Trabalho Escravo Contemporâneo
“Desafios e Perspectivas”
Adriana Augusta de Moura Souza
José Eduardo de Resende Chaves Júnior
Lívia Mendes Moreira Miraglia
Coordenadores
Trabalho Escravo Contemporâneo
“Desafios e Perspectivas”
EDITORA LTDA.
© Todos os direitos reservados
Rua Jaguaribe, 571 CEP 01224-003 São Paulo, SP – Brasil Fone (11) 2167-1101 www.ltr.com.br Maio, 2018
Produção Gráfica e Editoração Eletrônica: LINOTEC Projeto de Capa: FABIO GIGLIO
Impressão: BOK2
Versão impressa: LTr 6050.5 — ISBN: 978-85-361-9649-7 Versão digital: LTr 9362.1 — ISBN: 978-85-361-9663-3
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Trabalho escravo contemporâneo – “desafios e perspectivas” / Lívia Mendes Moreira Miraglia, Adriana Augusta de Moura Souza, José Eduardo de Resende Chaves Júnior, coordenadores. – São Paulo: LTr, 2018.
Vários autores. Bibliografia.
1. Trabalho escravo 2. Trabalho escravo - Brasil I. Miraglia, Lívia Mendes Moreira. II. Souza, Adriana Augusta de Moura. III. Chaves Júnior, José Eduardo de Resende.
18-14541 CDU-34:331(81) Índices para catálogo sistemático:
I Congresso “Trabalho Escravo Contemporâneo”
Desafios e Perspectivas
COORDENADORES
Adriana Augusta de Moura Souza, José Eduardo de Resende Chaves Júnior e Lívia Mendes Moreira Miraglia
COLABORADORES
André Gomes de Menezes, Emanuella Ribeiro Halfeld Maciel, João Pedro N. Sturm, Letícia Andrade Lopes, Marcela Rage Pereira, Marianna Gomes S. Lopes, Patrícia Rück D. Dias, Rita Magalhães de Oliveira e Tainá de O. Meinberg Cunha
AUTORES
Adriana Augusta de Moura Souza: Graduada em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais. Procuradora
do Ministério Público do Trabalho em Belo Horizonte (PRT 3ª Região/MPU). Procuradora-Chefe da PRT 3ª Região desde 2015. E-mail: <[email protected]>.
Ana Cláudia Nascimento Gomes: Doutora em Direito Público (2015) e Mestre em Ciências Jurídico-Políticas
(2001), ambos títulos pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Procuradora do Trabalho em Belo Horizonte (PRT 3ª Região/MPT-MPU). Professora Concursada da PUC/Minas-Belo Horizonte. Endereço eletrônico: <[email protected]>.
Augusto Sérgio de Paula Ferreira: Graduando em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Federal de
Minas Gerais e membro voluntário do projeto Clínica de Trabalho Escravo e Tráfico de Pessoas da FDUF/MG.
E-mail: <[email protected]>.
Bárbara Isabelli Squárcio Rodrigues: Estudante de Graduação em Direito na Universidade Federal de Minas
Gerais.
Carlos H. B. Haddad: Juiz Federal e Professor da Faculdade de Direito da UFMG. Diretor da Clínica de Trabalho
Escravo e Tráfico de Pessoas.
Clara Lacerda: Graduanda em Direito (UFMG – 9º período). Estagiária do Tribunal do Trabalho da 3ª Região. Cleber Lúcio de Almeida: Pós-doutor em Direito pela Universidad Nacional de Córdoba/ARG. Doutor em Direito
pela Universidade Federal de Minas Gerais. Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professor dos cursos de graduação e pós-graduação (mestrado e doutorado) da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Juiz do Trabalho junto ao TRT da 3ª Região.
Daniel Dias de Moura: Advogado. Mestre em Direito Material e Processual do Trabalho. Conselheiro da
OAB/MG. Presidente da Comissão da Verdade da Escravidão Negra e de Combate ao Trabalho Escravo no Brasil – CEVENB/MG.
Emanuella Ribeiro Halfeld Maciel: Graduanda da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Estagiária da
Clínica de Trabalho Escravo e Tráfico de Pessoas da UFMG. E-mail: <[email protected]>.
Gabriela Neves Delgado: Doutora em Filosofia do Direito pela UFMG. Mestre em Direito do Trabalho pela PUC/
Fa-6
Trabalho Escravo conTEmporânEo – “DEsafiosE pErspEcTivas”culdade de Direito da UnB. Líder do Grupo de Pesquisa “Trabalho, Constituição e Cidadania” (UnB-CNPq). Membro do corpo docente da Pós-Graduação stricto sensu da Faculdade de Direito da UnB. Advogada.
