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PODER, AUTORITARISMO E OPRESSÃO

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Academic year: 2021

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Poder, Autoritarismo e Opressão

GERSON DE BRITO MELO BOSON

Professor Catedrático da Faculdade de Direito da UFMG

0 Poder, o a u to rita ris m o e a opressão são coisas tã o a n tiga s q u a n to o p ró p rio hom em . S urgem com este e tê m s id o um a das suas e x is te n c ia is m ais c a ra c te rís tic a s . Daí o tem a pro p o sto à nossa d is s e rta ç ã o im p o rta r em duas colocações prévias, d is tin ta s m as conexas em v irtu d e da de pendência em que se põe a segunda em relação à p rim e ira .

R e firo-m e, de um lado, aos aspectos m e ta fís ic o s que envolvem a te o riz a ç ã o do Poder, e de o u tro , aos aspectos fá tic o s do a u to rita ris m o , g e ra d o r de m ú ltip la s fo rm a s de opressão no plan o das m an ifestaçõ es h is tó ric a s dos povos, is to é, no seu tiro c ín io p o lític o . É que o a u to rita ris m o e a opressão tê m suas raízes no exe rcício do Poder, e n q u a n to que o P oder as tem nos d o m ín io s m e ta físico s que o le g itim a m ou não. N o utras palavras: as indagações acerca dos fu n d a m e n to s do P oder pe rte nce m ao m un do nomênico, e n q u a n to que as indagações acerca do a u to rita ris m o e das opressões d e co rre n te s pe rte nce m ao m un do fenomênico.

Por sua vez, estas colocações não podem ser exam inadas sem associação a fig u ra ç õ e s h u m a n ística s, atravé s das qu ais se colocam não os fu n d a m e n to s do Poder, m as a sua d in â m ic a , a p a r tir de suas orige ns e as fin a lid a d e s do seu exe rcício, neste o cu rs o fá tic o do a u to rita ris m o e das opressões.

2 — O m un do das c iviliza çõ e s « m a is a n tig a s » não conheceu nenhum a fo rm a ap reciável de h u m an ism o, fa to que levou KANT a ob serva r que no período precedente aos H elenos som ente

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uma era livre: o Faraó. A li o a u to rita ris m o e as opressões eram inerentes à essência do Poder, e este, um a trib u to pessoal do Chefe, assim po r destinação divina . O Chefe era d e ifica d o e tin h a m issão de faze r presente, atuante en tre os hom ens, a vontade dos seus deuses.

Naquela fase da H istó ria, as idéias sobre o Estado não tin h a m analogia com as nossas. Eram bem diversas. O Estado, com fun dam e ntos teo crá ticos rigorosos, os Povos se a trib u in d o linhagem celeste, cada qual com um colegiado de deuses a se proclam arem , pela boca dos hom ens, cria do re s e senhores do Universo, — nessa m en talidade os valores religiosos os m ais elevados, — tu d o con corria para a firm e s a do ideal daquela A ntiguidade: a monarquia universal, e rig id a à base da escra vi-zação das «nações estrangeiras» e, internam ente, dos súd itos a seu Chefe.

Os Povos estavam sem pre em luta pela im posição das verdades cósm icas de sua respectiva fé religiosa. Aos seus deuses — exem plo para os hom ens — eram im p utad os os sentim entos destes, num a confusão de planos, — o d iv in o com o hum ano, — que levava valores negativos com o o ódio e a

vingança, à ó rb ita positiva dos grandes a trib u to s .

Naquela sedim entação c u ltu ra l, assim com o os Povos deve-riam ser escravizados por q u a lq u e r um dentre eles m esm os, — questão fá tic a de poder, — assim os hom ens deveriam ser escravos do Chefe, encarnação do deus m áxim o, na unidade to ta litá ria do m undo.

3 — Embora os Gregos não tenham conseguido liberta r-se de m uitas dessas concepções e praxis, na verdade uma visão an tro po lóg ica da C u ltura nos apresenta no helenism o a p rim e ira form a sistem atizada de hum anism o no M undo A ntigo, expressan- do-se, notavelm ente, no cosm ologism o da Filosofia grega.

