CRIAÇÕES E REINVENÇÕES NA PRODUÇÃO COTIDIANA DO PROJETO REINVENTANDO O ENSINO MÉDIO: UMA ANÁLISE CARTOGRÁFICA DA REALIDADE CRIADA PELOS SUJEITOS DA
ESCOLA
Cíntia Castro Monteiro Heloisa Raimunda Herneck Natália Regueira Fernandes Universidade Federal de Viçosa PIBIC/CNPQ
Introdução
O Projeto Reinventando o Ensino Médio, criado pelo governo de Minas Gerais tem o objetivo de criar um ciclo de estudos com uma identidade própria, proporcionando ao Ensino Médio instrumentos favorecedores da empregabilidade e melhores condições para dar seguimentos aos estudos. O presente trabalho se propõe evidenciar os conflitos produzidos no cotidiano de uma escola pública estadual de Viçosa, cidade localizada na zona da mata mineira.
Essa pesquisa caracteriza-se pelo registro dos modos como a realidade é criada pelos sujeitos que a habitam, constituindo um território. Neste sentido, a metodologia utilizada é a cartografia, uma vez que ela nos possibilita seguir as pistas do cotidiano, tecendo fios e redes de saberes.
Segundo Barros e Kastrup (2010)“o objetivo da cartografia é justamente desenhar a rede de forças à qual o objeto ou o fenômeno em questão se encontra conectado, dando conta de suas modulações e de seu movimento permanente (p. 57)”. Assim, os dados produzidos são parte das observações do cotidiano escolar, nas quais estão envolvidas as aulas de um professor e uma professora que atuam com áreas de empregabilidade desse projeto, em turmas do 1º ano do Ensino Médio de uma Escola Estadual.
Este texto se constitui como um ensaio, não pretendendo responder perguntas e nem produzir conclusões, mas trazer reflexões sobre a temática, haja vista que ainda estamos nos movimentos iniciais dessa pesquisa. Nesta perspectiva, evidenciamos a importância dos estudos com o cotidiano escolar, uma vez que pretendemos abarcar a complexidade da realidade educativa durante a implementação do projeto.
Proposta do Projeto Reinventado o Ensino Médio
A criação do Projeto Reinventando o Ensino Médio foi impulsionada pela reestruturação administrativa do estado de Minas Gerais, o qual é denominado Choque de Gestão. O mesmo tem como objetivo melhorar a qualidade e diminuir os gastos públicos. É considerado um dos desdobramentos do Projeto de Desenvolvimento
Profissional Docente (PDE), tendo hoje como ponto de referência a Escola de Desenvolvimento Profissional Docente (MAGISTRA), localizada em Belo Horizonte, capital Mineira.
Esse projeto começou a ser idealizado em 2011, com a finalidade de reformular a grade curricular do Ensino Médio na rede pública do Estado. Em 2012, foi implementado em 11 escolas públicas estaduais de Belo Horizonte. Em 2013, foi ampliado para mais 122 escolas estaduais, sendo dividido nas diferentes superintendências regionais de ensino. Cada uma das 47 superintendências pôde escolher duas escolas para implantar o projeto. Em 2014, está sendo implantado em todas as escolas do estado.
O projeto piloto Reinventando o Ensino Médio disponibiliza dezoitoi áreas de empregabilidade. Essas áreas têm como finalidade atender a diversidade dos interesses dos alunos de cada região e instituição educativa. Cada escola deve oferecer duas a três áreas dessas dezoito, podendo o aluno optar-se por uma. Para a implementação do mesmo, tornou necessário aumentar a carga horária da escola para 3.000 horas, criando o sexto horário.
O Projeto no Cotidiano da Escola
Por meio desse estudo, pretendemos mapear a complexidade das redes educativas, absolvendo suas multiplicidades. Desejamos seguir juntos às novidades, aos imprevistos e às situações inesperadas, através dos processos inventivos e conflitos vivenciados pelos sujeitos participantes dessa pesquisa.
No ano de 2013, participamos de uma reunião de pais promovida pela escola pesquisada como forma de nos inteirarmos com o Projeto Reinventando o Ensino Médio. A questão mais abordada foi o transporte escolar. Com o aumento do sexto horário, os estudantes do ensino médio estavam sem condução para retornarem as a suas residências. Grande parte dos alunos moram em lugares distantes da escola ou na Zona Rural. E, mesmo se os pais se propuserem a pagar o transporte de seus filhos, na cidade não existe horário de ônibus compatível com as aulas. Dessa forma, muitos deles não têm alternativa, para “assistirem” a aula do sexto horário precisam voltar caminhando para casa.
