O aluno e o Programa Xeque-Mate: construções identitárias
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(2) UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES DEPARTAMENTO DE LETRAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS DA LINGUAGEM MESTRADO EM ESTUDOS DA LINGUAGEM ÁREA DE CONCENTRAÇÃO: ESTUDOS EM LINGUÍSTICA APLICADA. O ALUNO E O PROGRAMA XEQUE-MATE: construções identitárias. Cíntia Daniele Oliveira do Nascimento. Natal−RN 2017.
(3) Cíntia Daniele Oliveira do Nascimento. O ALUNO E O PROGRAMA XEQUE-MATE: construções identitárias. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em Estudos da Linguagem, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestra em Estudos da Linguagem, área de concentração: Estudos em Linguística Aplicada. Orientadora: Prof.ª Dr.ª. Marília Varella Bezerra de Faria.. Natal−RN 2017.
(4) Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN Sistema de Bibliotecas - SISBI Catalogação de Publicação na Fonte. UFRN - Biblioteca Setorial do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes - CCHLA Nascimento, Cíntia Daniele Oliveira do. O aluno e o Programa Xeque-Mate: construções identitárias / Cíntia Daniele Oliveira do Nascimento. - 2017. 89f.: il. Dissertação (mestrado) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Programa de Pós-graduação em Estudos da Linguagem. Orientadora: Prof.ª Dr.ª. Marília Varella Bezerra de Faria.. 1. Linguística Aplicada. 2. Identidade cultural - comunicação de massa. 3. Práticas Discursivas. 4. Programa Xeque-Mate. I. Faria, Marília Varella Bezerra de. II. Título. RN/UF/BS-CCHLA. CDU 81'33.
(5) Cíntia Daniele Oliveira do Nascimento. O ALUNO E O PROGRAMA XEQUE-MATE: construções identitárias. Dissertação apresentada ao Programa de Pósgraduação em Estudos da Linguagem, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como requisito parcial para obtenção do título de Mestra em Estudos da Linguagem e aprovada pela seguinte banca examinadora:. Aprovada em:. ___________________________________________________________________________ Prof.ª Dr.ª Marília Varella Bezerra de Faria (Orientadora−Presidente) Universidade Federal do Rio Grande do Norte. ___________________________________________________________________________ Prof. Dr. José Ricardo da Silveira (Examinador Externo) Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. ___________________________________________________________________________ Prof.ª Dr.ª Maria da Penha Casado Alves (Examinadora Interna) Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Natal−RN.
(6) A todos que se dedicam à produção do Programa Xeque-Mate..
(7) AGRADECIMENTOS A DEUS, o motivo da minha existência: “Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente” (Romanos 11:36). À minha família, meus pais e minha irmã Aline, principais incentivadores nesses anos de dedicação à pesquisa. À minha orientadora, Prof.ª Marília Varella Bezerra de Faria, com quem partilhei saberes e dúvidas nesses dois anos de intenso aprendizado. Em especial, por ter me guiado nas veredas das letras e do jornalismo. À Banca de Qualificação e de Defesa de Dissertação, composta pelos professores doutores Maria da Penha Casado Alves, Josenildo Soares Bezerra e José Ricardo da Silveira, pelas inúmeras contribuições que trouxeram para o aprimoramento deste trabalho. Aos professores da UFRN que me incentivaram desde o período da graduação, aos quais faço representados nesta menção pela professora Maria da Penha Casado Alves, que abriu as portas para que eu crescesse como profissional e como pesquisadora. À professora Sylvia Abbott, pela rica experiência que me proporcionou no decurso do Estágio de Iniciação à Docência. A Leonor Oliveira, pela proficiente orientação durante o processo seletivo para ingresso no mestrado. Aos meus colegas de pós-graduação, com quem vivi momentos de proveitoso aprendizado nas inúmeras atividades de que participamos em todo este percurso. Aos meus colegas do curso de Comunicação Social, que foram fundamentais para o sucesso desta pesquisa. E também aos professores, que contribuíram direta e indiretamente para o resultado final desta dissertação. Aos funcionários e bolsistas da TV Universitária, que me acolheram numa generosa partilha de saberes e de disponibilidade. Aos meus amigos, que me cercaram de amor e alegraram sempre o meu coração, em todos os instantes, reeditando em minha lembrança o que já diziam os sábios, em Provérbios: “um olhar amigo alegra o coração”..
(8) Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra das suas mãos. Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite. Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se ouve nenhum som; no entanto, por toda a terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras, até os confins do mundo. Salmo de Davi.
(9) RESUMO Analisam-se, neste estudo, as construções identitárias do programa televisivo Xeque-Mate, a partir de discursos de alunos do curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. O referido programa, produzido pelo Departamento de Comunicação em parceria com a TV Universitária, desde 2002, proporciona aos alunos aprendizados práticos, uma vez que suas diversas atividades são desenvolvidas em um estúdio de TV aberta. A pesquisa insere-se na área da Linguística Aplicada e, justamente em função dessa ancoragem, se permite outras incursões teóricas, transitando pelos estudos da linguagem e pelos estudos da comunicação social. Esse aparato teórico, em particular o embasamento advindo de pressupostos do Círculo de Bakhtin (noção de discurso, de linguagem e de sujeito) e dos estudos culturais, constituiu o lastro em que se fundamentou a análise do corpus. As análises baseiam-se em questionário online respondido por 23 alunos das habilitações de Jornalismo e Radialismo que participaram do programa durante a graduação. Consideram-se, nesta pesquisa, cronotopos distintos, tempos e espaços que são fundamentais para a constituição desses sujeitos. Os discursos discentes revelam identidades do programa, ora como um espaço de experiências, ora como a oportunidade de aproximar teoria e prática. Essas identidades são construídas e reconstruídas e estão imersas em um conjunto de práticas sociais, esferas e campos determinados.. Palavras-chave: Linguagem. Linguística Aplicada. Identidade Cultural. Práticas Discursivas. Programa Xeque-Mate..
(10) ABSTRACT. In this study, the identity constructions of the Xeque-Mate television program are analyzed, based on speeches by students of the Federal University of Rio Grande do Norte Social Communication undergrad course. The program, produced by the Communication Department in partnership with the University TV, since 2002, provides students with handson learning, since their various activities are developed in an open TV studio. The research is inserted in the area of Applied Linguistics and, due to this anchorage, it allows other theoretical incursions, going through the studies of language and the studies of social communication. This theoretical background, in particular the foundation from the Circle of Bakhtin assumptions (notion of discourse, language and subject) and from cultural studies, constituted the base in which the analysis of corpus was grounded. The analyses are based on an online questionnaire answered by 23 students of the Journalism and Radialism qualifications who participated in the program during the undergrad course. In this research, are considered different chronotopes, times and spaces that are fundamental for the constitution of these subjects. Student discourses reveal the program identities, both as a space for experiences, and as an opportunity to bring theory and practice closer together. These identities are constructed and reconstructed and are embedded in a set of social practices, spheres, and determined fields.. Keywords: Language. Applied Linguistics. Cultural Identity. Discursive Practices. XequeMate program..