ARISTÓTELES é o seu grande titu la r, já que o de stin o lhe reservara a tarefa de desfazer a ru p tu ra eleática das idéias com o únicas realidades, em face da tra d iç ã o hilozoista da natureza perm anentem ente m utável, tã o bem representada no pensam ento de HERÁCUTO — o O bscuro, de Éfeso. Na in tu içã o de que o «ser se diz de m uitas m aneiras» e nas parelhas con ceitu ais

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«fo rm a -m atéria» para a representação estática do m undo, «real- possível» para a sua representação lógica e «ato-potência» para a in te lig ib ilid a d e dinâm ica do Cosmos, ARISTÓTELES a trib u i ao Homem um posto no U niverso já m uito bem de fin id o . Só que não a todos os hom ens, mas apenas ao hom em grego, aos gregos livres.

Deus é o p ró p rio Cosmos, Inteligência pura, pensam ento de pensam ento, — noesis noeseus, — que pensando faz-se re a li-dades, em genética interna de «atualização eterna. Assim , o m undo é por si m esm o in te lig ível e com o ta l se reflete na m ente hum ana, pois o Homem é, no Universo, o ún ico ser que tem o p riv ilé g io de p a rtic ip a r na in te lig ên cia divina. A sua fin a lid a d e é, pois, clara: rea liza r a sua natureza, isto é, pensar e, pensando, com preender a estru tu ra do Universo e, atuando na execução do seu pensam ento, c ria r a C ultura, as civilizações, e sp írito ob jetivado po r im agem cósm ica, cuja expressão m áxim a se encontra na Polis dos hom ens livres.

O Homem é vis to com o zoon politikon, não por in s tin to , mas por fin a lid a d e . Esta se acha na im anência da razão: logos. No seu exercício ético, o Homem encontra na P olítica o processus m ais elevado e d ig n ific a n te de sua realização, de sorte que a

Polis é desta o resultado prim oroso, expressão da raça, cuja aretê consagra, por meio dos hom ens livres, todo o esplendor

da inteléquia divina.

C ertam ente fo i raciocínio desse tip o , acerca do Realism o aris to té lic o , que levou o S o litá rio de K oenigsberg a observar que na C ultura helénica, — aqui com preendidos tam bé m os Povos esp iritu a lm e n te dela periféricos, de ntre eles especialm ente o Povo rom ano, — alguns hom ens eram livres, aqueles respon-sáveis pela in stitu cio n a liza çã o e direção da Polis.

Na verdade, antecipando-se às veleidades hegelianas acerca da su p e rio rid a d e entre as raças, através das quais a Razão

Potência se fenom enaliza nas diversas épocas da H istó ria , e

para ta n to elege aquela raça que deve ser, com prim azia, o seu m elhor in s tru m e n to de m anifestação, a Filosofia grega, como expressão to ta litá ria do espírito, assentou-se na Paidéia da sup eriorid ad e do Helenos, — bárbaros todos os outros povos.

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Por isso os Gregos se fechavam aos contactos c u ltu ra is e c o n s i-deravam ju sta por natureza a guerra que faziam c on tra os bárbaros, — os não gregos, — consequentem ente ju sta por natureza a escravização destes. É de TITO LIVIO a célebre observação: cum alienigenis, cum barbaris aeternum omnibus

Graecis bellum est. E de ntro do p ró p rio Im pério rom ano era

plena de sen tido a norm a das Leis das Doze Tábuas: adversus

hostem aeterna auctoritas esto.

O e q u ilíb rio da Polis à im agem da harm onia cósm ica, tão bem representada na Politéia platôn ica, ju s tific a o Poder dos homens livres na direção do Estado, sendo a escravidão, o a u to -rita ris m o e as opressões, decorrência do exercício desse Poder, praticados que são contra os bá rbaros, ou em defesa desse e q u ilíb rio con tra aqueles que o p e rtu rba m , ou pretendem pe r-turbá -lo , numa típ ic a repressão aos crim e s c on tra a segurança do Estado. Themis é a ju s tiç a das e s tru tu ra s com u ta tiva e d is trib u tiv a da Polis, e Dikê, a representação da ju s tiç a geral, das inform ações axiológicas da C ultura.

