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Coesão em português : semântica, pragmática, sintaxe

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JOAQUIM MARQUES ALVES FONSECA Assistente da Faculdade de Letras do Porto

Bolseiro do I . N . I . C .

COESÃO EM PORTUGUÊS

SEMANTICA-PRAGMATICA-S INTAXE Dissertação de Doutoramento em L i n g u í s t i c a Portuguesa apresentada ã Faculdade de Letras da Universidade do Porto PORTO 1981

(2)

(i)

Testemunho de homenagem e agradecimento devo averbar aqui ao Prof. Bernard Pottier, que de bom grado aceitou orientar a elaboração desta tese - tendo-o feito com inexcedível zelo e sol feita atenção.

Um agradecimento sincero exprimo também ao Prof. Oscar Lopes, a quem muito de perto devo o meu despertar para a Pragmática Linguísti-ca, e com quem pude discutir, com inequívoco proveito, alguns momentos deste trabalho.

(3)

(11)

Toute méthode, toute technique d'analyse aide a découvrir certains aspects du langage, mais e l l e ne saurait s u f f i r e

a une compréhension d'ensemble du phénomène l i n g u i s t i q u e .

(4)

. 1 . PLANO GOBAL INTRODUÇÃO PRIMEIRA PARTE A noção de coesão SEGUNDA PARTE

Coesão ao nTvel da microsintagmãtica

CAP- 1 - A coesão do Sintagma Nominal

CAP. 2 - A coesão do Sintagma Verbal

TERCEIRA PARTE

Coesão ao nível da mesosintagmãtica

A coesão do Enunciado

QUARTA PARTE

Coesão ao nível da macrosintagmãtica

A coesão do Texto

CONCLUSÃO

BIBLIOGRAFIA

(5)

.2.

(6)

.3.

INTRODUÇÃO

1.

tuguês

O presente trabalho tem por objecto de estudo a coesão em

por-^ Em sentido corrente, banal, a lexia coesão convoca a noção de

Interligação dos elementos de um dado conjunto, ou de organização,

estru-turação de um dado complexo.

Transposta ã nomenclatura de algumas ciências, a mesma lexia

mantêm no essencial aquele sentido: na QuTmica, a designação de coesão é

aplicada ãs forças estruturadoras (forças de coesão) que reúnem, num dado

corpo, os seus componentes (Stomos, moléculas); na Sociologia, a mesma

de-signação remete para os laços, mais ou menos apertados, que congregam os

individuos, ou os grupos sociais por que estes se distribuem, numa dada

comunidade; neste domínio, entra em jogo um factor específico, a saber, o

jrau de adesão de cada indivíduo ã sua comunidade, isto S, o modo mais'ou

menos actuante, participativo, segundo o qual esse indivíduo se integra no

complexo sõcio-cultural e histórico que justamente constitui uma

comunida-de.

No domínio da reflexão científica sobre as línguas naturais

(LNs), aquela mesma lexia - coesão - esta apta a ser utilizada,guardando

o mesmo sentido bisico de interligação, de conexão entre os instrumentos

verbais - quer tomados globalmente como inventario de signos disponíveis

para o exercício linguístico quer considerados na sua actualização em

ca-da acto de fala.

Esta formulação sugere imediatamente que, na consideração das

LNs, se desenham dois domínios específicos, e interligados, a que a noção

de coesão se pode aplicar com pertinência: um primeiro domínio respeita ã

língua enquanto complexo organizado de instrumentos verbais (enquanto

sis-tema); um segundo domínio concerne ãs sequências de signos linguísticos em

que concretamente se manifesta uma língua em cada acto verbal. Ou seja,

transposta ã nomenclatura linguística (ã metalinguagem), a lexia (a

(7)

meta-.4.

le x 1 a) c o e s a o aplicar-se-á quer ao sistema l i n g u í s t i c o (ã configuração

glo-bal de uma língua como sistema) quer aos produtos verbais projectados em discurso em cada acto de f a l a .

Nesta base, d i s t i n g u i r - s e - ã entre coesão de LN,, LN?, LN , e

coesao em LN1, LN2, LN^, ou entre coesão paradigmática e coesão

sintagmã-t i c a . Respeisintagmã-ta a primeira (coesão de LN ou coesão paradigmásintagmã-tica) aos nexos estruturadores do sistema v i r t u a l que é uma língua, tomada como um amplo paradigma; respeita a segunda (coesão em LN ou coesão sintagmãtica) ãs co-nexões entre os signos projectados no eixo das sucessividades configurado em discurso.

2-Foi com referência a este último domínio - coesão sintagmãtica ou coesao em LN - que a noção que nos ocupa se afirmou, crescentemente, na descriçãoexplicação l i n g u í s t i c a . É justamente da coesão sintagmãtica -que tomarei como o domínio próprio da coesão - -que t r a t a r e i neste trabalho.

Tal não i n v a l i d a que a coesão possa e deva ser também r e f e

-r i d a a o sistema l i n g u í s t i c o como acervo idiomático estruturado, disponível

para o exercício verbal. Algumas linhas de reflexão f i c a r ã o de seguida ano-tadas sobre a coesão paradigmática, a coesão de LN,, LN .

— 1 ——n

1. Em termos genéricos, o que está em causa na consideração da coesão

4e- u m a L N é um problema velho de séculos, que j á nos surge equacionado na

querela entre Analogistas e Anomalistas, e que hoje se formula em termos de sistematicidade e assistematicidade de uma LN.

Um tratamento adequado desta questão poderá com vantagem ser re ferido a duas distinções metodológicas básicas propostas por E. Coseriu: de um lado, a distinção entre língua h i s t ó r i c a e língua f u n c i o n a l , e do o u t r o , entre sistema e norma. Sobre a primeira destas distinções se debruça Coseriu em vários trabalhos, alguns datados do i n í c i o da década de 60, e agora reu-nidos, em tradução espanhola, em Coseriu, 1977; quanto ã segunda, ela f o i proposta inicialmente em Coseriu, 1952, e sucessivamente retomada em diver-sos trabalhos do mesmo Autor.

(8)

.5.

1.1. Cada LN apresenta-se imediatamente como um complexo organizado de variedades - d i s t r i b u í d a s quer l o c a l e regionalmente (variedades diatõpicas) quer segundo a e s t r a t i f i c a ç ã o s o c i a l ou s ó c i o c u l t u r a l dos f a -lantes (variedades d i a s t r á t i c a s ) quer segundo o tema e as finalidades co-municativo - expressivas desenvolvidas em situações de comunicação t í p i c a s

(variedades d i a f a s i c a s ) .

Como se sabe, estas variedades l i n g u í s t i c a s recobrem-se, no sentido de que em cada uma delas se projectam as outras (numa dada v a r i e -dade regional reconhecem-se matizaçôes d i a s t r á t i c a s e d i a f a s i c a s , e assim sucessivamente); por outro lado, essas variedades, co-existindo (como va-riedades s i n c r ó n i c a s ) , continuamente se i n t e r - i n f l u e n c i a m , se interpene-tram.

As conexões entre estas variedades desenham o que E. Coseriu chama arquitectura de uma língua. A coesão paradigmática - a coesão de de uma língua - r e f e r i r - s e - ã , p o i s , imediatamente ã sua a r q u i t e c t u r a : esta apresentar-se-ã mais ou menos coesa, sendo essa coesão escalonãvel de açor do, basicamente, com o número de variedades, a homogeneidade de cada uma, a demarcação mais ou menos n í t i d a entre e l a s , o seu grau de interpenetração. Em suma, a coesão de uma língua será a f e r i d a pela amplitude da v a r i a -ção l i n g u í s t i c a no seio da comunidade que a f a l a .

Sob esta ó p t i c a , que atende ã "diversidade na unidade", s i t u a -ções muito díspares se reconhecem nas d i f e r e n t e s línguas. No que tange ao português, é generalizadamente apontada a sua apreciável "unidade" - tanto mais saliente quanto são conhecidas quer a grande extensão geográfica (e a nao contiguidade destes espaços) quer a diversidade s ó c i o - c u l t u r a l das comunidades que falam português, quer, e n f i m , a desigual situação l i n g u í s t i c_a de algumas dessas comunidades (lembrarseã que, nas excolonias p o r t u guesas, o português c o n s t i t u i língua v e i c u l a r , em convivência com d i f e r e n -tes "línguas nacionais" e, em alguns casos, com crioulos "de base portugue s a " ) . 0 futuro do português como língua una (na diversidade) é questão sa-l i e n t e , em que estão envosa-lvidos factores de índosa-le muito diversa. Um desa-les - que assume p a r t i c u l a r relevo - respeitará à vontade comum, ã adesão dos indivíduos e comunidades ao objectivo de salvaguardar, na incoercível e sempre enriquecedora diversidade, o património c u l t u r a l singular que é a língua, que é de todos e a todos especificamente congrega. Passa por aqui

(9)

.6.

o que se convencionou chamar Defesa da Língua - conceito onde não cabe ho-j e a contemplação de falsas questões de "purismo" ou de "hegemonia", antes aponta para uma consequente integração de um " p l u r i l i n g u i s m o i n t e r n o " em que se consumam virtualidades amplamente abertas da língua.

