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aos leitores portugueses
Quando escrevi o meu primeiro romance sobre Ignazio de Toledo, era apenas um autor estreante, ou, nem isso. Era um sonhador que se divertia a passar ao papel aventuras vividas no ambiente histórico de que gostava (e gosto) mais do que de qualquer outro: a Idade Média. Passaram-se mais de dez anos e muitas coisas mudaram. Mas não todas. A necessidade de evasão, a paixão pela ficção e o desejo de ver o mundo através dos viajantes do século xiii permaneceram
imutáveis. Melhor, pode dizer-se que se tornaram uma certa forma de dependência.
Foi este o motivo que me levou a regressar ao tema de Ignazio de Toledo mesmo depois de ter trabalhado muitas outras tramas povoa-das de novas personagens. A ele que, para além do sucesso que me deu a conhecer, encarna, na perfeição, a ideia que faço sobre Ulisses medieval.
O Ulisses que, segundo penso, Dante Alighieri condena ao inferno por causa da sua excessiva curiosidade. O Ulisses que se aventura a explorar o impossível, a perseguir o desconhecido, que passa de via-jante a sereia porque na sua sede de conhecimento se deixa encantar, a si próprio e aos outros.
Sentia falta deste mundo aventuroso.
MARCELLO SIMONI
O mundo no qual Ignazio de Toledo se move como um verdadeiro homem de carne e osso, com sentimentos próprios.
E sinto uma enorme felicidade pelo facto de o mercador também prosseguir nas suas aventuras na edição portuguesa para o Clube do Autor, editora à qual estou muito grato por ter acompanhado, a par e passo, a minha produção romanesca. E por me ter permitido chegar a tantos e tão extraordinários leitores!
Marcello Fois Comacchio, 12 de abril de 2021
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Anno Domini 1232 24 de fevereiro
Um relincho ecoou na noite.
O homem permaneceu sentado no banco, no interior da loja, a aplainar uma mesa de carvalho. Aquele som viera seguramente de perto, de demasiado perto para o poder ignorar. No entanto, conti-nuou a observar à luz da vela as raspas de madeira que iam caindo e a corrigir as imperfeições do trabalho com a atitude de um monge em oração.
Não ouviu a calhandra parar de cantar, nem o tamborilar de uns socos que estacaram a poucos passos da sua porta. Imaginou um ca-valeiro a desmontar da sela e a aproximar-se no escuro, mas não se dignou espreitar pelas janelas vedadas com pergaminho. Já iam longe os tempos em que obedecia ao instinto. Remotos como os sofrimen-tos que só uma vida tão tranquila conseguira acalmar.
— Voltai amanhã! — Ouviu pouco antes de lhe baterem à porta. — Trago uma mensagem! — respondeu uma voz masculina por trás da porta.
— Amanhã, depois das laudes!
— Uma mensagem! — insistia o desconhecido. — Para Willalme de Béziers!
O homem sentiu um calafrio. Há anos que não ouvia aquele nome e, pelas alminhas, preferia ter permanecido no esquecimento.
MARCELLO SIMONI
Morto, repetia para consigo. Então pousou a plaina, tirou um grande prego de uma prateleira e, depois de o ter escondido no côncavo da mão direita, aproximou-se da entrada.
— Montai no vosso corcel! — intimou. — Willalme de Béziers está morto!
— Há semanas que vos procuro! — replicou o mensageiro em tom dolente. — Sois vós, não é verdade? Mestre Willalme, o carpin-teiro! A missiva que devo entregar-vos…
— Willalme de Béziers está morto, já vos disse! — Não percebestes o que disse? A missiva…
Num crescendo de exasperação, o artesão escancarou a porta e agarrou o visitante por um ombro.
— E então? — exclamou, apontando-lhe o prego à garganta. — Quem vos manda a terras de heréticos?
O desconhecido, um jovem que ainda não devia ter completado as vinte primaveras, perscrutou-o com um rosto congestionado de frio e de fadiga. Os olhos do homem repararam apenas na capa de lã, num punhal que trazia à cintura e num cavalo preso a um arbusto, debaixo do candelabro celeste da Ursa que iluminava os pântanos da Camarga.
— Venho… — balbuciou o desgraçado. — Venho da…
— Sois surdo? — gritou-lhe. — Não quero saber de onde vindes, mas quem vos mandou!
— Eu… — respondeu-lhe o fulano. — Está tudo escrito aqui… — E mostrou-lhe o rolo de pergaminho que segurava entre os dedos.
— Guardai essa pele — murmurou o artesão largando a plaina. — Não sei ler.
—Talvez não saibais ler o latim — continuou o mensageiro, en-quanto se esforçava por recuperar do susto. — Mas pelo que disse aquele que me mandou procurar-vos… — e mostrou-lhe o rolo —, sois perfeitamente capaz de compreender a escrita árabe.
O homem não conseguiu conter uma exclamação de terror. Um sonho, disse para consigo. Só podia tratar-se de um sonho. Um pesa-delo invocado pelo Maligno… Superado o mal-estar, pegou na missi-va, retirou o sinete e, à luz diáfana que o iluminava por trás, deu uma
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vista de olhos ao conteúdo e confirmou o que lhe fora anunciado: linhas escritas em árabe.
Naquele instante compreendeu que não podia continuar a mentir. Só uma pessoa, nos confins do domínio da cristandade, conhecia o seu segredo.
O segredo de Willalme de Béziers.
— Uma última coisa… — acrescentou o mensageiro, deixando cair a seus pés uma bolsa que tilintava com moedas.
Willalme passou o resto da noite a reler a mensagem e a meditar sobre quem lha enviara. Sem qualquer pré-aviso, aquele indivíduo emergia de um passado de surpresas e obscuridade, pedindo-lhe que voltasse a ser o que fora durante algum tempo. Um sacrifício que ex-cedia em muito qualquer vínculo de reconhecimento ou de lealdade. Um sacrifício ao qual, no entanto, sabia não poder esquivar-se. Daí que, regressado da sua longa reflexão, abraçou a mulher e a criança que viviam com ele, fez uma promessa e, depois de se ter despedido delas, encaminhou-se para um cemitério no limite dos pântanos.
Havia uma árvore à guarda dos sepulcros, um ulmeiro velho de tronco contorcido. Willalme ajoelhou-se perto das raízes e, após rezar uma velha oração, começou a escavar com as mãos, sem se dar conta da alba que começava a tingir-lhe de dourado os cabelos e a barba de eremita.
Podia ter trazido uma pá, pensou, dando-se conta da dureza da terra, mas o que fazia exigia uma forma de respeito, de intimidade, quase em tudo diferente do estado de espírito de quem se propõe levar a cabo um simples trabalho braçal.
Estava a desenterrar uma parte de si mesmo. Um nome, uma memória, uma dor.
Foi com essa consciência que, depois de reduzidos os dedos a apêndices negros e ensanguentados, trouxe à luz um embrulho do tamanho de um braço.
Vencida a última relutância, retirou o objeto que anos antes sepultara perto das raízes do grande ulmeiro e, com a amargura de
MARCELLO SIMONI
quem infringe o mais sagrado dos juramentos, rasgou as extremidades da peça expondo à luz deslumbrante do sol a lâmina prateada de uma cimitarra.