Os pais estavam indignados com tal situação, pois não querem que seus filhos se prejudiquem por causa desse novo projeto que a escolas mineiras tiveram que aderir. Começaram a criticá-lo com a vice diretora e coordenadora do projeto “nós temos que entrar com um processo contra o ministério público, o estado cria um projeto que não dá
conta de atender as necessidades dos alunos e da escola”; “projeto mal formulado”; “é obrigatório e iniciou-se de cima para baixo sem suporte e sem estrutura”; “o curso não é técnico e atrapalha o Ensino Médio”; “o Governo joga a bomba e a gente se vira”.
Ao final da reunião perguntamos a um pai de aluno o que ele poderia nos dizer sobre o projeto Reinventando o Ensino Médio e obtivemos o seguinte depoimento:
Por ser um projeto piloto que está iniciando posso dizer que é interessante, porém falta a estrutura de apoio pelo Município ou Estado. O projeto propõe o aumento de um horário a mais, mas não dá condições necessárias ao aluno. Tendo em vista que esse aluno acorda por volta de 5:50 da manhã para conseguir chegar no horário de início das aulas. O aluno deve retornar a sua residência por volta de 12:20, devido a esse período prolongado, ele não pode ser prejudicado pelas matérias específicas de Segundo Grau por um curso optativo com caráter obrigatório, sem ofertas de um diploma. Com tudo isso, o aluno vai chegar em casa tarde e cansado prejudicando a preparação para o vestibular.
Percebemos que os “problemas” referentes à implementação do projeto, para os pais, parece estar mais ligado as questões de infraestrutura para que seus filhos participem das aulas do que a proposta em si. Isso porque, em Viçosa, e na escola pesquisada, há uma preocupação com a preparação para o vestibular. Os alunos que necessitam de transporte escolar são justamente aqueles cuja escolha pela escola, se deve à sua referência na cidade como uma escola pública que tem boa aprovação no vestibular. Esses pais então, não estão “muito interessados” em formação profissional no Ensino Médio, ainda mais quando este não oferece diploma.
Como o objetivo do projeto é pesquisar as formas de organização da escola e as redes engendradas nas vivências que tangenciam o projeto em suas refrações adentramos na sala de aula e resolvemos acompanhar duas turmas de primeiro ano. Nessas turmas são trabalhadas a área de empregabilidade “Recursos Naturais e Meio Ambiente”. Portanto, iremos acompanhar as aulas de uma professora e um professor que atuam no Ensino Médio. A professora possui três horários nessa turma, suas aulas são teóricas. Já o professor apenas duas uma vez que esse fica responsável pelas aulas práticas. Por meio dessa participação na sala de aula podemos observar quais processos inventivos professores e alunos produzem no contexto escolar. Assim, selecionamos dois acontecimentosii ocorridos na sala de aula desses educadores.
O professor estava explicando no quadro a avaliação de impacto ambiental e os levantamentos topográficos, demonstrou aos alunos o que era um croquiiii e como iriam construí-lo. O mesmo pediu para que todos se direcionassem para a sala de computadores para construírem o seu croqui por meio do programa Geogebra. Nesse momento, o professor percebeu que os alunos estavam meio dispersos e entrando no
facebook e propôs: “Vocês, saem do facebook e vamos fazer a atividade. Prometo que no final da aula eu deixo vocês olharem o facebook por cinco minutos”. Os alunos fizeram o que o professor havia solicitado. Depois o mesmo cumpriu com o combinado. Esses combinados e acordos podem ser considerados como criações, composições didáticas do saber fazer docente, bem como uma táticaiv do professor para conseguir alcançar seus objetivos propostos em cada aula.
Nesse sentido, a autora Duran pontua
As invenções cotidianas que ocorrem na escola representam as diferentes formas de os professores se ajustarem às políticas que lhes são impostas, às diferentes formas de “caça não-autorizada” que vai reorganizando o cotidiano de suas práticas (DURAN, 2007, p.126).