Embora o Poder p o lític o con tinu e a ser considerado com o o rig in á rio dos Páram os, — do Topus Uranos — verifica-se, porém, em term os de um hum anism o cara cte ris tica m e n te cosmo-

cêntrico, uma notável evolução. Uma verdadeira ascensão. V e

rifi-ca-se a existência de hom ens livres. Há cidadania. Há cidadãos que discutem , que dispu ta m postos na vida pú blica, e escolhem aqueles que devem d ir ig ir a Polis, para os ajustam e ntos às fina lid ad es da Razão: Logos.

4 — A m ente hum ana tra b a lh o u séculos para sup era r esse tip o de hum anism o. A nova C u ltura surgente, a que SPENGLER,

no seu fam oso estudo sobre uma m orfolog ia da H istó ria Universal — A DECADÊNCIA DO OCIDENTE — iria de no m ina r de C ultura

Fáustica, pela riqueza e esp le ndo r das suas expansões, o rig in a -riam ente sobrepondo-se aos escom bros do M undo Greco-rom ano, tra ria potencialidades de valores que a plasm ariam com novos sentidos. Seus fun dam e ntos m etafísico s ú ltim o s seriam dife ren te s. Deus não se confunde com o Cosmos, não é apenas um Logos im arcessível, in d ife re n te aos desígnios an tro po lóg ico s. Deus é pai, é criador. Deus é providência, é Persona.

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Coube a SANTO TOMÁS, servindo-se do Realism o a ris to té lic o , que c ris tia n iz a com extrem a sabedoria, d a r unidade sistem atizada à essa nova visão cósm ica, e em conseqüência à uma nova colocação do Hom em no Universo. Passa então a d o m in a r um tip o especial de hum anism o teocêntrico, — o hum anism o cristão , — em que as prom essas de CRISTO, entregues às transposições da Igreja, servem de dire tiva s ao exercício do Poder, agora entre diversos Povos no con tine nte europeu, em tra n s fo rm a ç ã o de unidades estatais soberanas. Omnis potestas a Deo, — é a invo-cação de uma grund Norm, que serviria de base para colocações de variadas ideologias do u trin á ria s, de ntre elas a «Teoria do D ire ito D ivino» dos Reis, roupagem nova de uma revivescência da m entalidade antiga.

Nesta etapa, o a u to rita ris m o e as opressões passam a ser com etidos, c o n tra d ito ria m e n te , sob h ip ó c rita s ju s tific a tiv a s de se in cluíre m , por decorrência, nos ensinam entos daquele que viera ao m undo para re d im ir, para pregar a igualdade, o am or, a fra te rn id a d e , e tra z e r a paz.

Seus verdadeiros ensinam entos, porém , não seriam vãos. A prédica da igualdade dos homens, independentem ente de raça, cor, riqueza ou pobreza, serviria de assento sólido à C ultura ocidental em surgim ento. Pacificados os céus pelo m ono-teísm o e un ive rsalidad e de um só Deus, — Pai e Persona, s u rg iria m os Estados cristão s na sua m u ltip lic id a d e , agora sem o rancor m útuo dos tem pos antigos, inaugurando-se um novo sistem a de vida inte rna cion al, em cujo top o evolutivo nos encon-tram os hoje.

5 — Todavia, fatos notáveis dessa C u ltura ocidental nascente, ta is com o a de stru içã o da unidade religiosa levada a efe ito pela

Reform a luterana, a descoberta do céu com o in fin itu d e em que as estrelas se movem, o novo sistem a p lan etário desenvolvido por KEPLER e COPERNICO, no qual a Terra é com o um pequeno grão a mover-se em to rn o de si mesmo e ao redor do sol, e tod o o vasto sistem a a mover-se na im ensidão dos espaços in fin ito s , tu d o isso comoveu profundam ente a Filosofia realista tra d ic io n a l, que na versão to m is ta continuava a s e rv ir de susten-tá c u lo ao hum anism o teocêntrico dom inante.