(11) SUMÁRIO. 1. PRIMEIRAS CENAS DO PROGRAMA. 10. 2. PARA COMPOR O CENÁRIO: LINGUAGEM E IDENTIDADE. 15. 2.1 O CÍRCULO DE BAKHTIN E A CONCEPÇÃO DIALÓGICA DA LINGUAGEM. 15. 2.2 IDENTIDADE CULTURAL. 23. 2.3 ESTADO DA ARTE. 28. 2.3.1 Pesquisas sobre programas de TV. 29. 2.3.2 Pesquisas sobre TVs universitárias. 30. 2.3.3 Pesquisas sobre o curso de Comunicação Social e os alunos. 32. 2.3.4 Pesquisas sobre o gênero discursivo entrevista. 33. 2.3.5 Pesquisas sobre identidade profissional. 34. 3. 37. REUNIÃO DE PAUTA: O QUE E COMO FAZER?. 3.1 O CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL. 37. 3.2 A TV UNIVERSITÁRIA. 38. 3.3 O PROGRAMA XEQUE-MATE. 40. 3.3.1 O caráter de extensão do Programa Xeque-Mate. 43. 3.3.2 A construção do Programa Xeque-Mate e o gênero discursivo entrevista. 45. 3.4 CONTEXTUALIZANDO A PESQUISA. 46. 3.4.1 A Linguística Aplicada, a pesquisa qualitativa e a construção da realidade. 46. 3.4.2 Instrumentos e sujeitos participantes da pesquisa. 49. 3.4.2.1 Pesquisa-piloto. 50. 3.4.3 Construção do corpus. 51. 4. O PROGRAMA ESTÁ NO AR: CONSTRUÇÕES IDENTITÁRIAS EM ANÁLISE. 54. 4.1 NOTA DE ABERTURA À ANÁLISE. 54. 4.2 ANÁLISE DO CORPUS. 55. 4.2.1 A carreira profissional. 57. 4.2.2 As experiências vivenciadas. 59. 4.2.3 O componente curricular. 62. 4.2.4 A união entre teoria e prática. 64.
(12) 4.2.5 A rotina televisiva. 66. 4.3 NOTA DE ENCERRAMENTO À ANÁLISE. 69. 5. 71. FINALIZANDO AS GRAVAÇÕES: VIDA LONGA AO XEQUE-MATE!. REFERÊNCIAS. 74. APÊNDICE – Questionário Aplicado a estudantes de Comunicação Social da UFRN_ 82 ANEXOS – Fotografias complementares. 84.
(13) 10. 1 PRIMEIRAS CENAS DO PROGRAMA. As variadas formas de uso da linguagem e de manifestação da cultura, a diversidade, as subjetividades, as identidades, as transformações da vida social, as relações com o outro são, certamente, algumas das temáticas mais em voga nas discussões que se desencadeiam nas sociedades contemporâneas. Investindo nesse campo discursivo, contemplamos, neste estudo, questões relativas à linguagem e à comunicação social Essa conexão rendeu-nos inusitados saberes e novas concepções. Em deriva, está, por exemplo, a compreensão de que a mídia não somente veicula discursos; também os produz, assim como produz significados e sujeitos (FISHER, 2000), construindo, dessa maneira, a ponte que a interconecta com a linguagem. Mas vale lembrar que, para cumprir com sucesso essa travessia, havemos de saber como lidar com determinadas noções (linguagem, discurso, sujeito) que norteiam as ciências humanas de um modo geral. Nesta pesquisa, viabilizamos a inter-relação desses domínios discursivos justamente por refletirmos sobre questões que perpassam essas duas vertentes teóricas: os estudos da linguagem e os estudos da comunicação social. Entrecruzando esses saberes, propusemo-nos, no curso desta investigação, analisar os discursos de sujeitos que transitam entre a esfera acadêmica e o mercado de trabalho do comunicador social, um perfil bem condizente com o dos alunos de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), que se farão sujeitos neste processo investigativo. A opção pelos alunos do referido curso justifica-se pelo fato de serem esses sujeitos indispensáveis para o acontecimento do Programa Xeque-Mate, que lhes oferece oportunidade de experienciar uma prática simulatória, assemelhada àquela que, supostamente, será vivenciada, em tempo real, no mercado de trabalho. E essa é uma experiência que se estende aos alunos do Curso de Comunicação Social, seja qual for a habilitação por eles escolhida entre as três que se oferecem: Jornalismo, Radialismo e Publicidade e Propaganda1. As investigações a respeito desse programa mostram-se relevantes, por estar integrado a um curso que demanda a realização de atividades práticas para a plena formação do profissional. Para além dessa particularidade, coloca-se o fato de ser ele uma referência consolidada no currículo do Curso de Comunicação da UFRN. E isso remonta à sua gênese, no curso de Jornalismo, ainda na Faculdade Eloy de Souza. Somente a posteriori é que se 1. Utilizamos a estrutura curricular vigente no período de coleta de dados desta pesquisa. O curso de Comunicação Social da UFRN está em processo de reestruturação..
(14) 11. instaurou como um programa da TV Universitária. Sob essa visão, os alunos que participaram do Xeque-Mate em algum momento do curso são essenciais para o desenvolvimento desta pesquisa, por entendermos que de seus discursos serão derivados dados verdadeiramente reveladores para as construções identitárias do Programa Xeque-Mate, um dos pilares deste trabalho. Não obstante, faz-se imprescindível ressalvar o fato de que a participação no referido programa não é obrigatória para todos os alunos do curso de Comunicação Social, vez que este assume o caráter de disciplina optativa na grade curricular. Também se faz necessário esclarecer que, muito embora o curso de Comunicação Social possibilite a formação profissional em diversas habilitações (Jornalismo, Radialismo, Publicidade e Propaganda, Relações Públicas, Cinema), o comunicador social revela-se um profissional de formação pouco especializada, no sentido de que poderá ter conhecimentos específicos em qualquer uma dessas habilitações. Mesmo assim, a sua formação superior é regulamentada pelo MEC, sendo contemplada na estruturação curricular da graduação no contexto do ensino superior brasileiro. Protagonista no palco da comunicação, o comunicador social desempenha relevante papel nesse mundo globalizado, em que a vida das pessoas torna-se cada vez mais líquida e os processos de comunicação cada vez mais instantâneos. É justamente nessa nova configuração da existência humana que ele se destaca como sendo o profissional capaz de reordenar as relações sociais, já bastante afetadas pelos discursos da globalização, reatando as conexões entre o local e o distante, à revelia do espaço, do tempo e das fronteiras. O comunicador social é, decerto, um profissional; mas é também, antes de tudo, um cidadão inserido em uma sociedade afligida por diversos problemas sociais. Por isso mesmo, ao escolher trabalhar na área da comunicação, ele assume um compromisso não apenas com a ética na profissão mas particularmente com as responsabilidades e os desafios que se lhe apresentam cotidianamente. E por estar imerso nas atividades da vida social e cultural contemporânea, desenvolve um trabalho sério, comprometido e engajado, uma vez que tem absoluta consciência da onipresença da mídia em nossa experiência contemporânea. Nas palavras de Silverstone (2002, p. 12), essa percepção faz-se ainda mais clara:. é impossível escapar à presença, à representação da mídia. Passamos a depender da mídia, tanto impressa como eletrônica, para fins de entretenimento e informação, de conforto e segurança, para ver algum sentido nas continuidades da experiência e também, de quando em quando, para as intensidades da experiência ..