0 estudo da coesão paradigmática ou da coesão de uma língua conf l u i , assim, neste quadro, com o próprio estudo da variação l i n g u í s t i c a v i -va numa comunidade - -variação que, visivelmente, se a r t i c u l a a factores "ex-ternos" ã lTngua, mas que sobre ela fortemente actuam.

1.2. Cada uma daquelas variedades l i n g u í s t i c a s considerada na sua con-figuração própria - i s t o é, tomada, através de uma f o r t e redução, como complexo estruturado idealmente homogéneo (na caracterização proposta por Coseriu, como complexo s i n t ó p i c o , s i n s t r á t i c o e sinfásico) - c o n s t i t u i um sistema funcional de entidades i n t e r l i g a d a s por conexões que se dão, como se sabe, na base da semelhança e da oposição. E ao conjunto destes laços que, em sentido e s t r i t o , convém a designação de e s t r u t u r a : esta r e s p e i t a , assim, a uma lTngua f u n c i o n a l , a cada uma das línguas funcionais que se re-vela c o n s t i t u i r cada uma daquelas variedades. Deste modo, ressalta a natu-reza " p l u r i - s i s t e m ã t i c a " de cada língua h i s t ó r i c a (a que se a p l i c a r a , en-tão, não estritamente a noção de sistema, antes, como é sabido, a de dia-- s i s tema).

A hoje correntemente denominada Linguística do Sistema (que engloba quer orientações e s t r u t u r a l i s t a s inequivocamente reducionistas quer a Gramática Gerativo-Transformacional - tenha-se presente a caracterização dada por N. Chomsky da competência l i n g u í s t i c a do falante-ouvinte i d e a l ( i z a do): Chomsky, 1965) toma justamente como seu objecto de reflexão uma língua funcional - um complexo de entidades l i n g u í s t i c a s s i n t ó p i c o , s i n s t r á t i c o e s i n f á s i c o - que considera como "média" ou "comum", e com a qual i d e n t i f i c a metodologicamente uma dada LN.

Assim concebida como sistema idealmente homogéneo, alheio a t o -da a variação "externa", ca-da LN revela, por sua vez, uma estruturação d i f e renciada, onde cabem assimetrias e desequilíbrios internos. A coesão para-digmática - a coesão de uma LN - pode, assim, ser referida agora ao grau, maior ou menor, de sistematicidade, de "regularidade" do sistema f u n c i o n a l .

(10)

.7.

E claro que a avaliação global da sistematicidade de uma LN mesmo considerada na base da f o r t e redução que conduz a tomála como l í n -gua funcional - é um objectivo i d e a l , pois supõe uma descrição-explicação acabada e coerente. No entanto, na base dos trabalhos de investigação d i s -poníveis, e também na base da nossa própria i n t u i ç ã o de f a l a n t e s , cada um de nós acede facilmente ã constatação de que uma língua não é nunca um "sis tema p e r f e i t o " , antes um complexo percorrido por diferentes graus de orga-nização. A visão "ingénua" de uma língua como um sistema harmonioso "où tout se t i e n t " cedo deu lugar, na reflexão l i n g u í s t i c a , a uma o u t r a , que considera diferentes "graus de coerência" da estruturação.

Tal é v i s í v e l no sistema g l o b a l , mas também - e mais imediata-mente - em cada um dos "sistemas p a r c i a i s " nele reunidos (o sistema f ó n i c o , o sistema gramatical, o sistema l e x i c a l . . . ) e , dentro de cada um destes, nos vários "micro-sistemas" que a investigação l i n g u í s t i c a vem tentando

ca-r a c t e ca-r i z a ca-r .

a.

Se tomarmos, por exemplo, o plano fónico de uma língua, e mais estritamente o sistema fonemãtico, nele vemos recortadas zonas de fonemas

fortemente i n t e r l i g a d o s face a outras em que estas entidades se i n t e r r e lacionam menos intimamente. Cabem nas primeiras os fonemas que a i n v e s t i -gação fonológica d i s t r i b u i por uma mesma s é r i e , uma mesma ordem e, em par-t i c u l a r , por uma correlação ou feixe c o r r e l a par-t i v o . Corresponde espar-ta d i s par-t n buição, como se sabe, ao reconhecimento de laços apertados entre os fonemas, laços estabelecidos na base do grau de semelhança que os reúne, r e f e -rida aqui ã participação em comum de determinados traços d i s t i n t i v o s . Quan-to mais elevado f o r o número de traços d i s t i n t i v o s comuns a um dado complexo de fonemas tanto mais fortemente estes se i n t e r l i g a m . As correlações f o -nológicas, que assentam, como é sabido, na repartição regular de um ou de vários traços d i s t i n t i v o s por diferentes fonemas, configuram num dado s i s -tema uma área "bem integrada", ou um centro - de que distam, mais ou menos, os fonemas nelas não i n s c r i t o s , dos quais se d i r á que estão "menos bem i n -tegrados" ou que se situam numa zona p e r i f é r i c a do sistema, numa p e r i f e r i a . Um sistema fonológico " i d e a l " s e r i a , p o i s , aquele em que todos os fonemas se

(11)

.8.

coes fonológicas e, particularmente, numa única correlação.

A demarcação entre um centro e uma p e r i f e r i a radica, como se vê, no diverso grau de semelhança que aproxima as entidades l i n g u i s t i c a s . 0 que esta em causa é a extensão ou a profundidade das relações paradigmáticas: centro e pe r i fe r i a entender-se-ão, assim, como dois pólos marcados> como "les deux positions l i m i t e s de l ' i n t é g r a t i o n maximale et minimale dans le système, entre lesquelles se s i t u e n t celles que l'on peut caractériser comme penchant vers de centre ou la périphérie ou comme positions indé-terminées" (0. Leska, 1966, 54) ' ' .

Na avaliação da "regularidade i n t e r n a " do sistema fonológico de uma LN entram, porém, em jogo outros f a c t o r e s , nomeadamente os que de-rivam quer do facto de que o sistema não é e s t á t i c o , antes dinâmico, quer do facto de que ele não está isolado dos outros "sistemas p a r c i a i s " que perfazem a língua. De entre esses factores s a l i e n t a r e i os seguintes: o rer^ dimento funcional e f e c t i v o de um fonema (ou de uma oposição fonológica, ou dos traços d i s t i n t i v o s nela envolvidos) pode ser maior ou menor; cada fone_ ma tem uma d i s t r i b u i ç ã o e s p e c í f i c a , e e afectado na sua realização concre-ta por parte das outras entidades com que surge combinado; os vários fone-mas tem "realizações normais" (ao nível da norma) mais ou menos diferencia^ das da sua e s t r i t a configuração ao nível do sistema, e, eventualmente, em maior ou menor número de variantes (alofones); a amplitude desta variação é, também e l a , mais ou menos pronunciada (configurando, deste modo, um "campo de dispersão" mais ou menos extenso, que as realizações concretas - ao nível da fala - podem ainda a l a r g a r ) ; a eventual presença de fenóme-nos de neutralização, o número de oposições afectadas, a maior ou menor dj_ versidade dos contextos em que ela tem lugar, e a sua e f e c t i v a projecção mais ou menos elevada no exercício verbal - eis outras variáveis que

afec-tam a regularidade " t e ó r i c a " de um dado complexo fonemãtico.

Estes (e alguns outros) aspectos da estruturação interna e do funcionamento do sistema fonológico são suscitados como f a c t o r específico da mudança l i n g u í s t i c a (em interacção com outros, ditos " e x t e r i o r e s " ao sistema) no quadro de uma investigação diacrõnica e s t r u t u r a l , cedo r e i v i n -dicada pela Escola de Praga, mas que tardou, de algum modo, a impor-se até ã exploração sistemática proposta por A. Martinet em diversos trabalhos (de que a sua Economie des changements phonétiques. T r a i t é de phonologie

(12)

.9.

diachronique , P a r i s , 1955 - representa uma compilação re-elaboradae aprofundada). Nesta perspectiva, a "regularidade" do sistema a sua coesão -- está articulada ã sua maior ou menor estabi1 idade, e, mais que i s s o , de modo especifico baliza o sentido ou a orientação da mudança l i n g u í s t i c a .

b.