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Tais fatos levaram o e s p írito hum ano a m e rg u lh a r em grave crise e com ele toda a H istó ria do Pensam ento, que passou a e x ig ir novas bases m etafísicas, pois é sabido que sem essas bases nenhum a C ultura encontra meios de subsistência. C o n stitu i equívoco tra d ic io n a l a suposição de que as invasões bárbaras destruíram o Im pério rom ano, ou que isso te ria aco ntecido em v irtu d e de im plicações dem ográficas, como defende CHAUNU. Esse Im pério já se achava de stru ído — com o observa TOYNBEE — a p a rtir dos im pactos do C ristianism o, pelas razões que acrescentam os, uma vez que o C ris tia n is m o liquidava os assentos

m etafísicos ú ltim o s da C u ltura helénica, em que Roma ocupava o m ais im p o rta n te lu ga r pe rifé rico .

É o que v iria acontecer agora no fin a l do período medievo, em v irtu d e da de stru içã o, operada pelos citad os acontecim entos, dos resíduos cie n tífic o s da F ilosofia a ris to té lic a , presentes ainda no pensam ento ocidental, através da P atrística e da Ecolástica. Tinha in ício novo ciclo h is tó ric o a que se denom inou «Novos Tem pos», o qual tro u x e cara cte rísticas in divid u a liza d o ra s d e fi-nitivas ao p e rfil da C u ltura ocidental.

6 — Destruídos esses resíduos a risto té lico s, a profunda crise advinda conduziu o Homem à necessidade de fo rm u la r

novam ente tod os os problem as. À base do «cogito ergo sum», à base da in d u b ita lid a d e do pensam ento, RENÉ DESCARTES estabelece a prim azia da Teoria do Conhecim ento em face dos problem as ontológicos, cara cte rísticos da Filosofia grega, e com isso crio u um novo sistem a filo s ó fic o : o Racionalismo, que iria te r profundas in flu ê n cia s no desenvolvim ento de nossa C ultura, em todos os seus aspectos, p rin c ip a lm e n te nos do m ín io s da

P olítica e do D ireito. Os esforços do Empirismo inglês não pe rtu rb a ria m a desenvoltura. Ao c o n trá rio , serviriam para o seu aperfeiçoam ento, conduzindo o pensam ento m oderno às conclusões do idealismo Crítico.

O p rin c íp io cris tã o da igualdade dos Homens, que antes tinh a os seus fun dam e ntos no fa to o rig in á rio da paternidad e divina única, no cria c io n is m o de que o M ito edêm ico é rep re-sentação expressiva, passou a te r fun dam e ntos intrínsecos, no

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«estado de natureza», ou seja, o «estado social» sim plesm ente privado, com os hom ens a fazerem ju stiça pelas pró pria s mãos.

Estava assim explicada a sociedade política — o Estado — com o resu ltan te de um «co n tra to social», em que o Poder tem suas fontes no p ró p rio «pactum unionis», e deve ser exercido em nome da «vontade geral». A au torid ade tem que ju s tific a r-s e na lei. À fa lta dessa ju s tific a tiv a , aparece com o a rb itra rie d a d e , com o opressão, condenável com o atavism o do Poder pré-estatal. Só o «p acto social» pode ju s tific a r o D ire ito pú blico, o fato, por exem plo, de a to ta lid a d e dos indivíd uos de uma com unidade se subm eterem ao gru po que escolheu para governá-los. Estava in s titu íd o o «Estado de D ireito» , em que a legitimidade im p orta em pro blem ática in te ira m e n te nova. O Poder não vem dos Páramos e já não é concebido com o p riv ilé g io de nenhum representante de Deus, ou de um colegiado de deuses, na T erra, nem de algum g ru po de hom ens, ju s tific a n d o -s e pelas origens destes. Pertence a todos. A fó rm u la é c o n s titu c io n a l: tod o Poder emana do povo e em seu nome é exercido.

O Homem é e s p írito e natureza. São os elem entos desta, nele presentes, que o levam à violação da lei, do «pacto social», m otivado por inveja, cobiça, em ulação, ódio, m andonism o, valores negativos. O a u to rita ris m o e as opressões con stituem geração de ta is valores e são apontados com o m anifestos desvios de poder, sem po ssib ilidad e de ju s tific a ç ã o racional, pois deitam suas raízes som ente nos debruns in s tin tiv o s da consciência, ali onde jaz a sedim entação da bestialidade.