Janini Loyslene Talini dos Santos: Estudante de Graduação em Direito na Universidade Federal de Minas Gerais. João Pedro Nunes Sturm: Graduando da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Estagiário da Clínica de
Trabalho Escravo e Tráfico de Pessoas da UFMG. E-mail: <[email protected]>.
Julianna do N. Hernandez: Mestranda em Direito do Trabalho pela Faculdade de Direito da Universidade Federal
de Minas Gerais, sob a orientação da Prof. Dra. Lívia Mendes Moreira Miraglia. Advogada. E-mail: <[email protected]>.
Laura Ferreira Diamantino Tostes: Mestre em Instituições Sociais, Direito e Democracia pela Universidade
Fu-mec. Especialista em Direito Material e Processual do Trabalho pela FDMC. Professora de Direito do Trabalho e Prática Trabalhista nos programas de graduação e graduação lato sensu da FDMC. Professora da pós--graduação lato sensu da ESA/OAB-MG. Atualmente ocupa o cargo de assessora de Desembargadora no TRT da 3ª Região.
Leonardo Sakamoto: Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Professor de Jornalismo na
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Con-temporâneas de Escravidão.
Leonardo Soares Nader: Profissional de direitos humanos. Doutorando em Direitos Humanos e Política Global
pela Scuola Superiore Sant’anna. Foi Subsecretário de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos no Estado de Minas Gerais e Oficial de Direitos Humanos em várias operações de Paz da ONU. Coordenador do COMITRA-TE desde sua criação até setembro de 2016.
Lívia Mendes Moreira Miraglia: Doutora em Direito do Trabalho pela UFMG. Mestre em Direito do Trabalho pela
PUC/Minas. Professora Adjunta de Direito do Trabalho da Faculdade de Direito da UFMG. Coordenadora da Clínica de Trabalho Escravo e Tráfico de Pessoas da FDUF/MG. Membro do corpo docente da Pós-Graduação
stricto sensu da Faculdade de Direito da UFMG. Advogada.
Marcelo Campos: Auditor fiscal do trabalho. Coordenador do Projeto de Combate ao Trabalho Escravo da
Supe-rintendência do Trabalho em Minas Gerais.
Mariana Rezende Guimarães: Pós-Graduada em Direito Aplicado ao MPU (2016) pela Escola Superior do
Minis-tério Público da União. Analista do MPU/Direito (PRT 3ª Região/MPT-MPU). Endereço eletrônico: <mariana. [email protected]>.
Marianna Gomes Silva Lopes: Graduanda em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais, extensionista
da Clínica de Trabalho Escravo e Tráfico de Pessoas da FDUF/MG. E-mail: <[email protected]>.
Patrícia Rück Drummond Dias: Advogada. Mediadora. Graduação em Direito pela Universidade Federal de Minas
Gerais. E-mail: <[email protected]>.
Paula Oliveira Cantelli: Mestre em Direito do Trabalho pela PUC/Minas. Representante do TRT/3ª Região no
Comitê Estadual de Atenção ao Migrante, Refugiado e Apátrida, Enfrentamento do Tráfico de Pessoas e Erra-dicação do Trabalho Escravo – Comitrate. Professora licenciada de Direito do Trabalho da Faculdade de Direito Milton Campos. Desembargadora do TRT/3ª Região.
Paula Pereira Saraiva Sena: Graduanda em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais. E-mail:
Rafaela Neiva Fernandes: Graduada em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais. Pós-Graduada em
Di-reito Aplicado ao MPU pela Escola Superior do Ministério Público da União. Analista do MPU/DiDi-reito (PRT 3ª Região/MPT-MPU). Assessora da Procuradora-Chefe da PRT 3ª Região. E-mail: <[email protected]>.
Ricardo Rezende Figueira: Doutorado em Ciências Humanas com ênfase em Antropologia. Professor de Direitos
Humanos. Coordenador do Grupo de Pesquisa Trabalho Escravo Contemporâneo na Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Tainá de Oliveira Meinberg Cunha: Mestranda na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais. Wânia Guimarães Rabêllo de Almeida: Pós-doutora em Direito pela Universidad Nacional de Córdoba/ARG.
Doutora e mestra em Direito Privado pela PUC/Minas. Professora da Faculdade de Direito Milton Campos. Advogada.
Sumário
ApresentAção ...