Ao nível do plano s i g n i f i c a t i v o (ou do plano do conteúdo) da organização de uma LN, tem também validade a oposição acima caracterizada entre um centro e uma p e r i f e r i a . Neste domínio, liga-se a p e r i f e r i a tudo o que se apresenta como " i r r e g u l a r " ou "anómalo" num dado conjunto de unida-des reunidas num paradigma - mas também tudo o que se revele como quebra ou sub-aproveitamento da "produtividade" que o sistema, enquanto complexo de

"possibi1 idades em aberto", teoricamente comporta.

Na estruturação do léxico e na flexão verbal são particularmen-te notórios todos esparticularmen-tes momentos de "incoerência" da organização inparticularmen-terna de uma LN - "incoerência" que é consideravelmente alargada por fenómenos espe-c í f i espe-c o s de homonímia, de p o l i s semi a, de metaforização, de polimorfismo, de metonimização, de sincretismo, de cumulação numa mesma forma de valores s i g n i f i c a t i v o s diversos, de coexistência de entidades diferenciadas mas i s o -funcionais. Tocamos aqui a questão-chave da problemática da r e l a t i v a "incoe-rência" do sistema ao nível do plano do conteúdo, que radica no que por ve_ zes se denomina "dualidade assimétrica do signo l i n g u í s t i c o " , ou s e j a , no facto de que a uma mesma forma ou a uma mesma propriedade formal não corres-ponde univocamente um determinado valor s i g n i f i c a t i v o .

A avaliação da coesão paradigmática f a r - s e - ã , também a q u i , com referencia imediata a cada um dos "sistemas p a r c i a i s " - o sistema gramati-c a l , o sistema l e x i gramati-c a l , o sistema semântigramati-co - e, dentro de gramati-cada um deles, tomará em consideração os múltiplos "micro-sistemas" reconhecíveis. Também aqui, o que está em causa é o levantamento da extensão ou profundidade das relações paradigmáticas, na base das quais se r e c o r t a r á , em cada nível de estruturação, um centro e uma peri f e r i a , no sentido acima estabelecido. A semelhança que reúne num paradigma diversas entidades l i n g u í s t i c a s será sempre maior ou menor, em função quer do número de propriedades ou traços comuns, quer da regularidade da sua repartição pelas diversas entidades quer,

(13)

.10.

enfim, da natureza (formal e/ou f u n c i o n a l , s i g n i f i c a t i v a ) dessas proprieda-des.

Segundo as linhas gerais traçadas nas alíneas a e b, a a v a l i a -ção da coesão paradigmática - da coesão de uma LN - buscará fundamentalmen-te captar a regularidade infundamentalmen-terna de cada paradigma, e, a p a r t i r daí, as co-nexões entre os diversos paradigmas, atendendo naturalmente a cada nível de estruturação e ãs relações entre eles. Um t a l programa c o n f l u i , a f i n a l , com objectivos centrais da descrição l i n g u í s t i c a , aplicada a cada uma das l í n -guas - o levantamento da estrutura do sistema f u n c i o n a l , do modo como uma dada entidade l i n g u í s t i c a se r e l a c i o n a , mediata ou imediatamente, com as ou t r á s . E um t a l programa que vemos sumariamente enunciado por Herculano de Carvalho num passo da sua Teoria da Linguagem qua aqui transcrevo, onde ex plicitamente o Autor emprega a metalexia coesão no sentido que tenho vindo a caracterizar: "Conforme a natureza e o grau de semelhança existente entre os diversos membros de um paradigma, serão naturalmente mais ou menos ínti_ mos os laços que os unem entre si e portanto mais ou menos f o r t e a coesão interna do paradigma. Deste modo será mais coeso o paradigma constituído pe las várias formas do « v e r b o c a n t a r » (canto, cantas, . . . cante, . . . canta-va, e t c . ) - unidas simultaneamente pela semelhança formal e de valor funcio nal - , do que o constituído pelas 1 . pessoas do singular do p r e t é r i t o per-f e i t o do i n d i c a t i v o de todos os verbos ( c a n t e i , c o r r i , p a r t i , e s t i v e , pude, f u i , e t c . , e t c . ) ligadas em grande parte apenas pela identidade f u n c i o n a l . E mais coeso o paradigma formado pelas s i b i l a n t e s /s z s z/ do que o para-digma maior que compreende todos os fonemas a s s i l ã b i c o s , com diferenças fo£ mais tão acentuadas como as que há, por exemplo, entre / z / e / p / ou, mais ainda, entre / p / e T/.

Por outro lado, dado que as mesma relações que se dão entre uma certa entidade e os diversos paradigmas a que pertence resultam a f i n a l em relações entre os mesmos paradigmas (o de /s z s z/ com o de / f v / ) , q u e assim entram a c o n s t i t u i r paradigmas mais extensos (o de /s z s z f v / ) , do mesmo grau de intimidade dessas relações sucessivas (de entidade para entj^ dade, de paradigma para paradigma) está imediatamente dependente o grau de coesão interna do sistema t o t a l " (Carvalho, J . G. Herculano, 1973, 408-409).

(14)

. 1 1 .

Tomando, como acima se anunciou, o eixo das sucessividades

c°m o ° domTnio próprio da coesão, ocuparmeá neste trabalho a e s t r u t u r a

-ção sintaqmãtica dos signos l i n g u i s t i c o s . Analisar a coesão em português c o n s i s t i r a , assim, em levantar e caracterizar um complexo de laços, de vínculos ( e x p l í c i t o s e i m p l í c i t o s ) que congregam os signos projectados em unidades sintagmáticas de diferentes extensão. Descrever e e x p l i c a r esse conjunto de nexos - que ao mesmo tempo são parte integrante do manifesta-do nos signos em combinação sintagmãtica e neles se revelam como agentes da sua estruturação - comporta, naturalmente, a captação dos p r i n c í p i o s e dos mecanismos que presidem ã sua projecção, ou que nela estão envolvidos.

A caracterização da noção de coesão agora brevemente apresen-tada preencherá toda a Primeira Parte deste trabalho. Nas secções seguin-tes, a par de observações e de considerações que, eventualmente, complemen tam informações j á disponíveis e que, sobretudo, assinalam mais de perto o quadro teórico e metodológico por que se optou, proceder-se-ã ã análise dos aspectos que se me afiguram mais relevantes na coesão do Sintagma Nominal, do Sintagma Verbal, do Enunciado (simples) e do Texto. Finalmente, em Con-çl_us_ao procurar-se-ã retomar de modo condensado os pontos centrais da reflexão e da análise propostas, e assinalar algumas tarefas para i n v e s t i g a -ção futura na mesma área.

(15)

.12.

NOTAS

(1) Ao nível do plano sintagmático, é também pertinente uma oposição centro/ /periferia - ã qual, de um modo genérico, será referida a coesão das uni dades linguísticas (do Sintagma ao Texto). Para uma apresentação desta oposição ao nível da estruturação sintagmática ver Primeira Parte

(16)

5-.13.

PRIMEIRA PARTE

A NOÇÃO DE COESÃO

(17)

. 1 4

A NOÇÃO DE COESÃO PLANO

2- Coesão

2< Coerência

3- Coerência vs^ coesão; coerência j | coesão

L\. Coesão e nível de estruturação l i n g u í s t i c a

5- Nota sobre a "coesão" da lexia

6- Centro e P e r i f e r i a na estruturação dos signos extensos

(18)

.15.

A NOÇÃO DE COESÃO

Na reflexão l i n g u í s t i c a sobre as unidades "above the sentence" (na terminologia aqui adoptada, "além-Enunciado") ou, mais estritamente, so bre o t e x t o , duas metalexias - coesão e coerência - concorrem como designa-ção de uma fundamentalmente idêntica dimensão central de t a i s produtos ver-b a i s , que se poderá enunciar sumariamente como a continuidade de senti do que os percorre, os u n i f i c a como mensagem global realizada numa sequência de Enunciados (ENs).

Tais metalexias são, na verdade, amplamente u t i l i z a d a s como ge nericamente equivalentes' ' ; não r a r o , porém, elas remetem para aspectos, sem dúvida i n t e r l i g a d o s , mas d i s t i n t o s , da configuração do t e x t o .

Em ordem a estabelecer inequivocamente o sentido em que tomo aqui coesão, passarei em r e v i s t a , embora de modo breve, o que j u l g o ser basicamente intendido no uso de t a i s metalexias. As considerações que senvolverei conduzirão a uma redefinição das noções veiculadas em t a i s de-signações, ( e , consequentemente, das suas i n t e r l i g a ç õ e s ) , e ao mesmo tempo permitirão mostrar que as realidades para que remetem não constituem dimen soes estritamente do t e x t o , antes se revelam em todos os signos extensos

( i s t o é, que resultam da combinação de elementos l i v r e s ) , a saber, o Sinta-(3T

gma, o Nucleus, o Enunciado e o Texto ).