O hum anism o se faz assim antropocêntrico. Toda a realidade

do m undo passa a g ira r em to rn o da razão, que se to rn a in s-tru m e n to de fé, capaz de c o n d u zir o Hom em à p e rfe c tib ilid a d e existencial. O o tim is m o racionalista de LEIBNITZ, ironizado por VOLTAIRE em Candide, refle te a plen itude dessa fé e desses ideais.

Como Kant observou: pertencendo ao m undo sensível, o Homem não age sem pre conform e a razão, pois está s u je ito às inclinações ou m otivações dos sentidos. P orta dor dessas in c li-nações, enquanto fenôm eno o Homem está s ujeito às in te rfe rê n cia s da natureza, que o im pedem de a g ir livrem en te con form e a razão. Daí a sua cara cte rística de ser tam bé m p o rta d o r de uma

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«insociável sociab ilidad e» , que o faz obedecer, enquanto indivíduo, a uma ordem de com petição e de exclusão dos dem ais, e enquanto ser racional te n d e r a uma inevitável associação no sentido do desenvolvim ento c u ltu ra l, pois c e rto é que só consegue desenvolver a sua vida e s p iritu a l na m edida em que com pete. Entretanto, nesse p ró p rio antagonism o se encontra a consciência de sua liberdade, pois agora a colocação o rig in á ria é a de que todos som os livres. Não m ais alguns apenas são livres, com o no ciclo a n te rio r greco-rom ano. Todos somos livres. E não há «pacto social» de escravos, nem pode haver p riv ilé g io s entre homens livres, pois todos são ig ua lm en te livres, por im anência e sp iritu al da pró pria liberdade.

A Revolução francesa é o g rito h is tó ric o dessa ideologia da liberdade. O rep ub lica nism o — o Estado de D ireito dem o-crático — o seu resultado po lítico. O verd ad eiro sen tido do D ireito é o de ser in s tru m e n to de liberdade, — in s tru m e n to do exercício social c o m p a tib iliz a d o da liberdade.

O «pacto social» não é um dado em pírico, mas tam bém não é uma mera hipótese, ou uma fan ta sia. É um a priori da razão com induvidosa realidade prá tica. É a única ju s tific a ç ã o ló g ico -filo sófica possível da sociedade in stitu cio n a liza d a que, na verdade, não pode ser pensada sem a idéia de natureza, mas que sendo negação do p ró p rio «estado de natureza», com a natureza gera uma convivência existencial subordinada a um regim e de tensão dialé tica perm anente. E, de ou tro lado, tam bém o «estado de natureza» não é um m om ento h isto rica m e n te precedente à sociedade po lítica, mas é com o se fosse um fantasm a a m anifestar-se nas violações das norm as ju ríd ic a s pactuadas, ou no despotism o dos governantes que desrespeitam o «pacto social», descam bando para o a u to rita ris m o , gerador das opressões políticas.

O Homem pertence, pois, a um só tem po, a dois m undos diversos: o sensível e o inteligível, ta l com o já fora pre visto na Teoria parm enídica sobre o ser. É pelo sensível que ele se co rp o rifica , reproduz-se, faz parte da natureza com o espécie ou grupo. Todavia, não é natureza, de form a algum a, a in s titu iç ã o do Estado. A natureza im pele os hom ens ao antagonism o, não

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pode causar a sociedade po lítica, a que som ente a liberdade pode s e rv ir de gênese e fundam ento. Só a liberdade é decisiva para a sua form ação, cuja fin a lid a d e precípua é a de c ria r a «ordem ju ríd ic a » , para garantia da pró pria liberdade, pois o D ireito não existe po r si mesmo, ou para si, mas para a liberdade, presença im arcessível da dignidade hum ana.