(15) 12. E não há como negar essa verdade: a mídia, de fato, “manobra” as nossas vidas; intromete-se − sem pedir licença – nas mais diversas (e cotidianas) manifestações de nossa existência. Difícil mesmo é resguardarmo-nos de seu fascínio. No meu caso, por exemplo, não houve escapatória. Ainda muito jovem, aos treze anos de idade, já sonhava em ser jornalista, um sonho que se tornava cada vez maior quando assistia aos telejornais da TV Cabugi (na época ainda não havia sido vendida ao grupo Inter TV). Não obstante o desejo juvenil, o passar dos anos traçou novos roteiros: em detrimento do curso de jornalismo, opto pelo curso de Letras. Mas esse “desvio de percurso” não desfez o meu sonho, que, a partir de então, transmudou-se na convicção de que um dia seria possível, em algum momento de minha trajetória acadêmica (quiçá profissional), unir as duas áreas de minha predileção. Já no curso de Letras, constato estar certa quanto à possibilidade de entrecruzar os dois domínios do conhecimento, tornando real o que muito antes havia almejado. A primeira chance aparece sob a forma da área da Linguística Aplicada (LA). Ao compreender os tópicos do referido campo, descubro inúmeros caminhos de realização do que me havia proposto; afinal, a LA, por sua própria natureza, assume um caráter inter/multidisciplinar ou mesmo trans/interdisciplinar (MOITA LOPES, 2009; ROJO, 2013), sendo, por isso, a via de acesso ideal às mais diversas áreas do saber. E foi também como aluna regular do curso de Letras que tomei conhecimento da existência do Programa Xeque-Mate (cursando, por opção consciente no que dizia respeito às pretensões para o futuro, a disciplina Tópicos Avançados em TV, que era ofertada aos alunos de Comunicação Social), do qual participei como membro da equipe de produção, assumindo o papel de entrevistadora em uma das edições do referido programa. Como se pode ver, o caminho fora delineado; o propósito estava bem ao alcance, faltando apenas investir na concretização do sonho. É exatamente o que ora fazemos por meio deste estudo (situado na área da Linguística Aplicada – também conhecida como LA –), que busca construir as identidades do Programa Xeque-Mate, com base nos discursos de alunos de Comunicação Social da UFRN que participaram desse programa. E vale ressalvar o fato de que, no conjunto desses sujeitos, interessam para esta pesquisa tão-somente aqueles que, efetivamente, participaram do programa (afinal não é uma atividade obrigatória para o curso de Comunicação Social) porque de seus discursos serão derivados os dados a partir dos quais se poderá construir o que ora se propõe neste percurso investigativo. Assumindo essa perspectiva, torna-se necessário conhecer (caracterizar) os alunos dos cursos de Jornalismo e Radialismo da UFRN para poder, assim, estabelecer relações entre.
(16) 13. esses aprendizes e o Programa Xeque-Mate. As identidades do programa, por sua vez, vão sendo construídas à medida que os sujeitos que vivenciaram diversas práticas sociais durante a produção, vão revelando o impacto provocado pelo programa em sua formação. Partindo das considerações apresentadas, e já tendo evidenciado o nosso objeto de estudo – a construção de identidades culturais atribuídas ao Programa Xeque-Mate −, dirigimos nossa atenção aos discursos dos aprendizes sobre o mencionado programa, na tentativa de interpretar os sentidos por meio dos quais poderemos registrar as práticas sociais vivenciadas por esses sujeitos no curso dessa experiência. Visando ao alcance desse propósito, orientamos nosso percurso investigativo pelas seguintes questões de pesquisa: 1. Quais identidades culturais são atribuídas ao Programa Xeque-Mate pelos alunos do curso de Comunicação Social da UFRN? 2. Que relações dialógicas podem ser estabelecidas entre essas identidades? Em busca de respostas a essas questões, propomo-nos como objetivos: 1. Investigar as identidades culturais atribuídas ao Programa Xeque-Mate a partir da análise dos discursos de alunos do curso de Comunicação Social da UFRN; 2. Analisar as relações dialógicas entre as identidades culturais atribuídas ao Programa Xeque-Mate. Na construção do aparato teórico-metodológico, fizemos ancoragem no paradigma qualitativo-interpretativista. A opção por esse modelo justifica-se por duas razões: a pesquisa qualitativa vai muito além dos números e de dados delimitados, uma vez que abrange sujeitos reais, pertencentes a uma sociedade real; a pesquisa interpretativista leva-nos a análises minuciosas da sociedade. E ainda em reforço à pertinência dessa escolha, apoiamo-nos na ponderação de Moita Lopes (1994, p. 331), que assim avalia: “Na posição interpretativista, não é possível ignorar a visão dos participantes do mundo social caso se pretenda investigá-lo, já que é esta que o determina; o mundo social é tomado como existindo na dependência do homem” (MOITA LOPES, 1994, p. 331). As ciências humanas estão interessadas em estudar os seres humanos sob o ângulo de sua vida em sociedade, enquanto a cultura molda os seres humanos; em decorrência, assim como os sistemas de significações da ordem social são modificados, as práticas culturais também o são. E como toda prática social tem um significado, um valor, assume, por tal particularidade, uma dimensão cultural e uma construção discursiva. É bem na confluência dessas considerações que a pós-modernidade vem colocando em destaque questões que antes não eram discutidas na academia, nas escolas, e nem mesmo na mídia, a exemplo de temáticas.
(17) 14. como as novas subjetividades, as identidades múltiplas e as transformações da vida local e cotidiana, ora sob a mira dos pesquisadores. Nossa investigação faz parte dessa nova colheita. Assim configurada, esta dissertação – a fim de alcançar seu propósito investigativo – estrutura-se em cinco capítulos. Neste capítulo inicial, Primeiras cenas do programa, procuramos definir o objeto de estudo, o problema de pesquisa, a justificativa da escolha do tema, as questões orientadoras da pesquisa, os objetivos e a ancoragem teórico-metodológica da investigação. No segundo capítulo, Para compor o cenário: linguagem e identidade, apresentaremos a fundamentação teórica que norteia esta pesquisa, destacando a concepção de linguagem do Círculo de Bakhtin e os conceitos relativos à identidade cultural com base em Hall; por fim, apresentaremos o estado da arte. No terceiro capítulo, Reunião de pauta: o que e como fazer?, relataremos como a pesquisa foi realizada, apresentando informações sobre o curso de Comunicação Social da UFRN, sobre o Programa Xeque-Mate e a TV Universitária, bem como os passos para proceder à investigação, tomando como ponto de partida a pesquisapiloto, e a elaboração do questionário que subsidiou nossa investigação. No quarto capítulo, O programa está no ar: construções identitárias em análise, serão apresentadas as análises dos questionários respondidos pelos alunos, subsidiadas pelas seguintes categorias de análise: a carreira profissional, as experiências vivenciadas, o componente curricular, a união entre teoria e prática e a rotina televisiva. No último capítulo, Finalizando as gravações: vida longa ao Xeque-Mate!, discutiremos os resultados e a relevância desta pesquisa para os estudos da linguagem, para os estudos da mídia, e, sobretudo, para a Universidade Federal do Rio Grande do Norte..