1 . COESÃO

1.1.

Num trabalho recente, M.A.K. Halliday e R. Hasan (Halliday--Hasan, 1976) ^4^ reúnem sob a designação de " t e x t u r e " (textura) um comple

xo de propriedades que tomam como caracterizadoras do Texto: "The concept of TEXTURE is e n t i r e l y appropriate to express the property of 'being a t e x t ' . A t e x t has t e x t u r e , and t h i s is what distinguisnes i t from some-thing that is not a t e x t . I t derives t h i s texture from tha f a c t that i t

(19)

.16.

functions as a unity with respect to i t s environment" ( p . 2 ) .

Consubstancia-se, assim, a textura nos traços que fazem de um produto verbal um todo semântico unificado, como t a l funcionando globalmen^ te numa situação de comunicação, em que se inscreve por forma adequada. Por isso, o texto surge na visão de Halliday-Hasan (que subscrevo por i n t e i r o ) basicamente como "a continuum of meaning-in-context" ( p . 2 5 ) , "a unit of

language i n u s e " ( p . l ) - independentemente da sua extensão: " I t [ a t e x t ] may be anything from a single proverb to a whole play, from a momentary cry f o r help to an a l l - d a y discussion on a committe" ( p . l ) . E sabido que qual-quer unidade l i n g u í s t i c a - mesmo o morfema, em contextos particulares -

po-de funcionar como t e x t o .

Abandonando os casos em que esta unidade l i n g u í s t i c a se realiza num sõ Enunciado (EN) ou mesmo em entidades de nível i n f e r i o r , Halliday--Hasan procuram levantar os recursos que o inglês (como, naturalmente, cada uma das línguas) dispõe para a criação de t e x t u r a , recursos que transpare-cem especificamente no texto e o distinguem "from a disconnected sequence of sentences" ( p . l ) (5) .

1.2.

Reconhecem os Autores uma "textura externa" (a)e uma"textura i n t e r n a " ( b ) .

a.

Cabe na "textura externa" tudo o que respeita a "the external factors a f f e c t i n g the l i n g u i s t i c choices that the speaker or w r i t e r makes", o que tem a ver com "the nature of the audience, the medium, the purpose of the communication and so on" (p.21).

Considerado sob este ângulo, o texto revelará uma consistência p r ó p r i a , concretizada, por um lado, basicamente numa continuidade temática e, por o u t r o , numa certa uniformidade ou homogeneidade no que tange a aspe£ tos variados, nomeadamente ao nível de língua e ao "género" (ou " r h e t o r i c a l form", p.22). Halliday-Hasan fazem uma muito breve referência a estas dimeji soes, introduzidas em termos de " f i e l d " , "mode" e "tenor" que " c o l l e c t i v e l y

(20)

.17.

define the context of s i t u a t i o n of a t e x t " ( p . 2 2 ) ^6^ . Numa formulação s i n t é

t i ca, Hal l i day-Hasan i d e n t i f i c a m os aspectos exteriores da textura com o que designam "consistency of r e g i s t e r " (que assegura a " c o n t i n u i t y of meaning in r e l a t i o n to the s i t u a t i o n " - p.23), entendendo por " r e g i s t e r " "the set of semantic configurations that i s t y p i c a l l y associated with a p a r t i c u l a r CLASS of contexts of s i t u a t i o n , and defines the substance of the t e x t : WHAT

IT MEANS, in the broadest sense, including a l l the components of i t s meaning, s o c i a l , expressive, communicative and so on as well as representational"

(p.26) <7).

b. Por sua vez, a " t e x t u r a i n t e r n a " respeita a organização sequencial intrínseca do t e x t o , . a sua sintagmatica imanente, e manifestase em três n í -veis diferenciados:

( i ) ao nível supra-EN, como a "'macrostructure1 of the t e x t ,

that establishes i t as a t e x t of a p a r t i c u l a r kind - conversation, n a r r a t i v e , l y r i c , commercial correspondence and so on" (p.324), ou seja, como "the

structure of discourse", "the larger s t r u c t u r e that is a property of the forms of discourse themselves: the s t r u c t u r e that is inherent in such concepts as n a r r a t i v e , prayer, f o l k - b a l l a d , formal correspondence, sonnet, operating i n s t r u c t i o n s , t e l e v i s i o n drama and the l i k e " (p.326-327)^8^;

( i i ) ao nível do EN (ou i n t r a - E N ) , como "the textual structure that is internal to the sentence" (p.324), ou s e j a , certas dimensões da or-ganização interna do EN considerado " i n i t s role as the r e a l i z a t i o n of t e x t "

(p.326). Referem-se aqui Halliday-Hasan, por um lado, ã organização do EN em tema / rema ("theme systems", p.325), e, por outro lado, ã sua estrutura ção em termos de articulação de unidades de informação "conhecida" ou "dada"

("given") e "não conhecida" ou "nova" ("new") - ("the information systems" - p.325-326);

( i i i ) ao nível inter-ENs, como complexo de laços semânticos que conectam os ENs (contíguos ou não contíguos) - nexos que preenchem o que de-sigam de coesão, tomada em sentido e s t r i t o . A coesão r e s p e i t a , assim, imedia tamente as conexões semânticas entre ENs sintacticamente independentes, i s t o

(21)

.18.

é, nao reunidos em construção gramatical, nao congregados pelo que

Halliday--Hasan chamam estrutura ("structure"). (Ver, porém, adiante 1.6).

luma representação esquemática, teremos, pois:

Textura

externa - consistência de " r e g i s t e r "

- "estrutura do discurso"

interna "theme systems" - "information systems" - coesão

Halliday-Hasan não deixam de sublinhar a f o r t e interconexão en-t r e a "en-texen-tura exen-terna" e a " en-t e x en-t u r a i n en-t e r n a " , que só meen-todologicamenen-te são separáveis: "the i n t e r n a l and the external aspects of ' t e x t u r e ' are not wholly separable, and the reader, or l i s t e n e r , does not separate themwhen responding unconsciously to a passage of speech or w r i t i n g . But when the l i n g u i s t seeks to make e x p l i c i t the basis on which these judgments are formed, he is bound to make observations of two rather d i f f e r e n t kinds. The one concerns r e l a t i o n s w i t h i n language, patterns of meaning realized by grammar and vocabulary; the other concerns the relations BETWEEN the language and the relevant features of the speaker's and hearer's (or w r i t e r ' s and reader's) m a t e r i a l , social and ideological environment" (p.20).

Halliday-Hasan debruçam-se sobre a "textura i n t e r n a " , e em par-t i c u l a r sobre a sua componenpar-te coesão, deixando de lado, depois de uma ca-racterização sumária, os aspectos que tangem ã "textura externa": "The s i t u a t i o n a l properties of t e x t s , which are now beginning to be studied i n greater d e t a i l and with greater understanding, constitute a vast f i e l d of enquiry which l i e s outside our scope here" (p.21).

As dimensões que os Autores reúnem na textura preenchem a "textual or text-forming component" de um sistema l i n g u í s t i c o , componente intimamente ligada ãs duas outras que neste reconhecem - a componente idea-t i o n a l e a inidea-terpessoal (Ver p.26-30). Aquela primeira "comprises idea-the

(22)

.19.

resources that language has for creating text, in the sense in which we have

been using the term all along: for being operationnaly relevant and cohering

within itself and with the context of situation" (p. 27).

1 . 3 .

De entre os "text-forming resources" de uma língua avultam, na perspectiva de Halliday-Hasan, os que realizam a coesão. Os Autores atribuem-- l h e uma singular relevância, a ponto de em muitas formulações'tomarem a parte pelo todo', ou s e j a , a ponto de cometerem em exclusividade ã coesão o papel diferenciador entre texto e "não-texto": "Cohesion i s the set of meaning relations . . . t h a t distinguishes t e x t from ' n o n - t e x t ' . . . " (p.26).

(Formulações análogas abundam ao longo do t r a b a l h o ) .

Interessa-me captar mais de perto as dimensões que Halliday--Hasan englobam na sua noção de coesão, e desse modo marcar a sua especi-ficidade no seio de todos os aspectos que perfazem a t e x t u r a .

1 . 3 . 1 .