Outra observação que diz respeito aos processos de criações e reinvenções no cotidiano escolar, também demostraram-se presentes nas aulas da professora. A mesma ao explicar o conteúdo, observa o que perpassa pela sala de aula, as conversas dos alunos, o que estão fazendo, vendo... Entre outros aspectos relevantes. Constantemente cria e reinventa suas aulas de acordo com a ação dos alunos. Ao explicar o conteúdo emenda em sua fala o que os alunos estão fazendo, os mesmos logo percebem. A professora nem precisa parar a aula para chamar a atenção deles.
Assim sendo, as criações e invenções acontecem de várias maneiras a partir de situações, acontecimentos, movimentações presentes no cotidiano escolar. Os relatos observados nas aulas tecidas por esses professores a cada dia potencializam nossos estudos, uma vez que nos dá pistas e nos ajuda a desvendar alguns casos particulares da complexa realidade educativa.
Considerações Finais
Como já havia elucidado acima, ainda estamos nos movimentos iniciais da pesquisa e continuaremos observando e participando do cotidiano inventado e praticado em uma escola pública de Minas Gerias. Dessa maneira, as invenções, movimentações nos possibilitam a criar, reinventar, produzir coletivamente novos sentidos para o cotidiano escolar, bem como perceber as refrações, conflitos na implementação do “Projeto Reinventando o Ensino Médio”.
Portanto, é ponderado dizer que as experiências vividas até o momento foram significativas. Ainda estamos caminhado, de forma a acompanhar os fluxos da escola, mapeando a implementação do projeto. Como dito anteriormente, não buscamos apresentar conclusões e nem respostas. O nosso intuito até o momento é criar reflexões a partir da observação e participação vivenciada no cotidiano da escola.
Referências
BARROS, Laura Pozzana; KATRUP, Virgínia. Pistas do Método da Cartografia:
Pesquisa Intervenção e Produção de Subjetividade / Cartografar é Acompanhar
Processos – p.52-144. Porto Alegre: Sulina, 2010.
CERTEAU, M. A invenção do cotidiano: as artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1996. DELEUZE, Gilles. Lógica do Sentido. São Paulo, perspectiva, 1982.
DURAN, Marília Claret Geraes. Maneiras de Pensar o Cotidiano Com Michel de
Certeau. Diálogo Educ., Curitiba, v. 7, n. 22, p. 115-128, set./dez. 2007.
MARTINO, Jarryer Andrade de. A importância do croqui diante das novas
tecnologias no processo criativo. Dissertação (Mestrado) – Universidade Estadual
Paulista. Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação, Bauru, 2007. Disponível em:
www.faac.unesp.br/Home/Pos-Graduacao/Design/.../jarryermartino.pdf. Acesso em: 15
de maio de 2014.
MINAS GERAIS, Secretaria do Estado da Educação de Minas Gerais. Reinventando o
Ensino Médio. Disponível em:
http://www.educacao.mg.gov.br/images/stories/publicacoes/reinventado_ensino_Medio
_WEB.pdf. Acesso em: 05 de janeiro de 2014.
i
1) Recreação Cultural, 2) Produção Cultural, 3) Reciclagem, 4) Turismo, 5) Comunicação Aplicada, 6) Meio Ambiente e Recursos Naturais, 7) Tecnologia da Informação, 8) Gestão Pública, 9) Estudos Avançados: Linguagens, 10) Estudos Avançados: Ciências, 11) Estudos Avançados: Humanidade e Artes, 12) Lazer, 13) Empreendedorismo e Gestão 14) Desenvolvimento de Habilidades Cognitivas, 15) Vida e Bem Estar, 16) Webdesign, 17) Desenvolvimento Agrícola e Contabilidade e 18) Saúde - Familiar e Coletiva.
ii Segundo Deleuze (1982) o acontecimento não é um acidente, ele é puro expresso, nos espera, nos dá
sinal. O acontecimento possui o momento presente de efetuação, o mesmo se encarna no estado das coisas, em um indivíduo, em uma pessoa.
iii Croqui s.m. Esboço de desenho ou pintura. (Ibid., p. 176 apud Martino p. 31).
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Segundo Certeau (2008, p. 102) as táticas são procedimentos que valem pela pertinência que dão ao tempo – às circunstâncias que o instante preciso de uma intervenção transforma em situação favorável, à rapidez de movimentos que mudam a organização do espaço, às relações entre momentos sucessivos “golpe”, aos cruzamentos possíveis de durações e ritmos heterogêneos etc.