9
130 Anos dA Lei ÁureA no BrAsiL:
A reguLAmentAção de umA representAção simBóLicA deLiBerdAde HumAnA ... 11
Gabriela Neves Delgado e Lívia Mendes Moreira Miraglia
PRIMEIRA PARTE “VOZES QUE NÃO SE CALAM”
A reformA trABALHistA e os desAfios no comBAte Ao trABALHo escrAvo contemporâneo .... 15
Adriana Augusta de Moura Souza e Rafaela Neiva Fernandes
o AtAque Ao direito do trABALHo e Aos direitos fundAmentAis do trABALHAdor BrAsiLeiro .. 22
Marcelo Campos
A BuscA não AcABA nuncA: conversAndo soBre A escrAvidão contemporâneA ... 24
Ricardo Rezende Figueira
por que o BrAsiL estÁ desistindo de comBAter o trABALHo escrAvo? ... 30
Leonardo Sakamoto
cAso trABALHAdores dA fAzendA BrAsiL verde: sentençA tArdiA, repercussão LimitAdA ... 35
Carlos H. B. Haddad
o pApeL dA ordem dos AdvogAdos nA LutA peLA errAdição dA escrAvidão modernA... 46
Daniel Dias de Moura
ministério púBLico
do trABALHo e trABALHo escrAvo contemporâneo: estruturAçãoinstitucionAL pArA enfrentAmento do proBLemA e um exempLo de cAso prÁtico de trABALHo
escrAvo urBAno com “resgAte sociAL” do empregAdor ... 52
Ana Cláudia Nascimento Gomes e Mariana Rezende Guimarães
interseções e sinergiAs entre trABALHo escrAvo, trÁfico de pessoAs e migrAções: o cAso
dA criAção do comitrAte em minAs gerAis ... 648
Trabalho Escravo conTEmporânEo – “DEsafiosE pErspEcTivas”contrAto de trABALHo intermitente e condições degrAdAntes de trABALHo ... 73
Cleber Lúcio de Almeida e Wânia Guimarães Rabêllo de Almeida
um oLHAr contemporâneo do trABALHo escrAvo: A LutA continuA ... 78
Clara Lacerda, Laura Ferreira Diamantino Tostes e Paula Oliveira Cantelli
SEGUNDA PARTE “VOZES QUE SE LEVANTAM”
dificuLdAdes institucionAis no comBAte Ao trABALHo escrAvo contemporâneo no BrAsiL ... 95
Emanuella Ribeiro Halfeld Maciel e João Pedro Nunes Sturm
Aos fundAmentos e AmeAçA Aos AvAnços conquistAdos peLA Lei n. 10.803/2003 ... 100
Augusto Sérgio de Paula Ferreira
(contrA) reformA trABALHistA: refLexões soBre A JornAdA exAustivA e o esvAziAmento do
conceito de trABALHo escrAvo ... 110
Marianna Gomes Silva Lopes e Paula Pereira Saraiva Sena
reformA trABALHistA: A escrAvidão contemporâneA em AnÁLise ... 118
Bárbara Isabelli Squárcio Rodrigues e Janini Loyslene Talini dos Santos
estudo de cAso: A escrAvidão contemporâneA nAs reLAções de trABALHo doméstico
BrAsiLeirAs ... 124
Patrícia Rück Drummond Dias e Julianna do N. Hernandez
trABALHo escrAvo infAntiL e A perpetuAção do cicLo de misériA, desiguALdAde e
expLorAção ... 133
Apresentação
José Eduardo de Resende Chaves Júnior(1)
(1) Professor Adjunto do IEC-PUCMINAS, Doutor em Direitos Fundamentais, Desembargador do TRT-MG e Representante do mesmo Tribunal no Comitê Estadual de Atenção ao Migrante, Refugiado e Apátrida, Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas e Erradicação do Trabalho Escravo – COMITRATE.
A Escola Judicial do Tribunal Regional do Traba-lho da 3ª Região, em parceria com o Comitê Estadual de Atenção ao Migrante, Refugiado e Apátrida, Enfren-tamento ao Tráfico de Pessoas e Erradicação do Tra-balho Escravo (COMITRATE), a Secretaria de Direitos Humanos, Participação Social e Cidadania (SEDPAC), o Ministério Público do Trabalho de Minas Gerais, a Clínica de Trabalho Escravo e Tráfico de pessoas da Fa-culdade de Direito da UFMG, o Ministério do Trabalho e a Ordem dos Advogados do Brasil – Seção MG. pro-moveram, no dia 14 de julho de 2017, no Plenário do Tribunal mineiro o Congresso “Trabalho Escravo
Con-temporâneo: Desafios e Perspectivas – Novo cenário trabalhista e impactos no enfrentamento ao trabalho escravo contemporâneo”.