Numa formulação genérica, Halliday-Hasan reúnem sob a designa-ção de coesão todos os nexos semânticos que se estabelecem entre os ENs por que se realiza o t e x t o . Têm, porem, consciência do carácter extremamente va_ go de uma t a l asserção: "To say that two sentences cohere by v i r t u e of relations in t h e i r meaning is not by i t s e l f \iery precise. P r a c t i c a l l y any two sentences might be shown to have something to do with each other as f a r

as t h e i r meaning is concerned" (p.11). Muitos desses modos de i n t e r r e l a -cionação são deveras f l u i d o s - pensam Halliday-Hasan - e não seria f á c i l

dar deles uma caracterização objectiva s a t i s f a t ó r i a . Escapariam, assim, a uma sistematização c l a r a , e o seu papel na estruturação do texto seria d i

-f í c i l de a v a l i a r em termos precisos. Ao lado destes laços há, porém, - con^ tinuam os Autores - "one s p e c i f i c kind of meaning r e l a t i o n that is c r i t i c a l

f o r the creation of t e x t u r e : t h a t i n which ONE ELEMENT IS INTERPRETED BY REFERENCE TO ANOTHER. What cohesion has to do with i s the way i n which the meaning of the elements i s i n t e r p r e t e d . Where the i n t e r p r e t a t i o n of any item i n the discourse requires making reference to some other item i n the discourse,

(23)

.20.

there i s cohesion" (p. 11; o sublinhado è" meu).

As relações assim explicitamente marcadas entre os ENs por que se realiza o texto são susceptíveis de uma clara sistematização: elas cabem num número r e s t r i t o de categorias - r e f e r e n c i a , s u b s t i t u i ç ã o , e l i p s e , conjun-ção e coesão l e x i c a l . Cada uma desta categorias " i s represented i n the t e x t by p a r t i c u l a r features - r e p e t i t i o n s , omissions, occurrence of c e r t a i n words and constructions - which have i n common the property of s i g n a l l i n g that the i n t e r p r e t a t i o n of the passage i n question depends on something e l s e . I f that

'something else' is verbally e x p l i c i t , then there is cohesion"(p.13).

Daquelas cinco categorias de nexos coesivos, as quatro primeiras perfazem o que Halliday-Hasan designam coesão gramatical (que analisam demo-radamente nos capítulos 2, 3, 4 e 5, respectivamente); a última daquelas ca-tegorias (coesão lexi cal) é caracterizada, muito mais brevemente, no capítu-lo 6, onde os Autores distinguem coesão l e x i c a l por reiteração de um item ("A r e i t e r a t e d item may be a r e p e t i t i o n , a synonym or near-synonym, a superordinate, or a general word; and i n most cases i t is accompanied by a r e f e -rence i t e m , t y p i c a l l y the" (p.278)) e por " c o l l o c a t i o n " (nexos coesivos es-tabelecidos na base de "the association of l e x i c a l items that regulary co--occurr" - p.284).

1.3.2.

Fica patente que a dimensão básica contida na noção de coesão desenvolvida por Halliday-Hasan e a da dependência semântica explicitamen-te assinalada entre os ENs por que se r e a l i z a o explicitamen-texto - dependência semân-t i c a no sensemân-tido e s semân-t r i semân-t o j ã acima assinalado e que insemân-teressa sublinhar de novo: "Cohesion occurrs where the INTERPRETATION of some element in the discourse is dependent on t h a t of another. The one PRESUPPOSES the other, i n the sense that i t cannot be e f f e c t i v e l y decoded except by recourse to i t . When t h i s happens, a r e l a t i o n of cohesion is set up, and the two e l e ments, the presupposing and the presupposed, are thereby at least p o t e n t i -a l l y integr-ated i n t o -a t e x t " ( p . 4 ) .

Importa, porém, s a l i e n t a r que este p r i n c í p i o insistentemente S]£ blinhado como c r u c i a l por Halliday-Hasan, ' ' por um lado, se aplica de mo-do diferenciamo-do (a) e, por outro lamo-do, não é pertinente em algumas das ma-nifestações da coesão configuradas pelos Autores ( b ) .

(24)

. 2 1 .

a.

Os laços coesivos realizados por r e f e r e n c i a , por substituição e por elipse (que c o n s t i t u i uma "substituição por zero") esgotam-se, sem dúvida, numa conexão de dependência semântica no sentido enunciado; os ele_ mentos "pressuponentes" são diafõricos (anafóricos ou cataforicos nos dois primeiros casos, anafóricos no t e r c e i r o ) e colhem a sua interpretação em outro(s) elemento(s) verbalizados, no co-texto.

Aos laços coesivos estabelecidos por conjunção aplica-se também o p r i n c í p i o da dependência semântica, mas em termos inequivocamente diver-sos. Repare-se: "They [ " c o n j u n t i v e elements"] are not p r i m a r i l y devices f o r reaching out i n t o the preceding (or following) t e x t , but they express certain meanings which presuppose the presence of other components i n the discourse" (p.226). Atente-se: aqui o elemento "pressuponente" não surge

(ao contrario do que vimos ocorrer nos casos acima r e f e r i d o s ) como termo a i n t e r p r e t a r , antes como termo que estabelece, pelo seu próprio s i g n i f i -cado, uma relação a cumprir entre os ENs que a r t i c u l a . Pois que as "conjun t i v e relations are not ' p h o r i c ' " (p.321), em r i g o r nelas não se consuma uma dependência semântica nos termos e s t r i t o s em que Halliday-Hasan a configu-ram. SÓ, p o i s , em sentido algo dilatado poderemos ver desenhada através das "conjuntive r e l a t i o n s " uma conexão de dependência semântica. Isso não esca-pa aos Autores, que, confrontando a coesão realizada por conjunção com a que se consuma por . r e f e r ê n c i a , substituição e e l i p s e , concluem: "With conjun-ction . . . we move i n t o a d i f f e r e n t type of semantic r e l a t i o n , on which i s no longer any kind of search i n s t r u c t i o n , but a s p e c i f i c a t i o n of the way in which what is to follow i s systematically connected t o what has gone before"

(p.227). Esta caracterização não conduz, porém, Halliday-Hasan a renunciar ao p r i n c í p i o e x p l i c a t i v o da dependência semântica, que mantêm como válido nos seguintes termos: por conjunção "some r e l a t i o n i s established between the meanings of two continuous passages of t e x t , such t h a t the i n t e r p r e t a -t i o n of -the second is dependen-t on -the r e l a -t i o n in which i -t s-tands -to -the f i r s t " (p.308; o sublinhado e meu).

Finalmente, algumas (mas só algumas) das conexões que H a l l i d a y --Hasan inscrevem na coesão l e x i c a l participam (mas nela não se esgotam como nos casos da coesão por r e f e r ê n c i a , substituição e e l i p s e ) da relação de de-pendência semântica: é o que acontece na reiteração de elemento nominal

(25)

pre-.22.

cedido de d i a f õ r i c o , em que se congrega, p o r t a n t o , coesão por referência com coesão l e x i c a l . Todos os outros nexos que cabem na coesão l e x i c a l se

furtam, como veremos em b . , ao p r i n c í p i o e x p l i c a t i v o da dependência se-mântica t a l como o apresentam Halliday-Hasan.

b.

A dependência semântica estabelecida pela via de uma "pressuposição resolvida" no cotexto não tem cabimento como p r i n c í p i o e x p l i c a t i -vo dos nexos semânticos que Halliday-Hasan congregam na coesão l e x i c a l es-t r i es-t a ou "coesão l e x i c a l p u r a " , i s es-t o e , a que se manifeses-ta como "a funces-tion simply of the co-occurence of l e x i c a l items" de algum modo i n t e r l i g a d o s no sistema, e independentemente de qualquer t i p o de " r e l a t i o n of reference"

(p.283). Na verdade, em qualquer das manifestações da "coesão puramente le_ x i c a l " (quer por r e i t e r a ç ã o , nas suas d i f e r e n t e s modalidades, j á acima es-pecificadas, quer por " c o l l o c a t i o n " ) não hã lugar ã "resolução de uma pres-suposição", no sentido que j ã conhecemos.

HallidayHasan disso se apercebem, sem dúvida (ver p a r t i c u l a r -mente p.288-290). Teimam, no entanto, em considerar válido também neste do-mínio aquele p r i n c í p i o . Fazem-no, porem, de modo excessivamente a r t i f i c i a l , através de uma generalização demasiado ampla, que mais do que l e g i t i m a r a validade daquele p r i n c í p i o torna v i s í v e l a sua não p e r t i n ê n c i a . 0 caminho seguido pelos Autores para a manutenção, no domínio da "coesão puramente le x i c a l " , do p r i n c í p i o de que há lugar a laço coesivo entre ENs quando entre eles se estabeleça a "resolução de uma pressuposição" é o de assinalar que a interpretação de um qualquer item l e x i c a l e , num t e x t o , sempre dependente do contexto v e r b a l , do c o - t e x t o , em que t a l item se inscreve: "The environ-ment determines the ' i n s t a n t i a l meaning1 or t e x t meaning, of the item, a

meaning which i s unique to each s p e c i f i c instance. In reading or l i s t e n i n g to t e x t , we process continuously, and therefore by the time any given l e x i -cal item is taken i n , i t s context has already been prepared" (p.289); esse co-texto (e nele em p a r t i c u l a r o co-texto l e x i c a l ) " f r e q u e n t l y provides a great deal of hidden information t h a t is relevant to the i n t e r p r e t a t i o n of the item concerned" (ibidem; o sublinhado é meu).