(18) 15. 2 PARA COMPOR O CENÁRIO: LINGUAGEM E IDENTIDADE. Neste capítulo, que está dividido em três partes, apresentaremos as reflexões a respeito das concepções de linguagem e de identidade que norteiam este estudo. Na primeira parte, trataremos da linguagem, de acordo com a concepção dialógica emergente do Círculo de Bakhtin. A linguagem é social, ideológica, viva e transita no nosso território e no território dos outros. Os mais diversos campos da atividade humana interligam-se via linguagem. No curso desta abordagem, contemplamos uma forma de linguagem que perpassa as relações sociointeracionais e transita entre as esferas acadêmica e midiática, uma vez que os discursos a serem analisados emergem de acadêmicos do curso de Comunicação Social da UFRN. Na segunda parte, fundamentaremos as questões identitárias, fazendo ancoragem nos estudos culturais. Por fim, na terceira parte, em que discorreremos sobre o estado da arte, faremos o registro de pesquisas já realizadas sobre temáticas correlacionadas com o nosso objeto de estudo.. 2.1 O CÍRCULO DE BAKHTIN E A CONCEPÇÃO DIALÓGICA DA LINGUAGEM. O Círculo de Bakhtin tem como principais nomes Mikhail M. Bakhtin, Valentin N. Voloshinov e Pavel N. Medvedev. Os textos produzidos e publicados pelos três autores são uma rica fonte para compreender os estudos linguísticos. Bakhtin, o grande destaque do Círculo, foi, segundo Faraco (2009, p. 14), “talvez um dos mais importantes [filósofos] do século XX, embora seu ostracismo por mais de trinta anos tenha impedido a circulação e o debate de suas ideias até praticamente a década de 1970”. Alguns de seus textos configuramse como manuscritos inacabados, ainda que sejam estes plenos de ideias; algumas delas soam bem elaboradas, enquanto outras parecem em processo mesmo de construção. Não obstante, todas elas se mostram promissoras, porque se fazem incitadoras de reflexão. E apesar de se fazerem tais constatações, suas obras se abrem à leitura e à discussão. Aliás, é exatamente isso que vem sendo feito em muitas universidades ao redor do mundo. Bakhtin e Voloshinov foram os pensadores do Círculo que escreveram mais explicitamente sobre linguagem. Seus pensamentos, porém, não estão reunidos num único texto, uma vez que os debates ocorreram durante a segunda metade da década de 1920. Os autores consideravam importante “perceber a linguagem para além de uma concepção apenas formal, dimensionando-a nas relações sociointeracionais” (FARACO, 2009, p. 102)..
(19) 16. O Círculo entende que a realidade fundamental da linguagem está ligada ao fenômeno social da interação verbal. Nesse sentido, a linguagem está sempre em atividade, pois faz parte de um conjunto de práticas socioculturais, que se concretizam em gêneros do discurso e estão atravessadas por diferentes vozes sociais. Considerando a questão das práticas socioculturais, um dos primeiros pontos que julgamos pertinente trazer à pauta de discussões é a distinção entre o “mundo da cultura” e o “mundo da vida”. “O ponto de partida de Bakhtin é uma visita ao mundo da cultura de seu tempo, entendido como o mundo da produção do conhecimento e da produção artística, o domínio por excelência das atividades cognitivas e estéticas” (OLIVEIRA, 2011, p. 40). Neste trabalho, em contrapartida, destacamos a produção do conhecimento no mundo da vida, pois é nele que os atores sociais agem, dialogam e vivem. Oliveira (2009, p. 4) define o mundo da vida. [...] como aquele no qual habita o ser humano concreto, em sua singularidade, é o mundo no qual se encontram sujeitos que, ao agir posicionadamente, transformam os valores, construídos socialmente na história dos seres humanos, a partir das múltiplas esferas da criação ideológica − da ciência, da religião, do senso comum, da arte, da escola e da mídia (hoje, fundamentalmente), entre outras −, em um dever ser para si, orientador do seu agir [...] teorias que pretendem descrever, explicar e traçar orientações para esse mundo deveriam tomar como ponto de partida os atos concretos nele realizados, pelos sujeitos éticos, em sua existência concreta e singular, inseparáveis dos atos que executam .. O sujeito que age no mundo da vida é o que Bakhtin (1998, p. 134) chama de homem no romance; “o homem no romance é essencialmente o homem que fala; o romance necessita de falantes que lhe tragam seu discurso original, sua linguagem”. Esse sujeito é um homem essencialmente social, historicamente concreto e definido, e seu discurso é uma linguagem social. Ele não vive isoladamente; pelo contrário, ele precisa interagir socialmente com outros sujeitos, a fim de que haja materialização da linguagem. Esses sujeitos estão envolvidos nos mais diversos eventos interacionais, transitando entre as múltiplas esferas do cotidiano. Sobre a constituição de tais sujeitos, Faraco (2009, p. 121) assim se posiciona:. Os sujeitos que se envolvem nessas relações dialógicas não são entes autônomos e pré-sociais, mas indivíduos socialmente organizados. Isso significa dizer que os sujeitos se definem como feixes de relações sociais: constituem-se e vivem nestes feixes que são múltiplos, não fixos e nunca totalmente coincidentes de pessoa a pessoa (ainda que membros de um mesmo grupo social). Os sujeitos são, portanto, seres marcados por profunda e tensa heterogeneidade..
(20) 17. A linguagem é produzida nessas relações com o outro, com o mundo da vida (mundo concreto), através do enunciado; afinal, “cada enunciado é um elo na corrente complexamente organizada de outros enunciados” (BAKHTIN, 2011, p. 272). Os centros de valores constroem-se na relação (inter-relação) que se estabelece entre o eu e o tu (interlocutores no mundo da vida). Entendemos, portanto, o enunciado como unidade da comunicação discursiva, essencial para o funcionamento da língua, para o estabelecimento de diálogos, para o processo da interlocução. O enunciado manifesta-se como uma resposta aos discursos já ditos, e faz parte da comunicação verbal. Nesse momento de interação, o sujeito constitui-se como realizador de atos éticos em suas relações sociais. Para Oliveira (2011, p. 42),. qualquer investigação ou formulação teórica que pretenda dar conta da existência do ser em sua complexidade e que pretenda apresentar orientações práticas para o mundo da vida teria como ponto de partida o ato ético, definido como a ação humana concreta, responsável e posicionada.. O ato ético possui uma origem, uma motivação, e é pela linguagem que o sujeito o realiza, por meio dos signos e das palavras. A produção de atos éticos, intermediados pela linguagem, permite que os sujeitos se reconheçam e sejam reconhecidos. De acordo com Oliveira (2009, p. 6), “encontramos aí a ideia de que o ser humano é um ser de ação, uma ação sempre valorada, e de que essa ação, ao mesmo tempo em que o constitui, possibilita seu reconhecimento como sujeito”. Observando-se o uso da palavra nos mais diversos contextos da vida, não há como desperceber o óbvio: a enunciação é de natureza social. Segundo Bakhtin/Volochinov (1992, p. 112), a enunciação deve ser entendida como “o produto da interação de dois indivíduos socialmente organizados, e mesmo que não haja um interlocutor real, este pode ser substituído pelo representante médio do grupo social ao qual pertence o locutor”. A palavra é, portanto, fundamental para que haja esse diálogo entre locutor e interlocutor; sem a intermediação desta, os discursos ficam comprometidos. A compreensão dos discursos por uma orientação dialógica, no interior da cultura e da história é resultado da compreensão de discursos de outrem, de discursos alheios. O discurso concreto é a enunciação, a qual, para alcançar sua plena realização, requer a presença de um locutor e de um interlocutor, situados em um momento social e histórico do acontecimento em devir. Para uma definição de discurso, apropriamo-nos das palavras de Bakhtin (1998, p. 8889):.