O Objetivo foi o de fomentar o debate entre pro-fissionais de diferentes ramos de atuação, tais quais os Magistrados, Membros do MPT, Ministério do Traba-lho, Advogados, acadêmicos e estudantes de Direito, a fim de aprofundar o estudo da problemática tratada e seus reflexos na atuação da Justiça do Trabalho e nos direitos dos trabalhadores.
Na oportunidade tivemos o privilégio de intervir no prestigioso evento juntamente com um pool de qua-lificados especialistas na matéria e altos representantes institucionais, tais como Paula Oliveira Cantelli – De-sembargadora, Adriana Augusta de Moura Souza – Procuradora-Chefe do Ministério Público do Trabalho de Minas Gerais, Antônio Carlos de Mello – Coordena-dor do Programa de Combate ao Trabalho Forçado da OIT, Antônio Fabrício de Matos Gonçalves – Presiden-te da OAB – Seção Minas Gerais, Daniel Dias de
Mou-ra – Conselheiro da OAB – Seção de Minas GeMou-rais, João Carlos Gontijo de Amorim – Superintendente
Regio-nal do Trabalho e Emprego em Minas Gerais, Leonardo
Sakamoto – Diretor da Repórter Brasil e Conselheiro
no Fundo da ONU contra Escravidão, Marcelo
Gon-çalves Campos – Auditor Fiscal do Trabalho, Nilmário Miranda – Secretário de Estado de Direitos Humanos,
Participação Social e Cidadania de Minas Gerais, Olavo
Machado Júnior - Presidente do Sistema FIEMG, Padre Ricardo Rezende Figueira - Professor Adjunto da
Es-cola de Serviço Social da UFRJ, Lívia Mendes Moreira
Miraglia – Coordenadora da Clínica de Trabalho
Escra-vo e Tráfico de Pessoas e Professora da UFMG, Carlos
Henrique Borlido Haddad – Coordenador da Clínica
de Trabalho Escravo e Tráfico de Pessoas e Professor da UFMG.
Sob a coordenação da Professora Lívia Miraglia, a Clínica de Trabalho Escravo da Universidade Federal de Minas Gerais, realizou também, por meio de con-corrido edital de chamada de artigos, trabalhos técni-co-científicos sobre o trabalho escravo, os quais, após criteriosa avaliação foram apresentados no referido Congresso.
Essa obra é o produto desse evento, agregada e qualificada ainda mais com a contribuição de doutrina-dores e especialistas na questão que envolve o trabalho escravo contemporâneo.
O livro está sistematicamente dividido em duas partes. A primeira, denominada, “Vozes que não se
Ca-lam” reúne os trabalhos que acompanham, monitoram
e consolidam as conquistas sobre a questão do trabalho escravo contemporâneo e o desenvolvimento histórico nessa luta, e a segunda parte, “Vozes que se Levantam”, que propõe novos avanços e se preparam conceitual-mente contra eventuais retrocessos.
Com a progressividade do desenvolvimento dos direitos humanos e com a aumento da sensibilidade da sociedade para as questões que envolvem os direitos
10
Trabalho Escravo conTEmporânEo – “DEsafiosE pErspEcTivas”sociais, é natural, como conquista paulatina da luta cru-ciante pela civilização, que não se cogite mais de gri-lhões e correntes para abordar o trabalho escravo, que, numa perspectiva contemporânea, dirige-se, sobretu-do, ao enfrentamento contra as jornadas excessivas e as condições degradantes de trabalho.
Estender o atual patamar civilizatório para todos que estão submetidos ao trabalho subordinado, incluir todos os trabalhadores, para que possam usufruir pa-drões de dignidade em sua labuta diária, é um desafio que nasce a cada dia, mas a busca por uma sociedade mais justa, humana e solidária justifica qualquer repto.
130 Anos da Lei Áurea no Brasil: A
Regulamentação de uma Representação
Simbólica de Liberdade Humana
Gabriela Neves Delgado(1)
Lívia Mendes Moreira Miraglia(2)
(1) Doutora em Filosofia do Direito pela UFMG. Mestre em Direito do Trabalho pela PUC-Minas. Professora Associada de Direito do Trabalho da Faculdade de Direito da UnB. Vice-Diretora da Faculdade de Direito da UnB. Líder do Grupo de Pesquisa “Trabalho, Constituição e Cidadania” (UnB-CNPq). Membro do corpo docente da Pós-Graduação stricto sensu da Faculdade de Direito da UnB. Advogada. (2) Doutora em Direito do Trabalho pela UFMG. Mestre em Direito do Trabalho pela PUC-Minas. Professora Adjunta de Direito do Trabalho
da Faculdade de Direito da UFMG. Coordenadora da Clínica de Trabalho Escravo e Tráfico de Pessoas da FDUFMG. Membro do corpo docente da Pós-Graduação stricto sensu da Faculdade de Direito da UFMG. Advogada.