As desigualdades, tão bem postuladas por ROUSSEAU no seu fam oso «Discours sur 1’inégalité des conditions», em que aponta a sociedade com o fo n te de todos esses te rrív e is m ales, devem en co n tra r no D ireito, e som ente no D ierito, o in s tru m e n to de correção, prom ovendo-se, através dele, o ajustam e nto dos d e seq uilíb rio s sociais, o ajustam ento das desigualdades fática s aos m om entos da igualdade o rig in á ria , esta com o decorrência da liberdade nom enal do Homem, pois na verdade pelas desi-gualdades é responsável a natureza, e não a razão. A esse ajustam ento é que se pode de no m ina r « ju s tiç a » , harm onia dos valores tão expressivam ente representados na trilo g ia dos

Revo-lu cion ários de 1789: Liberté, Égalité, Fraternité. Certam ente, na sociedade po lítica em que a liberdade e a igualdade se m ostrem dessa form a ajustadas, a fra te rn id a d e será apenas uma conse-qüência gra vitaciona l, pois sob co n tro le estarão os im pulsos sensíveis dos hom ens.

7 — A qui é necessário, porém , fazer-se uma d istin çã o da m aior im p o rtâ n cia , de vez que a do u trin a do c o n tra tu a lis m o ju ríd ic o , em bora sem pre embasada no pressuposto da liberdade o rig in á ria , apresenta uma outra versão, s a tis fa tó ria às tra d içõ e s atávicas do Poder e de suas m anifestações a u to ritá ria s e opressivas.

Refiro-m e às colocações de HOBBES, fe ita s em defesa do « a bso lutism o » de Governo e que, postas com e x tra o rd in á ria habilidade, servem até hoje para ju s tific a r os posicionam entos ideológicos extrem ados, de esquerda e de d ire ita . Servem para ju s tific a r o endeusam ento do Estado, sub m eter o sen tido do «bem com um » e c o n fu n d ir a escala de valores da cidadania e da dign ida de da pessoa hum ana.

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É sabido que a do utrin a, em bora vários pontos com uns, registra divergências entre as linhas ideológicas que passa por LOCKE, ROUSSEAU e KANT, e a linha que procede de HOBBES, esta com assento m aior na suposição de que os elem entos da natureza são predom inantes no Hom em , — o «sensível» os governa bru ta lm e nte, de sorte que o «estado de natureza» fig u ra com o um precedente em p írico ao h is tó ric o da sociedade política. Nele os hom ens viviam em guerra constante. Todos eram in im ig os de todos: bellum uniscujusque contra unumquemque, ou seja: bellum omnium in omnes. Para sairem dessa degradante situação, os hom ens concordaram na criação do Estado, a cuja chefia alienaram todos os seus d ire ito s , isto é, a sua liberdade.

A fan ta sia do a rtifíc io ju ríd ic o é m anifesta, pois repugna à racionalidade a opção espontânea do Hom em livre pela sua própria escravização. Além disso, neste aspecto a d o u trin a entra em con tra dição com os p rin c íp io s básicos in fo rm ad ores da C ultura O cidental, em que a liberdade de todos, e não de um só ou de apenas alguns, c o n s titu i a cara cte rística m áxim a do seu destino. A d o u trin a serviria, no q u ad ro do racion alism o em que se coloca, para e xp lica r as origens do poder do Estado no «m undo m ais a n tigo », se esse a li não fosse m elho r explicado pelos fun dam e ntos teo crá ticos, a que já nos referim os.

De q u a lq u e r form a, a d o u trin a de HOBBES se lançou no curso da H is tó ria do pensam ento p o lítico, e persevera ainda hoje, com todas as dissim ulações possíveis, com o capaz de exp lica r toda e q u a lq u e r form a de a u to rita ris m o e de opressão, inclusive o « te rro ris m o do Estado», sob as dife ren te s fo rm a s e ocasiões em que tem surgido entre nós e alhures.

Destarte, o m undo contem porâneo, que ainda vive e se desenvolve no ciclo aparentem ente inesgotável do Racionalismo, — de que o idealism o c ritic is ta , o id ea lism o ob je tivo e m esm o o existencialism o, são versões filo s ó fic a s estrutu rada s, — nos apresenta duas fig u ra s bem d is tin ta s de «Estado de D ireito» , já que este, q u alque r que seja a sua figu raçã o, tem sua e x p li-cação o rig in á ria no «pacto s ocial» e seus fun dam e ntos, no exercício da liberd ad e nomenal do Hom em .