(21) 18. O discurso nasce no diálogo como sua réplica viva, forma-se na mútua-orientação dialógica do discurso de outrem no interior do objeto. A concepção que o discurso tem de seu objeto é dialógica. Mas a dialogicidade interna do discurso não se esgota nisso. Nem apenas no objeto ela encontra o discurso alheio. Todo discurso é orientado para a resposta e ele não pode esquivar-se à influência profunda do discurso da resposta antecipada.. Bakhtin (2011) concebe a linguagem como uma atividade sociointeracional, havendo uma estreita relação entre os tipos de enunciados (gêneros) e suas funções na interação socioverbal. Para o autor, todas as formas de atividade humana estão sempre relacionadas com a utilização da linguagem. Na concepção bakhtiniana, “a linguagem não é estudada como um sistema de categorias gramaticais abstratas, mas como uma realidade axiologicamente saturada; não como um ente gramatical homogêneo, mas como um fenômeno sempre estratificado” (FARACO, 2009, p. 56). Sob essa ótica, o sujeito que produz os discursos é um homem essencialmente social, historicamente concreto e definido. É preciso, contudo, esclarecer o fato de que a língua, na medida em que é pensada sócio-historicamente, deve, necessariamente, tomar uma forma física para que seja compreendida nessas várias relações sociais que a pressupõem. Essa materialização dá-se por meio dos textos, que se manifestam nas mais variadas esferas da atividade humana sob a forma de gêneros discursivos. Os gêneros discursivos têm ganhado muito destaque nas pesquisas que versam sobre a linguagem, por se tratar de um campo que abrange os textos que utilizamos diariamente como meio de comunicação. E esse prestígio justifica-se em razão de estarem estes diretamente relacionados a diferentes situações sociais; e por serem enunciados produzidos em todas as esferas da atividade humana. Em qualquer circunstância, estão inteiramente condicionados às situações de uso da linguagem: “os enunciados e seus tipos, isto é, os gêneros discursivos, são correias de transmissão entre a história da sociedade e a história da linguagem” (BAKHTIN, 2011, p. 268). Temos, então, uma visão de enunciado como unidade real da comunicação discursiva, sem o qual, não é possível existir a comunicação, ou melhor, as relações humanas. E vale sublinhar que a “significação dos enunciados tem sempre uma dimensão avaliativa, expressa sempre um posicionamento social valorativo” (FARACO, 2009, p. 47). Senão vejamos: agimos e reagimos pela língua; todas as nossas produções linguístico-discursivas refletem quem somos e refratam a nossa forma de conceber o mundo; sendo assim, a língua não passa de um conjunto de vozes sociais em conflito. Nesse sentido, cada enunciado se configurará como resposta a um enunciado anterior, dando à língua um caráter dialógico. Essa.
(22) 19. dialogicidade, segundo Faraco (2009, p. 59-60), apresenta-se em três dimensões: a) todo dizer não pode deixar de se orientar para o “já dito”; b) todo dizer é orientado para a resposta; c) todo dizer é internamente dialogizado. E para uma compreensão mais completa, cabe ainda lembrar o fato de que o gênero discursivo caracteriza-se por seu conteúdo temático, por seu estilo e por sua construção composicional. O conteúdo temático compreende as escolhas e propósitos comunicativos do autor sobre a temática abordada; o estilo diz respeito ao modo de apresentação do conteúdo, de acordo com o auditório social (recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais); a estrutura composicional concerne à estruturação e ao aspecto formal do gênero. Importa, além disso, saber que cada campo da atividade humana (tal como o campo da comunicação social) possui características distintas, e que há uma diversidade de enunciados surgindo nesses variados campos. Como nos instrui Bakhtin (2011, p. 272), “cada enunciado é um elo na corrente complexamente organizada de outros enunciados”; sendo assim, ele pressupõe uma alternância dos sujeitos do discurso e uma conclusibilidade, para que possa ser respondido. E essa resposta, certamente, pressupõe a existência de um ouvinte, razão por que se considera fundamental a interação entre o “eu” e o “outro”. Conforme Bakhtin (2011, p. 271), “toda compreensão da fala viva, do enunciado vivo é de natureza ativamente responsiva (embora o grau desse ativismo seja bastante diverso); toda compreensão é prenhe de resposta, e nessa ou naquela forma a gera obrigatoriamente: o ouvinte se torna falante”. Nesse sentido, cada enunciado possui uma singularidade; é um evento único e irrepetível; e os sujeitos que participam desse evento são seres socialmente organizados e se manifestam em relações dialógicas: “relações de sentido que se estabelecem entre enunciados” (FARACO, 2009, p. 65). Assumindo essa perspectiva, admitimos ser impossível compreender o “outro” senão considerando as suas vivências em um tempo e espaço; afinal, estamos diante de um sujeito socialmente constituído. Além de tudo, a interação não se reduz ao encontro de sujeitos isolados e autossuficientes, sem uma delimitação no espaço e no tempo. Caminhando nessa direção, parece-nos relevante imprimir à categoria tempo o valor que lhe é devido neste ponto da abordagem:. O tempo, para Bakhtin, é pluralidade de visões de mundo: tanto na experiência como na criação, manifesta-se como um conjunto de simultaneidades. A pluralidade de que fala Bakhtin só pode ser apreendida no grande tempo das culturas e das civilizações, quer dizer, no espaço. Eis a síntese teórica que orientou sua abordagem da narrativa como modelo artístico de temporalidades (MACHADO, 1998, p. 35)..
(23) 20. Em seus estudos, ao nomear a categoria que evidencia as relações temporais e espaciais como cronotopo, Bakhtin (1998) apresenta diversos tipos de cronotopos: o cronotopo do encontro, o da estrada, o da sala, o do caminho, levando-nos a fazer a seguinte reflexão:. No que reside os significados dos cronotopos analisados por nós? Em primeiro lugar, é evidente seu significado temático. Eles são os centros organizadores dos principais acontecimentos temáticos do romance. É nos cronotopos que os nós do enredo são feitos e desfeitos. Pode-se dizer que a eles pertence o significado principal gerador do enredo (BAKHTIN, 1998, p. 355).. Em deriva do pensamento bakhtiniano sobre a categoria cronotopos, outros discursos manifestaram-se com ajustes esclarecedores:. Quanto ao conceito de cronotopos, este traz no nome um maior equilíbrio entre as dimensões de espaço e de tempo. Bakhtin toma-o emprestado à matemática e à teoria da relatividade de Einstein para exprimir a indissolubilidade da relação entre o espaço e o tempo, sendo este último definido como a quarta dimensão do primeiro (AMORIM, 2006, p. 102).. A relação entre o espaço e o tempo pode ser compreendida, nesta investigação, a partir do momento em que os sujeitos de pesquisa estabelecem uma relação dialógica entre si, e com a pesquisadora. A definição das categorias de análise mostra como os cronotopos são importantes para a construção da identidade do Programa Xeque-Mate, uma vez que as mudanças na estrutura do programa ao longo do tempo geram novos cronotopos e, consequentemente, novas identidades. O conceito de cronotopo, portanto, está ligado aos sujeitos participantes do programa:. Operar com esse conceito, advindo das abordagens do texto literário construídas por Bakhtin ao longo de sua obra, implica pensar as relações tempo-espaço como constituivas das interações e como construções de linguagem. Pensado dessa forma, o cronotopo não pode ser retirado das relações dialógicas e do axiológico sob o risco de se tornar apenas e tão-somente uma referência a um determinado espaço e a um tempo específico, concebido como exteriores ao indivíduo, não constituinte e constitutivo do sujeito histórico em sua eventicidade como fora pensado por Bakhtin (CASADO ALVES, 2009, p. 5-6).. É a partir da definição de cronotopo que podemos analisar o tempo concreto, os acontecimentos, o tempo da vida humana, o tempo histórico, os espaços. O cronotopo pode ser visto como a “materialização privilegiada do tempo no espaço” (BAKHTIN, 1998, p..