(3) Dados do Observatório do Trabalho escravo. Disponível em: <https://observatorioescravo.mpt.mp.br/>. Acesso em: 03 fev. 2018. (4) Sobre o assunto, consultar: HADDAD, Carlos H. B.; MIRAGLIA, Lívia M. M. Trabalho escravo: entre os achados da fiscalização e as
respostas judiciais. Florianópolis: Tribo da Ilha, 1991.
(5) Trabalho Escravo no Brasil em Retrospectiva: Referências para estudos e pesquisas. Janeiro de 2012. Disponível em: <http://portal.mte. gov.br/data/files/8A7C816A350AC882013543FDF74540AB/retrospec_trab_escravo.pdf>. Acesso em: 28 ago. 2017.
Em 13 de maio de 1888, o Brasil aboliu o regime escravocrata, com a promulgação da Lei Áurea, pela Princesa Isabel. Em 13 de maio de 2018, o país come-mora 130 anos da regulamentação de uma representa-ção simbólica de liberdade humana.
É inegável a importância da Lei Áurea em seu processo de regulamentação e reconhecimento da li-berdade como atributo indispensável à construção da narrativa jurídico-trabalhista sobre o trabalho humano protegido. No entanto, a dinâmica histórica insiste em comprovar a enorme distância entre os limites e con-tornos jurídicos edificados para a proteção ao direito fundamental ao trabalho digno e a realidade brasileira. Em pleno século XXI, as heranças do passado colonial, patriarcal e escravocrata ainda são intensas no país.
O Brasil libertou, desde 1995, mais de 52 mil pes-soas escravizadas, em sua maioria homens (94,88%), negros e pardos (49,80%), com baixo grau de escolari-dade (40,14%). A reincidência é comum e muitos dos libertos relatam só ter conhecido aquela realidade du-rante a vida, o que permite concluir que, não raro, a prática da escravidão se inicia na infância como parte
de um contexto social de miserabilidade e precariedade extremas(3).
Se os dados de 2005 apontavam que o trabalho em condições análogas às de escravo se concentrava no meio rural, em 2013, a situação se inverteu. Pela pri-meira vez na história brasileira, entre os 2.063 trabalha-dores escravizados resgatados, 1.068 se encontravam no meio urbano, a maioria na condição de imigrantes indocumentados(4).
Esta nova faceta da realidade, típica de um cenário de capitalismo globalizado, expandiu as relações de su-jeição pessoal e de exploração no trabalho, contribuin-do para a configuração de expressiva modificação no perfil escravagista brasileiro contemporâneo(5).
Como consequência deste novo contexto e for-mato, houve alteração das regiões do país identifica-das com a maior concentração de trabalho escravo. Se, em 2005, os estados com maior incidência da prática localizavam-se nas regiões norte e nordeste, as estatís-ticas apresentadas pelo Ministério do Trabalho e Em-prego informam que, a partir de 2014, ocorreu intensa
12
Trabalho Escravo conTEmporânEo – “DEsafiosE pErspEcTivas”migração para a região sudeste, em especial para Minas Gerais e São Paulo(6).
O novo panorama de exploração no trabalho de-corrente do capitalismo globalizado soma ao trabalho escravo contemporâneo a problemática relacionada à precária inserção econômico-social do trabalhador imi-grante, especialmente o indocumentado. Este cenário globalizado desdobra e intensifica dinâmicas de perda da centralidade do trabalho como locus constitutivo de identidade e emancipação.
No ano em que se completa 130 anos da Lei Áurea a lógica da escravidão se mantém, permanecendo vivos
(6) Trabalho Escravo no Brasil em Retrospectiva: Referências para estudos e pesquisas. Janeiro de 2012. Disponível em: <http://portal.mte. gov.br/data/files/8A7C816A350AC882013543FDF74540AB/retrospec_trab_escravo.pdf>. Acesso em: 28 ago. 2017.
grilhões que, embora muitas vezes invisíveis, aprisio-nam ainda mais do que os de aço.
No Brasil, muito se conquistou no que diz respeito aos direitos de liberdade. Muito se avançou na dinâ-mica de reconhecimento, declaração e efetivação dos direitos fundamentais trabalhistas. Isso é evidente. Mas também é evidente que a prática da escravidão continua a vitimar milhares de pessoas que, presas às amarras da fome, da miséria, do desespero e da desesperança, não enxergam a saída daquela relação de exploração a que são submetidas e que, muitas vezes, equivocadamente a identificam como relação de trabalho.