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A p rim e ira delas é a do «Estado de D ire ito » dem ocrático, cuja cara cte rística de essência e de existência se acha no p rin c íp io da id en tidad e de Estado e Nação. Q ualquer fo rm a de Estado em que não haja essa id entidade pode, na sua in s tru -m entação o fic ia l, deno-m inar-se -m il vezes de «Estado de -m ocrá-tic o » , e o será apenas nom inalm ente. O Estado de m ocrá ocrá-tico é

som ente aquele em que a Nação se apresenta po litic a m e n te organizada, m ediante ordem ju ríd ic a postulada pelos seus cidadãos, para garan tia de sua liberdade e prom oção da ig u a l-dade fática , pertu rba da pela presença do «sensível» no ser hum ano. Nessa fig u ra de Estado, o único que le g itim a m e n te se pode q u a lific a r de dem ocrático, não há lu ga r para o a u to rita ris m o , consequentem ente não haverá ocasião para as opressões deste decorrentes. Há lu ga r para autoridades, no exercício de com pe-tências legais, outorgadas pela cidadania nacional.

A segunda delas é a fig u ra do «Estado de D ireito» s im p le s -m ente legal, cuja cara cte rística de essência e existência se acha no divó rc io en tre Estado e Nação. O Estado é uma ordem de leis, in clusive a Lei M aior, outorgadas po r um ou po r alguns, que esm agam o p o de r p o lític o da Nação, desprezam a sua cidadania, escarnecem a sua liberd ad e e, pela usurpação

gene-ralizada, im p la n ta m o pre do m ín io do «sensível» com o p rin c íp io de vida po lítica, a cujas aplicações de a rb itra rie d a d e s recorrem sem pre que se supõem ameaçados no exercício do seu a u to ri-ta ris m o . Este se faz, por excelência, a m aneira o fic ia l de m anifestação do Poder usurpado. A qui as opressões assum em as m ais variadas form as, desde as im p ostura s de pretenderem passar com o salvadores da Pátria, os únicos capazes de a c on du-zirem ao bem do seu destino, até a h ip o c ris ia ou c in is m o de representarem a vontade do Povo que esm agam e op rim em .

Essa fig u ra de «Estado de D ireito» sim p lesm e nte legal, com o se vê claram ente, nada m ais representa que a presença, ainda nessa a ltu ra dos nossos tem pos c u ltu ra is , da m entalidade antiga que, através das suas mais diversas form as de m an ifes-tação, — de ntre elas os extrem ism os de esquerda e de d ire ita , — ainda tra z o Hom em ju n g id o aos liam es de sua natureza, aos quais HOBBES recorreu para ju s tific a r o Poder absoluto dos reis.

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Todavia, seja com o for, se o Hom em não pode livrar-se da parte sensível na sua atuação p o lítica, nem por isso poderá ab dicar da sua parte racional, de sorte que toda a sua m aior grandeza, aquela que o leva a ocu pa r o seu verd ad eiro posto no Universo, transce nd en do os anim ais, é o fa to de ser um «ente livre», o de «ser e s p iritu a l» , o de não tra n s ig ir nas afirm ações da sua liberdade, nota do m in ante da d ign ida de hum ana.

8 — As Nações la tino-am ericanas espelham a vivência dessa d ia lé tica po lítica tão so frid a . Pela pró pria índole de nossa