(26)

.23.

Ê notório que não se t r a t a aqui da conexão "pressuponente-pres-suposto", antes da assumpção por parte de cada elemento de um texto de um valor de comunicação específico (de um " i n s t a n t i a l meaning") que decorre da interdependência que a todos reúne no seio de um universo de discurso justamente configurado em todo o texto - o que se aplica a todos os items l e x i c a i s , independentemente de, em competência (no sistema), estarem ou não i nte r-re1aci onados.

Decididamente (e t a l como as "relações conjuntivas" - ver acima), as conexões que cabem no âmbito da "coesão l e x i c a l pura" não são " f o r i c a s "

( d i a f ó r i c a s ) , e a elas se não pode a p l i c a r o p r i n c í p i o básico da dependência semântica proposto por Halliday-Hasan. Quanto a mim, mais v a l e r i a renunciar ã generalização excessiva (e improcedente) que os Autores propõem, e assumir inequivocamente um outro t i p o de explicação para a coesão l e x i c a l pura, a

sa-b e r> ° da equivalência semântica entre items l e x i c a i s consubstanciada na

recor-rência semi ca (mais ou menos ampla) e em laços semânticos (não estritamente i n t e n s i o n a i s , mas também extensionais) estabelecidos na base da associação, oposição, participação . . . e outros modos de i n t e r l i g a ç ã o de d i f í c i l c l a s s i f i cação " i n systematic semantic terms" (p.285). A estes múltiplos laços entre items l e x i c a i s projectados em discurso (laços que não envolvem identidade de referência) vem-se dando também a denominação genérica de "cross-reference", a separar dos que envolvem estritamente identidade de designado e a que con-vém a expressão co-referência.

Observe-se que são justamente estes laços que não envolvem iden-tidade de designado ou de referência que são convocados na coesão l e x i c a l pu-ra de Halliday-Hasan, tornando-se, p o i s , desnecessário invocar a todo o cus-to a conexão de dependência semântica - que, de rescus-to (como j u l g o t e r ficado demonstrado) não tem aqui aplicação.

A esta l u z , mantêm-se perfeitamente válidas todas as outras con-siderações tecidas por Halliday-Hasan a propósito da coesão l e x i c a l pura, no-meadamente

( i ) no que concerne ã reiteração - que ela não é " i n any way dependent on the r e l a t i o n of reference" (p.283);

(27)

.24.

(ii) no que respeita a colocação ("collocation") - que "the relative strenght of the collocational tension is really a function of two kinds of relatedness, one kind being relatedness in the linguis-tic system and the other being relatedness in the text" (p. 289--290).

Sendo assim, na avaliação da coesão lexical há que ter em conta dois factores básicos: por um lado, o grau de interconexão dos items lexi-cais no sistema (em termos de sinonímia, hiperonTmia - hiponTmia, coloca-ção ..., . . . ) ; por outro lado, o grau de proximidade, entre os items assim relacionados, no texto "in the simple sense of the distance separating one item from another, the number of words or clauses or sentences in between" (p.290). Na verdade, "The cohesive force that is exerted between any pair of lexical items in a passage of discourse is a function of their relative proximity in these two respects" (ibidem) C ° ) .

Convirá ainda assinalar um outro ponto quanto ã coesão lexical, adequadamente referido por Halliday-Hasan. Ao contrário do que se passa na coesão gramatical, em que os elementos que a instauram "all explicitly pre-suppose some element other themselves" (p.288), na coesão lexical "it is not a case of there being particular lexical items which always have a cohe-sive function. EVERY lexical item MAY enter into a cohecohe-sive relation, but by itself it carries no indication whether it is functioning cohesively or not. That can be established only by reference to the text" (ibidem; o su-blinhado é meu).

1.4.

As considerações desenvolvidas nos números precedentes p e r m i t i -ram j ã , a par de algumas anotações c r í t i c a s , deixar caracterizada de modo suficientemente claro a noção de coesão proposta por Halliday-Hasan, e ass i n a l a r a assua easspecificidade entre oass "textforming reassourceass" de um ass i ass t e -ma l i n g u í s t i c o .

Congregando os aspectos assinalados com os contidos em outras fo_r mulações equivalentes ou próximas d i s t r i b u í d a s ao longo do trabalho de H a l l i -day-Hasan, convirá r e t e r como fundamentais os seguintes pontos:

(28)

.25.

( i ) a coesão concerne aos traços que caracterizam o texto como objec-to "linguTstico, não no que tange ao que ele s i g n i f i c a ("Cohesion does not con_ cern what a t e x t means" - p.26 - dimensões que os Autores congregam na noção de " r e g i s t e r " ; ver, porém, o contido acima na nota 7) - antes no que diz res-peito ao modo como ele está construído como e d i f í c i o semântico (a coesão "concerns how the t e x t i s constructed as a semantic e d i f i c e " - ibidem). Por i s s o , a coesão è~ uma dimensão comum a todos os t e x t o s , neles se manifestan-do embora de momanifestan-dos diferenciamanifestan-dos: "The meaning r e l a t i o n s which c o n s t i t u t e cohesion are a property of t e x t as such, and hence they are general t o texts of a l l types, however much they may d i f f e r i n the p a r t i c u l a r form they take in one text or another" (p.26);

( i i ) a coesão c o n s t i t u i , na formação do t e x t o como e d i f í c i o semânti-co, complemento indispensável dos seus "substantive meanings", pois serve a articulação e x p l í c i t a de uns com os outros ( p . 2 6 ) ; aos recursos para a coe-são de que dispõe um dado sistema l i n g u í s t i c o compete "a kind of c a t a l y t i c function in the sense t h a t , without cohesion, the remainder of the semantic system cannot be e f f e c t i v e l y activated at a l l " ( p . 2 8 ) ;

( i i i ) a coesão e realizada por recursos idiomáticos ( i s t o e , e s p e c í f i -cos de um dado sistema l i n g u í s t i c o ) , manifestados explicitamente na imanincia do t e x t o , na sua sintagmática i n t e r n a , onde desenham " r e l a t i o n s w i t h i n the language" p.20); t a i s recursos apresentam (ou assumem), p o i s , um carácter emi-nentemente relacionador, garantindo a consistência interna do e d i f í c i o semân-t i c o que é o semân-t e x semân-t o , assegurando uma consemân-tinuidade semânsemân-tica ensemân-tre os ENs por que este se concretiza: "When we consider cohesion . . . we are i n v e s t i g a t i n g the l i n g u i s t i c means whereby a t e x t is enable to. f u n c t i o n as a single

meaningful u n i t " (p.2830; o sublinhado é meu). A forma mais expressiva que Hal l i -day-Hasan encontram para sublinhar este aspecto, efectivamente básico na ca-racterização da coesão, pode encontrar-se na pãg. 303: a coesão "provides, f o r the t e x t , which is a semantic u n i t , the s o r t of c o n t i n u i t y which i s achie

ved i n units at the grammatical level - the sentence, the clause and so on - by grammatical s t r u c t u r e " ;

(29)

.26.

( i v ) a coesão consubstanciase em nexos de dependência semântica ( a c i -ma especificados) e de equivalência semântica (na interpretação que aci-ma dei das conexões que perfazem a coesão l e x i c a l pura).

1.5.

Antes de prosseguir com a referência a alguns outros aspectos do trabalho de Halliday-Hasan que interessam ainda ã caracterização da noção de

c o e sã o , convirá determo-nos um pouco numa avaliação c r í t i c a de algumas das di

mensões atrás assinaladas.

a.

Importa, em primeiro lugar, e x p l i c i t a r que considero "excessiva" a demarcação que estabelecem os Autores entre "o que o texto s i g n i f i c a " e as conexões semânticas que perfazem a sua noção de coesão. É que, quanto a mim, os nexos coesivos são parte integrante do que o texto s i g n i f i c a , onde.deres^ t o , alguns deles assumem um relevo p a r t i c u l a r . £ certo que se t r a t a de umsi-gnificado eminentemente relacional ou relacionador, mas sempre fortemente fun dido com os "substantive meanings" do t e x t o . Tenham-se em conta, a este res-p e i t o , res-particularmente as conexões estabelecidas res-por conjunção e as que res- pre-enchem a coesão l e x i c a l .