(24) 21. 356). Nessa mesma linha de raciocínio, o autor admite que toda imagem de arte literária é cronotópica. Em termos semelhantes, podemos considerar que as imagens midiáticas também são cronotópicas, uma vez que a linguagem é essencialmente construída nas relações espaciais e temporais. Neste trabalho, vislumbramos o programa Xeque-Mate como o cronotopo em que se gestam as práticas essenciais para a formação do comunicador. Essa categoria pode ser visualizada no corpus a ser apresentado posteriormente. Por ora, cabe-nos registrar o fato de que o programa, à medida que se reformulava, por meio da mudança dos professores e da sistemática, apresentava novos cronotopos. A título de exemplificação antecipada, parece-nos possível estabelecer, de forma didática, dois cronotopos: os alunos com matrícula inativa (os egressos) compõem o primeiro cronotopo e os alunos com matrícula ativa (aqueles que ainda possuem vínculo com a UFRN) compõem o segundo cronotopo. Esses dois primeiros cronotopos podem ser visualizados nos questionários respondidos pelos alunos, em que se registram seus discursos, os quais se vão modificando, em função do tempo correspondente à participação de cada um. Ou seja: os alunos egressos participaram de fases produtivas do Programa Xeque-Mate, por isso seus discursos revelam experiências relevantes vivenciadas no decorrer de sua participação; já os alunos com matrícula ativa, cuja participação deu-se em tempo mais recente, enfrentaram dificuldades, vivenciaram momentos mais críticos da trajetória do Xeque-Mate. Assim, em sendo os tempos e os espaços modificados, mudam-se, em consequência, os discursos dos sujeitos “alocados” nesse tempo e nesse espaço. Para poder construir as temporalidades e as espacialidades, os sujeitos, de acordo com a perspectiva dialógica, caracterizam-se como heteroglóticos (plurilíngues, pluridiscursivos, pluriestilísticos) e, na relação com outros sujeitos, a materialização verbal dos seus discursos pode ser compreendida como vozes sociais, que “são uma espécie de tecido em que se entrelaçam palavras e valores; são conjuntos difusos de visões de mundo (sistemas sociais de crenças) e elementos verbais” (FARACO, 1998, p. 165). As vozes sociais dos alunos do curso de Comunicação Social da UFRN que participaram do programa Xeque-Mate representam o grupo social de que eles fizeram parte; trata-se, portanto, de uma linguagem de grupo e não de um dialeto individual. Assim sendo, compreender as vozes sociais dos alunos foi extremamente importante para compreender quem eram os sujeitos envolvidos com o programa. Bem em sintonia com o alerta que nos faz Bakhtin (2015, p. 127):. Não se pode representar adequadamente o universo ideológico do outro sem permitir que ele mesmo ressoe, sem revelar sua própria palavra. Pois só a sua própria palavra.
(25) 22. pode ser efetivamente adequada para representar o universo ideológico original, embora não seja a palavra sozinha, mas unida ao discurso do autor.. A dinâmica em que esses alunos estavam inseridos e as relações dialógicas entre as diferentes vozes sociais leva-nos a pensar nas esferas da produção ideológica (ciência, literatura, jornalismo, religião etc.). O conceito de esfera da comunicação discursiva está presente na obra do Círculo, de Bakhtin e dos demais pesquisadores: “o Círculo desenvolve o conceito de esfera para explicar a natureza e as especificidades das produções literárias” (GRILLO, 2006, p. 142). Para além disso, a natureza social da linguagem permite-nos compreender a esfera como um espaço de constituição e existência da língua, que norteia alguns aspectos da linguagem verbal humana: “as esferas são determinantes para a compreensão da presença e do tratamento dado à palavra alheia” (GRILLO, 2006, p. 145). Sendo assim, os discursos do comunicador social em formação unem elementos da esfera acadêmica e da esfera jornalística, uma vez que esse sujeito transita entre essas duas esferas no decurso de sua formação. Nas palavras de Grillo (2006, p. 147), o esclarecimento necessário:. O campo/esfera é um espaço de refração que condiciona a relação enunciado/objeto do sentido, enunciado/enunciado, enunciado/co-enunciadores. Em sínese, verificamos que a noção de campo/esfera está presente em toda a obra do Círculo de Bakhtin. Ela se constitui em importante alternativa para pensar as especificidades das produções ideológicas (obras literárias, artigos científicos, reportagens de jornal, livro didático, etc.), sem cair na visão imanente da obra de arte do formalismo nem no determinismo do marxismo ortodoxo. As esferas dão conta da realidade plural da atividade humana ao mesmo tempo que se assentam sobre o terreno comum da linguagem verbal humana. Essa diversidade é condicionadora do modo de apreensão e transmissão do discurso alheio, bem como da caracterização dos enunciados e de seus gêneros.. Parece-nos interessante ressalvar o fato de que o termo esfera, em regime cambiante, pode, em algumas ocasiões, ser substituído por seu correlato campo; mesmo assim se percebe uma preferência por esse termo (esfera), em se tratando das obras do Círculo. É também tomando como ponto de referência as obras do Círculo que podemos situar os sujeitos de pesquisa historicamente, uma vez que vivemos em um mundo de linguagens, signos e significações, reflexo das nossas relações com o outro. Na nossa visão, não é interessante produzir conhecimento desvinculado da sociedade, do sujeito, das enunciações, pois tudo o que falamos e o que vivemos faz parte da interação verbal. Sendo assim, adotar a concepção dialógica da linguagem do Círculo de Bakhtin é entender a vida cotidiana e as suas.
(26) 23. implicações para os sujeitos sociais, o que é bastante relevante para nós como pesquisadores no campo das Ciências Humanas.. 2.2 IDENTIDADE CULTURAL. Com a pretensão de discutir as identidades do programa Xeque-Mate a partir dos discursos de alunos do curso de Comunicação Social da UFRN, incluiremos, neste trabalho, visões de autores que se dedicaram aos estudos sobre a identidade cultural. São trabalhos situados no que se configura hoje como estudos culturais, “uma tendência importante da crítica cultural que questiona o estabelecimento de hierarquias entre formas e práticas culturais, estabelecidas a partir de oposições como cultura ‘alta’ ou ‘superior’ e ‘baixa’ ou ‘inferior’” (ESCOSTEGUY, 2001, p. 13). As pesquisas que contemplam os estudos culturais mostram que se trata de uma área vasta, fragmentada e inter/trans ou antidisciplinar, e incluem análises sobre diversos eixos teóricos, como, por exemplo, “as relações entre cultura e ideologia; a opção pela análise da cultura popular; e a construção de identidades culturais contemporâneas mediadas, intensamente, pelos meios de comunicação” (ESCOSTEGUY, 2001, p. 14). Ainda sobre a abrangência dos estudos culturais, Faria (2007, p. 26) constata:. A temática central dos estudos culturais contemporâneos contempla o processo de formação das identidades culturais, baseado na fragmentação e no deslocamento das identidades modernas. Estudam-se as identidades de classe, de gênero, de sexualidade, de etnia, de raça e de nacionalidade, além de suas características, de suas implicações e de suas prováveis consequências.. Como a identidade é um dos eixos centrais das pesquisas dos estudos culturais, entendemos ser necessário discorrer sobre as significações desse termo e sobre a relevância da temática para as práticas discursivas, considerando o fato de que “as identidades construídas nas práticas discursivas da linguagem em uso assumem sua natureza de base sócio-histórica e cultural” (FARIA, 2007, p. 28). Elas podem ser observadas a partir de diferentes prismas. As identidades individuais estão estritamente vinculadas às identidades coletivas, e isso se dá em uma rede cultural. Ao falar de “cultura”, inserimo-nos em um terreno repleto de imprecisões; afinal, existem inúmeras maneiras de defini-la, posto que todos os homens, em todas as sociedades e em todos os tempos, produzem cultura. É possível dizer, por exemplo, que “a cultura abarca o conjunto dos processos sociais de significação ou, de um modo mais complexo, a cultura.
