites de Áreas de Preservação Permanente). Foram considerados os seguintes artigos e incisos das mencionadas Resoluções:
Art 3º - Constitui Área de Preservação Permanente a área com largura
mínima, em projeção horizontal, no entorno dos reservatórios artificiais, medida a partir do nível máximo normal de:
I – trinta metros para os reservatórios artificiais situados em áreas urbanas consolidadas e cem metros para áreas rurais (CONAMA 302/2002).
Art 3º - Constitui Área de Preservação Permanente a área situada:
I – em faixa marginal, medida a partir do nível mais alto, em projeção horizontal, com largura mínima de:
a) trinta metros, para o curso d’água com menos de dez metros de largura; b) cinqüenta metros, para o curso d’água com dez a cinqüenta metros de largura;
II – ao redor de nascente ou olho d’água, ainda que, intermitente, com raio mínimo de cinqüenta metros, de tal forma que proteja, em cada caso, a bacia hidrográfica contribuinte (CONAMA, 303/ 2002).
Destaca-se que o Código Florestal vem nos últimos anos tomando destaque no cenário político e científico brasileiro, a partir da proposta do “novo” Código Florestal (projeto de lei 1876/1999) do deputado federal Aldo Rebelo (PTdoB – SP). No último dia 24/05/2011, a Câmara dos Deputados Federais aprovou o texto-base do referido projeto, o qual foi encaminhado e aguarda parecer do Senado Federal e posteriormente da Presidente da República.
Esta pesquisa apresenta os processos resultantes da contribuição exercida pela violação das normas estabelecidas no Código Florestal brasileiro (4.771/1965), os quais estão evidenciados nas chamadas derivações ambientais. Sendo assim, corrobora-se com a posição do Profº Dr. Emérito da USP, Aziz Nacib A`Sáber, quando na 62ª reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), qualificou o novo projeto como manifesto da estrutura fundiária brasileira, representada pela bancada ruralista no congresso nacional. Além disso, argumenta Ab`Sáber, o projeto não apresenta qualquer qualificação e embasamento científico (PIMENTEL, 2010).
- Lei Federal 6.766/1979 - Lei Lehmann (BRASIL, 1979), e Lei Complementar Municipal 204/2007, que disciplina o parcelamento do solo no Município de Piracicaba
(PIRACICABA, 2007), sendo considerado para a elaboração do documento cartográfico o seguinte artigo e inciso, registrados em seu capítulo I, Seção I:
Art 3º - Não será permitido o parcelamento do solo e implementação de
condomínios:
IV – em terrenos com declividade igual ou superior a 30% (trinta por cento), salvo atendidas as exigências específicas das autoridades competentes (PIRACICABA 207/2007).
Também no que tange a legislação ambiental, acrescentou-se no documento cartográfico produzido os limites das Macrozonas Urbanas, contidas na Lei Complementar Municipal 186/2006, que regulamenta a Revisão do Plano Diretor, em seu Título II, Capítulo I, que fixa as regras de ordenamento do território, definindo as áreas adensáveis e não adensáveis, de acordo com a infra-estrutura e a preservação do meio ambiente (PIRACICABA, 2006).
1.3 - A Carta de Derivações Ambientais e Transgressões Legais.
Para a configuração da Carta de Derivações Ambientais e Transgressões Legais da Bacia do Córrego das Ondas, foram utilizados os seguintes procedimentos técnicos de Moroz, Canil e Ross (1994), com algumas adaptações de Silveira (2009), utilizando o software Auto CAD Map (2004):
1 - Armazenar em um mesmo arquivo nomeado por “Carta de Derivações Ambientais e Transgressões Legais”, as Cartas de Declividade ou Clinográfica, Cobertura Vegetal e Uso da Terra e Geomorfológica;
2 - Criar a chamada zona buffer, que corresponde à faixa destinada a Áreas de Preservação Permanente: a zona buffer compreende uma faixa desenhada ao redor das feições correspondentes a uma dada topologia, onde se pode obter uma análise espacial por meio da delimitação da largura da faixa ao redor da topologia desejada, seja esta um ponto, uma linha ou um polígono (ZACHARIAS, 2001).
Para este caso, a topologia foi representada pelas linhas dos canais de drenagem, com base nas quais foram projetadas faixas marginais (zona buffer) de 30 metros, para os canais com menos de dez metros de largura. Para criação dessa zona buffer, utilizou-se o comando “Map/Topology/Create”.
Na seqüência, com o mesmo comando “Map/Topology/Create”, criou-se a zona buffer para a topologia dos reservatórios de água. Dessa forma, foram projetadas faixas marginais de 30 metros para os reservatórios urbanos e de 100 metros para os reservatórios rurais.
Por fim, na delimitação das faixas de Preservação Permanente, criaram-se as áreas destinadas às nascentes. Com o comando “circle”, projetaram-se ao redor das nascentes uma área circular com raio de 50 metros.