Observe-se, ainda a este propósito, que me surge igualmente de-veras "excessiva" a demarcação entre "o que o texto s i g n i f i c a " e "o modo co-mo ele está construído coco-mo e d i f í c i o semântico": este últico-mo c o n s t i t u i , por si mesmo, também, e i n i l u d i v e l m e n t e , uma dimensão do sentido do t e x t o .

b.

Em segundo lugar, é", quanto a mim, insustentável a t r i b u i r â coe-são ( t a l como a concebem Halliday-Hasan, na base da consideração e s t r i t a da sintagmãtica imanente do texto - ver acima) o papel f u l c r a l de garantia da unidade semântica do t e x t o , da sua continuidade de sentido. (Relembremos:

"When we consider cohesion . . . we are i n v e s t i g a t i n g the l i n g u i s t i c means whereby a t e x t is enable to function as a single meaningful u n i t " p.28-30).

(30)

.27.

E, efectivamente, i r r e f u t á v e l que para Halliday-Hasan a coesão se consubstancia em nexos manifestados em s u p e r f í c i e , ou s e j a , manifestados concretamente em instrumentos l i n g u í s t i c o s projectados explicitamente em dis_ curso. Por i s s o , é uma constante, ao longo do t r a b a l h o , a exigência do "exp l i c i t a m e n t e verbalizado": "Cohesion is a semantic r e l a t i o n between an e l e ment i n the t e x t and some other element that is crucial to the i n t e r p r e t a -t i o n of i -t . This o-ther elemen-t i s also -to be found in -the -t e x -t " ( p . 8 ) ; na coesão cabem os elementos que tem em comum "the property of signaling that the i n t e r p r e t a t i o n " de um dado segmento do texto "depends on 'something e l s e ' . I f that 'something e l s e ' is verbally e x p l i c i t , then there is cohesion" (p.13; o sublinhado é meu). Poderia m u l t i p l i c a r as citações; t a l não será, porém, ne-cessário, pois bastará atentar em que sempre Halliday-Hasan operam com elemen-tos l i n g u í s t i c o s explicitamente presentes no texto (repare-se que, na e l i p s e , o e x p l í c i t o está realizado por zero - elipse como " s u b s t i t u t i o n by z e r o " ) .

Ora, é da experiência de cada um de nós que a continuidade semân-t i c a de um semân-texsemân-to radica, em muisemân-tos momensemân-tos, em informações disponíveis a par-t i r do conpar-texpar-to não v e r b a l , das coordenadas da enunciação - logo, em informa-ções i m p l í c i t a s , agregadas ao t e x t o , mas não verbalizadas. Sendo assim, é i l e gítimo pretender que a continuidade de sentido t í p i c a do texto seja um dado estritamente dos instrumentos verbais explicitamente realizados e que ela se-j a , em p a r t i c u l a r , assegurada pelos recursos que Halliday-Hasan integram na sua noção de coesão.

Esclareçase que estes aspectos atinentes às informações i m p l í c i tas_ que se agregam necessariamente a um texto (e nele operam fortemente, t a n -to ao nível da sua produção como da sua recepção-interpretação) não são con-templados por aquilo que Halliday-Hasan consideram "the s i t u a t i o n a l properties of the t e x t " (p.21 ver referência j á f e i t a acima). Estas respeitam e x c l u s i -vamente ãs dimensões que os Autores reúnem na noção de " r e g i s t e r " , e nela ca-be, como se v i u , apenas o que tange ã continuidade temática e a aspectos da homogeneidade do t e x t o , t a i s como nível de língua u t i l i z a d o e " r h e t o r i c a l form". (Ver, acima, 1 . 2 . ) . Na verdade, no trabalho de Halliday-Hasan nunca é equacionado o contributo das coordenadas da enunciação para o desenho da continuidade de sentido do t e x t o , e em p a r t i c u l a r o que toca ãs informações d e i -xadas i m p l í c i t a s pelo locutor - aspecto que, como t e r e i a oportunidade de s u b l i n h a r , é fundamental neste domínio.

(31)

.28.

Por i s s o , são (pelo menos) surpreendentes algumas das considera-ções tecidas por Halliday-Hasan a páginas 299-303, nomeadamente as que em seguida surgem sublinhadas: "The c o n t i n u i t y t h a t is provided by cohesion con-s i con-s t con-s , in the mocon-st general termcon-s, in exprecon-scon-sing at each con-stage i n the dicon-scour- discour-se the points of contact with what has gone before. The s i g n i f i c a n c e of t h i s l i e s i n the simple fact that there are such points of contact: that some en-t i en-t y or some circunsen-tance, some relevanen-t feaen-ture or some en-thread of argumenen-t persists from one moment to another in the semantic process, as the meanings unfold. But i t has another more fundamental s i g n i f i c a n c e , which l i e s i n the i n t e r p r e t a t i o n of the discourse. I t is the c o n t i n u i t y provided by cohesion that enables the reader or l i s t e n e r to supply a l l the missing pieces, a l l the components of the p i c t u r e which are not present i n the t e x t but are necessary to i t s i n t e r p r e t a t i o n " (p.299; o sublinhado é meu).

Na minha opinião, não se vê como é possível cometer t a l alcance ã coesão nos termos em que Halliday-Hasan a caracterizam, ou s e j a , atendendo, como se v i u , exclusivamente a imanência do texto e neste apenas as conexões e x p l í c i t a s realizadas por instrumentos ou recursos sintácticos ( t a i s como os que são considerados nas categorias da r e f e r e n c i a , da s u b s t i t u i ç ã o , da e l i p s e , da conjunção) e ãs que são instauradas no domínio da coesão l e x i c a l pura.

Da mesma forma, não é v i s í v e l , atentas as considerações j á t e c i -das nos números a n t e r i o r e s , como podem os Autores a t r i b u i r ã (sua) coesão es-te outro papel, a saber, o de " a c t u a l l y enabling" o receptor de um es-texto " t o i n t e r p r e t i t and determining how he does so" (p.303; o sublinhado é meu).

Julgo que ao cometerem este papel c r u c i a l ã coesão, Halliday-Hasan tomam de novo ' a p a r t e pelo t o d o ' : ao referirem-se ã coesão, e s t r i t a m e n t e , têm em mente todas as dimensões da textura e não apenas o sub-conjunto delas que denominam coesão.

Convirá adiantar aqui que a noção de coesão que adoptarei neste estudo abarcará inequivocamente aspectos que legitimarão estes papeis que Halliday-Hasan lhe atribuem - mas sem fundamento s u f i c i e n t e , como t e n t e i mos-t r a r . Por i s s o , se r e mos-t e r e i na noção de coesão os aspecmos-tos que nela inmos-tegram Halliday-Hasan (e que acima ficaram referenciados), nela f a r e i i n c l u i r muitos

(32)

.29.

outros não contemplados por estes Autores, de forma a que se cumpra e f e c t i -vamente e por i n t e i r o a dimensão essencial que adequadamente eles reconhe-cem na coesão - a que tange aos nexos semânticos que basicamente respondem pela unidade semântica, pela continuidade de sentido de um produto verbal.

c.

Halliday-Hasan partem, como se assinalou em 1 . 1 . , de uma adequa-da caracterização do texto e adequa-das relações EN-texto. No entanto, esta perspec-t i v a eminenperspec-temenperspec-te perspec-texperspec-tual (que respeiperspec-ta a caracperspec-terização de uma sequencia de ENs a p a r t i r da, na base da consideração de uma unidade semântica global ade-quadamente agregada a uma situação de comunicação) é , em r i g o r , abandonada na análise da coesão: como se v i u , os Autores apenas atendem ao que, na sintagmã-t i c a imanensintagmã-te do sintagmã-t e x sintagmã-t o , surge e x p l í c i sintagmã-t a e imediasintagmã-tamensintagmã-te como inssintagmã-trumensintagmã-to de ligação entre ENs. Sendo assim, a perspectiva tomada na caracterização da coe-são e mais propriamente c o - t e x t u a i , j á que o que esta em causa não e senão um sub-conjunto de aspectos da configuração e x p l í c i t a de cada EN de uma sequencia, decorrentes justamente da sua cotextualização ( t a i s como a projecção de r e l a -tores, de e l i p s e , de instrumentos d i a f õ r i c o s . Ver ainda adiante 1 - 8 . ) . 0 que se afirmou parece valer mesmo para o enfoque que e dado ãs dimensões da coesão lexical pura: na sua consideração - f e i t a , de r e s t o , de modo muito breve - nun-ca e explicitamente adoptada uma perspectiva que parta do texto como unidade semântica g l o b a l .

d.

Finalmente, atentas as dimensões focadas por HallidayHasan, l o -go se torna saliente a ausência de qualquer referência ãs cate-gorias verbais de tempo e aspecto, e a todos os outros elementos de localização temporal. 0 funcionamento do sistema verbal no t e x t o , em articulação com outros l o c a l i z e dores temporais, c o n s t i t u i uma dimensão central na configuração daquela u n i -dade l i n g u i s t i c a - dimensão sistematicamente ignorada pelos Autores.