(27) 24. abarca o conjunto de processos sociais de produção, circulação e consumo da significação na vida social” (CANCLINI, 2009, p. 41, grifos do autor). Partindo da visão de alguns autores, que definem cultura como um conjunto de significados partilhados, e sabendo que esses significados possuem sentido através da linguagem, remetemo-nos ao conceito de representação, que consiste na produção de significados2 por meio da linguagem. Também vale sublinhar que a multiplicidade de significações permite-nos compreender as mais diversas situações concretas: somos nós que estabelecemos os significados no mundo da vida; somos sujeitos culturais. As identidades, portanto, não nascem acabadas; pelo contrário, elas são construídas e reconstruídas por meio da representação (FARIA, 2007). Retomando a discussão acerca da identidade, não podemos deixar sem registro o fato de que se trata de uma temática bem presente na história social. Ela não é unificada e nem estável; vem-se fragmentando cada vez mais, e não aparece sempre da mesma maneira. Sob tal perspectiva, o sujeito pós-moderno pode ser caracterizado como não tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente. Pode-se até mesmo visualizar a identidade, sem incorrer em exagero, como uma “celebração móvel”.. Em toda parte, estão emergindo identidades culturais que não são fixas, mas que estão suspensas, em transição, entre diferentes posições; que retiram seus discursos, ao mesmo tempo, de diferentes tradições culturais; e que são o produto desses complicados cruzamentos e misturas culturais que são cada vez mais comuns num mundo globalizado (HALL, 2015, p. 52, grifo do autor).. Justamente pelo fato de as identidades serem múltiplas e estarem sempre em processo de construção é que não podemos assegurar os limites da identidade de um sujeito. No entanto, vale ressaltar a existência de diferentes maneiras de classificá-la: a identidade pessoal e a identidade coletiva, por exemplo, ligadas a sistemas culturais específicos. Mas é preciso esclarecer que “não é possível vivenciar uma identidade cultural específica se esta não for incorporada à identidade pessoal de cada agente social” (ROSA, 2008, p. 2).. 2. Bakhtin/Volochinov (1992) apresenta uma distinção entre significado e sentido: “Um sentido definido e único, uma significação unitária, é uma propriedade que pertence a cada enunciação como um todo. Vamos chamar o sentido da enunciação completa o seu tema. O tema deve ser único. Caso contrário, não teríamos nenhuma base para definir a enunciação. O tema da enunciação é, na verdade, assim como a própria enunciação, individual e reiterável” (p. 128). O autor ainda esclarece: “Além do tema, ou, mais exatamente, no interior dele, a enunciação é igualmente dotada de uma significação. Por significação, diferentemente do tema, entendemos os elementos da enunciação que são reiteráveis e idênticos cada vez que são repetidos” (p. 129)..
(28) 25. Já sabemos que as identidades são sempre múltiplas no tempo e no espaço e, segundo Hall (2015, p. 40), temos a ciência de que “o tempo e o espaço são também as coordenadas básicas de todos os sistemas de representação”. Sendo assim, não há dúvidas quanto ao fato de que as representações traduzem os objetos em dimensões espaciais e temporais. E como a identidade está profundamente vinculada ao conceito de representação, “todas as identidades estão localizadas no espaço e no tempo simbólico” (HALL, 2015, p. 41). É importante destacar a compressão do espaço-tempo e da identidade, justamente porque consideramos o Programa Xeque-Mate como um evento histórico, situado em um contexto espacial e temporal. Para Hall (2015), “o ‘lugar’ é específico, concreto, conhecido, familiar, delimitado: o ponto de práticas sociais específicas que nos moldaram e nos formaram e com as quais nossas identidades estão estreitamente ligadas” (Hall, 2015, p. 41, grifo do autor). Ancorandonos nessa definição, compreendemos que a identidade do Xeque-Mate também pode ser constituída como um lugar em que as práticas sociais ocorrem, sendo as identidades reveladas nos discursos dos alunos, que falam sobre as suas múltiplas experiências no programa. Ainda sobre a questão tempo-espaço, Faria (2007, p. 43) tece algumas considerações:. Toda narrativa representa os eventos numa sequência temporal, onde figuram começo, meio e fim. Nesse contexto, inserem-se a escrita, a pintura, o desenho, enfim, todas as manifestações artístico-culturais de um determinado período. Inserese também a poesia, que opera como um discurso que define um modo característico de vida, que adquire significado em função do campo social ao qual se incorpora. As práticas sociais são determinadas historicamente; e a partir delas se constroem os discursos (dentre eles, o discurso poético) que refletem a construção das identidades de um povo.. O conceito de identidade, pensado num contexto sócio-histórico, também pode ser compreendido na relação entre o eu e o outro, uma vez que as identidades mudam à medida que os sujeitos se relacionam. Hall (2015) acredita que as velhas identidades estão em declínio, surgindo, nesse processo, novas identidades do homem moderno. Na percepção do autor,. o próprio conceito com o qual estamos lidando, "identidade", é demasiadamente complexo, muito pouco desenvolvido e muito pouco compreendido na ciência social contemporânea para ser definitivamente posto à prova. Como ocorre com muitos outros fenômenos sociais, é impossível oferecer afirmações conclusivas ou fazer julgamentos seguros sobre as alegações e proposições teóricas que estão sendo apresentadas (HALL, 2015, p. 8, grifo do autor)..
(29) 26. Sobre as identidades, podemos dizer que elas “adquirem sentido por meio da linguagem e dos sistemas simbólicos pelos quais elas são representadas” (WOODWARD, 2014, p. 8). A identidade é relacional e marcada pela diferença, que, por sua vez, é sustentada pela exclusão. E porque é marcada por meio de símbolos, a identidade é também simbólica e social. Em síntese, podemos caracterizá-la como relacional, social, simbólica e histórica. Para além de tudo isso, não nos cabe esquecer que ela é fundamental para a compreensão do sujeito e de suas complexidades. As sociedades multiculturais são compostas por diversos grupos, e as identidades específicas de um grupo ou de comunidade não são afirmadas de modo absoluto; elas sempre consideram os outros, ou seja,. o significado/identidade de cada conceito é constituído(a) em relação a todos os demais conceitos do sistema em cujos termos ele significa. Uma identidade cultural particular não pode ser definida apenas por sua presença positiva e conteúdo. Todos os termos da identidade dependem do estabelecimento de limites – definindo o que são em relação ao que não são (HALL, 2003, p. 85).. A caracterização das identidades é historicamente específica, isto é, ao analisar identidades estabelecidas no passado, podemos visualizar, em contraposição, a produção de novas identidades: “essa redescoberta do passado é parte do processo de construção da identidade que está ocorrendo neste exato momento e que, ao que parece, é caracterizado por conflito, contestação e uma possível crise” (WOODWARD, 2014, p. 12, grifo da autora). Mas existe uma crise de identidade? A autora explica que “‘Identidade’ e ‘crise de identidade’ são palavras e ideias bastante utilizadas atualmente e parecem ser vistas por sociólogos e teóricos como características das sociedades contemporâneas ou da modernidade tardia” (WOODWARD, 2014, p. 20, grifos da autora). Em outras palavras, tais crises de identidade podem ser consideradas como características das sociedades da modernidade tardia, dado o fato de estas vivenciarem períodos de constante mudança. E isso é bem factível, mesmo porque “a complexidade da vida moderna exige que assumamos diferentes identidades, mas essas diferentes identidades podem estar em conflito” (WOODWARD, 2014, p. 32). Como Woodward (2014, p. 39) esclarece, “as identidades são produzidas em momentos particulares no tempo”. Sob tal condicionamento, “as posições que assumimos e com as quais nos identificamos constituem nossas identidades” (WOODWARD, 2014, p. 56). Isso nos soa bem verdadeiro: o ser humano é, essencialmente, inclinado a posicionar-se sobre os mais variados assuntos; e é na emissão de seus pontos de vista que revela a sua identidade..