3 – Acionar os “layers” de interesse da Carta de Declividade ou Clinográfica: ativar as classes de declividade 30 a 45% e > 45% (marrom e preta), restritas ao processo de ocupação urbana.
4 - Ativar o “layer” vegetação da Carta de Cobertura Vegetal e Uso da Terra, que deve ser sobreposto às áreas delimitadas como de Preservação Permanente. O “layer” deve ser transferido para a cor branca, sobrepondo as Áreas de Preservação Permanente, passando a representar as áreas não transgredidas. Já as áreas não recobertas pela vegetação, nas faixas de Área de Preservação Permanente, passam a representar as áreas transgredidas;
5 - Transferir as coordenadas do perímetro urbano e dos limites das Macrozonas Urbanas, para posterior vetorização. Também ativar os “layers” de interesse dos produtos cartográficos intermediários, representando as derivações ambientais pontuais (Carta Geomorfológica), convenções cartográficas e edição de legenda;
6 - Investir no trabalho de campo, para aferir a coerência das informações mapeadas, registrar fotograficamente os fenômenos mapeados, além de pontuar, por meio do GPS, outras transgressões ou derivações ambientais pontuais não mapeadas.
A figura 2 ilustra de forma sintética o procedimento de elaboração da Carta de Derivações Ambientais e Transgressões Legais utilizados para a Bacia do Córrego das Ondas.
Figura 2: elaboração da Carta de Derivações Ambientais e Transgressões Legais.
2 - Análise das Derivações Ambientais e Transgressões Legais na Bacia do Córrego das Ondas.
Inicialmente, é importante destacar que foram selecionadas determinadas legislações, algumas de grande importância, que se relacionam diretamente a parâmetros geomorfológicos analisados nessa pesquisa, como as já mencionadas Lei Federal 4.771/1965 - Código Florestal (BRASIL, 1965), Resoluções CONAMA 302 e 303 (2002), a Lei Federal 6.766/1979 (BRASIL, 1979), e a Lei Complementar Municipal 204/2007 (PIRACICABA, 2007).
Também vale mencionar, que as derivações ambientais registradas não resultam única e exclusivamente das transgressões às legislações consideradas, mas diante de um arcabouço sistêmico, de uma integração de fatores condicionantes. Portanto, as transgressões à legislação ambiental contribuem, e em muitos casos decisoriamente, para as derivações ambientais.
Assim, pôde-se reconhecer, por meio da elaboração da Carta de Derivações Ambientais e Transgressões Legais da Bacia do Córrego das Ondas (figura 3), que o processo de
urbanização, bem como o de ocupação do território, sobretudo via monocultura canavieira, vem sendo conduzido de forma irregular perante a legislação ambiental vigente, contribuindo para a promoção de derivações ambientais. A figura 4, representando sua legenda, auxilia a interpretação da Carta de Derivações Ambientais e Transgressões Legais.
Figura 4: Legenda da Carta de Derivações Ambientais e Transgressões Legais. Organização: Silveira (2011).
Nitidamente, a figura apresentada ilustra a ocupação humana no sistema natural de forma inapropriada, ferindo os termos dispostos no Código Florestal e na Resolução CONAMA 303/02. As áreas mapeadas com a cor laranja referem-se aos setores desprovidos de matas ciliares ao longo dos cursos fluviais em faixas marginais de 30 metros. As áreas circulares de cor vermelha expressam setores das cabeceiras de drenagens que não guardam seus 50 metros de raio para a vegetação permanente dispostas nas leis mencionadas.
As áreas consolidadas e em processo de urbanização, na média e baixa bacia, vinculadas a ocupação dos bairros Santa Terezinha, Vila Sônia e Parque Piracicaba, ocupam grande parte da APP do córrego das Ondas e seus afluentes. Nestes setores tomados pela urbanização, os valores de 30 metros solicitados pela lei, não são respeitados, existindo modestos e dispersos pontuais fragmentos de vegetação ao longo dos cursos fluviais. A foto 1 ilustra área de APP do córrego das Ondas ocupada por comércio de material de construção.
Foto 1: APP do córrego das Ondas ocupada pela urbanização. Autor: Silveira (2009).
Quanto às cabeceiras de drenagens em áreas urbanas, entre as aproximadamente 19 nascentes mapeadas, nenhuma delas guarda integralmente os 50 metros de raio mencionados por lei. Muito pelo contrário, em 16 cabeceiras de drenagens, das 19 citadas, as matas no raio de 50 metros praticamente inexistem.
Não diferentemente das áreas consolidadas e em processo de urbanização, naquelas que extrapolam o perímetro urbano, o mesmo modelo de processo de ocupação se repete. A ocupação se dá principalmente pela monocultura canavieira e em segundo plano por pastagens e áreas construídas (chácaras, ranchos, sítios, entre outros). Salvo fragmento de vegetação ainda existente no setor oeste da alta bacia, os espaços legais destinados as cabeceiras de drenagens e aos corredores de matas ciliares vêm sendo tomadas, sobretudo pela cana-de-açúcar.