(33)

.30.

1-6.

Como f i c o u v i s t o , Halliday-Hasan reservam a noção de coesão em sentido específico para um dado complexo de relações semânticas inter-ENs, que atras ficaram caracterizadas. Trata-se, p o i s , como também j i se

assina-l o u , de reassina-lações entre unidades assina-l i n g u í s t i c a s sintacticamente independentes, ou s e j a , não congregadas por nexos que respeitam ã configuração de uma cons-trução gramatical (em termos de Halliday-Hasan, relações entre unidadeslTíi-guTsticas não reunidas por conexão de " e s t r u t u r a " ) .

Tornase, porém, evidente que os nexos semânticos analisados -- realizados por r e f e r ê n c i a , s u b s t i t u i ç ã o , e l i p s e , conjunção e pelas - corres-pondências assinaladas entre elementos l e x i c a i s que os Autores congregam sob a designação de coesão l e x i c a l - podem projectar-se também no i n t e r i o r de um mesmo EN, que c o n s t i t u i , como se sabe, uma construção gramatical (a construção gramatical de nível mais elevado). No que respeita a coesão l e x i c a l a l -guns dos laços que nela vimos caber (mais rigorosamente, algumas conexões por " c o l l o c a t i o n " ) podem mesmo projectarse entre items que se congregam em u n i -dades sintagmáticas c o n s t i t u i n t e s do EN (SN, SV).

Por i s s o , podem Halliday-Hasan afirmar com toda a propriedade que "cohesion is n o t , s t r i c t l y speaking, a r e l a t i o n 'above the sentence'", antes "a r e l a t i o n to which the sentence, or any other form of grammatical s t r u c t u r e , is simply i r r e l e v a n t " ( p . 9 ) . Ou s e j a , os elementos verbais entre os quais se estabelece um nexo coesivo "may be s t r u c t u r a l l y related t o each other, or they may n o t ; i t makes no difference to the meaning of the cohesive r e l a t i o n " ( p . 8 ) . Em suma, "the cohesive relations themselves are the same whether t h e i r e l e -ments are w i t h i n the same sentence or not" ( p . 9 ) .

Por outro lado, e também acertadamente, Halliday-Hasan salientam que os nexos " e s t r u t u r a i s " instaurados entre os elementos que perfazem uma

"unidade gramatical" cabem legitimamente no âmbito da coesão: "Structure i s , of course, a u n i f y i n g r e l a t i o n . The parts of a sentence or a clause obvious^

ly 'cohere' with each other, by v i r t u e of the s t r u c t u r e " ( p . 6 ) . Por i s s o , " A l l grammatical units - sentences, clauses, groups, words - are i n t e r n a l y 'cohesive' simply because they are s t r u c t u r e d " (p.7) (1 ]) .

0 EN e, dentro d e l e , cada um dos sintagmas c o n s t i t u i n t e s apresentam, p o i s , naturalmente, enquanto construção g r a m a t i c a l , uma coesão e s t r u t u

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-. 3 1 -.

r a 1 " a qu e eventualmente se juntam relações coesivas atinentes aos items

l e x i c a i s ou realizadas por r e f e r ê n c i a , s u b s t i t u i ç ã o , elipse e conjunção (Note-se que estas quatro modalidades da coesão gramatical sõ podem pro-j e c t a r - s e entre sintagmas c o n s t i t u i n t e s do EN, não no seio de cada um de-l e s : a úde-ltima dede-las (conjunção) está envode-lvida na configuração do EN compos-t o ou complexo).

A propósito, convém reparar que Halliday-Hasan abandonam a q u i , sem mais comentários, o p r i n c í p i o crucial que dizem operar na coesão - o da relação "pressuponentepressuposto", no que tange ã interpretação do p r i m e i -ro. Obviamente, ele não tem aqui aplicação - o que, quanto a mim, c o n s t i t u i séria incongruência da parte dos Autores na caracterização da coesão. A este momento de incongruência deve j u n t a r - s e o que advém do facto de o mesmo prir^ ci pi o e x p l i c a t i v o não ser também a p l i c á v e l , em r i g o r , no que tange ã coesão l e x i c a l (pura), como tentei mostrar atrás (ver 1 . 3 . 2 . b . ) .

Anotarei que a expressão acima u t i l i z a d a - coesão e s t r u t u r a l - é retirada de um trabalho de M.A.K. Hal l i day, j á atrás citado ( H a l l i d a y , 1964), em que o Autor propõe dados essenciais sobre a noção de coesão, retomados e ampliados na obra de que me venho ocupando agora. Nesta, aquela expressão não é retida - mas é-o, sem dúvida, o conteúdo básico n e l a , então, configurado, que acima ficou e x p l i c i t a d o .

Terá interesse observar que, na "apresentação" da noção de coe-são em H a l l i d a y , 1964, não ê ainda invocado o p r i n c í p i o e x p l i c a t i v o funda-mental, que tem vindo a ser analisado c r i t i c a m e n t e , da dependência semânti-ca entre um elemento ("pressuponente") e um outro ("pressuposto"). No entant o , esse p r i n c í p i o é de algum modo inentantroduzido em entantermos nada c l a r o s , r e -f i r a - s e - e, curiosamente, a propósito da coesão e s t r u t u r a l , nomeadamente ã que se p r o j e c t a , no seio do EN ("Sentence") composto ou complexo, entre as

"clauses" suas c o n s t i t u i n t e s . As articulações entre estas no EN diz H a l l i day "take various forms", de entre as quais se salientam como mais s i g n i -f i c a t i v a s as de '"dependence" and ' l i n k i n g ' " , ou s e j a , em termos "aproxima-t i v o s " e " "aproxima-t r a d i c i o n a i s " (são palavras de Halliday) as de " ' s u b o r d i n a "aproxima-t i o n ' and 'coordination' . . . " ( H a l l i d a y , 1964, p.304). Ora, justamente, a este pas_ so junta o Autor uma nota (4) que transcrevo: "A more correct t h e o r e t i c a l statement of s t r u c t u r a l cohesion i s that i t is presupposition at the rank of the sentence. Presupposition is the special r e l a t i o n between elements of a

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.32.

chain-exausting structure that have as t h e i r exponents terms i n a non--choise-exausting system. Thus in " I ' l l come i f you want me "the s t r u c t u r a l r e l a t i o n of " c o n d i t i o n i n g " clause and "conditioned" clause, which is a type of dependence, is one of presupposition" (Halliday, 1964, 304; o sublinhado é meu).

0 carácter sumário desta referência de Halliday não permite ava-l i a r adequadamente o que intende aqui por "pressuposição". Juava-lgo, porem, que não cabe aT o que em Halliday-Hasan 1976 é configurado sob a mesma designa-ção - que, de r e s t o , como se anotou acima, não tem aplicadesigna-ção nas dimensões " e s t r u t u r a i s " da coesão intra-EN. Talvez aquilo para que aponta Halliday na-quele passo não seja outra coisa que a interdependência formal que reúne os termos integrantes de uma construção gramatical (onde eles reciprocamente se convocam). Essa interdependência ê, com e f e i t o , uma dimensão central da con-figuração de uma construção gramatical - e como t a l será r e t i d a adiante como fortemente actuante na coesão estrutural dessas unidades l i n g u í s t i c a s . No caso em análise,uma outra interdependência sernãnticofuncional reúne as u n i -dades em combinação: talvez que também para esta outra interdependência apon_ te Halliday naquele passo.

Voltando, porém, a Halliday-Hasan 1976, e ãs dimensões coesivas intraEN que estava a analisar, acrescentarei que elas são abandonadas na r e -flexão desenvolvida pelos Autores, que se centram, como j á se fez n o t a r , ex-clusivamente nas conexões inter-ENs, pois consideram que as "cohesive t i e s between sentences stand out more clearly because they are the ONLY (1 2) sour

ce of t e x t u r e , whereas w i t h i n the sentence there are the s t r u c t u r a l r e l a t i o n s as w e l l " ( p . 9 ) . Ê por isso que "In the description of a t e x t , i t is theinter_ sentence cohesion that is s i g n i f i c a n t " , pois "that represents the variable aspect of cohesion, distinguishing one t e x t from another" ( p . 9 ) .

1 . 7 .

Halliday-Hasan inscrevem também na "textura i n t e r n a " dimensões especificas da organização do EN considerado "in i t s role as the r e a l i z a t i o n of t e x t " (p.326) - dimensões que apresentam em termos de "theme systems" e "information systems" (ver acima 1.2.b. ( i i ) (1 3) . Trata-se, segundo os

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