(30) 27. Sendo inúmeras as formas de manifestação das identidades, nas mais variadas situações da existência humana, parece-nos bem natural o fato de essa temática passar a ocupar a centralidade dos debates no seio da sociedade.. A identidade tem se destacado como uma questão central nas discussões contemporâneas, no contexto das reconstruções globais das identidades nacionais e étnicas e da emergência dos “novos movimentos sociais”, os quais estão preocupados com a reafirmação das identidades pessoais e culturais. Esses processos colocam em questão uma série de certezas tradicionais, dando força ao argumento de que existe uma crise de identidade nas sociedades contemporâneas. A discussão da extensão na qual as identidades são contestadas no mundo contemporâneo nos levou a uma análise da importância da diferença e das oposições na construção de posições de identidade (WOODWARD, 2014, p. 67).. E é justamente por haver tantas discussões envolvendo as identidades que, numa era tão marcada pelas transformações, testemunhamos o ressurgimento de identidades culturais em várias partes do mundo. As sociedades, cada vez mais, afastam-se de seu modo de vida pretérito para viver o inevitável frenesi das mudanças desse “admirável mundo novo”, em que se perdem as referências identitárias em favor da liquidez do momento presente. Essa é exatamente a alma que habita o tempo da “modernidade líquida”. Configura-se, assim, a transformação da modernidade: de uma fase “sólida” a uma fase “líquida”, tão bem definida por Bauman (2011) ao utilizar a expressão “modernidade líquida”: O que torna “líquida” a modernidade, e assim justifica a escolha do nome, é sua “modernização” compulsiva e obsessiva, capaz de impulsionar e intensificar a si mesma, em consequência do que, como ocorre com os líquidos, nenhuma das formas consecutivas de vida social é capaz de manter seu aspecto por muito tempo. “Dissolver tudo o que é sólido” tem sido a característica inata e definidora da forma de vida moderna desde o princípio; mas hoje, ao contrário de ontem, as formas dissolvidas não devem ser substituídas (e não o são) por outras formas sólidas – consideradas “aperfeiçoadas”, no sentido de serem até mais sólidas e “permanentes” que as anteriores, e portanto até mais resistentes à liquefação. No lugar de formas derretidas, e portanto inconstantes, surgem outras, não menos – se não mais – suscetíveis ao derretimento, e portanto também inconstantes (Bauman, 2011, p. 16, grifos do autor).. Ainda sobre a “modernidade líquida”, Bauman (2011, p. 17) acrescenta: “é a arena de uma batalha constante e mortal travada contra todo tipo de paradigma – e, na verdade, contra todos os dispositivos homeostáticos que servem ao conformismo e à rotina, ou seja, que impõem a monotonia e mantêm a previsibilidade”. É nesse tempo líquido-moderno que as identidades vão-se tornando fluidas, permitindo-nos analisar as múltiplas identidades dos sujeitos e das instituições, desfazendo a possibilidade de nos atermos a uma única identidade; mesmo porque o mundo pós-moderno considera as múltiplas identidades existentes..
(31) 28. 2.3 ESTADO DA ARTE. Em uma sociedade cada vez mais marcada pela pluralidade e pela multiplicidade de vozes, em que as práticas discursivas são analisadas sob os mais diversos pontos de vista, entendemos ser necessário estabelecer pontes entre o nosso objeto de estudo e os objetos de estudos de outros pesquisadores, concernentes a áreas de conhecimentos afins (linguagem, mídia, educação). Com esse propósito, empreendemos nossa revisão bibliográfica, visando sempre àquelas obras que, direta ou indiretamente, possam servir de esteio às nossas ideias, quer corroborando nosso já dito, quer fertilizando o desabrochar de novo por dizer. É bem verdade que nos aproximaremos de pesquisas que, tal como a nossa, se ancorem na concepção de linguagem do Círculo de Bakhtin e no conceito de identidade advindo dos Estudos Culturais. Não obstante, pesquisas com perspectivas de estudo baseadas em outras fundamentações teóricas, resguardando-se as suas especificidades, também serão contempladas nesta seção. Consideramos que a orientação dialógica está presente em todos os discursos e que a natureza constitutivamente dialógica da linguagem permeia as mais diversas relações sociais. Sendo assim, não existem pesquisas neutras, desprovidas de valor; nelas se entrecruzam diferentes vozes.. Em todos os seus caminhos até o objeto, em todas as direções, o discurso se encontra com o discurso de outrem e não pode deixar de participar, com ele, de uma interação viva e tensa. Apenas o Adão mítico que chegou com a primeira palavra num mundo virgem, ainda não desacreditado, somente este Adão podia realmente evitar por completo esta mútua-orientação dialógica do discurso alheio para o objeto. Para o discurso humano, concreto e histórico, isso não é possível (BAKHTIN, 1998, p. 88).. Espelhando-nos na reflexão bakhtiniana, e reconhecendo a necessidade de imergir nessa “interação viva e tensa”, bem apropriada à construção do saber, reunimos, nesta revisão bibliográfica, trabalhos de diversos pesquisadores que se dedicaram a estudar temáticas confluentes com a nossa. Primeiramente, apresentaremos trabalhos sobre programas de TV; em seguida, sobre TVs universitárias. E também fazemos o registro de estudos que versam sobre o curso de Comunicação Social e seus alunos; sobre o gênero discursivo entrevista (tendo em conta o fato de o Xeque-Mate ser um programa de entrevistas); e sobre identidade profissional..
(32) 29. 2.3.1 Pesquisas sobre programas de TV. Em pesquisa bem semelhante à que nos propusemos, Torres (2014) investiga as contribuições que o Programa Memória Viva fornece para a construção da memória audiovisual da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Nesse estudo, tal como o fazemos nesta dissertação, em seção intitulada “A TV Universitária – Breve histórico”, o autor reconstrói a trajetória da TVU e analisa programas exibidos por essa emissora. O objetivo, nas duas propostas investigativas, não se coloca diferente: em ambos os casos, revelam-se características históricas dos programas alvos das respectivas investigações. Na visão desse autor, sua pesquisa ganha relevância na seguinte justificativa:. Em um plano local, não se encontrou pesquisas acadêmicas realizadas neste sentido, razão pela qual se propôs a estudar de forma aprofundada a questão, utilizando-se para isto da análise do programa Memória Viva, haja vista o perfil midiático deste programa e a importância deste recorte para que se identifique a construção da memória da universidade, através do depoimento de seus primeiros reitores (TORRES, 2014, p. 11).. Como se evidencia, marca-se aí uma singular diferença entre os dois estudos: na pesquisa de Torres (2014), o programa Memória Viva é analisado sob o ponto de vista dos reitores; no nosso caso, o programa Xeque-Mate é analisado a partir da visão dos alunos, razão pela qual procuramos caracterizar o programa e compreender as suas identidades. Outro trabalho que tem como alvo um programa de TV é o de Veloso (2011). O objetivo dessa pesquisa é investigar as refrações discursivas presentes em algumas edições do programa Roda Viva. Trata-se também de um programa de entrevistas, assim como o programa Xeque-Mate. O propósito investigativo, nesse caso, restringe-se a uma análise diacrônica de algumas edições. Em termos aproximados, também procedemos a uma análise diacrônica do programa Xeque-Mate, uma vez que realizamos várias audições com alunos que participaram de diversas fases do programa. A fundamentação teórica é semelhante à nossa, na medida em que adota, como suporte teórico, a noção bakhtiniana de gênero discursivo e o conceito de voz − “vozes de cientistas e outras vozes na arena do Roda Viva” −, o que entra em consonância com a nossa abordagem, que toma para análise os discursos dos alunos do curso de Comunicação Social. Também se coloca sob o foco de nossa “visão interessada” o estudo de Lopes (2000), que apresenta uma “tendência crescente de dispersão de identidades, poderes e saberes” em.
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