A foto 2, bem como a Carta de Cobertura Vegetal e Uso da Terra da Bacia do Córrego das Ondas (figura 5), registram o domínio da monocultura canavieira e o processo de urbanização na bacia de estudo.
Foto 2: Domínio da monocultura canavieira e da urbanização na bacia do córrego das Ondas. Autor: Silveira (2009).
Já as transgressões relativas a Lei Lehmann e a Lei Complementar Municipal 204/2007, no que tange a restrição a implementação de espaços urbanos em terrenos com declividade igual ou superior a 30%, muito embora a área de estudo não registre declividades predominantes acima deste valor, conforme ilustra a figura 6, os poucos setores existentes vêm sendo ocupados pelo processo de urbanização.
Registram-se ocupações do bairro Vila Sônia, em declividades elevadas (igual e acima dos 30%) em setores de vertentes e cabeceiras de drenagens na margem direita do córrego das Ondas. Além de ferir a lei Lehmann, também transgride os códigos de preservação de APP. Além disso, este processo de ocupação, junto ao fator declividade e fragilidade pedológica, podem potencializar o desencadeamento de derivações ambientais.
Figura 6: Carta de Declividade ou Clinográfica. Organização: Silveira (2011).
Nestes termos, o processo de ocupação urbana, como também rural, de áreas destinadas à preservação permanente e áreas declivosas contribuem para a ocorrência de derivações ambientais. Por meio da Carta Geomorfológica (figura 7) e de permanentes trabalhos de campo, foi possível registrar na Carta de Derivações Ambientais e Transgressões Legais o desvio e canalização de cursos fluviais, sulcos erosivos, ravinamentos (foto 3), retiradas de material e solos expostos.
Foto 3: Derivação ambiental - processos erosivos em margem desprovida de APP em afluente do córrego das Ondas. Autor: Silveira (2009).
Ainda assim, vale o registro de que muitos dos processos erosivos lineares registrados na área de estudo estão situados em áreas de preservação permanente que se encontram desprovidas de vegetação. Conforme já mencionado, as derivações ambientais como, por exemplo, o processo erosivo, deriva de uma totalidade de condicionantes, incluindo a retirada da cobertura vegetal. Pôde-se notar que as áreas que deveriam ser destinadas às matas ciliares segundo a legislação ambiental, ocupadas hoje pela monocultura canavieira, pastagens, solos expostos, bem como por rebordos urbanos, apresentam uma concentração destes processos.
Figura 7: Carta Geomorfológica. Organização: Silveira (2011).
A seqüência de fotos ilustra esta situação. O ravinamento (foto 4) instalado na margem direita de afluente da média bacia do córrego das Ondas, em área de transição do espaço urbano e rural, que deveria ser destinada a APP, hoje ocupada pela pastagem, promove o assoreamento do curso fluvial, como exemplifica a foto 5, localizado a jusante do ravinamento, já em área urbanizada.
Foto 4: Ravinamento em área que deveria ser de preservação permanente do córrego das Ondas. Autor: Silveira (2009).
Foto 5: Assoreamento no córrego das Ondas, localizado a jusante do ravinamento da foto 4. Autor: Silveira (2009).
Por fim, quanto às derivações ambientais, vale ressaltar que não se pretende afirmar que os sedimentos retirados da vertente ravinada da foto 4 estão depositados no assoreamento registrado na foto 5. Mas, sim, argumentar que as transgressões à legislação ambiental, como a retirada de matas ciliares, auxiliam no desencadeamento
de derivações ambientais, tais como feições vinculadas às erosões lineares aceleradas e aos assoreamentos dos cursos fluviais.
Considerações Finais.
O trabalho procurou contribuir com a análise das transgressões relativas à legislação ambiental, bem como com a identificação dos impactos ambientais derivados das intervenções humanas. O recurso cartográfico da proposta metodológica de Moroz, Canil e Ross (1994), com a produção da Carta de Derivações Ambientais e Transgressões Legais, auxiliou na leitura e interpretação da organização espacial da bacia selecionada para o estudo.
Assim, a proposta de Moroz, Canil e Ross (1994) apresenta-se como instrumento valioso para o planejamento territorial e ambiental de áreas com elevada intensidade de uso e ocupação antrópica. Na aplicação desta metodologia de investigação, destaca-se o uso da Carta Geomorfológica, a qual propiciou contribuição significativa no apontamento das derivações ambientais, principalmente aquelas vinculadas a processos erosivos e interferências urbanas e rurais na morfologia do relevo.
Pôde-se, portanto identificar que, na bacia do Córrego das Ondas, as leis relativas às áreas de preservação permanente e de restrição a ocupação em áreas declivosas não vem sendo respeitadas. Atrelam-se a tais transgressões às legislações vigentes, além do processo de urbanização, a ocupação pela monocultura canavieira, e em menor quantidade pastagens e áreas construídas. Tais ocupações irregulares contribuem decisivamente para o desencadeamento de derivações ambientais atreladas, sobretudo aos processos erosivos lineares.
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