form ação, somos Povos qu e aspiram à vida dem ocrática. No entanto, vivem os em con stantes tu rb u lê n c ia s que têm im p ed ido o desenvolvim ento, entre nós, da experiência do «Estado de D ireito» dem ocrático. Por essas tu rb u lê n c ia s têm sido g ra nd e-mente, ou quase sem pre, responsáveis os m ilita re s que, de posse das arm as que a pró pria Nação lhes entrega para defesa e garantia de sua liberdade, sob pretextos diversos tra e m os ideais do Povo e se divorcia m da nacionalidade, im pondo d ita d u ra s sem pre m alogradas. À sem elhança da A ntig uidad e, em que a H istó ria de certos povos se re strin g e ao relato de episódios guerreiros, há em nossa Am érica nações cuja H istó ria se pode re s trin g ir ao relato de «golpes de Estado», resu ltan te s de disputa pelo Poder en tre m ilita re s . O a u to rita ris m o e a opressão, de todos os m atizes, se to rn a m regra da vida pú blica latino- am ericana. E as conseqüências têm sido as m ais lam entáveis: não conseguim os a esta bilida de necessária ao desenvolvim ento, que poderia levar-nos ao nível das Nações in te rna cion alm ente responsáveis pela Paz, donos de um po tencial de riquezas sem par, não conseguim os te r uma econom ia que sequer m in ore a marcha do em p ob recim e nto de nossas populações a se m u ltip li-carem ao léo, não tem os uma a g ric u ltu ra sistem atizada, mas sim de mera subsistência, nossa in d ú s tria ainda é fu n d a m e n ta lmente supletiva e dom éstica, não tem os q u a lq u e r política ra cio -nalizada, não tem os P artidos e nem líderes nacionais, senão eventuais, de vez que as tu rb u lê n c ia s não pe rm item a sua

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form ação, não tem os convicções ideológicas que coloquem a P átria no c e n tro da C ultura a que pertence, não tem os U n iv e r-sidade, senão rep etitiva , não conseguim os faze r nenhum a tra d iç ã o his tó ric a . É com o se fossem os Povos e viverem ao deus-dará, entregues a im provisações, à espera de um m ilagre ou sob a espectativa de uma hecatom be. Tem os sido sim p lesm e nte fatíd ico s.

Vivendo no seio de uma civilização que dá passos decisivos, num m undo que a cada dia se encolhe entre Povos que quanto mais se aproxim am , im p ulsionados por uma tecnologia b rilh a n te e poderosa, m ais se pressionam em te rm o s de sobrevivência, é com o se fôssem os gente a cla m a r queixum es en quanto a caravana passa.

Em ta is circu n stâ n cia s deveríam os, pelo menos, te r Forças A rm adas aguerridas. Na verdade, nem m esm o isso tem os, mas sim agrupam entos de hom ens fardados, a d m in is tra tiv a m e n te organizados, s a tis fa tó rio s para a segurança interna, mas despre-parados para as fin a lid a d e s in te rna cion ais da sua missão c o n s titu c io n a l, — nos m om entos em que tem os C o nstituição. O exem plo é próxim o e recente: a cham ada «Guerra das M alvinas».

Até quando, com o Estados, poderem os levar esse tip o de vida e g a ra n tir a independência de nosso C ontinente é fa to que pertence aos desígnios do fu tu ro . No entanto, a perspicácia nos indica a necessidade de transfo rm a çõe s urgentes se não qu ise rm o s c o rre r o risco de uma dependência d e fin itiv a .

O B rasil, pois, e in fe lizm e nte, não foge a esses parâm etros. E ntretanto, avu ltam as suas responsabilidades em face dos dem ais Povos latino-am ericanos. A sua grandeza te rrito ria l e dem ográfica, o seu posicionam ento c on tine ntal estratégico, a c o rd ia lid a d e de sua gente e o fun do c ris tã o de sua form ação, o seu potencial de riquezas m ú ltip la s , tud o isso pede a nossa conscientização e nos chama ao quadro de uma realidade que tem os o dever de e n fre ntar, e prom over a solução de sua pro blem ática .

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E é nesse quadro, que não c o n s titu i m elenas de pessim ism os, mas can teiro de desafios e de estím ulos, que nós, advogados do Brasil, devemos assu m ir nossas responsabilidades e exercer o nosso dever do bom com bate. Lutando pela im p lan tação de uma ordem ju ríd ic a que seja le gitim a da pelo pro nu ncia m en to do Povo bra sile iro , lu ta nd o pela liquida ção desses resíduos de m ais uma d ita du ra m alograda, ep isó dio de a u to rita ris m o e opressões no relato da P átria, lu tando pelo p rin c íp io da id en tidad e de Estado e Nação, que som ente o «Estado de D ireito» de m ocrá tico pode con sub sta nciar, certam ente que as gerações fu tu ra s nos agradecerão, po r haverm os c u m p rid o o nosso de stino de ju ris ta s , por lhes haverm os assegurado a liberdade.

Referências

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